Part 7
Em frente da casa dos guardas de alfandega, alçada no sopé dos rochedos, um homem trigueiro, alto, de apparencia militar, alonga a vista ao de cima das aguas, e olha com persistencia para o perfil escuro de um morro, que ao longe, muito para a direita, fecha o horisonte terrestre, com grande crueza de tons. A ventania sacode-lhe incessantemente o capote e obriga-o a fechar os olhos de instante a instante.
No mar divisa-se muito ao largo uma vela, uma só: mas o guarda antevê perigo imminente, e mal comprehende que o deixassem alli com um unico companheiro, armados ambos de espingardas detestaveis, quando os contrabandistas pódem ser muitos, e hão de trazer por certo bellas carabinas, que nunca erram fogo e que dão tres ou quatro tiros, em quanto as armas antigas a custo disparam um só.
* * * * *
A lancha, mal a noite acabou de fechar, largou de bordo carregada de tabaco, e navegou para terra cautelosamente. Os remos cahiam na agua ao mesmo tempo e rasgavam sem bulha o flanco das ondas. Dois outros maritimos, de sueste enterrado na cabeça, acompanhavam os remadores e tinham perto de si, á cautela, duas carabinas americanas. Partira da barca uma segunda lancha, que devia correr perigos eguaes, até se haver passado todo o contrabando--umas duzentas caixas de tabaco.
* * * * *
O João Luiz, o guarda, hesitava em recolher-se na casa de abrigo, apezar do frio. A denuncia tinha sido clara. Perto d’alli, na pequena enseada onde o mar é quasi sempre socegado, deviam desembarcar as caixas de tabaco. Lá estavam doze guardas. Como, porém, junto da casa tambem se saltava sem difficuldade, o chefe fiscal tinha mandado guardar o posto pelo João Luiz e pelo Vicente. Não havia ninguem fóra de serviço.
De repente o João Luiz pensou no Estacio e estremeceu.
Elle bem tinha dito muita vez ao irmão que se desgraçava continuando a ser contrabandista, e que um homem casado e pae de dois filhos não deve arriscar a sua vida por um boccado de dinheiro. Palavras perdidas.
O Estacio era teimoso e não largava já o modo de vida, a que se dedicara. Parecia, a bem dizer, uma tentação. Que lhe importava o ser mal visto pela gente da alfandega, se em poucas horas ganhava o que muitos outros não faziam com mezes e mezes de trabalho ao sol e á chuva? E o caso é que o Estacio andava bem vestido, trazia a mulher e os filhos que se podiam ver, e ainda ultimamente tinha comprado uma mobilia americana, e um relogio de parede com uma caixa mais luzidia que a prata.
O proprio perigo offerecia-lhe attractivos singulares. Ás vezes, durante as noites de trabalho, elle bem pensava que podia levar, quando mal se precatasse, com uma bala e não tornar a ver a mulher nem os filhos, principalmente o mais mocinho, o Manuel, de quatro annos, tão louro e tão rosado, que parecia tal qual um menino Jesus. Mas as ideias sombrias passavam rapidas, e o Estacio scismava logo depois que poderia vir a ter um predio, muitos predios, como alguns senhores enriquecidos d’aquelle modo, que nem por isso eram menos estimados por toda a gente. Pelo contrabando ganhava o pão da sua familia e ganhava-o com risco de vida, o que já não era tão pouco!
Um dia esteve quasi a brigar com o João Luiz, por este lhe dizer que o contrabandista é um ladrão como qualquer outro, visto que rouba o Estado e vae contra as leis; mas por fim soltou uma gargalhada e respondeu-lhe que lá a roubar o Estado ninguem levava as lampas aos empregados publicos, uns mandriões que passam vida regalada e que recebem no fim de cada mez uma mão-cheia de dinheiro. Ladrões esses!
* * * * *
Noite fechada, principiou a soprar um vento mais frio. O João Luiz ageitou-se melhor no capote e encolheu-se a um canto da rocha, de onde se avistava bem o mar, até á costa. Passara-se uma hora ou mais talvez, quando elle, que á força de estar attento via já tudo indistincto e como que a apagar-se, julgou sentir bulha do lado da agua. Ia para erguer-se, mas logo mudou de tenção; foi de rojo até á porta da casa e chamou em voz baixa o Vicente. Tornado ao mesmo sitio, conheceu claramente que andava perto um bote.
--Serão contrabandistas ou pescadores? murmurou ao ouvido do outro guarda, que tinha vindo postar-se ao lado d’elle, tambem com a espingarda engatilhada, para o que desse e viesse.
Mas não podiam fazer assim fogo, á falsa fé, detraz de um rochedo, como o ladrão que espera um homem e o mata para roubar. Teve este pensamento e sem importar-se com as ordens recebidas bradou:
--Quem anda ahi?
Não teve resposta. Repetiu a pergunta. O mesmo resultado. Ainda duvidoso, e para certificar-se ou intimidar os tripulantes do bote, disse com voz mais forte:
--Vocês são mudos?! Talvez uma bala os obrigue a falar.
Do bote partiram dois clarões repentinos.
Uma das balas tirou uma lasca de pedra, ao pé do Vicente.
--Ah! Grandes ladrões, esperem lá! gritou o João Luiz e ambos os guardas, com as armas descançadas na rocha, desfecharam ao mesmo tempo, quasi instinctivamente.
Do lado do mar pareceu-lhes que viera um gemido, mas, passada a obcecação momentanea produzida pelos clarões, já não enxergaram a embarcação.
O silencio da noite era quebrado tão sómente pelo arfar do oceano junto á rocha.
O estampido fez com que chegassem, em acto continuo, o chefe fiscal e os doze guardas.
A denuncia tinham-a dado provavelmente os mesmos contrabandistas, marcando para outro sitio o desembarque, a fim de desnortearem a gente da alfandega.
O chefe zangou-se muito, por deixar de se fazer a tomadia, mas a final cahiu em si e absolveu o guarda, pela consideração de que contrabandistas de tanta audacia não se venceriam ás primeiras. Demais, o perigo tinha-lhe merecido sempre um especial desagrado.--Duas horas depois dormia em casa a somno solto.
O João Luiz esteve de serviço toda a noite.
* * * * *
Rompeu formosa a manhã immediata.
Quando o guarda se recolhia a casa, o sol já ia alto e lançava myriades de setas de oiro atravez da atmosphera, lavada pela chuva dos dias anteriores. O mar, á direita, encrespava-se em ondas curtas, e alongava na praia linguas de espuma.
Quasi ao entrar na Horta o João Luiz avistou no areal, á borda da agua, um grupo de homens a rodear curiosamente o que quer que fosse. Chegaram-lhe simultaneamente aos ouvidos, uns gritos de mulher.
Approximou-se e viu um cadaver extendido na areia.
Reconheceu o Estacio.
No peito, que a camisa aberta e ainda molhada deixava a nu, havia um buraco pequeno, redondo, negro, de onde gotejava um tenue filete de sangue.
A mulher do contrabandista, de joelhos ao pé do marido, soltava gritos penetrantes, arrepellava o cabello e cahia de vez em quando desamparada sobre o cadaver, em cujo rosto se desenhava constantemente, persistentemente, a grande ancia que precedera a morte e que a morte não pudera apagar.
A infeliz cahiu finalmente n’uma atonia profunda, e sentou-se na areia, sem despegar os olhos de cima do morto, e murmurando no meio de um tremor:
--Ai! O meu rico marido! O meu rico marido!
Ao pé da mãe o _Manilinho_ chorou em quanto a viu chorar. Depois, quando ella socegou, approximou-se do pae, poz-lhe as mãosinhas na cara, e disse a medo, muito admirado:
--Como o pae está frio! E sempre a dormir!
O guarda, horrorisado de si mesmo, pois fôra talvez a bala da sua espingarda que tinha morto o irmão, olhava para o pequenino, e ao vel-o tão innocente e tão divinal, levantou os olhos para o ceo, e perguntou porque seria que Deus, mandando á terra anjos como aquelle, os não deixava fazer milagres.
[Ilustração]
[Ilustração]
Piloto
JÁ vinha anoitecendo, quando o Sergio, de pé descalço e com a trouxa da roupa enfiada n’um cajado e pendente do hombro, saltou da estrada para a rocha.
Sobre o horisonte occidental as nuvens, em longas fitas franjadas, perderam a claridade vivissima de um quarto de hora mais cedo, e tomam uma côr plumbea esbranquiçada: pelo resto do ceo alastra-se um azul uniforme, que a diminuição de luz vae tomando mais opaco.
Convencido de que ninguem o vigiava, foi descendo a escarpa de rocha em direitura ao mar, onde se avistava, muito ao longe, um navio, com as velas pandas de vento.
--Se alguem me viu é que está o diabo, pensou o rapaz, e novamente lançou a vista pela ribanceira acima, e pela enfiada dos pincaros, que recortavam lá muito no alto, sobre o azul, o seu perfil dentado e sombrio.
Áquella hora, a estrada é pouco frequentada. Só de vez em quando lá passam tres ou quatro trabalhadores, que foram dar o dia á Horta, e que voltam para casa, a bom andar, antegostando a ceia, só de avistarem uma ou outra chaminé lançando pachorrentamente, para a limpidez do ar, uma espiral de fumo.
O Sergio, depois de olhar por muito tempo, a ponto de os objectos fixados se lhe tornarem quasi indistinctos, poisou no chão a trouxa, onde vinha toda a sua roupa e um bôlo torrado rescendendo a milhã cheirosa, e sentou-se com os pés muito perto da agua, que chapinhava brandamente no interior da pequena angra formada, n’aquelle sitio, pelos rochedos da costa sueste do Fayal.
E tempos sem fim, com os olhos fitos em o navio, que bordejava a boa distancia de terra, ficou absorto no meio d’aquelle grande silencio, esperando pela canoa, que havia de leval-o a occultas para bordo da baleeira, conforme tinha tratado com um _senhor da villa_.
Sem saber como, foi perdendo a grande resolução que trazia de embarcar, para fugir ao recrutamento e não ir para a Terceira, para o _Castello_.
Obedecia tambem a outra razão: na baleeira ia ter á America, á _Calafóna_, onde tinha enriquecido o Luiz Garcia, e aquelle senhor já velho, dono de uma casa de sete janellas ao pé da egreja da Féteira, e tantos outros!
Nada! O Sergio estava bem decidido, tanto que viera para alli, depois de dar um abraço na mãe e outro no irmão, mais novo do que elle dois annos.
Por isso mesmo não era capaz de saber o motivo por que sentia uma ancia no peito, um aperto na garganta, e tanta vontade de chorar.
Talvez fosse porque a mãe o não tinha acompanhado até ali, para despedir-se.
--Ora! Se foi justamente para a coisa não dar tanto nas vistas! Um visinho não lhe queria bem e podia ir participar á _villa_. Ha gente tão má!...
Mas, fosse o que fosse, o rapaz sentia-se a modos exquisito, e estava já a pedir que apparecesse quanto antes a canôa.
O que havia de lembrar-lhe agora!...
Todas as historias que lhe tinham contado das baleeiras: a de um capitão que moía a tripulação a pontapés e chicotadas. Um dia o cosinheiro respondeu-lhe com uma bofetada, que o estirou no convez. Foi logo mandado pôr a ferros, e nunca mais ninguem o viu. Contavam depois os de bordo, que tinha sido cosido a facadas pelo commandante, e atirado pela borda fóra.
--Mentiras, disse por entre dentes o Sergio, e poz-se a olhar para o mar, a ver se lobrigava a canôa.
Não viu nada.
--Dando se mal na baleeira, desembarcava em _Béteféte_[1], e havia de ir parar á _Calafóna_, onde o ouro é tanto, que até se cava com o sacho!
Mas n’esta occasião lembrou-se de uma coisa, que o Luiz Garcia lhe dizia ás vezes--que por cada um que voltava vivo, ficavam por lá muitos, mortos sem se saber de que, se de fome, se de cansaço...
--Pois sim! Apesar d’isso vão de todas essas ilhas navios carregadinhos de gente para a America. Mal feito fôra não ir eu tambem, concluiu o Sergio.
Ouviu-se a curta distancia um latido, e logo depois um cão pequeno, de pello curto, corria para junto do Sergio, muito festeiro, muito alegre.
--Olha o Piloto! Vae-te d’aqui, diabo!
E deu-lhe um pontapé, que o animal evitou fugindo-lhe com o corpo. Mas d’alli a um instante já voltava, caracolando-se.
--Txeta, _Caim_! exclamou o Sergio mais zangado ainda, e atirou uma pedra ao cão, acertando-lhe n’um vasio.
O Piloto, ganindo e de cabeça baixa, subiu a rocha, deitou-se no cimo e poz-se a espreitar o dono, com o focinho extendido sobre as patas, e os olhos fulvos brilhando na meia obscuridade, como dois carvões mal apagados.
--Admira que viesse dar commigo! pensava o Sergio, sentando-se de novo. Se o tinha fechado no palheiro!...
Insensivelmente foi voltando ás idéas de momentos antes.
Mas com essas vinham outras...
Sim! Quando o cão fosse d’alli para casa, havia de empurrar a porta com o focinho, e se não a podesse abrir, ficaria a raspar com as unhas até que apparecesse alguem, como tinha feito ainda na vespera, ao tornar com o dono da _folga_ do José Pedro.
--Mas esta noite volta sósinho!
E a este pensamento o Sergio sentiu a garganta apertar-se-lhe ainda mais, porque se lembrava de que a pobre mãe teria a mesma idéa e havia de chorar pelo filho, que já andaria a essa hora sobre as aguas do mar.
Para esquecer-se, começou a recordar-se da _folga_, onde tinha bailado com a Anna cinco _chamaritas_ a fio, a ponto de o José Pedro, já de mau modo, dizer o costumado «Caras novas ao terreiro!»
Era boa rapariga a Anna. Quando o vigario da Féteira os via juntos a conversarem, dizia-lhes por graça: «A modo que vocês ainda me hão de dar que fazer lá na egreja.»
Um e outro ficavam encarnados como uns pimentões, mas não queriam mal ao sr. padre por _entícar_ com elles. Se andava sempre com o _canîcînho_ na agua!...
Lembrou-se depois de que a Anna, apesar do que lhe tinha promettido, podia cansar-se de esperal-o e casar com outro, por julgar que elle, colhendo-se á solta, faria como os passaros, e não voltaria ao laço. A mesma peça tinha pregado a Aurelia ao João Furtado.
Só com esta desconfiança, o rapaz sentiu uma afflicção enorme, que lhe subia ao peito e o afogava: fincou os cotovellos nos joelhos, apertou a cabeça entre as mãos e poz-se a chorar desapoderadamente.
Só tinha chorado assim no dia da morte do pae. Uns homens mal encarados vieram metter o defuncto na tumba. A creança poz-se nos bicos dos pés e deitou a cabeça por cima de um dos lados d’aquella caixa preta: quando viu o pae lá dentro, muito amarello, imaginou que aquelles homens é que lhe haviam feito mal, que o tinham _pisado_ muito e desatou n’uns taes gritos, que ninguem o pôde calar.
D’ahi por deante nunca mais chorara. Por isso os olhos lhe tinham tantas lagrimas e o peito tantos soluços.
O Piloto veiu no entretanto chegando-se para o dono, manso e manso; pousou-lhe as patas deanteiras sobre a perna e começou a lamber-lhe as mãos e a cara com uma grande meiguice, como se quizesse consolal-o n’aquella dôr.
O rapaz não teve alma de enxotal-o. Afigurou-se-lhe que não era o cão, mas a familia, a casa, todos os sitios por onde o Piloto o seguia, que estavam a chamal-o carinhosamente; que a mãe e a Anna lhe diziam ao ouvido, baixinho: «Não te vás. Podes ser feliz na tua terra, com a tua mãe, com a tua mulher!»
Levantou-se de chofre, poz a trouxa ao hombro, e galgou a rocha. Chegado ao cimo, estacou duvidoso:
--Mas então ia parar ao _Castello_!...
Um senhor da villa promettera-lhe uma vez, que se fosse com elle no tempo dos votos, o livraria de ir para soldado.
--Não lhe custava a deitar um papel na egreja, affirmava o rapaz.
Na pequena angra entrava n’este momento a canôa. Uma voz dizia asperamente:
--Onde estará metido aquelle diabo?
O Sergio, já de longe, ouviu isto, e agachou-se um pouco, receioso de que o vissem apesar do escuro que fazia.
O Piloto, diante d’elle, com as orelhas fitas, olhava ameaçador para o lado do mar.
--Ó sior, não está ninguem, dizia uma voz com accento africano. O moço arependeu-se.
--Marau! Tinha jurado!...
E chamou outra vez:
--Eh! rapaz do diabo!... Nada!
Os remos bateram na agua.
* * * * *
Quando um quarto de hora depois o Piloto entrou no quintal da casa, estava tão fóra de si, que até ladrou ao gato. Este não fugiu, mas, resentido pela singularidade do ataque, levantou a mão severamente para esbofetear o companheiro. E assoprou.
O Piloto tinha desculpa: não voltava sósinho.
[Ilustração]
[Ilustração]
Na Vindima
ESTÁ prestes a findar a rude labutação.
Os cachos túmidos, e alourados pelo sol estivo, já quasi desappareceram das videiras, e o môsto, o sangue da vinha, corre a flux, denso e espumante, pela bica do lagar, espremidas as uvas sob os pés dos homens, que aturam tempos sem fim n’aquelle trabalho, como se os vapores saídos do engaço lhes augmentassem as forças com a excitação da meia embriaguez.
A mesma animação nos demais trabalhadores, que, ajoujados ao peso dos cestos vindimos, levam os cachos para o lagar escuro e fresco. Qual d’elles, para expandir a alegria ou sentir menos a faina, entôa a meia voz um dos cantos populares da ilha do Pico, dando á melodia mais triste uma expressão festival.
Alguns, para mourejar na freguezia de S. Roque, vieram de longe, de muito longe, e estão alli ha perto de um mez, separados das familias, anciosos por lhes ganharem um pedaço de pão.
Um d’estes era o João Ignacio.
Tinha abalado da outra banda da ilha, dos cabeços perdidos nos matos sobranceiros á villa das Lages, deixando a mulher, as filhas--duas moçoilas frescas e desempenadas, e o filho, um rapazote que dentro em pouco já poderia ajudal-o.
A mulher, coitadinha! estava muito acabada, não pela idade, mas pela doença.
Pois o João Ignacio ia ter uma grande satisfação.
Mandado pela mãe, o pequeno tinha feito a enorme caminhada e já andava alli perto, deitando inculcas, para saber onde encontral-o. Trazia-lhe noticias frescas de todos os de casa: da doente, das irmãs, e até do Calçado, muito rosnador com a velhice, e da porca, que estava gorda, gorda--uma perfeição de animal!
O João Ignacio topou o filho á porta do lagar, onde tinha despejado mais um cesto.
Deitou-lhe a benção, arredou-o de si um quasi nada para miral-o de alto a baixo, e tendo-o visto são e escorreito, deu-lhe uma palmada no hombro.
--Basta que sim! Estaes rijo como...
E sem enunciar o termo da comparação, perguntou pressuroso:
--Como vae a porca?
--_Álhora!_... O pae então pergunta-me pela porca, e não quer saber da minha mãe?
--Eh! rapaz! A porca custou dinheiro e vossa mãe não me custou nada!
[Ilustração]
[Ilustração]
O Jantar Do General
NÃO sei com certeza se o general tinha desembarcado nas praias do Mindello.
O Garcez, coronel de caçadores 12 e cultor eximio da _arte de dizer mal dos seus superiores_, affirmava que não; o Dionysio, soldado de veteranos, dizia que sim, e jurava o até, se alguem se mostrava duvidoso.
Ora o veterano tinha razão para estar bem informado, porque fôra impedido do general, durante trinta e oito dos quarenta annos de serviço attestados pelas quatro divisas brancas, que se lhe estiravam pela manga da fardeta. Verdade é que ás vezes o Dionysio tinha singulares confusões--patetices de seiscentos diabos, qualificava o patrão.
Uma, principalmente foi originalissima. Uma?... Uma serie d’ellas.
O general commandava n’aquelle tempo a nôna divisão militar, hoje defuncta.
Na Madeira a vida corria-lhe em maré de rosas.
Tendo-se recordado do inglez aprendido em Bragança com o major do seu regimento,--um official britannico que acompanhára D. Pedro IV a Portugal e fizera toda a campanha,--o general tornou-se frequentador assiduo das sociedades funchalenses onde predominava o elemento estrangeiro.
Pelo seu espirito de velho solteirão impenitente, chegaram até a perpassar planos casamenteiros, confusos e indeterminados no principio, claros e definidos logo que appareceu no Funchal miss Lorely, a filha de um lord, viva e _espiègle_ como uma parisiense, e exuberante da formosura peculiar das inglezas.
Então o antigo cadete de cavallaria 10, ou não sei quantos, formou planos estrategicos com uma pericia, que talvez o não acompanhasse até ao campo de batalha. Pôz ao serviço d’aquelle tardio amor todos os recursos do seu espirito, que eram poucos, e todas as vantagens da sua posição official, que eram muitas. Passeios militares, exercicios, tudo foi largamente aproveitado. E de tarde, no atrio do palacete das Angustias, onde morava a seductora _miss_, tocava sempre a banda regimental, cujos effeitos maravilhosos Eduardo Pailleron preconisou, muito depois e com infinito espirito, no segundo acto da _Edade ingrata_.
Mas tambem o que elle soffria!...
A prima dos Norfolk e dos Buckingam tinha sabido ou adivinhado que o senil Lovelace professava, com o maior fervor, o culto do dinheiro. Jurou logo aos seus deuses, fazer do seu apaixonado um perdulario; e tão bem se saiu da empresa, que o general offereceu d’alli a pouco um _lunch_, a ella e á officialidade do batalhão, n’um dia de passeio militar a Camara de Lobos--o general que, de tanto jantar fóra de casa, «tinha avenca na chaminé», segundo a phrase malevola do Garcez.
Ora foi justamente por esta occasião, que o Dionysio cahiu na tal serie de enganos. O patrão--Dionysio depois de reformado continuava a servil-o--estava a arranjar-se para ir jantar a casa de _miss_ Lorely. A agua circassiana terminara o seu papel, e entrava em scena o espartilho, quando surgiu um tormento, que fez perder á victima o desejo de ir ver a beldade. O general acabava de sentir no joelho esquerdo as presas aguçadas da gotta, a morderem-o cruelmente. A dor foi tal que lhe arrancou um grito. Ataque para durar tres dias pelo menos.
--Mas então era preciso mandar uma desculpa.
Pegou numa penna e dispoz-se a escrever no bilhete de visita algumas palavras em inglez.
Por fatalidade o major só lhe tinha ensinado a falar a lingua de Pope; quanto a escrevel-a, não se lembrou d’isso. Nem tudo póde lembrar.
--Ó Dionysio?
--Prompto, meu general!
--Tu sabes onde mora aquella senhora ingleza, a quem eu costumo visitar!...
--E a quem faz o seu pé d’alferes?
--Mau, Dionysio! Sabes onde ella mora?
--Não saberei eu outra coisa!
--Pois então leva-lhe este bilhete de visita, e dize á creada que mando muitos cumprimentos á senhora, e que lhe peço desculpa de não ir hoje lá jantar, mas que estou doente.
--Isso não é nada. Ande, vá, olhe que em casa não se lhe arranjou comida.
--Cala a bocca, pateta! Dize-lhe tambem que estou de cama e que por isso não posso escrever-lhe.
--Éna que patranha!...
--Meia volta á direita, maroto, e não te esqueças de nada! Estás cada vez mais urso.
--Somos dois, meu general! respondeu o velho, rodando sobre os calcanhares e caminhando para a porta, em quanto o patrão lhe atirava, por entre dentes, os epithetos de «burro, camello e animal». Ao mesmo tempo agarrava o joelho esquerdo com ambas as mãos, e soltava uns gemidos surdos, que tinham o que quer que fosse de grunhidos.
De repente gritou:
--Olha lá!
O soldado appareceu á porta, e olhou desconfiado para o general.
--Traze-me jantar da hospedaria do costume. Não te esqueças!
--Sim senhor, fique descançado.
E saíu.
* * * * *
Á porta da casa das Angustias, situada no meio de um esplendido jardim, o Dionysio foi recebido pela Luiza, creadinha madeirense, que á força de lidar com inglezes se fazia entender por elles, e assim arranjava, em todos os invernos, excellentes casas para servir.
O veterano, depois de lhe deitar uma olhadela brejeira, apresentou o bilhete.
--O meu general manda isto á senhora, porque não póde vir cá hoje. Está com o seu rheumatico.
--_Saim?_ perguntou a creada.
--_Saim, menaina_, disse o Dionysio, que nunca perdia occasião de imitar a pronuncia madeirense.
--A _mecê_ a modo que está _tirando precipicio_ commigo! replicou, meio formalisada, a creadita.
--_Precepeicio!_... A minha _mecê_ não quer tirar-lhe nada. Agora se eu fosse mais novo uns trinta ou quarenta annos...
--Se fosse mais novo? perguntou a rapariguinha já a sorrir.
--Mau! Mau! Basta de conversas, que o patrão mandou-me levar-lhe o jantar.
--De cá?
--Pois se fôr de cá, melhor ainda, por certos motivos... Cá é que elle vinha comer o jantarinho, e por conseguinte tambem de cá lh’o pódem mandar. Pois não acha?
A Luiza transmittiu fielmente o recado a sua ama. O pedido final produziu o effeito hylariante de uma boa caricatura do _Punch_.