Chapter 2
Então começaram os milagres. Indo Moysés e Arão á presença de Pharaó, para lhe mostrarem como era vontade de Deus o que lhe pediam, lançou Arão na terra uma vara que levava na mão, e a vara logo se converteu em serpente. Quiseram os magos imitar a transformação, convertendo tambem outras varas em serpentes; mas a serpente em que se tornára a vara de Arão devorou todas as outras. Continuou, apezar de tudo, a obstinação de Pharaó; e Deus, para mais claro aviso e para castigo, mandou ao Egypto as dez pragas, que assolaram todo o paiz.
Essas pragas foram as seguintes: a primeira consistiu em se converter em sangue a agua dos rios e das fontes do Egypto, morrendo todos os peixes; a segunda, n'uma innumeravel multidão de rans que intravam por todas as casas; a terceira, n'uma quantidade enormissima de mosquitos e de outros insectos, que tornavam a vida insupportavel; a quarta, n'uma abundancia de moscas, que perseguiam atrozmente homens e animaes; a quinta foi uma peste que matou um numero enorme de pessoas e fez tambem grande devastação nos animaes; a sexta foi uma epidemia de chagas hediondas e repugnantes, que appareciam nos corpos dos Egypcios e dos animaes; a septima, uma grande chuva de pedra, acompanhada de terrivel trovoada, ficando destruidas por ellas as arvores, plantações, sementeiras e pastos; a oitava foi o apparecimento de uma nuvem de gafanhotos, que tambem produziram incalculavel estrago nos campos; a nona manifestou-se por umas trevas muito espessas, que por tres dias escureceram o Egypto, excepto a terra de Gessen (logar em que habitavam os Hebreus, aos quaes não chegou nenhuma das pragas); a decima consistiu na morte de todos os primogenitos egypcios, desde o filho de Pharaó até ao do escravo mais humilde, e tambem na de todos os primogenitos dos animaes.
Movido finalmente Pharaó pela decima praga, consentiu que os Hebreus sahissem do Egypto. Na noite do dia 14 do mez de Nisan, que corresponde ao de março, sahiram, pois, os descendentes de Jacob da terra dos Pharaós, em tão grande numero, que só homens armados e capazes de pelejar eram mais de 600:000. Guiava-os um anjo por meio de uma columna, que de dia era formada como que de uma nuvem, e de noite era de fogo. Esta columna precedia os Hebreus e indicava-lhes o caminho atravez do deserto. Caminhavam por este, quando Pharaó, de novo indurecido, se arrependeu da concessão que fizera, mandou armar todos os seus carros bellicos e sahiu com um numeroso exercito, a perseguir e captivar outra vez o povo de Israel, que ia já perto do Mar Vermelho. Vendo-se de novo perseguidos pelos Egypcios, os Israelitas começaram a murmurar contra Moysés, por havel-os mettido n'aquelle perigo; mas este exhortou-os a que tivessem Esperança em Deus e, extendendo uma vara, que levava na mão, sobre o Mar Vermelho, as aguas dividiram-se para um e outro lado, deixando no meio um caminho enxuto, pelo qual passaram a salvo os Israelitas. Chegando os Egypcios e vendo as aguas divididas, intraram no mesmo caminho para os perseguirem; mas, estando já todos n'elle, Moysés levantou outra vez a vara sobre o mar e as aguas voltaram á sua posição natural, ficando submerso todo o exercito de Pharaó.
Em memoria da sahida do Egypto, mandou Deus aos Hebreus que celebrassem perpetuamente a Paschoa, matando todos os annos e comendo com certas ceremonias um cordeiro.
Passado o Mar Vermelho, fôram elles caminhando por diversos logares até ao deserto,--onde começou o Milagre do maná. Era este um manjar delicioso que cahiu do céu durante quarenta annos, emquanto os Israelitas peregrinaram no deserto até intrarem na terra da promissão. Com elle se alimentavam, colhendo cada um diariamente uma certa medida, por fórma que, se queria guardar alguma porção para o dia seguinte, logo o manjar se corrompia. A peregrinação pelo deserto durou tanto tempo, porque assim o determinou Deus, em castigo das murmurações e falta de fé dos Israelitas á sahida do Egypto, fazendo-os retrogradar para o deserto, quando estavam já perto da terra da promissão.
Appareceu Deus a Moysés sobre o monte Sinai, e entre raios lhe deu as taboas da lei, em que estavam escriptos os dez preceitos do decalogo, e dictou-lhe as outras leis e ceremonias que queria que fossem usadas pelo seu povo. Emquanto Moysés estava sobre o Sinai--que foi por quarenta dias e quarenta noites--pediram os Israelitas a Arão que lhes fizesse um deus que adorassem e que os governasse. Annuiu elle ao pedido e fabricou um bezerro de oiro, que puzeram n'um altar e adoraram, e ao qual offereceram sacrificios. Quando Moysés desceu do monte e teve noticia d'este acto de idolatria, depois de orar ao Senhor--em desaggravo de tão grande peccado,--em signal de indignação, quebrou as taboas da lei, mandou aos levitas que matassem os Israelitas que incontrassem no caminho, calcou aos pés e reduziu a pó o bezerro de oiro, e supplicou a Deus que perdoasse ao seu povo, o que elle fez a final.
Perdoado o peccado do povo, mandou Deus a Moysés que voltasse ao cume do Sinai, com duas taboas de pedra, nas quaes foram de novo gravados os dez preceitos. Mandou depois se construisse um templo cuja guarda e governo foram confiados a Arão, irmão de Moysés, sendo os mais descendentes de Levi feitos ministros do mesmo templo, com o nome de levitas. Este templo, que era portatil, e se chamava tambem _tabernaculo_, acompanhava o exercito e era dividido em duas partes: na interior, que se chamava _sancta sanctorum_, estava a arca do testamento, e só intrava o summo sacerdote; na exterior havia um altar, em que se queimavam essencias e um candelabro com septe lumes.
Passados quarenta annos de peregrinação estavam os Israelitas na terra da promissão, a cuja vista havia morrido Moysés, na edade de 120 annos e depois de ter abençoado o povo.
A terra da promissão era uma provincia da Asia, chamada hoje Palestina ou Terra Santa, que comprehendia varios reinos pequenos, conhecidos pela denominação de _reinos dos Cananeus_. Morto Moysés, ficou com o governo do povo Josué filho de Num, ao qual o Senhor appareceu dizendo-lhe que metesse os Hebreus na posse da terra da promissão, dividindo as terras pellas differentes tribus e familias. Josué teve que combater e vencer varios povos e reis, e que conquistar varias cidades da Palestina. Dividida esta pelos povos de Israel, obrigaram-se estes a dar a decima parte dos fructos da terra aos levitas.
Morrendo Josué na edade de 110 annos, seguiu-se-lhe o governo dos juizes, dos quaes os mais celebres foram Debora, Gedeão, Jephte e Sansão. D'este ultimo contam os livros santos que, sendo ainda muito moço e sahindo-lhe ao incontro um leão, o despedaçou logo; depois matou de uma vez trinta Philisteus; e de outra, depois de haver quebrado umas cordas muito fortes com que o tinham amarrado, matou mil Philisteus com a queixada de um jumento. N'outra occasião, incerrado pelos Philisteus na cidade de Gaza, sahindo de noite, arrancou as portas da cidade e levou-as a um alto monte. Depois d'aquellas façanhas e de outras, deixou-se inlear no amor de Dalila, á qual declarou que a verdadeira causa da sua força consistia em ser dedicado a Deus e em não lhe terem jámais cortado os cabellos; Dalila, senhora de tal segredo, fez com que Sansão adormecesse nos seus braços e, vindo os Philisteus, cortaram áquelle os cabellos, pelo que perdeu a força e foi aprizionado.
Os Philisteus, vencido assim Sansão, tiraram-lhe os olhos e trataram-n'o indignamente até que, passado algum tempo, tendo-lhe novamente crescido os cabellos, recuperou a força; e, sendo então levado pelos Philisteus ao templo de seu falso deus Dagão, para zombarem d'elle, abraçou Sansão duas columnas do mesmo templo e moveu-as com tal impeto, que o edificio abateu, morrendo esmagados quantos n'elle estavam, incluido o proprio Sansão.
O ultimo juiz que governou o povo hebreu foi o propheta Samuel, durante o governo do qual os Israelitas pediram a Deus que lhes désse um rei, o que Deus concedeu, mandando a Samuel que ungisse a Saul, como rei, e esse foi o primeiro dos reis de Israel. A principio regeu Saul, conforme ás leis e ao temor de Deus, mas depois faltou a uma e outra coisa, pelo que mandou o Senhor a Samuel que ungisse como rei a David, mancebo muito valoroso, da tribu de Judá, e que havia morto o gigante Golias, que desafiava o exercito de Israel. Saul, sabendo da eleição de David, perseguiu-o e não quiz depor o poder; mas afinal, vencido na guerra contra os Philisteus, suicidou-se. Introu então David na posse pacifica do governo, comquanto tivesse que sustentar guerras contra os Philisteus, os Ammonitas, os Syrios, os Idumeus e os habitantes de Damasco, vencendo a todos estes inimigos. Preparou os materiaes necessarios para edificar um magnifico templo, que não chegou a construir por Deus lh'o haver prohibido; trasladou a arca do testamento para o seu palacio de Jerusalem, fez rigorosa penitencia por graves peccados que tinha commetido; compoz muitos psalmos em louvor de Deus; e practicou muitos outros actos de soberano justo e sabio.
A David succedeu no reinado seu filho Salomão, que foi muito sabio e sagaz, e cujo governo foi assignalado por grandes riquezas e prosperidades. Durante todo o tempo que governou, conservou em paz o reino de Israel; foi temido e respeitado pelos principes vizinhos, muitos dos quaes eram seus tributarios; as suas frotas levavam-lhe grande quantidade de oiro e de materias preciosas; floresceu o commercio em todo o paiz; e a sabedoria do rei era admirada nos reinos estranhos. Empregou Salomão grandes riquezas em edificar um templo grandioso, para a adoração de Deus, onde havia preciosissimos vasos e um grande numero de ministros do Senhor. Esse templo excedeu tudo quanto se pode imaginar de magnificente. Edificou tambem um sumptuoso palacio, para sua morada.
Antes de ter revelado a sua sabedoria em muitos livros que escreveu, mostrou-a tambem na sabia sentença que pronunciou, conhecida pelo nome de «juizo de Salomão». Teve ella a seguinte origem. Duas mulheres viviam juntas e tinham cada uma seu filho. Aconteceu morrer uma das creanças, e cada uma das mães dizia ser seu o que ficára vivo. Foram ambas ter com Salomão, para que decidisse a contenda. Decidiu o rei que se cortasse ao meio o menino disputado e que se désse metade d'elle a cada contendora. Uma das mães acceitou a sentença; mas a outra clamou que antes se désse o menino inteiro e vivo á sua rival. Assim concluiu Salomão que a verdadeira mãe era aquella que não consentia na morte da creança. Mandou por isso que esta lhe fôsse intregue.
Por espaço de muitos annos observou Salomão a lei de Deus, governando o seu povo com grande sabedoria e justiça; mas nos ultimos annos da vida prevaricou, edificando templos aos falsos deuses, adorados por mulheres estrangeiras que tomou contra os preceitos de Deus. Não se sabe com certeza se chegou a arrepender-se d'este peccado, de que foi reprehendido pelo Senhor; mas julga-se que se arrependeu, compondo então o livro sagrado chamado _Ecclesiastes_, que figura no Novo Testamento e em que mostrou a vaidade das grandezas humanas.
A Salomão succedeu Roboão, seu filho, principe imprudente e tyrannico, que, pedindo-lhe o povo que o alliviasse dos tributos, respondeu que não só o não faria, antes os havia de augmentar e tratar os Israelitas como escravos. Vendo e ouvindo isto, dez tribus rebellaram-se contra Roboão, acclamando por seu rei a Jeroboão, homem sedicioso e impio; e só as tribus de Judá e de Benjamin ficaram na obediencia de Roboão, que se viu obrigado a fugir precipitadamente para Jerusalem.
Dividiu-se assim o reino em dois: a parte que permaneceu sujeita a Roboão chamou-se Reino de Judá, ou Judéa; a outra, que seguiu a Jeroboão, denominou-se Reino de Israel.
Jeroboão esqueceu a lei de Deus, mandou fabricar bezerros de oiro, que fez adorar como divindades, sendo assim causa da maior parte dos Israelitas cahirem em idolatria. Na mesma impiedade viveram os seus successores, os 21 reis que governaram Israel por espaço de 254 annos, findos os quaes foi o reino destruido pelos Assyrios e seu rei Salmanazar, que tomou Samaria e levou captivas as dez tribus de Israel.
No reino de Judá continuou-se a adorar o verdadeiro Deus, ainda que Roboão e muitos dos seus successores por varias vezes permittiram a idolatria; por isso foi o reino castigado pelo Senhor, que o intregou aos seus inimigos. O reino de Judá durou por 468 annos, contados do principio do reinado de David. Os peccados dos Judeus foram causa de Deus os intregar aos Chaldeus que, governados por seu rei Nabucodonosor, tomaram a cidade de Jerusalem, queimaram o templo do Senhor, e levaram os Judeus para o seu paiz. Este captiveiro chamou-se o «captiveiro de Babylonia» que durou por mais de 70 annos.
Foi dada a liberdade aos Judeus por Cyro, rei dos Médos, Persas e Chaldeus, o qual subjugou estes dois ultimos povos, ganhou varias batalhas e tomou Babylonia. Tomada esta cidade permittiu Cyro aos Judeus que regressassem á sua patria, o que se effectuou sob o mando do summo pontifice Josué e de Zobadel. Mal chegaram a Jerusalem, o seu primeiro cuidado foi a re-edificação do templo, a qual não poderam logo levar a effeito por lh'o impedirem os Samaritanos, conseguindo por fim concluil-a Zorobabel, mediante o auxilio de Dario I. por pouco durou a independencia dos Hebreus. As reformas de Esdras, nas quaes se comprehendia a prohibição de casamentos com mulheres de outras nações, e a dissolução das familias até então constituidas contra esse preceito, originaram um scisma, em que parte do povo se reuniu aos Samaritanos, ficando a nação muitissimo infraquecida. Aproveitando este estado, subjugaram os Persas a Judéa, cuja historia desde então até á conquista de Alexandre se confunde com a das outras provincias humildes, sujeitas ao dominio d'aquelle imperador. Continuou a rivalidade entre os Judeus e os Samaritanos, aos quaes os primeiros não permittiam a intrada no templo de Jerusalem. Os Judeus não constituiam assim já um povo, mas uma simples communidade religiosa ou uma casta sacerdotal, isolada no meio das outras populações do grande imperio persa.
Realizada a conquista d'este imperio em tempo de Dario Codomanno, submetteu-se a Judéa ao conquistador, sem resistencia; por morte de Alexandre foi governada successivamente por Laomedonte e pelos reis do Egypto e da Syria. Com os Machabeus chegou a recobrar a sua independencia, sendo Aristobulo proclamado rei; mas repetidas guerras civis deram logar á intervenção dos Romanos na Palestina, chegando Pompeu a intrar em Jerusalem, que ficou desde essa epocha em estado de incompleta servidão.
Por fim realizou-se a annexação da Judéa aos dominios de Roma, sendo Herodes incarregado do governo d'ella pelo imperador Augusto; mais tarde augmentaram as dissensões e rixas, que desde o principio houvera entre Judeus e Romanos, o que levou Nero a mandar Vespasiano, seu general, para reduzir completamente á obediencia a Judéa. A conquista d'esta foi interrompida pelo regresso de Vespasiano a Roma, para assumir o governo imperial, e só veio a ser ultimada pelo imperador Tito, que foi em pessoa á Palestina com um exercito de 60:000 homens. Á vista do exercito romano, applacaram-se as contendas civis que havia em Jerusalem, e esta cidade defendeu-se durante muito tempo, com um denodo verdadeiramente heroico, contra o inimigo que a cercava. Por fim cahiu a ultima obra de defesa, a cidade foi invadida, e o templo incendiado. Os Judeus, perdida toda a esperança, mataram suas mulheres e filhas e suicidaram-se em seguida, preferindo isso a intregarem-se com vida aos Romanos. A tomada de Jerusalem deu-se no anno 70 da era christan. O povo Hebreu perdeu, desde então e para sempre, a sua unidade politica, apezar de continuar até hoje a existir disperso pelo mundo, com os caracteres particulares da sua raça e da sua religião.
Já depois de submettida a Judéa aos Romanos, mas antes da tomada de Jerusalem, nasceu perto d'esta cidade, em Bethlem, Jesus Christo, quatro annos antes da era actual (ou era christan).
CAPITULO II
OS EGYPCIOS
As populações que primitivamente habitaram o valle do Nilo foram subjugadas, ou compellidas para o sul, por um povo vindo da Asia pelo isthmo de Suez. Passou-se isto em tempo anterior aos mais antigos monumentos historicos. Aquelle povo conquistador, que alli se estabeleceu, veio a constituir o que na Historia Antiga é conhecido pela denominação de _povo egypcio_.
Nada ao certo é conhecido quanto ao governo primitivo dos Egypcios, que se presume ter sido nos primordios _theocratico_ ou _sacerdotal_. Parece provavel que aquelle paiz tinha chegado já a um certo estado de civilização e estava bastante povoado pela epocha de 2000 annos antes da era de Christo. Segundo Herodoto, foi Menés o fundador da monarchia egypcia, a qual durou 1663 annos, desde a sua origem até á conquista do Egypto por Cambyses. O dominio d'aquella monarchia limitou-se primeiro a Thebas, cidade fundada pelo mesmo Menés, e aos seus arredores; mas este monarcha accrescentou consideravelmente o seu territorio, construindo diques para impedir que o Nilo continuasse a alagar os seus campos marginaes. Nos terrenos assim conquistados ao rio, e na extremidade do _delta_ d'este, edificou uma cidade grande e importante, que teve o nome de Memphis.
Dos seculos que se seguiram ao reinado de Menés apenas ha vestigios muito obscuros na Historia. Reinaram durante elles differentes dynastias, a mais notavel das quaes foi a quarta, de que foi fundador Snervu, e que se denominou «a dynastia dos Pharaós». Os tres Pharaós immediatos successores de Snervu foram Cheops, Khavrá e Mycerino, que se tornaram celebres por haverem mandado construir as tres grandes pyramides, que foram destinadas a servir-lhes de tumulos. Situadas na planicie de Gyzeh, na margem esquerda do Nilo, a breve distancia de Memphis, são aquellas pyramides os mais notaveis monumentos da civilização egypcia. A de Cheops tem 147 metros de altura, a de Khavrá 138, e a de Mycerino 66. A mais alta foi construida em 30 annos, por 100:000 homens, que eram substituidos de seis em seis mezes.
Os reis de outra dynastia, a duodecima, tornaram-se notaveis pelas grandes obras hydraulicas que imprehenderam no Nilo, construindo um grande numero de canaes, para distribuirem as aguas pelas differentes regiões do sólo, afim de lhes augmentar a fertilidade e de prevenir as inundações.
Mais tarde, reinando Timaos, um povo originario da Asia (os Hyksos ou _Pastores_) invadiu o Egypto, cuja antiga civilização destruiu. A invasão, comtudo, não se extendeu além do _delta_ do Nilo e do baixo Egypto. A parte, de que Thebas era capital, escapou á dominação dos Hyksos que porfim foram expulsos do paiz por Amenophis Thetmosis, descendente dos antigos reis do Egypto.
Entre os reis que succederam a este, houve notavel (alêm de outros) Moeris que executou differentes obras muito importantes, no numero das quaes figura o famoso lago que tomou o nome d'elle, e que foi destinado a receber as aguas do Nilo, quando a sua grande abundancia ameaçasse o Egypto de ser totalmente inundado. Este lago fornecia agua, por um grande numero de canaes, a differentes zonas que fertilizava.
Tornou-se tambem muito notavel o rei Sesostris (Ramsés-Meiamun), que foi o primeiro que armou uma esquadrilha; bateu-se com os Arabes, que subjugou, e outrotanto fez aos Lydios e Ethiopicos. Imprehendeu a conquista da Asia; e, tendo deixado seu irmão Danao no governo do reino, bateu e derrotou os Assyrios, os Medos, os Scythas e os Phenicios; submetteu a Thracia, a Colchida, e chegou até ás margens do Ganges. Deixou por toda a parte inscripções, commemorando as suas victorias. Regressando aos seus estados, dedicou-se a promover o progresso das artes, felicitou o povo com uma paz duradoura, e accrescentou ás suas glorias militares a de ter fundado instituições politicas e promulgado leis de geral utilidade. Tendo cegado na velhice, não poude resistir a essa infelicidade e suicidou-se. Os Egypcios, gratos á sua memoria, ergueram-lhe templos, nos quaes lhe prestavam as mesmas honras que aos seus deuses. Por esse tempo tinha chegado o Egypto á phase do seu maior esplendor. Tempos depois começou a pronunciar-se a sua decadencia, que as perturbações intestinas contribuiram bastante para precipitar. A Ethiopia proclamou a sua independencia; e os povos da Syria, sempre insubordinados e irrequietos, negaram-se a pagar os tributos. A unidade nacional veio a quebrar-se, e o paiz dividiu-se em vinte pequenos estados independentes. As rivalidades entre estes differentes estados levou-os a admittirem no seu seio os estrangeiros, cuja intrada até alli fôra sempre vedada no Egypto. Foi então que os Ethiopes e os Assyrios disputaram o paiz e fizeram conquistas que, comquanto não fossem duradouras, comtudo apressaram bastante a ruina da nação. Depois de expulsos aquelles dois povos, o Egypto ficou sendo governado outra vez por principes independentes. No delta do Nilo havia doze d'estes principes, os quaes constituiram uma confederação, formada dos seus estados, a que se chamou _dodecarchia_. Um d'aquelles principes, porêm, chamado Psammeticho I, derrubou á mão armada os outros principes e restabeleceu a unidade nacional. Durante o reinado d'este monarcha, ainda o Egypto se ergueu um pouco da sua decadencia e pareceu querer voltar ao seu antigo esplendor e grandeza; floresceram de novo as lettras, as bellas-artes e a industria; e continuaram outra vez um pouco as grandes obras de irrigação que estavam--havia muito--suspensas. Sustentou-se no throno durante 47 annos a dynastia de Psammeticho; no reinado de um dos seus descendentes, Amasis, teve o Egypto uns annos de certa prosperidade, a que logo poz termo a conquista persa, realizada por Cambyses. Desde esta até á conquista por Alexandre Magno medeiam dois seculos, durante os quaes os Egypcios tiveram politicamente uma existencia miseravel. Com a conquista pelos Romanos, depois da morte de Cleopatra, incerra-se a Historia Antiga do Egypto, que durou uns cincoenta seculos, e na qual se contam 34 dynastias.
Gosou sempre de grande fama a civilização dos Egypcios durante o periodo da Historia Antiga. Os proprios Gregos chegaram a gabar-se de que muitos dos seus philosophos e legisladores tinham ido á terra do Nilo instruir-se nas sciencias ou na arte de governar. Comtudo, fez-se em tempo uma idéa muito exaggerada do estado a que a sciencia havia chegado no Egypto. Attribuem-se a este povo conhecimentos mathematicos, e especialmente astronomicos, muito adeantados; mas não é averiguado que os possuisse em tal desinvolmento,--e bem poucos vestigios existiam d'elles, quando alli foram da Grecia, Eudoxio e Platão. A religião, as artes e a philosophia, é que floresceram muito notavelmente n'aquelle paiz. As ruinas innumeraveis de que todo o seu sólo está coberto, bastariam para attestar o grande estado de esplendor a que elle chegou. A historia das artes apresenta alli muito mais caracteres de certeza do que a das sciencias. Os monumentos, as ruinas, os templos, os palacios, os colossos, que nem a acção do tempo nem a do homem puderam ainda destruir, dão conhecimento do elevado grau de perfeição até onde os Egypcios levaram a cultura das artes; mas, de todos os monumentos do Egypto, os mais assombrosos são sem duvida as pyramides (construcções colossaes que se vêem ainda em differentes pontos, e das quaes as tres mais notaveis são as de que atraz falámos).
O antigo governo do Egypto era theocratico; reinavam alli os sacerdotes em nome dos deuses. Os proprios reis estiveram quasi sempre sujeitos ao poder sacerdotal, que se mantinha principalmente por effeito da severa distincção das castas. Os sacerdotes constituiam a primeira d'estas, á qual se seguia a dos guerreiros, depois a dos interpretes, e a dos trabalhadores (divididos ainda estes em diversas classes, que nunca se confundiam). A todo o egypcio era prohibido sahir da condição em que nascêra e abraçar profissão que não fosse a de seu pae.