Historia da Grecia

Chapter 5

Chapter 53,560 wordsPublic domain

_Naxos_ revoltou-se (463), mas foi castigada e teve de supportar o estabelecimento de uma colonia atheniense; a ilha de _Thasos_ perdeu os seus navios, as suas ricas minas de oiro nas costas da Thracia, e a sua independencia; _Egina_ foi conquistada (457) depois de uma grande lucta, os seus habitantes expulsos e ella repovoada por colonos atticos; _Mégara_ cahiu tambem na dependencia de Athenas; _Carystos_, na Eubéa, teve a mesma sorte.

Os Espartanos, ciosos da preponderancia dos seus rivaes, preparavam-se para guerreál-os, apezar da lucta em que andavam com Argos e outras cidades do Peloponeso, quando uma serie de calamidades os feriu. Um espantoso terramoto, que abalou, a Arcadia e a Laconia, precipitou sobre Esparta um grande desmoronamento do monte Taygeto (465). A maior parte da cidade ficou em ruinas, perecendo vinte mil pessoas.

Os hilotas, crendo favoravel o momento para a sua emancipação, atacaram os sobreviventes, mas foram repellidos. Dispersando-se e fugindo, ligaram-se com os Messenios que, revoltando-se de novo, se intrincheiraram no monte Ithoma, começando uma _terceira guerra de Messenia_, a qual durou dez annos (464-454).

Foi só depois de finda esta guerra, que os Espartanos puderam voltar as suas attenções para Athenas. Invadiram a Héllada com um formidavel exercito, sendo o seu fim contrabalançar a influencia de Athenas com o restabelecimento da hegemonia de Thebas sobre as cidades beócias, a qual tinha sido anniquilada durante as Guerras Persicas.

Ganharam a victoria de _Tanagro_ (456) contra os Athenienses, commandados por Pericles. Mas, dois mezes depois, Myronidas inutilizou todas as vantagens adquiridas pelos Espartanos, ganhando a batalha de _OEnophyta_,--batalha que tornou os Athenienses senhores da Phocida, da Locrida e da Beocia.

Chegára, assim, Athenas ao apogeu da grandeza, d'onde em breve tinha de cahir, porque a propria extensão das suas possessões lhe havia de ser fatal. Romperam dissidencias entre Athenas e Esparta, por causa da intendencia no Templo de Apollo. Os Espartanos queriam-n'a para os de Delphos, seus alliados; os Athenienses, alliados dos Phocidios, sustentavam as pretenções d'estes, os quaes as fizeram triumphar pelas armas. Um exercito espartano restituiu o templo aos primeiros; um exercito atheniense, commandado por Pericles, retomou-o para os segundos (448). Estas excursões guerreiras dos dois povos dominantes, atravez da Beocia, accenderam os odios dos partidos; e os exilados beocios da facção aristocratica puzéram-se em campo, chegando a apossar-se de várias cidades. _Tolmidas_, general atheniense, atacou-os com pequenas forças, e foi completamente desbaratado na batalha de _Choronea_ (447). A Beocia cahiu, de novo, sob o poder de Thebas; Mégara e a Eubéa revoltaram-se, e um exercito espartano, atravessando o isthmo, chegou ameaçador ás fronteiras da Attica. Pericles comprou a pezo de oiro o general lacedemonio; e concluiu com elle um tratado em virtude do qual Athenas, para não perder a Eubéa, restituiu todos os pontos de que se havia apossado nas costas do Peloponeso.

As duas cidades rivaes ajustaram uma tregua de 30 annos (445), garantiram mutuamente as suas hegemonias. Assim ficou Esparta com a preponderancia continental; Athenas, com o dominio do mar.

CAPITULO VII

O SECULO DE PERICLES

Pericles, grande estadista e guerreiro, que nasceu em 494 A. C., era filho de Xantippo, o vencedor dos Persas em Mycale. Apezar da sua ascendencia nobre, adoptou os principios democraticos e poz-se á frente do partido popular.

Em 461 começou a apparecer nos negocios publicos, e induziu o orador Ephialtes a propôr um decreto que arrancava ao areopágo as suas mais importantes attribuições para as transferir para o povo, despojando assim aquelle supremo conselho da nobreza, de todo o seu poder moral e dos seus privilegios aristocraticos, transformando-o n'um simples tribunal de jurisdicção muito limitada. O decreto foi approvado; e quando Cimon, ao regressar de uma das suas expedições, tentou operar uma contra-revolução a favor da aristocracia, o povo votou-o ao ostracismo, como já dissémos.

Foi discipulo, em dialectica, de Zénon d'Eléa; e de Anaxagoras, nas altas concepções philosophicas,--adquirindo nos habitos serios de um estudo profundo e de uma reflexão aturada, uma certa majestade grave e serena, que em todas as suas palavras e em todos os seus actos transluzia, a ponto dos seus contemporaneos lhe darem o qualificativo de _Olympico_.

Pela morte, de Cimon, Pericles ficou em Athenas com um ascendente incontestado e absoluto. O seu governo foi uma verdadeira dictadura. Sob o titulo de _stratégo_ (general) annualmente eleito, sem nenhuma outra dignidade (pois ha duvidas até sobre se alguma vez foi archonte), tomou a direcção de todos os negocios, e exerceu com nobreza e rectidão uma auctoridade cuja extensão podia ser um perigo.

Conservou as fórmas republicanas do governo e não reprimiu os habitos da liberdade. Os poetas comicos e muitos philosophos, todos partidarios da aristocracia, chegavam a diffamar Pericles, nas suas peças e nas suas licções, sem nenhum receio de repressão para os abusos da sua critica. As magistraturas, em logar de serem dadas pelo suffragio, como até ahi, passaram a ser distribuidas pela sorte, processo mais democratico, porque deixava os cargos abertos a todos, ao passo que a eleição, imbora exercida pelo povo, os fazia recahir sempre nos grandes. Este systema de sorte não tinha inconvenientes em uma sociedade constituida como o era a atheniense. Aqui, os cidadãos (isto é, os athenienses de condição livre) não passavam de uns vinte mil, e constituiam uma verdadeira aristocracia popular, na qual todos os membros tinham sensivelmente a mesma educação politica, e estavam nas circumstancias de desimpenhar os mesmos cargos. Conservou-se, porêm, o processo da eleição para a nomeação dos stratégos, cujas funcções eram muito importantes, e comprehendiam todos os negocios militares, e todas as relações da politica externa. E, com respeito aos archontes e aos senadores, a sorte só podia exercer-se entre os que se apresentavam candidatos, os quaes se submettiam a um rigoroso exame prévio.

Attribuiu a gratificação de tres óbolos diarios a todo o cidadão que nas assembléas judiciarias e nas politicas tomasse assento, consagrando o seu tempo ao estudo e á regularização das questões ahi apresentadas e debatidas. Augmentou o estipendio dos soldados e dos marinheiros; ordenou distribuições gratuitas de trigo ás classes pobres; tomou a cargo da cidade a educação dos filhos d'aquelles que morriam pela patria; arbitrou soccorros periodicos aos invalidos e infermos; etc. Inviou colonos para muitos pontos da Asia e das ilhas, dando-lhes terras e conservando-lhes os seus direitos de cidadãos de Athenas; decretou grandes solemnidades nacionaes, festejos publicos para regosijo e illustração do povo; finalmente, cobriu Athenas com os mais sumptuosos e bellos monumentos que jámais se edificaram, alguns dos quaes estão ainda de pé, attestando a sua magnificencia primitiva debaixo das mutilações que os tempos lhes trouxeram.

Como os rendimentos da Attica não podiam chegar nem para o centesimo do custo de tantas obras primas, Pericles não hesitou em lançar mão das contribuições que os alliados derramavam no thesouro commum, e cujo fim era assegurarem, em caso de ataque, a defesa dos interesses geraes das cidades confederadas. Este proceder infiel, que a posteridade quasi não teve animo de estigmatizar, em vista das maravilhas artisticas a que deu origem, foi um aggravo que as cidades juntaram a muitos outros já recebidos de Athenas, e que com elles concorreu para a queda d'esta potencia oppressora.

Pericles commetteu um grande erro mandando fazer o recenseamento dos verdadeiros cidadãos da Attica, excluindo d'esta classe todos os que não eram filhos de pae e mãe athenienses. Cinco mil habitantes perderam assim os seus direitos politicos.

É prodigioso o esplendor das artes na Athenas de Pericles. Atravez dos seculos ficou deslumbrando o mundo o sol de civilização que d'alli irradiou. Nomes immortaes, como os de nenhum outro povo, attestam a preeminencia da raça hellenica em todas as concepções do espirito, e dão lustre inolvidavel aos tempos que, por toda a posteridade, ficaram consagrados com o nome de _seculo de Pericles_.

Nas bellas artes monumentaes e decorativas basta citarmos os nomes de _Phidias_, de _Ietino_, de _Mnesicles_, de _Zeuxis_ e de _Parrhasio_; na poesia dramatica _Sophocles_ e _Euripides_ (_Eschylo_ foi um pouco mais antigo); na comedia politica e satyrica _Aristophanes_; na historia, na philosophia, etc., _Herodoto_, _Socrates_, _Anaxagoras_, _Hippocrates_, e tantos outros, logo pouco depois seguidos de _Aristoteles_, _Platão_, _Xenophonte_, _Thucydides_!

CAPITULO VIII

GUERRA DO PELOPONESO

*Desde a revolta de Corcyra até á paz de Nicias.*--A tregua de trinta annos celebrada, em 445, entre Esparta e Athenas, não poude durar mais de quatorze. Em 436, rebentou uma guerra entre Corintho e Corcyra, sua colonia, na qual Athenas tomou o partido d'esta contra a metropole. Ao mesmo tempo, os Athenienses tinham tornado tributaria a colonia corinthia de Potidéa, na Macedonia, e n'esse momento lhe estavam pondo cêrco por ella, confiada no apoio do Peloponeso, negar-se a pagar-lhe tributo (432).

Corintho, Esparta e as cidades do Peloponeso accusaram Athenas de ter rompido as treguas, e de opprimir os seus alliados. Estavam em presença duas ligas hostis: uma, a _liga atheniense_, na qual intravam as colonias jonias e a maior parte das ilhas (Lesbos, Chios, Samos, etc.), apoiada pelo partido democratico de todas as cidades e firmando o seu poder material principalmente na sua marinha; outra, a _liga peloponesica_, a cuja frente estava Esparta, e que se compunha dos Estados doricos e da maior parte dos Estados eolios (Beocia, Phócida, etc.), tendo pelo seu lado o partido aristocratico das differentes cidades, e contando, como principal recurso material, com a bravura do exercito de terra.

Reunida a dieta geral do Peloponeso, em Esparta, os Corinthios apresentaram as suas recriminações, em virtude das quaes os Lacedemonios reclamaram de Athenas o levantamento do cêrco de Potidéa, o da interdicção pronunciada contra Megara, e a restituição da liberdade a todos os confederados, mórmente aos Eginetas. Como os Athenienses não satisfizessem nenhuma d'estas exigencias, um exercito espartano invadiu a Attica e devastou-a.

Ao principio a lucta foi-se protrahindo n'uma série de escaramuças e surpresas de saque. Todos os annos, pela primavera, os de Esparta vinham devastar a Attica, e a esquadra atheniense andava exercendo as suas rapinas pelas costas do Peloponeso. Ao terceiro anno de guerra, uma peste horrivel, vinda das bandas da Ethiopia, dizimou a população accumulada em Athenas. Pericles, depois de perder dois dos seus filhos, cahiu, tambem, fulminado pelo flagello (429).

O partido popular deu-lhe para successor Cléon, por nenhum modo capaz de se comparar a Pericles,--mas dotado, ainda assim, de talentos administrativos, e de patriotica energia. A guerra continuou. Athenas viu a destruição de Platéa, sua fiel alliada, pelos Espartanos e pelos Beocios, os quaes assassinaram os habitantes capazes de pegar em armas e reduziram á escravidão as mulheres e as creanças. Os Athenienses tomaram a ilha de Lesbos onde exerceram represalias crueis: no primeiro momento queriam matar todos os habitantes de Mitylene (427), reduzindo á escravidão as creanças e as mulheres; depois, reconsideraram, e condemnaram á morte mil revoltosos. A lucta tomára o caracter de uma vingança horrorosa.

No sexto anno da guerra, a peste reappareceu, e houve, grandes terremotos na Attica, na Beocia, e nas ilhas. Em 424, Brasidas, illustre general lacedemonio, consegue intrar em Amphipolis e faz pender as vantagens para o lado de Esparta; mas Demosthenes (não é o orador), general atheniense, contrabalança este exito do seu adversario, apoderando-se da importante posição de Pylas (Navarino), na costa da Messenia, onde se mantêm, apezar dos ataques de Brasidas, o qual não poude conseguir mais, para inquietar o inimigo, do que desimbarcar quatrocentos e vinte Espartanos na pequena ilha de Sphacteria, onde, depois de uma defesa pertinaz, foram uns mortos, outros aprisionados por Cléon (425).

Admittia-se, desde as Thermopylas, que os Espartanos podiam ser mortos, mas nunca aprisionados, de modo que o resultado da lucta em Sphacteria produziu um grande effeito moral nos Athenienses. Os Espartanos começam a sentir uma série de revezes: perdem Cythera e outras posições importantes, vêem devastada a Laconia, teem de reprimir as insurreições dos Messenios e dos Hilotas, assistem a novas vantagens ganhas pelos Athenienses, e, vendo o Peloponeso como que bloqueado por estes, perdem a força moral e mandam implorar a paz, que lhes é affrontosamente recusada.

Em breve, porêm, a fortuna das armas muda de rumo. Os Athenienses são vencidos pelos Beocios em Delio; Brasidas, apoiado pelo Rei da Macedonia, Perdiccas, foi combater as colonias athenienses á Thracia e á Chalcidica, para ferir Athenas no seu poder maritimo, cortando-lhe as suas relações com os povos que lhe forneciam a cordoalha dos seus navios e as madeiras de construcção. O partido da paz, isto é, o partido aristocratico, tendo á sua frente _Nicias_, começou depois d'isto a crear preponderancia. Mas Brasidas e Cléon eram intransigentes e apoiavam a guerra a todo o transe. Em 421, Brasidas tomou Amphipolis, que os Athenienses perderam pela negligencia de Thucydides, tão mau general como grande historiador.

Cléon apresenta-se deante da praça para reconquistál-a aos Lacedemonios. Dá-se uma batalha, em que os Athenienses são vencidos, mas na qual os dois generaes perdem a vida, terminando assim os dois principaes obstaculos que havia contra a paz. Então os partidarios da paz adquirem de novo a superioridade, e conclue-se a _paz de Nicias_, pela qual foi garantida uma tregua de armas de cincoenta annos.

A tregua foi observada na apparencia durante uns septe annos, mas de facto rompida um anno depois da conclusão do tratado.

*Alcibiades.*--Os Corinthios, vendo que se concluira a paz entre Esparta e Athenas, sem contar com elles nem com os outros Estados secundarios, indignaram-se contra Esparta, e, ligando-se com Argos e algumas cidades da Arcadia, resolveram tirar a Esparta a hegemonia do Peloponeso. Deu-lhes o seu apoio o atheniense _Alcibiades_, sobrinho de Pericles e discipulo de Socrates, homem com admiraveis dotes naturaes, riquissimo, formoso, espirituoso, sabio, eloquente, mas tambem ambicioso, desleal, corrompido, sem fé nem convicções, indifferente para tudo,--n'uma palavra, o mais brilhante, mas tambem o mais immoral e o mais perigoso cidadão de uma republica.

Logo que se involveu nos negocios do Peloponeso determinou uma guerra entre os Espartanos e os confederados. D'esta lucta sahiu Esparta victoriosa na batalha de Mantinéa (418). Apresentando-se como adversario de Nicias, chefe da aristocracia e do partido da paz, fez isso menos por suggestão da consciencia do que para explorar em proveito da propria ambição os sentimentos bellicosos das classes mais baixas.

Decidiu, com a sua eloquencia, os Athenienses a imprehenderem uma expedição contra a Sicilia, da qual teve o commando juntamente com Lamacho e Nicias. O pretexto era soccorrer Segesto contra Selinonte e Syracusa; o fim verdadeiro da expedição, ferir as colonas doricas e cosquistar as ricas cidades gregas da Sicilia. A impresa malogrou-se. Na vespera da partida da esquadra (415) appareceram mutilados durante a noite, em toda a cidade, os Hermes ou bustos de Mercurio. Os inimigos de Alcibiades atribuiram-lhe este sacrilegio, bem como o de ter profanado os mysterios de Elensis; e, transformando as suas suspeitas n'uma accusação capital, revocaram-n'o, mal elle tinha chegado á Sicilia, afim de ser julgado no tribunal. Segundo o relatorio apresentado pelo orador Andocides, aquelle sacrilegio fôra uma conspiração secreta contra a constituição democratica, e como suspeitos de cumplicidade n'elle foram presos e condemnados á morte muitos cidadãos respeitaveis. Alcibiades, temendo a mesma sorte, expatriou-se, e, sendo condemnado, retirou-se para Esparta, onde, por vingança, premeditou a ruina da sua patria, e determinou os Espartanos a renovarem a guerra. Por conselhos d'elle, os inimigos de Athenas apossaram-se da forte posição de Decelia, na Attica, e resolveram-se a soccorrer os Gregos da Sicilia, onde Nicias, contrario á guerra, conduzia as operações frouxamente. Gylippo, habil general espartano, foi em soccorro de Syracusa e deu um golpe fatal nos Athenienses, que cercavam a cidade. Lamacho morreu (414) com uma grande parte dos hoplitas; a propria esquadra atheniense foi toda destruida pelos navios mais poderosos dos Syracusanos e dos Corinthios; Nicias e Demosthenes foram decapitados em Syracusa ás mãos do algoz; os que não morreram com as armas na mão, foram condemnados a uma escravidão durissima (413).

Em Athenas, ao saber-se d'estes desastres, quasi todas as familias vestiram lucto; os confederados athenienses desligaram-se da cidade feliz e procuraram o apoio de Lacedemonia; um exercito espartano, intrincheirado em Decelia, fechava as communicações; uma esquadra espartana, commandada por Tissaphernes, governador da Asia-Menor, em nome dos Persas, atacava as forças navaes de Athenas; a Eubéa cahiu no poder das forças do Peloponeso; e, dentro de Athenas, um partido oligarchico, dirigido por _Pisandro_, procurava derrubar a constituição democratica, de intelligencia com Esparta. Para isso, instituiu um _conselho dos quatrocentos_ que a si mesmo se elegia, limitou a communidade do povo a cinco mil cidadãos, que nunca foram convocados para o exercicio dos seus direitos civis.

A esquadra atheniense, do commando de _Thrasybulo_, que estava em Samos, pronunciou-se contra esta revolução e manteve a antiga ordem de coisas. Alcibiades, a esse tempo descontente com os Espartanos, retirou-se para a Asia, chamou aos seus interesses Tissaphernes, tomou o commando da esquadra de Samos, ganhou proximo de _Cyzico_ (410) e em mais dois combates gloriosas victorias contra os Lacedemonios, apoderou-se de Byzancio, de Chalcedonia, e de outros pontos da costa, e estabeleceu no Hellesponto um direito de navegação que fez affluir um novo rendimento para Athenas.

Alcibiades, amnistiado e glorificado por um decreto publico, introu em Athenas como triumphador, foi nomeado generalissimo do exercito e da esquadra, e o povo atirou ao mar as tábuas onde as suas faltas estavam inscriptas. Partindo para a Asia, afim de completar a submissão das antigas possessões athenienses e de bater a esquadra inimiga, foi infeliz n'uma impresa contra a ilha d'Andros. Durante uma ausencia sua, um de seus immediatos foi derrotado nas alturas de Epheso (407) pela esquadra de Lacedemonia, commandada por Lysandro. Os Athenienses, tristemente impressionados com estes revezes, retiraram o commando a Alcibiades e nomearam, para o substituir, dez generaes, entre os quaes se contava _Conon_. Então Alcibiades, reunindo alguns mercenarios extrangeiros, retirou-se para as fortalezas que mandára construir na Thracia, e d'alli começou a fazer guerra por sua propria conta, como um aventureiro.

Os Espartanos, commandados por _Callicratidas_, atacaram Lesbos e bloquearam os navios athenienses no porto de Mitylene. De Athenas foi uma nova armada em soccorro da primeira. Travou-se um grande combate naval proximo das ilhas _Arginusas_ (406), onde Callicratidas, successor de Lysandro, ficou morto. A victoria decidiu-se afinal pelos Athenienses.

Seis dos generaes vencedores foram condemnados á morte pelo povo, não só por terem deixado de recolher os cadaveres dos seus mortos (o que era um sacrilegio para as idéas religiosas dos Gregos), como tambem por terem deixado perecer sem soccorro as tripulações de 25 triremes desamparadas durante o combate e batidas pela tempestade.

*Queda de Athenas.*--Depois da derrota e morte de Callicratidas, Esparta restituiu a Lysandro o commando da esquadra. O almirante espartano soube conciliar habilmente o favor de _Cyro_ «_o Moço_» governador da Asia-Menor, e com o auxilio dos Persas augmentou as forças navaes de Lacedemonia. Percorreu audazmente todo o Mar Egeu, tomou Lampsaco, e surprehendeu a esquadra atheniense ancorada em _Ægos-Potamos_ («_Rio das Cabras_»); na costa do Hellesponto, não longe de Sestos. Só pudéram escapar oito navios athenienses que Conon salvou em Chypre, e um bom veleiro, o _Paralos_, que levou a triste noticia a Athenas (405). Assim acabou o predominio maritimo e a grandeza politica d'esta cidade.

A batalha de Ægos-Potamos foi uma horrorosa carnificina. Os marinheiros e soldados athenienses estavam na maior parte desimbarcados, em jogos e distracções, quando foram surprehendidos. Os navios eram capturados e destruidos quasi sem resistencia. Tres mil Athenienses, com muitos dos seus chefes, foram, em seguida, conduzidos a Lampsaco e sacrificados á vingança dos Espartanos.

Lysandro percorreu em seguida todas as cidades maritimas da obediencia de Athenas, nenhuma das quaes ousou resistir-lhe, destruindo n'ellas os governos democraticos e substituindo-os por oligarchias. Depois atacou Athenas pelo lado do mar, emquanto pelo lado de terra a cercavam os reis espartanos Agis e Pausanias. A grandiosa cidade, digna de melhor sorte, dilacerada internamente pelo furor dos partidos, prolongou quanto poude a sua defesa heroica; mas, porfim, nos apertos da fome, teve de render-se sem condição (404).

Os vencedores impuzéram-lhe:--a demolição dos seus muros e das fortificações do Pireo; a intrega de todos os navios, exceptuando doze galeras, limite maximo a que ficava reduzida a sua marinha; a evacuação de todas as cidades conquistadas; o regresso dos exilados amigos de Esparta; o pagamento de um tributo annual; a abolição da constituição democratica, e a sua substituição pela oligarchia dos _trinta tyrannos_.

Para a humilhação ser mais completa, as galeras athenienses foram queimadas, e as muralhas bem como as fortificações foram arrasadas ao som de flautas, no meio de chascos grosseiros, e em presença de todos os alliados de Esparta coroados de flores.

CAPITULO IX

TYRANNIA DOS TRINTA EM ATHENAS. RESTABELECIMENTO DA DEMOCRACIA

A administração do governo atheniense foi confiada por Lysandro a 30 membros da nobreza, alliados de Esparta, os quaes receberam a missão de organizar o Estado no sentido aristocratico por meio de leis novas. Estes oligarchas, a cuja frente estava _Critias_, ficaram conhecidos pelo nome de _trinta tyrannos_; e o seu governo foi um verdadeiro periodo de terror; tantas foram as crueldades e prepotencias por elles practicadas, não só contra os democratas, mas até mesmo contra os aristocratas mais moderados. Só tres mil cidadãos gozavam do direito de burguezia, e os _trinta_ chegaram a decretar que só os _tres mil_ poderiam habitar em Athenas, sendo banidos os outros cidadãos. As diversas cidades regurgitavam de proscriptos athenienses.

Thrasybulo, chefe dos democratas, e um dos heroes da grande guerra, imprehendeu libertar a cidade. Sahiu de Thebas com um punhado de proscriptos, e intrando na Attica, onde se apossou de uma pequena fortaleza, repeliu dois ataques dos Trinta e dos Lacedemonios, surprehendeu de noite o Pireu e conseguiu chamar os oligarchas ao combate. Critias morreu combatendo; os outros tyrannos retiraram-se para Eleusis, com permissão de Thrasybulo, que restabeleceu a constituição democratica e promulgou uma amnistia, restituindo d'este modo a tranquillidade ao Estado. Athenas offertou ao seu libertador a corôa de oliveira.