Part 16
—Segue-se que o ministro da guerra ordenou que o general Boulanger soffresse trinta dias de detenção.
Uma voz:
—E depois?
—Depois Boulanger submetteu-se.
Outra voz:
—O que eu admiro é a energia do ministro da guerra!
Muitas vozes:
—Pois isso é que é!
Uma voz:
—Como se chama o ministro da guerra?
—É o general Ferron.
—Velho?
—Decerto.
—Não importa. Ahi está um general que ainda servia para sultão.
A odalisca do _Temps_:
—Ahi mesmo é que eu queria chegar...
Muitas vozes:
—Apoiado! Apoiado!
A discussão entre as mulheres do harem prolongar-se-ia decerto cada vez mais animada e cortada de repetidos incidentes.
Quando porventura se tratou da especie de droga que se devia lançar na taça de café do sultão, é provavel que as opiniões se dividissem,—querendo estas que fosse veneno, querendo aquellas que fosse outra coisa.
Afinal decidiram pelo veneno, allegando talvez alguma odalisca que um sultão retirado difficilmente readquire os seus antigos habitos, seja qual fôr a droga que se lhe propine.
E emquanto as odaliscas conspiravam, é provavel que a favorita, depois de ter enfiado na cabeça do sultão o barrete de algodão branco, e de lhe haver conchegado aos sovacos a roupa da cama, principiasse a cantar-lhe qualquer canção terna que o acalentasse, como por exemplo:
Dorme, que eu vélo, seductora imagem, Grata miragem que no ermo vi!
E o sultão, espirrando:
—Ora esta! Estou constipado!
A favorita:
—Não é nada, meu maridinho. Se queres, mando o primeiro ministro á botica comprar borragens para tomares um suadouro.
—Deixa vêr se isto passa.
—Pois sim. Pois sim...
E cantando:
Dorme, dorme, meu sultão rurú, Canta Mafoma, e dorme tu.
E o sultão, como um bom chefe de familia, apesar de constipado:
—Os pequenos?
—Deixa lá os pequenos, que já estão recolhidos.
—É que, tendo havido hontem um caso de variola no imperio, preciso mandar vaccinal-os.
—Então! snr. meu marido! Deixe lá isso e durma, quando não ralho muito comsigo.
E o sultão, espirrando de novo:
—Atchi! Atchi!
A favorita:
—Queres um lenço?
—Quero. Tira alli da gaveta. Agora, como já não atiro lenço nenhum ás odaliscas, devo ter ahi muitos.
A favorita, fingindo-se zangada:
—Não quero que se torne a lembrar de aguas passadas. Pegue lá o lenço, e cale-se. Vamos, faça óó.
E o sultão:
—Pois sim, mulher, pois sim; vou vêr se durmo.
Ora, francamente, sendo assim, as odaliscas tiveram razão.
Não se é sultão para isto, porque a nobreza obriga, e um sultão, que se prese de o ser, tem deveres a cumprir.
Ouvissem-me as odaliscas agora, e não me faltariam apoiados.
O rei Milan da Servia é que não pensa precisamente como o sultão de Marrocos.
Agora mesmo, que parecia estar a ponto de se reconciliar com a rainha Natalia, uma nova aventura veio de subito carregar de nuvens o ceu conjugal, que promettia tornar-se azul e sereno.
Estão em Pesth duas cantoras de Café-Concerto, mesdemoiselles Morgot e Elisa Roger, duas irmãs.
Por occasião da sua recente passagem em Pesth, o rei Milan da Servia, ouvindo elogiar a belleza das duas «chanteuses», manifestou desejo de as vêr pessoalmente, e, acompanhado do conde Eugenio Zichy, foi visital-as. Um jornal de Pesth, sabendo da visita, alludiu ao caso, em breves palavras, no seu noticiario. O incidente não fizera ruido e estava já esquecido, quando, tres semanas depois, as duas irmãs appareceram subitamente na redacção do jornal e intimaram o redactor indiscreto a dar-lhes explicações. O redactor riu-se e gracejou. Resolveram então intentar um processo,—que sem duvida será picante: o rei Milan e o conde Zichy serão citados a comparecer para testemunhar que a visita que fizeram ás galantes e formosas cantoras foi «pura e simples visita de delicadeza».
A rainha Natalia, que é curiosa de mais para deixar de lêr gazetas, teve naturalmente conhecimento do facto, e, agastando-se de novo, oppoz-se á reconciliação, que parecia estar em bom terreno.
Quando a gente ás vezes começa a pensar sobre as coisas do mundo, pasma de que a Providencia ou o acaso, que tão sabiamente regula a maior parte dos negocios terrenos, tenha de quando em quando desacertos verdadeiramente inexplicaveis.
Ora digam-me uma coisa:
Com quem devia ter casado a rainha Natalia?
Com o rei da Servia decerto não.
Vamos, adivinhem.
Não dizem! Pois digo eu: com o sultão de Marrocos.
E quem deveria ser o sultão de Marrocos?
Agora é facil a resposta.
—Quem deveria ser o sultão de Marrocos era o rei Milan da Servia.
Exactamente.
Porque, sendo assim, nem a rainha Natalia nem as odaliscas do harem tinham razão para protestar—pelo mesmo motivo.
XII
IDYLLIO DE AMOR
Um rei dos paizes do norte, o soberano da peninsula scandinava, veio a Lisboa em maio de 1888, hospedando-se no Paço da Ajuda, que domina, do seu largo ponto de vista, a corrente do Tejo, o bello rio do sul...
Viagem poetica, cheia de encantadoras antitheses por certo, emprehendida por um rei poeta, em cuja familia ainda ha poucos dias fallou com insistencia a Europa inteira a proposito do casamento romantico do duque de Gothland, segundo filho do rei Oscar.
Na familia real da Suecia os principes conservam não só os ideaes cavalheirescos da Idade-média, mas até as alcunhas graciosas dos livros de cavallaria. Assim, o principe Carlos, terceiro filho do rei Oscar, é conhecido pela designação de _principe azul_, por usar sempre um uniforme d'essa côr; e o principe Eugenio, o mais novo dos irmãos, é denominado o _principe vermelho_, em razão dos seus avançados principios liberaes.
Comprehende-se que, dada a influencia do _meio_ geographico, a situação deliciosa da Suecia haja actuado no espirito do principe Oscar para contrahir um casamento que não teve como mobil senão o amor.
Paiz de montanhas e de lagos, de cascatas e de rios, de golfos e de florestas, como que está pondo diante dos nossos olhos a photographia do amor n'aquellas regiões, amor inabalavel como a dureza dos Alpes scandinavos, umas vezes sereno como um lago, outras vezes torrentuoso como uma cascata, resistente como as florestas de pinheiros aos vendavaes gelados, ousado como a onda dos golfos que rasgam, no seu labutar constante, os contornos da peninsula...
Paiz das auroras boreaes, comprehende-se que o coração dos seus habitantes seja de algum modo o espelho onde se reflecte o fogo do ceu.
Stockolmo, a capital que a familia real habita, é, para que assim o digamos, a synthese de toda a bella natureza scandinava. Disposta sobre o lago Mœlar, occupa algumas das mil duzentas e sessenta ilhas que mosqueam toda a feérica superficie do lago. É a Veneza do Norte.
Madame Leonie d'Aunet, a intrepida viajante do Spitzberg, sentiu-se vivamente impressionada pelo aspecto do palacio dos reis da Suecia, uma residencia encantadora onde se comprehende que todos os sonhos da imaginação exaltada possam atear-se.
«O palacio dos reis da Suecia, como a cidade, tira da posição em que se acha situado, entre o mar e o lago, a sua principal belleza. Quadrado, uma das fachadas do palacio domina uma soberba ponte de pedra lançada sobre o Mœlar. Esta ponte, cujo arco central repousa sobre uma pequena ilha transformada em delicioso jardim, é de um aspecto encantador. A architectura do palacio recorda a do Louvre, modificada pelo gosto pesado, sobrio e frio do seculo XVIII; apenas as proporções do conjunto podem ser gabadas sem reserva; a fachada que olha para o mar, precedida de um jardim, ornada de um largo balcão de pedra, é de um bello effeito, sobretudo vista de longe.»
Ahi, d'esse largo balcão de pedra que olha para o mar, diante de um vasto horisonte sem limites, comprehende-se que os principes romanticos da casa real da Suecia enviem o seu pensamento alado a emprehender as viagens mais ousadas e mais audaciosas do amor.
Foi ahi certamente, n'esse largo balcão de pedra que olha para o mar sem limites, que o principe Oscar, duque de Gothland, pensou uma e muitas vezes na enorme difficuldade da empreza que o seu coração namorado tentára.
Mademoiselle de Munck, filha de um antigo official do exercito sueco, era a sua bem amada, e o principe pensava exclusivamente no modo de poder desposal-a, ainda que para isso fosse preciso arremessar ao mar, do alto do largo balcão de pedra, a sua corôa de principe, o seu titulo de duque.
Mas o mar ensinava-o a ser forte, embora, para vencer, tivesse de parecer sereno.
Descendo do seu largo balcão de pedra, o principe Oscar passearia decerto na collina de Mosebakkan, d'onde toda a cidade de Stockolmo se avista a vôo de passaro, e desejaria porventura poder depôr aos pés de Ebba Munck toda essa bella cidade pittoresca como um estranho presente de nupcias.
Se de todo perdesse a esperança de poder realisar o seu sonho de amor, iria porventura refugiar-se na solidão gelada da Noruega, em Hammerfest talvez, a cidade mais septentrional do mundo, a dois passos do cabo Norte, habitando uma d'essas casas exoticas, feitas de troncos de arvore, que os seus habitantes occupam.
Mas todo o aspecto do paiz o enchia de confiança e de estimulo. Os Alpes scandinavos diziam-lhe que fosse inabalavel como elles; as torrentes que fosse impetuoso como ellas; as florestas de pinheiros que as imitasse na firmeza; os golfos que teimasse, a seu exemplo, em vencer os obstaculos. Tanto mais que o principe Oscar sabia que era amado...
Dissera-lh'o Ebba Munck, a quem elle abrira o seu coração.
Era certo que ella fugira da côrte, para evitar o olhar do principe que a dominava, mas amava-o, era amada, eis tudo.
Dama de honor da princeza real da Suecia, fôra outr'ora galanteada, requestada. Um moço official de cavallaria estivera para desposal-a, chegára a fazer-se o enxoval, mas o coração de mademoiselle Munck, por um d'esses presentimentos extraordinarios que se não podem explicar, retirára á ultima hora o seu consentimento.
Não era aquelle o homem que ella devia amar.
Enfastiada da côrte, pensando já talvez no principe Oscar, como no impossivel, quando a obrigaram a voltar a Stockolmo, a sua belleza reapparecêra velada por um veu de dôce melancolia.
Foi então que o principe Oscar fez reparo na belleza de mademoiselle de Munck,—essa belleza triste das violetas.
Mas as almas namoradas, se avançam um passo para o seu ideal, deliciam-se em recuar dois passos, como para se atormentarem deliciosamente.
Ebba Munck fugiu da côrte, talvez com o proposito de não voltar mais.
Fez-se irmã da caridade n'um hospicio de Stockolmo, quiz consagrar a Deus o seu pensamento, mas o amor do principe foi ahi procural-a para adquirir a certeza de que era correspondido.
Uma affirmação categorica, tanto mais desafogada quanto parecia irrealisavel, exaltou a paixão do principe, que desde esse dia não teve senão um unico pensamento: desposar mademoiselle de Munck.
Adivinham-se facilmente as difficuldades que um tal projecto suscitaria a principio.
Mas, á força de insistencia e de pertinacia, os obstaculos foram abrandando, e o tempo acabou por consummar a sua obra.
Do alto do largo balcão de pedra, que olha para o mar sem limites, o principe Oscar, para desposar mademoiselle de Munck, arremessára através do espaço, para o abysmo das aguas, os seus direitos ao throno, os seus titulos de duque e de alteza real, e a pensão annual que lhe era votada pela Dieta.
N'esse dia ficou sendo o mais feliz dos homens, apenas Bernadotte, um official da marinha sueca, simplesmente.
Em março de 1888, celebrava-se o casamento, baseado na declaração authentica que o principe, mezes antes, havia dirigido a seu pai.
«Segundo a constituição, nenhum principe da casa real póde casar, sem consentimento do rei. Como depois d'um exame da minha consciencia me acho penetrado do mais ardente amor por mademoiselle Ebba Henrietta Munck, filha do fallecido coronel Charles Jacques Munck de Tulkila e da sua viuva, _née_ baroneza Coderstrom, e como estou convencido da sua fidelidade ao meu amor, vejo-me obrigado, tanto pelo respeito e dedicação filial, como pela obediencia ás leis, a pedir humildemente o consentimento de vossa magestade, meu augusto pai, á minha união com mademoiselle Munck. Toda a minha felicidade depende d'esse consentimento.
«Por este casamento perco evidentemente, segundo o §. 5.º da lei da successão, para mim e meus descendentes, todo o direito de successão ao throno dos Reinos-Unidos. E como, segundo a minha opinião, não conviria á minha situação futura aproveitar as altas dignidades que me teem sido concedidas na qualidade de principe herdeiro, peço humildemente auctorisação para renunciar não só ao titulo de alteza real e de duque de Gothland, mas tambem, por mim e meus descendentes, a todos os outros privilegios de que tenho gosado, na qualidade de membro da casa real.
«Junto a este humilde pedido o desejo de conservar a minha nacionalidade sueca e de gosar, depois do meu casamento, dos direitos civicos, que pertencem a todo o subdito. Pela vossa benevola auctorisação, sahirei da posição excepcional que constitue, segundo a declaração de vossa magestade ao conselho de estado, inserida no protocolo de 6 de março, a razão que dictou o apanagio dos principes, filhos segundos.
«Considero portanto o apanagio de 26:000 corôas, que a dieta de 1887 me votou, como deixando de existir; renuncio portanto a este apanagio para ser restituido á lista civil.
«Peço igualmente, em virtude do artigo 34.º da Constituição noruegueza, para ser isento de todos os meus deveres de subdito norueguez.
«Stockolmo, 18 de Janeiro de 1888.
_Oscar._»
O rei communicou o pedido do principe Oscar ao conselho de ministros e accrescentou:
«Não attendi ao pedido do meu amado filho, sem madura reflexão. Estando assegurada, segundo todas as apparencias, a successão dos Reinos-Unidos, não hesitei em não impedir a sua felicidade, concedendo-lhe a auctorisação, que me pediu, como seu pai e seu rei.»
Ao casamento de Oscar Bernadotte assistira sua mãi, a rainha da Suecia, Sophia de Nassau, o _principe azul_, _o principe vermelho_, a princeza da Dinamarca e a duqueza de Albany.
N'aquelle dia o _Almanach de Gotha_ perdia um nome, mas a chronica do amor inscrevia mais uma pagina.
E o mundo inteiro fallou d'esse acontecimento ruidoso, que attrahira todas as attenções para a côrte do rei Oscar, o soberano da Scandinavia, que, vindo hospedar-se no Paço real da Ajuda, alongou o seu olhar azul de poeta do norte pela corrente magestosa do Tejo, o bello rio da Europa do sul...
XIII
NA MORTE DO KRONPRINZ
«Apesar dos desmentidos officiosos, a saude da imperatriz da Austria de fórma alguma tem melhorado.
«As crises terriveis a que está sujeita inspiram graves inquietações.
«Segundo o diagnostico já estabelecido, a imperatriz está atacada de «loucura lucida» caracterisada por uma confusão enorme de idéas.
«Está constantemente balouçando uma almofada e pergunta ás pessoas que a rodeiam se o novo Kronprinz é bonito. Depois cae em grande prostração, parecendo de tempos a tempos melhorar para propôr um novo casamento ao imperador.»
Ha nas ultimas linhas d'esta noticia o que quer que seja que faz passar vagamente pelo nosso espirito essa flebil melodia de Meyerbeer, chamada a _valsa da sombra_, da _Dinorah_.
A bella camponeza de Ploermel, julgando que Hoel a abandonára, perde a razão e, faltando-lhe a sua cabrinha branca, unica companhia que lhe restava no mundo, procura-a por entre as moitas floridas até que, suppondo havel-a encontrado, faz menção de acalental-a nos braços, chorando e cantando, n'uma loucura ternissima, emquanto o luar cae do ceu n'uma tristeza saudosa.
Assim a imperatriz da Austria, balouçando a almofada em que imagina vêr adormecido o Kronprinz, que uma catastrophe fulminára, parece cantar, no silencio concentrado d'uma loucura melancolica, a _ombra leggiera_ do filho querido que não mais voltará.
A valsa de Meyerbeer passa certamente soluçando no coração da louca imperatriz.
De mais a mais ella teve sempre o culto da musica, foi a imperatriz que poz em moda, tanto em Pesth como em Vienna, a _zither_, a dôce guitarra rustica dos Alpes tyrolezes.
O seu coração conhece, pois, toda a magia d'essa divina arte capaz de fazer mover as proprias pedras, segundo a tradição mythologica, e porventura esse balsamo celeste, que se chama a musica, tivera o condão de ungir durante algumas semanas as feridas da sua alma, como a harpa de David abrandava as coleras sombrias de Saul.
Mas a loucura em que a razão brilha ainda como um crepusculo explodira finalmente.
A catastrophe que lhe roubára o filho primogenito apunhalára-a na fibra mais delicada de seu coração de mãi.
Apesar das excentricidades que constituem a lenda da imperatriz, o que é certo é que ella foi sempre uma extremosa mãi.
Quando os seus filhos eram pequeninos, ella propria os acalentava no berço, cantando, bailando, beijando-os, atirando o fardo da etiqueta para traz dos moinhos. A imperatriz desapparecia; ficava apenas a mãi.
Quando, com dois annos de idade, lhe morreu a segunda filha, abraçou-se n'uma effusão de lagrimas ao pescoço de um grande Terra-Nova, que era o companheiro dilecto da mallograda creança.
Dinorah não teria sido mais carinhosa com a sua cabrinha branca do que a imperatriz o foi n'esse momento para com o seu Terra-Nova.
***
E todavia ouvia-se dizer muitas vezes em Vienna que a imperatriz, amazona infatigavel, pensava mais nos cavallos que montava do que nos filhos que havia gerado.
Uma calumnia revoltante. Victor Tissot, que esteve em Vienna, e que estudou escrupulosamente a capital austriaca na côrte e na rua, desmente-a categoricamente.
D'onde veio essa má vontade dos viennenses, tantas vezes manifestada, contra a imperatriz?
Veio do tempo em que ella, creança de dezeseis annos, tinha, sem o haver sonhado, cingido a corôa da Austria, e _esquissava_ nos seus albuns a caricatura mordente dos cortezãos que detestava.
Um cortezão não perdôa nunca: vinga-se curvado e sorridente. Foi o cortezão de Vienna que principiou a fazer a lenda injusta da imperatriz, que, por sua vez, aborrecendo o mundo palaciano em que a calumnia serpejava por entre as alcatifas, preferia as florestas ás salas, e os cavallos aos cortezãos.
***
E depois a imperatriz fôra creada em plena natureza, á beira do lago de Traun. Como as outras suas quatro irmãs, que vieram a denominar-se a rainha de Napoles, a princeza de Tour e Taxis, a condessa de Trani e a duqueza d'Alençon, vivêra até aos dezeseis annos como pastora nas montanhas. Seu pai era um velho gentil-homem da provincia, que jámais havia pensado em que as suas cinco filhas, embora formosissimas, podessem vir a respirar n'outra atmosphera que não fosse a das collinas que circumdavam o lago azul.
Mas Francisco José amára sempre a caça como um bom montanhez do Tyrol, cujo fato vestia nas suas excursões venatorias por montes e valles.
Ás vezes os quinteiros ouviam a distancia a grita do hallali, e o seu pensamento não podia ser outro senão o que o nosso velho Castilho soube exprimir n'uma quadra:
Voam corceis e sabujos; Apupa, apupa, clarim, Que esta sina de fragueiros Não tem descanço nem fim.
E as gandaras e os montes tremiam como no rimance da Nazareth; não valiam os pés ao gamo, nem valia a furia ao javali.
Os caçadores passavam como um tufão ardente.
Era o imperador que andava monteando, tal como nas valladas da Idade-média usavam fazer os velhos reis sagrados, de que a imaginação popular se lembra ainda.
Pois bem! Francisco José havia chegado á beira do lago de Traun e, por descançar das fadigas da caça, sentára-se á porta, de uma casa de campo. Quatro filhas do velho gentil-homem que alli morava, sahiram a cumprimentar o imperador, que ficára encantado de encontrar um _bouquet_ de rosas primaveris perdido entre montanhas, á beira de um lago. Qual d'ellas lhe parecia mais formosa? Não o saberia dizer. De repente surge na clareira do bosque uma visão encantadora, vestida de branco, e acompanhada de um fiel molosso. Então os olhos de Francisco José cegaram deslumbrados. Era Izabel, a quinta filha do velho gentil-homem: a futura imperatriz da Austria. Alguns dias depois, n'um baile em Ischl, o imperador, que amava doidamente a valsa, dançára durante toda a noite com essa deslumbrante creança de dezeseis annos, que desde logo passou a ser denominada a _fada da floresta_.
O coração um pouco selvagem de Izabel revoltou-se naturalmente contra a doblez da côrte. Ella preferia os aromas acres do bosque ás lisonjas perfumadas de cortezanismo. Ave das montanhas, amava o ceu azul, os alcantis agrestes, os lagos dormentes. Durante os primeiros tempos de noivado, um cavalleiro e uma amazona galopavam nas planicies, cortando as florestas, batendo os bosques. Eram o imperador e a imperatriz.
Tudo ia em redemoinho, Homens, corceis e mastins, Ladridos, brados, relinchos, Fragor d'armas e clarins!
***
Francisco José é, em toda a extensão da palavra, um homem amavel,—qualidade indispensavel aos principes.
Tissot decreve-o em dois traços:
«O som da sua voz é cheio d'encanto, como toda a sua pessoa. O seu olhar revela a lealdade e a doçura que seduzem. A testa é alta e larga, o nariz bem proporcionado, os dentes brancos, e o labio inferior menos saliente que no typo ordinario dos Habsburgos. Quando monta a cavallo, ha no seu aspecto elegancia e magestade; mas é preciso vêl-o curvetear no meio de uma nuvem de pó, ao estrondo das fanfarras, á frente do exercito!»
Este homem amavel fez-se amado desde os primeiros annos da mocidade, em que elle proprio escolhia entre as damas do salão a que preferia para sua parceira de valsa. Quando o seu uniforme branco ondulava nos circulos vertiginosos das valsas de Strauss, as mulheres, exaltadas, adoravam o gentil Habsburgo, de quem costumavam dizer:
—Encanta vêl-o valsar!
Á medida que se foi evolando n'uma saudade longinqua o perfume da flôr de laranjeira, que engrinaldára a cabeça da bella do lago de Traun, o coração da imperatriz, no seu egoismo montanhez, gotejára sangue.
Acaso o tronco ferido da arvore alpestre não chora, em bagas de resina, o attentado de que foi victima?
Tenho aqui, entre os meus papeis, um notavel artigo que ha annos appareceu n'um jornal de Lisboa e foi traduzido por mão desconhecida. Fallando da imperatriz Izabel, diz:
«Ella passa caracolando no seu cavallo, como a Diana de Vernon, essa imperatriz d'Austria, firme e direita no selim do seu baio fogoso, o veu azulado enrolado á copa do seu chapeu alto, não reconhecendo outro sceptro além do seu flexivel chicotinho. Toca-se o _hallali_, o animal é encurralado na clareira dos bosques, Izabel é a primeira a despedir o tiro mortal; galopa com as faces incendidas, as narinas dilatadas e frementes, vêde-a bem—o vento apagou na corrida o vestigio das lagrimas que ainda ha pouco lhe inundavam o rosto; o seu cavallo passou o rio a nado, e o seu vestido de amazona-caçadora embebeu-se na agua gelada; parece-lhe que é sangue do seu coração que vai cahindo, gotta a gotta, no caminho, e que poderiam seguil-a através d'esse rasto; sabe que os latidos das matilhas impacientes, as trompas dos seus caçadores, e o tropel dos cavalleiros não ensurdecerão a sua dôr; a imperatriz da Austria tem a certeza de que já não é amada!»
***
Natureza fogosamente selvagem, a imperatriz da Austria, tendo visto passar o idyllio de amor que a fôra arrancar ao lago de Traun, não pôde resistir á morte desastrosa do filho querido, que era a seus olhos não só a revivescencia de um passado feliz, mas tambem, certamente, a esperança de uma gloria futura.
E, similhante á Dinorah da opera de Meyerbeer, balouçando nos braços a almofada que presume ser o berço do Kronprinz, a sua voz soluça a dolente melodia de uma valsa que acaricia ainda a sombra ligeira de tudo o que não voltará mais.
XIV
EL-REI D. LUIZ NOS JERONYMOS
(Outubro de 1889)