Part 2
Na _jettatura_ acredita muita gente boa. As _montres_, em Nápoles, cercam-se dum preventivo cordão de amuletos protectores, e os espíritos mais fortes não se desdouram de trazê-los na algibeira. Filipe d’Altavila, aquele conde inventado por Gauthier, era civilizado. Fôra educado em Paris, falava inglês e francês; lêra Voltaire; cria nas máquinas a vapor, nos caminhos de ferro, nas duas câmaras, como Stendhal; comia _macarroni_ com garfo; e, como se todos estes argumentos não bastassem, é êle ainda quem confessa que usa «de manhã luvas de Suède; de tarde luvas escuras, à noite luvas côr de palha», prova incontestável de civilização.
Pois êste scéptico, êste civilizado, êste homem forte, conquistador e espadachim--acreditava. ¿Porque não havemos nós de acreditar? Êle, porêm, parece que tinha razão para isso, visto que, sendo um dos melhores esgrimistas, tendo morto em duelo três homens e ferido gravemente cinco ou seis, ninguém se batendo com êle pela fama terrível que tinha, veio a morrer, estúpidamente, cravando-se no punhal do _jettatore_.
¿Mas será o mau olhado incombatível? Não. O nosso homem acredita tambêm que «com os chifres, as figas e os ramos de coral bifurcado, se pode destruir ou pelo menos atenuar a sua influência».
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¿Já repararam na série de desgraças que tem pesado sôbre o país desde que é presidente do conselho o snr. João Franco? Pois, caso singular, as desgraças sucedem-se e pode dizer-se que nunca houve tantas.
Os políticos não andam seguros. Deu o filoxera, ou a formiga branca com êles, desde que é presidente do conselho, etc, etc. Já a gentana das ruas lhe vai atribuindo dotes maléficos e quando êle passa, se lhe não chamam _jettatore_, vão-lhe fazendo figas.
Não tarda que, à semelhança do _Strand Magazine_, as gazetas vulguem o caso ao falario dos seus leitores. E é caso para pensar, acreditem!
Um dia, na Câmara, no acêso duma discussão, Hintze tem uma síncope. Ao acompanhar o entêrro dum amigo e político, Hintze morre repentinamente, e os médicos gaguejam vagas cousas... farda vélha... o calor do chapéu... insolação. José Dias Ferreira, rijo ainda apesar dos seus setenta anos, faz uma conferência desafecta ao govêrno e é repentinamente atacado duma paralisia. Quando menos se espera, morre.
O que mais assombra é o imprevisto com que a Morte tombou êsses dois monarquistas de vélha rocha, que, apesar de pontapizados no seu orgulho e nos seus anos de trabalho, ainda resistiam, cheios de vida e de crença.
A revista inglêsa veio fazer luz. ¿Terá o snr. presidente do Conselho o fatal condão? Será _jettatore_? Tudo faz crer que sim. D’Aspremont, o _jettatore_ do romance de Gauthier, uma vez que tocou num cocheiro com uma leve bengala, matou-o instantâneamente.
O nosso estadista, nos seus tempos de Coimbra, não podia acariciar um gato, que o animal não morresse logo. Hão-de concordar que é já ter mau olhado.
Nenhuma dúvida resta. É _jettatore_. Os políticos entre-olham-se finados de mêdo e com terror secreto pensam em quem irá agora. Os indiferentes pensam em que novo desastre estará guardado à nação sob o influxo funesto de tão funesto dom.
Não há dúvida. É necessário pôr um chifre atrás da porta e trazer na algibeira os ramos de coral bifurcados, e as figas de azeviche. Nada, que o seguro morreu de vélho.
Senhores da política, vamos.
Os mineiros
Les mineurs chamou Roll, o poeta do carbonoso, a uma das suas mais amadas telas.
«Les Mineurs» é o poema da gente que trabalha. Um crepúsculo à hora do levantar da faina. A retirada dos mineiros, uma longa bicha de gente taciturna e acabrunhada que regressa do interior da terra. Ao fundo as altas chaminés vomitam fumo, o seu fumo espesso e enovelado, carvão que o vento desfaz. E, sob o céu que o vento escurece, a retirada vai-se fazendo lentamente, como um exército estropeado que sai finalmente duma praça há meses sitiada. E não tem fim, a escura procissão que sai da bocada negra dos poços. Parece que nunca mais terminará.
O assunto que tentou a Roll e que a sua tela exprime com a fidelidade duma fotografia, tem seduzido a muitos artistas. Constantin Meunier consagrou-lhe um baixo relevo. Severine escreveu as mais belas páginas sôbre «le pays noir» e Zola dedicou-lhe um dos seus livros, êsse romance-estudo, brutal e flagrante, cheio de verdade e cheio de observação, que é o _Germinal_.
Porêm, de tôdas as composições artísticas que eu conheço, um quadro há, que, nas minhas horas de scismar, se desenrola e vivifica, e ante os meus olhos passa como uma scena da vida real. A tela desapareceu, apagou-se suavemente e só ficaram as figuras e o scenário. É um cortejo que passa. São rudes operários tisnados, a pele encoirada de suor, caras sombrias de miséria e de sofrimento. Abrem a marcha de mãos dadas cantando o _Çá ira_. Um operário vélho, de blusa e boné, dá o braço à sua companheira, uma envelhecida, que traz na mão um ramo de flores. Um garôto traz às costas um tambor. O cortejo avança. Algumas das mulheres trazem os filhos ao colo, outras, bandeiras de revolta. Mas a procissão não tem ar insubmisso, tem um ar de protesto taciturno. Um céu de bruma espesso e calado alumia a scena com os seus tons mais lúgubres e na sua luz morrinhosa sinistríza os contornos, e veste tudo, as figuras, a rua, os rostos, e até os petizes do bando, com um ar de sofrimento intenso, de agonia intraduzível. É seu autor Jules Adler. O quadro chama-se _A greve_.
A greve recente da mina de S. Domingos veio canalizar atenções para o assunto. E S. Domingos, que aparecia entre brumas de mistério, dá notícias suas. S. Domingos é uma feitoria inglêsa. Tem polícia própria, armada de belas carabinas, carabinas último modêlo para, emquanto os mineiros se estorcem de fome, ela patrulhar, na soturnidade da noite, de dedo no gatilho, o sono dos senhores.
Os mineiros são 3:000. Trabalham uma infinidade de horas e o salário é pouco. Como o salário é pouco e o trabalho muito, a alimentação é má. E como a alimentação não presta, a saúde é péssima.
Que querem êles? Melhoria de salário e um pouco menos de trabalho. O mineiro, por via de regra, é sóbrio. Não tem desejos, não tem ambições. É um animal de carga, pobre bêsta suada e indefesa, e as minas são uma nova escravatura. Duvidam? Muito embora. São ainda as gazetas que nos informam que essas reclamações foram recebidas ... a tiro. Se isto não é escravatura, então...
A canalha revolta-se? Muito bem. Espingardeia-se. A canalha parlamenta? Acutila-se. A canalha não tem nome, a canalha não tem voz. A canalha é a canalha, nada mais.
¿Que ela um dia virá, quando o ódio se fizer avalanche, reclamar o seu quinhão na festa? ¿Que ela virá escrever nas paredes da sala o _Mane_, _Thecel_, _Phares_ dos grandes cataclismos? Pura imaginação! A canalha não virá. E se por acaso vier, sim! se vier, encontrará uma muralha de baionetas e um cordão de metralhadoras. «La force prime le droit!», não é verdade? Sejamos positivos. Mais uma vez o direito ficará vencido.
¿Que a greve colheu a Emprêsa de improviso? De-certo. Pois a Emprêsa julgava lá que êles soubessem pedir, que êles soubessem falar!
O que a Emprêsa sabia era a média de produção diária por cada animal daqueles, por cada escravo, a que pomposamente persistimos em chamar mineiros. A Emprêsa só tinha um fito: Que cada homem trabalhasse o dôbro.
Que êles tinham Direitos? Que êles tinham estômago? Que queriam Justiça? Deixem-me rir. ¿Que diabo se importa a Emprêsa com isso?
A Emprêsa explora-os; os capatazes, seus mandatários, esbofeteiam-nos. Oh! filantrópica Emprêsa! Pois êles só esbofeteiam? Vamos lá. Podiam muito bem açoitá-los, crucificá-los e esfolá-los. Só esbofeteiam!!!! Se na acta da assembleia geral lhes não fôr exarado um voto de louvor, por tanta humanidade, hão de concordar que é uma refinadíssima pouca vergonha.
¿Mas, realmente, os mineiros revoltam-se? Pior para êles. ¿Esquecem-se então de que a Emprêsa tem pelo seu lado a fôrça, e que os esmagará irremediávelmente? Fazem greve? Mas a greve termina aonde a fome principia. Quem ficará por baixo? O mais fraco.
Ora quem capitula não impõe condições, aceita-as. A fome principia e ei-los novamente escravizados. Então, como um exército vencido que entrega os seus troféus e as suas bandeiras, os grevistas entregam os seus direitos, os seus sonhos, as suas utopias, as suas ambições. E voltam novamente ao escuro da mina, ao ar irrespirável, à meia-fome, ao trabalho extenuante, emquanto os directores da Emprêsa recomeçam a partida de bilhar interrompida.
Courrières fêz 1:200 vítimas.
¿Sabem o que mais comoveu a Companhia exploradora? Não foi a ceifa de mil e duzentos homens válidos, de mil e duzentos cérebros e corações, de mil e duzentas vidas. Não foram os lamentos de mil e duzentas famílias que se carpiam, que ficavam na ruína e na mendiguez. O que a comoveu foi a ruína, a perda dos poços, o ruir das galerias, os motores paralisados e torcidos, as máquinas destruidas. Foram os lucros que não se realisaram, os dividendos que não se distribuiram.
Um homem a quem roubaram a bôlsa pode lá preocupar-se com a morte em casa do vizinho!
Oitenta por cento dos desastres é culpa das Emprêsas, que não teem outro fito senão roubar à terra a matéria que as há de enriquecer. A segurança dos operários só é assegurada quando a falta dela pode prejudicar interesses de senhores. Os acionistas, emquanto o dividendo corre, claqueam. E êsse rega-bofe é às vezes interrompido pelo estalar dos travejamentos, pelo ruído das derrocadas, pela grita dos feridos e pela lembrança dos que lá ficaram no silêncio das galerias, irremediávelmente.
Pois apesar de tudo, possível é que os mineiros não sejam atendidos. Para admirar será se o forem. Apesar do perigo que correm, a doença à espreita, a morte perto, a velhice impossível, as suas reclamações parecem absurdas aos Directores.
Se, como no _Germinal_, algum Maheu ignorado levanta a voz para dizer «a sua miséria, a miséria de todos, o duro trabalho, a vida de brutos, a mulher e os pequenos gritando de fome em casa»; para dizer que é uma iniqùidade uns morrerem de fome e outros de indigestão; para dizer que é uma torpeza uns morrerem de trabalhar tanto emquanto outros bocejam à regalona, a Direcção promete estudar. Não estuda nunca. Mas a voz dêsse Maheu, dêsse Maheu ignorado, ficará no espaço acusando, e marcará com um ferrete de infâmia o crime, êsse crime inaudito ratificado em uníssono por três mil peitos; o crime deles andarem ali a 800 metros debaixo da terra, arquejantes, famintos e ignorantes, para que Calígula, o doido, ponha freio de ouro ao seu «Incitatus» e Nunes, o patife, mate cães a tiro na quinta da Formiga.
O mesmo devia pensar aquele Suvarine, o russo, que nos aparece como um herói, quando nas trevas, alta noite, suspenso sôbre a fundura do poço, armado de trado e serrote, começa no revestimento da mina a sua obra de destruição.
Um sábio português
Era inquestionavelmente um sábio êste pobre Ferraz de Macedo _dos crânios_, sôbre quem o dr. António Aurélio da Costa Ferreira vem de tratar num opúsculo sentido e sincero. Um sábio a valer, com amor quintessenciado aos seus crânios, às suas medições, e a sua admiração pelos snrs. Quatrefages e Manouvrier. Não vai o tempo para sábios e êle ressentiu-se disso. Faltou-lhe a atmosfera de carinho a que todo o homem tem direito. Em vida foi um misantropo vivendo a vida sonhada de todo o cerebral que se sente distanciado da sua época, um século adiante, perdido da sua tríbu e tendo só a confortá-lo os seus cadernos de notas e uma fé, uma vontade, mui digna de encomiar-se. De resto nem a atenção dos poderes públicos lhe deu audiência senão à pressa, nem êle teve nunca geito para o palavrear solerte dos vivedores profissionais.
Fortuna, emquanto a teve, houve por bem desbravá-la em todos os justos e generosos empreendimentos. Publicou o _Cancioneiro da Vaticana_ e amorosamente coleccionou bem um milhar de crânios sôbre que deixou curiosas notas e estudos preciosamente documentados. Que, já Fialho de Almeida o disse, no seu artigo dos _Serões_, não seria êle um sábio que farolizasse ignotas brumas da sciência, mas foi um documentador paciente, um consciencioso observador, cuja rigorosa análise tem crédito no mundo scientista e profissional. Ribot confirma. Abaixo dos grandes criadores, dos que descobrem, dos que trazem novos horizontes à humanidade, há os talentos que explicam comentam e desenvolvem as verdades descobertas e que pela sua experiência analítica são os que rotulam com exactidão a categoria da descoberta e muitas vezes tambêm a anulam. Seria um dêstes talentos Ferraz de Macedo. Mas que robusta energia, que frondosíssima tenacidade a enchia! Só isso o faria grande se êle já o não fôsse por trabalhos que tinham merecido de Manouvrier a opinião de ser «um homem conscienciosíssimo, um pesquisador infatigável e instruidíssimo, dotado de notável tenacidade» (_Progrès médical_--15-VI-1889), e de Quatrefages os melhores elogios na sua _História geral das raças humanas_. É inútil dizer o resto. Morreu pobre, esquecido e crente. Nenhuma indiferença, nenhuma ingratidão, nenhum desdêm pôde soterrar-lhe a crença. Quem nos déra a todos nós a tranqùilidade espiritual e o desdêm bondoso da sua alma. E tiro o meu chapéu. Não há impugnadores de que êle fôsse um sábio, um verdadeiro sábio.
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Esta separata agora publicada pelo dr. Costa Ferreira é uma bela obra. Os nomes dos grandes mortos são como as plantas. Precisam de jardineiros, cultores apaixonados, tratadores conscienciosos e dedicados, senão breve vem a delir-se na memória das gerações e o seu derradeiro pouso é nas páginas dos livros especialistas a que lá de vez em quando um ou outro compulsor estudioso sacode o pó e afugenta a traça. Precisam de quem buzine ao vulgo, para escarmento duns e exemplo doutros, a sua vida e as suas obras. Sempre assim se tem feito.
O nome de Ferraz de Macedo não podia encontrar mais piedoso cultor do que o seu discípulo e médico Costa Ferreira. Possuido do mesmo acendrado amor aos estudos antropológicos, amando o mesmo ideal, Costa Ferreira dele recebeu as últimas vontades. Foi êle o testamenteiro de «mil e tantos crânios, trezentos e tantos esqueletos, de origem conhecida, reproduções estereográficas de crânios célebres dos principais museus da Europa, tudo medido e rigorosamente observado e, com êle, arsenal antropológico e livraria» que Ferraz destinou ao Museu da Escola Politécnica. É êle tambêm que, cumprindo um último prometimento, tomou à sua conta o não deixar esquecer o nome do mestre e continuar-lhe a obra apoteotizando-lhe o nome numa contínua e modesta memoranda dos seus trabalhos.
Piedosa homenagem esta, tanto mais para encarecer quanto é certo que, dada a indiferença geral e oficial, ninguêm tal encargo tomaria. Morreu, acabou-se. Trate cada um de si e já não é pouco! Auscultem um milhar de criaturas e digam-me se não é assim que elas pensam!
Falho de senso prático como todo o cerebral, êle só tinha uma única paixão: a sciência. Só ela o vulnerabilizava, babando-se diante duma esquírola do homem terciário. Fora da sciência, não vivia. Nada sentia que não fôsse passado pelo crivo dos seus apontamentos e pela ideia dos seus crânios. E tão afastado o traziam os seus estudos, da vida vívida, que breve iria à mendiguez se mão provedora e amiga não fôsse, acordando o sábio do seu reino encantado, cuidar-lhe da mantença.
Nessa abstracção tão funda viveu, com seus canários os pequenitos da vizinhança, os seus crânios «como num celeiro o grão que espera embarque», medidos, e, ensacados por êle, com mão reminiscenciada dos seus tempos de aprendiz de alfaiate, e os seus gatos, que morreu sonhando. «Depois de morto é que eu viverei... Para os novos é que eu apelo. Êles que me continuem e me vinguem». Tais foram as suas últimas palavras, erguendo-se num repelão e visionando ainda uma visão acariciadora. Não voltou a falar. Costa Ferreira tomou o encargo piedoso de o lembrar, de o não deixar morrer de todo, na ingratidão indígena. Tal disse e tal cumpriu.
O sábio morreu. Os jornais titubiaram, os amigos escapuliram-se e, mais tombo menos tombo, lá ficou no seu coval, talvez ainda com saudade dos seus crânios e dos seus apontamentos. Solitário como foi em vida, assim o foi na morte. A sua apoteose não chegara ainda. Os gazeteiros não carrilhonaram às multidões cretinizadas nem sequer o «ilustre e o distinto» da cozinha trivial. E como morrera pobre e modestamente se enterrou, tambêm não panegirizaram a criatura com girândolas de adjectivos surrados pelo uso e abuso da pindarização de todo o fiel bigorrilhas que morre e deixa ôsso que roer.
Depois talvez fôsse assim melhor. ¿Que tinham que ver com êle os adjectivos?
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Se agora a matula egoísticada bichanava sempre que o via um apodo desdenhoso, que resvalava do seu arnez de indiferença pelo que diriam, tão longe andava dos que com êle se acotovelavam, em tempos idos não faltaria o ingranzeu das turbas e o rumor falaz das vélhas macbéticas do sítio, taxando de pacto diabólico o seu estudo, qual outro Cláudio Frollo.
Todavia êle sem se agastar da indiferença duns, da parranice doutros e do criminoso egoísmo de todos, contente se dava com a sua estreiteza e, não requerendo melhoria de sorte, cada vez mais se apartava do mundo real para o mundo de sonho. O trabalho para êle era tudo. Confinava a sua casa com as estrêlas, vista cá debaixo, da cidade, sitando lá no alto, ponto negrusco zimboriando o alto do monte. Uma árvore anciã, fronteiriça, foi sua companhia e só ela talvez cogitou na sua labuta interior. Ventos brigosos sinfonizavam óperas de tormenta, numa orquestração como só a tem o infinito. Tudo as sentia. A árvore vélha bracejava agitada e angustiosamente. A cidade lá em baixo era um torvelinho de cousas indistintas. Só êle prosseguia, medindo, classificando, registrando. E podia um vento mau terremotar a casa. Podia um tufão furioso ir desmoronar as sacas de crânios e formar no adro a pilha de crânios que é o quadro de Verestchaguine, aquele pintor russo que morreu na guerra russo-japoneza a bordo do _Petropavlosk_,--_Après la bataille_. Êle não sentiria, êle continuaria as suas notas, e só as terminaria quando nada mais, nenhuma sutura, nenhuma bossa, nenhuma asimetria, houvesse a notular.
Se nunca foi aos cornos da glória é porque lhe faltava a destridade dos malabaristas do reclamo. A sua tratabilidade de sábio raso, sem alardos de sciência, nem emprenhidões de basófia, contumaz em lusas celebridades, de todos o tornaram querido. Depois um quási nada de antropófobo, a antropofobia do sábio que se ensimesma em lucubrações profundas, e gasta a vida à _luz estudiosa_. Era esta que, pelas negridões da noite, brilhava sempre no seu gabinete, como na sua mente brilhou sempre a fé, a fé numa perfectibilidade do homem e uma consolação no estudo, que, estou certo, afinal talvez nunca chegasse a encontrar, que o tornavam quási um estranho a tudo, a todos os arruídos e quermesses que lá ao fundo convulsionavam a cidade.
E quem sabe lá, a esta hora talvez êle esteja ainda contando ao verme as palavras enternecidas dos snrs. Manouvrier e Quatrefages e as saudades dos seus crânios muito amados.
Então da outra vida, pensam as almas crentes, o sábio abençoará de-certo e tarefa bondosíssima, devotada e carinhosa do Dr. Costa Ferreira.
Emigrantes
Paro diante da reprodução dum quadro. É do Salon dêste ano, intitula-se «Émigrants» e assina-o Paul Sieffert. Eu não conheço o pintor. O assunto conheço demasiadamente. Se não viram o quadro, eu conto. O quadro do sr. Paul Sieffert é uma gare ou cousa que o valha. Cai neve. O horizonte é longínqùo e a perspectiva monótona. Nem uma árvore, nem uma planta. Neve, montes ao longe, neve sempre. Á direita vagons. Vagons de mercadorias, vagons que esperam tempo de seguir, levando não se sabe o quê, ocupam quási tôda a tela. No primeiro plano uma mulher sentada no chão estende um peito à voracidade do petiz que manduca. O macho, dorme ao lado, cabeça sôbre uma perna sua, braço estendido ao longo do corpo. A mão é primorosa. O busto bem estudado. Na cara--a cara é tôda uma psicologia--mostra a estereotipia de inumeráveis privações. Parece repousar, ou sonhar, cavada a face, bem vincadas as rugas que a angústia marca a baixo relevo no rosto dos que sofrem. A mulher ao lado cogita. Parece olhar-nos. Não olha. Ela não vê. Scisma! Em quê? Só ela o poderá dizer. Uma trouxa mísera, junto, é tôda a bagagem. Êle tipo de operário, ela de fêmea resoluta e sofredora. Vão partir. Vencerão? Quem o saberá?
Não sei porquê, são-me simpáticos estes tipos. Se pudesse, protegia-os. Sucede muitas vezes a minha piedade ir de preferência para os tipos que os meus pintores ou os meus artistas me entremostram--tão pouco a merecem, os que a gente topa todos os dias. Ao lado uma ranchada manduca, ainda. Mais longe, pequenos ranchos, trocam esperanças. Um vulto, ao fundo ou quási, remexe a maleta. E, como se o pintor os quisesse destacar, aparece-nos, quási escondidamente, um vélho que sonha, pelas costas um vélho capote, no olhar uma nostalgia feroz, contrastando com um homem que, de bruços, rosto apoiado na palma, scisma. Não scisma em sonhos. Scisma em realidades. A energia da sua expressão traduz-se assim. É amargo. Êste homem sabe da vida. Há combates no seu cérebro. Vencerá? Todos êles vão partir. Ilusões, quimeras, esperanças, é a bagagem. Sabe-se lá quem vence?
Até aqui o quadro. Se a agente quiser realidade, apesar da tela ser de Paris, temo-la bem perto. Nós somos do país da emigração. O quadro de Sieffert é tambêm nosso, com a diferença de o nosso ser de mais recrudescível agonia. O português é mais triste.
Todos os dias desembarcam nas estações, mangas de gente engajada que sonhou e ainda vem sonhando. Vão até ao Brasil e são o que se chama emigrantes. Então pagam a patente à realidade. O emigrante, por via de regra, não sabe escrever. Soletra às vezes, mas é mais frequente não saber. Não sabendo ler, não tendo a confidência muda da escrita por derivativo, estes cérebros deitam-se a sonhar como nunca sonhou ninguêm. As histórias das princesas encantadas, as mágicas, os contos da carochinha e mil belezas populares foram criadas de-certo por quem não sabia ler nem escrever. O Sonho é a válvula. Ai daqueles pobres cérebros se não tivessem o Sonho! Terminariam no suicídio. Mas o Sonho é a miragem. Acreditou alguêm no Sonho? Sempre êsse alguêm pagou caro a sua confiança. Porque é certo: Só quem teve pesadelo acordou em realidade. Quem sonhou delícias acorda mais brutalmente--como alguêm que tendo vivido dois meses em quarto escuro o trouxessem de repente para a alacridade duma paisagem batida da soalheira.