Historia de Portugal: Tomo I

Part 4

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Descendo ao litoral, o beirão é amphibio: pescador e lavrador. A lavoura nasce do mar: os carros são barcos, adubos o _molisso_ de algas e mariscos. Ao lado de um talhão de milho está uma marinha de sal. O mar insinua-se pelos canaes retalhando a planicie, em cujo centro, como uma arteria, corre placidamente o Vouga. A tres leguas da costa vê-se fundeado um barco: as mulheres cozem as redes, ao lado, sobre a terra humida e negra, que os bois lavram, ou o cavador abre á enxada. O calor (15 a 16), a humidade permanente (65 a 80%), fazem germinar breve as sementes, multiplicam as colheitas, e as febres. Essa paizagem deliciosa e original, indecisa entre o mar e a terra, e que nos enche de vivo prazer, quando a dominamos desde os altos de Angeja á raiz das montanhas, attrahe-nos como a sombra da manzanilha, cheia de frescura e veneno. Os elementos, confundidos, vingam-se da temeridade dos homens.

A exposição oriental ou transmontana das abas da serra da Estrella e dos cerros subalternos da Guardunha dá á provincia da Beira-baixa um outro aspecto: ha maior seccura no ar, e as chuvas são menos abundantes: os olivaes medram melhor, e os hahitantes juntam á vida agricola a industrial, tecendo as lans dos rebanhos da serra com a força das torrentes que se despenham nas quebradas do valle do Zezere.

Já similhante por muitos lados ao alto Alemtejo, a Beira-baixa é a transição da metade norte para a metade sul do paiz.

Caminhemos de oriente para occidente. O Alto-Alemtejo tem o clima de Traz-os-Montes; a temperatura média é mais elevada (16 a 17.), porque a menor altura das montanhas dá frios menos intensos no inverno; as chuvas estivaes são menores tambem (30 a 50 mill.). Fronteira aberta da Hespanha, a raia apenas convencionalmente o divide da Estremadura castelhana. As mesmas planicies onduladas, as mesmas culturas cerealiferas, as mesmas florestas de sobros e azinhos, as mesmas vinhas, os mesmos costumes, os mesmos homens, estão de um lado e do outro da fronteira. Torrada pelo sol a face barbeada, de olhar vivo, gesto livre, porte nobre e seguro, bizarro, folgasão, hospitaleiro e communicativo, o alemtejano exprime no seu todo a grandeza um tanto austera do chão sobre que vive. Não é decerto um grego de Athenas, mas é um grego da Beocia. Os seus campos são um granel, os seus montados um viveiro. Quando nas longas e alinhadas estradas, entre lençoes de mattas de azinho escuro, sob o calor de um sol dardejante, divisamos ao longe uma pequena nuvem de poeira, que a luz illumina, e ouvimos o tilintar alegre das campainhas e guizos nas colleiras dos machos--é o cazeiro, que a trote largo, com a cara redonda e alegre, o ventre apertado nos seus calções de briche preto, vae á feira de Villa-Viçosa em maio, ou á de Evora em junho, tratar dos negocios da lavoura. A distancia, vem o arreeiro no seu carro toldado, guiando a récua de machos carregados de odres de vinho: logo o pastor com o guarda-mato de pelle de cabra, o cajado ao hombro, conduzindo as ovelhas, a vara de porcos, gordos como texugos, ou a boiada loura de longas hastes. O sol ardente dá tom a todas as côres, vida a todos os movimentos: suffoca-se, a poeira céga, e as bagas de suor camarinham na testa. O alemtejano diz pouco, e raro canta; não é misanthropia, é indifferença. O idyllio não póde seduzir a quem vive em ampla communhão com o campo largo, o céu sempre azul, o sol sempre em fogo. Apenas, de verão, baila ao som da guitarra nas noites calmosas, fazendo a vigilia aos seus santos favoritos, não para esquecer um trabalho que lhe não dóe, mas para dar largas aos seus amores de um momento.

Os que uma vez embarcaram abaixo de Serpa, onde as cataratas põem ponto á navegação, Guadiana em fóra até ao Algarve, terão sentido ao chegar á foz a impressão de quem entra, de um sertão, em um jardim: de quem deixa uma gruta escura por uma planicie luminosa. Breve é a extensão do Algarve, desde Villa-Real até Lagos, abrigado pela ponta do cabo de S. Vicente; mas esse trajecto sombrio do Guadiana divide duas regiões caracteristicamente accentuadas. O algarvio é um andaluz. Ao contrario do alemtejano, tudo o interessa, de tudo fala, agita-se em permanencia, com uma vivacidade quasi infantil. No Algarve não ha o silencio e a impassibilidade: ha o movimento constante, o falar, o cantar de uma população como a dos gregos das ilhas, ora embarcados nos seus navios costeiros, ora occupados nos seus campos, que são jardins. Se a planicie e os longos horizontes das montanhas dão ao espirito a placidez solemne, tambem o arrulhar constante da onda, sobre a qual, debruçado como um eirado, está o Algarve, põe no pensamento uma agitação permanente, meio-tonta, mas encantadora. Ao calor de um sol já africano, durante o estio, e no seio de uma constante primavera, durante o inverno, o algarvio desconhece a aspereza da vida: nem os frios o obrigam á industria para se vestir, nem a fome ao duro trabalho da enxada para comer. Emquanto voga sobre o mar, mercadejando, pescando, contrabandeando, crescem-lhe no campo a figueira, a amendoeira, a laranjeira, cuja seiva o sol se encarrega de transformar todos os annos em fructos. A alfarrobeira nas encostas da sua serra, a palma pelos vallados, pedem apenas que lhes colham os fructos e os ramos; e o mercador, no seu barco, ao longo da costa, espera as cargas, para as trocar por dinheiro.

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No decurso da nossa viagem deixámos em claro as mortiferas baixas do Guadiana: nem vale a pena demorarmo-nos n'essa região desolada; porque agora, regressando pela costa acima, o litoral do Alemtejo e a parte occidental da Estremadura transtagana partilham com ella os caracteres tristonhos e doentios. Entramos na região dos terrenos terciarios: as aguas estagnam e apodrecem nas baixas; as populações definham. Ou torradas pelo arido suão, que os areaes ardentes não podem suavisar, e sem montanhas que obriguem os vapores do mar a condensarem-se; ou envenenadas pelos miasmas dos paúes que o sol de fogo põe n'uma fermentação permanente, as populações amarellecidas e magras definham, curvadas pelo trabalho mortifero das marinhas de sal, ou da cultura pantanosa do arroz. São o contraste das baixas do norte do paiz, estas baixas do sul. Além, copiosas chuvas e uma humidade creadora; aqui o ar secco (500 a 700 mil. annuaes, 30 a 50 no estio; humidade, 30 a 80%) duro e carregado de emanações mephiticas. Além, uma temperatura branda; aqui um calor (med. 17°) excessivo. Além, uma população exuberante: aqui, as solidões e os areaes nús, matizados pela traiçoeira cevadilha, e pelo áloes orgulhoso, levantando com imperio o seu penacho côr de fogo. Além, homens laboriosos e familias; aqui tribus esfarrapadas em choupanas, tiritando com o frio das sezões n'uma atmosphera de lume: mulheres esqualidas, creanças verde-negras, homens na indifferenca de desolação, ou na vertigem do crime.

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Entre estas duas regiões litoraes extremas está porém a central, a vingar-nos da miseria de uma e da opulencia da outra. Quem desce, de Canha e Alcacer-do-Sal até Setubal na peninsula de entre Tejo e Sado, e domina, desde o promontorio da Arrabida, a paizagem circumdante, respira afinal a longos traços uma plena vida e uma doce alegria. Acaso não ha no reino panorama nem mais bello, nem maior, nem mais nobre, nem mais variado. A nossos pés descem as anfractuosidades da serra vestidas de espessas matas: as giestas douradas, as bagas carmineas dos medronhos, o rosmaninho, a alfazema, misturando todos os seus aromas inebriantes. Sobranceiros a Palmella, vemos-lhe os muros ameiados: Setubal desenha-se no valle encastoada n'um jardim de laranjaes; no fundo quebram-se as ondas contra as rochas do Cabo; e para o lado opposto as collinas da fidalga Azeitão ondulam por sobre o espesso tapete de pinhaes extendido até ao Tejo. Erguendo a vista, divisamos além do mar a ponta de S. Vicente e o sul; para leste, Evora de um lado, as campinas do Riba-Tejo do outro; para norte, Lisboa em amphitheatro sobre a sua bahia; além d'ella, Cintra e os montes da Estremadura cistagana, a qual, até ao Mondego, fórma a primeira zona extremenha, por onde vamos entrar no exame da ultima das regiões do nosso territorio.

O litoral do centro, entre o Mondego e o Tejo, é a parte mais benigna do paiz. Ahi o ar temperado pelas brisas maritimas mantém um grau de humidade, (60 a 85%), e as chuvas, regulares sem serem copiosas (700 a 800 mil. annuaes, e 20 a 30 no estio), uma rega, que fertilisam os terrenos sem os tornar gordos, como os do norte. Nem o calor (15 a 16°) tisna de verão as vegetações, nem o frio do inverno as atrophia. Por tudo isto, a população abunda, sem exorbitar, como no Minho; e o habitante reune á laboriosidade de uma vida agricola a liberdade de uma existencia mais ampla. Por tudo isto, além dos caracteres geognosticos da região, a flora é variada, reunindo o pinheiro bravo e o manso, a vinha, a oliveira e o carvalho, o trigo, o milho e o centeio. Desde os campos que o Mondego todos os annos fertiliza, por Leiria e Alcobaça vestidas de florestas, pelas veigas do Nabão, chegamos ao Tejo; e, transpondo-o, entramos no seu valle, que é para nós como o Nilo é para o Egypto. N'elle com effeito o campino nos traz á idéa o typo d'essas raças da Africa setentrional, lybios ou mouros, cujo sangue anda misturado em nossas veias. A cavallo, de pampilho ao hombro, grossos sapatos ferrados, gorro vermelho na cabeça, o ribatejano, pastoreando os rebanhos de touros nas campinas humidas e vicejantes, é como um beduino do Nilo. A vasta planicie matizada de povoações e bosques de choupos, de salgueiros e de álamos, contornada ao longe pelas cumiadas das serras, tem o caracter das paizagens do Egypto, ou de Tunis, dominadas pelo esqueleto giganteo do Atlas[28].

Como o beirão, tambem o ribatejano reune á vida agricola a maritima ou fluvial: é elle quem vem nos seus barcos de _agua-acima_, até Lisboa, trazer o seu tributo de cereaes e fructas. Pelo Tejo, o Portugal maritimo abraça o Portugal agricola fundindo n'uma as duas phisionomias typicas da nação. Rio acima, o Alemtejo de um lado, a Beira do outro, por esta fórma se communicam com a população maritima do litoral. Lisboa, com Sines ao sul, Aveiro ao norte, eis os pontos cardeaes d'essa costa Occidental, d'onde tantas grandes aventuras, tão dilatadas viagens se emprehenderam. Capital geographica, Lisboa é tambem a nossa capital maritima; e se as viagens e descobertas são o coração da nossa historia particular nacional, Lisboa é tambem a nossa capital historica. As toadas plangentes que ao som da guitarra se ouvem por toda a costa do occidente; essas cantigas, monotonas como o ruido do mar, tristes como a vida dos nautas, desferidas á noute sobre o Vouga, sobre o Mondego, sobre o Tejo e sobre o Sado, traduzirão lembranças inconscientes de alguma antiga raça, que, demorando-se na nossa costa, pozesse em nós as vagas esperanças de um futuro mundo a descobrir, de perdidas terras a conquistar ao mar?

Os sonhos cheios de encanto e melancolia, por tão longos tempos embalados pelo incessante murmurio do mar bretão e pelo ciciar das florestas druidicas; o carinho da natureza pelo homem, traduzido n'essas lendas piedosas em que os animaes falam, os passaros veem fazer ninhos na mão dos santos, e a voz das fadas se mistura com o ramalhar das arvores e o murmurar das aguas: esse vaporoso e encantador botão da alma celtica, porventura desabrochava no espirito nacional portuguez, quando a conclusão das guerras da independencia assim o ordenou.

D. João de Castro, o marinheiro, tem, como um druida, o amor ingenuo da natureza: «Ó vergonha e grande cubiça dos homens, que por haver as desventuras dos metaes cavam tanto a terra que lhe tiram fóra as tripas, derribam grandes outeiros, abaixam asperas e altissimas serras no andar e olivel dos campos, e não contentes de _estragarem tanto a terra_, rompem e furam pelo mar por haverem uma perla--e para esculdrinhar uma obra maravilhosa da natureza são timidos e preguiçosos!»

[25] V. _Portugal contemporaneo_, pass.

[26] V. _Portugal contemporaneo_ (2.ª ed.), II, pp. 183-91.

[27] V. _Portugal contemporaneo_, (2.ª ed.) II, pp. 51-3.

[28] V. _Elem. de Anthropologia_ (3.ª ed.) p. 232.

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V

A historia nacional

D'esta viagem, breve, pallida, e incorrectamente esboçada, ficaria--ousamos crêl-o--no espirito do leitor uma impressão por isso mesmo verdadeira. Pallida e como que indeterminada, sem fortes côres nem linhas pronunciadas, é a phisionomia da nação, quer na paizagem, quer nos homens. Nenhum traço profundo distingue a nossa geographia; benigno, médio ou temperado é o nosso clima, e tambem o nosso caracter.

Se alguma cousa de facto nos individualisa, é a falta de affirmação do nosso genio. Aquellas a que poderemos chamar qualidades peculiares nossas, consistem na facilidade com que recebemos e assimilamos as de extranhos. Navegadores--e só por si este caracter não imprime em nós um cunho distincto dos demais povos maritimos--a maneira por que nos aventurámos ao mar, retrata ainda a nossa phisionomia collectiva: fomos prudente e pacientemente ao longo das costas africanas, ou de ilha em ilha, no oceano, caminhando passo a passo, avançando sempre, tenazes, mas jámais temerarios[29].

Essa individualidade passiva do nosso genio traduz-se na nossa historia. Ninguem busque n'ella movimentos originaes e profundamente caracterisados por uma idéa nacional: esperal-o-hia o castigo reservado a todas as chimeras. Ninguem busque tampouco o systema de um desenvolvimento proprio e organico, obedecendo a leis particulares, e constituindo, no seu todo, aquillo a que se chama uma civilisação: por esse lado apparecemos indestructivelmente ligados ao corpo peninsular; e apesar de politicamente separados, obedecemos ás leis geraes que lhe determinam a vida historica. O conjuncto dos nossos pensamentos moraes, o caracter dos movimentos que compõem o systema do desenvolvimento das instituições, o das condições das classes, e até as linhas geraes da nossa vida politica, são apenas um aspecto do systema da historia da peninsula iberica. Por isso nós, que, em outro livro,[30] tratamos d'este assumpto, não voltaremos agora a occupar-nos d'elle, para não fatigarmos o leitor com repetições inuteis. Procuraremos n'esta obra determinar o modo particular, proprio ou nacional, com que realisámos um programma historico geral, definindo a nossa individualidade collectiva; procuraremos tambem indicar os movimentos politicos, em que resolutamente defendemos a nossa autonomia; e finalmente mostrar que, sendo a ausencia de caracter nacional affirmativo, e a malleabilidade com que recebemos e assimilamos as influencias extranhas, o que mais pronunciadamente nos individualisa como povo, a independencia da nação não proveiu de factos naturaes, porém sim dos actos de vontade dos seus homens. Causas de outra ordem houve de certo que vieram dar-lhes um apoio energico, e, não falando agora nas maritimas e coloniaes, referimo-nos ás influencias extranhas á Hespanha, que por momentos nos pozeram, a nós, seus filhos, n'um estado de antagonismo transitorio com o desenvolvimento da historia peninsular. É sabido que a nossa primeira dynastia procedia de Borgonha; nos primeiros tempos são numerosos os fidalgos e soldados estrangeiros entre nós: e as conquistas de Lisboa, de Alcacer, do Algarve, effectuam-se com o auxilio de exercitos e armadas forasteiros. Mais tarde veem combater ao lado de D. João I os inglezes, com quem já ao tempo de D. Diniz celebráramos tratados de commercio, e que, nossos alliados no tempo do D. Fernando, nos impressionavam com os seus costumes e lettras. D'então data a generalisação dos nomes inglezes como Tristão, Jorge, Duarte, que se começam a encontrar ao lado dos antigos nomes romanos e gothicos. As allianças inglezas repetem-se nos primeiros tempos da dynastia de Aviz, até que o desenvolvimento do nosso imperio colonial nos torna soberanos. Annexados á Hespanha depois, voltamos a depender da Inglaterra ou da França, quando readquirimos a independencia. Generaes francezes commandam as campanhas da Restauração, patrocinada pela França; generaes inglezes, as guerras do principio do seculo subsidiadas pela Inglaterra. E duas vezes, quando se tentou chamar a nação á vida eminente da sciencia; duas vezes, quando D. João III e o marquez de Pombal reformaram a Universidade; duas vezes se importaram mestres extrangeiros.

De tudo o que deixamos escripto o leitor decerto comprehendeu já o systema de preceitos a que vae obedecer o nosso estudo; e affigura-se-nos ser este o caminho verdadeiramente scientifico de encarar a historia nacional, despindo-a de illusões patrioticas, e de phantasias chimericas. Mal de nós, se, amando do coração a nossa independencia, imaginarmos que ella póde manter-se firme sobre um alicerce de fabulas, contra a recta e indestructivel verdade da sciencia! A independencia dos povos assenta sobre tudo na vontade collectiva: tal foi a base da nossa, tal continuam a ser, se com a vontade tivermos o juizo correspondente. Sem elle, o querer é apenas um capricho.

Obedecendo pois ao enunciado, dividimos a historia patria em quatro periodos successivos. No primeiro, o da dynastia de Borgonha, não nos destacamos ainda bem do systema dos Estados peninsulares: somos um d'elles, e a independencia provém exclusivamente do espirito separatista da Edade-média personalisado no ciume absolutista dos reis e barões portuguezes.--Depois de Aljubarrota, porém, o sentimento de independencia nacional torna-se popular, desde que a revolução do Mestre d'Aviz o faz coincidir com o interesse particular da região portugueza. Entretanto a vida maritima fôra-se desenvolvendo: e a nova dynastia obedece conquistando o litoral da Africa aos marroquinos, á corrente historica peninsular: e inicia, com as navegações e descobertas, um movimento particularmente nacional. Póde então dizer-se que por um momento Portugal esteve á testa da historia da Hespanha.

A terceira epocha abrange, a nosso vêr, a infeliz empreza do Imperio oriental, onde o movimento maritimo nos levou. Os elementos de vida propria, formados na epocha anterior, produziram uma colonisação á antiga e uma litteratura néo-latina: n'estas duas circumstancias provavamos faltar-nos uma fibra de intima originalidade nacional. A perversão dos costumes, a vastidão das emprezas, o limitado dos nossos meios, os erros politicos, finalmente, condemnam-nos á perda da independencia.--Se na quarta e final das epochas da nossa historia voltamos a reganhal-a, a nossa vida apparece, comtudo, outra. Ao imperio oriental perdido, vem a exploração e colonisação do Brazil substituir-se, dando um ponto de apoio externo ao pequeno corpo europeu; e mais tarde, perdido a seu turno o Brazil, voltamo-nos agora, a vêr se a Africa póde dar-nos os meios de custearmos as despezas de um paiz pequeno e mediocremente abastado, sobre o qual pesam os encargos cada vez maiores do machinismo nacional. Hollanda do extremo occidente, radicada no corpo da Hespanha, como ella o está no corpo germanico, só n'um ponto de apoio externo podemos fundar o alicerce de uma independencia excepcional; só á custa de recursos coloniaes poderemos talvez satisfazer as multiplas e dispendiosas exigencias da organisação economica, scientifica e moral, hoje inseparaveis e indispensaveis á existencia de uma nação.[31]

[29] V. _O Brazil e as colonias portuguezas_ (3.ª ed.) pp. 2-6.

[30] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.).

[31] V. _O Brazil e as colon. port._ liv. IV-V, e _Portugal contemporaneo_ (2.ª ed.) liv. VI, 1, 3.

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LIVRO SEGUNDO

HISTORIA DA INDEPENDENCIA

(DYNASTIA DE BORGONHA: 1109-1385)

«He nossa entençon curtamente fallar, nom come buscador de novas razõoes, per propria invençom achadas, mas come aiumtador em huum breve moolho, dos ditos dalguns que nos prouguerom.»

F. LOPES, _Chr. de D. Pedro I_.

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I

A separação de Portugal

O condado portucalense, creado nos ultimos annos do XI seculo a favor do conde borguinhão D. Henrique, genro de Affonso VI, pouco tempo existiu sob o regime de uma vassallagem indiscutidamente reconhecida. Era essa a epocha em que a Hespanha tendia a constituir-se n'um systema de Estados independentes, á medida que successivas regiões iam saíndo de sob o dominio musulmano para o dos descendentes dos godos asturianos, ou dos seus actuaes alliados;[32] e o condado portucalense obedecia a esta tendencia geral, no empenho que o seu conde não mais encobriu desde a morte do sogro.

É com effeito da data do obito de Affonso VI que deve contar-se a éra da independencia de Portugal; embora por largos annos ella seja mais uma ambição do que um facto: embora essa ambição traduza um pensamento que os acontecimentos posteriores da historia impediram se realisasse. Qualquer que fosse o valor dado no XI seculo á expressão geographica de _Portucale_, é facto provado por todas as memorias e documentos d'esses tempos, que para ninguem deixava de considerar-se o territorio de entre Minho e Mondego como parte da Galliza. O facto da constituição do condado de nada vale contra esta opinião; porque demasiado se sabe que a formação dos Estados medievaes, na Peninsula e fóra d'ella, jámais obedecia ás prescripções geographicas ou etimologicas. Não se attribua pois a causas d'esta ordem, nem á consciencia de uma solidariedade nacional, o facto da desmembração da Galliza dos fins do XI seculo. A scisão que o Minho demarcou obedeceu apenas a motivos de ordem politica.

Isto mesmo, porém, deu causa a uma ambição, na qual devemos reconhecer o principio da vitalidade da nação portugueza, durante estas primeiras e ainda indecisas epochas da sua existencia. A solidariedade nacional espontanea existia de facto para os gallegos; e desde que a Galliza fôra dividida pela politica em duas, áquem e além Minho, restava saber qual d'essas metades tomaria sobre si o papel de representar um sentimento de independencia, commum a todos os membros ainda então disconnexos do corpo peninsular.

Varias causas concorriam para attribuir este papel á metade portugueza da Galliza; e porventura acima de todas o facto do merecimento pessoal do conde portuguez. Circumstancias d'esta ordem eram decisivas n'uma epocha em que a anarchia systematica da constituição da sociedade fazia principalmente depender os destinos immediatos d'ella da perspicacia ou da bravura dos seus chefes. Nada ha de commum entre a vida d'estes tempos e a dos posteriores: e n'um certo sentido póde até dizer-se que os factos de ordem politica são independentes dos de ordem social, porque a sociedade é como um elemento passivo que por este lado (mas por elle apenas) obedece ás consequencias do desordenado capricho dos actos e caracteres dos chefes militares que a governam, sem propriamente a representarem.

Nos primeiros tres seculos, isto é, na primeira epocha da historia portuguesa, a independencia é um facto originado no merecimento pessoal dos chefes militares dos barões de áquem Minho. Nacionalidade propriamente dita, não a ha; ou pelo menos não nol-a revelam os monumentos historicos, unanimes, tambem, em revelar uma ambição collectiva ou social que se estende a toda a Galliza. Ao merecimento pessoal reune-se, nos primeiros monarchas portuguezes, a circumstancia de serem os interpretes d'este sentimento. Por isso a tendencia permanente e o principio claramente definido da politica portugueza, nos primeiros seculos, é unificar a Galliza, constituindo a noroeste da Peninsula um Estado tão homogeneo, como o Aragão ou a Navarra a nordeste.