Part 12
Mais ainda cresceo o espanto, quando, depois do furriel ter-se apresentado, como militar, ás autoridades que o receberão muito bem, o abraçárão e o fizerão sentar, foi elle com sol alto parar á porta do emboaba.
Chico Luiz estava então no balcão de sua loja de negocio, e nem de proposito, a casa estava cheia de freguezia que nada lhe comprava, é preciso notar.
Juca Ventura _desapeou_ meio branco. O outro ficou um tanto amarello, mas se adiantou a encontrar quem vinha entrando.
—Seja louvado Nosso Senhor Jesus Christo que o traz a esta casa, disse o portuga estendendo a mão.
O tropeiro mal a tocou.
—Para sempre seja louvado, respondeu pausado e muito serio.
E accrescentou.
—Eu venho visitar a sua familia, D. Cula e a filha della.
Houve um silencio grande.
Chico Luiz desviou o corpo, e apontando para dentro:
—Póde entrar, disse. Esta casa lhe pertence. A minha sogra e mulher hão de vêr com gosto um conhecido antigo e amigo.
E deixou que Juca Ventura entrasse sósinho.
Na salinha junto á loja estavão D. Cula e ao lado Babita, a bella e chorada Babita, com o filhinho no collo, como se fosse bandeira de misericordia.
Ventura ficou de pé, branco como cêra. As duas mulheres, que de tudo sabião, tinhão os olhos pregados no chão e choravão sem fazer barulho.
—Bons... dias... minhas... senhoras, saudou o tropeiro parando em cada palavra.
Ninguem lhe respondeu.
—D. Cula, disse de repente Ventura, eu perdôo a vocês todos... No meu coração só guardo uma cousa: é tristeza para sempre.
Babita deu um soluço de desespero.
Ventura chegou-se para ella.
Baixinho, mas com muita doçura lhe perguntou:
—E você é feliz?
—Chico... Luiz... é... o... pae de meu filho.
—Babita, D. Cula, disse por fim o tropeiro, não fiquem me querendo mal... Adeos, adeos!
As duas coitadas abaixarão a cabeça e chorarão até não poder mais.
Já então Juca havia sahido e, ao despedir-se do portuguez, lhe apertou uma outra vez a mão.
* * * * *
Dous mezes depois o tropeiro tinha tornado a tomar o emprego do outro tempo, mas já não era o mesmo _de dantes_. Calado sempre, só achava gosto no trabalho.
A ninguem mais contava historias, a ninguem fazia festas e mostrava amizade. Não se mettia com pessoa alguma, nem queria que se mettessem com a vida d’elle.
Uma vez, porém, sahio do sério.
Desafiado por um camarada, que tanto tinha de forte como de malcriado, e que se lembrou de fallar da Babita, foi acima d’elle e lhe deu tanta pancada que por pouco não o mandou para o outro mundo.
Desde esse dia, não ha quem se lembre de mecher com Juca Ventura.
Uma só cousa ainda lhe agrada um tanto: é cantar alto quando vai tocando o seu lóte de bestas, mas essas mesmas cantorias são tão tristes que a gente vê bem claro que alguma cousa o está consumindo e minando por dentro.
_Longes_ terras viajei Padeci muito na vida. E o Deus de compaixão Não me quer findar a lida.
Faço força para ter Paciencia, meu senhor: Mas debalde aperto o peito Atravez rompe-me a dôr.
Coração, meu coração, Á razão porque não cedes? Se não ha poder no mundo Que te dê o que tu pedes...
Porque, pois, tanto affligir? Palpitar com violencia? O destino já fallou E foi falla sem clemencia.
Golpes duros contra mim Desfechou sorte perjura, Mas, cruel, deixou-me o nome, Por chacóta, de Ventura.
Sim, ventura hei de emfim ter Quando a morte apparecer. Sim, ventura sentirei, Quando me sentir morrer.
FIM DE JUCA, O TROPEIRO.
NOTAS
[1] Como em geral todas as denominações de lugares do districto de Miranda, é este nome de origem guaycurú e significa—_bando de trairas_.
[2] Agaxi é corrupção da palavra _Euagaxigo_, que quer dizer—_bando de capivaras_.
[3] Está muito bom?
[4] Esta lingoa serve com ligeiras alterações para as quatro tribus em que se divide a nação chané: terenos, laianos kinikináos e guanás.
[5] Titulo de respeito entre todos os indios do Brasil.
[6] Coitado! Está doente de febres!
[7] Em Matto-Grosso chama-se lavrado a enfeites de ouro.
[8] Estrella, em dialecto guaná.
[9] Não. A filha do guaná é guaná. A mãe é que era kinikináo.
[10] Taquaral.
[11] Em Matto-Grosso todos os que não são indios são chamados portuguezes.
[12] Em Matto Grosso é um modo muito usual de interpellar as pessoas de importancia. Ás vezes dizem simplesmente: ó senhoria!
[13] O paratudo, no districto de Miranda, é uma arvore que annualmente se cobre de flores grandes e amarellas. Os indios contão os annos pela época da florescencia.
[14] Quer dizer—senhor. Entre os indios é um tratamento de muito respeito.
[15] —Adeos.
[16] —Adeos. A differença entre as duas palavras provém de que a primeira é a despedida de quem parte e a outra a saudação de quem fica.
[17] Em Matto-Grosso toda a casa de palha é chamada _rancho_.
[18] Nome geral que os paraguayos dão aos indios de Matto-Grosso.
[19] Frei Marianno esteve sempre em rigoroso carcere e só foi salvo no dia 12 de Agosto de 1869 pelos brazileiros depois da batalha de Campo-Grande.
[20] Deu-se este facto com diversos cadaveres, indios e paraguayos, devido naturalmente á natureza eminentemente salina de todo o terreno do districto de Miranda e principalmente das margens do Aquidauána.
[21] Diminutivo familiar de Clotilde em todo o interior.
[22] Apaixonadas.
[23] Talento em linguagem sertaneja é força, robustez.
[24] Já se vê que a necessidade da rima é que levava o nosso cantor a esses disparates.
[25] O cabo de esquadra de que se trata existiu com effeito e tinha aquelle honroso e singular appellido. Mandado de Uberaba a reunir-se ás forças expedicionarias de Matto Grosso, portou-se sempre com muita coragem e falleceu de cholera morbus em fins de maio de 1867. _Tres contra quatorze_ havia sido, pelo que contava elle, uma sua façanha praticada na guerra do Rio Grande do Sul, durante a luta dos _farrapos_.
[26] Desmoralisados.
[27] Fortaleza.
[28] Vestido.
INDICE
PAG.
Ierecê a Guaná. 11
Da mão á boca se perde a sopa. 67
Camiran a Kinikinao. 119
O Vigario das Dôres. 155
Juca, o Tropeiro. 183
TYP. DE Pinheiro & C.ª RUA SETE DE SETEMBRO N. 157