Contos Phantasticos segunda edição correcta e ampliada
mim. Eu tambem tenho pensado na organisação de uma sociedade perfeita,
como Platão e Cicero, Campanella, Thomaz Morus e Fenelon; mas só encontro essa perfeição no momento em que os vinculos do direito que prendem as nossas relações sociaes, e os mysterios e terrores que as religiões incutem, fossem excluidos pelo desenvolvimento completo da idéa do _Bello_; quando deixassemos de praticar uma acção, que vae contra as maximas do direito ou da religião, não por ser injusta ou immoral, mas porque repugna ao sentimento do bello. A Arte sobre tudo! é ella só que nos póde alcançar conjunctamente a perfeição plastica. Assim a anarchia, a negação absoluta de todo o governo fóra de nós, constitue o ideal do estado; a lei era a consciencia de cada um, a consciencia sempre incorruptivel a todo o interesse egoista. Porque a Arte é synthetica, mais do que a religião, a philososphia e a moral, porque só ella faz o accordo incondicional das vontades por uma emoção universal. Como chegar um dia a esta perfectibilidade! Não se vae lá de repente, a natureza não dá saltos. As revoluções pela idéa pódem tudo; não se confia n'ellas, nem se emprehendem, porque os resultados só os gosa o futuro. É esta sciencia nova da Sociologia que ha de levar mais longe a humanidade. A Edade media, o grande lethargo depois da civilisação da Grecia e Roma, foi ampliada pela passividade mystica do christianismo; é uma impiedade que ninguem talvez acredita. A esmola, a onzena sobre a bemaventurança, era o principio da dependencia e da desegualdade, a aniquilação do trabalho e da actividade; a reprovação dos juros, o stigma impresso sobre o judeu, elemento industrial na sociedade nascente, eram a inercia do capital e do espirito de empreza. A verdadeira doutrina é um cathecismo popular de economia social. É por esta sciencia que nos ha de vir a libertação, desde que o homem reconheça que produz mais do que consome. O trabalho é o unico titulo da propriedade, a sanctificação da vida. O trabalho é para mim uma consolação, um orgulho; sou como Plauto, que fazia rodar um moinho, e nas horas de descanço escrevia as suas comedias; como Spinosa, que gravava vidros para se alimentar nas horas em que se absorvia no quietismo do pensamento e ampliava a synthese physica de Descartes á moral humana; eu toco na orchestra de um theatro; de dia penso.
E o pobre rapaz parou em meio, de cansado; depois recomeçou, fazendo-me a historia do trabalho:
--O homem ao destacar-se do ultimo élo da cadeia dos sêres, sentiu-se forte e senhor da terra. A natureza offerecia-lhe por toda a parte seus peitos uberantes, e este rigosijo de harmonia ligava a sua existencia á vida pantheistica do universo. A grandeza do homem n'este cyclo genesiaco, symbolisaram-na os escriptores sagrados no reflexo de graça e de innocencia que descia das alturas sobre a sua fronte; os escriptores profanos, menos inspirados pelo idealismo espiritual, retrataram-a na plastica, nas fórmas gigantes do corpo e na magestade homerica de uma estatura heracleana. N'este primeiro dia, foi o homem como os anjos, via e falava face a face com a divindade; n'este primeiro dia foi um gigante da terra, dominava pela força cyclopica. Ambos os dois mythos têm um fundo de verdade revelada pela inspiração e intuição do passado aos prophetas da historia. Senhor e rei na creação, o homem deixou-se enleiar no seio voluptuoso da natureza. Admirou e caiu adorando. N'esse instante descobriu a sua nudez, e escondeu-se; sentiu a fome e a sede e as dôres do desterro. O outro mytho, mais violento e terrivel, para filiar n'essa queda o naturalismo e anthropomorphismo, fal-o _mergulhar no bruto_, e o satyro, o minotauro, é o homem a confundir-se na cathegoria inferior dos primates. Á queda succedeu a rehabilitação, como ao occaso a nova aurora de luz. Era a lei eterna das antitheses. Foi o trabalho o signal da rehabilitação, será o caminho para a apotheose. _Sic itur ad astra._ Nos mythos do Oriente, tenebrosos e tragicos, o trabalho é um stigma que pésa sobre o homem, é a dor, a atribulação, é a terra produzindo cardos e espinhos, fecundada pelo suor do seu rosto. É o enigma da vida a ser iniciado pelo soffrimento e o soffrimento a retratar a vida nomada da raça primitiva, na sua passagem através do dezerto. Nos mythos do Occidente é sublime o ideal do trabalho: ahi é a gloria dos semi-deuses, é a vida errante mas heroica. Chiron ensina o mysterio da força. Os _trabalhos_ de Hercules, os _trabalhos_ de Theseu, eis outros tantos passos para a elevação do homem, perdidos hoje completamente nas sombras imperscrutaveis do mytho. Nos _trabalhos_ de Jason e dos Argonautas está symbolisada a inauguração do commercio de toda a raça jonica. No Oriente, o trabalho é uma fatalidade religiosa, um anathema do primeiro passo do homem. O christianismo, creado no berço de todas as religiões, vindo da Asia, transportou comsigo o mesmo dogma fatidico, mas com expiação. Suavisou o golpe da espada flammejante, que lançou o homem fóra do Eden. Exagerou a culpa para perdoar o castigo; suscitou no interior do homem uma luta, luta escura e tremenda, um _eu_ a combater outro _eu_, a carne a revoltar-se contra o espirito, a confusão e o cahos onde havia a ordem e a harmonia, e para este dualismo desesperado apontou como panacêa--o trabalho. D'esta idéa proveiu um diluvio de sangue para rehabilitar a raça futura; foi o sangue dos martyres; a arca fluctuante a egreja; o ramo de oliveira, representando a paz universal e a fraternidade a cruz. Só tarde estes symbolos foram comprehendidos; tinham sido como o enigma da Sphinge, que devorava os que iam passando. O christianismo ao ideal do trabalho-pena ligou a universalidade. Na Edade média a ordem social era classificada pela propriedade territorial; a posse era a caracteristica do senhor, o trabalho da cultura o ferrete do servo. A Edade média feudal é uma antinomia na historia; a influencia manifesta do christianismo é a communa. O abraço dos povos pelo trabalho do commercio e da industria, eis o segredo das riquezas de Pisa, Gand, Veneza, Genova, Bruges e Florença, ao pé da barbarie dos estados feudaes. _Virtus unita fortius agit._ No dia em que o homem descobriu a alavanca, o parafuso, a força da agua, foram outras tantas fadigas de que aliviou seus hombros, sobrecarregando-as na natureza. Hoje o trabalho não é o sello da culpa segundo a antiguidade biblica, não é o signal da escravidão como na Edade média, nem o tributo dos párias, como concebia Aristoteles: hoje é o symbolo da dignidade do homem. São as machinas que vão conseguindo pouco a pouco esta realeza do homem sobre o universo. O hymno do trabalho eleva-se por toda a parte, e as strophes perpetuam-se ao estrepito das grandes descobertas de Galvani, Fulton, Watt, Pascal. Pelas machinas ganha o homem tempo á custa da força, mas força dispendida pela natureza. Virá uma epoca em que elle se liberte do trabalho material; abre-se então outro horisonte mais vasto--o trabalho da intelligencia. Prometheu ergue-se dos rochedos caucasicos, não para roubar o fogo celeste, porque é Deos, mas para atear aquelle que occultou longo tempo no encéphalo. O homem desprender-se-ha da animalidade para absorver-se no anjo. Se elle se destacou de uma animalidade inferior, não está terminada a sua progressão ascencional. Esta theoria explica já a prodigiosa actividade e precocidade intellectual d'este seculo.»
A voz foi-se-lhe enfraquecendo, até que se calou; estava macilento, tiritando de frio; a vista com um brilho phosphorecente, felino. Depois de alguns instantes de silencio, disse-me com um modo secco, que não comprehendi logo:
--O succo gastrico é bastante corrosivo e dilacera-me as fibras do estomago.
Conheci que era a fome que lhe dava esse aspecto, essa consumpção em que o via prostrar-se. Disse-lhe que esperasse um instante, e sai á pressa para comprar em uma espelunca uma posta de peixe. Quando voltei, a luz bruxuleava quasi a extinguir-se; o pobre rapaz estava voltado para a parede. Sacudi-o. Achei-o frio, com a rigidez cadaverica.
Beijos por facadas
(CONTO DE UMA SERENADA EM HESPANHA)
I
A guitarra
Corria lenta e socegada a noite. Ha n'estas vozes indefiniveis das horas mortas a suspensão de um segredo, que se não articula; o silencio remoto parece escutar as musicas de dentro, que se espraiam na alma, como os sons eólios que a brisa entorna da escarpa.
O céo estava profundo e puro, recamado de estrellas, brilhando silenciosas, absortas nas côres spectraes de sua luz, com que confidenciam e exprimem entre si as sonhadas harmonias das espheras. Cada traço radiante que se projecta nos áres lá vae perder-se n'um fasciculo mais intenso, pensamento de amor, energia inextinguivel que vôa a despertar e embalar um devaneio ditoso, que não finda.
Os ventos sopravam macios, remurmurejando na folhagem verde; a veia crystalina e sinuosa do Manzanares derramava seus aljofres, onde se reflectiam as graças e a alegria das myriades de astros que bordavam a cupula do empyreo.
Soaram vagarosamente, como as palavras de uma sentença irrevogavel, onze horas na torre da Cathedral. A vibração argentina do sino, ondulando na calada da noite, fazia escoar-se pelo corpo um estremecimento gelido, como o pingo de agua que se infiltra das stalactites e cae, de quando em quando, no pavimento petrificado de uma gruta escura e sem fim.
E a noite proseguia lenta e socegada. Pouco a pouco, uma viração travessa, vinda dos valles longiquos, dispersou nos céos uma nuvem espessa, que se havia levantado das bandas do mar. Assomou um leve resplendor, um clarão incerto na cima dos montes; depois, os arvoredos deixaram jorrar por entre as ramas entrançadas um alvor suave. Era a lua que se alevantava serena do topo das serranias, ostia branca erguida na reconcentração intima dos mundos. Á luz diaphana e branda, que devaneios principiados e interrompidos no vago das aspirações que não têm realidade! que confissões vehementes, que palavras sentidas, que protestos fogosos, apaixonados, gerados pelo influxo da saudade e da melancholia!
Á luz tranquilla do astro dos namorados, meditava distrahida em seu balcão, virgem, enleiada nos caprichosos desejos que lhe tumultuavam no coração infantil. Quinze annos! a efflorescencia da vida no seu viço exuberante; as alegrias perennes, sem motivo, um transporte a cada sensação que se ignora e que o acaso revela! Quinze annos! e o peito a palpitar apressado a cada presentimento de ventura.
Estava em seu balcão a donzella timida; as tranças soltas, espalhadas pelos hombros, eram os jorros de uma catadupa que se despenha; respirava anciada, como quem acabára de brincar e sente na fadiga, que a prostra, a tentação de se precipitar novamente na vertigem da corêa que passa ligeira como um volteio de fadas em areal deserto.
A lua illuminava-lhe o semblante com a magestade com que se reflecte n'uma janella gothica. Parecia adormecida, criança, embalada pela toada das harpas dos seraphins, que a vinham abrigar do rocio da noite debaixo da sombra de suas azas brancas. O vento levava-lhe as roupagens longas, que fluctuavam como uma nuvem rescendente que a envolvesse.
Ella não estava adormecida, scismava. Que mysterios intraduziveis de amor não lhe viria descobrir esta hora! A natureza, mais velha e experiente, vinha ensinar sua irmãsinha, mostrar-lhe os philtros que um sorriso esconde, a fascinação de uns olhos humidos de volupia. Sentiria ella as primeiras notas do amor, pulsando levemente dentro do peito?
O sitio, a hora, a mudez confidente da noite tepida e sombria, tornavam propicias as palavras timidas, balbuciadas tremendo, com um languor communicativo.
A este tempo a lua brilhava esplendida de encantos pela amplidão celeste. A donzella cada vez apparecia mais radiante de graça; o luar tornava-a mais bella, como em uma transfiguração repentina.
Será uma realidade a existencia d'este typo divino? Será uma creação apenas, uma visão chimerica da mente do poeta? Um sonho que a arte sabe encarnar e insuflar-lhe o sentimento de Rosina, quando espera anciosa detraz do cortinado alvejante Almaviva, a identificação de um sêr n'outro sêr? Não. Como uma filha, a mais linda das filhas de Eva, irmã das que foram amadas pelos anjos que se esqueceram do céo, ella tambem sente e ama. É Marcella, Marcella, o sol da velhice do grande poeta da Hespanha Lope da Vega.
Cançado de triumphos, de glorias e pesares, o cantor de _Dorothea_ ama-a, como um viandante do deserto que ama a brisa fresca da collina que lhe vem alentar os pulmões exhaustos. Coração immenso de um pae, que enlouquece de alegria ao vêr perpetuar-se-lhe no mundo a intelligencia, os sentimentos que o animaram e lhe trouxeram soffrimentos e glorias, n'aquella que o abraça como uma vergontea airosa á sombra do roble secular.
Marcella é o seu pensamento predilecto das horas pacificas da existencia, a que ha de herdar-lhe o manto prophetico com que o pae penetrava nos mundos da poesia. Poeta, enleva-se diante da sua obra, a ideal Galathea, onde vive uma alma afinada pelas mesmas harmonias; ama-a, com que ternura! _É mas galan que padre._
Marcella estava distraida ao luar no balcão; era na rua dos _Francos_; estava deserta e escura pela sombra. Começou então a sentir-se um som incompleto, como o gemido de um queixume que expira; depois, mão ignota a dedilhar vehemente, com força, nas cordas de uma guitarra. As auras levavam as melodias, ais de um peito que gemia de amor em segredo, e que ia ditando ao instrumento sonoroso as palavras, que não podia proferir. O silencio da noite destacava as notas delirantes, como o azul a um carbunculo que scintilla.
A innocente criança despertou do sonhar aério em que permanecera absorvida; comprehendeu a linguagem suprema do sentimento, era a primeira confissão de amor que escutava na vida. Receiou correr o cortinado. Era a innocencia na sua timidez. A curiosidade, o orgulho de criança a impellia; começava a sentir-se bella, formosa. Debruçou-se desprevenida ao balcão, mirou, prescrutou nas sombras. A guitarra fascinadora emmudecêra.
Depois, ella viu dois vultos aproximarem-se, traçarem as capas, desembainhando as espadas reluzentes. A mudez tornava assombroso o recontro. Os ferros cruzaram-se faiscando; eram os rivaes, que se encontravam ali, levados pelo mesmo amor e pelo mesmo odio, a grande contrariedade d'este sonho da vida. Não se ouvia um gemido; os botes eram a fundo. Uma espada tiniu no chão partida; o outro galanteador, generoso, deixou a sua de mão e sacou um punhal do cinto. Era um duello a todo o transe, questão de vida ou de morte. Marcella nada discriminou nas sombras; sentia apenas o fragor de uma lucta porfiada. O outro rival alçou o punhal tambem; arrojaram-se aos braços um do outro, espumando de raiva, cozeram-se de facadas desapiedadamente, até que, escoados em sangue, cairam desfallecidos.
O vento da noite refrescava; a lua mostrou-se no seu esplendor e deixou ver o campo do torneio. Marcella recolheu-se aterrada para o seu aposento; orou a noite toda ante o retabulo de Santa Maria d'Atocha, promettendo fechar para sempre o seu coração ao amor do mundo.
II
La blanca palomica
Depois dos inesperados transes e provações, a que ás vezes a alma resiste para novos desastres, Lope de Vega fugiu ás tempestades da vida, envolvendo-se no burel de uma ordem penitente, unindo a contricção e a poesia no mysticismo radiante das effusões lyricas com que desabafava nas horas comtemplativas. Quando o espirito solitario descia á terra e se deixava tocar pela dor, tinha então o encanto da sua prole, dos filhos que estremecia. Como se não lembrava elle, com pesar e saudade indelevel, do seu pequenino Carlos, côr de lirio e de rosa, quando vinha acariciar-lhe a alma com umas palavras de ternura infantil, quando o via pular de contente ao vir o dia, como uma antilope nos prados, quando os seus vagidos eram um gorgeio entrecortado que lhe pareciam um vaticinio encantador! Pobre criança, ainda coberto do orvalho matinal, de te expandires á bafagem perfumada da nova aurora, quando, lirio fanado pela geada, desappareceste na terra para seres transplantado no céo.
O poeta buscava consolação na poesia; era ella que o cercava de uma aureola de felicidade. Distraia-se cuidando do seu pequeno horto. Era a imaginação que o revestia, aquelle exiguo canteiro, ornado apenas de duas arvores, dez florinhas, uma laranjeira e uma roseira, onde casualmente cantavam os rouxinoes, e onde dois cantaros de agua formavam a fonte, que gemia e adormecia seus pesares. Contenta-se de pouco a natureza; elle não trocava este canto da terra nem pelo monte Hybla, nem pelo valle fertilissimo de Tempe, nem pelos jardins suspensos de Semiramis, como elle proprio confessa; porque a phantasia creadora reveste-o de todas as graças de um paraiso sonhado, mostra-lhe columnas brancas de marmore com inscripções gloriosas, fontes que jorram e se despenham em borbotões de perolas e aljofres, lagos profundos e limpidos sulcados por canôas que desfraldam as vélas como cysne voluptuoso que deslisa, rodeados de sombras amenas e encantadoras de arvores soberbas similhando os gigantes da terra, a vinha entrançada aos platanos, dourada pelo sol de agosto, bustos entre a ramagem espessa, satyros que se adormecem ao som da lympha fugitiva, nymphas travessas errando na relva macia, que tapeta o recinto... É um sonho de poeta na sua soledade. Que tem que seja uma ficção esta magnifica paizagem? Elle sente as emoções que lhe traz o retiro que fórma, e para onde se refugia.
Seu filho levado pelos brios cavalheirescos, pelo impulso dos quatorze annos, deixou-o para seguir a expedição contra os hollandezes e os turcos. Uma catastrophe desastrosa veiu roubar-lhe mais esta esperança; a náo em que partira havia soçobrado.
Restava-lhe só junto de si Marcella, para amenisar as horas lentas e enfastiadas da velhice. O pae offerecia-lhe seus livros, dedicava-lh'os, pedindo que os corrigisse; ella reunia ás graças do corpo, a harmonia da plastica com um sentimento delicado, uma penetração viva e lucida. O poeta recebêra todas as consolações do céo n'aquella filha; era a sua creação mais perfeita, a admiração dos poetas do seu tempo, era todo o seu orgulho.
Marcella começou a apparecer triste; tinha na face a pallidez da planta que esmorece. Nem uma palavra só de queixume; a mesma abstracção sempre! Os labios pareciam emmudecidos pelo sello do mysterio. Cercava-lhe os olhos languidos um disco roxo de maceração, ennublava-lhe o semblante a preoccupação de uma dôr, que não sabia confessar. Quando Lope a chamou para de junto a si, e a estreitou nos braços beijando aquella flor da mocidade que o Senhor fizera brotar de suas ruinas, sentiu uma dilaceração interior, ao ver uma lagrima pura, candida, ingenua, resvalar-lhe na face em que a dôr empanava o viço infantil:
--Oh minha filha! quem podera adivinhar o segredo de tua angustia, e inverter os pensamentos afflictivos de magoa n'um extasis perenne de felicidade. Marcella, Marcella! Eu dizia-te um dia, lembras-te ainda? era n'aquelle livro, que o presentimento me fez intitular _Remedio na desdita_: «Deus te proteja, e te faça ditosa, postoque teus dotes o não consintam, principalmente se fôres herdeira do meu destino.» A coróa de gloria que me cinge sangra-me na fronte com dolorosos espinhos; o que a poesia me ha ditado tenho-o soffrido primeiro. Tu, alma da minha alma, vás pisando a mesma via dolorosa. Ergue-te d'essa prostração do desalento em que te deixas cair! Conta-me o que assim vem perturbar teus pensamentos tranquillos, roubar-me as tuas caricias que me fazem rejuvenescer? Eu não sei como amparal-a, interrogal-a, sem que esta planta mimosa languesça como a sensitiva. Menina, moça, ignorando a vida, acordaria ella senhora? Leval-a-hia o amor em sonhos ao seu mundo de aspirações infindas? Ella inclina-se sobre meu hombro e chora. Como posso eu consolal-a, dar-lhe as esperanças que não tenho e que de ha muito me desampararam? Marcella! Ergue a tua cabeça; deixa-me vêr-te, beijar-te, enxugar as tuas lagrimas, filha. Dize-me o que te afflige tanto. Pobre creança, ella cada vez me estreita mais a si.
--Oh meu pae! eu não sei o que me faz tão cedo aborrecer as galas, as seducções do mundo, e me mostra a vida como um dezerto invio, intransitavel. A alma sente um vacuo que ninguem pode encher. É o christianismo que me faz germinar no espirito este sentimento vago, uma sêde d'esse goso sem limites da visão beatifica, uma aspiração, um desejo ardente de regressar á eterna patria, de me confundir nos córos archangelicos, ao som do trissagio perenne. A natureza por mais esplendida e vicejante, as flores de aromas mais exquisitos, o céo mais admiravelmente cravejado de estrellas, o azul, o espaço aberto, causam-me o desgosto que havia sentir Moysés do alto da montanha vendo ao longe a terra promettida e sem poder attingil-a. Quanto mais me sinto enleada n'este encanto divino da contemplação interior, torna-se-me mais intenso o desejo de abandonar o desterro d'este valle de lagrimas, quebrar os vinculos da carne, e acordar no empyreo. Este corpo que me déste é a prisão em que a alma suspira e anceia por soltar-se; ella é a escrava da Escriptura que vaga á mingua de uma gôta de agoa no dezerto: ella tem diante de si um abysmo, que precisa transpôr sem o fitar. Eu senti em sonho este hymeneu recondito e incomprehensivel do amor divino. O Amado erra pelas brenhas, chamando a Esposa perdida. Eu não me posso elevar até Deus, o _Deus absconditus_, pela intelligencia, como os doutores; deixae que a alma vulgar e humilde, desconhecendo essa vereda intrincada, caminhe conduzida pela intensidade do seu desejo á eterna fonte suprema do bem. Eu quero professar em um mosteiro, seguir a regra da penitencia austera, voltar para a arca santa, como a pomba do diluvio. Quero envolver-me no burel, mergulhar-me na escuridão de uma cella, e scismar embalada nas musicas do extasis.
--Marcella! para que vaes tornar assim a minha solidão mais dolorosa? Teu irmão, perdi-o ainda tão criança! Eras só tu que me restavas no mundo. Sem ti, de que serve a vida que levo devorada pelas recordações do passado. Eu perdi uma esposa, que asserenava em meu coração as tempestades do amor. Tinha em ti meu unico refrigerio, e desamparas-me quando me vejo mais só! Pobre filha! Terá ella vergonha do mundo? do seu nascimento illegitimo? Que provação tão dura e repentina me estava reservada em castigo de uma mocidade turbulenta! Vae, filha, corre aos braços do divino Esposo: elle só póde dar-te a grinalda immarcessivel, servir-te com uma legião de anjos. És o ultimo ramo virente que o destino arranca de um tronco carcomido pelos annos. Vae, vae.--E apertou-a nos braços a chorar como uma criança.
Tempo depois, a engraçada filha do maior e mais fecundo poeta de Hespanha entrou para o convento das Carmelitas descalças, em Madrid. Lope de Vega descreve esse abandono do mundo com expressões sentidissimas:
«Marcella, o primeiro pensamento do meu amor paternal, cuidava em casar-se, e uma noite me disse o nome d'aquelle que desejava para esposo.
«E eu, que sabia quanto é prudente deixar amadurecer um tal pensamento, porque ha decisões que provêm de causas accidentaes, fiz minhas excusas, esperando sempre não contrariar seus desejos, se elles se fundassem na verdade de sua alma. Mas vendo cada dia esse desejo a augmentar-se, determinei-me dar-lhe esse esposo, que sollicitava seu amor. Esse esposo é bello, é rico, é sabio, e de uma estirpe illustre, e seu pae é nada menos do que todo poderoso. Eu juro que por parte de sua mãe é de sangue real, e que ella é tão boa, que não ha attractivos, nem virtudes que não possua. É uma mãe tão cheia de graça, que pelas suas mãos Deus a dispensa ao mundo. Ella é juntamente rosa e lirio, cypreste e palmeira.»
A egreja estava ornada como o thalamo de um noivado. Então, o poeta viu sua filha n'esse dia com uma graça, uma belleza, uma perfeição inexcedivel, que a alegria fazia realçar sobre os dons da natureza, que o contentamento animava de vivacidade e elegancia. O esposo recebia-a nos seus braços carinhosos. O amor divino transfigura-se sempre na infancia. Myriades de luzes, damascos e brocados enfeitavam o aposento nupcial.
«Marcella,--continua o poeta--as faces coloridas como duas rosas, e os labios como banhados por um sorriso honesto, fitou-me: o ultimo adeus que separava duas existencias.
«Sua alma trasbordava de felicidade com esta vocação; e por um ultimo adeus de seu corpo, ella voltou costas a tudo que o mundo chama festas e prazeres.
«Depois, offerecendo ao joven esposo sua casta grinalda de virgem, ella estreitou-o a si, cobrindo de beijos seus olhos de esmeralda.
«O céo fechou a porta ao meu coração cheio de amor paternal; arrebatava-me a melhor parte da minha alma; e eu era o unico a lamentar n'esta multidão de espectadores. Tornámos á egreja; a desposada deixara seus habitos de festa, os enfeites, para envolver-se no burel grosseiro. Suas tranças foram cortadas, porque, como as outras virgens que povoavam o côro, ella não devia ter para ser bella, mais do que a sua belleza.»
Sente-se n'estas palavras do poeta a dôr do coração de um pae, a quem todo o sentimento e uncção religiosa não podem consolar. Verga diante d'essa agonia, resigna-se. Passado o anno do noviciado ainda o coração virginal de Marcella palpitava com o amor divino. Pronunciou os votos, e professou.
«Ella dormia sobre a palha fria e dura, e andava descalça; o corpo andava occulto em uma vestimenta humilde; só os olhos eram a expressão de sua alma. Oh bemaventurado desengano das cousas da terra!--exclama o poeta na solidão do seu amor.--Esta virgem tão bella, tão casta, tão pura, consagrou a Deus os seus dezesete annos!»
Estes desgostos da vida foram-o levando á sepultura; Lope de Vega succumbiu no auge da admiração. O seu funeral foi imponentissimo, como o de Miguel Angelo. Marcella, a intelligente filha do poeta, pediu para o cortejo passar pelo convento das Trinitarias descalças. No momento em que o préstito parou diante do mosteiro, viu-se apparecer por entre as grades avaras um semblante macerado por uma dôr lenta. Era Marcella chorando a morte do pae, talvez pungida pelo abandono em que o tinha deixado. Instantes depois, sumiu-se na escuridão da cella, e ninguem soube o que a levara na candura dos dezesete annos a abandonar seu pae na desconfortada velhice.
A Ogiva sombria
Sem duvida, no tempo da mais bella flôr da architectura gotica, quando foi construida a cathedral de Colonia, ligava-se uma grande importancia a estes numeros symbolicos, porque a concepção ainda confusa das idéas racionaes, contenta-se facilmente com estes signaes exteriores.
HEGEL--_Esthetica_.
A Cathedral! a creação suprema da Edade média, em que a arte, pelo sentimento, em uma strophe de pedra, sabe concentrar o espirito radiante do christianismo, pela força audaciosa do symbolo! Ella representa a aspiração incessante da alma que se eleva para o céo; é ella como a Esposa dos _Cantares_, que espera em silencio a visita do Amado, e se veste de suas galas e realça de encantos. A curva suave da _Ogiva_ imita uns párpados languidos, uma pupilla scismadora, enleiada n'aquelle extasis sensual do amor divino, que Thereza de Jesus sentia nos seus delirios mysticos; as _flexas_ atrevidas, atiradas para os áres, a linha a infinitivar-se, a perder-se no espaço, as _agulhas_ bordadas, rendilhadas, são os cabellos dispersos, fluctuantes da donzellinha, que se assenta cansada de errar pelas brenhas e em volta da cabana dos pastores á busca do amado. A _cupula_ altiva, representando aquelle momento em que a alma se desprende dos limos terrenos e se absorve toda na mystica unitiva, é o collo, que o poeta dos _Cantares_ comparava á torre de marfim que olha para o occidente, e cuja magestade é similhante á da lua que se alevanta. Miguel Angelo chama tambem a uma egreja, nas effusões do seu pantheismo artistico, _mia sposa_.
Cada monumento antigo é como uma fronte veneranda, enrugada pelos seculos, animada por uma expressão profunda. Essa expressão é a linguagem dos évos, creada pelo espirito que não póde contemplar um facto, acreditar na sua existencia independentemente de uma idéa, de uma razão de ser que procura achar n'elle. É a fatalidade do enigma do sphinge. As Cathedraes goticas reunem quasi sempre a lenda piedosa com a lenda grotesca e diabolica; ellas são como a incerteza da alma que paira duvidosa entre a possessão e o extasis. Umas vezes, são os anjos que vêm de noite trazer de longe grandes blocos para a edificação da fabrica, que lavram a pedra, que alevantam o mosteiro. É a inspiração do anonymo nas obras grandiosas. Ás vezes, é o diabo, que com a mira em dilatar o seu imperio faz tudo, e transporta para a construcção as melhores peças que rouba de outros monumentos, como uma columna do templo de Diana em Epheso para o templo de S. Zenão em Verona. A alma do architecto está retratada na sua concepção; receiando de suas forças para realisar o ideal sublime dos sentimentos do christianismo nos monolithos de marmore para que cria uma fórma, não teme evocar a potencia das trevas. Nas Ogivas escuras, soturnas das Cathedraes goticas, nos arabescos extravagantes das janellas esguias, nos monstros boqui-abertos que servem de goteiras, nos basiliscos informes dos pedestaes, reflecte-se esta alliança do mysticismo poetico com o mysticismo divino. Muitas vezes a Cathedral tem o mysterio de um symbolo que se mobilisa para exprimir os sentimentos da humanidade; com as invasões e descobrimentos maritimos ella toma a fórma de um navio voltado para o Oriente, d'onde lhe vem a luz; tambem imita uma cruz estendida ao longo, como na nossa maravilha de architectura, a Batalha, o poema da crença e do heroismo de um seculo.
Estamos em plena Edade média. A noite era caliginosa e tetrica; o coriscar frequente dos relampagos, o ribombo estridente dos trovões repercutindo-se distante, e o restrugir medonho da floresta, completavam as harmonias intraduziveis da tempestade. A alma, diante d'este espectaculo estupendo da natureza, sentia uma pressão que a fazia concentrar-se possuida do sentimento do infinito, a que os homens que tudo indagam e submettem ás formulas metaphysicas chamam--o _sublime_.
Via-se através da escuridade absoluta das horas mortas um clarão incerto, como de alampada veladora. Seria algum discipulo de Flamel ou de Lullo absorvido pelos mysterios da alchimia, submettendo a materia, interrogando este Proteo eterno, que, a cada pergunta ostenta uma fórma diversa, e responde de mil modos differentes, sem que cheguem a surprehender-lhe o segredo de sua simplicidade? Seria um monge solitario enlevado na paz ignota da vigilia, procurando, no silencio da noite, elevar-se pelo coração até Deus? A luz jorrava da janella do aposento humilde e sombrio. Dentro, sentia-se o respirar cansado de um peito oppresso; a alampada espalhava em tôrno uma penumbra em que fluctuavam as visagens caprichosas de uma mente tresvariada, e vinha reflectir-se pallida, descorada sobre o rosto macilento, em que os gestos davam uma expressão incomprehensivel como os pensamentos que o agitam. Via-se n'aquelle rosto impressa a anciedade dos que penetram pela intuição a verdade de um problema insoluvel, e uma distracção leve lh'a fez esquecer. Sobre uma mesa estavam pergaminhos extensos, desenrolados, cobertos de linhas cabalisticas, com que se evocam os espiritos nocturnos, compassos e astrolabios, espheras e mappas.
Era alli que morava mestre Gerardo, o architecto da Cathedral de Colonia. Estava contemplando o traçado da sua obra; a physionomia animava-se-lhe de quando em quando com uma luz, um resplendor vivo de transfiguração, como n'um extasis em que o ideal se deixava tocar, determinar em uma fórma só concebida pela mente do homem. Os cabellos andavam-lhe revoltos, espalhados sobre a fronte, como nas convulsões de uma sibylla quando entrevê o futuro, e sente o influxo vertiginoso que lhe dicta o vaticinio. Depois, uma sombra espessa, como de um desgosto repentino, veiu offuscar-lhe a serenidade que se lhe espelhára na fronte, em que os annos redobravam a magestade. N'isto, levou a mão á cabeça, como para suster o impulso de uma idéa que lhe occorrêra:
--A arte! a arte! é ella que me vem descobrir estas linhas que eu fixo no marmore, e que hão de ser a admiração dos seculos. Ella vem-me ensinar este segredo do ornato, a variedade disposta de modo, que leva o espirito á unidade do pensamento. A arte é uma religião que inspira tambem uma fé viva, ardente, intensa, e dá forças para affrontar a duvida, que cerca e punge o espirito creador. Um dia duvidaram de mim; não imaginavam que eu podesse levantar essa mole de pedras, uma Cathedral representando o vôo mystico da alma! Riram-se do plano da minha obra! Eu tenho pensado dias e noites, como na virgem eleita dos sonhos da mocidade. A Cathedral! ella apparece-me na phantasia, illuminada por um sol fulgurante, trasbordando de musicas e harmonias suaves, perfumada de incenso, revestida de purpura, recamada de ouro, como a noiva que se veste para entrar no aposento do real esposo. Cada pedra que se vae dispondo, cada arco, cada pilastra erguida, é a ponta de um véo que se alevanta e me deixa vêl-a, sonhal-a, idealisal-a sobre essa realidade incompleta. É como a terra que vae apparecendo vagarosamente ao nauta cansado das tormentas, á medida que se esvaece o nevoeiro da madrugada. A Cathedral! a Cathedral! eu scismo e estremeço diante d'ella, quando a contemplo; sinto o delirio do artista grego apaixonado pela carnalidade que ia descobrindo o seu escôpro. Ella parece-me uma fada escondida, e que a arte me descobre o segredo para quebrar-lhe o encantamento, e mostral-a excelsa, bella, radiante elevando-se para o alto n'uma ascenção divina. Eu queria vêl-a suspensa nos ares, servindo-lhe as nuvens e os cumulos alvacentos de pedestal! Agora já me não inspira terror o desdem dos meus inimigos: descobri a ultima strophe do poema da minha vida, hei de confundil-os, fazel-os curvar-se adorando-a: é o zimborio, a cupula arrojada ás alturas, similhante ao vôo extatico da alma até á absorpção em Deus.
Havia n'estas palavras a vibração frenetica do delirio; mestre Gerardo de Colonia ficou silencioso como na prostração dos fortes impulsos que lhe déra a alegria. Os olhos brilhavam humedecidos, scintilantes, exprimindo o regosijo intimo da contemplação da sua alma. E tornou a inclinar-se sobre a folha de pergaminho, a recompôr na mente as linhas que alli traçara n'um momento de inspiração. Depois, accometido por um novo accesso de enthusiasmo, arremessou de si o traçado; os olhos flammejaram coruscantes, parecia que estava doido:
--Eu quero mostrar assim, que essas Confrarias dos obreiros constructores de Strasburg, de Vienna, de Zurich e Magdeburg não podem disputar a proeminencia a Colonia. Todos os obreiros e artifices da Baixa-Allemanha hãode reconhecer em mim a supremacia do chefe. Que importa que Strasburg queira ser a séde da grande mestria? De que vale a homenagem prestada pelas confraternidades maçonicas da Alta-Allemanha, de uma parte de França, da Hesse, da Suabia, de Thuringe, da Franconia e da Baviera? O zimborio da Cathedral ha de erguer-se bem alto para a admiração de todos.
E calou-se de repente, como envergonhando-se diante de si mesmo, de se haver deixado possuir d'aquella vaidade. Depois continuou com dor:
--Quantos monumentos estupendos, quantos obeliscos gigantes, que assombram as edades, e que mostram o poder creador do homem, competindo com as creações de Deus, quantas maravilhas espalhadas pela superficie da terra, e que o architecto não quiz que se soubesse o seu nome, com uma abnegação sublime da gloria do mundo! Eu que ainda não completei a minha obra, que a tenho aqui na cabeça, nem sei mesmo se chegarei a realisar este sonho, se terei a força de Atlante para suster nos ares a cupula audaciosa, eu, mesquinho, ufano-me, ensoberbeço-me! O genio não tem consciencia de si, não conhece o poder magico de que dispõe, por isso não se infatua. O que é a gloria do mundo ante a gloria celeste! Illusão que nunca chega a ter um momento só de realidade; é uma nuvem tenuissima que tolda o azul diaphano do empyreo. Para a alma do que preliba os encantos do céo, a gloria do mundo é uma tentação dolorosa, um martyrio incessante; porque então para ella a vida é como a luz vivida da alampada, que se consome no silencio da noite diante da imagem veneranda; assim, a alma procura envolver-se no olvido, no esquecimento de si para resplandecer mais pura.
Os legendarios estão cheios d'estas luctas violentas com os sentimentos mais profundos do coração do homem. Um dia Rubens estremeceu attonito diante de um quadro escondido na penumbra de um côro em uma egreja hespanhola; o quadro era um mysterio quasi impossivel de ser traduzido, divulgado pelas côres sobre a tella. Era a morte do justo. A morbida expressão do rosto macilento, uma auréola divina diffundindo-se em roda, a alma anciosa pelo jubilo do céo a exhalar-se docemente, como o ultimo raio do sol da tarde, e por sobre a cabeça os anjos debruçando-se das alturas a contemplarem o monge na hora do passamento! Era uma transfiguração sublime, a idéa mais bella, a que resume todo o christianismo, revelada pela arte. Quando o grande pintor voltou a si d'aquelle extasis imprevisto, sentiu-se pequeno ao pé de uma creação tão perfeita. Perguntou ao monge que o conduzia, que pincel realisára tamanha obra, para confessar-se seu discipulo, e proclamal-o á admiração do mundo. O monge sentiu um estremecimento convulsivo, e respondeu-lhe apenas:--«Não é já do mundo!» e quando elle voltou á sua cella, juntou os pinceis, a palheta e lançou-os na corrente de um ribeiro que deslisava manso á falda da janella; e para esconder as lagrimas que ainda uma vez lhe escaldaram as faces retinctas na palidez da penitencia, foi procurar conforto na oração fervorosa. Como não teria tambem esta energia para luctar comsigo aquelle que escreveu na mudez da cella um livro de resignação e conforto, a _Imitação de Christo_, e que abnegou d'essa gloria para não tornal-o uma mentira!
Mestre Gerardo de Colonia ficára absorvido em uma meditação profunda. A tempestade continuava solemne e grandiosa na mudez da noite. Sentiu um leve rumor no aposento, que a contenção de espirito em que estava mal deixou perceber. Prestou ouvidos. Batiam á porta.
--Quem será? assim tão fóra de horas!--e correu os ferrolhos. Entrou uma figura alta, embuçada em um gabinardo longo, o rosto assombreado pelas abas de um largo chapeirão.--Quem sois?--inquiriu o architecto, preoccupado ainda na sua abstracção.
--Sou um irmão da Confraria dos obreiros constructores de Strasburg;--tornou o desconhecido com uma voz cava.
--Entrae.
Sentaram-se, contemplando-se um instante silenciosos.
--A que vindes?
--O que me traz?--redarguiu o desconhecido com um tom de ironia acerba,--deves sabel-o melhor do que ninguem. Confias no zimborio da Cathedral de Colonia, para quereres assim submetter á tua supremacia a mestria central de Strasburg. É impossivel e chimerica essa tua loucura. As grandes lojas querem todas a independencia. Demais o zimborio, a obra que é o teu orgulho, não está prompta e talvez nunca a possas levar ao cabo.
Mestre Gerardo ficou espantado, hirto de raiva diante da audacia do desconhecido. Depois, volveu-lhe com uma severidade que lhe abafava a voz:
--Ainda sou architecto! e o zimborio ha de ser o primeiro a saudar no alto os alvores do sol quando se alevanta. Juro pela minha alma.
--Aposto em como te enganas!
--Aposto em como te hei de confundir, e a todas as mestrias rebeldes da Allemanha!--insistiu o architecto.
--Pois bem! Eu comecei ha dias a obra do Aqueducto de Treves, e espero ainda vel-o acabado antes de teres prompta a Cathedral. Se assim não for, no dia em que deres por acabada a tua obra, despenho-me do Aqueducto. Tu precipitas-te tambem dos coruchéos da Cathedral se eu vier reclamar primeiro? Acceitas a aposta?
--Acceito.
--Juras?
--Juro.
A este instante ouviu-se longe o canto do gallo. O interlocutor mysterioso desappareceu subitamente ás primeiras notas do nuncio da alvorada. Foi então que o architecto reconheceu o--diabo; não quiz acreditar na realidade d'aquelle pesadello. O canto do gallo é celebrado nos hymnos da egreja, principalmente nos de Santo Ambrosio. _Gallo canente vigilemus omnes._ Elle symbolisa a voz interior que desperta a alma do somno da tentação; foi o canto do gallo que despertou tambem a Pedro no atrio do Pretorio, quando renegou o Mestre. No mysticismo poetico elle representa uma parte importante. A imaginação exaltada pelos sonhos da noite não podia deixar de revestil-o de mysterio. Já a Grecia lhe havia formado o mytho: é o castigo de Alectrião. A sombra que reclama de Hamlet uma vingança, o côro das feiticeiras de Macbeth, desapparecem com a magia d'esse canto.
Um dia o architecto subira á Cathedral; estava prestes a terminar-se a cupula. A alegria hallucinava-o. Appareceu-lhe então uma cabeça disforme, rindo, confrangendo-se em esgares satanicos por entre as sombras profundas de uma ogiva. Disse-lhe que estava prompto o Aqueducto de Treves. Mestre Gerardo empallideceu e voltou o rosto á pressa! Aquella nova enterrava-o. Baixou os olhos como para suspender uma vertigem instantanea, fatalmente o relance mediu a altura da Cathedral; o angulo visual dilatou-se de modo que lhe produziu a attracção do abysmo. Resistiu debalde, vacillou um instante e despenhou-se por fim. Disseram que fôra a alegria explosiva de vêr a sua obra, que lhe causara o desvario que o precipitou.
Assim conseguiu estabelecer o seu predominio a Mestria central de Strasburg.
As aguias do norte
(CONTO POLACO)
Harpa sacrosanta, orvalhada pelas lagrimas dos videntes, que repousam sobre ti frontes encanecidas, banhadas no pranto do captiveiro, quando á tarde abandonada na solidão do exilio, á beira da torrente, a aragem vespertina vinha gemer em tuas cordas, o cantico remoto era como o anceio de um coração oppresso, ai, que se perde confundido com o rojar das cadeias.
Inclina-te agora em meus braços, e vibra-me um canto de desespero, insoffrido, eterno, para acordar a turba, que dorme sob o peso das gargalheiras.
O vento livre saberá levar a toada longinqua, para achar ecco no peito dos desgraçados. Patria! patria! és a tunica inconsutil sobre que rodam os dados do infortunio.
Polonia! tu és o peito exangue, ferido pela lança do incredulo. Podesse o teu sangue dar a vista ao que te fere com mão obstinada. Ao menos, que o teu ultimo arranco afaste para bem longe o bando dos abutres selvagens que pairam sobre ti, Prometheu, algemado em terra, mas, que ainda nas convulsões da agonia mostra a animação do fogo divino da liberdade.
Oh! mas o que vale ao poeta desterrado contemplar a ruina da patria! Para que ha de elle pedir á sua harpa um canto de angustia e saudade, se aquelles que o escutam e se sentem fortes para luctar com um esforço sobrehumano, são depois martyres do sublime enthusiasmo?
Que tristeza profunda o lembrar-me que o meu poema a _Tentação_, exaltando os estudantes da Lithuania para sacudirem os tyrannos, fez com que os oppressores arrojassem para os steppes e minas da Siberia a flôr da mocidade da Polonia! Pobre Karl; ainda tenho aqui a carta em que elle me conta os trabalhos da jornada para o desterro:
_De um estudante de Lithuania ao Poeta anonymo da Polonia_
«Em todos os tempos a poesia tem sido a expressão dos sentimentos profundos da humanidade; chora com as suas dôres, e é ella que vae ao sepulchro das nações proferir o _Surge et ambula_ á raça supplantada pela pressão dos despotas. Desde os prophetas de Israel, e Tyrteu e Callino até Rouget de Lisle, Kerner e Poetefi, a poesia tem dirigido as revoluções; é como a columna de fogo que leva á terra promettida através dos errores do dezerto.
Nós eramos crianças, animados dos sentimentos mais puros, que a edade não deixa contaminar; choravamos de magoa e despeito, com vergonha de vermos envilecida, sob o jugo obscurante dos czares, esta pobre patria esmagada por um colosso de inercia e barbarie. Um dia appareceu-nos um poema estranho, novo, um grito ancioso em que se exhalava uma alma. Pareceu-nos a voz da Polonia que nos chamava em seu desalento; sentimo-nos fortes no primeiro impulso.
Estudavamos em Lithuania; uma noite reunimo-nos para lêr o poema. Brilhava em cada rosto um lampejo de colera e esperança. Cada estrophe era um sobresalto, a anciedade do sacrificio. Eramos como aquelles crentes dos primeiros seculos do christianismo, tinhamos a sêde do martyrio. A noite da conjuração era tempestuosa como os pensamentos que nos agitavam. Jurámos alli, com as mãos sobre as estancias mysteriosas que nos vieram despertar do lethargo da oppressão, abnegar do amor, da familia, da vida, por esta desgraçada Polonia. A alampada solitaria que allumiava o aposento deixava uma penumbra phantastica e terrivel, como em um tribunal whemico; os olhos coruscavam com brilho de alegrias sanguinarias. O enthusiasmo precipitava-nos. Sentiamos forças de Atlante, uma audacia e tenacidade para a lucta; mas, via-se ao mesmo tempo em cada rosto a sombra, não sei de que pensamento funesto, de uma aspiração irrealisavel. Seria uma desgraça imminente?
Quando nos abraçamos como irmãos na mesma crença, para os transes mais dolorosos, correram as lagrimas, ferventes, como nos momentos rapidos de uma despedida para sempre. Havia um silencio augusto. Parecia que o céo e a terra escutavam o nosso juramento; que a patria agrilhoada interrompera os lamentos para escutar a voz consoladora de seus filhos, que esperavam o dia da redempção.
Foi então que ella appareceu, Hedwige, a mulher que eu amava, o cabello destrançado pelo vento da noite, cansada, offegando, sem côres, enfiada de susto. Julguei-a uma apparição angelica, que baixava para trazer-nos a palma do martyrio, a annunciar os transes d'este horto em que estavamos recordando as agonias da Polonia. Como ella estava bella, radiante; era uma prophetisa, altiva como Débora quando proclamava ás gentes a lei, a sombra das palmeiras entre Rama e Bethel, sobre as fronteiras de Benjamim e Ephraim. Ficámos suspensos, esperando o hymno que havia romper dos labios sellados por um mysterio profundo. Como deixou ella a casa de seus paes, nas sombras da noite medonha? Como soube onde estavamos; quem a trouxe aqui? Fôra o amor, esta illuminação da segunda vista. Hedwige proferiu, depois de alguns instantes de repouso, com a voz entrecortada e tremula:
--Ainda é tempo! Os soldados russos vêm em busca de nós; sabem da conjuração, e perseguem-nos; poupemo-nos para a hora suprema do resgate.
Depois ella veiu para mim e abraçou-me. Ia começar a fallar, quando se sentiu na rua o estrepito de armas, e vozearia de uma soldadesca brutal e desenfreada. Não me custava a vida; mas tel-a a meu lado, alli! vêl-a sujeita á irrisão e malvadez dos que vinham para prender-nos! Pobre Hedwige; ella abraçou-me e sorriu-se:
--Tens medo? vejo-te tão pallido! Receias que eu não tenha coragem para corresponder á tua bravura? Eu sou mulher, é verdade. Era ao suspiro de uma mulher que a liberdade romana acordava sempre. Lucrecia e Virginia ensinaram-me tambem a ser forte um dia. Karl! eu sinto que n'este instante nos une um amor mais alto e desinteressado, que nada tem das paixões terrenas. Dá-me o abraço que ha de fundir n'uma só as nossas almas para sempre. Agora já te posso dizer como Arria, se te visse esmorecer no perigo, o que elle disse levando o punhal ao peito: _Poe, us, non dolet!_
O tumulto, o som confuso das armas, o tropear dos soldados, não me deixaram ouvil-a mais. Entraram na sala sombria, como uma onda turbulenta que irrompe derrubando os diques e se precipita como um vertice fremente. As armaduras reluziam, e nos causavam a vertigem do terror. Um frio lethal escoou-se por mim; lembrou-me luctar para defendel-a.
Reinava um silencio de morte. Já sabiamos a sorte que nos esperava. Depois vieram lançar-nos as cadeias pesadas, as gargalheiras infamantes da escravidão, ultrajando com risos aquelle sentimento puro que nos dava constancia para o martyrio. Era impossivel resistir; todo o esforço seria inutil. Deixei passivamente algemarem-me. Um olhar firme de Hedwige inspirou-me uma resignação indizivel. Não sei que apparencia divina, que irradiação sublime, etherea, envolvêra o rosto da minha amada, que os soldados não se atreviam a aproximar-se. Seria esse terror, que fazia cair em terra, fulminados, os que tocavam na Arca sacrosanta? Na serenidade altiva que ella mostrava n'este instante, conheci-lhe uma resolução extrema; Hedwige queria tambem ser prisioneira, para soffrer commigo as dores do desterro. Ella lançou mão do poema que estava sobre a mesa, e começou a recitar algumas das estrophes mais arrebatadas, com uma voz prophetica, no tom mysterioso de uma sibylla. A magia d'aquella voz sentida prendia; ficaram immoveis, quedos, escutando-a:
Fragmentos de uma Elegia polaca
--«E lentamente, mui lentamente, por detraz do Homem-Deus, avança deslumbrante de belleza e sem vestigios de morte a minha dilecta Polonia.--Ella pára sobre os umbraes da Sião promettida a todos os povos, e--d'estas alturas sagradas sua voz retumba, dirigindo-se ás nações reunidas muito longe, lá em baixo, nos términos do espaço.
«A mim, a mim, oh vós, raças fraternas! A ultima lucta do derradeiro combate terminou;--os embustes das traições e das mentiras terrestres estão destruidos.--Subi commigo para o reino da paz.»--E o côro das nações lhe responde: «Benção e gloria a ti, oh Polonia! porque ainda que tenhamos todas soffrido,--tu supportaste mais tormentos que nenhuma de nós,--Pela enormidade das injustiças accumuladas sobre ti, conservavas constantemente o inimigo debaixo do raio de Deus!--No transe do martyrio, tiravas de teu coração uma vida mais energica que a dos teus oppressores,--e pelo teu sacrificio nos salvaste.--Benção e gloria a ti, oh Polonia!»
Oh! quantas vezes por uma noite sombria do outomno, a voz de minha mãe ou de algum antepassado sáe do tumulo, e chega até mim para me fallar do futuro.--Eis que a este ruido mysterioso, visões estranhas me apparecem.--O canto de triumpho soltando-se do peito de milhões de homens, resôa em derredor.--Os vencedores passam em phalanges innumeraveis,--eu vejo as brancas, resplandecentes figuras das irmãs e dos irmãos libertados da escravidão;--a centelha da immortalidade faisca de todas as frontes.--Mesmo sem azas, elles vogam no ár, como se fossem alados; sem corôas brilham como se fossem coroados.--E eu mesmo prosigo no meio de todos, e me sinto em uma especie de céo desconhecido, antecipado.
E, quem sabe? talvez que a prophecia dos meus sonhos se realisasse já sobre o tumulo da Polonia! E não havia senão eu, eu cadaver, que faltava entre os resuscitados! Oh, através d'estas grades e d'estes muros que me fecham como as taboas de um feretro, o meu espirito se illumina e se expande ao longe, transpondo o tempo e o espaço!--Sim, eu vejo: além, por toda a parte myriades de estrellas e flores;--o mundo regenerado celebra suas nupcias com a joven liberdade!--Na aresta dos Alpes, no cimo dos Carpathos, o céo resplandece com os raios da mesma aurora,--e todos os povos unidos, confundidos, parecem formar um só oceano, por sobre o qual é levado o espirito de Deus[1].»
Á medida que ia proseguindo no canto, Hedwige, como a Sulamite dos _Cantares_, comparada á torre que olha para o occidente, parecia suspensa; o semblante com a graça diaphana de um seraphim. N'aquella elevação surprehendente, a commoção embaraçou-lhe a voz; não pôde fallar; ficou hirta, livida, como na concentração violenta do extasis. Era o genio da Polonia incarnado em uma mulher que soffria. Hedwige ficou silenciosa; nem um queixume, uma lagrima sequer, quando lhe roxearam os pulsos. Quando tornou a si, e conheceu que ia compartilhar commigo a mesma sorte, sorriu-se, com a expressão divina da alegria dolorosa e da resignação.
Dias depois leram-nos a sentença. Doze annos de desterro e trabalhos na Siberia. Hedwige escutou impassivel. Custava-me tanto vel-a soffrer em silencio; ella fazia um esforço inaudito para não vergar com as dores excessivas; não queria redobrar o meu soffrimento. Oh meu Poeta! foi então que me convenci de que o homem é o lobo do homem; peior ainda que o lobo cerval, porque espia os segredos da nossa alma, e antes que nos inflijam as sevicias do corpo, torturam-nos o espirito, insultando os sentimentos mais recatados e santos que nos dão coragem nos desalentos da vida.
Partimos todos na carroça dos desterrados, um _kibitka_ peior que o tormento inventado para matar o integerrimo Atilio. As rajadas do inverno eram cortantes, e tiravam-nos todo o vigor para avançar; depois, vieram amontoando-se os gelos, e nos obrigaram a proseguir a pé; a desolação dos steppes, por onde passavamos, despertava-nos não sei que sympathia, talvez porque eram uma similhança visivel do abandono e ruinas em que estavam nossas almas.
Hedwige, delicada e fragil não podia caminhar mais, via-a desmaiar pouco a pouco; a lividez do sepulchro no semblante desbotado! Parecia-me a flor mimosa, emmurchecida com as geadas da noite. As pancadas do _knut_, um látego formado de tiras de couro crú e rosetas de ferro, com que a verberavam para adiantar caminho, esgotaram-lhe as forças. Eu não sei que haja palavras humanas para exprimir a dor e a raiva que senti n'esse instante, porque o coração do homem nunca soffreu tanto, para descobrir uma expressão para este infinito da angustia. Hedwige nem se atrevia a olhar para mim; depois vi-a cair transida de frio e cansaço; esgotára o ultimo esforço. Quizeram deixal-a sepultada entre o gelo. A noite vinha a fechar-se asperrima, atroz; eu não podia sequer lembrar-me que o corpo da minha amada ia ser em breve pasto dos abutres. Via-me tambem já sem forças. Pedi para leval-a aos meus hombros.
Era a loucura e egoismo do amor, que fazia com que a conduzisse, para sentir ainda agonias mais violentas que a morte.
--«Oh! antes me deixasses sepultada na solidão dos steppes, exposta ás aves nocturnas, do que vermo-nos agora separados para sempre!»--Disse-me ella a abraçar-me phrenetica, louca, quando nos separaram, mal que chegámos ás minas da Siberia.
Os meus companheiros do infortunio não os tornei mais a ver; Hedwige foi condemnada ao trabalho das minas de mercurio, muito longe. Não soube mais d'ella. A mim, enfiaram-me um capote de feltro e desceram-me por uma corda pelas gargantas da terra, por um boqueirão escuro; á medida que ia baixando, ia sentindo vozes confusas, ruido de enxadas. Então, vi na obscuridade profunda a luz baça e mortiça das lampadas de segurança, e uma multidão de homens escaveirados, magros; era uma cidade de mumias. Era aquella a minha habitação para doze annos de existencia. Admirava-me de ver alli crianças; filhos dos desgraçados obreiros, rachiticos, enfezados, não conheciam a luz do mundo, a vida resumia-se no trabalho insano. As dores que supportava haviam-me embotado o sentimento, tinha a impassibilidade do idiotismo, a mudez do assombro. Ás vezes uma lembrança longiqua de Hedwige e de minha mãe, a quem não pude dizer ao menos o extremo adeus, me davam a consciencia de que ainda vivia; mas não podia alliviar-me com as lagrimas.
Os que me viam nunca se atreveram a perguntar qual o meu crime. Não sei que esperança me prendia á vida, para que me não despedaçasse contra as rochas que ia arrancando. Estava já acostumado á obscuridade. Um dia começou a lembrança de Hedwige a occupar-me a imaginação. Seria uma saudade viva? algum presentimento? Lembrar-se-hia ella tambem de mim n'esse instante? Julgava-a já morta, criança e debil como era. Sem Hedwige, para que queria eu a vida? Oh! se a visse ainda uma vez morreria contente, resignado, perdoando tudo quanto os que se dizem meus similhantes me fizeram soffrer.
Era uma loucura esta idéa. E continuavamos silenciosos a romper a mina lobrega e funda. Começámos a sentir um écco surdo; eram os trabalhadores de outras minas, que se encontravam. Continuei a trabalhar com mais afan, na direcção d'onde vinham os sons abafados.
Encontrámo-nos dias depois. Que alegrias, que abraços intimos entre aquelles socios da desgraça. Se estivesse ali Hedwige! Que fatalidade! o meu desejo era o presentimento. «Já te esqueceste de mim?» Senti um abraço sem vigor; fitei nas sombras o vulto, que me fallava e me estreitava a si. Era ella, livida, desconhecida, com a magreza da consumpção; o mercurio penetrára-lhe a parte esponjosa dos ossos. Tive horror do ente que amava, era só a compaixão que me prendia a ella.
--«Lembras-te das palavras de Simeão quando na apresentação do templo viu o Messias em seus braços? Hoje digo-te o mesmo, Karl; já posso morrer.»
E eu continuei a viver para vêr prolongados a miseria e os flagicios incriveis, que me cercavam. Já não tinha o amor, que alimentava as horas da minha solidão. Hedwige tinha-me expirado nos braços; soltára a alma candida, acrysolada nas tribulações, no ultimo beijo, que recebeu de