Historia Antiga

Chapter 1

Chapter 13,644 wordsPublic domain

Produced by M. Silva

PROPAGANDA DE INSTRUCÇÃO

PARA

Portuguezes e Brazileiros

BIBLIOTHECA DO POVO

E DAS ESCOLAS

HISTORIA ANTIGA

CADA VOLUME 50 REIS

TERCEIRO ANNO--OITAVA SERIE

Cada volume abrange 64 paginas, de composição cheia, edição estereotypada,--e fórma um tratado elementar completo n'algum ramo de sciencias, artes ou industrias, um florilegio litterario, ou um aggregado de conhecimentos uteis e indispensaveis, expostos por fórma succinta e concisa, mas clara, despretensiosa, popular, ao alcance de todas as intelligencias.

LISBOA SECÇÃO EDITORIAL DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA Adm. Justino Guedes Largo do Conde Barão, 50 Agencias: PORTO--Largo dos Loyos, 47,1.º RIO DE JANEIRO--R. da Quitanda, 38 1900

NUMERO 58

INDICE

INTRODUCÇÃO CAPITULO I--OS HEBREUS CAPITULO II--OS EGYPCIOS CAPITULO III--OS ASSYRIOS E BABYLONIOS CAPITULO IV--OS PHENICIOS CAPITULO V--OS CARTHAGINEZES CAPITULO VI--OS SYRIOS CAPITULO VII--OS PERSAS CAPITULO VIII--OS INDIOS CAPITULO IX--OS CHINS CAPITULO X--OS GREGOS CAPITULO XI--OS ROMANOS

ERRATAS IMPORTANTES

Pag. Linha Onde se lê Leia-se

11 36 elementos alimentos

12 18 Amvrão Amrão

» 27 Egypto Egypto, por meio

14 26 peccado, peccado,--

» 42 altar, um altar

» 44 estão estavam

15 38 incluindo incluido

22 6 de que do que

33 19 moisaica moysayca

52 31 tomam tomaram

53 6 impervas impervias

57 33 notas novas

58 17 seis reis

HISTORIA ANTIGA

INTRODUCÇÃO

LIMITES DA HISTORIA ANTIGA--SUA DIVISÃO--TEMPOS PRE-HISTORICOS--O HOMEM PRE-HISTORICO--EDADE DE PEDRA--EDADE DE BRONZE--RAÇAS HISTORICAS OU PRIMITIVAS--OS POVOS DA ANTIGUIDADE

Conforme ao que dissémos no tratadinho de _Historia Universal_ (vol. XLVI da _Bibliotheca do Povo e das Escolas_), começa a _Historia Antiga_ desde as mais remotas epochas de que possa haver-se conhecimento e prolonga-se até ao seculo V da era christan.

N'ella se comprehende a epocha da phase brilhante dos povos orientaes, a qual mais tarde esmoreceu perante a supremacia que vieram a adquirir as civilizações classicas--primeiro a grega e depois a romana--na Europa, comparativamente com os poderosos e vastos imperios da Asia e do norte da Africa. O longo periodo da Historia Antiga fecha com o desmoronamento do imperio romano.

A _Historia Antiga_ pode dividir-se em tres periodos, cada um dos quaes se divide por sua vez em epochas principaes.

Os tres periodos são;--o dos _tempos primitivos_;--o dos _tempos mythologicos_;--e o dos _tempos historicos_.

O primeiro periodo comprehende duas epochas principaes: a da _origem do homem_, e a do _diluvio_ e da _dispersão dos homens_, segundo a tradição biblica.

No segundo periodo notam-se tres epochas principaes que são:--a dos _tempos idolatras_, caracterizada pela fundação dos imperios da China, da Asia, do Egypto, e da Grecia, e pela tendencia que os povos tinham a elevar á categoria de deuses os seus primeiros soberanos;--a dos _tempos heroicos_, em que appareceram grandes conquistadores, fundadores de cidades, e outros homens notaveis, que os povos, então já mais adeantados, se limitaram a considerar na categoria de heroes ou semi-deuses;--a dos _tempos poeticos_, ou epocha em que os prophetas e os poetas exerceram uma acção efficaz sobre o progresso da civilização, e deram a fórma poetica ás tradições e á legislação.

No periodo dos _tempos historicos_ (aquelle de que possuimos noções mais seguras e mais positivas) são seis as epochas principaes, a saber:--a _epocha legislativa_, em que sobresaem quatro personagens mais notaveis: Lycurgo, Numa, Solon e Confucio;--a _epocha da grande gloria da Grecia_, na qual esta nação teve a supremacia da civilização na Europa, então começada a aproveitar pela expansão progressiva do Oriente;--a das _conquistas dos Romanos_, que se substituiram aos Gregos na dominação e na influencia, e alargaram consideravelmente a colonização até ao occidente da Europa;--a das _dissenções intestinas da republica romana_;--a do _grande explendor do imperio romano_;--a da _decadencia do mesmo imperio_, cujo desmoronamento põe termo á Historia Antiga, e abre com a invasão dos Barbaros do norte o periodo da Historia da Edade-Média.

Reina ainda bastante incerteza na sciencia da Historia ácêrca da verdadeira epocha do apparecimento do homem sobre a superficie da Terra. Por muito tempo foi geralmente acceito que, se tal epocha não era exactamente contemporanea das mais antigas civilizações orientaes de que temos noticia, pelo menos não era anterior ao actual periodo geologico, e que o homem sómente havia apparecido pela primeira vez n'um periodo relativamente recente e já contemporaneo da fauna e da flóra actuaes, cêrca do logar em que as tradições de differentes povos fazem demorar o berço da especie humana.

Os descobrimentos da Geologia, sciencia moderna mas já abundante em resultados definidos, têem, porêm, tirado o valor áquella noção e demonstram ser mais antiga a existencia do homem na superficie da Terra. Com os elementos que aquella sciencia lhe fornece, a Archeologia Pre-historica, de creação muito recente mas de rapidos progressos, tem chegado a adquirir o conhecimento de que o homem existia desde uma epocha muitos milhares de annos anterior á actual, tendo até chegado a ganhar n'essas remotissimas edades um certo gráu de cultura, traduzido no exercicio de industria, de commercio, e ainda n'outras manifestações de actividade.

A existencia do homem primitivo, ou do _homem pre-historico_, ou de raças humanas de que pela Historia propriamente dita não temos conhecimento algum, é-nos revelada pelo descobrimento de instrumentos de pedra (utensilios mais ou menos grosseiramente fabricados com aquelle mineral, e affeiçoados a differentes usos) e pelo de fragmentos de peças de loiça, de armas e de differentes outros utensilios de uso domestico,--tudo em camadas de formação anterior ao actual periodo geologico.

Estes vestigios evidentes do homem pre-historico incontram-se nas excavações feitas nas camadas de terreno correspondentes ao periodo que a Geologia denomina _quaternario_, periodo que é o immediatamente anterior ao actual. Mais recentes descobrimentos, porêm, parecem provar que a existencia do homem é ainda anterior áquelle periodo. Excavações feitas em terrenos do periodo _terciario_ tendem effectivamente a revelar a existencia do homem durante a formação dos mesmos terrenos. É no terreno denominado _mioceno_ que se incontram os vestigios que levam a essa conclusão, e d'ahi provêm o nome de _homem mioceno_ ou _homem terciario_ ao homem que se julga ter existido no referido periodo geologico[1].

[1] Veja-se o livrinho de _Geologia_ (vol. XXXI da _Bibliotheca do Povo e das Escolas_).

Não acceitam ainda todos os archeologos a existencia do homem terciario; mas a opinião que a defende vai cada dia ganhando mais terreno. O congresso de Anthropologia e de Archeologia pre-historica, que em 1880 se reuniu em Lisboa, tratou essa questão e contribuiu muito para a sua resolução definitiva, sendo importantes os dados que para isso forneceram as excavações feitas no nosso paiz e os achados n'ellas realizados pelo eminente geologo portuguez Carlos Ribeiro, ha pouco fallecido.

A Archeologia Pre-historica divide o periodo _quaternario_, sob o ponto-de-vista da existencia de vestigios da especie humana, em duas epochas:--a _edade paleolithica_, ou da pedra lascada;--e a _edade neolithica_, ou da pedra polida. A substancia de que são fabricados os instrumentos achados, e a perfeição relativa do seu fabrico, são os fundamentos que fornecem os caracteres distinctivos das duas edades.

Á edade paleolithica pertencem armas e instrumentos de silex, principalmente machados, talhados toscamente pela separação de lascas tiradas pela percussão. Estes instrumentos tinham evidentemente por fim o cortar, e alguns, de pontas mais aguçadas, o de furar. Alguns ha, com fórma similhante á das raspadeiras, que deviam servir para preparar as pelles de animaes, com que se vestiam os primeiros homens. Os vestigios correspondentes a esta epocha pre-historica fazem crer que o modo de viver da especie humana foi então de extrema simplicidade, que eram desconhecidos os animaes domesticos e a agricultura, que os homens vagueavam pelas florestas virgens, alimentando-se com os fructos silvestres e com o producto da caça, e abrigando-se nas cavernas naturaes, cuja posse ás vezes se viam obrigados a disputar aos animaes ferozes. A alimentação dos que viviam á beira do mar ou dos lagos consistia em peixe e marisco. O estado social devia ser o mais rudimentar possivel; apenas se pode considerar n'aquella epocha esboçado o viver da familia. Aquelle modo de viver era por certo ainda mais simples e primitivo do que o dos actuaes selvagens da Nova Caledonia.

Um pouco mais perfeito foi de certo o viver na edade neolithica. As armas e os utensilios d'aquella epocha são distinctos dos da edade paleolithica por certas particularidades de fórma e pela maior perfeição do trabalho, a qual já denuncia um mais adeantado estado de educação, havendo entre os fragmentos de loiça e entre os objectos de ornato incontrados alguns que revelam uma certa industria, ainda rudimentar, mas já com algum desinvolvimento. Julga-se que n'estas epochas se practicou já o commercio, por se encontrarem n'algumas localidades substancias que eram produzidas em sitios distantes, assim como vestigios da existencia de officinas levam a crer que effectivamente a industria se delineava já com feições pronunciadas.

Aos ultimos tempos da edade neolithica pertencem os chamados _kjoeckkenmoeddinger_ («restos de cozinha»), que são grandes aglomerações de conchas de differentes mariscos, misturadas com carvão, incontradas nas costas da Dinamarca, e tambem mais recentemente no valle do Tejo, junto a Mugem, pelo já citado geologo Carlos Ribeiro. Pertencem tambem á mesma epocha as _palafittas_, ou povoações lacustres, achadas pela primeira vez no lago de Zurich em 1853, e que consistem em reuniões de cabanas junto das margens dos lagos, construidas sobre base de estacaria mergulhada na agua. Nas _palafittas_ incontram-se notaveis vestigios, que provam o relativo adeantamento da especie humana n'aquelles tempos. É assim que a existencia de cereaes demonstra que já havia agricultura; a de tecidos, que a industria se tinha adeantado; a de fragmentos de animaes domesticos, um viver social em via de progresso.

A existencia de utensilios de metal nas _palafittas_ indica que a epocha d'estas se prende chronologicamente ao começo dos tempos historicos, ou pelo menos ao periodo que precedeu a aurora das mais antigas civilizações do Oriente. Começa n'esse ponto a _edade de bronze_, ou aquella em que as armas e os diversos utensilios, até então construidos exclusivamente de pedra, começam a ser substituidos por outros fabricados de bronze.

A _edade de bronze_ variou muito em duração nos diversos paizes da Europa, sendo n'alguns povos uma epocha inteiramente historica, e pertencendo, pelo que respeita a outros, á Archeologia Pre-historica. No seu todo deve considerar-se como um periodo de transição entre os tempos pre-historicos e os tempos historicos.

Os povos que figuram na Historia da Antiguidade provêm de uma das tres raças _semitica_, _chamitica_ e _japhetida_ (mais geralmente denominada _aryana_ ou _indo-européa_), as quaes por isso se dizem _raças historicas_. A existencia d'estes tres troncos primitivos é revelada pela tradição biblica e confirmada pelas modernas investigações ethnographicas. Quando, decorrido longo periodo depois da creação do homem, Deus, offendido pelos vicios que haviam lavrado em toda a especia humana, resolveu castigál-a com o diluvio, apenas quiz que escapasse Noé, que era justo, com sua familia. Terminado aquelle cataclismo, só os tres filhos d'elle ficaram incumbidos de povoar o mundo, e cada um d'elles--Sem, Cham e Japhet--indo estabelecer-se em pontos differentes deu origem a uma raça. Sem ficou na Asia e foi o pai da raça semitica; Cham passou á Africa e originou a raça chamitica; e finalmente Japhet, estabelecendo-se no oriente da Europa, deu origem á raça japhetida, ou aryana, ou indo-europêa, assim denominada, porque na sua expansão ulterior se estendeu até ás Indias.

A raça semitica--(ou os semitas)--apparece-nos, no decorrer da Historia Antiga, povoando um vasto territorio cingido de um lado peia alta Mesopotamia e pela parte meridional da Arabia, e do outro pelas costas do Mediterraneo e pelo rio Tigre. Eram d'esta raça os habitantes do imperio da Assyria e de parte da Babylonia, os Hebreus, os Lydios e parte das populações da Syria. Presentemente esta raça está representada pelos Judeus e pelos Arabes. A sua importancia historica deriva principalmente das religiões que n'ella tiveram origem e do desinvolvimento a que estas chegaram. N'ella nasceram a antiga religião moysaica, o christianismo e o mahometanismo. Na Edade-Média um ramo d'esta raça--os Arabes--, invadindo a Europa, trouxeram-lhe grande copia da sciencia grega, contribuindo assim para a civilização d'esta parte do mundo.

A raça chamitica--(ou os chamitas)--povoou na Antiguidade a Ethiopia, o Egypto e a Nubia, e incorporou-se tambem na população de Babylonia e da Arabia meridional. Na actualidade está representada pelos _fellahs_ do Egypto, pelos habitantes da Nubia, pelos _abexins_ e pelos _tuaregs_.

A raça aryana--os aryas, os indo-europeus--foi representada na Antiguidade pelos Indus, Persas, Romanos e Gregos; e actualmente está-o sendo pelos descendentes d'estes povos e pelos Germanos e Slavos. Os povos indo-europeus são os mais importantes sob o ponto-de-vista historico; extendem hoje o seu _habitat_ desde o norte da Europa até ás margens do Ganges; é no meio d'elles que se passa o grande movimento do progresso social, e a sua expansão colonizadora extende-se até aos confins do Novo Mundo, para onde têem transplantado as maravilhas do progresso e os mais perfeitos methodos de cultura intellectual.

Ha nas tres raças historicas de que temos falado um grande numero de variedades, devidas, não só a cruzamentos, mas tambem a modificações filhas da differente acção dos climas e da diversa influencia do meio.

O estudo d'essas differentes variedades leva a uma classificação differente da que sob o ponto-de-vista historico fizemos, e baseada em caracteres anatomicos que são do dominio da Anthropologia.

Os principaes povos que figuram na Historia da Antiguidade são: os Hebreus, os Egypcios, os Assyrios e Babylonyos, os Phenicios, os Carthaginezes, os Syrios, os Persas, os Indios, os Chins, os Gregos e os Romanos. De cada um d'elles trataremos em capitulo especial.

CAPITULO I

OS HEBREUS

A historia dos Hebreus confunde-se no seu principio com as mais antigas tradições da primitiva edade historica do homem. A mais antiga fonte em que ella se estuda é o _Genesis_, no qual se acham compendiadas as tradições da creação do homem e da primitiva dispersão das raças historicas, em que primeiro se dividiu a familia humana.

Segundo o _Genesis_, Deus, depois de ter creado o mundo, separado a terra dos mares, e povoado aquella de plantas e de animaes, creou o primeiro homem, que teve o nome de Adão, e creou-lhe logo depois para companheira a primeira mulher, que se chamou Eva. D'este primeiro par nasceram tres filhos: Caim, Abel e Seth. O primeiro, que se deu á cultura dos campos, matou por ciumes a seu irmão Abel, expatriando-se em seguida e indo fundar a cidade de Henochia, que tomou tal nome do primeiro filho (Henoch) do seu fundador. Abel exercêra o mister de pastor. Seth, o terceiro filho de Adão, teve numerosa descendencia, na qual se tornou notavel Noé, pelas circumstancias que vamos referir.

Em tal devassidão haviam cahido os homens, que Deus, como que arrependido de os haver creado, resolveu exterminál-os; mas, como Noé e sua familia conservavam vida virtuosa, no meio do viver vicioso do resto da humanidade, determinou tambem Deus fazer excepção a respeito d'elles. Mandou por isso a Noé que construisse uma arca, na qual se mettesse com a sua familia e com um certo numero de animaes de todas as especies; e, feito isso, mandou á terra o diluvio, que tudo alagou e em que pereceram todos os homens e animaes, excepto os que se continham na arca, a qual fluctuava na superficie da agua.

Terminado o diluvio, que durou quarenta dias, e tendo baixado as aguas e descoberto de novo a superficie da terra, poisou por fim a arca sobre o monte Ararat, na Armenia. Sahiu d'ella Noé, com sua familia e com os differentes animaes, e começou a cultivar a terra. Foi elle o primeiro que cultivou a vinha, fabricou vinho e com este se embriagou.

Falavam a principio todos os homens a mesma linguagem; mas o seguinte acontecimento deu origem a que entre elles se multiplicassem as linguas. Tendo-se estabelecido e havendo alargado a sua occupação nas planicies de Sennaar, entre o Tigre e o Euphrates, tornaram-se orgulhosos do seu valor e poder, e conceberam o plano de construir uma torre, que chegasse ao céu. Começaram a pôr em practica o seu temerario intento; mas Deus, para castigar tamanha ousadia, confundiu-lhes as linguagens, por fórma que elles, deixando de comprehender-se uns aos outros, tiveram que abandonar a obra e que dispersar-se. A torre ficou, pois, por construir-se e denominou-se _Babel_, vocabulo que quer dizer: _confusão_. Foi aquella dispersão que deu origem á separação das tres raças, _semitica_, _chamitica_ o _japhetida_, dos nomes dos tres filhos de Noé--Sem, Cham e Japhet.

Pouco a pouco se extinguíra na memoria dos homens a sua historia primitiva e as licções e preceitos que n'essa historia se continham. Resolveu por isso o Senhor escolher entre os descendentes de Sem uma familia, que houvesse de ser a guarda e a depositaria das antigas crenças e tradições. Essa familia foi a de Tharé, originaria de Ur (na Chaldéa), e que, por causa da falta de pastagens para os gados, havia ido estabelecer-se na cidade de Haran (na Mesopotamia). Foi alli que Deus revelou a Abrahão, filho do dito Tharé, a missão divina que lhe destinára e como resolvêra constituil-o chefe da raça predestinada ou do _povo escolhido_. Por mandado do Senhor fez Abrahão varias peregrinações. O Senhor abençoou-o, prometteu-lhe grande descendencia e disse-lhe que teria de sua mulher Sára, até então esteril, um filho,--o que se realizou com o nascimento de Isaac.

Deus, para experimentar a fé e a obediencia de Abrahão, ordenou-lhe que lhe sacrificasse seu filho Isaac, ao que elle sem repugnancia se promptificou, afastando-se para consummar tal sacrificio. Quando ía a descarregar o golpe, Deus lh'o impediu, detendo-lhe o braço e dando-se por satisfeito com aquella prova de obediencia.

Isaac teve dois filhos, que foram Esaú e Jacob. Este ultimo, comquanto mais novo, foi o que recebeu a benção do pae, que estava cego, e que foi inganado, julgando que abençoava Esaú. Áquella benção, obtida subrepticiamente, por conselhos e industria de sua mãe, Rebecca, e á qual estava annexo o cumprimento das promessas que Deus fizera a Abrahão, deveu Jacob o herdar o patriarchado do povo hebreu. Temendo, porêm, a vingança de Esaú, ausentou-se para a Mesopotamia, onde, depois de servir por muitos annos a seu tio Labão, casou com as duas filhas d'este, Lia e Rachel.

Teve Jacob doze filhos, que são os doze patiarchas, cabeças e origens das doze tribus do povo de Israel, nome que tambem teve o mesmo Jacob. Esses patriarchas foram:--o 1.º, Ruben; o 2.º, Simeão; o 3.º, Levi (cujos descendentes foram destinados ao sacerdocio e a serem ministros do templo de Deus); o 4.º, Judá; o 5.º, Dan; o 6.º, Nephtali; o 7.º Gad; o 8.º, Azer; o 9.º, Isachar; o 10.º, Zabulon; o 11.º José; o 12.º, Benjamin.

Os mais velhos de entre elles começaram a ter inveja a José, por verem que era o mais estimado de Jacob, e porfim intentaram matál-o, lançando-o n'uma cisterna; mas, mudando de resolução, venderam-n'o como escravo a uns madianitas, que o levaram para o Egypto, onde foi comprado por Putiphar, creado de Pharaó, rei d'aquella nação. Serviu José a Putiphar com tanta fidelidade, que não se prestou a um crime para que o provocava a esposa do mesmo Putiphar. Esta, para d'elle se vingar, accusou-o aleivosamente de falso crime e por esse motivo foi elle mettido n'um carcere. Alli Deus revelou-lhe a significação mysteriosa de uns sonhos que haviam tido dois dos seus companheiros de captiveiro. Um d'estes, como Pharaó tivesse um sonho em que viu septe vaccas magras e septe espigas delgadas, que devoravam septe vaccas gordas e septe espigas fartas, indicou-o ao rei, como capaz de lhe interpretar o sonho. José explicou com effeito ao rei o sentido d'aquella visão. Surprehendido e maravilhado Pharaó com a sabedoria d'elle, elegeu-o para seu ministro, e deu-lhe grandes honras e distinções. José casou com a filha de um sacerdote de Heliopolis, da qual lhe nasceram seus dois filhos Manassés e Ephraim. Como ministro, e gozando toda a confiança do rei, organizou a arrecadação dos cereaes, de modo que, quando chegaram os septe annos de fome, symbolizados nas septe vaccas magras e nas septe espigas delgadas do sonho, o Egypto estava provido contra a escassez e ainda poude efficazmente soccorrer as povoações proximas, nas quaes se não tinham adoptado eguaes providencias.

A escassez de alimentos, que tambem se sentiu em Chanaan, terra onde com sua familia habitava Jacob, obrigou este a mandar ao Egypto seus filhos, a comprar trigo. Soube da chegada d'elles José e, sem se lhes revelar como seu irmão, obrigou-os a declarar quem eram e a deixarem em poder d'elle, em refem, a Simeão, emquanto iam a Chanaan a buscar-lhe Benjamin, o irmão mais novo.

Obrigados a voltarem ao Egypto, por causa da fome que continuava, conseguiram que Jacob, apesar da sua repugnancia, deixasse ir Benjamin; e então José, dando-se a conhecer aos irmãos, entre lagrimas de alegria, mandou-lhes que voltassem a Chanaan, a buscar Jacob e toda a familia. Assim aconteceu, indo toda a familia de Jacob estabelecer-se no Egypto. Alli viveu ainda Jacob 17 annos, vindo a finar-se na edade de 147, depois de abençoar seus filhos, com bençãos mysteriosas e propheticas, vaticinando que na descendencia de seu filho Judá estaria o imperio e o governo do povo, até vir ao mundo o Messias, que havia de remir o peccado de Adão. Fallecido Jacob, ficaram residindo no Egypto seus filhos, nas terras que, em attenção a José, lhes havia dado o Pharaó, e nas quaes tiveram numerosa descendencia.

Permaneceram os Israelitas ou Hebreus no Egypto por espaço de 217 annos. No decurso d'estes, os Egypcios, desconfiando d'elles, opprimiam-n'os cruelmente, obrigando-os a trabalhos duros, e o rei mandava matar-lhes todos os filhos recem-nascidos do sexo masculino, os quaes eram lançados ao Nilo. Nascendo Moysés, filho de Amrão e de Jocabed, esta conseguiu occultál-o por espaço de tres mezes; mas, não o podendo conservar escondido por mais tempo, lançou-o áquelle rio, dentro de um cesto. Estando a filha do rei a banhar-se no rio, viu a creança, salvou-a e deu-lhe o nome de Moysés, que quer dizer: «salvo das aguas». Depois levou-o para a côrte, onde foi creado e passou a mocidade.

Deus, condoido de quanto os Hebreus soffriam entre os Egypcios, resolveu livrál-os da oppressão, fazendo-os sahir do Egypto, por meio de assombrosos milagres. Foram esses prodigios obrados por intermedio de Moysés e de seu irmão Arão, apparecendo primeiro Deus a Moysés no monte Horeb, e mandando-lhe que fosse á presença de Pharaó, a pedir-lhe que deixasse sahir do Egypto o povo de Israel. O rei, bem longe de acceder ao pedido, antes redobrou a perseguição.