Chapter 6
*Socrates.*--N'estes desgraçados tempos viveu o grande philosopho Socrates, um dos maiores nomes da historia da humanidade. Nascido em 469, pagou á patria o seu tributo de sangue combatendo em Potidea, em Amphipolis e em Delion. Na primeira d'estas batalhas salvou a vida a Alcibiades, na ultima ao moço Xenophonte. Não é aqui logar para expormos as suas idéas philosophicas, na manifestação das quaes empregava um methodo interrogatorio, que ficou celebre com a designação de _ironia socratica_.
Em 399, a democracia atheniense, usando de uma intolerancia que para sempre a maculou, instaurou processo a Socrates pelas suas opiniões religiosas e pela sua propaganda politica; e este grande homem foi condemnado a beber a cicuta, morrendo com admiravel serenidade.
CAPITULO X
HEGEMONIA DE ESPARTA
Vencida Athenas, os Espartanos procuraram completar a sua hegemonia sobre as ilhas e as cidades do litoral, conquistando a soberania do mar. Apoderaram-se de Samos, obrigando os cidadãos a emigrar e a abandonarem as suas riquezas; tiraram aos habitantes de Chio os seus navios, e mataram por traição 80 democratas de Mileto; subjugaram Elis; expulsaram novamente de Naupacta os infelizes Messenios; lançaram pezadissimos impostos ás cidades maritimas e substituiram em toda a parte as constituições democraticas pela sua organização aristocratica. Com as contribuições formaram o seu thesouro publico; as populações do Peloponeso forneciam-lhe soldados; as das cidades do litoral e das ilhas, esquadras e marinheiros.
O seu dominio era mais oppressor para os povos subjugados do que fôra o de Athenas, mais duro, mais cruel, e sem ter ao menos a compensação de manter n'uma alta esphera intellectual a cultura dos espiritos. Era a prepotencia da força, o desprezo da justiça, o anniquilamento do direito. Era a decadencia inexoravel, sem remedio.
Decadencia em tudo, rapida, nas instituições, na grandeza, na civilização, no prestigio! Os éphoros tinham usurpado a auctoridade toda; os reis estavam reduzidos á condição de uns simples generaes hereditarios; uns mil cidadãos, quando muito, constituiam toda a oligarchia soberana. A propriedade estava em meia duzia de mãos; as classes servis, cada dia mais numerosas, principiaram a conhecer a força de que poderiam dispôr contra os seus oppressores, se conseguissem unir-se.
De toda a Grecia, apenas Argos, Corintho, Thebas, e a Etolia, não reconheciam o jugo terrivel de Esparta, e em breve haviam de ser o nucleo de uma formidavel coalisão.
*A retirada dos Dez Mil.*--No throno da Persia tinham-se succedido, a Xerxes, Artaxerxes Longomano (465-424), Xerxes II e Sogdiano (424), Dario II Nothos (ou o Bastardo) (423-404), e Artaxerxes II Mnémon, que deu a satrapia da Asia-Menor a seu irmão Cyro «o Moço». Este, pretendendo ter mais direitos ao throno do que seu irmão, intentou arrancar-lhe o poder; e, para isso, juntou um formidavel exercito, no qual tomou a seu soldo treze mil mercenarios gregos, tropas que lhe foi facil juntar, pois com o termo da grande guerra muitas forças militares estavam desoccupadas.
Esparta, pelo seu lado, tinha interesse em favorecer a guerra civil na Persia, como uma garantia da sua propria tranquilidade e segurança do seu dominio; e por esse motivo não só permittiu o levantamento das tropas, como tambem poz á disposição de Cyro 25 galeras e um corpo de septecentos hoplitas.
Cyro invadiu a Persia, penetrou até ás portas de Babylonia; e ahi, na planicie de _Cunaxa_, travou-se uma grande batalha, na qual os Gregos ficaram victoriosos, mas onde o régio aventureiro foi morto (401).
Cercados por todos os lados, os Gregos começaram a sua famosa retirada. _Clearoo_, seu general, e outros officiaes, foram aleivosamente assassinados n'uma conferencia a que os Persas os convidaram; mas o atheniense _Xenophonte_, que tinha tomado parte, como voluntario, na campanha, poz-se á frente das tropas, e, de accordo com o espartano _Cheirisopho_, conduziu-as; no meio das mais incriveis difficuldades, atravez de quatrocentas leguas de paiz inimigo, por meio das montanhas impracticaveis da alta Mesopotâmia, da Armenia e do Ponto, até ás praias do Mar Negro. Quinze mezes durou esta extraordinaria operação militar, assignalada por cem combates, realizada por um punhado de homens, sem conhecimento do paiz nem da lingua, sem guias, passando a vau torrentes impetuosas, subindo cerros escalvados, atravessando vastidões inhospitas, cobertas de neve espessa, soffrendo toda a especie de privações, acossados de perto pelos inimigos, inquietados a todo o momento pelos habitantes.
A retirada dos Dez Mil foi um dos maiores feitos militares da Antiguidade, e immortalizou duas vezes Xenophonte, como capitão e como historiador. A _Anabasis_ (ou a narrativa da expedição de Cyro «o Moço» contra a Persia e do regresso do exercito grego sob o commando do proprio historiador) é a melhor obra de Xenophonte.
*Expedição de Agesiláu.*--Os Persas, irritados com os factos que acabamos de narrar, e pretendendo vingar-se, procuraram submetter de novo as cidades jonias do littoral, que eram então tributarias dos Espartanos. Estas pediram auxilio a Esparta, que lhes mandou um exercito, cujas vantagens ao principio foram insignificantes; mas depois mudaram as coisas de feitio quando o rei Agesiláu (398-361) tomou o commando da expedição.
Agesiláu devastou a Phrygia, a Bithynia, a Caria, a Lydia; venceu perto de Sardes (396) o satrapa Tissaphernes, e outros governadores persas em diversos combates; inriqueceu de magnificos despojos os seus soldados. E preparava-se para chegar até ao coração do Imperio pelo caminho traçado pelos Dez Mil, quando recebeu ordem terminante de regressar a Esparta. Eram os Persas que tinham suscitado a Esparta uma guerra no interior da Grecia, e Agesiláu tinha de correr em auxilio da patria ameaçada.
*Guerra Corinthia.*--Incitada pelo oiro dos Persas, mas principalmente pela tyrannia espartana, Thebas foi a primeira cidade a insurgir-se contra a supremacia de Esparta; com ella se ligaram Corintho, Argos, Athenas, e a Thessalia. Lysandro, que partiu immediatamente para a Beocia, afim de remover o perigo imminente, foi vencido e morto na batalha de Haliarte (395). N'isto chegou Agesiláu, a tempo de ganhar sobre os alliados a _batalha de Coronea_ (394).
A Persia deu ao atheniense Conon uma esquadra phenicia, com a qual foi destruida, em frente de Cnido, a armada lacedemonia. Esparta perdia o dominio do mar, e Athenas concebia a esperança de rehavêl-o, sendo esse o pensamento de Conon. Este restituiu a independencia ás ilhas de Chios, de Lesbos, de Samos, expulsou os governos oligarchicos impostos pelos Espartanos, e, auxiliado pela Persia, effectuou o restabelecimento das fortificações da cidade e do porto de Athenas, e a construcção de mais navios.
A republica atheniense, sentindo-se renascer, inviou Thrasybulo com uma esquadra para reduzir Byzancio, o que elle fez, sendo, porêm, morto na Pamphylia; mas, ao mesmo tempo, Athenas commetteu um grande erro, soccorrendo Evagoras, rei de Chypre, contra os Persas, o que lhe retirou a protecção d'estes, inclinando-os de novo para o lado de Esparta.
Por outro lado, Iphicrates, atheniense, general muito habil, fundou uma tactica nova, servindo-se de soldados armados á ligeira e dando aos hoplitas uma organização e um armamento mais nacionaes. Assim conseguiu derrotar completamente n'um recontro a infantaria, até ahi invencivel, de Lacedemonia.
Esparta atemorizada com as vantagens dos Athenienses, tanto no mar como na terra, negociou com o grande rei o vergonhoso _tratado d'Antalcidas_.
*Paz d'Antalcidas.*--Por este tratado (387) foram submettidos aos Persas os Estados Gregos do continente asiatico com a ilha de Chypre, conservadas a Athenas as ilhas de Lemnos, de Imbros e de Scyros, e reconhecidas como independentes umas das outras todas as cidades da Grecia. Argos e Thebas, que se recusavam a obedecer ao tratado, foram a isso constrangidas por Esparta.
Por este tratado, imposto á Grecia por um monarcha extrangeiro, as costas occidentaes da Asia-Menor foram para sempre arrancadas ao dominio hellenico, todas as ligas foram dissolvidas, todas as confederações desmembradas, ficando assim destruidos todos os centros de força e de vida collectiva.
CAPITULO XI
DECADENCIA DE ESPARTA. HEGEMONIA DE THEBAS
Pela paz d'Antalcidas tornou a affirmar-se a preponderancia de Esparta, mas por pouco tempo. A orgulhosa cidade, oppressora e despotica, principiou por conquistar e destruir _Mantinéa_ (386) qua se não submettia ao jugo com a exigida complacencia; depois inviou novamente para todas as cidades os seus partidarios aristocraticos, carregando-os de honras e poder. A cidade grega de Olyntho, na Macedonia, formava com outras cidades proximas uma liga, a _confederação chalcidica_. Os Espartanos prohibiram essa liga como contraria á paz d'Antalcidas.
Os Olinthos não quizeram dissolvêl-a (382); e por isso viram o seu territorio invadido pelos Espartanos que lhes puzéram cêrco á cidade e os obrigaram a submetter-se depois da uma lucta de tres annos.
Em 380, o general lacedemonio, _Phebidas_, atravessando a Beocia, ligou-se com os chefes do partido aristocratico de Thebas para os ajudar a derrubar o partido democratico, e tomou de surpresa a Cadmea ou a cidadella, com desprezo de todos os direitos. Tres annos depois, _Pelopidas_ surprehendeu a seu turno a Cadmea, libertou-a, e reuniu toda a Beocia n'uma alliança commum (379).
Os Athenienses alliam-se então com as Thebanos, e uns e outros conseguem tirar grandes vantagens contra Esparta, na terra e no mar. Na recontro de Tegyra (375), forças inferiores dos alliados derrotam a temivel infanteria dos Lacedemonios. Um certo numero de ilhas e de Estados maritimos, taes como Chios, Rhodes, Samos, Mitylene, formam uma segunda _liga atheniense_; a victoria do atheniense _Chabrias_, proxima de Naxos, em que toda a esquadra espartana foi anniquilada, restituiu a Athenas a supremacia maritima.
Juntamente com Pelopidas dirigia os negocios em Thebas um dos maiores homens da Antiguidade, _Epaminondas_. Pelopidas tinha estabelecido o _batalhão sagrado_, corpo em que os guerreiros eram unidos pelos laços da amizade mais apertada; e Epaminondas introduziu uma nova tactica, a ordem de batalha obliqua. Graças aos seus esforços combinados, foram reduzidas á submissão as cidades menores da Beocia e destruidas Thespia e Platéa (374).
Athenas, descontente com o Engrandecimento e a ambição de Thebas, concluiu pazes com Esparta. Thebas foi intimada a dissolver a sua liga recente e a libertar as cidades confederadas. Epaminondas, negando-o formalmente, viu os Lacedemonios invadirem o territorio thebano. Marchou ao incontro d'elles, levando Pelopidas debaixo do seu commando, e derrotou-os completamente na memoravel batalha de Leuctra, na qual terminou todo o prestigio militar dos Espartanos (371).
Epaminondas ingrossou o seu exercito com as forças que lhe inviaram quasi todos os povos do norte da Grecia, atravessou o isthmo de Corintho em 369, penetrou na Laconia, desceu o valle do Eurotas e chegou até á planicie de Esparta a apresentar batalha ao velho rei Agesiláu. Este conservou-se habilmente na defensiva, com as suas tropas em posições fortissimas, d'onde o general thebano não poude desalojál-as. Epaminondas satisfez-se com esta humilhação imposta ao orgulho de Lacedemonia; e, depois de ter devastado toda a Laconia até ao mar, voltou para a Beocia com o seu exercito.
No seu regresso, chamou á liberdade os Messenios, e restituiu aos descendentes dos antigos habitantes o paiz de seus paes, o que fui um golpe mortal para Esparta. Estes conseguem levantar, contra Thebas, Athenas, a Persia e Diniz de Syracusa. Epaminondas invade segunda vez o Peloponeso, mas é forçado a retirar abandonando os seus alliados de Argos e de Mantinéa, os quaes perdem contra Esparta a batalha a que os Espartanos, por não terem perdido n'ella nenhum dos seus homens, ficaram chamando a _batalha sem lagrimas_.
Ainda Epaminondas invadiu o Peloponeso, pela terceira vez, em 366, e pela quarta vez, em 362, avançando direito sobre Esparta. Agesiláu reune todas as suas forças e corre ao incontro d'elle, apoiado pelos Athenienses e pelos aristocratas da Arcadia. Dá-se a _batalha de Mantinéa_ em que a victoria é ganha pelos Thebanos á custa da vida de Epaminondas. Pelopidas tinha morrido, dois annos antes (364) n'uma expedição a Thessalia. Com a morte d'estes dois grandes homens, Thebas recahiu de novo na sua obscuridade. Mas nem Esparta nem Athenas puderam tambem levantar-se mais.
CAPITULO XII
SUPREMACIA DA MACEDONIA
Os antigos reis da Macedonia haviam sido tributarios dos Persas. _Alexandre I_ (498-454) ora alliado dos Persas, ora alliado dos Gregos, atacou e desbaratou parte do exercito persa, quando este fugia atravez da Macedonia, depois da batalha de Platéa. Os reis que se lhe seguiram, taes como _Perdiccas II_ (425), introduziram nas altas classes do paiz os costumes civilizados dos Gregos. _Archeláu_ (413-399) deu hospitalidade a Euripides e convidou Zeuxis a pintar-lhe o palacio e o templo de Pella. A este succedeu _Amyntas II_ (399-369), cujo reinado foi muito tempestuoso. O filho mais novo d'este monarcha, _Philippe_, viveu algum tempo, como refens, em Thebas, em casa de Epaminondas, e ahi se familiarizou com a organização e os costumes dos Hellenos, estudando ao mesmo passo o segredo da força e da fraqueza das republicas gregas.
Chamado ao throno, por morte de seus irmãos, bate os seus competidores, compra a alliança de Athenas, estabelece amizade com os Thracios, derrota os barbaros Peonios e Illyrios, e consegue restituir á Macedonia as suas fronteiras naturaes (358). Feito isto, pensa logo em alargál-as. Começa por conquistar umas apoz outras as colonias gregas assentes no littoral dos seus Estados, e organiza uma esquadra. Penetra na Thracia e chega até ás proximidades de Byzancio; involve-se nos negocios da Thessalia onde então lavrava a _guerra sagrada_, e transforma insensivelmente este paiz n'uma provincia macedonica. Avança, em seguida, para as Thermopylas; mas ahi os Athenienses, cuja vigilancia era despertada pela eloquencia do grande Demosthenes, oppõem-se-lhe á passagem, desconcertando-lhe os projectos, e Philippe tem, prudentemente, o cuidado de retirar-se (352).
Demosthenes redobra de energia, solta do alto da tribuna grega as suas vigorosas _Philippicas_, e durante quinze annos lucta com toda a força do seu genio e com toda a sua penetração contra os designios do seu temivel adversario. Mas se a palavra do maior dos oradores impunha respeito á astucia do monarcha ambicioso, não teve força para conjurar a catastrophe. Em 348, Philippe vibrou o seu grande golpe, tomando Olyntho, a poderosa metropole das cidades gregas da Chalcidica, que Athenas protegia e que Demosthenes tinha querido salvar.
Athenas, ameaçada na Eubéa e até mesmo na Attica, teve de assignar um tratado de paz. Mas Philippe, deixando de cumprir as clausulas juradas, ataca as Thermopylas, termina a guerra sagrada que lavrava entre os Phocidios e os Thebanos, subjuga os primeiros arrasando-lhes as cidades, e toma assento no conselho amphictyonico onde se arroga os dois votos que os Phocidios alli possuiam (346).
Eis, pois, Philippe, arbitro da Grecia, pela posse da Thessalia, das Thermopylas, e da influencia no conselho amphictyonico. Sabendo esperar, não quiz precipitar-se na conquista definitiva, afim de evitar qualquer reacção geral perigosa. Dirigiu-se para a Thracia, onde o atheniense Phocion, aliás seu partidario, o impediu de se apoderar das colonias gregas do Hellesponto; chegou até ao Danubio e ahi assentou os limites septentrionaes do seu reino; levou a guerra á Illyria, ao Epiro, ao Chersoneso, sitiou Perintho e Byzancio, que Phocion defendeu efficazmente. Os Athenienses apoderam-se da Eubéa, emquanto Demosthenes organizava ligas das diversas cidades, sublevando-as contra o inimigo commum.
Mas o orador atheniense Eschines, rival de Demosthenes, subornado pelo oiro de Philippe, consegue no conselho amphictyonico a investidura do rei da Macedonia no commando e direcção de uma nova guerra sagrada contra os Locrios. Philippe volta immediatamente á Grecia (338), esquece o pretexto da sua intervenção, apodera-se de Elatéa e dos desfiladeiros que conduziam á Beocia, e chega quasi ás portas de Athenas.
Demosthenes realiza então um supremo esforço, e obtém, á força de eloquencia, a alliança de Thebas. As duas cidades apresentam-se unidas no ultimo campo de batalha da liberdade e da independencia grega. Esparta conservou-se isolada no seu perpetuo egoismo. Incontraram-se os exercitos junto a Cheronéa, na Beocia. Os hoplitas athenienses, o batalhão sagrado dos Thebanos, despedaçaram-se contra a _phalange macedonica_. Demosthenes tomou parte na acção. A victoria de Philippe foi decisiva e completa.
O vencedor foi de uma desusada e honrosa moderação; reuniu uma assembléa geral dos povos em Corintho, e, para legitimar até certo ponto o seu dominio sobre a Grecia, renovou o projecto de uma grande expedição nacional contra os Persas, e fez-se nomear generalissimo de todas as forças gregas. Quando estava a ponto de realizar os seus vastos designios, um dos seus guardas assassinou-o, crê-se que por suggestões da rainha repudiada, _Olympias_.
*Alexandre Magno.*--Philippe legava a seu filho, Alexandre, mancebo de vinte annos apenas, elementos preciosos para este levar a cabo a impresa por elle concebida. Deixava-lhe um exercito numeroso e aguerrido, generaes habeis e thesouros accumulados para aquelle fim.
Demosthenes conseguiu sublevar de novo as cidades á noticia da morte de Philippe. Alexandre, que tinha acabado de submetter as tribus illyricas, atravessou a Macedonia, a Thessalia, e chegando em frente de Thebas atacou a cidade e tomou-a, arrasando-lhe em seguida os muros. Os Gregos, aterrados, declaram-n'o, em Corintho, generalissimo e dão-lhe soccorros para a invasão da Asia. Não o acompanharemos na sua marcha triumphal, que determinou a destruição perpetua do Imperio dos Persas. A morte surprehendeu-o em Babylonia (328) no meio dos seus ambiciosos sonhos de grandeza e de monarchia universal. Este homem assombroso, que ao expirar contava apenas 33 annos incompletos, intregou, no leito da morte, o seu annel a Perdiccas. E quando os seus generaes lhe perguntaram a quem deixava a corôa, respondeu:--Ao mais digno.
CAPITULO XIII
DESMEMBRAMENTO DO IMPERIO DE ALEXANDRE
Alexandre deixava:--sua mulher, Roxana, de quem houve um filho pósthumo, Alexandre; um outro filho, bastardo, Hercules; um irmão imbecil, Arrhideu; duas irmans, Cleopatra e Thessalonice; e sua mãe, Olympias. A herança começou por ser attribuida ao filho posthumo do heroe e a Arrhideu, ficando Perdiccas com uma auctoridade similhante á de ministro supremo. Os diversos governos foram repartidos pelos generaes: _Ptolomeu_, teve O Egypto; _Leonnato_, a Mysia; _Antigono_, a Phrygia, a Lycia e a Pamphylia; _Lysimaco_, a Thracia; _Antipater_ e _Cratero_, a Macedonia; _Eumenes_, a Cappadocia; _Laomédon_, a Syria; _Pithon_, a Média; _Peucestes_, a Persida.
Pithon teve de suffocar em sangue uma revolta de 23:000 Gregos na Alta-Asia; e, na Asia-Menor, Eumenes incontrou inesperada resistencia ao tomar posse do seu governo da Cappadocia. Antigono recusou-se a auxiliál-o, tendo Perdiccas de lhe prestar apoio com o exercito real. Antigono é obrigado a fugir e acolhe-se á côrte de Antipater e Cratero. Eumenes tem de fazer frente a todos tres, ao passo que Perdiccas avança para o Egypto contra Ptolomeu, mas é morto pelos seus proprios soldados, nas margens do Nilo. Então Antipater apodera-se da regencia e proscreve Eumenes, cujos Estados são dados a Antigono (321). Mas Antipater morre logo depois (320) deixando a regencia a Polysperchon. Eumenes liga-se na Alta-Asia com os satrapas armados contra Seleuco de Babylonia, onde Antigono o persegue (317), conseguindo havêl-o ás mãos e mandando-o matar (316).
Ao mesmo tempo que os generaes se dizimavam entre si, a familia real ia-se anniquilando a si propria. Olympias, ligando-se com Polysperchon, fez morrer Arrhideu e sua mulher Eurydice; Roxana mandou matar Statira ou Barsina, filha de Dario, e uma das mulheres de Alexandre. Cassandro, filho de Antipater e rival de Polysperchon, cercou Olympias em Pydna, e, havendo-a ás mãos, matou-a (315). Havendo-se já apossado de Itoxana e do filho d'esta, casou com Thessalonice, irman do conquistador, e estabeleceu assim as suas preterições á herança. Quasi toda a Grecia, incluindo a Thessalia e a Macedonia, lhe obedeciam; Athenas cahiu sob o poder de Demetrio de Phalera, que a administrou sábiamente durante dez annos.
Pela morte de Eumenes, ficou a Asia a Antigono. Seleuco, governador de Babylonia, cedeu-lh'a sem combate e refugiou-se na côrte de Ptolomeu, no Egypto, a quem excitou á guerra. Ao mesmo tempo, Lysimaco na Asia-Menor e Cassandro na Europa avançam contra Antigono, que pretendia reunir todo o imperio de Alexandre. Demetrio, filho de Antigono, foi derrotado por Ptolomeu, em Gaza (312); e a paz foi estipulada em 311.
A agonia da Grecia durou mais de um seculo. Em 280 houve uma terrivel invasão de Barbaros. Os Gaulezes, seguindo o valle do Danubio, devastaram a Macedonia e a Thracia. Foram expulsos em 278.
CAPITULO XIV
REDUCÇÃO DA GRECIA A PROVINCIA ROMANA
Em 251, Arato, banido de Sicyonia, refugiado em Argos, livrou a sua cidade natal do tyranno que a opprimia, organizou em Sycionia uma democracia temperada, e incorporou-a na liga achaica. Esta, que fôra até ahi obscura, só teve importancia quando Arato lhe communicou o impulso necessario para destruir a hegemonia macedonica e as tyrannias que pezavam sobre as cidades do Peloponeso.
Arato aggregou á liga achaica Megalopolis, Mantinéa, Argos, Trezena e outras cidades; combateu os Etolios; e arrancou aos Macedonios Corintho, Athenas, Megara, Salamina. Em 229, a confederação contava como alliados o maior numero dos Estados do Peloponeso, a Megarida, Salamina, e a Attica. Esparta e a Laconia mantinham-se fóra da liga. A Beocia, a Locrida, e a Thessalia, soffriam ainda o jugo dos Macedonios. A Etolia era então alliada dos Acheus.
Foi n'este mesmo anno 229 que os Romanos puzéram o pé na Illyria. Eil-os, pois, a caminho da Grecia. Já lhes estavam submettidas as ricas cidades gregas da Italia Meridional (Grande Grecia), seguiram-se a estas as da Sicilia, e dentro em breve a grande Syracusa reconhecia o seu dominio.
Os grandes planos de Arato foram, porêm, contrariados pelos Espartanos. Então Arato teve de chamar os inimigos da Grecia em seu auxilio. Antigono Doson, rei da Macedonia, introu em Esparta, e a cidade de Lycurgo cahiu para sempre.
Pela morte de Arato (213), Philopoemen, de Megalopolis, reorganizou a liga e combateu a influencia romana. Mas a liga etolia declarou-se a favor dos Romanos; e, em 197, os Gregos foram vencidos nas planicies de Cynocephalos. Pouco depois, o consul Flaminio proclamou, em nome do povo romano, a independencia local de todos os Estados Gregos, começando assim a acostumál-os ao protectorado romano. Em 189 foi destruida por estes conquistadores a liga dos Etolios. Em 183 os, Romanos apoderaram-se de Philopoemen, e condemnaram-n'o á morte pela cicuta. Em 168 Paulo Emilio alcançou a victoria de Pydna, que destruiu o poder da Macedonia. E finalmente em 146 a Grecia foi reduzida a provincia romana, com o nome de _Provincia da Achaia_.
FIM
* * * * *
Os Mysterios da Inquisição
POR
F. Gomes da Silva
Obra illustrada a cores
POR
MANUEL DE MACEDO E ROQUE GAMEIRO