Historias Brazileiras

Part 11

Chapter 114,213 wordsPublic domain

O tropeiro, pobrezinho, em lugar de sua roupa costumeira, já estava mettido n’uma grande blusa militar e ás costas trazia uma mochila que havia de ter bom peso, além da espingarda e do mais.

Quando elle apertou pela ultima vez Babita nos braços, disse-lhe a modo de consolo.

—Não sou assim mesmo dos mais caiporas. Botaram-me no batalhão mineiro: estou rodeado de patricios e conheço bem o sertão. Não é isto que me assusta.

E, com um suspiro, concluiu baixinho:

—Ah! se eu não tivesse jurado!

O signal de marcha soou, e Juca Ventura partiu de arma ao hombro e com passo dobrado.

III

Contar tudo o que o tropeiro soffreu na expedição de Matto-Grosso, fôra contar o que todos, desde o commandante das forças até o ultimo soldado, soffreram, e é cousa de encher livros e livros.

Basta dizer que mal se entrou no sertão, começou-se a padecer de fome, que desde então acompanhou sempre e sempre toda aquella gente, como se fizesse parte da bagagem, e fosse cousa indispensavel, ora apertando devéras, ora menos forte, mas ali prompta á toda a hora para apparecer, quando menos se cuidasse.

Agora fallando com o coração na mão, foi preciso muita paciencia, muita confiança em Deos para não se desanimar de uma vez e querer antes morrer do que aturar tanta calamidade. Sem gabolice, o batalhão 17 de Voluntarios de Minas, é que dava o exemplo ao resto da expedição. Era uma rapaziada toda limpa; officiaes muito bons, amigos de seus soldados, e commandante meio zangado mas justiceiro e cheio de disciplina. Devéras fazia gosto servir n’esse corpo.

Juca Ventura tinha sido bom camarada de tropa; foi excellente soldado, porque, antes de tudo, era um homem que queria sempre cumprir com a sua obrigação Logo na sahida de Uberaba foi feito cabo de esquadra e como sabia ler e escrever corrente, no Coxim, passou a furriel.

Por um pouco mais chegava a sargento, mas, além delle ser pouco _imbicioneiro_, não se ageitava em riscar mappas do dia e relações de mostra.

No que era mestre, era em gaiatar, mais para distrahir os outros, do que por gosto de galhofa. Na verdade não se esquecia um minuto de sua bonita noiva: escrevia a ella cartas muito compridas e, emquanto houve correio, recebia, lá de vez em vez, respostas muito amorudas do punho de D. Cula, mas do coração de Babita.

Depressa, porém, desse gostinho devia se _desmamar_, porque não houve mais estafetas e até officiaes de posto graúdo ficárão seis e mais mezes sem poder receber uma só letra de suas familias, todas moradoras na Côrte do Rio de Janeiro, de muita consideração e apatacadas.

Lá nos _pantános_ de Miranda, quando a expedição foi se metter no tijuco até o pescoço é que houve dias da gente duvidar da bondade de Deus.

Cruz! Foi o diabo. Christãos ficaram atolados no lodo que de lá nunca mais sahiram.

Morria _goyanada_ aos punhados, não que sejam mofinos de animo, pelo contrario no fogo são bons devéras, mas, fanadinhos de corpo, sahiam da fartura para cahir na miseria, e isto lhes dava na fraqueza.

Para mostrar o que foi aquella travessia, 50 leguas de alagadiços e tremedaes, que era mesmo um Mar de Hespanha, basta dizer que do Coxim sahiram mais de 3,000 homens sadios e ao Tabôco só chegárão pouco mais de dois mil, quasi todos agorentados.

Juca Ventura não tivera a menor molestia, não que se poupasse ao trabalho, mas porque era de seu natural resistir ás epidemias. Isso para o serviço foi sempre dos melhores e de machado em punho para derrubar arvores e fazer pontes ou de fouce para a faxina era um grande.

Tambem os officiaes o tinhão em muita estimação e nos acampamentos só se ouvia gritar: «Furriel Ventura, vai fazer isto. Furriel Ventura, vai fazer aquillo.» E elle de boa vontade sempre, quando os companheiros estavão quebrados de cansaço, obedecia aos seus superiores, não só do seu corpo, como de outros batalhões.

O commandante de sua companhia, o Sr. capitão Juca Duarte, que morreo, coitado, em Miranda todo inchado, moço tão bom que até os soldados choravão quando o ião carregando no caixão, queria muito ao furriel, assim como o Sr. major Juca Borges, que depois veio a commandar o batalhão e era muito valente e, segundo a gazeta, se afogou ha pouco no Araguaya de Goyaz.

Era um homem muito alegre esse major e tratava bem os soldados, e tambem um capitão, quasi criança, chamado Sr. capitão Enoch, e mais o Sr. Tenente Tobias, Sr. tenente Raymundo e outros muitos.

Por isso fazia gosto servir n’aquelle batalhão. O commandante Enéas era homem sério e meio carrancudo, mas não deixava perecer a sua gente de máos tratos e injustiças.

A força de Matto-Grosso entrou na villa de Miranda onde soffreo muito de molestias exquisitas que levarão uma _machina_ de officiaes e soldados ao cemiterio; depois foi para Nioac, que outros chamão Anhuac, e é lugar bonito e sadio; desceo para a colonia de Miranda; desceo ainda para o Apa e ahi entrou no Paraguay, assim com ares de quem queria engulir aquella terra toda.

Quanto tempo já se tinha passado desde a sahida de Uberaba! Mais de dous annos...

E carta de Babita, nem sombra. Tambem só chegava uma ou outra, isso mesmo para a gente lá de cima, e sahida do Rio de Janeiro e outras cidades que valem alguma cousa.

Ventura não desanimava, mas, para fallar a verdade, já não escrevia mais. Que é de papel para no fundo de sertões brutos estar riscando finezas, quando muitas centenas de legoas separão os namorados?

Se a expedição tinha soffrido para chegar ao Apa, quando ella se vio sem gado nem mantimentos e teve que recuar de um lugar chamado Invernada da Laguna, parece que tudo quanto é desgraça se juntou para fazer a gente ter saudades dos tempos de dantes.

Que calamidades, meu Deos!

Inimigo era o menos, e Juca Ventura fez pagar caro a muito castelhano de blusa vermelha o incommodo de vir os procurar tão longe, mas o cholera, mas a fome, mas o fogo na macega do campo, as chuvas, os aguaceiros, o sol de rachar, os rios todos cheios, a falta de caminhos, cruz! era de quebrantar a coragem de um Roldão.

Tanto soffrimento ao mesmo tempo só se vê uma vez em cem annos, e quem escapou d’aquella feita póde dizer que tomou passagem para a eternidade, mas não embarcou por ser afilhado da sorte.

Juca Ventura nos dias de maior desespero ainda achava occasião de dizer a sua gaitadasinha, mais já a sua prosa não alegrava a ninguem: tudo andava muito jururú e murcho, porque se via quasi a morte estar voando por cima da cabeça da gente, matando este, matando aquelle, aquelle outro e assombrando a todos.

D’ahi a pouco até nem houve outro remedio senão deixar jogados no meio do campo como carniça mais de duzentos companheiros a morrerem de cholera e de ferimentos.

E os ouvidos ouvião aquelles gritos sem ficarem surdos, e o coração batia, mas parecia pedra ou páo porque nada sentia.

É que n’aquella hora cada qual cuidava em si e só tratava de salvar o vulto.

Os bons e fortes se encostavão aos bons, e a expedição vinha rolando as suas miserias, caminhando quanto podia.

Lá se foi o Sr. coronel Camisão que commandava aquella tropa toda, lá se foi o Sr. tenente-coronel Juvencio, e de nada lhes valêrão as divisas de ouro bem grossas que tinhão no braço.

Era mesmo um _despotismo_ de morte, e nem se livrou quem estava já affeito a aquelles lugares malvados e de pestes e forão batendo a bota o pratico Francisco Lopes e o filho d’elle, por signal que ião deixando os brasileiros no sertão que ninguem conhecia, nem tinha ainda cruzado, e d’onde não havia de escapar um só ao menos para vir contar onde é que paravão os ossos dos outros.

Mas Deos foi servido mandar que morressem, um no dia, o outro na hora em que a columna pisou terreno conhecido. Olhe que foi um milagre!

Afinal, depois de toda aquella barulhada, morre d’aqui, morre d’acolá, chegou-se a salvamento, tudo muito porco, muito magro e esfarrapado, mas emfim ainda com vida e vontade de saber o que era passar um pouco melhorzinho do que naquella desgraça.

Foi no Canuto.

Os paraguayos nos deixarão de cansados e voltarão lá para as suas tócas: nós então, fizemos acampamento perto de um rio grande, o Aquidauana, que só uma força assim de agoa é que podia acabar com a sugidade que todos, soldados e officiaes, trazião no corpo e na roupa.

Ahi o major José Thomaz, que tinha tomado o commando, disse n’uma ordem do dia que os inimigos estavão _anarchisados_[26] com a nossa retirada, que os batalhões tinhão feito maravilha e que a historia havia de fallar nos soldados de Matto-Grosso e um bando mais de cousas.

Quando Juca Ventura ouvio o sargento da companhia estar lendo toda aquella escripta, disse para os outros:

—Olhe, gente custou caro este recado, mas afinal chegou.

E os outros se rirão, porque já estava passado o perigo, mas devéras o furriel tinha razão. Mais de mil e seiscentos homens forão ao Apa cheios de vida e _talento_[27] e, em menos de mez e meio, de lá voltarão só uns setecentos, cobertos de bicharia e esfarrapados que parecia uma tropa de ladrões do mato.

Não, aquillo foi de mais!

Depois d’essas passadas, Juca Ventura foi com o batalhão para Cuyabá, d’ahi desceu para o Paraguay, ainda entrou em fogo, e foi acampar no Humaytá, que outr’ora fez barulho no mundo, mas que era então uma barranca de rio.

Cinco annos lá se tinhão ido depois que elle sahira de Uberaba, e, ha mais de quatro, não recebêra uma cartinha de Babita, uma noticia se quer.

Mas _porém_ o rapaz era de palavra e não houve, neste tempo todo, um só dia, uma só hora, em que o seu pensamento não fizesse viagem até a cidade em que morava a namorada.

Afinal, como tudo tem um fim neste mundo, a guerra acabou.

O batalhão n. 17 voltou para o Rio de Janeiro: houve muita festa; discursos como terra, gritaria, e, o que valia mais, cada voluntario recebeu uma boa bolada de cobres na pagadoria da Côrte.

Juca Ventura que tinha uns fardamentos atrazados e certas differenças de soldo, de uma assentada metteu no bolso trezentos mil réis do premio de voluntario da patria e setecentos e picos do resto.

Mais de um conto de réis em notas, sahidas fresquinhas da caixa do governo!

Então o batalhão seguiu para Ouro Preto por Juiz de Fóra, e, por toda a parte onde passava havia muito discurso, havia festa a valer e tudo o mais.

Um dia, emfim, cada um teve licença de tomar o rumo de sua casa.

Foi um dia grande aquelle!...

Juca Ventura montou a cavallo para voltar a Uberaba, assim com modos de passarinho que achou a porta da gaiola aberta e lá vai pelos ares afóra, tonto de alegria e cantando como um maluco. A saude do tropeiro era sempre a mesma: pouca differença fazia no rosto, mas nas maneiras era mais compassado e orgulhoso.

Tambem estava com o peito cheio de medalhas de campanha e ganhara até o habito da Rosa.

Tinha honras de capitão!

Oh! como elle foi rapido por aquellas estradas! Não perguntou noticias a ninguem.

O coração lhe batia socegado e só o que queria era chegar, chegar depressa...

Foi n’um dia de sol bonito que entrou em Uberaba, a 15 de Julho de 1870 e frechou direitinho para a casa da noiva.

Á porta, estava sentada uma mulher com uma criancinha no collo.

Quando Juca Ventura parou defronte, ella deu um grito forte, levantou-se e correu para dentro como uma douda.

Era Babita!

IV

Juca Ventura apeou do cavallo tremulo e assombrado.

Sem saber pelo que, suava frio e estava com os olhos escuros.

Mas fazendo-se de forte, gritou como quem queria parecer alegre, mas não estava:

—Ó de casa, ó minha gente!

Ninguem lhe respondeu.

Elle então entrou na sala.

Nada estava mudado: erão as mesmas cadeiras, o mesmo sofá velho, uma imagem do Menino Jesus entre dous vasinhos com flôres, tudo como ha cinco annos passados.

Ventura bateu palmas.

Ninguem lhe respondeu ainda.

Oh! Era caso de pensar.

O nosso homem assarampatado empurrou a porta do interior... nem viv’alma na varanda: correu a casa toda, nada.

Mas estava claro que alli ha pouco tinha estado gente que havia fugido ás carreiras.

Decididamente succedêra alguma novidade graúda.

Juca Ventura sentio a boca lhe amargar. Padecia que nem um condemnado á forca, mas como não era precipitado em seus juizos, não quiz logo cuidar em mal.

—Talvez Babita não me conhecesse logo, pensou elle, e tomasse um susto.

N’estas idéas sahio da casa.

Lá fóra fazia um sol valente. Um sugeito passava rente com as casas para apanhar um pouco de sombra.

Juca perguntou-lhe se conhecia D. Cula.

—Cheguei de pouco da Formiga, lhe respondeu o cujo, por isso não a conheço, mas sei que a filha d’ella é casada com o Chico Luiz, o Emboaba.

Como Juca Ventura não saltou ás guélas do sugeito que lhe deu aquella noticia, ou como não cahio no chão morto para todo o sempre, é o que elle mesmo não sabe.

Sentia mil soffrimentos, maiores a um tempo do que todos os de Mato-Grosso e por cima uma vergonha tão grande que a sua cara ardia como se fosse uma fogueira.

Tudo estava perdido!

Tudo!

Elle que só tinha vivido com a lembrança d’aquella mulher, elle que vinha cheio de amor, limpo de miserias, depois de ter dado conta de sua obrigação, elle que tinha ganho as suas medalhas, as suas fitas para enfeitar a sua noiva, e agora vinha encontrar o lugar que lhe pertencia já tomado, e em vez de um coração para o affagar e estimar, a traição e o pouco caso?!

Ah! porque a sórte não o atirou como tantos outros nos campos do Apa para ser degollado pelos paraguayos?

De que lhe servia a vida?

A sua felicidade cahia toda em pedaços, como casa velha de taipa em dia de furacão.

Que restava fazer?

Nada... nada mais!

E vingar-se?... porque é que o valente que vinha da guerra não havia de tirar despique do desprezo de uma mulher?

Isso lá, não. Babita podia dispôr de si, dar o corpo e o coração a quem quizesse; mas elle o bravo de 17º. de voluntarios de Minas precisava se desaffrontar.

Tremessem os desalmados que havião brincado com a honra do tropeiro!

Com isso tudo a lhe ferver no sangue, _amontou_ Juca a cavallo e foi _sestear_ n’um rancho fóra da cidade.

Não se tinha espalhado a noticia da chegada d’elle, senão é de crer que se fizessem em Uberaba alguns festejos e que o commandante superior da guarda nacional o viesse abraçar á vista de todos.

Mas para abraços não estava elle.

Parecia uma onça que acaba de cahir n’um fojo.

Não tocou no prato que lhe puzerão na mesa, mas, com o queixo encostado na mão, estava carrancudo como um tigre preto, e os seus olhos faiscavão. Na cintura tinha uma garrucha de dous canos carregada e um facão-punhal.

Quando o sol vinha cahindo, vermelho e grande, Juca sahio do rancho, mas as pernas lhe tremião.

Queria pisar firme e não podia.

É que nunca fôra assassino e agora ia matar!

Caminhou a pé para a cidade e muitas vezes teve que se sentar á beira da estrada pela affrontação em que vinha.

O coração quasi que lhe saltava pela boca.

Ah! Babita! Babita! Que lhe tinha feito aquelle homem para você o tratar assim? Pois não póde haver uma só mulher no mundo que tenha fidelidade?

E o certo é que lá ia Juca Ventura, já com ares de matador, quando podia entrar no lugar de seu nascimento, de cabeça bem levantada e estufando o peito em que estava escripta a sua historia de soldado! E todos o havião de festejar e até adular!...

Mas não... O destino assim não quiz.

Apparecião as primeiras casas da cidade quando o pobre coitado sentou-se n’um matacão de barro duro a um lado da estrada, á espera que a noute fechasse.

Do sol já só se via uma beiradinha e estava um calor de rachar. Lá no nascente umas nuvens côr de chumbo parecião estar ameaçando a terra, e de quando em quando um relampago fuzilava no meio d’ellas.

Juca Ventura olhava para aquelle lado e pensava que assim estava o seu coração, faiscando, faiscando, mas que tambem d’ahi a bocadinho um raio havia de ferir a quem menos cuidava.

Um barulho de passos lhe chamou a attenção.

Era um homem branco, de meia idade e bem _limpo_[28], que tinha um ar sério e muita composição no andar.

Quando Juca Ventura lhe poz os olhos em cima, como que virou-se em pedra.

Depois fez um esforço grande sacudindo a tontura, sacou da cintura a pistola e pulou para a frente do outro como uma onça pintada.

A sua boca deu um uivo.

—O emboaba!

Se Chico Luiz, pois era elle, não tivesse a tempo lhe agarrado no braço, era um homem morto.

E ficarão os dous, um olhando para o outro, bons pares de minutos: Juca Ventura com olhos de engolir um christão vivo, Chico Luiz muito senhor de si e de sangue frio.

—Portuga do diabo, gritou Ventura sempre com o braço preso, você sabe quem eu sou?

—Sei, respondeu o emboaba muito sereno, é um soldado brasileiro, não é um matador.

O modo por que estas palavras cahirão da boca de Chico Luiz e o seu proposito fizerão um abalo tão forte no voluntario que elle ficou branco como cêra.

—Sim, retrucou elle, nunca fui assassino, mas agora vou ser...

—Ao menos deixe eu me defender. Na guerra você fazia assim...

—Não; todos vocês hão de morrer como cachorros. Todos... porque cuspirão na minha cara.

—Juca Ventura, você tem o direito de me matar, isso eu reconheço: mas a mais ninguem, ouvio? O unico culpado sou eu.

A cada palavra que Chico Luiz dizia, o tropeiro como que sentia o coração ficar frio. Quiz puchar pelo braço, mas a mão do portuguez se não apertava com força, segurava com firmeza.

—Sim, continuou elle parando a todo instantinho e com os olhos prégados nos do seu inimigo, eu vim até cá ter com você, sem armas, sem um páo sequer, e lhe dizer atire em mim, porque n’esta historia desgraçada ninguem mais póde ser acusado... Agora...

E, de repente soltando o braço de Ventura, apresentou o peito:

—Aqui estou, disse, faça fogo. Execute a sua vingança!

O modo era de quem estava preparado para morrer n’aquelle instante mesmo.

Juca levantou a pistola, mas depois recuou uns passos, como que vexado e murmurando:

—Eu nunca matei ninguem assim...

—Pois bem, secundou Chico Luiz d’essa feita muito depressa, eu quero defender não a mim, mas a uma pessoa que em tudo isto tem tanta culpa como N. S. da Conceição...

E como Ventura fizesse um gesto de raiva:

—Sim, exclamou elle com força, eu juro pela minha salvação eterna, Babita é innocente; Babita resistio quanto poude a este casamento, Babita não se esqueceu um só momento de seu noivo; chorou todas as lagrimas do seu coração; foi fiel quanto poude á sua promessa.

O portuguez fallava com sotaque lá da sua terra, mas fallava como quem diz a verdade. Cada um de seus ditos era uma punhalada em cheio no peito de Ventura.

—Mas então, bramio elle, ella foi enganada?

—Não, respondeu com energia Chico Luiz.

—Que aconteceu pois?

—Se você quizer me ouvir, eu lhe abrirei o meu coração; se não, dispare já esta garrucha que está engatilhada, mas tenha certeza que ha de vir dia em que o sangue que hoje cahir se levantará a gritar: Sua mão deu cabo de gente innocente!

E a voz de Chico Luiz ficou de quem estava pedindo uma cousa muito grande.

—Você me ouve? perguntou elle ainda.

Houve um silencio de metter medo. A sórte d’aquelle homem estava se decidindo.

—Falle, disse por fim Juca Ventura muito abatido e pondo ao cinto a garrucha depois de ter abaixado de vagarinho o cão.

—Eu direi poucas palavras, começou logo o outro. Você partio para Mato-Grosso e só houve noticia certa de sua pessoa por uns seis mezes. Depois passarão-se annos inteiros, e ninguem sabia onde parava e qual o seu fim. Babita, coitada, perguntava, indagava de um e de outro, escrevia muita carta, punha tudo no correio e a chorar dia e noute que era uma cousa por demais. No fim de tres annos chegou, parece que desertado, a Uberaba um soldado do 17º de voluntarios que disse que conhecia muito a você, que você tinha morrido ha mais de um anno e até elle tinha carregado o seu caixão. Nós todos então fomos ouvir uma missa por sua alma, e Babita esteve entre a vida e a morte um mez inteiro. Correu muito tempo. N’isso chegou outro soldado que tambem deu a você por morto e enterrado. Já ninguem tinha duvida. Foi então que eu, apezar de ter levado de táboa já uma vez, me apresentei de novo para casar com ella. N’esse tempo D. Cula estava de cama; pedia muito a filha que aceitasse; ella resistio, resistio, eu instei; todos os dias ia lá; fiz muitos quartos quando a minha sogra ficou a sahir d’este mundo. Então Babita, para obedecer, eu sei bem, a quem todos já fazião na cova, casou-se commigo haverá uns dez mezes. Esta é a verdade.

E acrescentou:

—Agora estou ás suas ordens.

Juca Ventura, emquanto Chico Luiz fallava no tempo em que um gato passa por cima de um brazeiro, estava calado e mais sombrio do que a noute que vinha chegando.

As suas sobrancelhas estavão tão apertadas que formavão uma só linha na testa.

Elle via que tudo aquillo era certo, mas queria poder não acreditar.

—Ah! já sei, retrucou elle como que chasqueando, vocês todos enganárão a Babita. Foi você quem inventou a _embromação_ da minha morte.

—Pela alma de minha mãi eu lhe juro que não! Caia ella no inferno se eu estiver mentindo. A cidade inteira ouviu aquelles soldados... E depois olhe para mim, e veja se sou capaz disso...

Sem querer, Juca Ventura levantou os olhos e fitou o portuguez.

O seu ar tinha tanta sinceridade que a convicção entrou no fundo do coração do tropeiro: mas elle ficou mudo com a cabeça cahida sobre o peito...

Já era quasi noite fechada, e se não escurecêra de todo é que no céo havia umas nuvensinhas vermelhas que aos poucos ião perdendo as côres.

Os dous homens estavão calados.

De repente Chico Luiz disse com voz muite suave:

—Você me perdôa?

Juca Ventura estremeceu todo.

—Ah! exclamou elle com a boca encrespada de amargura, não bastou a você, portuga de desgraças, me tomar a _minha_ noiva, me arrancar o coração, pisar com pé de chumbo na minha felicidade, matar para sempre a minha alegria, quer tambem o meu perdão?...

—Quero, atalhou Chico Luiz com força. Você é homem de honra, é homem de bem, eu tambem sou. Da conversa de hoje é que vai sahir o futuro da mulher que nós dois amamos, da mulher que ainda ama a você, Ventura, mas que me pertence _a mim_. Eu fallo aos seus sentimentos. Aqui lhe peço de joelhos...

—Não, não!

—Perdão, perdão. Eu quero ou morrer de sua mão, ou que você me dê o seu perdão. Nossa Senhora abrande o seu coração... Tem pena de minha mulher, tem pena de meu filho!...

E Chico Luiz, no meio da estrada, se atirou de joelhos aos pés de Juca Ventura, mas com tanta dignidade que ninguem havia de vêr n’aquelle acto, não uma baixeza ou medo, mas uma _menagem_ á desgraça do tropeiro.

—Levante-se, homem, disse em fim com muita pausa Ventura... Eu... vou pensar.

E depois de novo silencio, acrescentou com esforço.

—Se... amanhã eu... apparecer na... sua casa... então... é signal que... para mim... o passado, passado. Se... eu não fôr lá... é que parti para nunca... mais ouvir fallar... em Uberaba... e na gente que aqui mora.

E acenando com a mão, sumiu-se, sem dizer mai-palavra, na escuridão da noite...

No dia seguinte Juca Ventura fez ás claras a sua entrada na cidade de Uberaba.

Isso foi um alarma nunca visto e pelo ar com que todos olhavão para elle, conhecia que era a pura verdade tudo o que Chico Luiz lhe tinha dito. Parecião encarar alguem que sahia da cova para fazer cousas do arco da velha.

Tudo botava uns ólhos arregalados, e espantadiços. Muitas velhas já fazião cruzes pelo que ia succeder sem falta, e alguns que muito a tôa tinhão raiva do portuguez, só porque os negocios lhe corrião bem, lá no coração sentião certa alegria, apezar de estarem a dizer por toda a parte que o delegado de policia devia estar alerta se não quizesse vêr uma desgraça feia.

Os modos de Ventura pozerão os bibilhoteiros de queixo cabido. Começou a fallar que já sabia desde muito que a Babita tinha se casado, mas que não se admirava disso, porque tinha corrido a _rodella_ de sua morte, e mais isto e mais aquillo e tanta cousa com socego tão grande que não se sabia o que pensar se era disfarce ou não.