Contos Phantasticos segunda edição correcta e ampliada
mim. D'ahi por diante a vida pareceu-me mais impossivel de supportar; eu
não vivia, vegetava como o lichen no fundo de uma caverna escura. A imbecilidade proveniente da atonia e dos pesares indescriptiveis prolongara-me a existencia vegetativa.
Lembrava-me minha mãe. Se a tornaria a vêr ainda! Estaria ella já no sepulchro, ralada com a saudade da ausencia, cansada de esperar a volta do captiveiro? Sem successos, nem distracções, que me preoccupassem a vida, cada momento parecia-me um seculo de desesperação. Estes doze annos foram uma outra existencia. Quando voltei á patria julguei um renascimento; mas tornava a apparecer á luz do mundo para mais provações e dôres, porque minha mãe estava morta; a patria, o que ainda me fazia palpitar o coração com vida, vejo-a esquecida, inerte sob o jugo prepotente da Russia. Hoje escrevo-lhe, meu Poeta, porque é a unica pessoa, que me resta no mundo, e só me prende á vida o juramento, que fiz de immolal-a no altar da patria.--_Karl_.»
O Poeta anonymo da Polonia produziu com os seus poemas o mesmo que Mickiewich, o auctor do _Banquete de Walenrood_. Só depois de morto é que se soube o seu nome; era o conde Sigismundo de Krasinski. A liberdade da Polonia fôra o unico ideal da sua inspiração; é ella sempre que transluz nas maravilhas com que enriqueceu a litteratura polaca, nos _Psalmos do Futuro_, no _Iridion_ na _Comedia Infernal_ e na _Tentação_, a que anda ligado este facto que narrámos.
[1] Strophes XIX, XX, XXI do poema _O Ultimo_, do conde Sigismundo Krasinski.
O relogio de Strasburgo
(CONTO DE 1352)
A Edade média está completamente caracterisada nas suas lendas; porque se não hade por ellas recompôr a historia, animal-a com essas côres vivas, dar-lhe movimento. A mais extensa, a que absorveu todas as imaginações rudes e creadoras, foi a lenda do Diabo, reproducção do dualismo persa, que apparece fatalmente no periodo instinctivo da genése religiosa. D'esta idealisação do mal provém, na arte, a realisação anonyma do grotesco, muitos dos velhos fabularios, e na ascese divina a tentação de que estão cheios Ribadaneyras e Bollandistas.
A sciencia, nos primeiros seculos da Egreja, foi despresada, amaldiçoada como inutil e perigosa, porque tornava o espirito rebelde, orgulhoso; a alma perdia com ella a simplicidade, que a elevava até Deus. A observação das leis physicas do mundo era uma impiedade; Bacon e Sylvestre II foram olhados como feiticeiros. É um martyrologio interminavel o desenvolvimento da razão. Foi um dos algozes Sam Paulo: «Eu destruirei a sabedoria dos sabios e rejeitarei a sciencia dos eruditos. O que é feito dos sabios? O que é feito d'estes espiritos curiosos das sciencias do seculo? Não os ha convencido Deus da loucura das sciencias d'este mundo?» A Egreja não se contentou com a acrimonia da invectiva, quiz encarnar este verbo do obscurantismo. As luctas e as agonias que se seguiram estão perpetuadas em um sem numero de lendas sobre as revoltas do espirito, que vieram a synthetisar-se no typo do _Fausto_.
Em pleno seculo XIV. O sol brilhante, em um céo sereno e limpido de um dia de alegria, derramava-se em torrentes sobre a cathedral de Strasburgo. Voltada para o oriente, segundo o rigor do symbolismo religioso, recebia a luz do alto, como um cenaculo em que as linguas de fogo vinham revelar os mysterios da vida e a serenidade, que ella havia de infundir aos tristes que se accolhessem, corridos das tempestades do mundo, na tranquillidade do seu recinto. A luz reflectia-se coruscante das vidraças, que ostentavam um rosicler das côres mais caprichosas e vivas; cada pedra, cada angulo, cada saliencia destacava-se mostrando os rendilhados e lavores exquisitos; a torre parecia então mais altiva, não topetava com as nuvens, perdia-se na profundesa do espaço azulado e puro. Era um bello dia de primavera.
Diante da cathedral magestosa foram-se agrupando pouco a pouco alguns vultos ociosos; e, attrahida _na razão directa das massas_, instantes depois a multidão fluctuava impaciente, como quem espera um prodigio annunciado, _exempligratia_, um ecclipse. Não era nenhum ecclipse, nem tampouco o apparecimento de um cometa, que então fazia tremer os pontifices e os reis. Não era mesmo procissão esplendida, que o povo e os amadores de tertulias estavam esperando com anciedade. O que seria então?
Uma figura extranha, embuçada em um tabardo escuro, chapéo emplumado ao uso da côrte, vinha montado, a passapello, em um cavallo fouveiro; custava-lhe a romper por entre a turba apinhada; estrangeiro ali, não quiz atropellar ninguem, e resolveu esperar que o concurso fosse diminuindo.
--O que está toda esta gente aqui a fazer, em um dia de trabalho?--perguntou o desconhecido para um rapaz, que parecia esconder-se entre o vulgo, com um ár de tristeza e de uma dôr indizivel.--Ha alguma procissão ou festa de jubileu? Ainda as portas da cathedral estão fechadas.
--É certo que vindes de bem longe,--volveu-lhe vivamente o pobre rapaz--pois que ainda vos não chegou a fama do grande Relogio de Strasburgo. É uma maravilha da Allemanha. Não vêdes aquella estatuasinha da Virgem? Diante d'ella, vem ao bater do meio dia os trez Reis Magos com seus presentes, e o Gallo automato, que lá está, saccode as azas logo que o sol toca o zenith.
O cavalleiro não teve tempo para comprehender o que ouviu, porque um susurro immenso, repentino, burburinhou por toda a praça. O carrilhão de Strasburgo dava meio dia. Ficaram boquiabertos, attentos esperando o apparecimento dos Reis Magos. Sentiu-se primeiro o ruido estrepitoso de umas azas pesadas, depois o clangor de uma voz énea, soturna. O cavalleiro estava pasmado com o que via. A fama do Relogio de Strasburgo correra as partidas do mundo. Os palacios, os mosteiros, os castellos desejavam uma maravilha egual. Ignorava-se o nome do artista. O cabido da cathedral ufanava-se com tão magnifico e singular artefacto.
--Oh! dize-me,--acudiu o cavalleiro, saindo do espasmo da admiração--dize-me quem fez esta obra prodigiosa, que é a inveja de todas as cidades do mundo! Porque se não fala no nome d'elle? Onde está o artista? Venho de França para vel-o.
--Perguntaes, nobre cavalleiro, como se eu pudesse violar tal segredo! Mal sabeis que as vossas palavras acordam na minha alma uma dôr profunda como um ecco n'um páramo aziago. Quem fez o Relogio, perguntaes vós, e a gloria tenta-me, precipita-me, impelle-me a arriscar a vida! Foi meu pae!--E as lagrimas de alegria e pesar foram-lhe arrasando os olhos, até que rompeu em um choro insoffrido de criança. O cavalleiro apeou-se e estreitou-o nos braços.
--É a saudade de teu pae, que te lava o rosto com esse pranto de ingenuidade e amor? Não soube a morte respeitar tão preclaro engenho? E eu que vinha da parte de Carlos V, de França, para visital-o e fallar-lhe!
--Elle ainda vive, senhor. Mas que vida! Oh! antes a morte o tivesse envolvido nas suas trevas geladas; antes houvesse nascido sem aquella luz do talento, que é sempre a predestinação do martyrio.
A praça estava já deserta, e os dois partiram enleiados n'esta conversação. Chegaram á officina do relojoeiro. Era um velho; as cans alvissimas formavam-lhe um diadema venerando; tinha o rosto escondido entre as mãos, como quem se abysmára n'uma abstracção intensa, ou n'uma grande e entranhavel agonia. O estrangeiro permaneceu hirto sob a soleira da porta; não se atrevia a interromper os processos mysteriosos d'aquella mente perscrutadora. A criança aproximou-se com familiaridade, e segredou-lhe longamente umas palavras mal articuladas e confusas. O velho ergueu então a fronte banhada em uma alegria suave, e voltou-se para a porta:
--Buscam-me da parte de el-rei Carlos V de França?--perguntou elle com um ár affavel e indicando um assento ao desconhecido.
--Em verdade, el-rei me envia aqui.
--E o que pretende de mim, que nada posso, el-rei, que tudo manda?
--Conhecendo a vossa boa fama, vendo que enriquecestes a Allemanha com essa maravilha do Relogio de Strasburgo, elle quer tambem collocar na torre do palacio da Justiça uma machina, que dividindo com justeza as doze horas do dia, ensine a observar a justiça e as leis.
--Como o não serviria eu de boa vontade, se me não houvessem apagado para sempre o lume dos olhos. Não vêdes estas orbitas vasias? Cegaram-me. Ha já dezeseis annos que vivo mergulhado n'estas sombras cerradas, que me antecipam a escuridão tetrica do sepulchro, mas que me prolongam a vida, no abandono da desgraça, para soffrer a cada instante as mais excruciantes provações. Eu vivo ao desamparo; nem sei já trabalhar. N'esta solidão do espirito, para esquecer o tedio e a desesperação que me pungem, eu invento machinismos complicados, que o meu pobre filho executa. É elle o herdeiro do meu engenho. Cada pancada do relogio no carrilhão da cathedral, é uma palavra de sarcasmo, um insulto vibrado por uma lingua satanica, só entendida por mim. Vou contando as horas na mudez das noites de insomnia, e cada uma me descreve com mais feias côres esta morte onde fui precipitado em vida.
Havia nas palavras do velho um mixto de resignação e dor, uma conformidade, uma santidade admiravel. A fronte, enrugada pelos annos e o estudo, pendia-lhe sobre o peito; o filho ainda imberbe, engraçado, ingenuo, estava de pé a seu lado, mudo, com os olhos no chão.
--Como houve mãos tão barbaras, que ousaram pôr diante do vosso espirito, para sempre, a sombra eterna da morte? Foi o acaso? Foi a malvadez que vos despenhou n'essa desgraça? Seria a inveja quem vos supplantou á traição, vendo-se obrigada a admirar os artefactos que não podia exceder? Oh, contae-me. Não! não! tenho horror de ouvir; deve custar-vos muito isso. El-rei ha de sabel-o e acudir-vos.
O velho ergueu lentamente a fronte; poisou as mãos sobre a cabeça loira do filho, brincando distraido com os cabellos anellados. Depois de um momento de indecisão, começou:
--O bispo João de Lichtenberg encommendou-me um relogio grande para a torre de Strasburgo. Era preciso que as horas canonicas fossem observadas com escrupulo; as irregularidades na divisão do tempo causavam graves inconvenientes ás resas e officios divinos do côro. Eu trabalhei dois annos consecutivos; tinha empenhada n'aquella obra a minha fama. Inventei um kalendario em que representava as indicações das principaes festas moveis: ao lado puz-lhe um quadro em que estavam escriptas em verso as principaes propriedades dos sete planetas; ao meio colloquei-lhe um astrolabio, em que os ponteiros notavam o movimento do sol e da lua, as horas e os quartos. Ao alto estava uma estatua da Virgem, ante a qual se inclinavam, ao dar do meio dia, as figuras dos tres Reis Magos. Ficaram espantados com a maravilha da obra; soôu por toda a parte a fama d'ella. O povo agglomerava-se na praça para vêr. O cabido receiou que os outros mosteiros ou as côrtes da Europa quizessem ter um monumento egual. Como impedil-o? Uma noite, estava eu descançando do trabalho assiduo, improbo que levava, quando me bateram á porta. Vieram dizer-me que o relogio estava parado. Levantei-me á pressa, atterrado, confuso, e dirigi-me para a torre. Quando ia subindo, e já a uma altura vertiginosa, apagaram-se de repente os archotes; os que me acompanhavam, lançaram mão de mim para me precipitar; as unhas prenderam-me ás fendas da cantaria, com a tenacidade do amor á vida. Por fim, cansados, agarraram-me, arrancaram-me os olhos. Aos meus gritos, os malvados respondiam que me désse por feliz em não ser queimado vivo na praça publica, exposto á irrisão da plebe, por feiticeiro; que eu tinha pacto com Satanaz, que o evocava com linhas cabalisticas com que formava as rodas denteadas.
O pobre velho permaneceu um instante silencioso reflectindo no assombro d'aquella noite infernal; depois mudando de conversa, o embaixador pediu-lhe para levar o filho, que havia de fazer por certo o relogio para o palacio da justiça. Não faltaram negações e hesitações. O velho conhecia o talento do filho, e temia um egual desastre. O cavalleiro jurou protejel-o com a vida, e trazel-o incolume a casa de seu pae, logo que tivesse findado o trabalho.
O relogio foi posto na torre do palacio da Justiça, e, elle que aconselhava a observancia da justiça e das leis, foi o mesmo que, dois seculos mais tarde deu o signal para a execranda carnificina da noite de S. Bartholomeu.
Quando o filho do relojoeiro de Strasburgo voltou á patria, ainda o pobre velho vivia. Estava no meio da sua desgraça, possuido de uma alegria infinita. Na solidão do espirito em que ficara, procurara constantemente vingar-se. Vingou-se afinal. Um dia conseguiu aproximar-se do Relogio, e tocou em uma roda de tal forma, que não tornou mais a regular, apesar de todos os esforços; em 1574, intentou restaural-o Dasypodius, outros em 1669, em 1731, até que cessou de trabalhar em 1789, como uma riliquia ultima da Edade media que arrebatava a Revolução. O desgraçado levava esta unica consolação do mundo. A mesma lenda se conta dos relogios de Nuremberg, de Auxerre e Lyon, em que as versões parecem filhas da comprehensão de uma mesma verdade.
Um erro no kalendario
EPISODIO DA HISTORIA DA INQUISIÇÃO EM HESPANHA
I
Quem o visse sentia-se atrahido para elle por uma fatalidade irresistivel. O olhar encovado e scintilante tinha a fascinação da onça refalsada. A estamenha monastica da humildade era uma arma de que se servia. A côr sombria do remorso, que o ralava interiormente, sabia invertel-a tão bem na maceração da penitencia, que assim facil lhe era devassar todas as consciencias, e submettel-as ao seu capricho, tyrannisal-as, alimentando sempre uma infinidade de horrores futilissimos, com que as trazia suspensas. Cabisbaixo, meditando continuamente um longo plano de vingança, de uma sevicia obscura e mesquinha, os que o viam achavam n'aquella gravidade satanica de monge um ár contemplativo de compunção piedosa.
O frade fez-se Director espiritual.
De uma extração illustre, rico, herdeiro de um grande nome, porque despresaria as pompas do mundo, os amores do seculo, as glorias? Acordar-lhe-hiam os annos todos esses sentimentos a um tempo na alma, e o horror do impossivel tornal-o-hia hypocrita, apagando-lhe a esperança com o sopro do cynismo? Elle amára a filha de um velho fidalgo de Hespanha, que desejava tambem realisar essa alliança dos seus pergaminhos com as grossas sommas do enamorado de Hernanda, a madrilena engraçada, de ingenua desenvoltura. Hernanda, na morbidez voluptuosa da sua natureza oriental, nunca mais sorriu, nunca mais deixou vêr aquella alegria impaciente que a animava, logo que soube a resolução da familia. Detestava o galanteador, aborrecia-o de morte, resistindo sempre ás instancias e ameaças do pae, que procurava sacrifical-a aos interesses e pompas do seu brazão de armas.
Hernanda tinha um amor de infancia, puro, recondito; como um raio de luz que nos fecunda ao desabrochar da vida, aquella affinidade precoce e ignorada de todos fora uma intuição do sentimento. Amaram-se longo tempo sem saber o que era amor. Quando um dia acordaram á luz sentiram necessidade um do outro, a anciedade de uma mesma aspiração identificou as suas almas para sempre. Cedo o noivo proposto soube da existencia de um rival obscuro. Procurou-o, farejou-o na sombra, lançou-lhe o repto. Encontraram-se. Ambos corajosos e fortes bateram-se destemidos em um duello a todo o transe.
Logo que Hernanda soube da morte do seu amor primeiro jurou um odio eterno ao assassino. O velho fidalgo não comprehendia estas coisas; ameaçou-a com o convento. A idéa da clausura, em vez de amedrontal-a, sorriu-lhe; era um refugio, o unico que lhe restava no mundo, depois de perdida a esperança que resume todas as que se podem ter na vida. Professou.
O galanteador assistiu impassivel na egreja, para ouvil-a pronunciar os votos. Havia n'aquella coragem uma alegria selvagem, egoista, para vêr que a mulher que elle amava debalde, não havia de pertencer a mais ninguem. Depois de satisfeito este instincto, lembrando-se de que fôra ludibriado, despresado, passou-lhe pela cabeça uma idéa atroz de vingança. Queria salvar o seu orgulho ferido. Lembrou-se tambem de abandonar o mundo, esconder-se debaixo da cugula monastica. Para os que o conheciam foi um rasgo heroico de resignação; para elle era um meio de poder vêr de mais perto Hernanda: só assim podia tortural-a, vir a ser seu Director espiritual.
O socego da solidão deixa apreciar os ruidos mais imperceptiveis; Hernanda na mudez da cella, na ausencia completa de interesses que lhe povoassem a existencia, era impressionada profundamente pelos sentimentos mais leves que lhe passavam n'alma como as auras suaves pelas cordas de uma harpa. A imaginação desenvolvera-se a tal ponto, que a fazia soffrer. Foi assim que frei Pedro, o disfarçado monge, veiu a ser seu Director de consciencia. Elle exagerava as doutrinas mysticas do dualismo, o predominio do mal, essa lucta incessante do espirito contra a carne, fortificada pelas mortificações do corpo, pela vigilia, cilicios, jejuns, e orações fervorosas. Provocava-a a abstrahir do goso dos sentidos, a contrariar a natureza e abnegar da vida. Apontava-lhe a natureza risonha e luxuriante como uma voluptuosidade, o regosijo e sêde de amor que a harmonia do universo infunde como uma infracção á regra austera da perfectibilidade.
Era preciso a solidão para gosar essa existencia intima, recondita, e arrebatar-se até Deus. Com o silencio imposto, arvorado em preceito, exaltou-lhe a vida interior, e o tumulto de idéas que se succediam prolongava a excitação cerebral. A vigilia extensa e continua, a maceração e a leitura piedosa foram-lhe desconcertando o equilibrio nervoso. As visões extravagantes cercavam-na; vozes estranhas segredavam-lhe palavras assombrosas, que ella repetia tremendo na penumbra do confessionario.
Foi então que o monge, depois de a ter desprendido pela ascese insistente dos limos da terra, lhe começou a falar de amor, o _amor divino_, a anciedade preenchida pelo vacuo, a sêde mitigada com a calma do dezerto. A imaginação perdida n'esse ideal vago, sem realidade possivel, delirava, revestia a imagem palpavel com todos os encantos de um devaneio sensual, dava-lhe vida, amor, para corresponder ao que tumultuava na sua alma solitaria. Mulher, menos curiosa da razão sufficiente das cousas, sujeita a perturbações hystericas, enamorava-se da fronte altiva e conjuntamente modesta do Christo, como a representavam os pintores da Edade media; esquecia-se da vida exterior, parecia que a alma livre se absorvia na imanencia da divindade. Era este amor, inspirado pelas imagens dos templos, tão desvairado como a paixão do artista grego pela estatua eburnea que palpitava debaixo do escôpro. Santa Rosa de Lima amava uma imagem da Virgem que tinha nos braços o _bambino_. Ozana de Mantua, diante de uma imagem linda, caía em extasis. Estas figuras de Jesus, radiantes de candura e fascinação, bellas, fallavam aos sentidos; é por isso que o _amor divino_ tem na sua vehemencia e transporte um caracter sensual, como o exprimiram o solitario da Ombria nos seus cantos a Santa Clara, S. João da Cruz a Santa Thereza de Jesus, Madame Chantal e S. Francisco de Sales, Fenelon e Madame Guyon.
O Director espiritual da desditosa Hernanda, descrevendo-lhe o _amor divino_, isempto da zelotypia das paixões do mundo, não tendo a alma candida de nenhum d'esses apaixonados e santos poetas, presentira, dois seculos antes, a theoria ascetica de Molinos. Tinha em vista matar o peccado pelo peccado. Era impossivel já. Hernanda pairava em espirito pelo empyreo; sua alma pura abysmara-se na immensidade do fóco de todo o amor. O extasis em Hernanda, originado pelo fervor piedoso, era o entorpecimento dos sentidos, um scismar indolente á cadencia dos inefaveis concertos das cytharas dos cherubins.
Então o Director de consciencia descobriu uma nova tortura para flagellal-a; tinha um prazer infernal em tornar-lhe lento o soffrimento. Elle mostrava-lhe que era o extasis o mais alto favor do céo concedido aos seus eleitos, e descobria ao mesmo tempo como isso era para todos os grandes santos uma provação difficil, pelo terror dos _proprios merecimentos_. Sam Paulo, o que melhor revelou nos seus escriptos o espirito do christianismo, na Epistola segunda aos Corynthios, fala d'este terror.
N'aquella virgindade timida da alma, o corpo foi caindo em inanição; tinha uma immobilidade beatifica. Apesar de todos os flagicios e macerações, o rosto conservava ainda a frescura da rosa entreaberta, rociada pelo orvalho matutino. No passamento das virgens, sereno como o declinar de uma aurora vespertina de primavera, Jesus visitava as suas desposadas, como referem os legendarios. Hernanda abrazára-se no amor ardente do céo; o vacuo absorvera-lhe o derradeiro alento e sua alma soltou-se na ancia do infinito. Alta noite, sentiram-se umas harmonias transbordando em enchentes do orgão do mosteiro; era uma musica indisivel, nunca ouvida na terra. Foram vêr; ninguem percorria o teclado. Melodias suavissimas e remotas derramavam-se da cella de Hernanda. Entraram. Respiravam-se perfumes aérios em torno d'ella. Um sorriso diaphano, angelico, lhe ficára nos labios desbotados, como a ultima vibração de uma harpa que se quebrara; parecia a incarnação de um sonho melifluo das harmonias de Palestrina.
II
Desde o romper d'alva, que os sinos da Cathedral eccoavam clangorosos n'um dobre funerario; o povo agitava-se inquieto pelas ruas, como na impaciencia de uma grande festa. Era o dia de um _Auto de Fé_ em Hespanha, uma solemnidade extraordinaria, com que se celebrava e honrava a coroação dos reis, o nascimento do herdeiro presumptivo, e a sua maioridade; era o grande drama judiciario da velha jurisprudencia theocratica revestido dos horrores do symbolo, mesclado de sangue derramado pelo fanatismo e prepotencia monachal. A procissão vinha coleando ao longe, com uma gravidade funebre, misturada de risos do rapazio que tudo parodía. Por todas as janellas negrejavam cabeças, donzellas engraçadas, contentes, distraidas com a festividade apparatosa. Á frente das confrarias e irmandades, os carvoeiros traziam a lenha para a fogueira, imitando o passo da Escriptura, em que Isaac caminhava para a montanha do sacrificio. Seguiam-se em filas extensas os frades dominicanos, arvorada na frente a cruz branca, e o bolsão inquisitorial de damasco vermelho do duque de Medina Celli. Os penitenciados vinham vestidos de um modo irrisorio e grotesco, descalços, cobertos de um sambenito, com um chapeu afunilado, com figuras cabalisticas, diabos, labaredas e caveiras pintadas.
A multidão pavida e credula, sentia aquella grande contradição do coração humano, apupava os miseraveis que interiormente a commoviam e lhe arrancavam lagrimas de compaixão. Chegados proximo do estrado real, o Inquisidor geral veiu receber o juramento da extirpação das heresias. Os brandões crepitavam nas mãos dos condemnados; tornavam mais lugubre o momento. Depois viu-se levantar uma figura macilenta, a cabeça encoberta no capuz, cruzadas as mãos sobre o peito em que tinha repousado um crucifixo, o mesmo que um dia apresentára diante dos reis catholicos Fernando e Izabel, dizendo-lhes que--o vendessem por trinta dinheiros, já que se queriam tornar menos rigorosos contra os judeus. Era o prégador frei Pedro. A voz taurina fazia estremecer as turbas, representando-lhes ao vivo, nos esgares e visagens que fazia, os terrores das penas do inferno. A multidão estava suspensa ante as vociferações sangrentas do dominicano.
--Sabes... (disse um desconhecido para um cavalleiro ainda novo, que estava attento) não o conheces?
O outro respondeu-lhe em voz baixa, de um modo quasi imperceptivel:
--Ah, és tu, Diego Ortis? Bem o conheço pela fama de seu nome. É Pedro de Arbués.
E não te sentes possuido de raiva ao pronunciar esse nome de um hypocrita e assassino?
--Assassino?
--Sim! Bem o devêras saber, porque é a ti a quem compete a vingança. Elle pretendeu por todos os meios desposar Hernanda, tua irmã. Lembras-te? Era rico, e teu pae desejava com todas as veras d'alma este enlace. A infeliz menina resistiu sempre, até que se viu obrigada a professar em um mosteiro, abandonada da familia. Não é verdade isto? Ferido no orgulho, elle metteu-se a padre, disfarçou-se debaixo da cugula monastica e fez-se seu Director espiritual. Matou-a lentamente com jejuns e macerações, com a lembrança continua da tentação e da condemnação eterna. Pobre Hernanda! o mundo disse que morrera como uma santa; Deus sabe que desesperos profundos lhe abalaram a vida, e quantas vezes, no intimo da alma oppressa, não amaldiçoou a hora do seu nascimento!
--E como sabes isso?
--Como o sei? Eu digo-te só que a vingança não dorme. Tambem tenho um legado de sangue a cumprir. Era meu irmão o apaixonado, o eleito de Hernanda. Se ha nada mais santo do que um amor que nos acompanha desde a infancia. Alonso Ortis, doestado pelo rival audacioso, bateu-se generosamente e caiu ferido, morto á traição. Já comprehendes tudo.
--Inferno! Para que me disseste essas cousas aqui, entre esta gente? Sinto a convulsão da raiva que prostra, a sêde de sangue que me atira para elle. Hernanda! a desgraçada, a silenciosa, a timida, que tudo soffreu e nunca soube queixar-se! Eu quero trocar todas as tuas dores por um prazer egoista de vingança. Fala-me, Diego Ortis; o que queres de mim?
--Quero prudencia! Eu tenho esperado dia e noite, por toda a parte, e nunca o tenho encontrado! nunca esta mão deixou de repousar sobre o punhal, e ainda me parece que não é chegado o momento.
A este tempo o frade estava na peroração do discurso; a turba batia nas faces, consternada, por terra. Os dois vultos permaneciam de pé, insensiveis. O prégador desceu do pulpito e vinha acercando-se d'elles com um olhar ameaçador, para reprehendel-os da insólita irreverencia. O joven fidalgo precipitou os planos de vingança, e arremetteu com um punhal no ár: apesar do impeto com que foi brandido resvalou sobre o habito que encobria debaixo uma armadura cerrada.
Ergueu-se um susurro repentino. Era impossivel a salvação; com a ancia do desespero Diego Ortis descarregou-lhe promptamente sobre o craneo tonsurado a sua espada de cavalleiro. O povo alarmou-se e ia a precipitar-se sobre os facinoras; recuou de horror diante da impassibilidade dos dois. A estatura corpulenta do padre tomou as proporções de um Goliath, derrubado, banhado de sangue negro, a massa encephalica derramando-se pelas soturas fracturadas do craneo. Fazia horror.
N'aquelle mesmo dia os dois assassinos foram penitenciados; interrompeu-se a missa, e a procissão proseguiu levando-os para o _Quemadero_, onde, com os demais, foram devorados pelas chammas. Seguiram-se as pesquizas, as vexações e os sequestros; com os seus processos tenebrosos a Inquisição lançou a rede por sobre muitas familias. A Hespanha era, como se disse, uma grande fogueira. Mas como ha uma antithese fatal na natureza humana, manifestada muitas vezes, a cada instante da vida, na transição instantanea do sublime ao ridiculo, Roma parodiou tambem esta scena sanguinolenta do drama tetrico de Torquemada na farça jocosa da canonisação do frade prégador, que ainda hoje se venera nos altares e de quem resa a folhinha com o nome de S. Pedro de Arbués.
_Ora pro nobis._
A adega de Funck
CONTO FUNDADO DAS NOTAS DE HOFFMANN
A ironia, quando não é despertada pela lucta incessante de contrariedades imprevistas, que cercam o espirito de duvidas e desesperos, e o deixam na prostração da indifferença e do cynismo, é uma doença, uma febre lenta, que vae devorando a existencia, depois de a ter despido de todas as alegrias. Observa-se no pessimismo do poeta. O riso com que a ironia se traduz, que é a expressão que mais de prompto lhe acode no accesso do phrenesi suscitado pela vista repentina de um contraste, para quem o comprehende, é uma visagem infernal, um esgar que gela, um arremedilho de cadaver sacudido por uma pilha galvanica. É uma descarga nervosa pela via muscular, como uma compensação, como notaram os physiologistas.
A gargalhada é tambem a linguagem das grandes agonias; é esta polaridade mysteriosa da nossa natureza dupla, constituida já em aphorismo: os extremos tocam-se. A ironia, derivada do mesmo principio supremo, é a impressão abrupta de uma idéa infinita que se compara com outra finita, cuja disparidade intuitiva desperta em nós todas as vibrações do sentimento comico. A primeira manifestação do comico na vida foi por certo o _grotesco_; Susarion e Thespis caracterisavam os seus personagens com borras de vinho. Elle apparece-nos no mundo moderno como uma arma da burguezia contra a pressão do clero e as extorsões dos senhores feudaes, na _Festa do Asno_, nos _serviços_, nos _fabliaux_, nos baixos relêvos e goteiras das cathedraes. O pico, a agudeza do pensamento estão completamente materialisadas na imagem; eis o comico pela sua parte visivel ou objectiva, tanto da sympathia popular.
O _humour_ é um gráo elevado; no contraste que se funda na antithese da acção e o pensamento, a fórma não corresponde, contraría mesmo a expressão da idéa, d'onde resulta uma monotonia triste; o esforço do que procura alegrar-se infunde nos que o contemplam uma melancholia indefinida, como na _Viagem_ de Sterne.
A ironia é a impossibilidade de conciliar os elementos da antithese, ou o contraste mental que gera todo o sentimento comico: tal é o desespero de Hamlet propondo ao seu espirito o problema insoluvel e eterno:
_To be or not to be that is the question._
A imaginação de Hoffmann similha um kaleidoscopo onde estas trez cambiantes do sentimento se reflectem, confundem, se cruzam em direcções infinitas, formando um espectro a que chamamos o _phantastico_. A ironia, o humorismo e o grotesco succedem-se, como phases da sua inspiração. Quando elle sente estas inversões do systema nervoso, annuncio da _tabes dorsalis_ que progride de um modo irremissivel, o pensamento então dá fórma a todas as vertigens; a dôr torna a creação pessoal, caprichosa; os retratos que elle faz são quasi sempre caricaturas, a incarnação de um riso de desespero. As bebidas e o seu cachimbo de Kumer vêm distrail-o da consumpção que elle observa a cada instante em si. O fumo que se ennovella em fórmas extravagantes no ár, e se dissipa como uma chimera fugitiva, representa-lhe os typos que reproduz nos seus contos. Ao fogão, na concentração intima da familia, o cachimbo povoa-lhe o aposento de sylphos e gnomons, que embalam a phantasia enlevada em sonhos incriveis, com musicas estranhas que o deliciam no egoismo do soffrimento que o corróe. Elle tem uma affeição particular ás pessoas espirituosas, porque lhes suppõe talvez a veia sarcastica proveniente de algum estado morbido. Quando se retrata caricaturisa-se.
Muitas vezes acceita-se uma creação comica, rimo-nos, sem saber que a inspiração que a produziu foi a doença que arrebatou Molière, o desalento de Gil Vicente, a resignação de Scarron. Porque não procuraria Hoffmann distrair-se com o vinho, afogar n'elle a preoccupação do mal irremediavel, que lhe atacava a espinha dorsal?
O seu editor Funck, homem estimavel de caracter, a quem a especulação não poz em guerra com os que têm a infelicidade de precisar escrever, convidou-o para passar alguns dias na sua residencia em Bamberg. Funck tinha uma magnifica adega e lembrava-se perfeitamente d'aquellas expressões de Hoffmann: «Fala-se muito do enthusiasmo que procuram os artistas no uso das bebidas fortes; citam-se musicos, poetas que não podem trabalhar senão assim; _eu não sei_, mas é certo que com esta feliz disposição, direi, quasi sob a constellação favoravel, em que se está quando o espirito passa da concepção á realisação, as bebidas espirituosas acceleram a torrente das idéas.»
Funck tinha o mais excellente de todos os vinhos, como lhe chamava Hoffmann, o _Porto_, que no seu nome traz o segredo da sua força. O escriptor original era esperado com anciedade em Bamberg. Chegou por uma tarde fria. O céo estava escuro, carregado de nuvens; relampejava a espaços, como o preludio de uma grande trovoada nocturna. Quando a natureza é triste sentimos uma vontade de nos reconcentrarmos; o lar domestico é a grande poesia do norte. Um dos maiores castigos no antigo direito germanico era a pena severa expressa n'aquella formula romana _interdictio tecti_; o banido é comparado ao lobo solitario; a casa era arrasada, tapado o poço, extincto para sempre o fogo do lar.
Hoffmann esquecia todas as dôres ao abraçar aquelle amigo; com toda a liberdade de uma confiança intima sentou-se logo ao piano. O phrenesi da inspiração fazia-o percorrer desesperadamente o teclado. Era a sua ultima composição, meio improvisada com o jubilo que sentia. Começou um canto com uma voz desentoada, que fazia arripiar os nervos; parecia que estava em delirio. N'isto um trovão rebentou com um estampido soturno.
--A natureza, disse elle para Funck, escarnece-se de mim, parodia-me a voz roufenha. Ha bastantes dias que tenho sentido humor para o romantico religioso. _Jovis omnia plena!_ Hoje, não sei se é o excesso da alegria, predomina em mim uma exaltação humoristica levada até á idéa da aberração.
Funck continuava silencioso. Hoffmann permaneceu alheiado alguns instantes, como levado por uma serie de deducções, que absorvem fatalmente toda a contenção do espirito. Estava a diagnosticar-se; a prolongada doença dera-lhe um certo conhecimento do seu estado. Depois proseguiu:
--É notavel! Que diversidade de sensações agora. Disposições humoristicas, colericas, com um humor musical exaltado, e sentimento de um bem estar com indifferença. Como conciliar tudo isto? O systhema nervoso inverte-se-me de dia para dia.
Restrugia um aguaceiro espesso. Ha no cair da agua uma magia, que adormece.
--Vamos, disse Funck, interrompendo aquella reflexão penosa, eu tenho um excellente remedio. Vejo-te tiritar com frio, de um modo que me tira a satisfação do agasalho que presto a um amigo. O seio de Abrahão deve estar com uma temperatura suave; refugiemo-nos lá.
--Como isso era bom! mas infelizmente as azas da poesia não nos desprendem da terra; a realidade é peior do que o sol para as azas de Icaro; ella toca-nos o corpo com mais aspereza do que o velho Satan quando experimentava o desgraçado varão da terra de Hus. Agora acho-me divorciado com a poesia, com a musica, com a pintura; são as tres furias que sob uma apparencia seductora surgiram das sombras do paganismo para attribularem-me o espirito.
--E por que não havemos de refugiar-nos, em uma tarde d'estas, no seio de Abrahão?--disse Funck procurando interromper a corrente das idéas afflictivas.--Não é tão dificil como pensas. Nem são precizas azas para ir lá. Para descermos basta obedecer á lei eterna da gravidade, que sobre nós pésa. Não sabias ainda que a gravidade é o nosso peccado original?
Hoffmann sorriu-se; o seu amigo tomou um tom humoristico para se adequar ao caracter d'elle n'esse dia.
--Apesar da facilidade que apresentas ainda não resolvi o problema. Como iremos nós procurar conforto ao seio de Abrahão?
--Segue-me.
Funck caminhava adiante com um ár victorioso. Hoffmann sorria-se com um modo duvidoso, para que o riso o defendesse do logro que esperava. Desceram uma escadaria escura; uns ferrolhos pesados gemeram, como se se abaixasse uma ponte levadiça. Entraram. Era um subterraneo fundo, allumiado por um lampadario de bronze. Depois de affeito á sombra, Hoffmann pôde discriminar grandes toneis dispostos, como uma longa fila de cachaci-pansudos conegos.
Era a adega do seu amigo Funck. De facto havia ali uma temperatura tepida, de fermentação. Nenhum olhar importuno através da abobada calada.
--Se os velhos patriarchas, principalmente nosso pae Noé, não trocariam de boa vontade a tua adega pelo seio de Abrahão!--Hoffmann estava animado de uma alegria indisivel; era um homem de extremos; a sensibilidade excessiva deixava-lhe apreciar os mais desapercebidos contrastes, era por isto que elle possuía mais do que ninguem o _genus irritabile vatum_.
Mal acabava de proferir aquellas palavras, quando se atirou de um salto, com uma loucura de criança, e se escarranchou em um tonel.
Funck seguiu o exemplo.
--A vida é um grande mar, que estua em convulsões interminaveis; felizes os que caindo na voragem encontram d'estes delphins, que os tomam sobre si e os levam a porto seguro.
--Foste feliz na imagem, principalmente, porque o vinho desperta-me o humor erotico-musical, e os delphins, se dermos credito a antigos fabuladores, eram levados pela magia da musica.
E começou a cantar alguns trechos da sua opera a _Ondina_, que só interrompeu para levar á bocca o sifão de lata que estava mergulhado na pipa. Hoffmann tocava a realidade dos seus contos.
--Este não dá pelos calcanhares do teu dilecto _Porto_?--accudiu Funck; o vinho de Nuits é dos melhores de Borgonha, e, graças ao céo, podemos nadar em mar de rosas.
A noite corria tempestuosa e tetrica: os trovões rebentavam com uma detonação tremenda. Nos áres, coriscou um relampago repentino e veiu illuminar com um clarão pallido o rosto dos dois amigos, que tocavam n'este momento os copos espumantes. Era um quadro com toda a verdade e simplicidade de Teniers, como o proprio Funck, em uma nota de uma edição do seu amigo, confessa com aquella ingenuidade allemã.
Hoffmann ficou deslumbrado com o fulgor instantaneo; tinha a mudez do terror.
--Em que pensas?
--Um conto, um conto horrivel!
--Mais uma saude, e narra-me essa historia ponto por ponto.
--Historia? dizes bem; porque tem muita verdade, ao menos a verdade da arte. Nunca te fallaram n'isso? Admira! Foi tão notorio. Quem a não conheceu! Bella, como era, ninguem podia fital-a sem experimentar o pasmo da admiração. As linhas do semblante tinham uma irradiação etherea, perdiam-se no ár. Era uma visão suspensa, a incarnação de um sonho indizivel de amor.
A tristeza realçava-lhe a candura angelica. Para ella, a vida era um desterro no mundo. Passava, alheia de tudo, distraida, sem saber que levava apoz si todas as aspirações que um olhar de relance, fortuito, gerava na alma. Um dia vi-a pelo braço de um homem feio, que a conduzia com burlesca familiaridade! Disseram-me que era o marido.
Perscrutei o segredo de uma união para mim impossivel, inexplicavel. Não tinha sido arrojada a hypothese: viviam com uma certa paz artificial, um accordo de convenção ante a sociedade. O marido bem conhecia, que a familia da engraçada criança a forçara áquella união desegual; a consciencia da riqueza não conseguira persuadil-o de que a merecesse; e espreitava, espiava-lhe todos os olhares, interpretava-lhe cada gesto insensivel.
O que não idearia o ciume? O ciume que não tem a franqueza selvagem de Othello é vil, infame. Um dia, a infeliz senhora, começou a sentir-se indisposta; não faltavam carinhos da parte do esposo, não poupava esforços para consolal-a, com uma solicitude hypocrita. O mal progredia, convulsões violentas a accommettiam, vertigens assombrosas, dores intensas, como se lhe retalhassem as entranhas. O marido escutava os gemidos com um pungimento affectado.
Conhecera que morria:--«Sabes, disse ella tomando-lhe uma das mãos, eu deixo a vida, mas custa-me baixar á frieza do sepulchro sem te dizer uma palavra. Oh! nem sei como revelar-te esse segredo, esse desvario de uma paixão infantil. Não soube guardar a fidelidade do thalamo.» O marido ouviu a confidencia solemne com um ár estupido de imbecilidade:--És n'este momento tão generosa e grande! A verdade nos teus labios vibra-me de um modo que tudo te perdôo. Choras? escuta. Deixa tambem fazer-te uma revelação tremenda: envenenei-te.
Hoffmann não pôde tirar do conto a moralidade que se espera, e caiu, esquecido do mundo, entre os toneis do seu amigo.
Revelação de um caracter
Como eu, elle tambem vivia ignorado, ocioso, distraído, fumando sempre, debruçado de uma janella que deitava sobre o mar. Passava horas esquecidas assim, a contemplar as ondas no seu eterno refluxo, imagem dos pensamentos reconditos, das aspirações impossiveis, que tempestuavam na solidão de sua alma. Muitas vezes me disse elle, quando a indiscrição da amisade o ia interromper do quietismo contemplativo que o absorvia, e lhe perguntava que idéas mysteriosas o afastavam para tão longe da realidade e da vida:
--Se fosse possivel exprimir, stenographar na palavra tudo o que se revolve na mente, o homem mais sabio pareceria um tolo; se fossem coerciveis todos os sentimentos, que passam e succedem no coração, o homem mais santo e simples apparecer-nos-hia com a hediondez da infamia.
E continuava, embebido n'um scismar indefinivel, extranho a tudo o que se passava em volta d'elle, como na reconcentração de um grande desgosto. Outras vezes mostrava uma alegria irrepressivel, impaciente, louca, sem motivo; mas cada riso era o preludio de imprecações e ironias pungentes, que vibrava dos labios acerados: o enunciado breve e incisivo d'uma grande verdade, mas triste, horrenda, incrivel, e infelizmente verdadeira, que a sua lucidez de doente descobria. Não sei qual o torturára primeiro, se a duvida ou o sarcasmo. Elle submettia á analyse fria os sentimentos mais puros e intimos, volatilisava-os pelos processos de uma dialectica irretorquivel, e por fim o ultimo canon da sua logica era uma gargalhada irritante que fazia gelar de medo. Elle mesmo se doía de sua crueldade, era o primeiro a accusar-se e a procurar corrigir-se. As linhas de sua physionomia davam-lhe ao semblante uma fórma angulosa, de energia; o olhar incerto não repousava, como quem observa nas sombras de um abysmo insondavel, nunca o fitava, temendo talvez que lhe surprehendessem na expressão fugitiva que o animava o ridiculo, que sabia admiravelmente descobrir.
Deixei de procural-o longo tempo; repugnava-me aquelle caracter incomprehensivel; para monomaniaco era insupportavel, para excentricidade despresivel. As contradições tornavam-no absurdo. Custava-me vel-o na consumpção d'essa apathia, criança e foragido do mundo, sem ter a commoção dos grandes sentimentos que nos prendem á vida, e que são o conforto nas horas vagarosas do desalento. De uma vez encontrei-o a ler com uma voracidade, como a de Isaías ao revolver as paginas dos arcanos imperscrutaveis. Procurei vêr se a sua imaginação viva o tornava illuminado, se era a consciencia da segunda vista, da percepção immediata que o tornava ocioso e inerte:
--O que lês? Que livro é esse que um dia te prendeu a attenção inconciliavel?
--Uma terrivel obra prima, uma perigosissima e espantosa maravilha de arte! É um romance de Diderot, que contém em si o germen de uma revolução moral, o _Neveu de Rameau_. Nunca o leste? É impossivel observar mais profundamente o coração do homem, isolar-lhe os sentimentos e reproduzil-os em uma creação mais brilhante. Somos todos como elle. _Rameau_ é a grande contradicção da nossa natureza, com a differença que obra segundo essa força, não se contrafaz pelas conveniencias da sociedade, obedece-lhe fatalmente, e é por isso que horrorisa; as maximas do cynismo mais revoltante e abjecto, as doutrinas mais subversivas de toda a ordem, vêm-lhe no dialogo animado, seguidas de sentimentos purissimos, intenções boas e justas, de um modo abrupto, que espanta. Os seus paradoxos são os da humanidade, com a differença que a educação os abafa no intimo de nossa consciencia, e elle, o parasita, o musico, o bandido, o desgraçado _Rameau_, tem a infelicidade de pensar alto; deixa vêr, através da sua ingenuidade, todas as paixões despertadas por desenfreados instinctos, que existem egualmente em nós, mas que os refreamos e os detestamos, como se fossem a degradação nos outros. Este livro é a synthese da philosophia do seculo XVIII; ella avançou principios de uma verdade inconcussa, de rasão profunda, a rasão universal, de todos os tempos, mas que foram combatidos e ainda hoje não são completamente admissiveis, por esta maldita necessidade de transigirmos com as conveniencias.
Esquecera-se n'aquelle dia do habitual silencio; fallava com uma verbosidade febril; observações penetrantissimas, rasgos de uma intuição pasmosa lampejavam brilhantes, no decurso da conversação. Expressando-se sempre com difficuldade, então, jorravam-lhe as palavras faceis e promptas, com uma nitidez que acompanhava as mais delicadas analyses.
A este tempo, assomou a uma janella fronteira ao seu quarto uma visinha, que vivia honestamente na desgraça, irmã d'aquella flor de Magdala, calcada aos pés pelos que não comprehenderam o impulso dos sentimentos que a transviaram. A pobre trabalhava e distraía-se a vêr os que passavam; cantava e ria esquecida do seu opprobrio. Estava vestida com uma côr triste, que lhe realçava a expressão dolorosa. Elle viu-a; cumprimentou-a com um sorriso leve, que traduzia um epigramma, que fôra comprehendido. Depois voltou-se para dentro:
--Ha uma affinidade intima entre a mulher e as côres; a escolha, a preferencia, a seducção por uma, é a linguagem de um sentimento recondito, que resôa dentro em si, e que ella não sabe exprimir, é o symbolo na sua fórma mais poetica e simples. A mulher é sempre uma criança, chora e ri ao mesmo tempo; como sente mais do que pensa, quer mais do que pode. A grande contradicção, que faz com que realise as nossas aspirações vagas e ideaes! Como uma criancinha que tem sêde, e, não sabendo ainda pedir agua, aponta para ella e exulta, assim a mulher não podendo revelar o sentimento indefinido que a eleva, que a faz soffrer e amar, serve-se da linguagem symbolica das côres, para completar a expressão que lhe transluz no rosto. Raphael, na sua inspiração divina, entreviu este mysterio quando ao determinar o ideal da Virgem na arte moderna, tomou a côr do azul ethereo para colorir-lhe o manto. O ideal da mulher no mundo antigo, menos espiritual, mas egualmente bello, mostrava-a como uma flor, a creação mais aprimorada da natureza, a planta mimosissima e languida; é assim _Sacuntala_, na poesia da India; a _fraqueza_, que póde tanto como a constancia heroica, quasi impossivel, de sua irmã _Griselidis_ na Edade média; ella confidencia com as aves, os arbustos choram na despedida, as flôres amam-n'a como uma irmã gémea, um carpello tenuissimo animado á luz do sol brilhante, perfumado com todas as essencias de uma atmosphera limpida e serena. É por isso que do Oriente veiu aquelle modo de fallar de amores pelo _salem_, um ramilhete allegorico das paixões que perpassam na alma. Ha rostos de mulher archangelicos, sublimes, realçados pelas côres; a côr é a expressão da luz, como a luz uma expressão do espirito. Quantas mulheres perdidas, com um ár de innocencia que illude! a preferencia pelas côres, que as fazem realçar tanto, é por certo o desejo mais intimo de sua alma, que os labios não se atrevem a proferir. Como para cada zona ha uma analogia com as côres luxuriantes da vegetação, pelas côres das roupagens se pode conhecer a mulher; a oriental voluptuosa, enlevada n'um tropel de pensamentos de alegria, sentindo o coração a trasbordar-lhe desejos, que desconhece, orna-se com as côres que mais fallam aos sentidos, as mais vivas, as que mais seduzem. Não é isto assim?
--É; porque o genio póde dizer tudo impunemente. Dá vida ás creações que inventa, soffre com ellas, que são a alma da sua alma.
--Se assim fosse, não andaria no mundo travado este antagonismo do senso commum, positivo e costumeiro, inflexivel nos seus juizos praticos, com aquelles que procuram realisar na vida os sentimentos superiores e eternos com que animaram a argila fragil, que procura constantemente elevar-se acima da materia a que está presa. É a lenda do cego de Smyrna, corrido, perseguido de terra em terra; não lhe comprehendem a vocação. Afferem-lhes as acções pelos factos vulgares, de todos dias, e a disparidade faz com que se lhes chame um desgraçado, um extravagante, um doido.
--Revoltas-te contra o senso commum?
--Revolto-me contra toda a generalidade, que procura absorver o individuo, assimilal-o, confundil-o. Quero que a individualidade se constitua e imprima o seu caracter, de modo que o tempo e o espaço attestem a passagem do grande homem.
--Revoltas-te contra a natureza?
--O que é a natureza diante da obra d'arte?--e elevando-se em um hegelianismo de sectario, elle proprio respondeu: Um verbo insignificativo, que apresenta todas as formas de que o bello pode revestir-se, o archetypo material que só se espiritualisa no typo, que é um facto da consciencia humana. Quando na imitação do archetypo a verdade é tão exacta, que o typo se confunde com elle, o sentimento que então disperta é incompleto, porque não deixou perceber que á determinação do facto presidiu uma consciencia. O bello é uma creação toda subjectiva; é despertada pela natureza, mas não existe lá; escolhemos as imagens em que melhor a podemos manifestar nas suas multiplices e variadas realisações, as caracteristicas que a traduzem fóra de nós. O bello é absoluto. Não existe o feio, que é apenas uma hypothese negativa em que se funda a synthese das realisações artisticas; o bello! o ponto onde convergem todas as evoluções da forma, incluidas na polaridade do bonito e do feio, e gravitando em volta d'esse principio unico, eterno, é o ideal que as faz tender para elle. O bonito e o feio são as duas relações que nos levam á comprehensão da idéa do bello. O bonito desperta-nos esse sentimento espontaneo por inspiração intuitiva; o feio leva ao mesmo resultado pela reflexão. O _Sapo_, de Victor Hugo, asqueroso, repellente, depois de idealisado, é profundamente bello. Quando se espiritualisa a imagem, e é esta a missão da arte, o espirito ha de amar a sua creação. O estatuario delira com o amor da Galathea. Não posso deixar de obedecer a esta fatalidade do meu caracter; deixo-me arrastar pela contradicção. O bello tem algum tanto de convencional; assim admiramos uma illuminura da Edade média, os arabescos de uma janella gothica. O que parece convenção não é mais do que a reflexão, que nos faz descobrir n'aquillo que contemplamos um progresso do espirito, e nos mostra a tendencia da natureza a ser espiritualisada. Pelo sentimento do bello se obtem o desenvolvimento e elevação que podem prestar-nos na vida a religião e o direito; o _verdadeiro_ e o _justo_ não são mais do que as manifestações do _bello_ no mundo moral. Ha só uma religião, é a da arte! O pantheismo é a suprema creação poetica, a identificação dos sentimentos do bello e do verdadeiro. Mesmo o direito primitivo teve um caracter pantheista, a natureza é animada, é testemunha na accusação, é pura como no ordalio, firma o contrato, submette-se tambem á penalidade, tem personalidade; os animaes compareciam tambem em juizo. A arte sobre tudo! ella suppre a sciencia e a observação, pela intuição viva; a realidade é contingente, variavel; o ideal, a creação pura do homem, é intangivel, eterno, emquanto a obra de Deus se converte em pó. Sacrifiquemos-lhe tudo na vida.
--Mesmo o amor?
--O amor? Rio-me da tua credulidade. Ainda fazes uma religião d'esse sentimento egoista, que procuras elevar acima da animalidade. Querem afferir as affinidades electivas pelo que vêem nas paixões descriptas pelos poetas. O amor como o imaginas, só existe nas obras d'arte; fóra de lá é uma falsificação, uma loucura, um impossivel. Eu explico o egoismo olympico de Goethe recusando o beijo de Frederica, a dedicação symbolisada no que a mulher tem de mais apaixonado e expressivo. Pede ao amor a paixão, como pedes á natureza a paizagem; depois de te possuires de todos esses sentimentos, eleva-te acima da passividade pela reflexão fria, calculada, e terás a consciencia das fórmas com que has de fazer sentir os outros, dominal-os, possuir os segredos de suas emoções, e és grande! Não fallo mais n'isto; só fica bem na bocca de Dyotima.
E começou a assoviar uma ária caprichosa, passeiando vagarosamente; depois voltou-se para mim:
--Ha ainda que descobrir na musica; falta-lhe realisar o principio da ironia, como ha em todas as fórmas particulares da arte. A poesia tem a satyra; a pintura a caricatura e o grotesco; só a musica precisa attingir a antithese do pathetico. O pathetico e a ironia são os dois polos de toda a evolução esthetica. Todas as creações na arte sáem d'estas duas paixões oppostas. Uma é o natural, a outra é o não natural como natural; uma sustenta o sublime, a outra o ridiculo. Ao pathetico eleva-se todo o que soffre; só o riso é a força das grandes individualidades. Ri-te de tudo; o riso denota sempre uma superioridade.
Não o comprehendia; o seu riso pungente de ironia desarmava-me. O genio é uma nevrose, uma disformidade; o que nos outros me parecia egoismo, n'elle não sabia como chamar-lhe. Para elle a gratidão era a justificação do servilismo; o sentimento religioso uma tradição da ignorancia primitiva; o amor de mãe uma impertinencia, que só se dá entre os animaes da classe dos mamiferos, pela conversão do habito em instincto. Explicava tudo assim. Parecia uma alma devastada por longas abstracções, que andava errante no mundo, á busca de uma formula impossivel. A analyse continua dava-lhe uma certa malvadez, tornava-o intratavel.
O caracter faz-se. Quaes seriam as circumstancias que o transformaram até áquelle ponto? Indagava-o como um problema interessante. Fui por deducções pequeninas. Muitas vezes me fallava elle da harmonia plastica das fórmas. Contou-me uma historia original: uma menina engraçada, cuja belleza realçava com uns dentes alvissimos de jaspe; a vaidade de mostral-os tornara-a jovial. Infelizmente tropeçou em uma escada e quebrou um dente. Perdera o seu melhor encanto. D'ahi em diante, procurando encobrir esse defeito, tornou-se taciturna, melancholica, apprehensiva, até que se foi definhando e morreu de desgosto. Contava-me isto como uma grande verdade, como doutrina que professava. Admirava o costume de Sparta, que mandava despenhar de uma rocha as crianças disformes. Pobre rapaz! Como uma circumstancia pequenissima lhe influiu no caracter e na existencia. Elle era aleijado de um pé, como Byron, e era este o seu desgosto intimo, que o trazia solitario e o tornava aggressivo, porque se via amarrado a um ridiculo.
O sonho de Esmeralda
Oh! meu amigo, oh! meu poeta, tu não sabes o que é um rapaz que sáe aos vinte annos da sua agua furtada, sem conhecer o mundo, ignorando a vida, tendo vivido alimentado por sonhos impossiveis, rico de todas as leituras, levado por ambições altivas, que o fazem grande, sentindo muito, amando tudo, e que o acaso atira ao meio de uma cidade opulenta, onde ninguem se conhece, onde todos se egualam e atropellam! Foi quando comprehendi aquelle tercetto de Dante, de uma profundesa nocturna, que me abysmava, cada vez que o repetia na mente:
No meio do caminho d'esta vida Dei por mim na amplidão de selva escura, Pois que a vereda certa era perdida.
Não sabes como o ruido de uma cidade immensa, o dédalo das ruas, a extranhesa e indifferença dos que passavam, me tornava solitario no meio das multidões. Tantas vozes perdidas no ár, e nenhuma para mim! Tantos braços cahidos com desdem, e sem nenhum me estreitar a si. Parecia-me o tumulto como um naufragio em que a ancia do salvamento nos torna egoistas, insensiveis para as agonias dos outros.
Todas as aspirações que me fizeram deixar o retiro benigno onde me voaram os primeiros annos, mostrando-me o mundo como uma grande festa, que me despertaram o desejo de ser tambem um dia conviva, iam-se apagando, abandonavam-me como no encontro fortuito de um desconhecido. Sentia-me pequeno, incapaz de luctar, de me impôr a admiração dos outros.
O que teria sido de mim nas horas monotonas do desalento, nos longos dias do desamparo, se não fôra a poesia! Até então tinha ella sido um folguedo, um brinco infantil, innocente, um vagido timido e suave da alma, que anceava a luz, como uma borboleta prateada antes de romper a chrysalida nocturna. Sem ter quem me fallasse, pedi á poesia os seus antigos carinhos, um alento de esperanças, um orvalho para refrescar a aridez do dezerto em que me via. Ella, a irmã dos tristes, a alma dos que soffrem, como veiu terna, espontanea, compassiva para consolar-me! Cantava, como uma criança, quando tem medo e procura esvaecer os vultos caprichosos que lhe voejam na phantasia. Foi a poesia tambem que salvou o desgraçado Jacopone, quando, abalado pelos desastres da vida, errando pelas ruas desvairado e doido, apupado da plebe, perseguido, veiu bater ás portas de um mosteiro, d'onde egualmente o repelliam. Foi ella que lhe deu a paz da cella e a serenidade da contemplação.
Oh santa e divina poesia! bem hajam os que choraram por que te descobriram e trouxeram á vida, como uma pérola nunca vista trazida do fundo do oceano. Bem hajam os que ainda choram, por que te guardam em si, como uma vestal solicita ateando continuamente a labareda do altar. Bem hajam os que hão de vir para soffrerem, por que nos comprehenderão sentindo-se aliviados.
Andava pela cidade sem destino, vagabundo; eu mesmo ia comprar o alimento para o dia, e enojava-me esta guerra mesquinha e vil do pequeno commercio para os que chegam incautos, inexperientes. Os fundos, e bem poucos que eram, iam-se reduzindo de dia para dia; estava quasi sem dinheiro, e com um orgulho e altivez incrivel para affrontar o futuro.
Enrolado, dentro de uma gaveta, tinha um manuscripto, que escrevera para distrair-me na solidão das minhas horas. Quando me lembrei d'elle comecei então a dar-lhe o valor que até alli não conhecia. A necessidade, que se approximava, a cada instante, fazia-me procurar n'elle todas as esperanças. Pobre manuscripto! Quem o poderá entender, quem dará dinheiro por essas paginas sem sentido, que a ninguem tocam e que nem ao menos fazem rir? Demais, estava escripto com uma letra inintelligivel, entrelinhado e sublinhado, em um papel repassado de tinta amarella, que mal se percebia. Quando me vi quasi sem dinheiro, á _porta inferi_, tornei a enrolar o manuscripto, metti-o debaixo do braço, e sahi. Passava pela porta dos editores e não me atrevia a entrar. Tinha medo que me insultassem com um riso de escarneo, por me verem tão criança e já com pretenções a auctor. Guardava sempre para ámanhã a extrema resolução, e tornava a trazer o livro para casa e a fechal-o na gaveta. Não imaginas que horas de tormentos! Eu temia que me apagassem com um riso todas estas esperanças, e me convencessem com argumentos assim da minha nullidade; bem conhecia o que me haviam de dizer, previa-o, cheguei a escrever a resposta que os editores me dariam: «O seu manuscripto não tem leitores; não é um romance, nem um conto; tem algumas paginas excellentes, mas não póde dar lucro de maneira alguma.»
Era esta a resposta que eu antecipava, para me não doêr tanto depois quando a recebesse. Um dia, o ultimo, sai a tremer com o manuscripto. Oh meu amigo, para que te hei de fallar n'estas cousas? Nem eu queria chegar a este ponto, quando te prometti contar a historia d'essa mulher, que tu conhecias melhor do que eu. N'esse dia, comecei a sentir povoar-se-me a soledade da vida, mas com outras dores, desesperanças novas.
Nos primeiros mezes que passei n'aquella cidade, tinha lido e estudado desesperadamente; a meditação fôra o refugio do tedio, mas era como um abutre que me lacerava as entranhas.
Vi-a! leve, delgada, divertida, olhando para todos, com uma graça encantadora de infancia, com uma gentileza de senhora, confundida pelo meio da plebe, sorrindo para os que a fitavam. Foi um d'esses sorrisos que me levou a alma presa. Que lucta obstinada e escura dentro d'esta pobre alma! o estudo e a paixão debatiam-se, arcavam, procuravam mutuamente supplantar-se. Eu tinha acabado de ler a _Notre Dame de Paris_, e achava em mim não sei que analogias sinistras com Claudio Frollo. A _Notre Dame_ de Victor Hugo é a rosa emmurchecida, que rejuvenesce ao sol do mysticismo, é a _Turris eburnea_ por quem o poeta se apaixona no sublime delirio da arte. Claudio Frollo! o desgraçado arcediago deixou tambem correr tranquilla a mocidade no retiro do estudo; depois a _Esmeralda_ enfeitiça-o, dançando, no volteio vertiginoso das praças. São duas paixões que se combatem. Qual d'ellas triumphará? A fatalidade do impossivel?
Eu não conhecia o labyrintho de ruas da cidade populosa e immensa, ía em busca d'ella sem saber para onde. Encontrava-a quasi sempre, por uma coincidencia fatal. De uma vez, lembra-me ainda, foi quando a vi mais bella do que nunca, mesmo do que todas as mulheres. Estava confundida entre a multidão, que a abafava na sua onda; mas para mim realçava tanto como um carbunculo que reflecte em si a luz de todos os cirios. Via-lhe na expressão languida e curiosa a alma de todas as almas dos que a cercavam. O povo amontoara-se para vêr subir aos áres um balão. Era um dia de alegria e de festa; quando a descobri estava com os olhos erguidos para o céo. Oh! se ella soffresse, se implorasse a Deus uma consolação, não estaria mais sublime e radiante. O que a fazia confundir o azul dos seus olhos com a limpidez do firmamento era a curiosidade de criança. E contemplava o balão que subia, alheia á vozeria da gentalha. Desejaria elevar-se tambem ás alturas, e então estava pensando no devaneio d'esse desejo? Quem sabe os caprichos que passam pela alma de uma mulher? Quem póde contar todas as ondas que faz uma brisa perpassando levemente á flôr das aguas? Quando baixou os olhos á terra deu com os meus, que a contemplavam, sorriu-se. Oh! como aquelle sorriso me faria esquecer todos os pezares, me daria coragem para todas as luctas, me insuflaria alento para os mais inauditos esforços, se ella se não sorrise assim para todos.
Para todos! É este egoismo do sentimento que gera os nossos males, exacerba a mais terrivel das paixões, a mais selvagem e vil, que é só grande pela loucura. Eu tinha ciumes de todos, porque ella sorria prodiga de encantos, tanto para os que passavam indifferentes, como para o que a contemplava com o desinteresse com que se olha para um marmore antigo ou adorando a sua morbidez de Madona, como para aquelles espiritos baixos e abjectos que a fitavam desassombrados, preoccupados de um desejo faminto e estupido de sensualidade.
Criança e indiscreta, seria a innocencia que a fazia sorrir para todos, como uma borboleta que vôa de flor em flor, ou como uma rosa que embalsama de perfumes todas as virações que passam? Eu não sabia, e tinha medo da verdade. O amor triumphava completamente do estudo. A verdade, que procurava incansavel no ardor das vigilias, agora já não me mostrava os mesmos encantos. Queria que se escondesse, que se não deixasse tocar por mim, como um arcano divino. Quem podesse viver sempre illudido! Oh! verdade! verdade! para que vens agora, que te não busco, acordar-me tão cedo do sonho doirado?
A multidão dispersou-se ao vir da noite; eu fui seguindo para onde ella habitava. Ia perdido, a distancia, sem conhecer as ruas; a pequena, distrahida, como por descuido olhava para traz. Depois que soube onde morava, procurava a cada instante vel-a. Havia uma fatalidade que me atirava para essa mulher. Só, no meio de uma cidade grande, desconhecido, amava a perdição, e sentia-me arrastado, sem ter ao menos um Tiberge que me salvasse, como o amigo do infeliz Des Grieux, amante da _Manon Lescaut_. O futuro! nem já podia vêl-o, com a vertigem que um olhar fascinador me causava; apagava-se esse ideal que me dera tantas vezes coragem nos transes e provações da vida. Ria-me do futuro. E que é o futuro? De que me vale preparal-o, consummindo a vida, se me foge antes de o gosar? Viver obscuro! embora n'uma trapeira, mas ter um dia, ao menos, a mais pequena realidade de tantos sonhos! Ter que apalpar entre as visões brilhantes, sem corpo, e que nos mentem sempre. Viver obscuro! Que haverá melhor, quando se tem ao lado aquella que se ama e resume todos os encantos e riquezas do mundo na mais pequenina de suas fallas?
Sentia-me escorregar lentamente para o precipicio; a paixão dava-me uma lucidez com que explicava a loucura e a justificava diante da consciencia que me accusava de instinctos baixos, sem dignidade. Apparecia-me á janella todas as tardes; sentava-se ali e costurava. Tinha um orgulho indizivel ao lembrar-me que, de entre todo aquelle bulicio de gente desconhecida, havia uma mulher que pensava em mim e me estava esperando. O amor tornava-me timido; queria fallar-lhe e não sabia. Pedi então á poesia que fallasse por mim.
Para um amor puro, ethereo, que se esconde e não se atreve a declarar-se, nada o exprime melhor no seu vago ideal do que um soneto. Estudei esta fórma, a mais completa das fórmas lyricas. Elevado como a ode, melifluo e simples como o madrigal, sentencioso como o epigramma, é a synthese de todas as fórmas do lyrismo. Como o não desenvolveu o genio da Italia, nas suas elevações erotico-mysticas! Nas duas primeiras strophes do soneto, o sentimento revela-se pela imagem, occulta-se sob ella como indefinido, intangivel; o predominio da imagem tem a quadra, fórma livre para as representações do mundo exterior. Depois é que o sentimento se mostra no seu esplendor absorvendo em si todas as potencias da alma; é o terceto que o traduz, a triade fatidica, que se imprime mysteriosamente em todos os factos do espirito. Do accordo entre a imagem e o sentimento, provém a diversidade das fórmas poeticas. Se a imagem se mostra na sua complexidade finita, a poesia tem um caracter didactico e descriptivo; se o sentimento se sobreeleva á imagem e se manifesta na sua subjectividade, eis o lyrismo puro. É por isso que o soneto é a fórma suprema do lyrismo. Santificaram-n'o Dante, no retrato do amor ideal, na _Vita Nuova_; Petrarcha, exaltando o amor religioso de Laura na solidão de Vauclusa; Miguel Angelo, esse Protheu que encarna todas as fórmas do bello, e Vittoria Colonna, confidenciando ambos com os sonhos da arte, de um modo que ninguem macularia o seu platonismo radiante. É tambem nos sonetos religiosos de Lope de Vega, que se conhece a profundidade de sua alma sensivel, e nos de Camões, que se aspira o perfume da saudade de seus mallogrados amores.
Esquecia-me a dissertar sobre o soneto para evitar o ridiculo de ter assim cantado esse desvario. Eu a via todas as tardes á janella; tinha a seu lado um passarinho, que saltitava, chilreando contente, para quem fallava, dizendo o que queria que eu ouvisse. Como não perceberia elle estes segredos de amor, quando o estava embalando com o seu cantar soffrego, tremente. De uma vez atirei para dentro da janella este soneto traduzido do hespanhol de Lope de Vega. Não ha expressões humanas que possam dizer mais:
Dava alimento a um passarinho um dia Lucinda, e pela estreita portinhola Foi-se-lhe a ave das grades da gaiola Ao vento livre, onde a cantar vivia.
Entre-rindo, a mãosinha ella estendia Para o suster; na dor que a desconsola, Diz (pois como a vergontea se estiola Sem luz, sua face a pallidez tingia):
«Para onde vás? e deixas este ninho «Que de frouxel teceu a doce amiga, «Que a brincar com o teu bico se enamora?»
Ouviu-a enternecido o passarinho, Bate as azas para a prisão antiga, Que tanto póde uma mulher que chora.
O que haverá na poesia antiga que exceda este primor? Quem soube idealisar assim uma lagrima? Comprehenderia ella a profundidade d'este sentimento? E sorria-se de cada vez que lhe enviava novas confidencias, mas do mesmo modo que sorria para todos. Para todos! Sempre esta idéa infernal a envenenar-me todas as horas da vida. O poder das lagrimas que lhe descobri, a _fraqueza_ que vence todas as forças, não tinha esse mysterio, quando as derramei ao vêr-me nú, abandonado pela esperança fagueira, que fugira como o passarinho de Lucinda. Disseram-me... nem eu sei o que me disseram. Fôra a mãe, a mesma que a susteve nos joelhos quando a atirou á vida e a amamentou com seu leite, quem a arrojou á perdição. Quem havia de adivinhar que sob um ár de candura, que a cercava de uma auréola divina, vergava uma alma oppressa pelos insultos dos que lhe pagavam! O que é uma cidade grande! Não se devoram com os horrores da anthropophagia, mas a vida vae continuamente alimentando-se da vida. Não sei, não posso contar-te tudo.»
* * * * *
Um anno depois encontrámo-nos; o pobre rapaz estava possuido novamente da paixão dos livros. Era uma anciedade de saber, não menos funesta, que o amputava para todos os gosos da vida. Não me atrevia a fallar no antigo amor; tinha medo de acordar-lhe as agonias que estariam talvez já adormecidas. De uma vez, estavamos juntos, vi passar a distancia uma rapariga, um typo raphaelico de candura; ia seguida por uma mulher velha e tropega. Era uma antithese que fazia pensar muito. Elle olhou-a e foi acompanhando-a com a vista, com certa anciedade; depois, como refreado pela reflexão, olhou para mim envergonhado, córou e disse, procurando esconder esta impressão repentina:
--É ella.
Não comprehendi immediatamente; fui barbaro, pedindo que me explicasse o mysterio d'essas palavras intercortadas. Elle apenas pôde proferir uma, mas que era o resumo de todas as dores e decepções, da compaixão que ainda sentia, do ideal a que tinha aspirado, da fatalidade a que tinha succumbido. Olhou-a, ella já ia longe; depois que a viu desapparecer, disse, contemplando ainda e com a voz a apagar-se:
--Uma ruina!
O Evangelho da desgraça
Era uma criança linda, linda como os amores. Os movimentos impensados da infancia davam-lhe a cada instante uma nova expressão de candura, faziam amal-a, beijal-a. Ella não sabia que estava sósinha no mundo; a pomba não tinha a aza maternal sob que se occultasse, quando viesse o abutre pairando para arrebatal-a. Ria, descuidada.
A graça com que saltava! Parecia um pequeno gato quando brinca.
Faltava-lhe pae e mãe que lhe soubessem interpretar todos os requebros, a meiguice das palavras apenas balbuciadas, adivinhar seus medos, aspirar-lhe os risos, unir-se ás suas alegrias, beber-lhe as lagrimas sem motivo.
Era uma florsinha nascida á beira da estrada, exposta aos ventos da noite, ao rigor das calmas, ao tropel dos que passam, banhada de perfumes que ninguem vem respirar, derramados ao capricho das virações. Pobre filha! Como estas plantas que se estiolam e seccam, mal rebenta o gomo que as hade substituir, a mãe morrera ao trazel-a á luz; com ella se foram para a cova todos os carinhos que nos embalam e fazem esquecer as dôres por onde se nos dá a conhecer a vida.
Sem mãe!
Ninguem sabe o que é vêr descer a noite negra, e as crianças que brincavam comnosco cairem de cansadas em um regaço que accalenta, ouvir as cantigas que as adormecem e lhes afastam o medo; e não saber por que não temos aquillo tambem, não haver quem nos chame, nos fale e nos conte maravilhas, e nos esconda no calor benigno de um seio que bate por nós. A orphandade! E depois quando os primeiros alvores da mocidade começam a doirar-nos a existencia, a acordar a um tempo todos os sentimentos bons e santos, não ter quem nos descubra e faça presentir as sarças que nos podem prender, as torrentes que nos podem levar, os abysmos em que se póde cair. Uma mãe! Ella nos ensina a amar e nos faz bons com o seu amor.
E se o amor inconsiderado da gloria nos arrasta, se a vertigem de alcançal-a dá coragem para affrontar o impossivel, sacrificar a vida por um fumo que o tempo dissipa, feliz de quem tem uma lagrima na vida que nos ensine o que ella vale, para não dal-a por tão pouco.
Mas a pobre criança na sua ignorancia ditosa não sabia d'isto; brincava sósinha, aprendia a ser mãe. Que affagos perdidos com a boneca que embalava ao seio, que beijava, vestia e despia, fallando com uma ternura que ella adivinhava, porque nunca no mundo ninguem lh'a havia dado, ensinado.
Aos sete annos perdeu seu pae; era pescador. Elle e a sua barca desappareceram em uma noite de temporal. Costumada a vêl-o poucas vezes, a criança não deu pela falta; esqueceu-se de que tinha pae, como se acostumára á falta dos desvellos de sua mãe. O pescador, quando ía para a costa deixava-a sempre em casa de uma visinha, com quem distribuia os diminutos ganhos que apurava. Esta visinha era como todas as pessoas que resam muito com a mira no céo, e de tal fórma se tornam refractarias a todo o sentimento, sem affeição a ninguem, incapazes de uma generosidade; então para as crianças, que não comprehendem, são mais aterradoras que um mestre de meninos. Quando a visinha soube da morte do pescador, carpiu, deplorou, sem saber como subtrahir-se ao encargo da abandonada criança. Se até ali o nimio descuido e desmazello eram providenciaes, porque ao menos não vinham atrophiar os impulsos expansivos da infancia, d'ali em diante a visinha arrogou-se a auctoridade absoluta, expressa n'esta maxima popular--quem dá o pão dá o ensino. Mas a criança tinha um dom que a defendia de todas as atrocidades brutaes da prepotencia irresponsavel, era linda, linda!
Quantas vezes não passou pela cabeça da desalmada visinha amparal-a até á edade em que pudesse auferir um lucro criminoso d'aquella formosura angelica. Belleza funesta que vem accumular a desgraça á indigencia, dar uma côr mais sinistra á miseria. Tinha sete annos apenas! custava tanto esperar. Lembrou-se então a visinha--uma idéa luminosa que a livrou de escrupulos de consciencia e lhe asserenou o animo alvoroçado por uma caridade que a sorte lhe impuzera--a criança tinha ainda um avô do lado materno, feitor de uma rica propriedade. Era a algumas legoas de distancia; em um domingo, depois da missa da madrugada, poz-se a caminho com a pequena e foi entregal-a ao avô.
Nada mais commovente do que a infancia e a velhice quando se amam e se comprehendem; tem ambas uma frescura juvenil, o frescor dos orvalhos doirados da alvorada e da geada nocturna, a luz e sombra formando um brando crepusculo em que se scisma sonhando alegrias por vir e illusões que não tornam.
Não se descreve a loucura de jubilo que o velho sentiu ao vêr a criança, carne da sua carne, uma parte da sua alma, que reflorescia viçosa no engraçado renovo. Ria, chorava no seu transporte, doudo, doudo de contente ao beijal-a. Fitava-a, esquecia-se a vêr-se n'aquelle retrato, a menina dos seus olhos, como lhe chamava quando os soluços lhe não embargavam a voz.
--Eu não podia morrer, sair d'este mundo, sem te vêr, minha filha! Tu bem sabias isto; foram os anjos que t'o disseram, por isso quizeste vir. Trazes-me o dia mais alegre da minha vida. Quando tua mãe nasceu foi n'um dia como este, e eu não me alegrei tanto; não me lembrava que uma filha é o melhor encanto da velhice! Estava longe da minha aldêa, muito longe, andava na guerra havia quasi um anno, e ainda não era bem um que estava casado. Quando voltei, já tua avó e tua mãe tinham morrido. Não te importam estas cousas! Tu queres brincar? Vae correr, anda á tua vontade. Como ella é tão bonita! Eu choro sem saber porquê! Tinha pedido tantas vezes ao pae que a trouxesse cá um dia. Eu não devo deixal-a ir; ella é minha agora.
Quando o velho soube que a criancinha estava completamente orphã no mundo, deu graças ao céo por lhe havêr poupado a vida de tantos riscos que atravessára. Julgava-se o roble secular que protege o arbusto flexivel, quando as rajadas retouçam na floresta. Queria penetrar os designios da providencia, que o destinára no declinar dos annos para a guarda d'este thesouro de candura.
O velho, á noite, sentava-a sobre os joelhos, fallava como a uma pessoa desenvolvida, contava-lhe historias do passado, até que adormecia, e se esquecia vellando ao pé d'ella, horas inteiras. O que lhe não contaria o velho na sua simplicidade de justo? Mutilado como estava das longas batalhas em que entrára, perguntava-lhe a criança a historia de cada cicatriz. Ella nunca vira estas disformidades nas outras pessoas e tinha medo; o velho distraía-se de continuo pintando-lhe os recontros, as contraminas, as cargas; ás vezes não fallava para ella, fallava comsigo, vehemente, exaltado, por fim ria-se de si, e acabava por beijal-a muito. Isto repetido quasi sempre ao fim da tarde, quando o sol dardejava na aresta da montanha, e vinha de longe a toada dolorida e plangente da sineta de uma freguezia proxima.
A apparencia do velho infundia consolação; a falta de dentes dera-lhe uma disposição aos beiços desbotados de modo que parecia ter sempre um riso de mofa, inoffensivo, divertido, communicativo. Sobretudo, o que era mais sympathico na sua fealdade eram uns olhos, de pequenos, tão alegres e vivos, que pulavam, como no vigor da edade e das paixões, em umas orbitas encovadas, maceradas pela senectude. As cicatrizes das ballas e espadagadas, misturando-se com as rugas da velhice, em vez de o tornarem repulsivo, davam-lhe um aspecto attrahente, em que o bom humor que o animava deixava reflectir um fundo de bondade, que tem quasi sempre as pessoas que soffreram bastante.
E quanto não tinha elle soffrido? Noivo, casado de um anno, viu-se forçado a abandonar seu lar, deixar a roupa de camponeo pela farda apertada, a choça pela caserna, o nome por um numero, o leito fresco, cheiroso com roupas de linho, pela tarimba, e sobretudo a vida sanctificada da familia que acabava de formar em roda de si, pela guerra em que se ia confundir.
Fôra no tempo da guerra peninsular. Uma estrella funesta o acompanhou sempre, amparando-lhe a vida para soffrimentos inauditos. Nunca entrou em acção d'onde não voltasse ferido; todos galardoados sempre, d'elle ninguem se lembrava! A jovialidade dava-lhe forças para resistir á oppressão da injustiça. De uma vez levaram-lhe os dedos quasi todos, porque em uma carga de cavallaria teve de fazer das mãos capacete. Retalhado, calcado aos pés do esquadrão, ainda ali a sorte acintosa o guardou para novas provações. O pobre soldado não sabia queixar-se; por fim como não pudesse dar ao gatilho, passaram-no para a artilheria.
Ahi subiu de ponto a sua infelicidade. Em uma investida a peça que descarregava esteve quasi nas mãos do inimigo; era um magnifico apresamento. Exasperado de raiva encravou-lhe o busil, para não fazer mais fogo. Depois, que a levassem os contrarios! N'isto o pelotão foi distrahido para outro lado. Julgaram então o misero soldado traidor aos seus, e descarregou-lhe o general um golpe que o estendeu por terra. Em uma nova investida dos contrarios conheceram a prudencia do artilheiro, mas deixaram-no estendido por morto; as carretas passaram por sobre elle e fracturaram-lhe as pernas. Pediu debalde aos inimigos, que iam de avançada, que o acabassem de matar. Ninguem o ouviu, com o estrepito das descargas e do rodar dos trens, o ruido da cavallaria e o ecco dos clarins. Depois da batalha, quando iam atiral-o á valla, pediu que lhe poupassem a vida. Doeram-se d'elle e levaram-no.
Passados longos annos, depois de percorrer alheias terras e ter affrontado a fome e a solidão de extrangeiro, pôde voltar á sua aldeia, desacompanhado de felicidade, sem um unico signal de reconhecimento pelos serviços. A esposa que deixára um anno quasi depois de casado, tinha já morrido, deixando uma filhinha na orphandade. Ella mesma fôra crescendo, fizera-se mulher; humilde, havia dias que se casára tambem com um pobre pescador. O velho soldado não quiz ir aguar com a sua presença a sociedade dos dois esposos; restava-lhe um antigo amigo, que ouviu attento as suas calamidades, e o convidou para tomar conta de uma rica herdade que possuia. Ao menos encontrava no fim da vida a suavidade dos campos, e a tranquilidade da solidão.
Quando se tem soffrido muito, cada momento está cheio de saudades da vida, porque o soffrimento é o signal mais certo de que se tem vivido.
Estava pois n'esse remanso o velhinho quando no desejo de ver a creança, filha de sua filha, passára annos e annos na doce espectativa. Só quando lh'a trouxeram e a beijou com a loucura de quem se sente duas vezes pae, é que soube dos novos desastres que o saltearam. Que havia fazer senão resignar-se! Aquella planta debil e mimosa era o que lhe restava na vida; protegia-a com afan, sollicito, esmerado, como um amante, cioso de que um atomo impalpavel de pó a maculasse.
Em todos os momentos, em qualquer parte o velho e a creança agrupavam-se tão bem, que a natureza, por mais bella e surprehendente, era sempre accessoria, o fundo do quadro em que realçavam. N'este idylio encantador a creança passou a infancia mais descuidada e feliz; a liberdade dos campos, a serenidade do espirito deram-se as mãos no desenvolvimento d'ella.
Estava uma rapariga!
Linda, linda como os amores!
Quem a via esquecia-se a olhar, contemplava.
Era mais um seraphim do que uma creatura.
Os olhos tremeluziam-lhe com um fulgor metalico; pareciam nunca terem sido empanados pelas lagrimas. Cantava a toda a hora como um passarinho das balsas; mas as cantigas que modulava distraida, eram a expressão do segredo mais recondito da sua alma. Lavando na ribeira ao som da agua corrente, ouviram-lhe uma vez cantar:
Os meus olhos são dois peixes Que nadam n'uma alagôa; Choram lagrimas de sangue Por uma certa pessoa.
E quem seria essa pessoa, a primeira que soube arrancar uma lagrima d'estes olhos tão puros e meigos? Maior que todos os poetas, mais do que Deus talvez, quem soube dar fórma ao sentimento d'aquelle coração virginal em uma gota de agua, uma lagrima caida, irmã gemea das que os anjos andam pelo mundo aparando em suas urnas crystalinas, para as engastarem como estrellas da noite saudosa no vacuo do firmamento. E ella cantava:
O coração e os olhos São dois amantes leaes, Quando o coração tem pena, Logo os olhos dão signaes.
Ella espalhava ao vento os seus pezares, mas ninguem os percebia; o avô alegrava-se ao vêl-a sempre entrar em casa cantando; mal sabia que a harmonia sonorosa era o ruido de uma grande tormenta. A pobre criança soffria muito, amava! Ha na vida do coração um momento em que todas as emoções, impulsos e sentimentos se alevantam a um tempo, e vão apoz o primeiro que os acorda. São como os perfumes derramados pela primeira brisa que chega. É como um _estado nascente_ da paixão.
Don Juan sabia por certo este segredo, conhecia o momento em que todas as mulheres se perdem, porque se dão ao primeiro que apparece.
Nem ella conhecia porque amava, nem tampouco o impossivel que se erguia entre o seu amor e o nascimento desegual d'aquelle que a endoudecera com as palavras balbuciadas tremendo. Amava o filho do antigo amigo de seu avô, dono da herdade em que habitava; estupido, uma d'essas almas boçaes, nascidas para deturparem tudo, porque não vêem, nem sonham senão o mal, mesmo no instante em que a linguagem mais intima da candura vem affagar-lhes o deserto em que o seu egoismo as esconde. Demais, elle tinha esta regularidade de feições, de uma monotonia que enfada, chata, insignificativa, mas que dizia bem com a alma que o animava, incapaz de qualquer acto generoso, de instinctos vis, mas julgando-se digno de todos os respeitos diante da sociedade. Tanto mais criminoso parecia, quanto era ainda novo, tambem criança, em quem se espera a ingenuidade dos primeiros annos que tudo perdôa.
Aquelle que a innocente rapariga amava, não pensava senão em perdel-a. Era tão facil! Estava desprevenida, não via a traição da onça refalsada, onde esperava uma attracção irresistivel! Mal haja quem não falla verdade n'este episodio mais santo e verdadeiro de toda a existencia.
A pobre pequena não sabia estas subtilezas do peccado; foi apoz os seus sentimentos, deixou-se adormecer ao som da voz que a illudia, para acordar com a gargalhada fria e insultante no fundo de um abysmo onde fôra atirada para sempre. A alegria que até ali tivera, e era a sua principal belleza, perdeu-a com a innocencia.
Ja não cantava; andava silenciosa, desolada, como na afflicção de uma dôr que se não exprime. A unica pessoa que a amára verdadeiramente no mundo, seu avô, não tinha alma para perguntar-lhe o que a trazia assim oppressa.
Ella envergonhava-se das lagrimas, represava-as, bebia-as! Uma vez, pela volta das trindades, o velho voltava do trabalho; pousou a enxada ao canto da choça. Sentaram-se á mesa frugal; não comiam, preoccupados por uma angustia que se não atreviam a confessar um ao outro.
A final o avô perguntou-lhe com uma doçura inexcedivel:
--O que tens?
Ella prorompeu n'este instante em uma torrente de lagrimas irrepressiveis; ia para fallar, os soluços intercortaram-lhe a voz; atirou-se ao pescoço do velhinho, estreitou-o a si, sem poder fallar.
Era o maior golpe que o desgraçado soldado experimentava, o ultimo que lhe abalava a vida.
Comprehendeu tudo.
Traduziu as meias palavras da queixa dolorida, e soube que o filho do seu protector fôra o seu algoz.
Não podia accusal-o, vingar-se; era uma horrivel collisão de deveres! Ficou com a immobilidade do espasmo; hirto, como Bonifacio VIII diante da multidão que ia para despedaçal-o. Sentado á mesa, com a mudez do assombro, assim permaneceu a noite toda, até que ao outro dia deram com elle regelado, cadaver!
* * * * *
O desespero das imprecações do desgraçado da terra de Hus, deitado sobre o monturo, coberto de lepra, envergonhando-se da luz, desejando haver tido o sepulchro por berço e por seio que o escondesse a podridão e os vermes da terra, todo este cicio da immensa agonia da alma que se alevanta até Deus e na sua fraqueza lhe exproba a desegualdade da lucta, é uma das mais completas, a primeira manifestação do poema eterno da agonia.
Acorrentado sobre os fraguedos que te serviram de leito, Prometheu vencido, a Força e a Violencia guardaram os sarcasmos para a hora em que as extorsões convulsas não amedrontam os algozes; deixaram-te aos abutres famintos, fustigado dos ventos, mas ao menos o turbilhão erguia o grito da ameaça; o orvalho das noites refrescava-te o ardor da raiva, e o Oceano consolava-te porque te dizia: Prometheu, mesmo pregado contra essas rochas, sabes fallar ainda com liberdade! Deus banido, os outros deuses feriram-te porque nos alentaste a vida com a esperança; se é de força o soffrimento cumpra-se a fatalidade! Elles não conheciam as dôres fundas, que se não vêem, que matam lentamente, as dôres da alma, não as conheciam por isso não as infligiram. As grandes obras da arte, Job e Prometheu, foram os que fizeram sentir no mundo as maiores dôres; mas a dôr moral, que os deuses antigos desconheceram, a dôr muda, essa é uma creação do homem, o maior inimigo do homem.
Aquella mascara
I
A dôr transforma-te! Estás desconhecido. Já não tens o entendimento e a vivacidade dos dias da tua alegria. Que desastre repentino te deu essa immobilidade do espanto? Desfolharam-se tão cedo as flores da tua primavera; estão desbotadas as rosas de tua face, extincto o fogo d'esses olhos, que davam alma a tudo quanto dizias. A tua alma expandia-se, mostrava-se franca, como a verdade; illuminava-te o rosto, como um sol rutilante na immensidade tranquilla do mar. Eras exaltado, febril no que sentias; cada palavra tua era o ésto de uma paixão latente. Tinhas o segredo da fascinação, a magnanimidade do heroe, e a impenitencia do ergotista; eras a um tempo seraphim e demonio, podias transportar ao setimo céo, ou atirar ao barathro a mulher que te seguisse. Tinhas a consciencia da força e rias-te de todas as mulheres, não te affligia o amor. Ainda era cedo para pensares n'isso, se é que se pensa quando nos atiramos á luz que nos deslumbra. Comparavas a sociedade a um oceano revolto, e só tinhas em vista levar o teu baixel a porto seguro; a estrella que te guiava, a monção fagueira que desfraldava aos pontos do céo a tua vella branca que havia de ser, a não ser o amor? O amor era um pequeno movel para ti; a ambição dava-te maiores impulsos, querias ser grande e dominar, absorver os outros. De facto tinhas em ti um poder assimilador, reduzias os outros a ti. No meio dos caprichos da tua individualidade altiva, mostravas grandes verdades. Eras todo sensualista, cercavas a vida de prazeres, mas só d'aquelles que te proporcionavam os recursos infinitos da intelligencia. Para ti a arte era mais do que todas as sciencias do mundo, era a synthese suprema das faculdades do homem, porque é pela arte que elle adquire a consciencia de si. A acção justa, não a conhecias pela harmonia dos principios eternos da justiça, era preciso sobretudo que fosse capaz de produzir uma obra de arte. Todas as tuas posições eram esculpturaes, podiam-se reproduzir no marmore; não era a affectação que te levava a este estudo, eram as tuas idéas da eurythmia, a necessidade de completar as expressões de tua alma no movimento exterior que mais as significasse. Áquelles que não comprehendiam isto, que se riam e violavam os encantos da plastica, chamavas-lhes _Verna_, um nome insultante, com que mostravas a sua incapacidade para sentirem o bello. Dotado d'esta serenidade impassivel que tem o homem verdadeiramente superior, ás vezes não sabia porque deixavas um instante de ser bom; não se te dava de sacrificar os outros com tanto que te engrandecesses. Parecia um egoismo revoltante. Tu não professas a egualdade. Os _Verna_ existem, para que entulhem a valla em que o heroe poderia cair. Isto é assim. Já vês que te conheço. Para que te escondes agora? Porque me não contas a anciedade de todas as tuas dôres! Eu sou incapaz de te humilhar com a minha compaixão. Se te custa, não me digas tudo, deixa-me adivinhar, presentir o mais; temos em tudo a necessidade do indefinido. As grandes dôres são como as lagrimas; são mais ardentes á medida que se represam.
--Eu tenho vergonha de te não haver descoberto ha mais tempo o labor mysterioso que se tem operado em minha alma. Amo! Esta palavra diz tudo. A minha agonia provém do meu orgulho; é um golpe que dóe sempre, eternamente, que me faz ser máo, vingativo, e me dá força para esmagar os outros. Em mim o orgulho é o movel de todos os grandes sentimentos, é elle que me pôde fazer mais do que homem. Tu sabes perfeitamente a minha vida; tem sido até hoje um combate incessante; a aura pequena que me cerca, o favor e a consideração que tenho tem sido uma conquista infatigavel, como aquelles combates sangrentos da velha tactica nas minas e contraminas das fortalezas. Detestei a familia em que nasci porque foi a primeira que me humilhou e me queria egualar. Não imaginas que esforços inauditos para conseguir uma diminuta independencia á custa de um trabalho insano, o trabalho da intelligencia, que ninguem reconhece, que se não paga. Depois, vêr-me envolvido na alta sociedade, ter de competir e de mostrar-me forte, não querer que ninguem adivinhasse a minha indigencia! Não sabes, o que é voltar alta noite do ruido de uma grande festa e atirar-se um homem de cansado a cima de uma enxerga alastrada em uma mansarda lobrega, depois das mais brilhantes ovações, depois de ter aspirado o perfume quasi celestial da gloria. Quantos n'aquella noite não invejariam a minha transfiguração, sem saber que o Thabor por onde subia era semeado de cardos que me ensanguentavam. De um dia para o outro me vi cercado de gloria; fallava-se em mim, queriam vêr-me, estava em moda, era recebido como principe, festejado, seguido. Explicavam a distracção continua que me tornava alheio a este culto perenne, pelo extasi da alma, pela abstracção continua do espirito pairando entre o céo e a terra. Não era assim. Lembrava-me o passado, a miseria e o abandono do dia de hontem, e doía-me o contraste. A gloria só por si era pouco, não me saciava. Queria bastante gloria, mas para dal-a. Tinha necessidade de encontrar uma pessoa no mundo que vivesse da minha vida. Para amar tinha os typos da minha phantasia, desenhava-os a meu capricho, como queria, puros como Ophelia, dedicados como Griselidis, minhas, minhas como _la Belle au bois dormant_. Mas os dias corriam sem novidade de impressões, e os typos archangelicos que me cercavam, que evocava dos abysmos da imaginação ardente desamparavam-me como as filhas do Rei Lear. Lembras-te do quadro gigante traçado pela audacia de Shakespeare, quando o velho pae, com as cans fluctuando ao vento da tempestade, no inverno, caminha desolado no seu abandono? As filhas da minha imaginação desamparavam-me e o tedio da alma era o deserto glacial em que me via perdido. Eu sentia em mim bastante fogo, muita vida, para dal-a a quem viesse compassiva e não soubesse mesmo confessar o seu amor. Havia de interpretar cada olhar, como uma aurora que se abre, cada sorriso como uma cataracta de luz que nos envolve e nos confunde no infinito. Creara um longo sonho de amor, bello, bello, quanto sabia que era impossivel realisal-o no mundo. Por fim convenci-me tanto da verdade que o julgava possivel. Conheces estes sonhos dos nevoeiros do norte; quando a ondina se confunde na cerração, e o desejo vehemente de vel-a, de abraçal-a, começa pouco a pouco a dar-lhe fórma, a vestil-a de realidade, até que um dia se sente nos braços d'aquelle que a trouxe um momento á existencia pelo ardor da aspiração? Foi como encontrei a mulher que primeiro me fallou de amor. A confiança d'ella fez-me grande. Disse-me que não queria a minha gloria; que antes me queria obscuro para ter de amar só a mim. Deixei-me levar por aquellas palavras que eram uma musica celeste; quando já não podia resistir a mim mesmo, o orgulho atacou-me de frente.
Disse-lhe então que era impossivel o amor entre nós. Rica, bella, não podia ser amada desinteressadamente, ao menos diante do publico. Tinha vergonha que dissessem que a amava pela fortuna que possuia; esmagava-me esta idéa vil do senso commum. Desde esse instante procurei combater-lhe o sentimento puro que me revelara. Descobri-lhe uma rival, com quem ella, apezar de todos os encantos, não poderia competir, que a deixaria na sombra a estiolar-se, emquanto se aureolava de luz, se dava á adoração de todos; era a Arte, a Arte! Quando lhe descobri esta atrocidade do egoismo, em vez de desmaiar e desfallecer como aquella ingenua e timida donzella que se prostra ante a magestade olympica de Goethe, repellida pela sua rival a Arte, que a lançou fóra do seu templo, pelo contrario se enlaçou a mim com uma candura infantil, despreoccupada, beijou-me em delirio, segredando-me com uma voz que se coava por mim, que me vencia: O que é a Arte sem a realidade! Depois disse-me com a voz languida, frouxa, impensada como a melodia de uma harpa eólia: «Eu bem sei que não tenho uma belleza que deslumbre; nem ella existe senão para exprimir algum sentimento. O que agora se passa em mim é uma verdade, é por isso que as outras me chamam bella. Se eu tivesse uma correcção de fórmas como um marmore antigo, tinha medo, sabia que não era amada por mim, que me adoravam os contornos da plastica. Gosto mais de ser como sou, posso ser amada com mais verdade.» Sentia-me mais do que Deus; elle nunca teve uma adoração assim; tinha vontade de precipitar o tempo, e chamar-lhe minha. O amor ia crescendo de dia para dia. Diante da mulher que eu sonhara, era preciso mostrar-me grande para merecel-a. «Eu bem sei que a minha familia hade combater o nosso amor; que importa! Tenho medo de não poder luctar. Se me violentarem a casar com outro, tens direito a reclamar quando quizeres o teu amor.» É impossivel! Nunca. Essas palavras na bocca de qualquer eram infames, abjectas; ditas por ti, são uma dôr funda, a abnegação de quem não sabe resistir. Eu pensava em alcançar uma posição social á custa de todos os esforços; depois iria pedir a sua mão de esposa. O successo está em não precipitar o tempo. Confiava na minha vontade inabalavel. N'um instante desampararam-me todos os planos de felicidade; vi-me só! Não sei mesmo a quem accuse. Seria por força minha, se eu podesse ser infame. Ninguem mentiu. Perdi-a para sempre; entre nós ergue-se o impossivel. Eu nunca duvido do seu amor; mas de que me serve agora, que é já realmente de outro homem? Não sabias que estava já casada? Não sei como explicar isto! Ella tinha um primo, o unico herdeiro de um titulo, das grandes riquezas de sua familia. Era a ultima pessoa que restava, rachytico, infesado, com a doença hereditaria, que foi levando um após um os seus irmãos. Voltara de uma viagem pela Europa; elle mesmo chegara a esquecer-se do praso fatal que lhe estava imposto pela doença. Apaixonou-se pela prima, pediu-a, dizendo que não queria deixar extinguir-se o nome de sua casa. Accederam immediatamente. A victima innocente não pôde resistir a estes combates domesticos, de todos os dias; deixou-se levar, como o cordeiro do sacrificio. Vi-a pela ultima vez no carro com o noivo; senti-me pequeno e envilecido, parece que me enterrava pelo chão. Depois não tive coragem de apparecer. Temia os epigrammas dos outros. O orgulho é o meu maior algoz; devora-me como um cancro. Sinto-me máo, com vontade de esmagar os outros, não comprehendo a generosidade. Este desgosto fez uma alteração profunda em minha vida; nunca mais posso fallar verdade, porque me mentiram no momento mais santo da vida. Sinto-me com a imbecilidade do assombro, estou estupido; sou um involucro vasio, abandonado pela borboleta; como uma concha atirada do fundo do mar immenso a uma praia deserta. Apossa-se de mim um desespero insoffrido ao lembrar-me que ainda sou criança, e que tenho de arrastar uma vida erma de todas as esperanças.
--Eu bem sei que não mentes, que não é imaginaria a tua dôr. Basta olhar para a tua face; tem empanado o brilho da mocidade; é como um lago que vae perdendo a limpidez, e que as bafagens mornas evaporam. Eu queria saber consolar-te sem te humilhar. Bem sei que é muito difficil. Não achas a minima distracção onde os outros encerram todos os seus prazeres. Deixa que a tua indifferença te leve. A mulher que amaste é hoje condessa, e abre os seus salões aos amigos que festejam os annos de seu marido. Vem commigo. É um baile de mascaras. Ninguem te póde descobrir; eu apresento-te como um amigo intimo. Tu precisas cauterisar essa agonia. Vem vestir-te.
II
Pela volta das onze horas da noite os dois mascaras foram introduzidos na sala do baile. Era mais vivo o estridor das walsas; as côres deslumbrantes, as pedrarias, os reflexos da luz, a confusão e o delirio, os pares enlaçados n'um volteio frenetico, tornavam communicativa, convulsa tamanha alegria. Entraram desapercebidos, sob dominós singelos. Debaixo de uma mascara de setim ninguem sabia que andava escondido um grande desgosto; a mascara servia mais para não deixar ver aos outros aquella tristeza funda que não era para ali. Ia pelos salões olhando, seguindo, como quem caminha nas trevas. Cada vulto que passava, gracejando, rindo distraído, parecia-lhe uma larva errante n'um páramo deserto. Tanta mulher bella, tantas palavras de amor, vibradas tremendo, e nem uma sombra leve de verdade. Como os homens se alegram quando sabem que estão entre si a mentir!
N'essa noite a condessa estava arrebatadora de encanto; acabara de tirar a mascara n'esse instante, e o calor que lhe afogueava a face dava-lhe uma côr lasciva, de endoudecer; o cansaço, os labios entre abertos, que estavam como a pedir beijos, tornavam-na languida, voluptuosa como a huri mais ideal dos sonhos do propheta. Caiam-lhe algumas tranças desprendidas no fragor da dança, sobre os hombros alabastrinos, como n'uma travessura, como os cabellos de uma odalisca que se alevanta do banho embalsamado e tépido. Uma das rosas da sua grinalda caiu casualmente no chão. O olhar mais ardente e expressivo de uma mulher, não podia ser tão fatal como a queda d'aquella rosa. A mascara de setim aproximou-se mysteriosamente e ergueu-a do chão. A condessa seguiu-a vagarosamente com a vista, e esperava que a flor lhe fosse restituida. O mascara escondeu-a em si, e confundiu-se nos grupos que se cruzavam. Ninguem deu por isto. Depois a orchestra rompeu com as notas estridentes e repentinas de uma contradança.
--Digna-se V. Ex.ª dar-me a honra de ser meu par?--disse o mascara de setim aproximando-se levemente da condessa.
--Com tanto que diga para que escondeu a rosa?
--Se escondi a flôr, temia que a calcassem aos pés. Custava-me tanto vêr esmagada a imagem mais triste de minha alma.--Apenas proferidas estas palavras com a voz abafada e tremula, a condessa ergueu-se de subito, hesitando se deveria ouvir uma confidencia que a compromettia; o mascara de setim deu-lhe o braço e foi collocar-se ao fundo da sala diante do seu vis-a-vis, triumphando d'aquella irresolução.
--E o que pretende fazer d'essa flôr?
--Guardal-a.
--A sua determinação leva-me a perguntar quem lhe deu direito para tanto?
--Não devo dizel-o.
--Ordeno!
--Não é justo satisfazer todas as indiscrições, principalmente quando...
--Complete a phrase.
--A ingenuidade de criança...
--Diga tudo.
--É irresponsavel pelo passado.
--Não comprehendo!--Retorquiu a condessa fitando a mascara, procurando em vão surprehender debaixo d'ella quem seria capaz de fallar assim. Um mixto de terror e de curiosidade embaraçava-a, não sabia o que devia fazer. Depois de alguns instantes de silencio, disse quasi em lagrimas:--Tenho medo de si! Oh dê-me essa flôr.
--Nunca!
--Exijo!--tornou a condessa com a voz sumida, sentindo-se dominada pela fascinação do desconhecido.
--Aqui está a rosa,--disse o mascara tirando do seio a flôr quasi murcha.--É impossivel entregal-a. Eu posso exigir mais em paga d'ella. Posso exigir tudo! É uma promessa inviolavel como o juramento. Um dia a mulher que eu amava, no extremo de sua vertigem e loucura por mim, prometteu ir até onde eu estivesse, e ahi entregar-se-me, se soubesse que eu tinha a vida contada por instantes, e havia de saír d'este mundo sem abraçal-a ao menos uma só vez como minha. Os desgostos têm-me devorado lentamente a existencia; presinto a cada instante em mim a frieza do sepulchro, e não soube ainda erguer a voz e reclamar a promessa fatal. Nem eu a quero! Bastou-me ouvil-a para antecipar no mundo todas as venturas do empyreo. Deseja a rosa ainda?
--O senhor dilacera-me!--volveu a condessa com a voz dorida, e com uma delicadeza inexcedivel.
--Se a flôr que deixou cair está cheia de espinhos! Não me atrevo a entregal-a. Dou pela rosa a unica idéa que me podia fazer persuadir que ainda vivo! É uma troca generosa! Acceita? Um dia a mulher que eu amava, conheceu a desegualdade da nossa posição, disse-me, de um modo que só ella saberia dizer sem macular a ingenuidade de sua candura:--«Se me violentarem a casar com outro, tens direito a reclamar quando quizeres o meu amor!» Seria uma infamia vir lembrar-lhe uma palavra proferida no momento mais exaltado da paixão, para perdel-a por um capricho. Não vale essa promessa. Agora ainda quer a flôr?
--Oh, não! não!--accudiu a condessa represando as lagrimas que lhe inundavam os olhos scintillantes.--Eu não sei o que quero agora! Ninguem podia fallar-me assim a não ser... Fale-me, eu estou conhecendo esta voz! É impossivel que não seja! Não sabe como é horrivel esta incerteza. Não o julgo capaz de atraiçoar-me! Erga uma ponta da mascara, deixe-me vêl-o, a mim só, e fico descansada.
--Eu não podia atraiçoal-a, nem mentir-lhe. Sou quem imagina; vim para vêl-a pela ultima vez, porque me sinto acabar; estão contados os dias da minha vida; passo com as folhas d'este inverno. Bem o conheço, e resigno-me. Não pensei que o primeiro amor que se tem na vida poderia ser tão funesto.
--Oh, não falle assim, que me mata! Eu tenho remorsos de não ter luctado mais tempo; não tive culpa; minha familia quiz a minha infelicidade. Eu amo-o porque não sabe accusar-me. Quero vêl-o! já que não é possivel mais. Tire por um instante a mascara. É o que ouso pedir-lhe.
--Eu tenho medo de arrancar a mascara; está pregada com o suor frio que me escorre da fronte. Para que me quer vêr? Estou tão demudado! Não sou o mesmo. Deve ter horror de mim; estou quasi esqueleto.
--Por um instante só! quero vêl-o, afaste um pouco a mascara.--N'este instante a condessa voltou a face de aterrada. Contemplou de relance os estragos que uma dôr lenta fizera sobre as faces tão animadas que primeiro reflectiam os seus primeiros rubores. Fez um esforço inaudito para suster-se; a mascara de setim deu-lhe novamente o braço e foi sental-a no mesmo logar onde tinha caído a rosa da grinalda; depois segredou-lhe umas palavras de abnegação e bondade:
--Esta rosa é a primeira que hade reflorir sobre o meu sepulchro.--E saiu; a noite ia remota; os alvores da madrugada luctavam com as luzes baças das salas, o acordar da natureza com o ruido vertiginoso da festa; o tedio e o cansaço traziam a desanimação, como acaba sempre o baile mais esplendido.
III
Apezar da impertinencia de rachytico e da estupidez vinculada na sua descendencia, o conde tratava perfeitamente sua mulher. A causa d'este respeito provinha da desegualdade, da força de intelligencia, da graça com que ella se tornava interessante para todos. Admiravam-n'a, e esta veneração reflectia-se um pouco sobre o marido. O conde sentia que sua mulher lhe dava a importancia que não tinha por si, e respeitava-a tambem.
A alegria com que ella andava! Sentia-se mãe, tinha vontade de amar. Dera-lhe Deus um filho, uma alma para o seu amor. Parecia-lhe que ao beijal-o, ao tel-o sobre os joelhos, se esquecia de tudo, de um passado feliz, de uma união forçada, do vasio da existencia, mesmo d'aquella noite ligeira, em que contemplou as ruinas que fizera, e que lhe deixou recordações pungentes, infinitas. Depois, a lembrança do passado amor, o primeiro, o puro, o intimo, vinha unir-se a esta idéa risonha de ser mãe, que a fazia esquecer-se de tudo! Pobre mãe! O conde preoccupava-se apenas com a existencia de um herdeiro. Era o que bastava. Almas vis que destroem o que ha de mais santo na vida pelo interesse mercenario! Doente, no seu amor a mãe sentia-se cada vez mais compassiva; lembrava-lhe a rosa que lhe tinha caido do cabello, o cavalleiro que lhe fizera a despedida para o sepulchro, e esta saudade começou vagarosamente a influir, a exercer uma acção mysteriosa sobre o feto. Não é estranho este phenomeno maravilhoso em physiologia. O segredo da callipedia das mães gregas consistia em contemplar estatuas admiraveis cuja belleza se reflectia depois nos filhos.
Passados mezes veiu á luz a criança. O conde andava louco com o nascimento do filho. Á medida que os traços da physionomia se iam precisando, a criança parecia-se menos com o conde; elle começou a observar isto. Não se atrevia a fazer uma accusação. Era impossivel. Depois as desconfianças tomaram corpo em sua alma, quando viu que a creança se parecia muito, muito com o rival, que preterira. Com a malignidade acintosa de achacado, foi torturando com esta atrocidade a tranquilidade de sua esposa. Ella, quanto mais se refugiava no passado, tanto mais via o filho represental-o diante dos seus olhos. Não sabia defender-se; a innocencia não se preoccupa com argucias, não quiz resistir, e deixou-se vergar pela dôr. Foi a definhar-se lentamente no soffrimento mudo d'esta impia injustiça. Assim a rosa que refloriu sobre um sepulchro que impensadamente abrira, veiu cahir desfolhada pelas virações da tarde sobre a terra fresca que acabava de a cobrir.
A rosa de Sáron
(POEMA EM PROSA)
I
Era noite; o som do _sino corrido_ ecoára pela Judiaria; emmudeceu como se as passadas lentas de um convidado de pedra troassem no meio das risadas de um festim. A alegria e o ruido do trabalho suspenderam-se; os mesteiraes e homens de officio fecharam as portas; os christãos, odiando a raça maldita, separaram-se, deixando-a ao medo da noite. Então na pequena casa do judeu accende-se a luz do lar; cansado de receber insultos durante o dia, de vêr em roda de si a vileza e a traição, a lei e o fanatismo a ameaçal-o, esquece por um instante os planos da sua industria, os recursos com que produz o ouro e os capitaes com que hade comprar a sua segurança, e entra no fóco mais intimo da familia. Entra prostrado; banha-lhe o suor as faces, traz o desgosto pintado na fronte encanecida, vem afadigado das longas migrações, amedrontado pelos terrores das grandes crises do estado; ao asylar-se no remanso da casa, entra como o errante do deserto em um oásis desconhecido; o semblante tranquillo da esposa lembra-lhe o typo de Esther, da Sulamite, de Débora, da Sibylla palestiniana, e abraça-a com a sofreguidão com que umas fauces resequidas se dessedentam em uma nascente viva. Vêm depois os filhos, debruçam-se-lhe dos hombros, prendem-se-lhe ás pernas, enlaçam-se em volta do corpo, e n'essa hora o judeu sente-se outra vez forte para todas as luctas, para todos os opprobrios, para todos os vexames, com alma para affrontar a miseria e o queimadero. Falla das tradições de Israel, da sua migração através dos seculos, da terra promettida, e do Messias, não o idolo papal que se impõe pela fogueira, mas a boa nova da egualdade e da liberdade humana.
II
Na Judiaria, habitava um velho negociante de joias e pedrarias; quando algum potentado casava, mandava sempre ali escolher o presente de noiva, a compra de corpo, o dom da manhã. Elle tinha as pérolas das mais lindas do fundo do mar; as rochas mais encantadas do Oriente tinham entregues ao joalheiro os brilhantes facetados da agua mais limpida; topazios, esmeraldas, adereces, diademas, nunca o thesouro da Senhoria de Veneza reuniu riquezas de tanto gosto e primor. Viera de Hespanha, no tempo da grande expulsão dos judeus por Fernando e Isabel; o facho de Torquemada allumiou-lhe o caminho de Portugal, terra da tolerancia e da paz. O clima, o ár, a doçura do céo, lembram-lhe o Oriente; elle ama como filho a boa terra luzitana. Voltava do trabalho á hora do sino corrido; deixava o thesouro que faria a inveja de bastantes thronos, mas vinha vêr outro thesouro, o mais querido, e extremecido--uma filha de quinze annos. Chamava-lhe o bago das vinhas de Engadhi; chamava-lhe a Rosa das campinas de Sáron, irmã gemea da filha de Jephté, pura como Débora, deslumbrante como a Sulamite.
III
O pae entrara para casa; veiu a filha abraçal-o quasi á porta. Se o bom do velho não recearia que lhe descobrissem essa flôr escondida! Esperava-o a tranquillidade do lar; os risos e folguedos das outras crianças faziam-lhe esquecer os apupos e maldições da gentalha. Jogral de um povo rude, o lar tornava-o um patriarcha, um levita, sacrosanto como Moysés descendo o Monte do Senhor. Sentou-se de cansado. Tinha perto de si o _Guemára_; ao lado vem assentar-se a filha, Ebla, assim chamada do nome da Lua, como conta o velho _Livro de Enoch_. Ebla fallou-lhe:
--Nunca mais tornaremos a vêr Sião, e os tumulos dos prophetas? nem escutaremos o susurro dos nossos rios?
O pae, emquanto as outras crianças brincavam, poisou o dedo sobre o verso do _Guemára_, volveu-lhe um sorriso doloroso.
--Virgem do côro das donzellas de Sião, os nossos filhos continuam a nossa existencia na terra; assim como o castigo vem dos paes sobre a cabeça dos filhos, o Senhor tambem recompensa nos filhos os bens que os paes tiverem merecido. Ha quantos seculos andamos longe de Sião bemdita; eu sinto que os meus não pisarão o solo da terra promettida; mas vejo-te ao meu lado, como a flôr que brota de uma ruina; eu não poderei entrar na Cidade dos prophetas, serei como Moysés no alto do Abarim; mas o Senhor deu-me uma esperança, fez-te nascer em meu lar, filha. Assim o fanatismo e a atrocidade me não arranquem a vida. Uma noite, eras tu ainda pequenina, em Toledo; a noite ia escura e carregada, chovia, cruzavam-se os raios. Soôu na Judiaria uma voz sinistra: Ás onze horas do sino da Cathedral, a hora em que deviamos abraçar a religião de Christo, seriamos lançados nas fogueiras das praças ou abandonar para sempre a formosissima terra de Hespanha. Os meus thesouros lá ficaram, e dei-me por feliz em trazer-te commigo. Portugal anda entregue ás descobertas e aventuras do mar; os odios de raça ainda cá não tinham sido exaltados pela classe dos tonsurados. Trouxe-te ao collo, e tu me deste animação e alento na fugida.
--Ó meu pae, accudiu Ebla, passou hoje pela nossa porta uma cigana, cantando romances e siguidilhas de Hespanha, e pedi-lhe para ella cantar...
--E que ouviste? interrompeu o judeu aterrado.
--Ella contou-me que el-rei D. Manoel vae em breve casar com a filha de Fernando e Isabel a Catholica, e que ella só acceita a mão de esposo com a condição de desterrar para sempre os judeus para fóra de Portugal. E acompanhava a noticia com a cantiga castelhana:
Ea! Judios á enfardelar!... los Reyes mandan passar la mar.
O velho judeu ficou assombrado; fechou o _Guemára_, e repousou a cabeça sobre o livro. De repente sentiu-se eccoar pela Mouraria o som secco e repetido de uma matraca, e de espaço a espaço, a voz do pregoeiro das justiças, bradar:
«Ordem d'el-rei para os judeus de Lisboa se apresentarem na alvorada com uma dança judenga, guisos, touras e guinolas, para irem receber o séquito da nova rainha. Soffrerá pena de morte o que levar armas comsigo. O rabbi da Judiaria irá na frente das dansas.»
Debaixo das janellas do velho judeu soaram estas palavras. O canto da cigana revelado pela filha lembrou-lhe um presagio funesto.
--Patriarcha no lar e truão nas ruas! cumpra-se o destino a troco da paz.--E levantou-se com o aspecto venerando de sacerdote magno, e foi sacudir a sua vestimenta de guisos, procurar a palheta, emquanto esperava o toque da alvorada.
IV
Lisboa tumultuava em festa immensa; arcos e flôres, salvas de artilheria, estandartes, musicas, annunciavam o dia da chegada da infanta D. Isabel, mulher do monarcha Venturoso. Já se sentia o estrépito do cortejo real; pelas portas da cidade vem entrando as dansas dos mesteiraes. Primeiro, vinha a _Folia_, com gaitas e pandeiros á velha portugueza, dansando em volta de um tambor; trazem guizos nos pés, cantam letrilhas de folgar e sainetes galantes; os guizos dos artelhos no reteninte som confundem as coplas. Com gentil ademan no ár volteiam lenços acenando. Vinha depois a _Carraquisca_, a dansa dos barqueiros e mareantes dos galeões do Tejo; trazem andando um balanço que imita um bambula dos pretos, aprendido lá nas conquistas. Vae passando a _Cativa_, uma outra dansa de agrilhoados mouros, bailando aos modos da Salé, vão confessando preito á nova rainha. Já vem perto a _Gitana_, toda feita de ranchos de raparigas vestidas de variegados pannos, cintos de ouro e vermelho; voam-lhes as roupagens com o vento cruzando facas entre si, ao doce baylo da _Mourisca_, que os sentidos fez perder com a trisca dos volteios. Eis que chega tambem a _Dansa judenga_! Os apupos do povo alevantaram-se furiosos chamando-lhes traidores; as vaias e as pedradas eram pelo ár sem conto; a plebe desenfreada atira-se de roldão sobre a _judenga_ ao entrar da cidade, e abafam as queixas dos opprimidos com risadas. Vinha na frente o velho Rabbi, dirigindo a guinola e toura, quando um malvado lhe arrepella as barbas brancas. Os olhos do veneravel velho chamejaram de indignação e vergonha; levantou a palheta de bobo que bamboava nos ares, e descarregou-a na cabeça do atrevido, com a mesma altivez de animo do velho Consul da cadeira curul. O villão cahiu por terra e lá ficou calcado aos pés da multidão que se atropellava e ruía furibunda sobre a desgraçada dansa judenga. O velho Rabbi fugiu a todo o custo; a multidão precipita-se apoz elle; gritando, chamando-lhe réfece assassino. A noite vinha descendo, e protegido pelas sombras do crepusculo se ia livrando dos golpes que lhe atiravam. O velho ia quasi exhausto, a turba que o perseguia ia rareando apoz elle; já poucos o seguiam; mais um esforço, e ficaria salvo; as pernas parecem falhar-lhe, falta-lhe o ar; sente vontade de atirar-se ao chão e deixar-se retalhar. Mas um raio de luz e de vigor lhe atravessou o espirito; lembrara-se de Ebla, de sua filha!
Ia o velho Rabbi a entrar já na Judiaria, estava quasi á porta de casa quando um dos poucos populares que ainda vinha atraz d'elle lhe deitou a mão. Inesperadamente veiu-lhe um soccorro imprevisto; um donzel do séquito do principe Dom Affonso, e que andava ainda triste com a morte do seu joven amigo, sentiu um impulso do bem e defendeu o velho judeu. Desembainhou a espada e os populares retiraram-se. O Rabbi bateu á porta; abriram. Á luz de um candil viu o moço cavalleiro a cara mais linda de nazarena, os olhos mais languidos que não teria a Sulamite; o sorriso mais puro, a graça, a meiguice, a expressão de Quirub. Que contraste! na rua o genio do mal a seguil-o, em casa o anjo da candura a allumial-o, a inspirar-lhe serenidade.
O velho Rabbi vinha ensanguentado e roto; ao receber o abraço de Ebla tirou-lhe do pescoço um colar de perolas, e veio dal-o ao desconhecido. O moço cavalleiro beijou-o, e tornou-o a entregar.
--Quem és, que te mostras tão generoso e cavalleiro? perguntou o Rabbi.
--Dom Tello; e adeos!
O moço cavalleiro perdeu-se na sombra da noite; ai d'elle se a essa hora entrasse em casa do judeu; a lei era implacavel; condemnava-o á pena do fogo.
O velho Rabbi sentou-se offegante, com a cabeça encostada aos hombros da filha. Quiz começar a fallar-lhe mas as lagrimas e os soluços irrompiam frequentes. Alfim, pode ligar as palavras e contar-lhe o succedido.
--Oh meu pae; parece que os nossos desastres não acabaram aqui. Hoje passou rente á gelosia uma cigana, e parou a cantar, e dizia que el-rei D. Manuel casando com a infanta de Castella, a primeira promessa do seu dote era tirar aos judeus os filhos de menos de quatorze annos, e baptisal-os á força, e matar os mais velhos e pol-os fóra de Portugal...
--Filha, é o céo que manda esse aviso; tu foste a minha providencia.
E desceu a um subterraneo da casa, e lá se entreteve sósinho dispondo as suas riquezas para a hora da expulsão.
Ebla ficára por instantes só; revolvia na mente o dito da cigana; nas cantigas a cigana dissera-lhe mais cousas: Que um cavalleiro moço e formoso a adorava; que por ella seria capaz de abandonar a religião em que nascera e seguil-a até aos confins do universo. E que se um dia visse um moço trigueiro, de bigode preto e olhos vivos, faiscantes, era D. Tello, aquelle que a adorava. Ebla atou na mente esta lembrança; lembrou-se que Tello, o moço cavalleiro acabava n'esse instante de salvar o pae. Nasceu-lhe na alma um amor repentino; veiu-lhe uma vontade de vêl-o, de lhe fallar; notou a generosidade de não acceitar mas beijar o collar de pérolas. Solícita e a medo assomou á gelosia; a luz do candil reflectiu-se fóra, através das grades da adufa. Sentiu uns passos na rua, depois uma voz mansa e suave que proferiu no silencio da noite:
--Ebla!
Estes sons entraram na alma da donzella; e obedecendo á fascinação d'aquella voz, lançou a cabeça de fóra. Viu na sombra um vulto, que a irradiação lhe illuminou como a imagem vaga descripta no cantar da cigana. Aquella voz, como vibrada por um verdadeiro amor, disse-lhe com o imperio de uma vontade irresistivel:
--Vem.
Ebla desceu em cabello, e sentiu-se envolver em um abraço apaixonado, vehemente, expressivo. Era a primeira vez que sentia o amor. Deixou-se levar sem saber porque, nem para onde.
N'aquella noite, com as festas do casamento de el-rei D. Manuel, as portas da Judiaria ficaram abertas. Ebla e D. Tello afundavam-se na escuridão da noite, quando entra na Judiaria um tropel immenso de homens de armas e de cavallo; ia na frente o alcaide da justiça. Ao som de uma matraca restabelecera-se o silencio, e pela escuridão sombria e soturna da Judiaria soava uma voz sinistra, como de sentença:
«Pregão d'el-rei D. Manoel, para os judeus, ao toque da alvorada, embarcarem para fóra de Lisboa, sob pena de morte.»
A palavra morte accendia na multidão um enthusiasmo frenetico que apupava, ameaçava e esbravejava cantando entre risos alvares:
Ea! Judios á enfardelar!... los Reyes mandan passar la mar.
Áquelle grito sinistro, toda a judiaria se levantou em pezo; do fundo do seu subterraneo saiu o velho Rabbi, solicito, temeroso, mas constante. Ouviu proferir a sentença ominosa. Chamou por sua filha, e foi accordar as outras crianças que dormiam; a mulher voltou apressada do pé dos thesouros. Tornaram a chamar por Ebla; o grande ruido das ruas e da multidão nada deixava perceber. Chamou por Ebla com uma afflicção de morte; viram a porta aberta; multidão de gente que tripudiava, lançando fogo ás casas. O velho pae parecia um leão ferido.
--A maldição d'esta raça caiu inteira sobre mim. Perdi tudo ao levarem-me essa filha. A minha condemnação, a minha morte para salval-a. Se ha no mundo alguma força superior, que seja o destino das cousas, Jahvé ou Jesus, acaso ou as potencias do inferno, conjuro tudo sacrifico-lhe a minha vida, a minha sorte pelo apparecimento d'Ebla. De que vale todo esse ouro e pedrarias se perdi Ebla; levaram a minha joia de mais valia, e com ella todas as esperanças e alegrias da minha vida...
Era incomportavel a dôr do velho; ia continuando, frenetico, doido; queria fazer-se christão para procurar a filha, quando eccoou de novo a voz do alcaide da alta justiça:
«Soou agora o toque da alvorada; o incendio lavra já na Judiaria!--Ao embarque, ao embarque nos galeões do Tejo, ou a morte á escolha.»
O velho Rabbi saiu com sua mulher e dois filhos pequenos, levados em tropel confuso e lamentos para o Tejo, aonde se enchiam os galeões de Hollanda, e resoava o ecco lugubre:
los Reyes mandan passar la mar.
Os quatro filhos d'Aymon
(CONTO DO CERCO DO PORTO)
Havia tres dias que o Marechal Solignac desembarcara no Porto com alguns soldados belgas; com elles entrara tambem para dentro do cêrco um terrivel inimigo--o cholera-morbus. Aos tiphos, que já devastavam a cidade, veiu ajuntar-se essa nova desolação, para tornar mais completo o triumvirato da morte. De cem pessoas, atacadas diariamente, succumbia um terço. A fome ia conduzindo ao desespero, porque, além das forças inimigas, desde janeiro que os vendavaes bloqueavam a barra. Á falta de carne, os doentes eram sustentados a sôpa de bacalhau; os caldos eram temperados com assucar e aguardente, as camas eram desfeitas para sustento dos cavallos, e, além dos preços dos generos encarecerem, os mercieiros vendiam falsificações doentias, taes como de azeite e oleo de linhaça, ou de manteiga e sebo. Era preciso luctar com a fome, e em fevereiro começou a distribuir-se uma sopa economica, de um quartilho de caldo de feijão com arroz e farinha de trigo; no primeiro dia acudiram trezentas pessoas, ao segundo dia subiram já a setecentas as rações. Emfim, desde a perda do reducto do Monte de Crasto, que Solignac apenas conservou oito horas, as condições de resistencia da cidade tornaram-se desesperadas; derrotado o marechal, na sua tentativa de assalto ao Castello do Queijo, em 24 de janeiro, a consequencia desastrosa fez-se logo sentir. O inimigo comprehendeu que, fechando a barra do Porto, venceria o cêrco pela fome. Para isso fortificou quasi toda a costa, e levantou a terrivel bateria de Serralves, que cortava toda a communicação com a Foz. Pelo seu lado, os liberaes reforçaram o reducto da Senhora da Luz e occuparam immediatamente as alturas do Pastelleiro e do Pinhal. Mas a resistencia ia-se tornando cada vez mais inutil, porque além da chuva de granadas que cahiam dia e noite sobre a cidade, além da recrudescencia do cholera, para o qual já não bastava o hospital da Quinta dos Congregados, o mar conservava-se tão tempestuoso que não era possivel apparecer véla alguma no horisonte! Foram quarenta dias desesperados, quarenta dias em que esteve tudo perdido, menos a força moral.
A historia official, subordinada á exacção dos boletins de campanha, não allude a este cyclo dos quarenta dias do principio do anno de 1833, e comtudo n'esse periodo de desolação extrema é que se praticaram os maiores rasgos de validez moral: todos foram heroes, as mulheres, os velhos. É triste que homens do talento de Garrett e de Herculano, e mesmo generaes que sabiam trocar a espada pela penna, e que foram heroes n'esses grandes dias de sacrificio, se não lembrassem de colligir as sublimes tradições epicas do cêrco do Porto, que ainda casualmente se repetem. Essas tradições vão-se perdendo, como toda a poesia de um povo, que começa a morrer pelo esquecimento do seu passado. Contaremos um d'esses esplendidos episodios, desconhecido dos historiadores, mas conservado ainda na vida burgueza do Porto; pinta-nos o espirito de resistencia em que a cidade se achava, n'esses quarenta dias decisivos.
A 4 de março, as tropas de D. Miguel foram atacar as posições dos liberaes na Foz, seguras de que era já impossivel sustental-as mais tempo; no meio da sua hallucinação, os atacados tomaram a offensiva, e os rebeldes retiraram-se deixando duzentos mortos no campo. D. Pedro, que gastava os seus esforços em conciliar os generaes despeitados, apparecia sempre em todos os momentos de conflicto. Era junto dos soldados, ao pé dos voluntarios burguezes, que elle readquiria confiança e se mostráva alegre, presentindo o triumpho da causa da liberdade. D. Pedro appareceu na bateria da Luz; foi ahi que se lhe tornou reparavel um velho que elle encontrava sempre vagabundo pelas linhas, nos pontos em que eram renhidos os ataques. Notou que o velho andava desarmado, e observando diligentemente; não pôde deixar de dirigir-se a elle com um interesse e familiaridade em parte provocados pelo seu aspecto venerando e cheio de auctoridade:
--Amigo! que faz você por aqui?
--Senhor, tenho aqui nas linhas um filho.
--Bem; então ande á vontade, se não tem medo das balas.
--Medo das balas? Isso são confeitos de noivado. Não tivesse eu cá os meus setenta e quatro, que outro gallo cantaria.
--O seu filho, vê-o d'ahi?
--Por ora ainda o vejo. Não estou aqui por ter medo de perdel-o; é para ir socegar as mulheres, as irmãs, que sempre estão com cuidado. Querem saber alguma cousa das linhas.
Este dialogo foi interrompido por um toque de carga á baioneta; pode-se imaginar quem trouxe para a cidade a noticia do triumpho. Chegou o terrivel dia 24 de maio; estava acabado de construir o reducto das Antas, guardado apenas por trinta soldados de caçadores 5. N'isto, as tropas inimigas, de dois mil homens, tomaram o reducto das Antas! Era preciso desapossal-as, a todo o transe, e de facto não poderam conservar o reducto além das tres horas da tarde desse dia. Infanteria tres, nove e dez, quarenta lanceiros e um batalhão inglez cumpriram o seu dever; foi uma refrega atroz. O Monte das Antas ficou juncado de cadaveres; mais adiante, na Casa Negra, era ainda maior a carnificina.
Foi no combate da retomada das Antas que D. Pedro tornou a encontrar o velho burguez; já lhe haviam dito como se chamava. Era o contraste do ouro, o typo do antigo homem bom, chão e abonado, como o caracterisa a Ordenação do reino; chamava-se Cosme Martins. Assim que D. Pedro deu por elle no tropel, destacou-se dos officiaes, para fallar-lhe:
--Outra vez por aqui, com este fogo?
--Tenho cá outro filho.
--Outro filho? Como se chamam os rapazes?
--Na bateria da Luz está o meu Eduardo, tem dezenove annos feitos.
--Póde bem com a espingarda. E o outro?
--Está aqui nas Antas; é o meu Thomaz, já formado em leis.
Em meio da conversa, D. Pedro foi interrompido por uma d'estas circumstancias que se dão em todo o campo de batalha; vieram contar-lhe como se achara uma carta na algibeira de um morto por onde se sabia que era o major dos realengos de Trancoso. Não se tornaram a vêr, n'esse dia, o velho e D. Pedro.
A sete de abril, descobriu-se a longa estacada feita pelos inimigos desde as primeiras casas de Paranhos até á Eira do Covêlo. Queriam fortificar-se alli; não havia tempo a perder; era preciso desalojal-os. A artilheria dos liberaes começou a responder desde as nove horas da manhã, e durou o fogo até ás seis horas da tarde. Cruzaram-se as baterias da Gloria, do Pico das Medalhas, do Serio, da Aguardente e de S. Braz. Uma força de mil homens sahiu fóra das linhas, para tomar de assalto o monte do Covêlo, que os inimigos abandonaram. Porém, no dia 10, os miguelistas voltaram, com o intuito de retomar os pontos perdidos, onde os liberaes tinham levantado um reducto em menos de oito horas. Estavam lá dentro apenas duzentos soldados; foram atacados por mais de dois mil dos rebeldes, que chegaram até dez passos de distancia. No meio do fogo, quasi á queima-roupa, jogavam-se os insultos que tornavam mais violento o ataque; de dentro perguntavam aos assaltantes se elles traziam os saccos para a pilhagem da cidade. Foram momentos decisivos: duzentos homens livres poderam esmagar dois mil janizaros.
No meio d'esse implacavel desbarato, andava D. Pedro, e quando tornou a avistar o velho, que estava envolvido em um antigo capote de camelão, sorriu-se para elle, como quem o tomava já como um presagio de felicidade. E emquanto tocava a reunir, D. Pedro foi para elle, esfregando as mãos:
--Olá! bom homem.
--Senhor D. Pedro, elles hoje é que pagaram o vinho.
--E bem pago. Então você tem por cá mais algum filho?
O velho não pôde deixar de alegrar-se com a pergunta maliciosa, e respondeu com uma convicta serenidade:
--Tenho aqui mais outro filho.
--Outro filho, homem! De dois, sei eu.
--Este é o que me ajuda no officio; ficou de hontem para hoje no reducto do Covêlo, e já sei que está são como um pêro...
--Parabens, amigo, parabens. Com que então, na bateria da Luz, um; no reducto do Monte das Antas, outro; no Covelo...
--É o meu filho Cosme.
--Ainda tem mais algum?
O velho sorriu-se, com ár de quem busca attenuar uma phrase, que poderia ser tomada como expressão de vaidade:
--Não queria fallar do outro filho, que tenho na bateria do Pico das Medalhas, antes de me encontrar alli com vossa magestade.
--Oh! homem! outro filho?
--E mais que tivesse; esse é o meu Fortunato; e quando não está no fogo da bateria fica de semana, em serviço medico no hospital dos cholericos de S. Pedro de Alcantara.
D. Pedro emmudeceu diante da revelação casual de um tão completo sacrificio. Abraçou o velho, porque não pôde articular palavras, e os olhos marejaram-se-lhe de lagrimas. Aquella natureza egoista, como a de todos os principes, insensivel á dedicação como o revela a demissão do grande Mousinho da Silveira, foi uma vez tocada pela realidade das cousas. As palavras desinteressadas d'aquelle velho revelaram-lhe que se elle sabia sacrificar-se por uma filha, ninguem, em uma cidade sem muros, cercada por mais de oitenta mil inimigos, dizimada pela peste, apertada pela fome, ameaçada pelo saque, ninguem poupava o seu sangue, porque todos queriam converter a liberdade em um direito. O sacrificio de um pae ficava supplantado pelo sacrificio a uma geração inteira!
Odio de inglez
COMMENTARIOS AO CONTO DO SR. THEOPHILO BRAGA
_A adega de Funck_
Uma das idéas de que todo o bom artista se possue fortemente, foi de que Hoffmann, apesar da extravagancia das suas composições, não inventava totalmente os typos singulares da sua grotesca e terrivel galeria. Hoffmann, como Callot, Lantara, Heine, Diderot, e Chamisso, accusados de terem creado typos fóra da natureza, extravagantes, impossiveis, e movendo-se n'uma atmosphera puramente ideal, tinha reunidos, ás potentes faculdades creadoras do poeta, todos os finos e preciosos dotes de observação--o apanagio especialissimo da pintura.
Ora Hoffmann foi uma das mais privilegiadas e divinas organisações artistas--por que como todos o sabem excellentemente--foi _maestro_, poeta e pintor.
É possivel que a imaginação singular do narrador allemão preenchesse muitas lacunas dos dramas reaes, de que o seu lapis tomava apontamentos, lhe désse depois uma outra vida mais poetica, mais ideal, mais conforme á sua organisação de visionario, de poeta e caricaturista--e elles depois apparecessem no seu estranho reportorio sensivelmente transformados e melhorados--como um artista mysanthropo emendando a natureza, e nos seus momentos de máo humor permittindo-se a liberdade de a achar vulgar e imbecil. É possivel, porque todos os verdadeiros artistas têm sentido estas taciturnas horas de mysanthropia incuravel, e este profundissimo desgosto da ordem regular das cousas.
Mas o que é certo é que achamos attestados notaveis tanto nos seus contos como nas suas carteiras, notas secretas, de que Hoffmann era um espirituoso observador, e que não creava--totalmente--as suas composições por muito estranhas que pareçam.
N'um dos mais bellos contos de Theophilo Braga, _A adega de Funck_, n'aquelle dialogo entre o visionario e o amigo, achamos sempre um novo, melancholico e precioso sabor. Baseia-se o conto n'aquelle amor do artista pela novidade dramatica e singular que apresentam certas peripecias vulgares da vida real. Hoffmann mostra-se possuido da idéa de escrever um conto fundado n'uma aventura sinistra de um homem a quem a mulher confessa, na hora cheia de lagrimas da agonia, de o haver trahido, e a que elle retribue successivamente com a fria e medonha confissão de a _haver envenenado_.
Ora nós, na distracção solitaria do nosso gabinete, folheando ha pouco um livro curioso pela sua notavel excentricidade, de Emilio Colombey,--encontramos a sinistra historia, que tanto impressionou o nervoso narrador allemão.
Emilio Colombey diz haver extrahido a noticia, que nos impressionou tambem, das columnas da _Gazeta dos Tribunaes_, de 1795.
Vamos dar alguns pormenores sobre esta historia colhidos no livro de Colombey, que servirão como de curiosa nota ao conto phantastico de Theophilo Braga;--os leitores de apurado gosto litterario acharão prazer em conhecer a aventura terrivel.--
«O auctor d'esse assassinio mysterioso, diz a _Gazeta dos Tribunaes_,--depois de descrever o homicidio de um official de marinha ingleza que se affastava rapidamente n'um escaler de guerra, o _Penguim_, no canal de S. Jorge,--o auctor d'esse assassinio singular, pertencia a uma das mais antigas e illustres familias inglezas. Chamava-se lord A... e gosava no condado de Tifferay de todos os privilegios inherentes ainda á auctoridade feudal. Os sentimentos que lhe votavam, tambem, eram geralmente, mais do terror que os da amizade; porque era bem notorio que o lord, no seu odio pela Irlanda, não tinha retrogradado muito aos tempos da Rosa Vermelha e da Rosa Branca, e que não era por falta de vontade que os irlandezes não eram tratados tão deshumanamente como sob Henrique VII, quando conquistou aquella ilha e lançou as bases da legislação atroz que devia pesar sem interrupção sobre esta nação humilhada.
Não era voluntariamente, tambem, que lord A... viera estabelecer-se na Irlanda, depois de haver sido por muito tempo em Londres um dos _dandys_ mais requintados do Regent Street e de Piccadilly: tinha-lhe cabido em herança um vasto dominio no condado de Tipperary. Mas o testamento do legatario tinha uma clausula pela qual se estabelecia que este não poderia ser senhor do dito dominio, senão com a condição de o habitar perpetuamente. O lord inglez, que estava longe de possuir uma fortuna correspondente á illustração do seu nascimento e ao seu amor do luxo, viu-se na necessidade de subjugar-se a esta extravagante exigencia.
A antipathia hereditaria que tinha á Irlanda mais se aggravou com esta restricção, e o seu humor, naturalmente melancholico, tornou-se sombrio e feroz. Comtudo, como era rico, e ligado a uma dama caritativa e formosa, que, afinal de contas, semeava em torno de si o dinheiro com uma rara profusão, a opinião publica mostrava-se paciente e attribuia, não sem razão talvez, as frias violencias e os excessos sem paixão a que se deixava levar, á originalidade do seu caracter.
Lord A. seguido de um doutor que fôra chamar,--porque mal acabara de commetter o assassinio fôra chamar um medico para assistir a lady que se achava agonisando,--Lord A. seguido do doutor, atravessou silenciosamente o seu dominio, embrenhou-se no campo, e subiu com passo firme o caminho em declive que conduzia á entrada do castello senhorial.
O cuidado que se havia tomado de estender por todos os corredores uma espessa cama de palha e feno, a physionomia alterada dos creados que atravessavam machinalmente as camaras e os corredores, como para fugirem a um indomavel terror, emfim os gritos dilacerantes que quebravam, por intervallos, o profundo e frio silencio que reinava n'aquella casa, affirmavam sufficientemente que se estava representando ali uma scena de agonia.
Lord A. sem se dignar dirigir uma palavra aos creados, penetrou no quarto d'onde partiam os gemidos desesperados. Uma mulher extremamente nova ainda e de uma physionomia das mais seductoras, estava estendida n'um leito, na attitude de um soffrimento incrivel; os longos cabellos loiros desmanchados envolviam-a toda; corria-lhe o suor do rosto; e o corpo abalado de estremecimentos convulsivos retrahia-se sobre si mesmo a intervallos, com uma horrivel flexibilidade.
O lord parou a este espectaculo. A doente ouvira-lhe o ruido dos passos e pronunciára o seu nome: fixou n'elle um olhar desvairado com uma indefinivel expressão de dôr, e voltando-se para o medico, que se conservava ao pé do leito n'uma immobilidade contemplativa, bradou-lhe n'uma voz sonora que não admittia hesitação nem recusa:
--Não tendes nada aqui que fazer, senhor, sahi!
O medico parecia indeciso, e cheio de duvidas terriveis: no emtanto não tratou de se oppôr a esta ordem, porque um simples olhar bastou-lhe para comprehender que lady A... estava perdida. Todavia pegou na mão da doente, baixou-se para vel-a melhor, e não poude ser senhor de um estremecimento, observando que as unhas d'aquella mão, já livida, estavam mosqueadas de pequenas nodoas negras. Assim que saiu do quarto, lady A... fez um signal ao lord de approximar-se, e opprimindo-lhe o braço com uma força cheia de paixão:
--Mylord, esperava-vos para morrer, não chameis ninguem, não invoqueis soccorro algum, o mal é irremediavel, o doutor bem o percebeu: viste-o!
Abafou no travesseiro os soluços involuntarios que lhe arrancava o soffrimento, e ajuntou:
«Ouvi, mylord;--uma pobre mulher á morte, que succumbe ás mais atrozes torturas, tem direito, talvez, a alguma indulgencia. Rasgae, oh! rasgae por um momento o manto de frieza com que vos cobris... por que tenho um favor supremo a solicitar-vos, uma confissão dilacerante a fazer-vos... Eduardo, lady A... acha-se criminosa, bastante criminosa para comvosco. Durante a vossa ultima estada em Londres, um homem, que na mocidade amei, aproveitou-se do isolamento em que me achava pela vossa ausencia, para despertar com suas palavras, em mim, recordações mal extinguidas. Que mais direi? Não vos achaveis aqui para me defenderdes da minha fraqueza, para me proteger contra o meu coração, succumbi... É isto o que vos quiz confessar antes de descer ao sepulchro, e o que me causa dôres mais atrozes do que as da agonia. Sêde clemente, mylord!... A expiação succedeu logo á culpa. Sinto arderem-me as entranhas. Deus encarregou-se de vos vingar!
«Lord A. escutára esta confissão solemne da moribunda com uma attenção grave e recolhida. Os seus gestos em perfeita immobilidade, não deixavam transparecer colera, espanto ou piedade. Contentou-se só em apertar a mão da moribunda que procurava a sua.
«Surpreza com este silencio, lady A... por um violento esforço tratou de se levantar no leito, e encarou fixamente o marido, procurando vêr se lhe lia nos olhos o seu pensamento mais secreto.
--Depressa, mylord, soluçou ella,--um derradeiro beijo; o beijo do perdão. É quasi n'uma morta que o daes!
--Eu sabia tudo, e perdôo-vos,--respondeu o lord sem se commover. Mas, lady, a vosso turno, tendes tambem que me conceder um perdão: fui eu que vos envenenei.
«E ajuntou com o mesmo sangue frio:
--Quanto ao vosso amante matei-o esta manhã nas margens do canal de S. Jorge.
Uma exclamação de horrivel espanto, um grito de odio selvagem succedeu a esta dupla revelação, atirada de um modo tão calmo no meio de uma tão dolorosa agonia.
Sempre senhor de si, lord A. não abandonou a cabeça da moribunda em quanto esta não exhalou o derradeiro suspiro.
Depois de lhe ter emfim coberto a cabeça com o lençol mortuario, pegou no castiçal que havia illuminado esta scena lugubre e subiu ao andar superior onde estavam situados os seus aposentos particulares. Ao affastar-se d'aquelles tristes logares, teve o cuidado de ir fechando as portas dos diversos quartos por onde atravessava, de lhes tirar as chaves e ir correndo todos os ferrolhos, atraz de si, sem excepção de algum.
Ninguem teria podido suspeitar, nem da sua attitude firme, nem dos seus gestos fleugmaticos, um indicio qualquer da mais leve agitação; e se por acaso o temor ou o remorso lhe agitavam surdamente o coração, esforçava-se por occultal-o a si mesmo.
Durante toda a noite viu-se brilhar uma luz no quarto de dormir do lord; não chamou creado algum, e reinou sempre o mais profundo silencio n'esta parte do castello.
No outro dia pela manhã o creado de quarto do lord tentou debalde penetrar nos aposentos, e, cheio de inquietação, mandou chamar os _constables_ e os _policemen_. As portas foram abertas pela força armada, e quando entraram poderam ver então o lord estendido em cima de um tapete e banhado em sangue.
Uma expressão de ironia convulsiva era a unica cousa que a morte lhe deixara impressa na physionomia decomposta. Sem perder cousa alguma do sangue frio estoico de que os suicidas inglezes teem offerecido até hoje tão espantosos exemplos, o lord havia-se degolado com uma navalha de barba, e havia separado de um unico golpe, com uma força incrivel e com a mais sinistra habilidade a secção da arteria carotida.
A vella, quasi toda consummida, ardia ainda sobre a mesa, onde estava collocado, no logar mais visivel, um papel, lacrado e sellado com as armas do lord e com esta epigraphe escripta certamente por um punho firme e seguro:
_Testamento de lord A... fallecido em C... a 7 d'outubro de 1795_
Este papel, depois de aberto, indicava o _spleen_ feroz que roía o lord, e o odio cego que elle votára á desgraçada Irlanda:
«Eu deixo e lego a somma annual de dez libras esterlinas para serem pagas, perpetuamente, pelos meus successores; essa somma, tal é a minha vontade e o meu gosto, será empregada em comprar um certo licor, chamado vulgarmente _wiskey_; e fazer-se-ha saber ao publico que este licor deve ser distribuido a um certo numero de particulares irlandezes, sómente, cujo numero não poderá ser superior a vinte; e deverão ajuntar-se no cemiterio em que eu hei de ser enterrado. Ahi deverá ser entregue a cada um, um bordão de carvalho e uma faca, e, assim armados, começará a ser distribuido um quartilho de _wiskey_ a cada um, até que toda a ração seja consummida, e é minha vontade que isto tenha logar todos os annos a 17 de março ou a 10 de outubro.
«A razão por que assim determino isto é para que os habitantes grosseiros da Irlanda, cada vez que se juntem, nunca lhes escasseiem armas para se destruirem; e por isso quiz tomar o meio mais efficaz de os reunir, na esperança que com o tempo chegarão a despovoar por suas proprias mãos o seu paiz, que se poderá tornar a povoar depois com uma raça civilisada vinda de Inglaterra.»
Aqui termina a estranha noticia dada pela _Gazeta dos Tribunaes_, que extrahimos do livro de Colombey.
Ora Hoffmann é muito provavel que houvesse lido o celebre jornal, que trazia sempre dramas muito notaveis por aquelles tempos tão agitados de 1795, e muito mais notaveis especialmente para aquella imaginação ardente do poeta allemão: pois que é certo que na sua carteira existiam muitos outros apontamentos como este; ou a que Hoffmann não tinha achado no seu espirito a fórma especial em que os devia moldar; ou porque novas phantasias de visionario o impediam.
Muitos dos seus contos tinham sido achados na conversa dos amigos, nos jornaes, na rua e nas obras dos auctores que lia. Juntamente com este drama, este terrivel conto em embryão--que Theophilo Braga faz tão bem perseguir a imaginação doente do artista n'uma noite chuvosa, á luz crepuscular de uma lampada, n'uma adega subterranea--juntamente com este apontamento, estava outro colhido no _Diabo coxo_, de Lesage. O assumpto devia ser um demonio perseguidor e conselheiro. E com estes mais...
O que Hoffmann faria com este terrivel incidente, colhido na _Gazeta dos Tribunaes_, ou talvez na transcripção dos jornaes allemães, deixo-o suppôr áquelles que teem admirado as visões terriveis do allemão.--Talvez um conto cheio de phantastica tristeza, como o D. Juan ou o Morgado?!...
GOMES LEAL.
NOTA.--O livro d'onde extrahimos este commentario ácerca do bello conto de Theophilo Braga intitula-se _Les originaux de la dernière heure_. Citamol-o aqui para não fazermos como certos histriões lentejoulados das letras, cujos plagiatos são em tão grande numero como as obras, e para os quaes será um dia terrivel aquelle em que se lhe desafivellar a mascara da consciencia cancerosa e em que se proceder a excavações nas suas obras.
G. L.
(_Da Tribuna_, n.os 8, 9 e 10, de 1874).
ADDITAMENTO
Carta a José Fontana
(DA 1.ª EDIÇÃO)
_Meu caro editor_
Disse-me que esperava um prologo, para começar a publicação dos _Contos_; lembrou-me escrever-lhe um capitulo de esthetica sobre esta fórma litteraria. O publico não gosta de abstracções. Por minha vontade desistia do promettido; limito-me porém a algumas considerações historicas.
A fórma do _conto_ é de origem oriental. As fabulas de Bidpaï foram o primeiro ensaio para fazer sentir uma moralidade abstracta por meio de uma ficção interessante. É pelo seculo XII que esta creação do genio do oriente apparece na Europa, imitada na _Disciplina clericalis_ de Moysés Sephardi, conhecido depois da sua conversão ao christianismo com o nome de Petrus Alphonsus. A _Disciplina clericalis_, escripta em latim barbaro, para ensino dos clerigos, compõe-se de trinta e sete contos e apophtegmas, que o auctor imagina dados por um arabe a seu filho na hora da agonia. A popularidade do livro foi dispondo os animos para a cultura d'esta fórma litteraria.
O _Conde de Lucanor_ de D. João Manuel, algumas das ficções do _Gesta Romanorum_, o _Decameron_ de Boccacio, os _Contos de Cantorbery_, resentem-se bastante do livro do judeu convertido da Huesca.
Uma creação do genio celtico e germanico é o mundo feérico; elaborada lentamente na phantasia popular, animada n'esses typos de Melusina, Morgane e Urgante, dos trovadores da Edade média, cantada depois nos galanteios de Boiardo e Ariosto, Spencer e Shakespeare, tornou-se o divertimento infantil dos _Contes bleus_, os contos de fadas, colligidos nas _Notte piacevoli_ de Straparole, publicadas no seculo XVI, e no _Pentamerone_ de Giambattista Basile em 1637.
O conto é a fórma litteraria da lenda. Boccacio no _Decameron_, n'aquellas transições instantaneas do ridiculo ao pathetico, revela uma face profunda da historia, o estado dos espiritos na terrivel peste de 1358. A imaginação era tão perigosa como o contagio; a distracção calculada, o prazer egoista dos jardins de Pampinea, a indifferença, o scepticismo que se desenvolve nas grandes calamidades, só podiam suspendel-a na exageração do terror. Nos contos da Edade média ha uma mistura de devoção e desenvoltura; no _Heptameron_ da rainha de Navarra, as aventuras cavalleirosas, as intrigas de amor, os padres e monges seduzindo as noviças, entretecem-se com reflexões moraes, e de _quelque léçon de la sainte Ecriture_. É a mesma antithese fatal que parodia a exaltação religiosa nos ritos grotescos da egreja. A Edade média retratou-se em todas as suas creações, mesmo nos _fabliaux_ e no conto.
O conto é a passagem do fabulario para a linguagem da prosa, ingenua, rude, de uma franqueza maliciosa muitas vezes, e desenvolta. O conto era uma situação inventada para aproveitar um dito feliz, um repente engenhoso dos serões das côrtes e dos castellos; nasceu d'aquelle genio primitivo, com que Froissart narrava a historia.
Demogeot, na sua _Historia da Litteratura franceza_, considera os contos do seculo XVI como alheios ao desenvolvimento intellectual; é uma affirmação menos verdadeira por absoluta. A actividade d'este periodo, a fecundidade e originalidade verdadeiramente cahoticas reproduzem-se em Rabelais, o creador de _Gargantua_ e _Pantagruel_.
A Renascença com as ficções gregas e romanas desnaturara o conto. No seculo XVII elle torna-se volumoso, arrebicado de galanice e galanteria amaneirada. As attenções tinham refluido sobre os trabalhos philosophicos; ficaram as creações imaginativas em poder das Gamberville, de Scudery, de La Calprenède e quejandos, que as alongaram fastidiosamente com pieguices sentimentaes, por essas séries indefinidas de volumes da _Polexandra_, _Caritea_, _Cytherca_, _Cassandra_, _Pharemundo_, _Ibraim ou o illustre Bassa_, _Artamene ou o grande Cyrus_, _Clelia e Almahide_. Os heroes apaixonados são Anacreonte conversando em amaveis versos, Bruto e Lucrecia, Horacio Cocles e Clelia, movidos pelos interesses da sociedade moderna; a magestade escultural da antiguidade e da historia em presença das pequeninas intrigas amatorias tocára o cumulo do ridiculo!
O movimento, a convulsão philosophica do seculo XVIII apparece tambem no romance e no conto. Lesage escalpelisa a natureza humana, e o _Gil Blas_ é a synthese das observações profundas; o abbade Prevost analysa as paixões n'uma lucta intima, recondita, e procura os sentimentos novos que scintillam dos que se embatem e se destroem. _Manon Lescaut_ é uma das verdades eternas do sentimento humano, a contradição do que mais se aspira e idealisa, a vontade negando-se, mobilisando-se nos multiplices desejos que tumultuam na alma. Voltaire philosopha tambem nos seus _Contos_. Diderot, sobretudo, a intelligencia mais robusta do seu tempo, mathematico, artista creador pela reflexão e inspiração, reduz ao interesse do conto, á peripecia da acção as verdades mais abstractas. Na assombrosa maravilha de arte, o _Neveu de Rameau_, mostra a maldade disfarçada em virtude pelas conveniencias; todos nos horrorisamos ao vêr alli o nosso retrato; sentiamos aquillo, mas não tinhamos a coragem, a abnegação para dizel-o. O sobrinho de Rameau mostra-se infame, ao passo que é sublime de razão, porque diz tudo o que pensa. Vê-se agitarem-se n'aquelle cerebro em ebulição todos os processos intellectuaes. Na _Religiosa_, Diderot evoca as dores cruciantes e desconhecidas, soffridas nas trevas por um coração ingenuo, que é o ludibrio do interesse egoista, do fanatismo estupido, e da superioridade brutal. Este conto por si é uma revolução latente. A analyse delicadissima dos pequenos sentimentos que formam a grande lucta na alma da _Religiosa_ não é inferior ao quadro do quietismo de Michelet no processo da Cadière, e excede por muitas vezes a profundidade com que Manzoni no _Promessi Sposi_ retrata as agonias da desgraçada Genoveva no convento de Monza.
Uma vez descobertos estes segredos do sentimento, o conto deixou de ser individual; o romance é o desenvolvimento de uma these da vida na sociedade. Richardson é a admiração de Diderot; Goëthe descobre Diderot á Allemanha, traduzindo a sua obra prima; elle mesmo isola os sentimentos do amor e o dever no _Werther_ e chega pela arte á conclusão logica do suicidio.
Hoffmann, o caricaturista das paixões, de uma individualidade extravagante, nas creações abstractas d'aquella imaginação de hypocondriaco deixa-lhes o incompleto do maravilhoso; mais tarde os editores dão aos seus contos o nome de _phantasticos_. Nos Contos de Hoffmann ha uma série de observações psychologicas, de impressões instinctivas que supprem a falta de imaginação; os seus contos são o diagnostico de uma alma doente. É o lado que os torna apreciaveis, apesar do capricho e grotesco dos typos a que a mente hallucinada dá fórma. Os Contos de Edgar Poë, a imaginação mais extraordinaria da America, têm o phantastico da insolubilidade dos problemas philosophicos que constituem a acção; tocam ás vezes a alta metaphysica. Tendo de transigir com as materialidades da vida, na esterilidade da indigencia pede a inspiração ao alcool; elle sente a excitação lucida que lhe dá a força espantosa da invenção, mas conhece já em si a tremulencia, que é a decomposição inevitavel, e exclama no meio da fadiga--_Não ha peior inimigo do que o alcool!_ Edgar Poë é a força da imaginação e do ideal supplantada pelo positivismo de uma sociedade manufactureira e orgulhosa do seu caracter industrial; nos seus Contos ha a allucinação prophetica da doudice.
A fórma do conto é estudada em todas as litteraturas da Europa; trazendo a lume este pequeno trabalho, só nos inspira a boa vontade de corresponder ao movimento que observamos lá fóra. Que mais teriamos a dizer de um livro simples que lhe não desnaturasse a intenção.
Coimbra, 8 de março de 1865.
THEOPHILO BRAGA.