Crónicas imorais

Part 1

Chapter 13,875 wordsPublic domain

ALBINO FORJAZ DE SAMPAYO

_Crónicas imorais_

«O que melhor se ria será o último a rir-se.»

F. NIETZSCHE.

3.º MILHAR

EDITORES--~SANTOS & VIEIRA~ EMPREZA LITTERARIA FLUMINENSE 125, RUA DOS RETROZEIROS, 125 LISBOA

CRÓNICAS IMORAIS

_Editores--SANTOS & VIEIRA--LISBOA TYP. DA EMPREZA LITTERARIA E TYPOGR. (Officinas movidas a electricidade) R. Elias Garcia, 184 PORTO MCMXV_

OBRAS DO MESMO AUTOR:

PALAVRAS CÍNICAS, 7.º milhar 1 volume LISBOA TRÁGICA, 4.º milhar 1 » PROSA VIL, 2.º milhar 1 » GENTE DA RUA, 3.º milhar 1 »

No prelo:

GRILHETAS 1 »

ALBINO FORJAZ DE SAMPAYO

Crónicas imorais

«O que melhor se ria será o último a rir-se».

F. NIETZSCHE.

3.º MILHAR

EDITORES--SANTOS & VIEIRA _EMPREZA LITTERARIA FLUMINENSE_ 125, Rua dos Retrozeiros, 125 LISBOA

AO

DR. BRITO CAMACHO

Crónicas imorais

Os artigos, crónicas ou antes as impressões que hoje se reúnem em volume são já do domínio público. Todavia devo declarar que não foi nele que pensei, quando as escrevi. Os quatro géneros de criaturas que há no mundo, «criaturas racionais, como os homens; criaturas sensitivas como os animais; criaturas vegetativas, como as plantas; criaturas insensíveis, como as pedras», como quere Vieira, só mediocremente me interessam. Publicam-se hoje porque isso me apraz, e se são más ou boas, tal não me fará doer a cabeça. Nunca mais as lerei. São cousas que passaram, notas à margem dum acontecimento, comentários a uma leitura, impressões de momento, fumo, cinza, terra, nada. Viveram um dia. Hoje reúne-as um certo egoismo. Vivi com elas. Acharia a algumas, se as voltasse a ler, uma ingenuidade primitiva; a outras uma piada estupenda. Pensadas e escritas à hora em que o chefe da tipografia vem pedir original, só para mim terão valor. No emtanto marcam cousas curiosas e são um depoimento pessoal não falho de interêsse. Umas são indignadas, outras biliosas, algumas pândegas. Não admira. Filhas do momento que as inspirou, devem tambêm ter o seu grão de incoerência, de petulância, de atrevimento. Que importa? Não as renego. Chamei-lhes imorais, porque algumas tiveram o condão de irritar muita gente boa, que ainda tem moral. Ah! abjecta gente a que ainda tem moral! Muitas mereceram acres censuras e outras ainda despertaram louvores. As que despertaram louvores tive o cuidado de não as juntar aqui. Devem ser más por fôrça.

Vivendo a vida do jornal, perdendo-se no arquivo do esquecimento que o jornal é, em pouco tempo estariam esquecidas. Em livro, não será mais longa a sua vida, mas sempre o entêrro é melhor engendrado. Imorais disse eu. Imorais sim porque quási sempre estão em desacôrdo com a moral do meu parceiro. Que devo confessar-lhes, não me dou nada bem com os que estão de acôrdo. Quem está de acôrdo não sabe ter razão. Porque a razão não é dos que a teem, é dos que teem talento para a ter. Devo tambêm confessar-lhes, que estas crónicas são inofensivas. A ninguêm fazem mal. Não passam dum bom riso, um grande riso. Tolice seria tomar tudo isto a sério. O mundo é uma espécie de revista e quem se mata morre cedo. Se alguma vez, leitor, te interessares, olha que tudo isto é ilusão. Não vale a pena, em verdade te digo. Ilusão, ilusão sómente. A comoção, a ironia, o riso, a tristeza, tudo isto que vês reunido, tudo isto, não é mais do que cousas que já passaram, recordações, notas breves, leves apontamentos, terra, pó, nada, cinza.

E não se comovam que se acaba o prólogo.

Juízo do ano

O ano que começou ontem será um ano igual aos outros. Igual, sem tirar nem pôr. Haverá nele, como já houve o ano passado, como houve em todos os anos que passaram e como haverá em todos os anos que vierem, tolos que enriquecem e tolos que cavam pés de burro, asnos que se suicidam e asnos que acham isto uma cousa óptima. Continuará a haver uma ignorância formidável da multidão dominada e uma patifaria criminosa da minoria dominante; continuará a haver homens cavalos e homens cavaleiros; sábios que são burros e burros que são sábios; muita maldade nas mulheres--a maldade nas mulheres é um pleonasmo!--e muita estultícia nos homens. Haverá côres para todos os gostos, acepipes para todos os paladares e partidos para todos os cidadãos. Não sucederá nada de novo, porque nada é novo debaixo do sol, diz a voz grave do vélho Eclesiastes, um mágico que sabia muito mais da patifaria humana do que o snr. Civinini das mulheres que usam bigode e pêra.

O novo ano será um ano feliz para quem jogar e lhe sair «el prémio gordo». Para os que joguem e lhes sair branco será um ano de azar.

Quem trabucar, manduca, a não ser que perca o apetite. Quanto ao resto, o que êste ano será, é fácil de adivinhar.

Para os tolos, uma felicidade, porque êsses banabóias são felizes todos os dias; para os que não sejam, nem eu mesmo sei.

Quanto ao ano artístico, será deplorável, porque o que terá menos é arte, e de artistas nem sombra. Haverá vários quadros assinados por estes e aqueles fulanos. Se é paisagem, já sabemos o que é: «Macieira em flor», «Um trecho da Tapada» ou a «Ribeira de Algés». Se é retrato, um cavalheiro ou uma cavalheira de cara lambuza e desconfiada, olhos de goraz do vapor, ou então um ar bonacho de quem diz à gente: «Então que tal? como passou? estou catita, heim?»

Em arquitectura, continuarão a aparecer projectos... do Palácio da Justiça, de várias saladas de cal e areia para projecto ou para habitar, e de «artes várias».

Os nossos escultores continuarão fazendo Senhoras da Conceição, cruzes para jazigos, e «muchas cosas más» dum «salero» infinito.

Das finanças: «_finanças_ se chamam as rendas públicas quando Portugal está a _finar-se_». É de Camilo o dito. Das finanças dizia eu... mas em finanças não sou muito forte. Adiante.

O ano literário... Continuará a haver literatura, literatos vulgares de Linneu, literatos abezelgados e chués, porque, irmãos caríssimos, «todo o homem tem em si uma porção de inépcia, que há de sair em prosa ou verso, em palavras ou obras, como o carnicão dum furúnculo». Homens de génio não haverá, mas em compensação abundosos se prognostica os homens de génio mau ou de bom génio, porque cada um é como o pai o fêz. A crítica continuará a ser como foi sempre: De mostarda, de manteiga, e de àgua e sal.

E, tenho dito.

Quanto a ti, leitor molesto, eu não tiro o teu horóscopo nem te leio as ruins tenções de que porventura estejas cheio. Mas é sempre bom conversar, uma conversa de amigos vélhos e inseparáveis. Não sei se és rico, se pobre, se alto, se baixo. Se rico, guarda a bôlsa que não preciso dela; se pobre, tem paciência porque não te posso valer.

Dito isto, em verdade te digo que tens um ano diante de ti. Emprega-o bem. Lê a vida do bom homem Ricardo, regula as tuas digestões, não tenhas excessos e deita-te cedo. A isto se chama em bom português fazer pela vida.

Faze pois pela vida. Lembra-te que «os mortos caem fácilmente no olvido», como dizia Bürger na balada de _Leonora_, traduzida por êsse tristonho Gerard de Nerval que se enforcou num candieiro da Rue Vieille-Lanterne, numa manhã gelada de janeiro em que um corvo, que parecia fugido ao «Never more!» de Poe, lhe crocitava satânico e lúgubre a sua elegia de tímido, de sonhador e de incompreendido. ¿E quem hoje, no aniversário da sua morte, se lembra dêsse pobre Gerard, que trazia sempre os bolsos cheios de livros, como o Schaunard da _Bohème_, que traduziu Goethe e visitou o Oriente? Ah! é bem certo que «os mortos caem fácilmente no olvido!»

Faze por ter dinheiro. O Dinheiro, alêm de ser tudo o que tu sabes, é ainda aquilo com que se compram os melões. Se o tiveres não o emprestes nem o dês. Se precisares não peças, porque ninguêm te vale. Gritar é inútil tambêm, para que não chames curiosos à tua desventura.

Prefere «um pássaro na mão a dois voando» e não te fies na Virgem. Porque se te fias na Virgem e não corres não tarda o fatal e bem merecido pontapé.

Se és casado não leves amigos a casa. Isto não é para que te ofendas, é por uma cousa que eu cá sei. Se tens filhos, ao menos um filho só, que é cousa que tôda a gente tem, seu ou alheio, faz do teu filho um homem forte. Bom estômago, bons nervos, bons músculos. Antes o obrigues à frequência do mestre Raku, um sujeito que ganha a vida a deitar os outros ao chão, do que à de Félix Pereira, que lhe ensina que meter os dedos no nariz é porcaria. É preferível ser forte a ser bem-criado. É mesmo preferível ter fôrça a ter direito, «porque se vai mais longe com a mão cheia de fôrça do que com um saco cheio de direito», ensina a experiência dos homens e a sabedoria das nações.

Podes ensinar-lhe muitas mais cousas que tu saibas. Não o queiras nem artista, nem literato, nem jornalista. Vê se o podes fazer par do reino, que o pariato é uma cousa que se está dando ou se vai dar a tôda a gente, exactamente como o hábito de Cristo ou de S. Tiago. «Dizem que até há barbeiros...» como já o suspeitava o Baptista dos _Maias_. Se o fizeres par, porque êle não tenha geiteira para outra cousa, recomenda-lhe que se cale. «O silêncio é de ouro» e um tolo calado, conquanto não deixe de ser tolo, passa por homem sisudo. Porque se êle assim não fôr, tanto pior para êle. Os que assim não são, nada teem a esperar do ano novo. São e serão sempre escarnecidos, ridículos e pobres. E o pior mal dum homem é ser pobre. Ninguêm lhe vale. Ser pobre é...

Não continuo porque um cavalheiro que está vendo o que eu escrevo, refila, em ar de resposta:

--«Mas há a Caridade. A Caridade, homem!»

--«A Caridade? Ah! sim.»--As misérias do próximo comovem muito a caridade de cada um. E eu, que tambêm me vou tornando azêdo como o senhor Silva Pinto, resmunguei e recordei-me. Devia ser uma caridade como a daquele barão da Falperra que o nosso Alfredo Mesquita conheceu: Um homem tão caridoso que, depois de ter ouvido um pobre contar-lhe as suas misérias, a ponto de o fazer chorar, chamava sempre o criado e, com a voz entrecortada de soluços, ordenava:--«João, ponha êsse homem no ôlho da rua; parte-se-me o coração de o ouvir...»

E para os que lhe dissessem que êle lhe não dera nada, retorquia, que sim, que dera. Dera-lhe... atenção.

E estava certo, como diz ainda o senhor Silva Pinto.

Artistas

A morte recente dêsse desventurado Augusto Santo, escultor do Pôrto, veio avocar com amarga intensidade a malfadada sorte que está guardada a todos que teem a suprema desventura de ter nascido artistas em Portugal. Augusto Santo foi discípulo de Falguière, de Rodin e de Soares dos Reis. Ouviu as lições de Taine, e expôs no _Salon_. Era quási um desconhecido e morreu na maior miséria, num catre humilde de hospital.

Ser desconhecido em Portugal é um caso banalíssimo. Herculano, e êsse Garrett que «num dia de apuro por cem ou duzentas moedas seria capaz de tôdas as porcarias menos de pôr num papel a trôco de todo o ouro do mundo uma linha mal escrita» são, ainda que isto pareça um paradoxo, quási desconhecidos. O grande público não tem ideia dêles e ainda hoje uma das suas edições leva uma eternidade para se esgotar.

A indiferença do público pelos artistas é absoluta, e não vai longe ainda o tempo em que literato era sinónimo de vadio. Camilo no Pôrto, ao tempo, era sómente um janota que para ali quebrava esquinas, um tal que não avezava com que mandar cantar um cego. Quando, pelos romances, ganhava com que forrar de cuidados o passadio de dois meses, não se imagina o escândalo que aquilo produzia nos Antónios Josés da Silva e na rua das Congostas. O Pôrto de então tinha ideias seguras e via as cousas como devia ver. Literatos neste país?! hum! e torcia o nariz como quem dizia que aquilo não era prático, nem por aquele caminho se chegava a ter um rolosito de inscrições, um prédiosito, ou uma velhice sossegada. Era a vida prática, o balcão é que era o caminho. Por isso, quando Camilo, já no apogeu de glória, em cartas duma dolorosa humildade, quási esmolava, para comer, a compra de pratas que os seus admiradores lhe ofereciam, o Pôrto mui devia rir. Êle bem lhe dizia! Não era aquele o caminho...

A Soares dos Réis para lhe fazerem justiça foi preciso que a morte o tomasse. Em vida foi um obscuro obreiro sem amigos, ou quási, e teve uma existência bastante precária. Basta dizer que em tôda a sua vida de trabalho não conseguiu mais do que 4:764$500 réis segundo a autobiografia do artista, que o snr. Joaquim de Vasconcelos, em 1905, confidenciou ao público por intermédio da _Revista_. Para ganhar essa importância confessa Soares dos Réis que esteve «algumas vezes em relação com a _arte industrial_». Mesmo assim quem a achar exagerada deduza-lhe o custo do material e de auxiliares indispensáveis e verá quanto fica. O _Artista na Infância_ vendeu-o por 600$000 réis e foi o máximo preço que levou por uma obra sua, se exceptuarmos, é claro, o monumento ao Conde de Ferreira.

Em vida ninguêm o auxiliou, ninguêm o encorajou para prosseguir. Muito ao contrário perseguiam-no, sitiavam-no, roubavam-no, fechavam-lhe tôdas as portas com intrigas soezes, com indróminas de sabidos e ronha de marotos. Concurso a que fôsse, vaga a que concorresse, plano que tentasse viabilizar, certo era a mediocridade arranjista, por portas travessas, frustrar-lhe tôda a ambição e todo o Sonho.

Emquanto o homem viveu não puderam os amigos, êsses amigos do diabo, atormentá-lo mais, nem mais o perseguirem. Depois de morto não houve lamúria que não chorassem e não houve adjectivo sonoroso e amelaçado que a criatura não tivesse. A justiça chega sempre depois da morte, é certo, mas pela injustiça dos vivos.

Com Augusto Santo o caso é o mesmo. Augusto Santo era, antes de tudo, um impersistente. Não possuía a tenacidade avara, fria e reservada, a confiança absoluta dêsses brocadores do Ideal, fadados para o êxito. A menor contrariedade o exasperava. E como se não fôsse bastante a execução perra, o sonho nebuloso, a vida material e a falta de tudo, ainda a minar-lhe a existência a agressividade constante dos outros,--os colegas os primeiros,--não fôsse o pobre diabo roubar-lhes a glória, e numa avidez de faminto a guardasse tôda para si. Augusto Santo foi um perseguido desde que expôs êsse _Ismael_, a sua única obra a valer, mas ainda assim uma promessa do que o seu temperamento de artista poderia dar.

Como vêem, eu não quero dizer que Augusto Santo era um génio e que a sua morte abre uma clareira formidável entre os Teixeiras e os Lopes da pedra portuguesa. Não. Augusto Santo não deixou _fauteuil_ vago. O que eu quero precisar é que era Augusto Santo um artista a valer, que noutro meio floresceria, um meio que lhe não fôsse hostil como o seu,--tão hostil que até o deixou morrer de fome numa enxêrga de hospital. Com esta hostilidade e com esta ingratidão a arte perdeu, mas ganharam os escultores portugueses. Podem agora catrapiscar a imortalidade à vontadinha, que ela não esperará que êles morram para vir, ou o seu cão, sevandijar-lhes em cima da _obra_.

Alguns gazeteiros ou gazetíferos, com as palavras de louvor do cliché, justificam porque Augusto Santo não teve carruagem às horas, mesa lauta e colchão fôfo. Foi, dizem êles reprimendando os restos do escultor, porque era um inadaptado, porque desprezou sempre a arte de engorda, a que dá lucros e considerações, e preferiu correr atrás dum sonho que o exauria e que o matava, um sonho de arte irrealisável e irrealisado, arte verdadeira que não tem preço, embora às vezes se venda, e que não se compra, embora às vezes se adquira. E com um desdêm olímpico, absoluto, ditatorial, chamam-lhe... sonhador. Sonhador!... como se isto fôsse o sumo desprêzo ou a máxima compaixão. Deve ser bem triste morrer, assim!

Ao menos se essa turba se calasse e governasse vida, vá; mas vir babujar a sua irresponsabilidade desvergonhada no momento em que o pobre vencido solavancava a caminho do cemitério, é intolerável. Não se justifique, que ninguêm lhe tira o ganho: ela tem a sua utilidade. ¿Quem é que nos havia afinal de fazer os fretes?

Augusto Santo, não reste dúvida, foi um atormentado da forma. Quando a concepção, megalomania conceptiva era nele, lhe fabulava maravilhas, logo o barro, parece que conluiado com os homens, debaixo dos gadanhos convulsos e nervosos tinha formas brutais, aduncas e agressivas. E a sua frialdade viscosa logo ali abafava o delírio artístico do pobre impotente e lhe dava crises de desânimo capazes de vergar um atleta.

Todo o Pôrto cabareteiro e intelectual conhecia estas torturas do artista. Sem fôrças para opôr uma resistência, êle consumia-se em desolações. Cada tentativa malograda deixava-o mais exausto de fôrças do que uma noite perdida a caminhar. O Sonho vampirizava-o e exigia-lhe uma impossível produção de calorias. Todavia nada resta dele, decorrendo como decorreu intramuralhas do seu crânio. Após a criação dêsse _Ismael_, que noutro meio mais acarinhante, se o não celebrizasse, o evidenciaria, Augusto Santo criara, para si mesmo, responsabilidades. Ficaram por cumprir. A quantos artistas não sucede outro tanto?! Todos o sabem, Portugal artísticamente é um país morto. Capaz duma ressurreição? Certamente. Desde que os poderes públicos olhem com atenção para a Arte, desde que a percentagem assustadora dos analfabetos diminua e desde que o público manifeste interêsse por estas cousas. Arte em Portugal? Os pintores é que sabem o que isso é. Êles bem vêem que não é de sonhos e de belos quadros que se vive. O que dá são as lições, que é como quem diz os quadros que fazem e os discípulos assinam. É uma arte de opereta, de muito riso, com sinfonias de Offenbach e de que só vai mal a quem a toma a sério. Êsses são os vencidos, os Soares dos Réis e os Augustos Santos.

Ê pois mais um artista que sucumbiu em luta inglória com o Destino. Consagrado ou desconhecido, não há dúvida que era um artista. O _Ismael_ o atesta. E já que ninguêm teve que o auxiliasse e que no meio da indiferença geral da gente que escreve e do regosijo da gente que escultura, êle deixou a vida, justo é que eu o admire, ao seu exemplo de intransigência, à luta que sustentou e à tragédia da vida que sofreu. E ninguêm se lembrou dele senão a Morte, que se amerceou de tanto sofrimento. Ó morte remediadora e sacratíssima, amiga dos pobres, remidora dos desventurados e consoladora dos aflitos, eu te bemdigo.

O Jettatore

Teófilo Gauthier, o Benvenuto Cellini da prosa francesa, segundo Camilo, consagrou um dos seus volumes à _Jettatura_, ou mau olhado, condão funesto do _Jettatore_. Nesse volume, obra prima do lapidário precioso a quem já Baudelaire havia chamado «poeta impecável, mago e mestre», se romantiza a vida dum _jettatore_ e se dá conta de todos os malefícios que o seu olhar causou. Paulo d’Aspremont, francês, é o protagonista do romance, e, sem o saber, possui o _fascino_, que, traduzido em vulgar, significa mau olhado. O seu olhar fatal onde pousa é nefasto. A pata do cavalo de Attila não teve tanta crueldade. Se se debruça na amurada dum barco, para olhar a água mansa e tranqùila, logo o mar se encapela e enfuría; se entra num teatro e fita um actor que ri, logo o espectáculo se interrompe e a própria Troça fica séria; se olha uma bailarina que rodopia, um bico de gás incendeia a gaze e a bailarina morre. Quando fita a sua própria noiva, o pobre _jettatore_ mata-a. Uma roseta escarlate assoma às faces da condenada inglêsa, um escarro de sangue vem da goela à bôca, e dali à morte é um ai. Nápoles inteiro o odeia. «Tôdas as vezes que parava junto duma loja, o dono parecia assustado, murmurava algumas imprecações a meia voz, e alongava os dedos como se quisesse apunhalá-lo com o auricular e o índex; as vendedeiras mais ousadas, acabrunhavam-o de impropérios e mostravam-lhe o punho.» Por fim cega-se e suicida-se, arremessando-se ao mar. O seu corpo nunca se encontrou. Quando êle morreu,--oh meu adorável Gauthier!--quando êle morreu «a tempestade desencadeou-se então com tôda a fúria: as ondas assaltaram a praia em filas compactas, como guerreiros correndo ao assalto, e lançando a cincoenta passos ao ar jactos de espuma; as nuvens negras alagartaram-se como paredes do inferno, deixando entrever a ardente fornalha dos relâmpagos; luzes sulfurosas iluminaram a extensão; o cume do Vesúvio avermelhou-se e um penacho de sombrio vapor, que o vento impelia, ondulou na fronte do vulcão. Os barcos amarrados entrechocaram-se com lúgubre ruído e as cordas muito apertadas gemeram dolorosamente. Daí a nada a chuva começou a cair em enormes bátegas sibilando como flechas,--parecia que o cáos queria reapossar-se da natureza, confundindo-lhe de novo todos os elementos».

* * * * *

Mas, há realmente _jettatori_? ¿Há alguêm que acredite nisso, no século das maravilhas? ¿Não será a _jettatura_ como o rabinho no remate do espinhaço por onde se conheciam os judeus, segundo aqueles Pedro Lobo e Bartolomeu Lobo, que Camilo tomou à sua conta no _Judeu_, o romance da vida de António José da Silva? Talvez. O que é certo, porém, é que esta superstição abracadabrante tem muitos crentes. E o Destino, às vezes, quando se quere divertir ou mostrar o seu poder, encarrega os factos de lhes dar razão.

¿Mas não haverá olhares carregados de desconhecidos gérmens morbíficos, de elementos malfazejos, funestos e ameaçadores?

Abro o último número do _The Strand Magazine_, recentemente chegado a Lisboa. É o número de Agosto. Aí a página 233 a focinhuda e grave revista inglesa relata o estranho caso do presidente do conselho de Itália, Giovanni Giolitti, um dos mais funestos _jettatori_. O artigo chama-se «The Evil Eye» e é interessante e certo, porque a revista inglêsa não iria turvar a sua gravidade protocolária com uma invencionice de tal responsabilidade. As vítimas de Giolitti são, na sua maioria, os seus próprios colegas do ministério, a quem repentinamente sucede alguma cousa de grave. Foi a insistência dêstes incidentes, sucedendo sempre em pessoas ligadas a Giolitti, que pôs de alarme tôda a Itália e fundamentou o artigo do _Strand Magazine_. Os ministros Majorama, Marquês Prinetti, Balenzano, De Broglio, Wollamborg, Rosano, Tittoni, Massimini e Gallo foram os que mais sofreram da influência funesta da _jettatura_ Giolitti. Um deles suicidou-se, outro endoideceu, e ainda outro sofreu um insulto apoplético na própria Câmara. Os restantes foram atingidos pelas doenças mais graves e mais exquisitas; um ataque de reumastismo, doenças de coração, apoplexias, etc. O olhar de Giolitti é pois uma verdadeira cornucópia de desgraças, e como se vê não se pode atribuir à imaginação dramatizadora de qualquer banabóia em cata de assunto o artigo em questão. Se o magazine inglês alviçarou ao público o condão fatal do estadista, é porque o caso tinha tôdas as provas de veridicidade.

Giolitti inspira já um verdadeiro terror. O seu olhar fantasmático e fixativo tem a mais terrível lenda que pode ter um homem, especialmente em Itália, o país do mau olhado, por excelência. Quando êle passa, os _lazzaroni_ entre-olham-se aflitos, os transeuntes involuntáriamente fazem-lhe figas e todos fogem dele como dum leproso. As companhias de seguros de vida, baseando-se nos acontecimentos e factos, reputam o seu olhar um grave risco e não efectuam os seus contratos com ministros do gabinete _jettatura_ senão a prémios absurdamente compensadores.

Oh! o mau olhado! o mau olhado!