Part 6
Como se estas palavras fossem como um amuleto magico, ouviram-se os passos de varias pessoas no corredor.
D. Ventura chegou á porta e não poude conter um grito.
--É elle? perguntou Amparo.
--É.
--E como vem? perguntou a medo.
--Perfeitamente, andando pelo seu pé. Ah! Louvado seja Deus!
E dizendo isto, sahiu precipitadamente do quarto, entrando no do conde.
--Venha um abraço, venha um abraço, exclamou.
O conde deixou-se abraçar.
--Com que então, foi feliz? perguntou D. Ventura com infantil alegria. Muito folgo, muito folgo.
Fernando dirigiu um olhar de censura ao mordomo, e deixando assomar aos labios um amargo sorriso, disse:
--Sabe então que me bati. Pois, visto isso, só me resta dizer-lhe que o lance foi desgraçado; teve graves consequencias.
--Como? Está ferido? exclamou D. Ventura.
--Não, infelizmente.
--Não o comprehendo.
--Senhor D. Ventura, quando por uma d'essas nescias exigencias de decoro se batem dois homens e um d'elles morre no que chamamos campo da honra, o que sobrevive, o que torna para casa vencedor, traz uma espinha cravada na alma que permanece ahi toda a vida. Indubitavelmente alguma maldição está suspensa sobre a minha cabeça. Tenho má mão para desafios.
E o conde deixou-se cair n'uma cadeira, dando mostras do mais profundo abatimento.
--Conheço, senhor conde, que se deve ter um remorso muito grande em matar um homem, disse D. Ventura, mas, que remedio? Quando se tem em frente um inimigo armado que cubiça a nossa vida temos o dever de disputál-a.
Lord Rutheney pronunciou algumas palavras para tranquillisar o conde que parecia vivamente incommodado.
--Agradeço o interesse que lhes inspirei, disse Fernando; mas ao mesmo tempo, desejava que fizessem o favor de me deixarem só, pois estou fatigado e preciso descançar.
Era evidente que uma grande fadiga do espirito se apoderára do conde e os seus amigos retiraram-se.
D. Ventura entrou no quarto da filha a quem contou tudo quanto se passára, que com esse natural egoismo da mulher se alegrou profundamente ao saber que o conde se tinha sahido bem do lance de honra, visto ella não conhecer o infeliz Heitor morto no desafio, e unirem-na a Fernando relações de amizade que iam tomando o caracter de uma paixão verdadeira.
Entretanto, o conde de Loreto fechava-se no quarto, permanecendo o resto do dia sentado n'uma cadeira. Nem elle mesmo poderia dizer se o somno se assenhoreou d'elle algum momento.
Quando a obscuridade da noite se espalhou por todo o quarto, levantou a cabeça e disse:
--É uma desgraça que já não tem remedio; tenho uma mão fatal. Esta é a quinta vez que causo a morte ao proximo e uma profunda dôr a um pae.
E passando a mão pela fronte, como se quizesse livrar-se dos tristes pensamentos que o preoccupavam, levantou-se e tocou a campainha.
Francisco, o mordomo, tão pallido, tão commovido como o amo, entrou com uma luz na mão.
--Bôas noites, senhor conde, disse deixando a vella sobre uma mesa.
--Bôas noites, Francisco. Já sabes; matei um homem.
--E todavia o senhor tinha-me dito que não mais se bateria ainda que o insultassem.
--É verdade; jurei não me bater, mas para que ninguem duvidasse de que sei defender o meu decoro, não me pude conter, e agora arrependo-me. Ah! se fosse em Hespanha não me tinha batido.
--O remedio que ha, disse Francisco, é esquecer o passado.
--Isso é mais difficil do que parece. Na memoria, como n'uma chapa d'aço, grava o buril do tempo todos os acontecimentos da vida. Só a morte tem o privilegio de os apagar. Mas tu disseste: já não tem remedio. Prepara tudo, que ámanhã sahiremos de Paris. Necessito, pelo menos, afastar-me d'esta terra.
--E para onde vamos, senhor?
--Para Hespanha.
--Está bem.
Fernando del Villar exhalou um suspiro e sahiu do quarto dirigindo-se ao de Amparo.
CAPITULO XII
Como se pede
O piano é um grande recurso para aquelles que possuem e sentem na alma as doces e gratas impressões da musica, essa linguagem universal a que renderam tributo até os proprios deuses.
Amparo estava tocando. Tinha na estante a partitura da _Estrangeira_, mas os dedos percorriam machinalmente o teclado, e os olhos fixavam-se distrahidamente nas notas.
A musica para ella n'aquelle momento não era mais do que um grato ruido, adormecedor, como o sussurro cadencioso de uma fonte que convida á meditação.
Não pensava quasi nada no piano, muito pouco na partitura que tinha ante si, mas muito no conde de Loreto.
De Florença a Paris, isto é, trinta e seis horas de comboio, foram sufficientes para a formosa hespanhola se enamorar.
Antes d'esta viagem a casualidade collocára, ainda que momentaneamente, no palacio de Médicis, Fernando e Amparo; depois em Paris as corridas de cavallos e o duello reforçaram a ideia fixa que começava a dominál-a.
N'este momento Amparo estava só. D. Ventura sahira, depois de lhe contar tudo quanto sabia referente ao desafio do conde.
Tocava, pois, piano, pensando no seu companheiro de viagem, quando ouviu passos atraz de si; voltou a cabeça, e encontrou-se com Fernando que lhe dirigiu um cumprimento respeitoso e um sorriso cheio de tristeza.
--Bôas noites, senhora D. Amparo. Talvez a venha incommodar, disse o conde.
--Incommodar-me? respondeu ella, parando de tocar. Pelo contrario. Bem vê que estou só... Meu pae é um valdevinos; abandona-me e então o piano é o meu recurso. Mas que tem? Está mais pallido que de costume, e noto-lhe uma expressão de tristeza na physionomia.
--Suppunha que não ignorava a desgraça que me succedeu hoje, e venho despedir-me.
--Como? abandona Paris?
--Ámanhã.
--Tão depressa.
--Pensava passar aqui alguns mezes, mas agora é-me impossivel; necessito vêr outro sol, respirar outro ar.
--E para onde vae?
--Para Hespanha.
--Então, sr. conde, não tardará muito que nos vejamos lá, porque, apezar de tudo, creio que o céu de Hespanha é o melhor de todos.
--Diz muito bem, e sobretudo quando no céu de Paris a imaginação preoccupada vê algumas manchas de sangue que perturbam o socego e roubam a paz de espirito.
--Verdadeiramente, é uma desgraça que as leis da honra imponham aos homens deveres tão desagradaveis. Meu pae contou-me tudo, e posso garantir-lhe que tão desgraçado acontecimento me penalizou bastante.
O conde sentou-se n'uma cadeira proximo do banco de Amparo.
--Não parece senão que me persegue algum genio fatal, disse elle, como se falasse comsigo. Quando o destino me colloca ante um homem com a arma homicida na mão, juro-o pela memoria de meu pae, sempre preferi morrer a matar, e expuz generosamente o peito ante o perigo, sem me preoccupar em evitál-o. Mas indubitavelmente uma força superior á minha vontade guia a minha mão, e sempre vejo cahir sem vida o meu adversario. Só a primeira vez que me bati tive desejos de sahir vencedor; era uma creança, e a vaidade e o amor proprio cegavam-me. Então tive a desgraça de matar um amigo intimo, um antigo condiscipulo. Pobre Arthur! E sobretudo, pobre mãe aquella, em cujos olhos não mais se lhe sêccaram as lagrimas, até que a dôr a conduziu ao sepulchro!
O conde deteve-se. Bastava vêr-lhe o semblante, ouvir-lhe o timbre da voz para comprehender o estado do espirito. Amparo escutava-o interessada e sem se atrever a interrompêl-o.
O conde, mudando de tom, continuou.
--Com franqueza, não sou ridiculo? Vim despedir-me de V. Ex.ª, e estou-lhe contando historias que só a podem commover; mas ha dias em que se apodera de mim uma tristeza tão grande que não sei falar de outra coisa senão da minha vida passada, ou o que é o mesmo, dos meus remorsos, porque os sinto, senhora D. Amparo, e a minha sorte é duplamente desgraçada porque não tenho uma pessoa, que sendo depositaria das minhas amarguras, me console com os seus conselhos.
--Senhor Fernando, exclamou a joven verdadeiramente commovida, receando que só o desespero fosse o motivo da melancholia do conde; senhor Fernando, se julga que posso ser essa amiga, apezar da minha pouca experiencia do mundo, não me occulte nada e honre-me com a sua confiança.
--Senhora D. Amparo, ajuntou o conde com vehemencia, póde ser para mim o anjo salvador que me arranque do antro escuro em que me revolvo, conduzindo-me ao reino da luz e da felicidade; porque eu, qual judeu errante vagueando pelo mundo, necessito d'uma alma sensivel que me comprehenda, um coração bondoso que palpite com o meu e que se compadeça de mim. De que serve a mocidade e a riqueza? Preciso amar e ser amado. O bulicio do mundo não é sufficiente para distrahir a tenacidade do meu pensamento, a soledade da minha alma. Para esquecer o passado necessito que comece para mim uma vida nova; é indispensavel regenerar o meu coração, porque não póde calcular a persistencia com que me persegue o infortunio. Um anno depois do meu desgraçado lance com Arthur a quem matei, estava na Italia, precisamente em Florença, no palacio de Médicis, defronte do grupo de Niobe onde a vi pela primeira vez...
O conde deteve-se, fez um brusco movimento com a cabeça, e exclamou:
--Só uma creança ou um louco seria capaz de entabolar similhante conversação; e talvez eu seja uma e outra coisa. Desculpe-me, minha senhora, e perdôe-me todas as loucuras commettidas esta noite; mas parto ámanhã, talvez que nos não tornemos a vêr mais, porque, já lhe disse, como o judeu errante percorro o mundo em busca de uma alma que me comprehenda, que se una á minha e que me dê parte da sua paz, da sua tranquillidade, da sua seiva. Ao vêl-a, disse: «É este o anjo que cubiço.» Mas creio-me indigno de merecêl-o; e já que o segredo do meu coração assomou aos labios, ainda que lh'o quizesse occultar, a senhora teria já comprehendido que a amo, e só me resta supplicar-lhe que não me guarde rancor por tanto atrevimento, e que me permitta antes de partir apertar-lhe a mão como amigo.
Se Amparo não tivesse verdadeira sympathia pelo conde, se não estivesse disposta a amal-o, necessariamente ter-lhe-hia parecido tão rara como incoherente a declaração que o conde lhe acabava de fazer.
Mas Amparo amava o conde, e não se enganava ao pensar que era amada por elle. Por isso, aturdida, trémula, com voz commovida e pouco firme, o olhar fixo no chão, extendeu a mão a Fernando e disse:
--Pois bem; se o senhor julga que depende de mim a sua felicidade, confie a meu pae, logo que elle volte, o seu segredo e partamos juntos para Hespanha.
O conde soltou um grito, pegou na mão que Amparo lhe offerecia, e cobriu-a de beijos.
..........................................................................
N'aquella noite o conde pediu a D. Ventura a mão da filha.
O honrado millionario mal poude dissimular a alegria que similhante pedido lhe causava. Era-lhe tão agradavel ouvir chamar á filha condessa!... Fraqueza por certo muito natural n'um homem nas condições de D. Ventura.
Mas, ainda assim, não se precipitou: ouviu com apparente serenidade o pedido, e concedeu o seu consentimento, depois de ouvida a opinião da filha.
Quando o conde sahiu, D. Ventura foi ao quarto de Amparo.
--Venho dar-te uma noticia surprehendente, inesperada, talvez agradavel.
--O que é papá?
--Que o conde parte para Hespanha.
--Já sabia.
--Já sabias?! E quem t'o disse?
--Elle proprio.
--Mas sabes que quer partir ámanhã, se isso lhe fôr possivel?
--Sim.
--E sabes tambem que me pediu a tua mão?
--Calculava tambem, meu pae, accrescentou Amparo, sorrindo-se.
--Por conseguinte atraiçoaram-me?
--O que perdoará, porque é muito generoso.
--Será possivel que todos os paes sejam malucos?
--Malucos só no preciso, isto é, d'alma e coração.
--Sim, sim. Mas, dize-me que lhe hei-de responder.
--Responda-lhe que sim, é o mais logico.
--E o casamento.
--Celebrar-se-ha em Madrid.
--Claro. Quem se casa em França residindo em Hespanha?
--Pois então já sabe; quando o conde lhe perguntar pela resposta definitiva, diga que sim e é assumpto concluido.
--Mas olha, Amparo, agora que já se póde dizer que és a promettida esposa do conde de Loreto, vou contar-te uma cousa. Em Florença, suppuz que tu e Ernesto se amavam; mas assim é melhor; enganei-me, com o que muito folgo, porque, minha filha, n'estes tempos é mais acceitavel para marido um conde rico, do que um artista pobre. Ernesto pinta muito bem, mas não tem uma peseta.
Amparo ao recordar-se de Ernesto commoveu-se; mas a commoção foi passageira, como a ave que cruza sobre a nossa cabeça para não mais voltar.
Dois dias depois, um compartimento de primeira classe conduzia a Hespanha com a velocidade da locomotiva os nossos conhecidos. Era o dia 28 de junho.
CAPITULO XIII
Os tres amigos
Dois mezes depois dos ultimos acontecimentos que acabamos de narrar, isto é, no dia 1 de setembro ás seis horas da manhã, dois rapazes passeavam na gare da estação do sul, esperando o comboio correio de Alicante.
--Garanto-te, dizia um d'elles, que Ernesto traz um grande quadro.
--E eu concedo-lhe o primeiro premio, ainda antes de o vêr.
--Tem muito talento.
--Sim, mas segundo pude perceber nas suas ultimas cartas, está enamorado.
--O amor abre muitas vezes o caminho.
--Quando nos não conduz a precipicios horriveis.
--Isso tudo depende da mulher que o inspira.
--Dizes bem; ella faz do homem ou um heroe ou um parvo, mas quasi sempre o segundo caso.
--Não te concedo voto no assumpto.
--Como! Collocas-me fóra das leis do sentimento humano?
--Sim, porque és um exaggerado e odeias o sexo fraco.
--Tenho motivos para isso. Procurei estudar a mulher e estou convencido de que para ellas o mais importante é a exterioridade. Uma gravata bem posta, brilhante e bem feita bota de polimento; n'uma palavra um _dandy_ adamado e escravo da moda, e que tenha o cabello sempre bem apartado, tem muitas probabilidades de ser amado; emquanto que um homem de verdadeiro merito, que cuide mais da sua intelligencia do que do seu traje, fica sempre derrotado em questões de amor. A historia apresenta-nos milhares de exemplos: todos os homens que honraram a sua patria não tiveram a quinta parte das aventuras amorosas de Lovelace, cuja arte se reduzia em fazer olhares ternos e trazer magnificas fivellas de prata nos sapatos.
--Ovidio foi amado por uma princeza.
--Quase esqueceu d'elle ao vêl-o n'uma masmorra.
--Tasso foi amado por uma fidalga.
--Que lhe não mandou nem um simples coto de vela quando por sua causa estava no calabouço escrevendo, _Jerusalem libertada_. Mas tu só me dás dois exemplos. Olha, André, Cesar foi o primeiro da sua epocha, a grande figura de Roma, e comtudo, a sua mulher, Pompeya, preferiu-lhe um imberbe creançola, Publio Clodio, que se vestia de mulher para pôr ao conquistador do mundo, uma corôa que não era por certo de louro. Pobre Cesar! Como era calvo, a sua cabeça estava sempre ameaçada.
Os que assim matavam o tempo esperando o comboio, era um poeta a quem conheceremos pelo nome de Marcial e um pintor que se chamava André, ambos amigos intimos de Ernesto e a quem este remettêra de Alicante um telegramma avisando-os da sua chegada.
Marcial e André viviam juntos n'uma mansarda da rua do Prado, tinham um creado para ambos e comiam no café Suisso.
O unico patrimonio de Marcial era a penna; a fortuna de André, os pinceis. Os dois amigos tinham passado a fatal epocha de bohemios e tanto Marcial com os seus dramas; como André com os seus quadros, ganhavam o sufficiente para viver bem e serem muitas vezes a Providencia de alguns companheiros.
Mas continuemos na gare, que não tardará que visitemos a mansarda da rua do Prado.
O agudo silvo da locomotiva annunciou aos dois amigos que o comboio entrava nas agulhas; deixaram, pois, a discussão e dispuzeram-se a abraçar Ernesto.
Effectivamente chegou o comboio, e n'elle Ernesto, que se lançou nos braços dos seus amigos.
--Agora que já te abracei, digo que te acho muito abatido, disse Marcial.
--Effectivamente, estavas melhor quando partiste de Madrid, ajuntou André. Roma continúa a ser uma cidade doentia.
--Pois estou bom, completamente bom, e com um appetite devorador, respondeu Ernesto; mas, quando se vôa de Roma a Civita-Vecchia, de Civita-Vecchia a Marselha, de Marselha a Alicante, de Alicante a Madrid sem descançar nem uma noite, e quando de mais temos a infelicidade de enjoar no mar, creio que se não póde exigir a um corpo como o meu, magro e doente, que se apresente ante os seus amigos com as bochechas e a barriga de Sancho.
--Mas porque não vieste por Paris?
--Tinha pressa de chegar a Madrid, e receei demorar-me na capital do visinho imperio mais do que podia. E bem sabes que breve se fecha o praso para a apresentação dos quadros; chego, pois, a tempo. Arranjaram-me casa?
--Tens a nossa. Nós temos casa.
--Tenho quarto?
--Viverás como um principe desthronado, não te apoquentes.
--Conduzam-me, então, para onde quizerem.
--E a tua bagagem?
--Reduz-se a uma mala, dois caixotes com quadros, e a tela que venho expôr, que vem enrolada em um cylindro de madeira. Aqui está a guia.
--Dá-m'a. Pepe encarrega-se de tudo. É um rapaz muito esperto.
Os tres amigos sahiram da estação, entregaram a guia ao creado que se chamava Pepe, e subiram para um trem.
Para chegar á mansarda dos artistas era necessario subir noventa e seis degraus.
Uma vez vencida a difficuldade dos noventa e seis degraus, a mansarda occupada pelo pintor e pelo poeta era alegre como uma manhã de maio.
Alli respirava-se o ar puro; d'alli o céu parecia mais azul e a vista espairecia contemplando as arvores do Retiro e do Prado.
André fizera da sala o seu _atelier_, onde tudo se encontrava n'uma desordem encantadora e propria do genio.
Marcial reservara a saleta para escriptorio. Ficava ainda a casa de jantar bastante grande, outra sala, dois quartos e a cosinha.
A segunda sala estava adornada com moveis alugados para receber Ernesto.
Devemos advertir que era uma d'essas mansardas decentes, que têem fogão em todas as casas, e que rendem ao senhorio oito mil reales por anno.
Quando os tres amigos se installaram na sala que servia de _atelier_ a André, este disse:
--Aqui tens o nosso palacio, que de hoje em deante será tambem teu, se é que desejas viver comnosco.
--Está claro! Acceito uma parte da casa, porque vejo que têem um grande _atelier_ e admiraveis luzes para trabalhar.
--O que quer dizer que vens disposto a continuar com os pinceis.
--Bem sabes que são elles o meu unico patrimonio.
--Ai! Ernesto, por desgraça, em Hespanha a pintura pouco rende.
--Bem sei; mas trabalhando muito, espero não morrer de fome.
--Morrer de fome, estando comnosco!? exclamou Marcial. Isso não é facil; aqui os bens são communs e d'esse modo nunca nos falta nada. Demais o teu quadro será premiado, tu ficas rico, garanto-t'o eu.
--Não confio em promessas de poetas.
--O tempo te convencerá de que laboras n'um erro. Mas tratemos de outra coisa. Que tal te déste em Roma?
--Bem como sempre. Roma é a minha patria.
--Sim, é a patria dos artistas. Mas agora dize-me com franqueza, tu tiveste o mau gosto de te enamorares?
--Meu caro Marcial o amor não é outra cousa do que uma contribuição que todos pagamos, mais tarde ou mais cedo.
--Em boa hora o fosse. Eu procurarei pagál-o o mais tarde possivel. Mas com o direito que me concede a boa amizade, permitte-me que te continue a interrogar.
--Pergunta o que quizeres.
--Amas?
--Creio que sim.
--Vamos vêr. Quantos graus attinge o teu amor?
--Muitos, respondeu Ernesto, sorrindo-se.
--E quem é ella?
--Se me permittem, guardarei segredo.
--Não ha inconveniente; mas sem dar nome ao santo, creio que nos pódes dar alguns pormenores.
--Isso é diverso.
--É nova?
--Vinte annos.
--Formosa?
--Como o mais bello sonho d'um pintor.
--Bem, bem, a arte deve ser irmã da belleza. É rica?
--Sim, por meu mal.
--Diabo! Isso não se explica.
--Digo por meu mal, porque se fosse pobre como eu, já seria minha mulher.
--Tão enamorado estás?
--Para que negál-o? Não tenho segredos para vocês, que são os meus unicos amigos: amo-a com toda a minha alma.
--De fórma que, quando terminar a exposição, regressas a Roma.
--Não, porque ella vive em Madrid.
--Anh! Isso é diverso; do mal o menos. Esperamos que nol-a apresentarás quando já não fôr segredo o teu amor.
--Prometto-o, tão depressa alcance o consentimento do pae. Por agora só lhes peço uma cama onde me deite algumas horas, porque estou muito moido.
--Tens razão, vem. Nós mesmo te vamos acompanhar ao quarto que te reservámos, mas não consentimos que durmas até muito tarde, porque convidámos uns amigos para almoçar.
--Acordem-me quando quizerem.
Um quarto de hora depois dormia docemente emballado pela gloria e pelo amor.
Pobre Ernesto! Como estava longe de imaginar a volubilidade da creatura a quem entregára toda a sua alma n'um só beijo!
CAPITULO XIV
Curiosidade não satisfeita
Emquanto Ernesto dormia, os seus amigos collocaram convenientemente a tela que o pintor trouxera de Roma.
--Magnifico! exclamou Marcial ao vêl-a. Estou crente que na Exposição não apparecerá nada melhor.
--É uma grande obra, ajuntou André, contemplando o quadro com olhos de entendedor. Ernesto obtem o primeiro premio.
--Mas espera. Já vi esta cabeça de mulher em alguma parte, disse o poeta fixando uma das figuras do primeiro plano, que representava a rainha Esther.
--Eu tambem, ajuntou o pintor.
--Recordemo-nos onde.
Mas de repente deu uma palmada na testa, e exclamou:
--Espera, já sei! Esta cabeça não é outra senão a de uma menina que conheço e que mora em Madrid. É a filha do milionario D. Ventura d'Aguillar.
--Ah! Sim! Aquelle sujeito que vem muito ao Suisso e que é tão amigo dos artistas.
--Esse mesmo.
--E que faz esse senhor?
--Não o vejo desde o inverno passado. Deve andar viajando.
--Preoccupações dos ricos durante o verão.
--Sabes que examinando este magnifico retrato me assalta uma suspeita?
--Qual é?
--Que seja a linda Amparo o amor de Ernesto.
--Tambem me parece que tens razão em o suspeitares, visto que não ha muito ainda nos disse que ella era rica.
--Decididamente está decifrado o enigma.
--Sendo assim, sou de opinião que Ernesto deve dar, o mais breve possivel, o nó gordio.
--Nunca! Um artista de merecimento, um homem de talento deve ser solteiro toda a vida; o matrimonio é um obstaculo para a sua gloria.
--Seja como fôr, o quadro é admiravel.
--E devemos confessar que Ernesto será uma gloria nacional.
--O quadro produzirá um effeito grandioso; tambem eu não esperava menos.
--Se Ernesto encontrasse um Cosme de Médicis, tinha a fortuna feita.
--Desgraçadamente para os pintores aquelles tempos passaram.
--Sim, dizes bem.
Ás onze horas chegaram tres amigos de Ernesto, pintores tambem, que estavam convidados para almoçar com Marcial e André.
Ernesto continuava dormindo, somno que se respeitou durante meia hora que passaram entretidos a contemplar o quadro.
Por fim decidiram-se a despertar o hospede, e Ernesto deixou a cama entre applausos, felicitações e abraços dos amigos.
Tudo sorria em volta de Ernesto, e elle pensava de si para si:
--Hoje estou com os meus amigos; ámanhã... oh! ámanhã irei vêl-a ao seu palacio de Caramanchel.
Ernesto ignorava que Amparo tivesse morrido para elle.
Os seis amigos foram para o restaurant do Arminho, onde estava encommendado o almoço.
Os poetas e os pintores são tão pobres de dinheiro como ricos de imaginação. Quando a venda de um quadro ou a estreia de uma peça lhes rende algum dinheiro, gastam-no alegremente com o mesmo desprendimento de principes. Ao acabar-se o ultimo centimo puxa-se pela intelligencia e cria-se outra obra. Assim passam a vida esses sonhadores, esses filhos do genio que vivem acariciados pelo sopro da gloria e pela interminavel melodia das suas illusões.
O restaurant do Arminho hoje já não existe; ha ainda pouco tempo que fechou as suas portas, convertendo-se no de Madrid. Mas seja como fôr, occupemo-nos do primeiro.
O Arminho no seu pequeno, mas elegante recinto, não era frequentado por pobres ou economicos. O serviço era á lista, e os pratos caros, mas bons.