Part 8
Morta de riso, mas duvidosa ainda, não obstante a fama de Harpagão do seu apaixonado sexagenario, miss Lorely mandou a Luiza interrogar novamente o veterano.
--Ó mulher de ... não sei que diga, já lhe expliquei que elle queria o jantar.
D’alli a pouco um creado, de casaca e gravata branca, entregava ao soldado um grande açafate, donde se exhalava um perfume capaz de fazer crescer agua na bocca ao menos glotão.
* * * * *
O general quando viu o Dionysio ir tirando do açafate, que lhe derreara os braços, uns após outros, muitos pratos de porcelana finissima com excellentes iguarias, ia tendo uma syncope.
--Quanto lhe não custaria aquelle jantar? pensou, e gritou logo para o veterano:
--Ó patife, não me dirás onde foste buscar tudo isso? Talvez a essa hospedaria da Entrada da Cidade onde pagam uma libra por dia os hospedes permanentes! Um jantar assim ... que sei eu?... é um dinheirão!...
--Cale-se para ahi, resmungou o Dionysio. É um jantar de principe e não lhe custa um vintém!
--Não custa!
Dionysio explicou tudo.
O general caíu prostrado n’uma cadeira, com a perna ainda mais espicaçada pela gotta. Depois, tomando uma resolução heroica, tirou tres libras da bolsa.
--As ordenanças ainda ahi estão?
--Não foi o meu general o proprio que as mandou para o quartel?
--Bem! Pois então irás tu novamente, mas vê lá não me faças outra asneira!...
--Outra! Qual foi a primeira, diga!
[Ilustração]
--Toma lá este dinheiro, vae á loja de bebidas da Carreira, onde eu te mandei no outro dia, e pede ao caixeiro que te dê seis garrafas de vinho da Madeira do melhor.
--Gasta-se tudo isto?
--Pois de certo.--E o general apertou de novo o joelho.--Elle que te empreste um cesto, e vae levar o vinho, n’um rufo, a casa da ingleza, com mais este bilhete de visita... Dize á senhora que te enganaste e que eu amanhã lhe explicarei tudo.
* * * * *
Em quanto o general, pelo sim pelo não, ia comendo o jantar, Dionysio desempenhava conscienciosamente a commissão, até chegar á porta de _miss_ Lorely, e tambem depois de entregar o vinho á creada.
D’alli a pouco voltou a Luiza com meia libra em oiro, e deu-a ao velho.
--A senhora manda muitos cumprimentos...
Dionysio interrompeu-a:
--Isto é para pagar o vinho?...
A creada desatou a rir.
--Ah! Você ri-se? Pois se a senhora quer pagar o vinho, então ha de pôr para aqui mais alguma coisa. Diga-lhe que não é uma, que são seis meias librinhas--tres libras!
A Luiza, rindo a bandeiras despregadas, foi levar o recado á ama, que riu muito mais ainda.
D’alli a pouco recebia o Dionysio tres libras.
--Aqui levo dinheiro de sobra, disse elle, e ia entregar honradamente a meia libra do principio.
--Essa é para a _mecê_, fez-lhe notar a creada.
--Acceito para não fazer desfeita. Adeusinho, minha flor, e obrigado!
* * * * *
Quando o general acabava de jantar, chegou o Dionysio com as tres libras.
A explicação foi longa e calorosa.
Tanto gritou o amo como o creado.
--Ora ainda em cima! Por eu lhe zelar o que é seu! respondia o Dionysio, indignado. Se vocemecê gastasse as tres libras, dava-lhe p’ra ahi alguma coisa, e nunca mais prestava para nada.
O caso é que o general parecia ter-se restabelecido instantaneamente da gotta. Vestiu-se á pressa, e foi ás Angustias, pedir desculpa a _miss_ Lorely.
A ingleza perdoou tudo, e confessou ao seu apaixonado que nunca se tinha divertido tanto. Partícipou-lhe ao mesmo tempo que, em voltando a Inglaterra, casaria com um primo, de quem era noiva desde os quinze annos.
Nem por isso o general deixou d’alli em diante de jantar nas Angustias, nem a musica de tocar no atrio do palacete.
Se perdia a noiva, não queria perder tambem os jantares.
Quanto ao Dionysio...
Continuou trapalhão como sempre.
E por isso eu, não me fiando no que elle dizia e sem paciencia para tirar a limpo este ponto historico, termino como principiei:
Não sei com certeza se o general tinha desembarcado nas praias do Mindello.
[Ilustração]
[Ilustração]
O Aprendiz De Barbeiro
A Maria José saiu da Candelária de noite escura, e por isso quando chegou á Magdalena não estava ainda um unico freguez a fazer a barba na loja de João Cardoso.
O pequeno d’ella, o Antonio, apenas a viu, largou uma navalha que estava afiando no assentador e correu para a porta.
A mãe puxou-o para fóra, porque não queria que o mestre ouvisse o que ella tinha que dizer ao filho.
Vergonhas não se querem assoalhadas.
Olhou para o rapaz, e a voz prendeu-se-lhe na garganta. Tinha pejo, mas por fim decidiu-se. Ella bem queria lidar como as outras mulheres, que a bem dizer fazem por toda a ilha o dobro do trabalho dos homens, mas não podia, por causa d’aquella mão aleijada.
Já não sabia com que cara apparecesse ás visinhas. Tinham todas muita pena d’ella, é verdade, ajudavam-a a viver, mas ás vezes, por muita vontade que tivessem, tambem não podiam. Só Deus sabe das faltas, que cada um padece!
Pedir aos ricos, nem pensar n’isso... Quem nunca soube o que é não ter, menos acode aos que precisam.
E vae d’ahi lembrou-se, custando-lhe muito, de vir pedir alguma coisinha ao filho.
O Antonio bem queria fazer-lhe a vontade, mas como? A féria d’aquella semana já estava gasta n’um fato, que tinha ajustado dias antes, e por signal bem barato. O mestre João não queria ver em casa maltrapilhos, não tanto por si, mas por ’môr dos freguezes. Á sua loja iam os senhores mais ricos da villa.
--Não pódes então dar-me nada? perguntou a Maria José, com os olhos rasos de lagrimas.
--Posso, sim senhora, mas é tão pouco... A minha mãe bem sabe que se muito tivesse... Porque estou eu aqui? Para mais a míudo lhe poder fazer bem, e para ir vel-a de vez em quando. Mas um dia pego em mim e abalo n’uma d’essas baleeiras!
--Lá isso não, filho, só se queres matar-me! Bom de lei és tu. Excusas de m’o dizer! Saes todo a teu pae. Ah! Que se aquelle Caim do Gaspar Dutra não m’o tivesse matado!... Coitadinho! Ainda estou a vel-o a arquejar, com a cara toda suja de sangue--parecia um bicho!--os olhos já envidraçados a fincarem-se em mim ... como a querer falar, mas sem poder! Era para me dizer quem o tinha atirado do alto da rocha.
Mas a esse respeito não restavam duvidas á Maria José.
É verdade que na audiencia em que o Gaspar Dutra foi responder ao Caes do Pico, porque o suspeitaram do crime, visto andar ha muito de rixa com o Manoel Luiz, o absolveram por falta de provas, e não appareceu uma só testemunha de vista.
Mas d’ahi a dias, depois de o malvado embarcar para a America, por ter ficado muito arrastado com os gastos da justiça, appareceu em casa da viuva, já perto da noite, a tia Quiteria que tinha uma fazendinha na rocha, mesmo ao pé da outra por que o Gaspar Dutra e o Manoel Luiz andavam desavindos.
A velha tomou de parte a Maria José e depois de obrigal-a a jurar que não diria nada a ninguem, em quanto ella fosse viva, contou-lhe toda a historia do crime. Estava perto do sitio, mas nem um nem outro a tinham visto.
--O Gaspar Dutra é que começou a _abregoir_. O Manoel Luiz desesperou-se e disse-lhe uma má palavra.--Os santos estão no altar!--O outro poz-se fulo, correu para o Manoel e colhendo-o á falsa fé, tal geito lhe deu que o _prantou_ pela rocha abaixo. O corpo a principio não levava muita força, mas depois caíu tão depressa, que nem uma bala de espingarda. Quando deu no chão da rocha, onde ficou estatelado e de braços abertos, vinha já de uma altura de tres ou quatro casas de sobrado. Rebentou-lhe de certo alguma coisa lá por dentro, tanto que o pobre do homem não disse mais palavra na meia hora que ainda viveu.
A Quiteria desculpou-se de se ter calado áquelle respeito, dizendo que o Gaspar Dutra e o irmão não eram _boas folhas_. Se o matador, por causa d’ella, fosse parar á costa d’Africa, o outro era muito capaz de lhe fazer alguma, que désse que falar. Era o Gaspar tão ruim, que andando embarcado tinha querido matar o cosinheiro de bordo, e levara n’essa occasião duas navalhadas, de que lhe resultou o signal em cruz, que tinha na barba, do lado esquerdo.
O Antonio ouvira dezenas de vezes a mãe contar a historia, mas nunca tinha sentido tamanha amargura, um desejo tão furioso de vingança.
Estivesse o pae ainda vivo e a mãe não precisaria de pedir esmola, e já elle teria ido para a America enriquecer, e não estaria alli a ganhar tão pouco.
E lembrou-se do pae--das festas que elle lhe fazia quando vinha á noite para casa, seguido pela _Boníta_, a cadella de gado. Ceiavam, e o pequenito para adormecer queria sempre que o pae o deitasse no collo. O Manoel Luiz fazia-lhe a vontade, e mal o Antonio estava pegado no somno, despia-o todo, deitava-o na cama, com um cuidado, um carinho, de que nem a propria mãe seria capaz.
Quando o pae morreu, o pequeno tinha oito annos. Mostrou pena, como se já fosse uma pessoa grande.
N’aquella manhã renascia a dôr.
A mãe com tanta precisão de dinheiro para matar a fome, e o filho tendo só um pataco que lhe dar!
O mestre João era muito agarrado ao dinheiro e não lhe emprestaria nada.
Metteu a mão na algibeira, levou-a muito fechada até á mão direita da Maria José, e deixou-lhe a moeda entre os dedos, escondida. Beijou a mão da mãe e poz-se a chorar.
N’isto a voz de João Cardoso, chamou de dentro imperiosamente:
--Antonio! Ó Antonio!
O rapaz entrou na loja, de corrida.
Já lá estavam dois freguezes.
* * * * *
A concorrencia foi grande n’aquelle domingo.
Todos queriam apresentar-se na missa conventual com a cara bem escanhoada, para que nada deslustrasse o fato de ver a Deus.
João Cardoso, sem perder a presença de espirito, ia desbravando os matagaes incipientes que, por ausencia da navalha, tinham brotado n’aquella semana.
Animou-se gradualmente a conversa. De um assumpto politico--a escolha do futuro regedor--saltou para o phylloxera, que tinha apparecido pouco antes n’uma vinha do Fayal.
--Aquillo--opinava o Estacio Manuel--é pelos modos um bicho que come a raiz da cepa, como o caruncho roe a madeira, e o gusano o costado dos navios.
--Bicho me pareces tu--atalhou o Amaro, do seu canto.--Se fosse bicho podia-se lá dizer que tinha apparecido uma nódoa d’elle!...
--Nódoa?
--É o que ainda agora li no _Fayalense_. Nódoa de bicho, não entendo.
O Estacio não se deu por vencido:
--É que as terras aonde elle chega ficam pretas como esses _mysterios_, que ahi temos por toda a ilha.
O mestre barbeiro ensaboava, n’esta occasião, a cara do terceiro freguez; suspendeu a operação e voltando-se para o auditorio, exclamou sentenciosamente:
--Sabem o que lhes digo? que se essa praga de nome tão arrevezado salta do Fayal para cá, adeus vinhas do Pico! É cada qual entrouxar a roupa e ala para _Bastão_![2]
Não tinham acabado ainda os applausos provocados pelo dito, quando entrou na loja um homem trigueiro, muito alto, largo de hombros e um tanto desmanchado no andar. Na orelha direita d’este colosso luzia uma arrecada lisa e pequena, e nos pulsos e nas costas das mãos alastravam-se, em prodiga tatuagem, ancoras e estrellas.
O sino da egreja proxima tocou passados instantes, chamando para a missa. Era a terceira vez.
Ficaram só dois freguezes na loja. Um, que o mestre começou a barbear, tinha ouvido a missa das almas. O outro, o da arrecada, coube ao Antonio, e não mostrou dar grande attenção ao chamar pressuroso do sino.
No entretanto pelo largo batido de sol passavam azafamadas e alegres as raparigas do povo, com os lenços de chita, de pontas desamarradas, presos á cabeça somente pelos chapeus de palha de abas largas e copa baixa, cingida por um cordão de lã encarnada. Para ellas a missa não é só uma devoção, é o repouso, o esquecimento momentaneo de uma existencia monotona e trabalhosa.
O Antonio não podia mais. Ainda bem que era aquelle o ultimo freguez! Depois da missa não viria mais nenhum. Não sabia como se tinha aguentado tanto tempo. O seu desejo era fugir d’alli, e, quando ninguem o visse, desatar a chorar desconsoladamente, para ver se lhe passava aquella ancia, que o affligia. Só por grande milagre não enchera de lanhos as caras dos freguezes. Felizmente aquella barba depressa se fazia. Não tinha menos de quinze dias, pouco resistia á navalha.
O rapaz teve de repente um deslumbramento. Na face esquerda do homem que estava alli, nas mãos d’elle, havia um signal, que a principio se não podera ver, porque a barba o escondia, e que era exactamente egual ao do Gaspar Dutra: duas cicatrizes em cruz!
Perguntou, com a voz algum tanto suffocada:
--O senhor é cá do Pico?
--Eu? Sou. E porque?...
--É da Candelária?
--Quem t’o disse?
--Quiz-me parecer. E chama-se?...
--Gaspar Dutra. Tens alguma herança para me entregar? Ha-de ter morrido muita gente minha, n’estes oito annos que estive na America.
Não havia duvida.
O rapaz sentiu nos ouvidos um zumbido ensurdecedor, faltou-lhe a vista, passou-lhe um calafrio por todo o corpo. Devia ser assim a approximação da morte!
Tornou a encarar toda a sua desgraça. Exerceu, porém, um esforço violento sobre si mesmo, e serenou apparentemente.
O Gaspar não suspeitou de nada. Via-o de costas, afiando a navalha. Por fim disse-lhe de repellão:
--Anda! Acaba com isto!
--Sim, senhor...
--Tu estás parvo! bradou-lhe o mestre, do outro lado da loja, sem largar a cara, que já tinha meio rapada.
O aprendiz poz machinalmente mais sabão na barba do freguez.
--És da Candelária? continuou este. Conheces lá muita gente?
--Conheço... Conheço a Maria José, viuva do Manoel Luiz... O senhor conhece-a?
E os olhos, que se fitavam no fio da navalha virado para a garganta do Gaspar, levantaram-se n’uma interrogação anciosa.
--Olá se conheço! E tambem conheci o marido... Um grande marau!
O Antonio teve um espasmo. Os nervos contrahiram-se-lhe medonhamente, e o gume do aço cortou bem fundo no pescoço bronzeado do assassino, abrindo uma ferida alongada, de onde o sangue espadanou com violencia.
O Gaspar ainda ergueu os braços, soltou um arranco, estrebuxou e caíu de lado, no chão. Na toalha, presa por baixo da barba, o sangue formava uma larga mancha vermelha, que se foi extendendo a mais e mais.
João Cardoso e o outro homem, extaticos, boquiabertos, transidos de pavor, não ousavam approximar-se. Por fim, em quanto o freguez corria para a porta a gritar «Aqui d’el-rei!», o mestre, vendo a navalha caída no chão, chegou-se ao pequeno, que estava de parte, todo a tremer, e a olhar com espanto para aquella massa enorme agitada pelas convulsões da agonia.
Agarrou-o por um braço e perguntou-lhe:
--Que foi isto, _grandessissimo_ diabo?
E o Antonio, a gaguejar, como um bebedo:
--Foi ... foi elle ... que matou meu pae!
[Ilustração]
[Ilustração]
A Allemã
FOI ha bastantes annos que a vi pela primeira vez.
Loução e garrido, balouçava-se brandamente na enseada do Funchal o _Maria Pia_, vapor da carreira de Lisboa, e rodeado ainda por um enxame de botes, que tinham levado para bordo passageiros e bagagens, apromptava-se para deixar, depois de uma visita de tres dias, a denominada _Flôr do Oceano_.
Eu, debruçado na amurada, e já amargurado pela saudade, seguia tristemente com a vista um barco que, aproado á terra, ia tornando cada vez maior a distancia que começava a separar-me dos unicos entes a quem prezava no mundo.
Estava, havia não sei quanto tempo, n’esta contemplação, quando attentei n’outro bote, que, fazendo força de remos, demandava rapidamente o vapor, apesar de o tiro da partida ter já de ha muito resoado pelas fragas que bordam a Madeira.
[Ilustração]
Não tardou que atracasse ao navio, e momentos depois entrava para o convez uma senhora com o rosto tapado por um veu cinzento, e amparada por dois sadios filhos da ilha, em quem reconheci dois _homens de rede_, os quaes tamanho serviço alli prestam aos tisicos, transportando-os n’aquelle commodo descanso, tão predilecto dos creoulos e de todos os que habitam as regiões tropicaes.
Conduziram-a para uma cadeira de vimes, que já estava disposta com segurança no meio da tolda, do lado da camara de primeira classe, e ahi a depuzeram com delicadeza á primeira vista pouco consentanea com o exterior um tanto rude d’aquella pobre gente.
Feitos os ultimos preparativos para a partida, poz-se o vapor em movimento, aproado a leste, e cortando veloz as mansas aguas da enseada.
Tres horas, talvez, estive a fitar, primeiro as encostas accidentadas e verdejantes da ilha, que fugiam rapidas para o lado do occidente, e depois os pincaros abruptos, que coroam aquella enorme massa vulcanica, e que cada vez se iam tornando menos distinctos, já assumindo uma côr entre parda e azulada, já assimilhando-se a nuvem que mal sobrepujava a superficie do oceano, até que finalmente se occultaram de todo.
E eu, ancioso de rasgar com a vista o horisonte para ver uma vez ainda os que deixára, e enviando-lhes um ultimo adeus na vaga que passava fugaz ao lado do navio, voltei-me para dentro, triste e desanimado, como quem de repente se encontra só na vida.
Foi então que a pude ver.
Imagine-se, por um momento, uma d’aquellas divindades esquivas e vaporosas, de que a phantasia dos bardos do norte povoa os lagos e as florestas: a mulher que eu tinha deante de mim era mais ligeira, mais diaphana do que essas creações imaginarias. Á ultima claridade da tarde observei-a detidamente.
O rosto era de um esplendor lacteo, de uma transparencia de alabastro; se bem que emmagrecido pela doença, ainda ostentava o typo septentrional, em toda a sua formosura e pureza.
Contrastando com a pallidez morbida, desenhavam-se-lhe nas faces as rosas purpurinas e terriveis da tisica.
Nos olhos, do azul mais puro, tristes e resignados, havia uma vaga aspiração para as espheras brilhantes e luminosas, uns reflexos de além do tumulo.
Recostada languidamente nas almofadas que estofavam a cadeira, e com a cabeça, aureolada de finissimos cabellos louros, descahida para traz, olhava para o mar, com a indifferença e melancholia de quem perdeu de todo a esperança.
De quando em quando, uma tosse pertinaz fazia arfar-lhe o peito, e por momentos, se bem que rapidos, transmudava-lhe a expressão do semblante, de serena em dolorosa.
N’outra qualquer occasião ter-me-hia despertado interesse, mas então impressionou-me mais vivamente do que nunca, aquella mulher, moça, bella, e, na apparencia, tão gravemente enferma, que não tinha a seu lado um parente, um amigo, um enfermeiro sequer.
Os passageiros, que o enjôo não obrigára a recolher aos beliches, passavam perto d’ella com indifferença, e sómente o capitão se lhe acercou uma vez, a perguntar-lhe se não julgava melhor descer para a camara.
--Melhor! respondeu ella em francez e com sorriso entre amargo e benevolente. Aqui ao menos tenho este ar tão puro. Prefiro ficar. Obrigada!
E deixando caír novamente a cabeça na almofada, voltou á primitiva immobilidade.
Quando desci á camara, á hora da ceia, não pude esquivar-me a perguntar ao capitão informações a respeito da desconhecida.
Eis o que elle sabia:
Viera no anno antecedente da Allemanha, sua patria, em companhia de um irmão, buscar ao clima benefico da Madeira allivio para os soffrimentos, que os medicos do seu paiz não tinham sabido debellar e a que prophetisavam até um proximo e fatal desenlace.
As sinistras previsões scientíficas realisaram-se, porém com uma differença: a victima não foi ella, mas o irmão, que ferido de morte subita, a deixou só n’uma terra de estranhos, e apavorada com o pensamento de ver-se, na derradeira hora, cercada apenas de indifferentes e mercenarios.
Estar alli nem mais um momento!
Partia pois, esperançada em ter ainda vida bastante, mercê de Deus, para voltar ao que por tanto tempo aprendera a amar: ia morrer nos braços da mãe.
Ás dez horas voltei para o convez.
Era uma noite de agosto, limpida e sem lua; mal soprava uma leve aragem, que ia a pouco e pouco dispersando os rolos do fumo que o vapor deixava após si.
As estrellas reverberando nas ondas inquietas, afiguravam-se, á vista illudida, de outros tantos luzeiros fluctuantes na massa fluida.
O silencio imponente da solidão era perturbado apenas pelas pancadas cadenciadas do helice, e pelo rumorejar surdo da agua em torno do navio.
E em redor tudo immenso: a amplidão etherea e a vastidão dos mares, o infinito e o seu espelho, como disse madame de Staël. E devassando os arcanos da natureza, e affrontando-lhe a soberania, o homem, só e illuminado pelo seu genio, deixando escripta na esteira do navio a divisa do progresso.
Logo que os olhos se me habituaram á meia obscuridade que reinava no convez, descobri-a de novo no logar onde a tinha deixado.
Nem eu sei dizer a tristeza que se apossou de mim.
Tornava para os seus, porém elles, em vez da alegria que traz sempre a volta d’um parente querido, teriam a expectação fatal d’uma desgraça eminente.
A mãe, ao apertar ao seio a filha, ao cobrir-lhe o rosto de beijos, sentiria na ardencia da febre que lhe devorava a vida da sua vida, os amplexos antecipados da mortalha.
E aos vinte annos!... Era bem cedo para morrer, como, da meiga virgem de Procida, diz o poeta das _Meditações_.
Ao menos, triste consolação! uma vez arrebatada á vida, mão amiga e carinhosa iria depôr-lhe sobre a campa as coroas votivas da saudade, e a mesma brisa, que lhe brincara com os cabellos de creança, perpassando por entre os cyprestes, levar-lhe-hia, nas azas perfumadas, os suspiros dos que a choravam.
Dois dias depois chegámos a Lisboa.
Perdi-a de vista ao desembarcar, mas nem por isso a esqueci; e mais tarde, nas horas de melancholia, não poucas vezes aquella mulher, antes visão que realidade, vinha, circumdada de uma aureola de triste poesia, pousar-me docemente na imaginação.
* * * * *
São passados sete annos e com elles quantas illusões!...
Entremos por momentos na alfandega de Lisboa.
Na casa das bagagens vae um borborinho indescriptivel: os passageiros, chegados ha pouco da Madeira, no _Maria Pia_, e do Brazil, não sei em que paquete, reclamam com instancia a propriedade; os fiscaes impacientam-se; as malas e os bahus fecham-se ruidosamente, depois de examinados pelas vistas prescrutadoras dos aduaneiros; os carros de mão giram velozes sobre o asphalto; os sinetes, molhados em tinta azul, percutem sem cessar os disticos de cada lote...
Eu, á busca d’um amigo a quem esperava, ia correndo os grupos, já meio desorientado pela confusão, quando sons ainda mais discordantes me vieram ferir os ouvidos.
Junto de mim, discursava-se com animação, n’aquella lingua que, segundo já alguem disse, qualquer póde falar mettendo um fio de retroz na garganta, e que o auctor do _Fausto_, com o melhor fundamento, poz na bocca do diabo.
Volto-me, para ver quem vinha juntar o seu allemão áquelle motim destemperado, e vejo...
Quem ha ahi que não conheça as milagrosas propriedades nutritivas attribuidas ao medicamento, que tem o nome de uma famigerada cortezã franceza, e que tão apregoado foi pelos jornaes das cinco partes do mundo?
Pois era _ella_, a allemã ... depois de ter tomado a revalescière Dubarry.
A principio descri dos sentidos.
Admittia-se porventura que o ente ideal e vaporoso qual ondina do nevoeiro, que eu entrevira n’outro tempo, se houvesse transformado no que eu tinha deante de mim!
Mas não havia que duvidar.
O rosto era o mesmo, embora á transparencia alabastrina e ás rosas da tisica tivesse succedido ... como hei de dizel-o?... o adipe abundante e as côres sádias da robustez. A cabeça, em vez de reclinada morbidamente, conservava-se levantada e vivaz. A fraqueza de valetudinaria transformara-se em fortaleza, que faria inveja ás nossas matronas de Diu, de que fala Jacintho Freire, ou a um soldado do imperador Guilherme.
Eu estava indignado!
Scismara sete annos n’aquella mulher, enterrara-a, recitara-lhe nénias sobre a sepultura, para um dia,--oh! prosa da vida!--ousar apparecer-me sã, robusta, a vender saude.
Era quasi uma abominação, um crime de leso-ideal; quanto melhor não fôra que tivesse morrido!