Part 14
Dizia o aviso que Roma inteira lêra com surpreza:
Maximiliano non ti fidare, Torna sollecito a Miramare! Il trono fradicio di Montexuma È nappo gallico, colmo di spuma. Il «Timeo Danaos» qui non ricorda Sotto la clamide trova la corda.
O que, traduzido em portuguez, dirá, pouco mais ou menos:
Maximiliano, a Miramar Deves solicito voltar, Que o throno fragil de Mont'zuma É como a taça cheia d'espuma, Um laço armado pela França. Do _Timeo Danaos_ a lembrança Quem a não pesa e a não recorda Em vez da purpura acha a corda.
Com que funda e dilacerante angustia não sahiria de Roma o imperador do Mexico, a cujo encontro affluiam as felicitações festivas e as saudações lisonjeiras!
O _diario de viagem_ de Maximiliano accusa claramente o desalento intimo da sua alma. «O mundo, escrevia elle, é pequeno, e todavia como se é baldeado de uma a outra extremidade da terra! Felizes os que se encontram!»
A _Novara_, sempre seguida pela _Thémis_, passou na ilha da Madeira, onde Maximiliano havia estado em 1852. Então, doze annos antes, consignára nas suas MEMORIAS uma impressão deleitosa, de despreoccupada felicidade: «Surge-me das ondas uma ilha encantada, resplendente dos raios de um sol tropical. O mar era transparente, ceruleo, o ar impregnado de perfumes inebriantes. Collinas basalticas, côr de violeta, relevavam d'entre o arvoredo cuja folhagem, de um verde brilhante, accentuava todas as energias da primavera. A minha alma, extasiada, inundava-se de alegria. Uma celeste pureza dominava o quadro...»
Agora, doze annos corridos na existencia placida de Miramar, a impressão que Maximiliano recebêra na ilha da Madeira fora bem differente. A corôa do Mexico, que não começára ainda a ser de espinhos, era já, comtudo, um fardo pesado. Vindo a terra, o imperador visitara os mortos, entrára no cemiterio do Funchal, e colhêra de uma campa solitaria uma rosa triste, que conservou toda a sua vida, mais como uma reliquia, do que como uma simples recordação.
A 28 de maio de 1864 a _Novara_ avistou a costa do Mexico.
Em Miramar deviam florir áquella hora, em toda a pompa da primavera, os jardins do castello abandonado.
No Mexico uma faxa de areia, arida como um deserto, desenrolava-se ardente, apesar do fluxo refrigerante das ondas.
Á aridez da terra correspondêra a aridez da recepção. A _Thémis_ tinha-se adiantado para annunciar a chegada dos imperadores, mas, apesar dos esforços que o almirante Bosse empregára para salvar as apparencias, o povo do Mexico conservou uma attitude indifferente, porque não diremos, hostil? Que contraste entre esta recepção glacial e a despedida affectuosa de Trieste!
Maximiliano começou a comprehender a terrivel verdade que o pasquim de Roma lhe annunciára.
A administração franceza, a fim de tranquillisar o espirito sobresaltado do imperador, comprou talvez a peso de oiro um enthusiasmo postiço, que tibiamente principiou a manifestar-se desde a estação de Loma Alta, a ultima do caminho de ferro.
D'ahi por diante os imperadores viajaram n'uma caleche ingleza, que não seria digna de hospedes menos qualificados. E a sua comitiva pernoitava ao desabrigo, como uma caravana de bohemios, que apenas podiam contar com uma hospitalidade desconfiada.
A 12 de junho, os imperadores fizeram a sua entrada solemne na capital. Todo o apparato d'esse acto official orçou por uma _mise-en-scène_ mediocre. Em nenhuma parte encontrou Maximiliano a franqueza que devia corresponder ao convite que lhe fôra feito para acceitar a corôa do Mexico.
Á noite houve espectaculo de gala, a que os imperadores assistiram, mas a maior parte dos camarotes conservou-se fechada.
Um protesto eloquente, posto que tacito, contra a invasão de um soberano estrangeiro.
A melhor sociedade do Mexico brilhava pela sua ausencia.
O melancolico palacio de Chapultepec, que fôra destinado para residencia dos imperadores, contrastava dolorosamente não já com a opulencia, senão tambem com o conforto do castello de Miramar.
E quando os dois esposos coroados quizeram, á volta do theatro, confidenciar as suas doloridas impressões d'aquella primeira noite do imperio, acharam-se isolados n'um velho casarão desguarnecido, que tinha sido residencia dos monarchas astecas e dos vice-reis[7].
Tal era o palacio de Chapultepec, que devia hospedar os fugitivos do poetico castello de Miramar!
VIII
A installação do imperio devia fazer prever a sua existencia ephemera e o seu fim desastroso.
O Mexico não poderia ser regenerado por um só homem, por maiores que fossem a energia e a dedicação d'esse homem. Paiz devastado pelas guerras civis, estava atrophiado, desorganisado, inculto. Não havia escólas, estradas, agricultura. Maximiliano teve occasião de o reconhecer quando emprehendeu, arrostando com grandes perigos e incommodos, uma viagem através do seu novo imperio.
O roubo parecia guindado á altura de uma instituição nacional. E não eram só os _leperos_, especie de _lazzaroni_ do Mexico, que roubavam; do palacio imperial desappareceram por vezes objectos preciosos.
Maximiliano, recolhendo á capital, projectou estradas, fundou escólas, concedeu caminhos de ferro. Creou uma academia de sciencias e bellas-artes, e traçou o plano da construcção, sobre o golfo do Mexico, de uma grande cidade industrial e commercial, a que daria o nome de Miramar.
N'este fervoroso trabalho era auxiliado corajosamente pela imperatriz, que passava os dias escrevendo a correspondencia politica do imperio, destinada ás côrtes da Europa.
Entretanto, os perigos que rodeiavam Maximiliano cresciam como uma onda temerosa. O partido juarista engrossava, as guerrilhas augmentavam, os bandoleiros faziam audaciosas incursões até ás portas da capital. Bazaine casára com uma senhora mexicana; creára, portanto, ligações e interesses no Mexico, a sua sinceridade devia tornar-se suspeita a Maximiliano que, para conservar-se no throno, não tinha outro ponto de apoio senão a França.
Fôra Bazaine que aconselhára o imperador a decretar uma lei severa contra todos os bandos armados que infestavam o Mexico.
Era o rastilho que devia incendiar, contra Maximiliano, o espirito nacional. Mas o imperador dependia exclusivamente de Bazaine, e fez-lhe a vontade.
Foi leal o conselho de Bazaine? Tudo faz acreditar que não foi. Elle contava com o effeito seguro d'essa lei sanguinolenta. De facto, no 1.º de setembro de 1865, descobriu-se uma conspiração contra Maximiliano. Um dos cabeças da conspiração era o general Uraga, ajudante do imperador. Quinhentas pessoas foram presas, o corpo de _dragões da imperatriz_ dissolvido, e Bazaine convidado a occupar militarmente o palacio imperial.
Que triste realeza a de Maximiliano, rodeiado de bayonetas no seu proprio palacio!
Coincidiu com este deploravel estado de coisas o termo da occupação franceza. Tres annos haviam passado. Napoleão III, que principiára a medir todo o alcance d'essa louca aventura do Mexico, procurava um pretexto desleal para mandar retirar a expedição franceza. Os Estados-Unidos deram-lhe o pretexto. E Maximiliano, vendo-se perdido, enviou á Europa, a implorar a protecção de Napoleão III, a imperatriz Carlota.
Foi em agosto de 1866 que a desventurosa imperatriz chegou a Saint-Cloud. Os imperadores vieram recebel-a ao fundo da escada, com esse requinte de cortezia palaciana cuja intenção nem sempre é sincera. Feitos rapidamente os cumprimentos do estylo, o imperador e as duas imperatrizes encerraram-se em conferencia n'um gabinete particular.
Oiçamos agora o testemunho insuspeito de madame Carette:
«A imperatriz do Mexico, que contava então apenas vinte e seis annos, denunciava longas angustias, profundas inquietações. Alta, de um porte elegante e nobre, o rosto redondo, os olhos negros e salientes, as feições graciosas, a imperatriz trajava um longo vestido de sêda preta, ainda vincado das dobras da mala em que fôra acondicionado durante a viagem e de que fôra tirado á pressa, sem ter havido tempo de o arejar; um mantelete de rendas pretas, e um chapeu branco muito enfeitado, que tinha sido comprado n'essa manhã em casa de uma das primeiras modistas. O calor era n'esse dia asphyxiante, e fôsse por effeito do longo trajecto em carruagem, ao sol, desde Paris a Saint-Cloud ou por effeito das commoções que a agitavam, as faces da imperatriz estávam vivamente rosadas.
«Acompanhavam-n'a duas damas de honor, mexicanas, muito feias, morenas, pequenas e desgraciosas, que fallavam o francez com difficuldade. Ao passo que os soberanos conferenciavam largamente e sem testemunhas, esforçavamo-nos por entreter estas duas estrangeiras, que pareciam muito perturbadas. Eu consegui trocar algumas phrases com uma d'ellas, e, para matar o tempo, offerecemos-lhes alguns refrescos.
«A dama mexicana pediu-me que mandasse uma laranjada á imperatriz Carlota, que, segundo me disse, costumava, áquella hora, tomar esse refresco. Dei immediatamente ordem na ucharia para que servissem a laranjada. A imperatriz Eugenia, contrariada com a entrada do criado, perguntou quem lhe tinha dado a ordem. Respondeu que fôra eu, e foi a propria imperatriz Eugenia que serviu a laranjada á imperatriz Carlota, tendo que insistir para que a tomasse, porque a imperatriz do Mexico parecia hesitar.»
Duas horas durou essa entrevista dos tres personagens. Não valeram razões, supplicas, rogos. O imperador Napoleão fôra de pedra, elle, o inventor do imperio do Mexico, elle, a serpente que tentára Maximiliano!
Carlota sahiu de Saint-Cloud pedindo á imperatriz que ao menos interpozesse o seu valimento para demover Maximiliano a sahir do Mexico.
Foi chorando copiosamente que a imperatriz Carlota deixára Saint-Cloud. Pobre coração de mulher, que uma dôr incomportavel dilacerava! Entrára em Saint-Cloud uma imperatriz; sahira uma louca.
De Paris, essa desgraçada senhora fôra para Roma, implorar o auxilio do chefe da igreja catholica. Receiosa de que a quizessem envenar, depois que lhe serviram a laranjada em Saint-Cloud, apenas se alimentava de fructas. Entrou no Vaticano no momento em que Pio IX almoçava. Arrancando da mão do Papa uma chavena de chocolate, tomou-o soffregamente exclamando:
—Ao menos este não estará envenenado!
Sempre receiando uma cilada, não quiz recolher-se ao _hotel_. Foi preciso consentir em que pernoitasse no Vaticano, n'uma camara visinha á de Pio IX. A loucura era completa, manifesta. Maximiliano estava perdido. Fôra esse crudelissimo desengano que esmagára a razão da pobre imperatriz.
Conduziram-n'a a Miramar, na esperança de que o aspecto de lugares conhecidos e queridos lhe restituisse a razão. O povo de Trieste, supersticioso como todo o povo, começou a consideral-a uma santa. Sim, santa de martyrio, santa de soffrimento. Mas louca para toda a vida. A dôr santificára-se n'ella em loucura. Deus fôra mais piedoso do que os homens creados á sua imagem e semelhança.
Bazaine, sahindo do Mexico, abandonára o imperador ás represalias dos juaristas. Antes de sahir, fizera lançar ao rio Sequia e ao lago Texcoco todas as suas munições. Que refinada perversidade a d'esse homem, que a Providencia castigou tão justa e sabiamente! Diz-se até que Bazaine tinha proposto a Juarez entregar-lhe Maximiliano por 50:000 dollars. Naturalmente, Juarez, visto que Maximiliano ficava indefeso, achou caro. Podia tel-o de graça logo que o exercito francez retirasse. E assim foi. Juarez era mais esperto do que Bazaine, mas não menos ambicioso.
O que fazia entretanto o imperador Napoleão? Nada. Pedia a Maximiliano que fugisse. Maximiliano respondia nobremente que um Habsburgo não sabia fugir como um cobarde. Apenas consentiria em sahir como um imperador, renunciando á corôa.
Foi n'este proposito que Maximiliano partiu para Vera Cruz, onde a corveta _Dandolo_ o esperava. Mas ahi, quando pensava em restituir ao povo mexicano a menos invejavel das realezas, o partido conservador fizera-lhe promessas de homens e dinheiro. Maximiliano acreditou, com essa estranha credulidade dos espiritos combatidos pelas grandes dôres. A esse tempo já tinha recebido a noticia da loucura da imperatriz. Naufrago desesperado, agarrou-se á primeira taboa de salvação, embora fragil, e talvez perfida, que lhe offereciam.
A Providencia, sempre justa, preparava para Napoleão a derrota de Sedan, e o exilio; para Bazaine o carcere, a infamia, o homizio. Poucas vezes a historia nos assignala um ajuste de contas tão rapido e completo; uma liquidação de responsabilidades que tanto satisfaça a consciencia humana.
IX
A retirada da expedição franceza déra alento a Juarez, que ameaçou ir cercar a capital.
Maximiliano, querendo poupar os habitantes da cidade aos incommodos e perigos do assedio, retirou-se para Queretaro, onde, com o auxilio de alguns generaes, que se lhe conservaram fieis, pudéra reunir um pequeno nucleo de tropas defensivas.
A sorte das armas deveria decidir da victoria entre o exercito do imperador e o de Juarez. Os acontecimentos futuros dependiam pois da vantagem que o azar dos combates désse a um ou a outro dos dois contendores. Mas o coronel Lopez, ajudante do imperador, apressou, dizia-se, o desfecho do drama com uma traição ignobil: vendêra Maximiliano aos juaristas por 2:000 onças de oiro. E todavia Lopez havia sido extremamente beneficiado pelo imperador com generosas dadivas, sabia-se[8].
Na madrugada de 15 de maio de 1867, o imperador, que costumava levantar-se muito cedo, viu Queretaro em poder dos juaristas. Graças ao general Rincon, pôde ainda ir refugiar-se na pequena collina de Cerro de las Campanas, que domina a cidade.
Escobedo, general juarista, deu-se pressa em sitiar a collina. O imperador, reconhecendo que toda a tentativa de resistencia seria um sacrificio inutil, mandou atar um lenço branco na bayoneta de uma espingarda. Capitulava. Pouco depois entregava a sua espada ao general Corona, e era conduzido, com os outros prisioneiros, ao convento de Santa Theresita, d'onde foram transferidos para o convento dos Capuchinhos.
Juarez mandou reunir o conselho de guerra para julgar os prisioneiros. Maximiliano recusou-se a comparecer. Durante tres dias funccionou o conselho: no banco dos réos estavam sentados os generaes Miramon e Méjia, imperialistas. A sentença foi de morte: o imperador e os dois generaes deviam ser passados pelas armas. Marcou-se a execução para o dia 19, e de nada valeram os esforços empregados junto de Juarez pelos embaixadores da Prussia e da Inglaterra para obterem o perdão dos condemnados.
Na noite anterior, Maximiliano pediu uma tesoura ao carcereiro. Foi-lhe recusada. Supplicou então que lhe cortassem uma madeixa do seu cabello e incluiu-a n'esta carta que escreveu á imperatriz:
«Minha querida Carlota. Se Deus permittir que melhores um dia e que leias estas linhas, conhecerás a crueldade do destino que não deixou de perseguir-me desde a tua partida para a Europa. Levaste comtigo a minha felicidade e a minha alma. Por que te não ouvi eu?! Tantos acontecimentos, tantas catastrophes inesperadas e immerecidas me teem esmagado, que, desamparado da esperança, vejo na morte o anjo da redempção. Morro sem agonia. Cahirei com gloria, como um soldado, como um rei vencido... Se não tiveres forças para arrostar com tamanho soffrimento, se Deus em breve te reunir a mim, abençoarei a sua mão paterna e divina que tão rudemente nos feriu. Adeus! adeus!
Teu pobre—_Max_.»
Max era o diminutivo de familia, com que tambem assignou outras cartas, escriptas em francez, e dirigidas a sua mãi, á archiduqueza Sophia e a muitos amigos.
Como se vê, Maximiliano conservou, em frente da morte, uma attitude serena e calma.
Ás seis horas da manhã do dia 19, um official veiu abrir a porta do carcere.
—Estou prompto, disse o imperador adiantando-se.
E ao sahir a portaria do convento dos Capuchinhos, erguendo os olhos para o céo:
—Que bello dia! Sempre esperei morrer n'um dia de sol.
Entrou na carruagem descoberta que lhe era destinada. Os generaes Miramon e Méjia, cada um em sua carruagem, seguiam a do imperador. Eram escoltados por quatro mil homens. O funebre cortejo poz-se a caminho para o Cerro de las Campanas. Os condemnados iam de pé, serenos, tranquillos. As ruas e janellas estavam cheias de gente. Maximiliano, diz Tissot, nunca pareceu mais bello do que n'essa occasião. As mulheres desviavam o rosto para occultar as lagrimas.
Houve um momento em que o general Méjia se perturbou: foi quando sua esposa, com o filho, recem-nascido, nos braços, rompeu d'entre a multidão, os cabellos em desordem, o gesto allucinado. Méjia escondeu o rosto entre as mãos. Foi esta a unica fraqueza no espectaculo heroico d'aquelle triplice fuzilamento.
Quando a primeira carruagem chegou ao Cerro da las Campanas, Maximiliano apeiou-se com ligeireza, distribuiu a cada soldado uma onça de ouro, e disse-lhes:
—Apontai bem, meus amigos; tomai por alvo o meu coração.
Um dos soldados chorou. Maximiliano entregou-lhe a sua carteira de cigarros, cravejada de pedras preciosas. E, como o official que devia dar a voz de fogo lhe pedisse perdão, o imperador respondeu:
—Um soldado deve sempre obedecer ás ordens que recebe: cumpre o teu dever.
Em seguida abraçou os generaes Miramon e Méjia, como elle condemnados á morte.
—Dentro de alguns minutos, vêr-nos-hemos no céo, disse-lhes.
Apertou a mão de Miramon, em primeiro lugar, dando a razão da preferencia:
—General, ao mais bravo, o lugar de honra.
E a Méjia:
—Os que soffrem injustamente são recompensados n'outro mundo.
Depois, subindo a uma pedra, fallou ao povo:
—Mexicanos! Os homens da minha condição e da minha raça são destinados a fazer a felicidade dos povos ou a serem victimados por elles. Não foi um pensamento illegitimo que me trouxe ao vosso paiz. Fôstes vós que me chamastes. Antes de morrer, quero dizer-vos que empreguei todos os esforços para vos felicitar. Mexicanos! possa o meu sangue ser o ultimo que façaes derramar e possa o Mexico, minha desgraçada patria adoptiva, ser feliz. Viva o Mexico!
Um sargento veiu ordenar a Miramon e a Méjia que se voltassem de costas: deviam ser assim fuzilados como traidores.
—Até á vista, disse-lhes Maximiliano.
E, afastando as suas longas suissas louras, apontou para o coração, exclamando: Aqui!
Á voz de _Apontar_, um murmurio de indignação sahiu d'entre a multidão dos indios, em cuja raça é antiga a superstição de que um homem da raça branca os ha de libertar um dia.
Os officiaes voltaram-se brandindo a espada para reprimir a multidão. Ouviu-se a voz de fogo.
—Viva o Mexico! disse Miramon.
—Carlota! Carlota! exclamou Maximiliano.
E quando a fumarada se dissipou, tres cadaveres ensanguentados jaziam ao sol no Cerro de las Campanas.
O drama do Mexico, preparado por Napoleão III, tinha tido o seu ultimo acto.
O general Lopez, o Judas de Maximiliano, a ser verdadeira a tradição antiga, não recebeu as duas mil onças de ouro que lhe tinham sido promettidas, mas apenas sete mil piastras. A execração publica amaldiçoou-o... pelo menos durante vinte annos.
Napoleão III morreu exilado em Inglaterra, e seu filho acabou ás mãos dos zulus na Africa.
Bazaine, tendo podido fugir do carcere depois da guerra franco-prussiana, com o labéo de traidor, expirou em Hespanha, onde se homiziára.
A imperatriz Carlota vive ainda, se dos loucos se póde dizer que vivem. Tem hoje quarenta e nove annos de idade. Está habitualmente no castello de Laeken, onde nasceu. Seu irmão e sua cunhada, os reis da Belgica, fazem-n'a rodear dos maiores carinhos por meio de uma assistencia dedicada e vigilante. Todos os caprichos da pobre louca são pontualmente satisfeitos. Ás vezes sonha ella ser ainda imperatriz, quer dar recepções solemnes, festas magnificas. E os convivas que n'esses momentos a rodeiam são bonecos vestidos á côrte, que ella saúda com uma longa mesura, arrastando magestosamente sobre o tapete a cauda roçagante do seu manto imperial.
Um viajante que esteve ha pouco tempo em Laeken viu-a encostada a uma janella do castello. Scismava. Quem sabe se, através do nevoeiro que lhe envolve a razão, não avistaria ao longe, muito ao longe, vaga e confusamente, o seu antigo castello de Miramar, como no fundo de um sonho doloroso uma memoria truncada!
Graças aos esforços empregados pela Russia, o corpo de Maximiliano foi restituido em 1867, sendo por essa occasião libertados alguns soldados austriacos que se conservavam prisioneiros, e perdoado o principe Salms-Salms, que tinha sido condemnado á morte com o imperador.
De toda a catastrophe do Mexico restam hoje tres viuvas: a de Maximiliano, de Napoleão III, e do marechal Bazaine.
No Mexico, além da tradição historica que a auctoridade de Juarez não pôde supprimir, existe uma recordação, tão saudosa quanto delicada, do ephemero e infeliz imperador: são os rouxinoes que cantam nas florestas de acajú, e nos _chinampas_, ilhas fluctuantes. No dia em que Maximiliano foi fuzilado, chegavam ao Mexico, em vez de munições de guerra que elle bem poderia ter encommendado para se entrincheirar no throno, dois mil rouxinoes que havia mandado comprar na Styria para com elles povoar as arvores das florestas.
IX
O PAIZ DOS MENINOS...
I
O MENINO DE S. DOMINGOS
É costume portuguez dizer-se por graciosidade ou disfarce, segundo a idade da pessoa com quem estamos fallando, que _as creanças recemnascidas vieram de França_.
Os loiros _babys_, que aguardam impacientemente a chegada de mais um irmão pequenino, contentam-se ingenuamente com a resposta que lhes damos—de que o menino viera de França—e, annos volvidos, quando a malicia do mundo lhes revelou o segredo da procreação da especie humana, elles mesmos continuam a tradição dizendo por sua vez aos filhos curiosos—que viera tambem de França aquelle lindo menino, que lhes offerecem para irmão.
Mas... ó triste idade a nossa, em que já se não acredita em quasi nada, e muito menos em _meninos que vêm de França_!... mas por que razão se escolheu a França como paiz ideal de onde todos os meninos portuguezes são oriundos! A phrase ficou lendaria entre nós, a tradição subsiste com a mesma intensidade, com ella ludibriaram a nossa curiosidade infantil, e com ella, por nossa vez, respondemos á pergunta, por igual curiosa, de nossos filhos.
Não haveria um facto historico que determinasse a origem d'esta tradição? Aposto que o leitor nunca pensou n'isto! Nunca! É celebre! Tanto mais celebre, se é certo que já alguma vez encommendou para França meninos recemnascidos.
Pois, verdade, verdade, eu nunca tinha pensado tambem, e não o pensaria jámais, se o licenciado Duarte Nunes de Leão, nas suas chronicas de reis portuguezes, especialmente na de Affonso III, não tivesse chamado a minha attenção para uma antiga lenda portugueza, que bem póde ter dado origem á tradição de que é de França que chegam os meninos recemnascidos.
É possivel que eu esteja em erro, mas como isso não prejudica os meninos, nem os pais, e menos ainda a França, afoito-me a emittir uma opinião, que as academias talvez ingratamente repillam, mas que não deixará comtudo de ter uma tal ou qual apparencia de verosimilhança.
Posto este brevissimo exordio, entremos no assumpto, quero dizer na chronica de Duarte Nunes.
Depois de ter contado como o infante D. Affonso casára em França com a condessa Mathilde de Bolonha, viuva de Filippe o _Crespo_, e como, sendo acclamado rei de Portugal, a repudiára para desposar a filha do rei de Castella, empenha-se Duarte Nunes em demonstrar, por documentos authenticos, que a condessa de Bolonha não houvera filhos de D. Affonso de Portugal.
A dissertação do chronista tem por fim rebater uma lenda, que se enraizára entre o povo portuguez, e sobre a qual assenta a hypothese que eu pretendo formular.
Escreve, pois, o historiador: