Historia de Portugal: Tomo I

Part 3

Chapter 33,835 wordsPublic domain

É essa a nação que a historia fórma: e por isso mesmo que a vida portugueza foi maritima, e o destino da sua historia o mar: por isso mesmo avultam os elementos que diariamente tornam cosmopolitas as cidades maritimas de um paiz cuja capital é um dos melhores portos do mundo. Portugal foi Lisboa, e sem Lisboa não teria resistido á força absorvente do movimento de unificação do corpo peninsular.

Erguido em frente do mar como um amphitheatro cujos primeiros degraus as ondas constantemente aspergem, o territorio portuguez, independente, adquiriu d'esta localisação um caracter seu: ao mesmo tempo que nos habitantes de Portugal acaso uma diversa combinação de sangue favorecia uma tendencia particular. Assim como, porém, as cristas das montanhas, e, pelo coração dos valles, o curso dos nossos rios, são as veias e os tendões que nos ligam ao corpo peninsular; assim tambem no nosso sangue os elementos primitivos accusam o facto de uma origem e de uma raça irman.

E se temos uma phisionomia moral, distincta sem ser diversa, tambem as condições do nosso territorio nos dão um genero de destino differente, mas encaminhado a um mesmo fim. As navegações e descobertas são a nossa gloria e a nossa maior façanha. Mareando a interrogar as mudas ondas, construimos; conquistando, derrocámos. Navegadores e não conquistadores, desvendámos todos os segredos dos Oceanos; mas o nosso imperio no Oriente foi um desastre, para o Oriente e para nós. A bordo fomos tudo; em terra apenas podémos demonstrar o heroismo do nosso caracter e a incapacidade do nosso dominio. Façanhas de homens que dirigem instinctos devotos e pensamentos de cubiça, eis ahi o que nós veremos ser o nosso imperio oriental. Epopêa do espirito indagador, audaz e paciente, as nossas navegações, as nossas explorações colonisadoras, tornam-nos os genios d'esse elemento mysterioso, para o qual, porventura, a nossa alma celtica nos attrahia. Quando á Europa humilhada o castelhano impõe a lei com a espada e o mosquete, nós, amarrados ao banco dos remeiros, segurando o leme, ferrando as velas, alargamos mar em fóra a nau, com o olhar perscrutador fixado nos astros que nos guiam. Vamos de manso, ao longo das costas... Ninguem nos vê: só as ondas ouvem as melopêas monotonas dos marinheiros, cujo rithmo obedece ao rithmo do quebrar da vaga contra o costado.--Elles vão, emplumados e vestidos de aço, arrogantes e cheios de imperio, com o seu grito stridente e tragico, ensurdecer e estontear o mundo! Ninguem diria dois povos irmãos; e são-no, porque ambos obedecem a um motivo identico, a um pensamento egual, que está no fundo da sua alma inconsciente, como a chamma que arde no cerne da Terra, dando origem a rochas tão diversas no aspecto, na côr, na rigeza, na structura, no merito.

Portugal é um amphitheatro levantado em frente do Atlantico que é uma arena. A vastidão do circo desafia e provoca tentações nos espectadores, arrastando-os afinal á laboriosa empreza das navegações, que era para elles um destino desde que a politica os destacára do corpo da Peninsula.

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Quando se percorre de norte a sul a estreita facha da nação occidental da Hespanha, encontram-se os successivos prolongamentos das cordilheiras peninsulares, galgando uns até ao mar, terminando outros mais distante da costa. Entre elles abrem-se as bacias ou estuarios de rios parallelos que podem dividir-se em dois systemas: o do norte e o do sul, delimitados pela cordilheira da Estrella-Aire-Montejunto-Cintra.

No systema do norte, o Douro é a arteria central d'uma região montuosa, coroada nos limites setentrionaes e austraes pelas duas cordilheiras culminantes da Galliza e da Beira. De uma e de outra, como socalcos ou degraus successivos d'essa platéa de montanhas que se fecha áquem da fronteira portugueza, descem outras serras, entre cujas depressões se precipitam os rios nacionaes do norte: o Minho, que delimita a Galliza, o Lima, o Cávado e o Ave, ao norte do Douro, e ao sul o Vouga e o Mondego. As serras de entre Minho e Lima são as do Suajo; as de entre Lima e Douro, as do Gerez e do Marão, separadas pelo Tamega, confluente d'este ultimo; as d'entre Douro e Vouga, Montemuro; as d'entre Vouga e Mondego, Caramullo.

No sul, as bahias do Tejo e Sado, divididas pela peninsula da Arrabida, constituem o centro de um systema de caudaes irradiantes que cortam a zona mais plana, limitada de um lado pela serra da Estrella, do opposto pela do Algarve. Ao norte, na raiz austral da primeira, corre o Tejo, desinternando-se de Castella; destacando-se d'este, para sueste, o Sorraia, em plena planicie; e, mais pronunciadamente para o sul, o Sado, que vae nascer no pendor norte das montanhas algarvias.

Se a metade norte de Portugal é fechada a leste por um systema de contrafortes avançados dos Pyreneus cantabricos, a metade sul, theatro das guerras castello-portuguezas, contradiz de um modo incontestavel a opinião dos que vêem na orographia a base necessaria da delimitação das fronteiras nacionaes.

A começar do sul, o Guadiana fende a cordilheira andaluza penetrando no interior da Peninsula. Curvando a sua orientação em Badajoz, o Guadiana, depois de ter regado os nossos terrenos raianos, toma uma direcção leste atravez das largas campinas da Estremadura hespanhola que os tratados apenas dividiram do nosso Alemtejo. N'esta metade austral da nossa fronteira de leste, as planicies e as aguas do rio que as rega mudam de nação sem mudarem de natureza; e outro tanto succede aos contrafortes avançados que reunem n'um mesmo promontorio as serras de Guadalupe e a Morena, e onde em Portugal assentam Portalegre ao norte, Evora ao sul. No troço de fronteira ao norte d'esta como que garra lançada pela ossatura da Hespanha no Portugal alemtejano, corre, primeiro, o amplo valle em cujo centro deslisa o Tejo, prolongando-se com elle, Estremadura em fóra, até Toledo; e seguem, depois, as cumiadas da Guardunha que dividem o Tejo do Zezere, apertando este rio contra a serra da Estrella.

O pendor austral das serras do Algarve e a facha ou tapete de jardins sobre que pousa a sua base o throno d'esses montes, formam uma ultima e como que excepcional provincia geographica, vedeta sobre o continente fronteiro, cujo clima e producções partilha.

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Geognosticamente, o territorio portuguez póde dividir-se em tres regiões principaes: a das rochas igneas e paleozoicas, a dos terrenos secundarios, e a dos terrenos terciarios.

Tracemos uma linha que, partindo de Aveiro para norte, ao longo da costa, se dobre para nascente acompanhando a fronteira marginal do Minho. D'ahi extende-se por toda a raia de leste até ás serras do Algarve, baixando-a em direcção poente, para a prolongar com a costa até Sines. Depois, interne-se a contornar a bacia do Sado, por Grandola, Cercal, Panoias, Aljustrel, Ferreira, Torrão até Vendas-Novas; em seguida a do Sorraia, por Lavre, Mora, Ponte-de-Sôr, caíndo sobre o Tejo em Abrantes, e caminhando para norte por Thomar, Alvaiazere, Anadia--e ter-se-ha encerrado em Aveiro um perimetro que abrange cerca de tres quartas partes da superficie total da nação. É a região dos terrenos primitivos.

A dos terrenos secundarios compõe-se de dois retalhos isolados. O primeiro extende-se ao longo da margem direita do Tejo, desde Lisboa até á Barquinha; entestando d'ahi até Aveiro com a linha anteriormente traçada, e vindo ao longo da costa, a descer para o sul, circumscrever a serra de Cintra, chegando outra vez a Lisboa. O segundo é constituido pelo litoral do Algarve, no pendor sul das serras, até ao mar.

A terceira região, finalmente, a dos terrenos terciarios, desce pela costa, desde a ponta do Bogio, ao sul do Tejo, até Sines, alargando-se pelas duas zonas divergentes dos valles do Sado e do Sorraia, contornados pela linha determinada antes ao delimitar a raia da primeira região.

Esta ultima é, como se viu, a mais extensa e importante. Abrange as duas provincias ao norte do Douro, a quasi totalidade das duas Beiras e do Alemtejo, e boa metade do Algarve. A Estremadura quasi por si só compõe as duas segundas regiões--uma ao norte, outra ao sul do Tejo[24].

Na do norte predominam os terrenos cretaceos e jurassicos, formando tambem estes ultimos a quasi totalidade do retalho algarvio da segunda região. Uma pequena mancha de granitos em Cintra, os basaltos dos arredores de Lisboa, e as dunas da costa, desde a Marinha-grande até Aveiro, são os phenomenos esporadicos da geognosia d'esta parte de Portugal.

Na região do sul do Tejo apenas a Arrabida e S. Thiago de Cacem apresentam breves nodoas de terrenos jurassicos; e estes, os terrenos modernos formados pelas alluviões do Tejo e Sado e que lhes bordam as margens, e os areaes da costa entre o Bogio e o cabo de Espichel, são as unicas excepções do vasto lençol da região dos terrenos terciarios.

Na primeira e mais extensa das zonas geognosticas de Portugal tambem o Tejo póde dar lugar a uma divisão em duas sub-regiões differentemente caracterisadas. Tomadas ambas como um todo, os terrenos, schistosos quanto á structura, e primarios ou paleozoicos quanto á edade, predominam em massa, envolvendo as rochas eruptivas ou igneas. Porém ao norte do Tejo o volume d'estas rochas, exclusivamente graniticas, é proximamente egual á dos schistos; ao passo que ao sul, além d'estes ultimos predominarem, apparecem não só granitos mas porphyros e diorites.

Entre Castello-de-Vide, Portalegre, Niza e o Crato, inscreve-se acaso o maior e mais compacto affloramento de granitos ao sul do Tejo. Depois d'este vem o de Evora, bracejando de um modo irregular, para norte até Vimeiro, para nordeste até Lavre, e no lado opposto até Vianna, Aguiar e S. Manços. Afinal, as pequenas nodoas de Galveas, de Santa Eulalia, de Freia, de Reguengos, da Vidigueira, e de Valle-Vargo a nascente de Serpa, completam o systema de affloramentos graniticos da sub-região do sul do Tejo. Os porphyros e diorites constituem um longo dorso que vem de sueste a nordeste, desde Serpa, por Beja, Alvito, Torrão, Alcaçovas, terminar junto de Cabrella, quasi na raia da região terciaria. Além d'esta formação principal, encontram-se destacadas as manchas sporadicas de Alter, de Bonnavilla, de Monforte, e as duas mais consideraveis de Campo-maior e de Elvas, proximo da fronteira.

Ao norte do Tejo as condições variam. A massa de rochas eruptivas predomina sobre a dos schistos. Depois do macisso schistoso da Guardunha, entre Castello-Branco e o Fundão, transposto o valle do Zezere, encontra-se a base alastrada da serra da Estrella, e afinal os alicerces de Monte-muro. Os granitos vêem desde a fronteira, entre Alfaiates e a Barca d'Alva, pela Covilhan e Taboa ao sul, por Vizeu a poente, entestar no Douro, cuja margem esquerda sobe até á raia de Leão. Pequenas são as nodoas schistosas na área circumscripta: S. João-da-Pesqueira e Villa-nova-da-Foscoa, na margem do Douro: Villa-da-Egreja ás origens do Vouga; Pinhel e Valhelhas no pendor sul da serra da Estrella.

Porém as abas occidentaes das serras da Guardunha, da Estrella e do Montemuro, ladeadas ao sul pelo Tejo, formam duas vastas zonas de terrenos paleozoicos, uma cortada pelo Zezere, outra pelo Mondego e pelo Vouga: são estas zonas que vêem raiar com a região dos terrenos secundarios até Aveiro, e com o mar desde Aveiro até â foz do Douro, tendo de permeio a facha de dunas da costa.

Ao norte do Douro os schistos predominam para cima da linha Regoa-Chaves, os granitos para baixo. Ao longo da costa, desde o Porto até á Povoa, encontra-se, destacado, um affloramento de rochas eruptivas; e, para leste, um outro nas serras do Gerez e do Suajo, a poente do Tamega, lançando junto a Braga um ramo que vae, por Barcellos, a Vianna e até Caminha.

A leste da linha Chaves-Regoa são irregulares e dispersos os affloramentos eruptivos: acompanham a margem portugueza do Douro desde Bemposta até Miranda; apparecem em dois pontos da extrema fronteira do norte; vêem de Montalegre, por Chaves até Valpassos e Torre-de-D. Chama; e pela serra do Marão, desde Mondim e Ribeira-de-Pena, por Villa-Pouca e Villa-Real, morrer junto ao Douro em Villarinho. Todo o resto, o Marão, da Campean a Santa Martha, as alturas á esquerda do Corgo, a maxima parte do valle do Tua, e todo o valle do Sabor, são formados pelos terrenos paleozoicos.

[22] V. _As raças humanas_, introd., pp. XXXI-II.

[23] V. _O Brasil e as colonias portuguezas_ (2.ª ed.) pp. 1-29.

[24] V. para a geologia terciaria do Tejo, os _Elem. de Anthropologia_ (3.ª ed.), pp. 212-17, podendo cotejar-se o estudo da região portugueza com o da Peninsula no seu todo na _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.) pp. VII-XXI.

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IV

A terra e o homem

Conhecida a orographia e a geognosia do territorio, brevemente indicaremos o systema de caracteres agricolas e climatologicos, ambos subordinados aos anteriores, e todos solidariamente ligados para formar a phisionomia natural das diversas regiões do territorio portuguez.

A sua antiga divisão em provincias obedecia mais a estas condições naturaes do que a moderna divisão em districtos: as causas determinantes de uma e de outra são o motivo d'esta differença. As provincias formaram-se historicamente em obediencia ás condições naturaes; os districtos actuaes foram creados administrativamente de um modo até certo ponto artificial. Umas provinham dos caracteres proprios das regiões, e a administração limitára-se a reconhecer factos naturaes: outros, determinados por motivos abstractos, nasceram de principios administrativos e estatisticos (área, quantidade de população, etc.), fazendo-os discordar o menos possivel dos limites naturaes, geographicos e climatologicos. Por estes motivos nós agora estudaremos por provincias, e não por districtos, o territorio portuguez; deixando para o lugar competente o estudo das condições modernas da nação.[25]

A divisão das provincias apoiava-se em factos phisicos de um valor eminente. Começando pelo norte, o territorio de além-Douro inscreve duas zonas separadas pelo Tamega: a leste, Traz-os-Montes, a oeste, Entre-Douro-e-Minho. Além de obedecer, como se vê, á geographia, buscando nos rios fronteiras naturaes, a divisão das duas provincias consagrava differenças essenciaes: as geognosticas já por nós observadas (rochas eruptivas dominando a oeste, schistos a leste do Tamega), e além d'ellas as climatericas. Portugal, segundo já se disse n'outro lugar, é em geral um amphitheatro de montanhas, levantado em frente do Oceano. Esta circumstancia caracterisa para logo as regiões de um modo tambem geral, dividindo-as em duas categorias: as maritimas e as interiores; as cis e as transmontanas; as que estão directamente expostas á acção das brisas maritimas, e os declives orientaes, os valles interiores, e os degraus ou socalcos das serras encobertas aos bafejos do mar por cumiadas occidentaes sobranceiras.

Esta circumstancia dá caracteres inteiramente diversos ás duas provincias do Douro-Minho e de Traz-os-Montes, divididas pelas serranias do Gerez e do Marão, que roubam a ultima á acção das brisas maritimas. Quem alguma vez transpoz o Tamega, decerto observou a profunda differença da paizagem e do caracter e aspecto dos habitantes de áquem e de além d'esse rio. O transmontano, vivo, ágil, robusto, destaca-se para logo do minhoto, obtuso mas paciente e laborioso, tenaz, persistente e ingenuo. Além do Tamega o clima é secco (40 a 60% de humidade relativa) poucas as chuvas (500 a 1:000 millim. e no estio 70 a 80 apenas), grande o calor no fundo dos valles apertados, mas temperado nas alturas; intensos os frios hibernaes, que coroam de neve as montanhas e gelam a agua pelas baixas (12 a 15° temp. média). Áquem, as brisas do mar, estacadas na sua passagem pelas serras, condensam-se e produzem as chuvas copiosas: por isso no Minho o pendor occidental das serras de oriente é sarjado pelos numerosos e successivos rios parallelos, cujos valles, reunindo-se junto á costa, formam ao longo d'ella a primeira das planicies litoraes de Portugal. Habita essa região pingue uma população abundante, activa, mas sem distincção de caracter, nem elevação de espirito: consequencia necessaria da humidade e da fertilidade. Falta essa especie de tonificação propria do ar secco e dos largos horizontes recortados n'um céu luminoso e puro. O Minho é uma Flandres, não uma Attica. As chuvas precipitam-se abundantes (1:200 a 2:000 mill. annuaes, e no estio 80 a 200) sobre um chão lavrado de caudaes; a humidade (70 a 100%) torna flaccidos os temperamentos e entorpece a vivacidade intellectual, que nem um frio demasiado irrita, nem um calor excessivo faz fermentar, á maneira do que succede nas zonas genesiacas dos tropicos. Temperado o clima (12 a 15°), sem excessivos afastamentos hibernaes, a população satisfeita, feliz, e bem nutrida de vegetaes e de ar humido, offerece a imagem de um exercito de laboriosas formigas sem cousa alguma de aládo e brilhante de um enxame dourado de abelhas.

O clima determina a paizagem. Além Tamega as louras messes do trigo, os pampanos rasteiros, o carvalho nobre e o castanheiro gigante vestem os pendores de elevadas serras, cujas cristas dentadas de rochas, no inverno coroadas de neves, se recortam no fundo azul do firmamento, dando fixidez e nobreza ao quadro, e infundindo o quer que é de elevado no espirito. A natureza vive na luz, e a alma sente que os elementos teem dentro em si forças que os animam.

Áquem Tamega o scenario muda: a humidade cria em toda a parte vegetações abundantes; não ha um palmo de terra d'onde não brote um enxame de plantas: mas como o solo é breve, como a rocha afflora por toda a parte, e os campos nascem do terreno vegetal formado nas anfractuosidades do granito pelas folhas e ramos decompostos, e nos estuarios dos rios pelos sedimentos das cheias, a vegetação é rasteira e humilde, o pinho maritimo de uma constituição debil, o carvalho um pigmeu enleiado pelas varas das vides suspensas. A densidade da população completa a obra da natureza n'uma região onde o vinho não amadurece: o acido picante dá-lhe uma similhança das bebidas fermentadas do norte, cidra ou cerveja, e com ella, ao genio do povo, caracteres tambem similhantes aos de bretões e flamengos. A vegetação, de si mesquinha, é amesquinhada ainda pela mão dos homens: as necessidades implacaveis da população abundante produzem uma cultura que é mais horticola do que agricola: pequeninos campos, circumdados por pequeninos valles, orlados de carvalhos pigmeus, decotados, onde se penduram os cachos das uvas verdes. No meio d'isto formiga a familia: o pae, a mãe, os filhos, immundos, atraz d'uns boisinhos anões que lavram uma amostra de campo, ou puxam a miniatura de um carro. Sob um céu ennuveado quasi sempre, pisando um chão quasi sempre alagado, encerrado n'um valle abafado em milhos, dominado em torno por florestas de pinheiros sombrios, sem ar vivificante, nem abundante luz, nem largos horizontes, o formigueiro dos minhotos, não podendo despegar-se da terra, como que se confunde com ella; e, com os seus bois, os seus arados e enxadas, fórma um todo d'onde se não ergue uma voz de independencia moral, embora amiude se levante o grito de resistencia utilitaria.[26] A paizagem é rural, não é agricola; a poesia dos campos é naturalista, não é idealmente pantheista. Quem uma vez subiu a qualquer das montanhas do Minho e dominou d'ahi as lombadas espessas de arvoredo, sem contornos definidos, e os valles quadriculados de muros e renques de carvalhos recortados, sentiu decerto a ausencia de um largo folego de ideal, e de uma viva inspiração de luz. Apenas aqui e acolá, engastado na monotonia da côr dos milhos, um canto do verde alegre do linho vem lembrar que tambem no coração do minhoto ha um lugar para o idyllio infantil do amor.

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Descendo para o sul do Douro, entre a Beira montanhosa e a Beira litoral, dão-se differenças analogas ás que distinguem o Minho e Traz-os-Montes: analogas, dizemos, e não identicas, porque n'esta nova região começam a sentir-se as influencias de causas geraes, como são as da latitude. A zona anterior estanceia entre os parallelos de 41° e 42°; as Beiras descem até 39° 30'. Portugal, inscripto entre 37° e 42°, e lançado como uma estreita facha norte-sul, tem na latitude das regiões uma causa geral a concorrer sempre com as causas particulares, quaes são a altitude, a exposição e a constituição geognostica das montanhas, no sentido de determinar os caracteres das suas differentes provincias.

N'esta de que agora nos occupamos, levanta-se ao centro a serra da Estrella, a cujo pendor maritimo se chamou Beira-alta, dando-se aos declives transmontanos oppostos, reunidos á Guardunha, o nome de Beira-baixa. Tres zonas compõem a região das duas provincias: o litoral formado pelos estuarios do Vouga e do Mondego, as serranias occidentaes ou maritimas, e as orientaes ou transmontanas.

A serra da Estrella é a mais elevada das cordilheiras portuguezas; é o prolongamento da espinha dorsal da Peninsula; é a divisoria das duas metades de Portugal, tão diversas de phisionomia e temperamento; é finalmente como que o coração do paiz--e acaso nas suas quebradas e declives, pelos seus valles e encostas, demora ainda o genuino representante do lusitano antigo. Se ha um typo propriamente portuguez: se atravez dos acasos da historia permaneceu puro algum exemplar de uma raça ante-historica onde possamos filiar-nos, é ahi que o havemos de procurar, e não entre os gallegos ao norte do Douro, nem entre os turdetanos da costa do sul, nem entre as populações do litoral cruzadas com o sangue de muitas raças e com os sentimentos e costumes das mais variadas nações.

O pastor quasi-barbaro d'essas cumiadas da serra a topetar com as nuvens (1:800 a 2:000m. de altit.), abordoado ao seu cajado, vestido de pelles, seguindo o rebanho de ovelhas louras, é talvez o descendente dos companheiros de Viriato. Por essas eminencias, tapetadas de relva no estio e de neves no inverno, nem as villas, nem as arvores se atrevem a subir: só o pastor nómada as habita. Do alto do seu throno de rochas vê gradualmente ir nascendo a vida pelas encostas: primeiro o zimbro, rasteiro e roído pelo gado, circumda os altos nús; logo apparecem os piornos, as urzes brancas, os carvalhos; depois, já a meia altura da encosta, os castanheiros, as lavouras, e os enxames de aldeias; afinal, na extrema baixa, o lençol de lagunas, tapete de esmeraldas engastadas em fios de brilhantes, que o sol faceta ao espalhar-se no labyrintho dos canaes.

A serra da Estrella, reforçada ao norte pelo contraforte de Monte-muro, fecha, com o Marão e o Gerez, uma muralha natural, onde os ventos do mar estacam. Apenas cortada pelos valles do Douro e do Tua--duas fendas--essa barreira, cujos picos sobem até 2:000m., encerra e protege o Portugal do norte, sendo a principal causa das chuvas abundantes e do clima creador do litoral de além-Mondego.

O beirão, habitante da encosta occidental onde o ar é mais humido do que em Traz-os-Montes (65 a 100%), as chuvas mais abundantes (700 a 1:200 millim.) e a temperatura identica: onde o castanheiro colossal, o cedro, o carvalho e o pinheiro bravo põem na paizagem todos os tons e essa grandeza propria de arvores que vivem seculos: o beirão é menos vivo, mas mais robusto. Quem divagou por essas terras admirou decerto a structura herculea dos seus homens, cuja face, não luzindo com os brilhantes reflexos de vida interior, accusa todavia um pleno desenvolvimento da vida animal. Berço dos audazes bandidos, anachronicos representantes de uma independencia de outras edades,[27] a Beira é o viveiro de musculosos trabalhadores, que vão todos os annos, pelo estio, lavrar as glebas do sul do Tejo, levemente vestidos com as bragas curtas de linho, descalços, com a camisola de lan agasalhando o tronco, o barrete phrigio na cabeça, a manta e a enxada ao hombro.