Contos escolhidos de D. Antonio de Trueba
Chapter 7
--Com muito gosto; não tenho a menor duvida em acceder aos teus desejos, respondeu a rainha. Amanhã apresentar-vos-heis todos diante de mim, e veremos, então, quem é que leva a melhor.
Com effeito, no dia seguinte, estava a rainha sentada no seu throno, e as tres religiões, representadas pelo Preste João, e pelos judeus e mahometanos mais sabios, dispostos a discutir na sua presença.
--Está aberta a sessão, disse a rainha. E como era o Preste João quem tinha provocado aquelle certame, devia considerar-se como o primeiro, e por esse motivo que pedira a palavra, a rainha accrescentou: «Tem a palavra o Preste João.»
Os judeus e os moiros começaram logo a murmurar, accusando de parcial a augusta presidente; esta porém fel-os entrar na ordem, a poder de muitas razões, e toques de campainha.
--Senhores, disse o Preste João, trata-se de orientar a S. M. acerca d'um assumpto mui grave, qual é a escolha do homem a quem, de preferencia, deve ligar o seu futuro. Ora, o que mais interessa a S. M., é saber o que mais lhe convém, se um marido christão, se mahometano, ou judeu; quanto a mim a questão está resolvida, para S. M., desde o momento em que esta augusta senhora, ou para melhor dizer, _senhorita_, souber qual é das tres religiões aquella, que mais protege e favorece os fracos em geral, e a mulher, em particular.
«Comecemos pela religião judaica.
«A mulher, no povo de Israel, era escrava submissa do homem, e não sua companheira. Quasi nas primeiras paginas, nos testemunha isso o velho Testamento, pois nos diz que Abrahão, marido de Sára, recebeu Agár por mulher, ainda em vida da primeira, e logo adiante nos conta que Esaú casou, ao mesmo tempo, com duas irmãs cananêas. O Decálogo, revelado mais tarde a Moysés, no alto do Sinai, dizia: «não desejarás a mulher do teu proximo»; mas não dizia: «terás uma unica mulher», e Salomão, que era o prototypo da sabedoria hebraica, teve milhares de concubinas. Pergunto eu agora a S. M. se está disposta a soffrer que o seu futuro marido lhe dê uma, ou mais substitutas?!
--Substitutas! a mim!... exclamou a rainha indignada. Tenho bom genio para isso! Mais facil seria enterrarem-me viva!
--Pois eu continúo....
Aqui interrompem os judeus o orador, descontentes do caminho que leva a sua causa; a rainha porém fal-os entrar na ordem, á custa de repetidos toques de campainha, e com ameaça de os fazer expulsar do salão.
O orador continúa:
--Ficarei por aqui a respeito de judeus, os quaes, em verdade, me causam dó, ainda que não seja senão por os vêr condemnados a esperar o Messias, até á consummação dos seculos; com isso já não estão mal castigados por haverem crucificado a Christo, porque lá diz o rifão: «quem espera, desespera». Passemos agora aos mahometanos. Quem era o tal Mafoma?
--O propheta de Deus! exclamam os mahometanos, pondo a mão no peito, e dobrando-se reverentemente.
--Qual propheta, nem qual cabaça!...
Aqui é que foram ellas! Dizer isto o Preste João, e arrancarem os _moiraços dos chanfalhos_, rugindo de cólera, foi tudo obra d'um momento; a rainha porém sacudiu a campainha, mandou entrar o piquete da guarda, e graças a esta energia da presidencia, accommodaram-se os perturbadores da ordem, e o orador pôde, a final, continuar:
--Mafoma era um _sugeito_ que passava por sabio e grande, entre os seus compatriotas, pela razão muito simples de que na terra dos cégos, quem tem um olho é rei! Um dia, disse elle com os seus botões: Como hei de eu arranjar a dominar estes _barbaças_, que não tratam senão de se divertir com as moças?... como?... esperem lá... já sei. Engendro-lhes uma religião baseada no grosseiro sensualismo, e metto-lhes na cabeça, que ella me foi revelada por um anjo.» E dito e feito: arranjou o tal _alcorão_, segundo o qual, a mulher e o cavallo vem a ser, para o homem, uma e a mesma coisa, por isso que apenas servem para o divertir; e fez acreditar aos asnos dos seus compatriotas, que, no outro mundo, haviam de encontrar moças ás duzias, e obra desenganada.
--E é que as havemos de encontrar! gritam furiosos os mahometanos.
--Deixemos-nos de lerias!... que hão de vocês encontrar?! Só se forem alguns tições, que outra coisa não podem lá achar uns barbaros como vocês, que atravessam seculos e seculos, sem dar um passo na senda do progresso! Vamos porém agora a vêr o que é a mulher, segundo a religião estupida de Mafoma.
--Lancem-se essas palavras na acta! gritam, afogados em cólera, os mahometanos.
--Não é da minha real vontade! responde a rainha. Prosiga o orador no seu discurso, que eu cá estou para lhe manter o uso da palavra.
--Pois bem, eu continúo: É para cortar o coração, e fazer caír a alma aos pés, a maneira como a mulher é tratada pelos musulmanos. Não se contentam estes senhores com ter duas ou tres mulheres; possuem centos d'ellas, encerradas em carceres, a que dão o nome de serralhos, ou haréns. Atravessa a gente as cidades mais populosas da Turquia, e não encontra uma mulher siquer para um remedio; e isto porque esses barbaros até as privam do ar e do sol, as duas coisas mais preciosas, que a natureza concede á creatura. Horror! cem vezes horror!! Negarem á mulher, esse formoso ser, todo amor e ternura, a quem todos nós temos dado o dulcissimo nome de mãe, o ar e o sol, que não negam aos mais immundos irracionaes! Maldição sobre essa lei impia, sobre o falso propheta, que a dictou, e sobre o povo barbaro e fanatico, que a segue!
--Ah! perro christão!... gritam, a um tempo, todos os musulmanos, ao ouvir a energica apostrophe do Preste João; e, rugindo de raiva, mais furiosos ainda do que da primeira vez, lançam mão dos alfanges, com ameaça de acabar tragicamente com a discussão; a rainha porém, mandou entrar novamente o piquete da guarda, que os desarmou e os metteu na ordem, a poder de muita coronhada d'armas.
Apasiguada que foi aquella rusga, continuou o Preste João o seu discurso:
--Que differença entre o que a mulher deve á religião christã, e o que deve a qualquer das duas religiões, mahometana e hebraica! Maria, em cujas entranhas encarnou o Verbo Divino, senta-se, no ceu, ao lado do Filho de Deus, e juntamente com Jesus, lhe dão os homens o dulcissimo e santo nome de mãe. A religião christã glorifica a mulher, destinando-a a esmagar a cabeça da serpente do peccado, e Jesus proclama a egualdade de todas as creaturas humanas, e diz aos meninos que se acerquem d'elle, igualando, por tal forma, a mulher ao homem, e exaltando os fracos em cujo numero se conta a mulher. É pois a religião christã a unica que favorece a mulher; é aquella que a emancipa da escravidão e do opprobrio, a que a condemnam as religiões judaica e mahometana. Tenho dito; veremos agora se ha ahi alguem, que seja capaz de me contradizer.
--Teem a palavra os judeus, disse a augusta presidente.
--A religião de Moysés, replicou um rabino, já completamente desanimado, não carece de entrar em discussões, para provar a sua superioridade sobre todas as outras.
--Ficamos _inteirados!_ disse a rainha, e accrescentou: Teem a palavra os doutores musulmanos.
--Nós _cá_, os verdadeiros crentes, exclamou um turco, não discutimos senão d'alfange em punho.
--Quer isso dizer, á bruta! exclamou a rainha indignada; e erguendo-se da cadeira, accrescentou: estando já a hora mui adiantada, e não havendo mais assumptos a tratar, está levantada a sessão.
IV
Ficou a rainha quasi resolvida a casar com um christão; porém, receiosa de que houvessem murmurações e commentarios que lhe fossem desagradaveis, lembrando-se de que alguem poderia dizer que ella obrára levianamente, determinou-se a tentar uma outra prova. Consistia essa prova em fazer com que os apostolos das tres religiões celebrassem, na sua presença, uma das cerimonias mais importantes dos ritos que professavam.
Christãos, musulmanos e judeus, todos, com muito gosto, acceitaram a proposta de S. M., que logo fixou o dia para as cerimonias, que deviam verificar-se no mesmo salão, onde se tinha discutido qual era das tres religiões aquella a que mais devia a mulher.
Os primeiros que saíram a terreiro foram os mahometanos, os quaes annunciaram que iam executar a _Zala_.
Tinha a rainha grande curiosidade de presenciar esta cerimonia, que julgava ser magnifica, e que muito a divertiria; quando porém viu que a tal _Zala_ consistia tão sómente em cruzarem aquelles _ratões_ as mãos no peito, e fazerem reverencias e mais reverencias, ficou mais fria que o proprio gêlo.
--Muito engraçados são os taes _moirinhos_! disse S. M., com riso disfructador; e ordenou, em seguida, que saíssem a campo os judeus, a vêr que tal se portavam.
O grande rabino, com o seu barrete _enterrado_ até ás orelhas, como usam os seus correligionarios, sacou d'um livro, e immediatamente appareceram todos os judeus com os seus ripanços nas mãos. Ora, os taes livros seriam muito edificantes, mas tinham tanta côdea, que só com uma tenaz se lhes poderia pegar. O rabino principiou a entoar um psalmo, e todos os judeus o acompanharam; cantavam porém tão desentoadamente, e davam tão insoffriveis bérros, que a pobre da rainha não teve outro remedio senão tapar os ouvidos, e mandar a toda a pressa que cessasse tamanha algaravia.
Cessou com effeito, e os christãos dispuzeram-se, por ultimo, a celebrar o santo sacrificio da missa, para o que o Preste João tinha tudo perfeitamente ordenado.
Collocaram no salão um magnifico altar, accenderam uma grande quantidade de tochas, que faziam bellissima vista; puzeram o orgão n'um sitio, que tinha excellentes condições acusticas, tossiram e _aguçaram o pigarro_ os cantores que haviam de officiar a missa, e que, como em principio dissemos, eram os melhores de Roma; e, em seguida, subiu o Preste João ao altar, magnificamente revestido, bem como os dois acólitos, que o acompanhavam. A missa foi solemnissima, e tanto os celebrantes, como os cantores e o organista fizeram prodigios, que deixaram de bôcca aberta a rainha e a sua côrte.
Os mahometanos e os judeus olharam uns para os outros, e disseram por entre os dentes:
--Derrotaram-nos em tudo e por tudo estes perros christãos!
E na verdade não se enganaram, porque a rainha chamou, pouco depois, o Preste João, e disse-lhe:
--Decididamente caso com um christão.
--Louvado seja o Senhor! exclamou o Preste João, cheio de santa alegia. Agora só falta que V. M. escolha o christão, que deve ter a ventura de occupar o thalamo de tão formosa princeza.
--Já está escolhido, disse a rainha das Indias, fazendo-se córada como uma romã.
--E quem é esse feliz mortal?
--Tu.
--Eu!... V. M. não está em seu juiso!
--Então! faz-te agora de manto de seda!...
--Não, senhora; porém não sabe V. M. que eu sou padre, e que os padres catholicos não podem casar?...
--Que me dizes, homem?
--Digo-lhe isto, real senhora!
--Pois, amigo; partiste-me o coração!
--Então, porque?
--Porque estou apaixonada por ti, e se não casar comtigo, não caso com ninguem.
--Mas, senhora, entre os meus correligionarios ha moços mais bem parecidos do que eu.
--Asseguro-te que nenhum me póde agradar tanto como tu.
--Sinto isso bem; mas eu é que não posso casar.
--Visto isso, não terei outro remedio, senão dar a mão d'esposa a algum d'esses moiros... que... diga-se a verdade, entre elles ha rapazes bem _tirados das canellas_, e o que me não agrada n'elles é apenas a religião, que professam...
Quando o Preste João ouviu estas palavras, tremeu dos pés á cabeça, pensando, e com razão, que, pelo facto de a rainha casar com um mahometano, todas as Indias, povoadas de milhões e milhões de habitantes, abraçariam a seita detestavel de Mafoma, ao passo que, se casasse com um christão, toda aquella gente seguiria a religião de Christo.
--Senhora, disse elle, por fim, á rainha, póde ser que consigamos harmonisar tudo. O Papa, que é o Vigario de Christo na terra, é o unico que póde auctorisar-me a casar com V. M. Vou já escrever-lhe, pelo correio d'hoje, pedindo-lhe a competente licença.
--Oh! que feliz idêa! exclamou a rainha; e riam-se-lhe os olhos, de contente. Bem digo eu que és um rapaz de muitos recursos!
O Preste João poz logo mãos á obra; escreveu ao Papa, contando-lhe, muito pelo miudo, o que se passava, e, na _volta do correio_, recebeu de Sua Santidade a dispensa para casar com a rainha das Indias.
Celebraram-se, pouco tempo depois, as vôdas, com grandes festas e muito regosijo (bem entendido, depois da rainha se ter feito christã) e, passados annos, recebiam o baptismo todos esses milhões de milhões de indios, que os inglezes, nos nossos dias, se fartaram de metralhar, sem dó, nem piedade.
Eis-ahi a historia do Preste João das Indias. Outros a contarão com mais graça do que eu, porém com melhor intenção por certo que ninguem a conta.
FIM.