Historia de um beijo

Part 7

Chapter 73,871 wordsPublic domain

Os frequentadores sabiam que um simples almoço lhes custava um par de duros, mas sabiam tambem que era preciso pagar, não só os manjares que depositavam no estomago, como as gravatas brancas dos creados e o serviço de prata em que eram servidos.

N'uma grande cidade como Madrid ha o costume de se atirar o ouro por um lado, emquanto que do outro alguns desgraçados morrem de fome.

Marcial encarregára-se do almoço. N'aquelle dia os estomagos dos amigos estavam á sua disposição. Escreveu n'um papel os quatro pratos fortes de que devia compôr-se, deixando ao gosto do cosinheiro do restaurant as sobremezas e os vinhos.

Os seis jovens, alegres e cheios de illusões, tinham bom apetite; comeram como quem não sente remorsos na consciencia, falaram de pinturas, de theatros, de mulheres.

Ernesto ouvia com certa satisfação os seus amigos; fallava menos do que elles sem duvida, porque tinha a imaginação mais preoccupada.

Quando chegou o _Champagne_, o vinho da alegria, do amor, quando começaram os brindes e os epigrammas picantes. Marcial levantou-se com um copo na mão, e disse:

--Brindo pelo original que serviu de modelo ao nosso amigo para pintar a formosa figura de Esther no quadro que será a admiração de Madrid.

Todos esvasiaram os copos.

--E se essa figura que tanto celebras fosse uma creação minha? disse Ernesto, sorrindo-se.

--Então, respondeu Marcial maliciosamente, brindo pellas bellas creações do teu genio, e se alguma vez tiver a triste ideia de me casar, pedir-te-hei primeiro que pintes uma mulher a teu gosto, e juro-te que não consumarei o sagrado laço do matrimonio sem que encontre uma de carne que seja egual á do teu retrato. Mas, que queres, parece-me que já vi a tua Esther com trajes á moderna.

--Estás enganado, respondeu Ernesto com embaraço.

--Senhores, disse André, levantando-se, eu, em nome da fraternal amizade que nos une, peço que respeitem o silencio do nosso amigo.

--Pois eu, pelo contrario, peço que nos conte todos os seus segredos, exclamou um dos convidados. Entre amigos como nós, tudo é commum, até os segredos.

--Tem razão. Ernesto não deve ser avarento dos seus segredos, já que nunca o foi da sua bolsa.

--Fala!

--Conta-nos o que fizeste em Roma desde o dia em que pisaste a cidade eterna, até ao momento em que partiste para nos trazeres o melhor quadro que verão os contemporaneos.

--Sim, conta-nos a historia dos teus amores.

--Basta, senhores! exclamou Ernesto, estendendo os braços para restabelecer a ordem. Quem diabo lhes disse que estou enamorado?

--Foi Marcial.

--É uma calumnia.

--Podemos provar-te o contrario.

--De que maneira?

--Apresentando-te o original da tua Esther.

Ernesto estremeceu.

--N'esse caso, só se poderia attribuir a uma casualidade, disse inquieto.

--A amizade não deve ser exigente, disse André desejoso de livrar o seu amigo d'aquelles apuros. Visto que Ernesto não conta, respeitemos o seu silencio, e tomemos café.

--Sim, sim; tomemos café, ajuntou Marcial, e com pouco assucar, para que allivie um pouco a cabeça, dissipando os vapores do vinho!

--Isso é um insulto; chamas-nos _piteireiros_.

--Póde ser que tenhas razão, disse outro. Apesar de tudo, o piteireiro é um ser feliz.

--Que seria dos homens se não existisse o vinho?

--Uma sociedade de paes graves.

--Um vasto cemiterio.

--Viva o vinho!

--E os homens despreoccupados, que se não importam de se embriagarem!

--Viva a Inglaterra, onde a embriaguez é respeitada.

--E está na ordem do dia.

--Ah! Nós, os hespanhoes, somos uns hypocritas; criticamos os piteireiros, mas bebemos vinho.

Desde aquelle momento a conversa dos seis rapazes foi tão animada, tão alegre, que nos seria difficil reproduzil-a.

Contos, anecdotas, escandalos da capital, tudo serviu de assumpto, em redor d'aquella mesa, onde fumegava a digestiva _moka_ e o estomacal _cognac_.

Ás seis da tarde abandonaram o restaurant, e dirigiram-se para Castelhano. Necessitavam respirar o ar fresco do campo.

CAPITULO XV

Carta interrompida

Penetremos na encantadora quinta que D. Ventura possuia em _Carabanchel de Arriba_; mas não nas elegantes e luxuosas habitações, pois que Amparo que é quem procuramos, está n'um caramanchão situado no extremo de uma recta e larga rua formada por altos e copados castanheiros da India.

Para que o leitor se inteire de tudo o que succedeu desde que perdeu de vista a formosa herdeira de D. Ventura, bastará dar-se ao incommodo de lêr a carta que Amparo escreve a uma amiga intima e antiga condiscipula.

Leiamos, pois:

«Minha querida Luiza

«Desde o dia do meu casamento com o conde de Loreto, isto é, ha um mez, nem tu sabes o que tem sido de mim nem eu sei nada de ti. Agora que meu marido me deixou, pois alguns negocios o prendem todo o dia em Madrid, vou dar-te parte da minha vida.

«Escrevo-te, ouvindo o canto das aves sobre a minha cabeça, e aspirando o perfume do jasmim e da madresilva. A minha alma necessita da doce quietação que me rodeia, para poder expressar-te toda a immensa felicidade que sinto.

«Ah! Luiza, já sei que amas um homem, e que és egualmente amada por elle. Porque se não casam? E porque não veem para o campo?

«Ignorava que no coração d'uma creatura o amor infundisse uma felicidade tão ineffavel como a que experimento. É bem verdade que Fernando, meu marido, é o melhor dos homens.

«Se visses a maneira amavel e obsequiosa que tem sempre para commigo! Eu sou, por assim dizer, a rainha absoluta d'este pequeno paraizo. Meu pae ri-se do que chama caprichos de menina amimada, e Fernando approva immediatamente, tendo por logico e natural até o mais estranho e excentrico.

«Muitas vezes pergunto a mim propria se esta felicidade poderá durar muito. Mas porque não ha de durar? Quando o amor é verdadeiro, dura tanto como a vida. Que digo? Mais do que a vida, pois acompanha a alma até á eternidade.

«Mas vou-te falar de Fernando a quem só conheces superficialmente. Imagina, querida Luiza, um rapaz bonito, com um coração de anjo, a quem os genios da musica e da pintura bafejaram em creança, pois que Fernando é musico e pintor.

«Toca orgão de uma maneira admiravel, e desenha quasi tão bem como Gustavo Doré, cujos bellos trabalhos conheces.

«Junta a isto uma bondade sempre disposta a comprazer e poderás imaginar quem é o homem que me coube por sorte para companheiro de toda a minha vida.

«Demais, Fernando tem uma conversação que fascina.

«Quando de noite passeamos pelo jardim de braço dado, deleita-me ouvir-lhe os planos que formulou para que a minha felicidade seja mais duradoura.

«Se soubesses as viagens encantadoras que projecta para a proxima primavera!...»

Estava a carta n'este ponto, quando Amparo ouviu pronunciar o seu nome; levantou a cabeça e não poude conter um grito.

Tinha na sua frente, seu pae e Ernesto.

D. Ventura, alegre e risonho como sempre; o pintor pallido como um cadaver.

Amparo ao vêl-o, deixou cair a penna da mão, exclamando:

--Ah! é o sr. Ernesto!

--Elle proprio, respondeu D. Ventura, collocando familiarmente uma mão no hombro do pintor. Surprehendeste-te, não é verdade? Pois olha que a mim tambem me succedeu o mesmo, apezar de o esperar mais dia, menos dia, visto a exposição abrir em meados do mez.

Durante este curto dialogo, Ernesto guardou silencio. Os olhos tinha-os fixos em Amparo e os labios entre-abertos deixavam assomar um sorriso tão amargo como doloroso.

Amparo por sua parte, parecia perturbada. A presença inesperada de Ernesto produzira-lhe um effeito desagradavel. Nos olhos d'aquelle homem estava o ameaçador olhar do amante offendido.

Aquelle homem era para ella um terrivel presagio, um vivo remorso. Desejava estar a cem leguas d'alli.

--Sem duvida, que viemos importunar esta senhora, disse Ernesto procurando dominar-se.

--Não, senhor Ernesto; escrevia a uma amiga, e tenho tempo. Só á noite é que parte o correio.

--Demais, disse D. Ventura, o senhor não é uma visita importuna para nós, mas um bom amigo a quem tratamos com o maior prazer e recebemos sempre com satisfação. Se assim não fosse commetteriamos uma ingratidão. De fórma nenhuma se esquecem facilmente as nossas excursões por Florença e Roma.

Innocentemente D. Ventura feriu no mais recondito o coração da fllha.

--Creio, senhor Ernesto, que concluiu o seu quadro que vimos começado em Roma, disse Amparo.

--Sim, minha senhora, concluio-o, e espero depois de ámanhã, requerer um logar para a proxima exposição.

--Onde iremos admiral-o e orgulharmo-nos, porque somos amigos do pintor, ajuntou D. Ventura.

--Quem o duvida?

--Mas dize-me: onde está o teu marido. Desejava apresentar-lhe Ernesto.

--Fernando foi esta manhã a Madrid e não volta senão á tarde.

--É pena; mas tudo se póde remediar, ficando Ernesto e almoçando comnosco.

Decididamente D. Ventura parecia disposto a atormentar a filha.

Ernesto comprehendeu que Amparo desejava vêr-se livre da sua presença, mas a noticia inesperada do seu casamento, causára-lhe tão terrivel effeito, que acceitou o almoço que lhe offerecia D. Ventura, só pelo prazer de atormentar aquella _coquette_ que brincára com o seu coração para depois o despedaçar.

O almoço ia ser egualmente terrivel para os dois, mas Ernesto devorado pelo ciume, pela raiva, pelo desespero, estava resolvido a soffrer tudo.

Acceite o convite, D. Ventura, que não sabia estar quieto em parte alguma, teve ainda outro ensejo mais lamentavel para atormentar a filha do que os anteriores.

--Ernesto é como da familia e como fica para almoçar, vou dar as ordens necessarias e escrever duas cartas; passeiem pelo jardim, que eu venho buscal-os depois.

E dizendo isto dirigiu-se precipitadamente, para casa.

N'aquella occasião Ernesto daria a D. Ventura, a vida, e até a gloria; tinha necessidade de falar com Amparo sem testemunhas, de ouvir uma explicação da sua conducta; e demais, continuar o fingimento, a dissimulação, seria impossivel.

Quando n'um peito cheio de juventude e apaixonado se levanta essa terrivel tempestade do ciume, é difficil dominál-a, chega o momento em que, esquecendo-se dos deveres sociaes, estala e produz um conflicto.

Ernesto, ao vêr-se só, suspirou com força.

Amparo comprehendeu a sua situação e conhecendo o generoso coração de Ernesto, juntou as mãos, deixou assomar aos olhos duas claras e transparentes lagrimas e com voz commovida, disse:

--Pela memoria de sua mãe, pela recordação d'aquellas noites imprudentes de Florença, rogo-lhe, Ernesto, que se esqueça de tudo e me perdôe.

O pintor fixou um olhar intenso, sinistro, n'aquella mulher que nunca lhe parecêra tão bella, e dominando-se, mas estremecendo ao mesmo tempo, como se o fosse a acommetter um ataque nervoso, disse:

--Perdoar, é facil; basta ter um coração grande e generoso; esquecer é impossivel, senhora, quando se tem uma alma como a minha, quando se sente na bôcca o fogo de um beijo que ha de causar a minha desgraça e a minha morte.

E levando a mão á cabeça, em tom desesperado, exclamou:

--Tudo isto é um sonho! É impossivel que isto seja realidade! Que mal fiz a esta mulher, para que depois de mostrar-me o céu, me lance no abysmo do desespero?

--Ernesto, senhor Ernesto, por piedade. Conheço que fui uma imprudente, que sou culpada, mas que quer...

--Senhora, exclamou Ernesto com dignidade, ha procedimentos, que nem Cicero com toda a sua eloquencia, poderia explicar satisfatoriamente, e o seu, é um d'elles; e, se eu, vendo-me enganado, me quizesse vingar, se eu n'este momento em que a vida me é indifferente, commettesse um d'esses crimes que lança o desespero nos homens, seria mais desculpavel ainda ante os homens do que a senhora ante a sua consciencia.

--É verdade, é verdade! murmurou Amparo, escondendo o rosto nas mãos. Póde-me matar se lhe apraz.

--Não tenha medo; tenho bastante coragem para receber a morte sem me defender. Até ainda ha pouco a esperança, essa bella flôr da vida que tudo embelleza, esse grato perfume da alma, acariciou o meu coração, porque a luz d'uns olhos que outr'ora se fixaram nos meus cheios de ternura, illuminava todo o meu sêr; mas, agora, encontro-me subitamente mergulhado na mais profunda escuridão. Foi tudo um sonho, tudo uma mentira; a senhora nunca me amou; as noites de Florença foram momentos passageiros de delirio, entretenimento de mulher _coquette_, esmola concedida por uns labios lisongeiros, falso ouropel que tive a veleidade de receber por ouro puro; e emquanto recebia um beijo falso, dava a minha alma inteira. Ah! Que louco fui! Se ao menos tivesse tido compaixão de mim, se se tivesse dignado escrever-me uma carta, dizendo-me: «Ernesto, esqueça tudo quanto se passou entre nós; vou casar-me com o conde de Loreto, meu pae exige-o, é um compromisso que não posso evitar...» uma desculpa qualquer, uma mentira ao menos, porque ha mentiras desculpaveis porque nos fazem bem... Mas não; a senhora, pelo contrario, guardou silencio, e eu continuava alimentando as minhas illusões. Hoje chego a esta casa com a alma repleta de amor e de esperança e o seu pae diz-me com a mesma frieza e indifferença como se me falasse de um dos seus negocios: «Amparo casou com o conde de Loreto.» Comprehende, senhora, o effeito que em mim produziu esta noticia? As palavras não matam porque eu ainda vivo.

Amparo chorava. Só então comprehendeu a gravidade da sua imprudencia. O conde de Loreto fascinara-a: desde o dia das corridas em Paris amava-o de toda a sua alma, mas se antes de casar ouvisse as justas recriminações que lhe dirigia Ernesto, não teria pronunciado o _sim_ de esposa junto ao altar.

Mas o coquettismo, essa arma terrivel da mulher, quando esgrimida contra um coração enamorado e sensivel, dera os seus terriveis fructos e jé era tarde para retroceder.

Por isso Amparo não encontrava palavras com que se defendesse, com que se justificasse.

N'estes casos, a mulher tem dois caminhos; ou rir-se do amante enganado, ou confiar na sua generosidade e pedir-lhe perdão.

Amparo nem por sonhos pensou no primeiro caso; conhecia bem o amor de Ernesto e a bondade do seu coração; por isso appellou para o segundo recurso, e, levantando a cabeça, apresentou ante os olhos do pintor o seu rosto interessante, formoso e pallido, e, derramando lagrimas, disse:

--Pois bem, sim, Ernesto; fui uma _coquette_, uma imprudente, uma leviana. O meu procedimento não tem desculpa; mas amo o meu marido e preferiria cem vezes a morte a faltar ao que a minha honra e os meus deveres de esposa me impõem. Se não é bastante generoso para perdoar, mate-me, antes que Fernando conceba a menor suspeita, e antes que a mais pequena nuvem empanne a sua felicidade, prefiro morrer. Mas o senhor é bom e terá dó de mim.

Ernesto começava a sentir-se enternecido. Amava tanto aquella mulher que não se sentia com coragem para lhe negar fosse o que fosse. Amparo aproveitava-se das vantagens que ia conquistando.

--Sejamos, pois, amigos, como nos primeiros dias em que nos conhecemos; irmão, se quizer, mas perdôe-me e esqueça-me... não será tão cruel que m'o negue.

--Amparo, a senhora não póde imaginar o sacrificio que me pede; mas faz bem em confiar em mim. Como poderei ser a causa da desgraça da mulher que amo de toda a minha alma? Perdôo-lhe todo o mal que me fez, mas esquecer... é impossivel. Para amar não é preciso ser correspondido. Mas para que prolongar por mais tempo uma scena que me despedaça o coração? Adeus, minha senhora, seja feliz, viva socegada, porque entre os dois abriu-se, desde hoje, um abysmo, no fundo do qual estão sepultadas todas as minhas illusões, toda a minha felicidade.

E Ernesto sahiu do caramanchão como o demente que arrebatado pela vertigem do seu doente cerebro não sabe para onde caminha.

O primeiro movimento de Amparo foi detêl-o; porém conteve-se, calculando que ia commetter uma segunda imprudencia, e de mais graves consequencias do que a primeira.

Uma vez só procurou serenar-se.

--Pobre Ernesto! disse ella, enxugando as lagrimas. Nunca imaginei que fosse tão grande o seu amor. Ah! Tem muita razão para me odiar. Foi uma imprudencia.

E, recordando-se de que uma só palavra de Ernesto poderia perturbar a sua felicidade, exclamou:

--Meu Deus! Permitti que esse homem não seja assaltado pela terrivel paixão da vingança.

Amparo fixou o olhar na carta que escrevia tão alegre, poucos momentos antes, á sua amiga, e não tendo paciencia nem socego n'aquelle momento para concluil-a, guardou-a na carteira do seu estojo de viagem.

Quando o pae voltou, Amparo estava quasi socegada, ou pelo menos fingia, para que se não suspeitasse nada da scena que acabára de dar-se n'aquelle logar.

--Aonde está Ernesto? perguntou D. Ventura.

Rapidamente imaginou uma desculpa que motivasse a precipitada fuga do pintor.

--Ernesto, disse, acaba de sahir.

--Mas, volta para almoçar?

--Não; disse-me para lhe pedir desculpa de se retirar, mas havia-se esquecido de que tinha uma entrevista importante em Madrid ás duas horas da tarde.

--Todos os artistas têem a cabeça á razão de juros. Mas emfim que remedio! Almoçaremos sósinhos.

E offerecendo o braço á filha, dirigiram-se para casa.

CAPITULO XVI

Propostas

Ernesto chegou a casa e deixou-se cahir desesperadamente na cama; sentia-se fatigado, um desejo irresistivel de chorar, um calor immenso nas fontes e um frio glacial no coração.

Deitou a cabeça nas almofadas e chorou.

Ás cinco horas da tarde, Marcial e André foram buscal-o para irem jantar, e ao verem-n'o pallido, com o parecer decomposto e os olhos avermelhados, perguntaram sobresaltados:

--Estás doente? Que tens?

--Nada, meus amigos, nada; quero estar só. Deixem-me; esta tarde não tenho appetite.

--Mais uma prova de que estas doente, e por isso não te abandonaremos.

--Por Deus, não me obriguem a levantar. Um boccado de socego far-me-ha bem. Repito-lhes que não tenho nada. Vão tranquillos que lhes peço eu.

Depois de meia hora de inuteis perguntas, Marcial e André sahiram afflictos do quarto de Ernesto.

--Indubitavelmente ha alguma cousa, disse o poeta.

--Que diabo succederia? ajuntou André.

--Parece-me que anda n'este mysterio o original da formosa Esther do quadro.

--Tambem o creio.

--Não te disse elle esta manhã, que ia a Carabanchel?

--Sim.

--Em Carabanchel tem D. Ventura uma casa de campo.

--Que lhe succederia?

--Quem sabe! Talvez algum desengano.

--Seja o que fôr, procuremos indagar. É uma desgraça ter um coração impressionavel como o de Ernesto; vae dar-lhe muitos desgostos.

Marcial e André recolheram n'aquella noite mais cedo que de costume.

Ernesto continuava deitado; no quarto não tinha luz. Marcial approximou-se da cama com um phosphoro acceso para vêr se o seu amigo ainda dormia.

O pintor tinha os olhos abertos.

O poeta accendeu a vela que estava na mesa de cabeceira, puxou uma cadeira e sentou-se proximo da cama do amigo.

--Olha, Ernesto, a dissimulação só tem logar entre pessoas que se não estimam. É em vão que procuras occultar-me o que te succedeu. Soffres, tens uma d'essas dôres immensas que opprimem o coração. Basta olhar-te para a cara para te adivinhar. Comprehendes que, estimando-te como a um irmão, não me posso retirar tranquillo, só porque me dizes: «Não tenho nada». Confia, pois, na minha amizade, deposita em mim as tuas maguas. Quem sabe se poderei servir-te de consolação?

Ernesto apertou carinhosamente a mão do amigo e disse:

--Sei quanto me estimas; sei de quanto é capaz o teu generoso coração. Somos amigos ha muito tempo, e nunca tive o mais leve motivo para duvidar da tua amizade. Em nome, pois, d'essa amizade, peço-te que respeites o meu silencio e que me deixes só.

--Está bem, obedeço; mas não esqueças nem um só momento de que me encontro disposto a fazer o sacrificio da minha vida, se com ella posso evitar-te algum desgosto.

Marcial sahiu do quarto de Ernesto na occasião em que ia a entrar André.

--Onde vaes? lhe disse.

--Vêr Ernesto.

--Deixa-o, está dormindo; o que precisa é de socego.

No dia seguinte Ernesto levantou-se de melhor parecer, e os tres amigos tomaram juntos uma chavena de chá e alguns biscoitos inglezes.

Nem André, nem Marcial tornaram a perguntar a causa da sua tristeza, mas elles tambem estavam tristes e desgostosos.

N'aquelle mesmo dia ficou o quadro de Ernesto na exposição. Á noite reuniu-se com os amigos no café. Todos respeitaram a taciturnidade do pintor, porque todos o estimavam e se compadeciam da sua incomprehensivel tristeza.

Assim se passaram quinze dias. A exposição de pintura abriu as portas ao publico, e o quadro de Ernesto arrancou um grito de admiração aos espectadores.

A figura de Esther era uma obra tão perfeita como a Virgem de Murillo. O quadro tinha sempre um grupo de admiradores, que o contemplavam com verdadeiro extasi.

Uma manhã Ernesto acabava de se levantar quando José, o creado, entrou participando-lhe que um cavalheiro lhe desejava falar.

Esse cavalheiro não era outro senão Fernando del Villar, Conde de Loreto.

Ernesto procurando simular uma serenidade que não sentia, offereceu-lhe uma cadeira, e perguntou tranquillamente o que desejava.

--Vi e admirei o precioso quadro que tem na exposição de pintura, disse o conde. É na verdade uma obra-prima. Tenho a absoluta certeza de que alcança o primeiro premio, e venho vêr se o senhor m'o quer vender.

--Senhor, disse Ernesto, creia que concede ao meu trabalho mais merecimentos do que os que realmente tem. Mas de modo nenhum desejo desfazer-me d'elle emquanto o jury não resolver.

--Entretanto póde confiar, disse o conde, que o jury lhe concede o primeiro premio, e eu compro-lhe o quadro como uma obra-prima. Póde pedir-me quanto quizer sem receio de que me pareça exaggerado o preço. Felizmente sou rico, e sei avaliar o valor das obras como a tela de Esther.

--Tenho tambem que advertir-lhe, senhor conde, de que um correspondente da casa de Rotschild já me fez proposta sobre o quadro.

--Rotschild é mais rico do que eu, disse o conde, sorrindo-se, mas tenho mais direitos do que elle ao quadro a que nos referimos.

--O senhor tem mais direito?! exclamou Ernesto, comprehendendo o ponto para onde o conde desejava levar a conversa.

--Sim, porque o senhor não ignora que a cabeça de Esther tem uma grande parecença, parecença de retrato perfeito, com uma mulher que tenho em muita conta, e cujo bom nome me importa mais do que e vida.

--Não serei eu que o contradiga na sua opinião, senhor conde, mas se é retrato, é por pura casualidade, pois foi pintado de imaginação.

--Creio, senhor, ajuntou o conde manifestando a sua importancia, que n'estas coisas o melhor é falar com a maxima franqueza.

--Nada ha de que eu mais goste.

--Assim, pois, começarei por lhe dizer o que o senhor não ignora, e é que a cabeça de Esther não é outra cousa senão o retrato de minha mulher, a quem o senhor conheceu em Roma e em Florença.

--Pois bem, senhor conde, ainda que assim seja, ainda que visse e tratasse em Roma e Florença com a senhora que hoje é sua esposa, ainda que a minha memoria tivesse sido tão feliz que retivesse as suas feições e as transportasse á tela, tudo isso não é mais do que uma liberdade que tomei, e se o offende essa liberdade, a questão, entre pessoas de bem, tem uma solução que o senhor não ignora.

Ernesto pronunciára estas palavras com a altivez de quem provoca. O conde ouviu-o tranquillamente e sem demonstrar a mais leve agitação.

Quando o pintor concluiu, o conde fez um movimento de olhos e de rosto, manifestando o desgosto que lhe causava similhante provocação.

--Senhor, disse pausadamente, primeiro que tudo, previno-o de que não vim aqui ao som de guerra e julgo por tanto fóra de proposito a solução que acaba de me propôr. Que conseguiriamos batendo-nos? Justamente o contrario do que desejo e do que o senhor desejará ámanhã. Poderia provar-lhe, sem que lhe ficasse duvida alguma, que não sou um cobarde, e que me tenho batido mais de uma vez.

Ernesto sorriu-se.