Part 13
Tendo cahido o imperio, o principe continuou o seu curso n'esta escóla, onde os condiscipulos o tratavam familiarmente por Luiz. Completos os estudos militares, foi residir com a imperatriz em Camden-House. Levantava-se ás seis horas da manhã, tomava uma chavena de chá, e abancava no seu gabinete d'estudo, até ás dez horas, com mr. Filon.
Em seguida dava um passeio a cavallo, com excepção dos dias em que acompanhava a imperatriz, a pé, através de Chislehurst-Common, á pequena igreja gothica de Saint-Mary. Ao domingo todas as attenções se fixavam na mãi e no filho que iam juntos ouvir missa. A imperatriz já então principiava a soffrer de rheumatismo articular; e o principe carinhosamente a ajudava a descer da carruagem, amparando-a nos braços.
Em 1887 publicou-se em Paris, assignado por Charles de Bré, um livro que se intitula LE ROMAN DU PRINCE IMPÉRIAL. Supponho que com razão se denomina romance. Eu nem acredito na versão do padre Goddard, que, fallando do principe morto na Zululandia, dizia _Virgo intacta_, nem acredito na historieta, contada por De Bré, dos seus amores com miss Carlota Walkyns, que, segundo o romance, houvera do principe um filho, que está em França a educar.
Conta De Bré que as entrevistas do principe com miss Carlota se realisavam no _magasin_ de mr. Floris, em _Jermin street_ n.º 80, e que ella ignorára durante muito tempo a alta posição social do seu joven apaixonado.
Fôra por occasião do casamento do duque de Norfolk com lady Hastings que miss Walkyns tivera a revelação d'esse segredo, porque até ahi, como dissemos, ella desconhecia completamente a condição d'esse moço estrangeiro, que vira pela primeira vez na estação de New Cross.
Mas, no dia do casamento do duque de Norfolk, miss Walkins surprehendêra o seu bem amado a conversar familiarmente como o conde de Beaconsfield, e esse facto impressionou-a vivamente.
Parece que a imperatriz alimentava o projecto de casar o principe imperial com a princeza Beatriz, filha da rainha Victoria, mas por sua parte o principe imperial alimentava a esperança de desposar miss Carlota, casando por amor, como seu pai.
O _romance_ de Carlos De Bré foi contestado por algumas folhas imperialistas, e, se assentasse n'um facto verdadeiro, esse facto teria tido em toda a Europa uma notoriedade insistente. Não aconteceu assim. O livro passou inspirando geral desconfiança sobre as affirmações que aventava, e eu persisto em consideral-o mais como uma especulação de livraria, protegida nos seus intuitos mercantis pelo nome de um principe desventuroso, do que como a expressão exacta da verdade.
Do supposto filho do principe Luiz nunca os jornaes francezes nos tornaram a fallar, e não é natural que a imprensa de Paris, tão ávida de _reportage_, abandonasse esse rico filão de noticiario.
Com este artigo, que chega até á vida actual da imperatriz Eugenia no melancolico retiro de Chislehurst, fechamos por agora a sua biographia.
Nas paginas seguintes occupar-nos-hemos da imperatriz Carlota do Mexico, que ha tantos annos envelhece na demencia com que os seus incomportaveis soffrimentos lhe obumbraram o cerebro.
A posição social aproxima estas duas illustres damas, ambas viuvas de imperadores. Mas ha uma differença profunda entre ellas. Eugenia de Montijo teve o seu dia de ruidosa gloria, viveu largos annos dominando a Europa na côrte mais faustosa dos tempos modernos. A imperatriz Carlota não conheceu nunca senão o conchego intimo do seu ninho de amor conjugal no castello de Miramar, e a sua passagem pelo imperio do Mexico foi uma agonia em que principiou por perder a coragem e acabou por perder a razão.
V
A IMPERATRIZ CARLOTA
A historia do imperador Maximiliano e da imperatriz Carlota parece moldada sobre a tradição biblica de Adão e Eva no paraizo terreal.
Todas as delicias da creação se accumulavam no éden n'aquella primitiva profusão de luz, de aromas, de flôres, de musicas, que, exuberantemente creadas, irrompiam ainda em tumulto desordenado, á espera da lei reguladora da existencia terrena. Todas as maravilhas paradisiacas, pujantes de vida, deviam ser eternas e imperturbaveis, e Adão e Eva, dominando, n'uma felicidade virginal, a esphera crystallina onde o sol ensaiava timidamente o primeiro vôo das suas azas de ouro, deviam viver eternamente n'uma felicidade casta e perenne. Mas a tentação viera, perfida serpente, espiralar-se na arvore do bem e do mal, enroscando-se no tronco, colleando para a fronde d'onde pendia o pomo prohibido, prematuramente sazonado pela intensidade do sol e pela força creadora da terra. Então o par ditoso, cuja felicidade devia ser absoluta e immutavel, attrahido pela cupidez da serpente tentadora, disputou-lhe o pomo, colheu-o, provou-o, e, julgando ter vencido a serpente, viu-se de subito vencido por ella. Desde essa hora foi marcado um limite terrivel á felicidade humana, a existencia tornou-se ephemera e dura, e tudo quanto havia nascido para viver foi condemnado a viver para morrer.
O paraizo terreal de Maximiliano e Carlota era o castello de Miramar, a uma legua de Trieste, erguido sobre um promontorio pittoresco, que só avistava a pureza lucida do ceu infinito e a pureza cerulea do mar immenso. Nunca o vôo de uma ambição havia cortado o horisonte luminoso do firmamento e do oceano, nunca a aza de um sonho audacioso havia posto um traço negro no espelho nitido das aguas e do ar.
O archiduque Maximiliano, commandante da marinha austriaca, era um homem do mar, que, comquanto houvesse viajado desde o Oriente ao Occidente, desde a Asia Menor a Portugal, amava a solidão tranquilla, a concentração placida e meditativa a que a natureza, em pleno mar, convida o espirito. Um dia, encantado pelo aspecto do promontorio que, a pequena distancia de Trieste, parecia um throno de granito franjado de espumas, escolheu-o para construir ahi uma pequena cabana de pescador, emboscada n'uma florestazinha de plantas exoticas, que o sol não tardou a fazer germinar.
Desposando em 1859 a princeza Carlota, da Belgica, o archiduque Maximiliano pôde, graças ao dote que lhe trouxera a filha do velho rei Leopoldo, traçar por sua propria mão o projecto de um castello que nascia da cabanazinha florida como a opulenta cabaia de sêda de um rajah nasce da folha verde da amoreira.
O archiduque era apaixonado pela architectura; fôra elle que desenhára o risco da famosa igreja Votiva de Vienna; póde pois calcular-se com que alegre e dedicado enthusiasmo veria ir apparecendo, debaixo do seu _crayon_, as torres denticuladas do futuro castello de Miramar.
Mais feliz do que a snr.ª Porhoet, do ROMANCE DE UM RAPAZ POBRE, cuja velhice era alimentada pela phantasia de fazer edificar uma cathedral estupenda, o archiduque vira realisado o seu sonho, e o castello de Miramar fôra nascendo á beira do oceano, avultando, subindo, fazendo lembrar a lenda do rei de Thule e da
... torre herdada que havia ao rés das marinhas aguas.
Emquanto o castello de Miramar se edificava, o archiduque fôra habitar um _chalet_ que provisoriamente tinha mandado construir no alto da collina, e que para os dois felizes esposos se convertêra n'uma estancia encantada, que a madresilva cingia n'um abraço de verdura e de flôres, e envolvia na atmosphera inebriante de um beijo de perfume. O archiduque gostava immensamente de flôres, de modo que os jardins de Miramar, que vieram a contornar o palacio, pareciam realisar o sonho de um poeta que, como Castel ou Lacroix, vivesse para cantal-as.
Fôra no _chalet_ da collina que o archiduque, mesmo depois de edificado o castello, permanecêra sempre com a archiduqueza; nas salas do castello recebia elle os homens de lettras, os artistas, os sabios, os principes que procuravam a sua companhia, que uma illustrada conversação e uma sumptuosa hospitalidade tornavam appetecida.
N'este paraizo terreal, n'este éden do Adriatico, insinuára-se um dia a serpente da ambição, e a França, personificada em Napoleão III, fôra o espirito do mal que se transformára em serpente para realisar a tentação do par feliz de Miramar.
Os mais dedicados amigos do imperio de Napoleão III não podem dissimular as responsabilidades que pesam sobre a memoria do imperador na desgraçada questão do Mexico. Madame Carette, que pertence a este numero, não achou meio de desculpar essa _fatalidade do imperio_, que veio a chamar-se a expedição do Mexico.
«É bem difficil, diz ella, encontrar o fio subtil de toda esta aventura, em que tanta gente se enleiou e arruinou, que custou tantas victimas e tanto dinheiro, que teve por desfecho o fatal drama de Queretaro, e que foi talvez a origem dos acontecimentos que precipitaram a quéda do imperio.»
Como nasceu no espirito de Napoleão III a desastrosa idéa da intervenção da França nas questões internas do Mexico? Como, e por quê?
O que até ha pouco tempo se sabia, e logo voltaremos ao assumpto, era que algumas familias mexicanas e alguns membros das colonias estrangeiras emigraram para a Europa fugindo ás continuadas perturbações politicas d'aquelle paiz. Essas familias, muitas das quaes vieram estabelecer-se em Paris, pensavam decerto em voltar á patria, e manobraram n'esse sentido, auxiliadas pelos estrangeiros repatriados que levaram os seus respectivos governos a realisar uma conferencia internacional em Londres. Accordou a diplomacia em pedir indemnisações para os emigrados, mas o governo mexicano, _à bout de ressources_, declarou que não podia pagar o que lhe era exigido.
As potencias interventoras, a França, a Inglaterra e a Hespanha, julgando-se desconsideradas por esta resposta do Mexico, combinaram entre si fazer uma demonstração energica que impozesse o exacto cumprimento das deliberações tomadas na conferencia de Londres.
Foi o almirante Jurien de La Gravière que, com poderes discricionarios, tomou o commando da expedição franceza, aggregando-se-lhe, como adjunto technico, mr. Dubois de Saligny, antigo ministro no Mexico, que devia occupar-se do contencioso. A esquadra hespanhola já estava fundeada em Vera-Cruz quando a esquadra franceza lá chegou. A Inglaterra, reconhecendo talvez o erro politico d'esta aventura, enviou alguns navios com visivel hesitação.
Os mexicanos, concentrando-se logo que os hespanhoes chegaram, deixaram-n'os como que isolados n'uma vasta zona do littoral. Foi pois n'um deserto que a expedição franceza desembarcou, posto que o governo do Mexico manifestasse uma certa sympathia pela expedição franceza, considerando-a como um obstaculo a quaesquer demasias dos hespanhoes, antigos occupadores e, portanto, antigos inimigos dos mexicanos. Assim, pois, pôde o almirante Jurien assignar uma convenção que permittia aos francezes o internarem-se em condições favoraveis de hygiene e abastecimento, com a clausula de que, se as hostilidades se rompessem, retrocederiam para o littoral.
É n'este ponto que começa a urdir-se uma vasta rêde de intrigas.
O general Prim, commandante da expedição hespanhola e casado com uma senhora de origem mexicana, parecia aspirar, protegido por Serrano, á realeza do Mexico. Mr. de Saligny, estomagado pela sua posição secundaria, escrevia para Paris cartas sobre cartas queixando-se da prudencia com que procedia o almirante Jurien. A França, dando ouvidos a mr. de Saligny, enviava novos reforços, e, como adjunto do almirante Jurien, o general Lorencez. Mas a Hespanha, picada pela supremacia que a França pretendia accentuar, retirou a sua esquadra, e a Inglaterra, que tratava de procurar um pretexto, fez o mesmo. Ficou a França isolada, desde esse momento, na questão do Mexico.
Seria fastidioso enumerar n'uma chronica fugitiva todos os pormenores que occorreram até ao dia em que o general Forey tomou o commando do exercito francez, e alcançou sobre as guerrilhas mexicanas de Juarez alguns faceis triumphos militares.
Foi então que Napoleão III teve o sonho de realisar a transformação politica do Mexico para contrabalançar na America a influencia dos Estados-Unidos, e que obedecendo aos manejos da França, uma deputação mexicana, em outubro de 1863, chegava ao castello de Miramar a fim de offerecer a corôa imperial do Mexico ao archiduque Maximiliano.
Napoleão III tomára o compromisso de conservar no Mexico, durante tres annos, um exercito de vinte e cinco mil homens, commandado pelo general Forey, succedendo-lhe Bazaine, que tinha feito toda a campanha como commandante da 1.ª divisão; e o Mexico o de pagar immediatamente sessenta milhões de francos a titulo de indemnisação de guerra, e mais vinte e cinco milhões por anno, para o que foi levantado nos bancos da Europa, por emprestimo, o dinheiro necessario, sob garantia do governo francez.
VI
Esqueçamos por um momento a desditosa imperatriz Carlota, para, como promettemos, indicar o mais que se tem averiguado sobre as razões politicas que determinaram a intervenção da França.
Uma das ultimas novidades litterarias, que lograram maior successo, é com certeza o livro de Paul Gaulot: RÊVE D'EMPIRE.
Este livro occupa-se da famosa questão do Mexico, o ephemero imperio de Maximiliano, e basêa-se em documentos inéditos. D'aqui o seu principal interesse: um clarão de revelações, importantes e novas, illumina as trezentas paginas d'esta brochura que tem já terceira edição, comquanto haja apparecido ha poucos dias.
Envolvia-se até hoje nas sombras de um tal ou qual mysterio a causa da intervenção da França na questão do Mexico.
Presumia-se que Napoleão III tivera em vista dar um golpe mortal nos Estados-Unidos, mas o que não passava de uma hypothese adquire agora, graças ao livro de Paul Gaulot, fóros de certeza.
É comtudo certo que, apesar de conhecida, a intervenção de Napoleão III, a intervenção da França na questão do Mexico não perde completamente o caracter de uma aventura perigosa, e um pouco phantasista.
Conta-se que n'um serão das Tulherias, em 1868 ou 1869, a familia imperial passára a noite jogando _aux petits papiers_. N'um dos papelinhos, que coube em sorte ao imperador, lia-se a seguinte pergunta: «Qual é a vossa occupação favorita?» Napoleão III respondeu: «Procurar a solução de problemas insoluveis».
Esta phrase define até certo ponto o espirito do imperador dos francezes, sempre propenso á aventura, sempre enthusiasta de emprezas arrojadas ou, se antes querem, um pouco visionario na politica.
Girando em torno da phrase escripta por Napoleão III, Paul Gaulot lembra que na sua mocidade o futuro imperador dos francezes fôra filiar-se nas sociedades secretas d'Italia; que, sendo elle o representante da idéa napoleonica, isto é, do principio d'authoridade, duas vezes tentou derrubar o regimen estabelecido; que, subindo ao throno, deteve a acção da Russia no Mar Negro e no Mediterraneo, sem comtudo querer que a Inglaterra ficasse senhora d'esses mares; que combateu a Austria para permittir á Italia que realisasse a sua unidade, impedindo-a porém de attingir este ideal politico porque elle proprio protegia a conservação dos Estados da Igreja; que, finalmente, se lançou na expedição do Mexico para contrariar os Estados-Unidos, sem todavia querer declarar a guerra a esta potencia; que, nos ultimos annos do seu reinado, tentou unir ao regimen imperial o regimen parlamentar, abrindo pessoalmente uma brecha na cidadella que tinha construido desde 1848.
Estes sonhos ousados, e por vezes contradictorios, constituiam o caracter phantasista de Napoleão III. Como elle mesmo disse, o seu destino parecia consistir em procurar a solução de problemas insoluveis.
«O pensamento que guiou Napoleão III no negocio do Mexico, diz Paul Gaulot, era grande, generoso e politico.»
Qual fosse esse pensamento, dil-o tambem Gaulot, confirmando de uma maneira nitida a hypothese, até hoje vagamente formulada, de que elle pretendia ferir a republica norte-americana.
«Sobresaltado pelo immenso desenvolvimento que tinham tornado os Estados-Unidos, depois que com o auxilio dos francezes haviam sacudido o jugo da Inglaterra e conquistado a independencia, o imperador previa nos destinos de uma nação, que não tinha cem annos de existencia e que já possuia a supremacia no seu continente, uma ameaça e um perigo para o mundo antigo.»
Pensava Napoleão que a Europa viria a ser esmagada pela concorrencia, especialmente agricola e industrial, da florescente republica do norte da America.
Os Estados-Unidos estavam novos, vigorosos, ricos, e a sua acção, encaminhada para a Europa, viria tolher o passo ás grandes nações europêas.
O momento pareceu azado a Napoleão para intervir. O sul dos Estados-Unidos estava em guerra com o norte. Pensou pois Napoleão III que não poderia ageitar-se melhor occasião para estabelecer, n'aquelles estados, uma scisão definitiva, e formar no Mexico um grande imperio latino, que supplantasse a republica americana, fraccionada e dividida.
Este foi, portanto, o pensamento, embora arrojado, exequivel, do imperador dos francezes.
A seu lado, nas Tulherias, a imperatriz Eugenia animava o plano audacioso de Napoleão III, não tanto por previsão politica como por sentimentalidade. Os exilados mexicanos iam levar ao conhecimento da imperatriz os seus desgostos e as suas lagrimas, pedir protecção e auxilio. Fallavam-lhe em hespanhol, a lingua patria da imperatriz, que decerto lhe avivava saudosas recordações de infancia, predispondo-a á benevolencia. Membros do partido clerical, os exilados identificavam a sua causa com a da religião e do clero, attrahindo assim o espirito catholico da imperatriz, captando-o sentimentalmente.
No seu exaggero partidario, os exilados diziam que tudo se conseguiria com um simples passeio militar, e que o Mexico e a religião ficariam devendo á França uma gratidão eterna pelo restabelecimento da paz interior.
De mais a mais os antecedentes historicos favoreciam a propaganda dos exilados.
O antigo imperio do Mexico contára treze monarchas astecas desde a sua fundação até á conquista hespanhola.
Depois, durante a laboriosa gestação da independencia, o Mexico fôra governado por vice-reis, seguindo-se-lhe o ephemero imperio do general Iturbide, de modo que a formula monarchica encontrava, em seu favor, uns restos de tradição.
Á frente do partido que desejava o restabelecimento da monarchia estava Gutierrez de Estrada membro de uma familia illustre, o qual, sendo ministro dos negocios estrangeiros, em 1840, tinha escripto uma carta ao presidente da republica, Bustamante, propondo-lhe, como solução ás crises incessantes que desolavam a patria, a constituição de um governo monarchico.
Esta audacia acarretára-lhe a proscripção.
Gutierrez de Estrada viera refugiar-se na Europa, cada vez mais exaltado na sua propaganda.
Em 1854 subira á presidencia da republica o general Sant'Anna, que commungava as mesmas idéas politicas de Gutierrez, e que lhe dera plenos poderes para tratar, nas côrtes de Paris, Londres, Vienna e Madrid, a questão do restabelecimento da monarchia no Mexico.
Gutierrez de Estrada dirigiu-se então ao duque de Montpensier, que declinou o offerecimento.
O presidente Miramon, successor de Zuloaga em 1859, confirmou o mandato dado por Sant'Anna a Gutierrez, e foi n'este momento que Napoleão III, informado do que se passava, chamou a attenção de Gutierrez para o archiduque Maximiliano.
Gutierrez acceitou com enthusiasmo esta indicação do imperador, tanto mais que uma antiga convenção do Mexico, conhecida pela designação _de Iguala_, e datada de maio de 1821, estabelecia que se adoptasse o principio da monarchia constitucional, e que se offerecesse a corôa aos infantes de Hespanha, irmãos do rei Fernando VII, e, no caso d'estes recusarem, ao archiduque Carlos d'Austria.
Portanto, apresentar a candidatura de Maximiliano era, de algum modo, fazer reviver uma tradição antiga.
Aqui estão, succintamente historiados, os fundamentos da intervenção da França na questão do Mexico.
VII
D. Gutierrez de Estrada, presidente da deputação mexicana que foi a Miramar offerecer a corôa imperial ao archiduque Maximiliano, dissera-lhe:
—Vimos pedir a vossa alteza que se digne subir ao throno do Mexico, aonde vos chamam os votos de um paiz ha longo tempo dilacerado pela guerra, pois que possuis o segredo de conquistar os corações e a sciencia difficil de governar.
O archiduque respondeu:
—Que accedia aos desejos do povo mexicano, ao qual daria um governo liberal e constitucional, e que mostraria que a liberdade é compativel com o regimen da ordem.
Em seguida a esta troca de pequenos discursos, houve permutação de juramentos sobre o Evangelho: o imperador jurou fazer a felicidade do Mexico; D. Gutierrez, em nome do Mexico, jurou fazer a felicidade do imperador.
Como são falliveis e fallazes, tantissimas vezes, estes juramentos solemnes, cuja realisação não depende dos homens, que os fazem, mas apenas de Deus, que possue o segredo do futuro!
Maximiliano fiou mais de Napoleão III que d'essa mysteriosa força reguladora dos destinos humanos, que uns chamam Providencia, outros Acaso.
O deus das Tulherias promettia protegel-o, e tanto bastava n'uma época em que Bismarck não monopolisava ainda a direcção politica da Europa. De mais a mais, havia ao lado de Maximiliano uma gentil mulher que o amava, e que se ufanava de que o marido podesse cingir a cabeça com a corôa de um novo imperio, de que elle viria a ser o creador ostensivo.
A serpente da tentação silvára o perfido hymno, que já tinha sido escutado por Eva no Eden. E, pondo os olhos nos sonhados deslumbramentos do futuro, o par ditoso de Miramar começou a esquecer o seu dôce passado desambicioso, o _chalet_ florido da collina, as salas tranquillas do castello, o mar azul, que, mais leal do que o povo mexicano e que o imperador dos francezes, nunca lhe tinha suggerido a idéa de uma aventura perigosa.
O dia da partida chegára, a fragata austriaca _Novara_ e a fragata franceza _Thémis_ fundearam no porto de Trieste, todo um enxame de archiduques e archiduquezas concorrêra ao bota-fóra, o burgomestre, em nome dos habitantes da cidade, significára ao novo imperador a viva saudade que elle deixava, e Maximiliano, abraçando o burgomestre, sentira os olhos inundados de lagrimas, e o coração atormentado por um vago presentimento de desgraça.
—Parece-me que não voltarei mais! dissera o imperador.
Mas a salva festiva de cem tiros, no momento em que o imperador embarcava, viera suffocar as suas palavras. A _Novara_, desfraldando as côres do Mexico, esperava baloiçando-se. As archiduquezas atiravam, na ponta dos seus finos dedos patricios, beijos alados que iam, adejando, procurar a face da imperatriz. Os archiduques acenavam ao imperador com os seus lenços brancos, que fluctuavam como outras tantas azas de garça. A multidão seguia com um olhar attento, curiosamente interessado, todo esse extraordinario movimento de bateis que ondulavam em torno da _Novara_. E no _chalet_ da collina de Miramar,—o dôce ninho de amor agora solitario—a madresilva chorava em lagrimas de perfume insinuante o abandono em que a deixavam os dois ingratos coroados. E o castello, na grandeza lutuosa das suas ameias, parecia comprehender as lagrimas da madresilva saudosa, e responder-lhe agoirentamente: «Como é louca a ambição! como é cega a cobiça!»
A _Novara_, seguida da _Thémis_, levantou ancora, e de pé, no tombadilho, tanto quanto os oculos de longa vista podiam abranger, Maximiliano, immovel como uma estatua, voltado para Miramar, devorava com os olhos o seu bello castello solitario.
Com a prôa na Italia, a _Novara_ navegava desfraldando a bandeira do Mexico.
Maximiliano queria desembarcar em Italia para ir a Roma. Fazer o quê? Regular questões religiosas do Mexico, disse-se então. Pedir ao Padre Santo que abençoasse uma empresa aventurosa, porque não? As almas apprehensivas, como a sua, precisam, nos lances arriscados, procurar na fé um ponto de apoio, quando a esperança lhes sorri duvidosa.
Mas em Roma um aviso anonymo, affixado nas ruas da cidade santa, devia ter soado aos ouvidos de Maximiliano como uma prophecia terrivel, que vinha do seio mysterioso do incognoscivel.