Contos escolhidos de D. Antonio de Trueba
Chapter 6
«Os musicos começam de tocar, e eu (sempre sou muito bruto!) ao ouvir aquelle toque, julgo que ha corrida de toiros na portaria, e sáio muito lépido a vêl-a; de repente, o porteiro fecha a porta e deixa-me ficar de fóra, com uma cara de palmo e meio, dizendo-me:
«--Vá já para o inferno, seu meliante, que uma paixão por toiros como essa, não póde Deus perdoal-a.
«E aqui tens tu, querido Paciencia, como eu vou caminho do inferno por causa da minha maldita mania pelas toiradas!»
O tio Paciencia prorompeu em amargo pranto ao vêr a infelicidade do seu velho amigo, e esteve quasi a prégar-lhe um sermão, mas não o fez por se lembrar de que era prégar no deserto; ambos continuaram, por ultimo, o seu caminho; o tio Paciencia o do ceu, que era costa acima, e o tio Mamerto o do inferno, que era costa abaixo.
--Querem vêr que tambem me acontece alguma na portaria? O tal senhor porteiro tem um geniosinho endemoninhado!
Isto dizia o tio Paciencia, seguindo sempre o seu caminho, quando avistou outro homem, que vinha do lado do ceu. Este não se carpia, nem se arrepellava; trazia porém a cabeça baixa, e denotava profunda tristeza.
--Esperem! disse o tio Paciencia. Os diabos me levem se aquelle não é o tio Macario! Pois que? Não é senão elle!
Com effeito, o tio Macario era o da cabeça baixa.
Os dois amigos abraçaram-se commovidos.
--Tu por aqui, Paciencia! disse o tio Macario. Para onde vaes, homem?
--Ora, para onde hei de eu ir? Vou para o ceu.
--Duvido muito que lá entres.
--Então porque?
--Porque é difficilimo entrar lá.
--E em que consiste a difficuldade?
--Consiste em ser o porteiro o velho mais caturra, que eu tenho visto. E para prova, basta o que se deu commigo.
--Conta depressa.
--Uma frioleira! Chegamos, eu e outro, á porta; chamamos, e apparece-nos o porteiro, com a sua grande calva e o competente mólho de chaves na mão.
«--Que é o que querem? pergunta elle.
«--Essa não está má! o que havemos nós de querer senão entrar?
«--Você é casado ou solteiro? pergunta o velho ao meu camarada.
«--Casado, responde o tal sugeito.
«--N'esse caso póde entrar, que basta essa penitencia para um homem ganhar o ceu; e isto por maiores que sejam os peccados, que haja commettido.
«E o meu companheiro entrou lá para dentro.
«--Caspite! disse eu com os meus botões; se aquelle ganhou o ceu por se ter casado uma vez, com mais razão o devo eu ter ganho por me haver casado duas. E larguei atraz do meu companheiro.
«--Onde vae o senhor? perguntou o porteiro, detendo-me por uma orelha.
«--Homem, o senhor deve estar farto de o saber! Vou para o ceu.
«--É casado ou solteiro?
«--Casado duas vezes á falta d'uma.
«--Duas vezes?!
«--Sim, senhor, duas vezes.
«--Pois vá para as profundas do inferno, que tolos d'esse lóte não têm entrada no ceu.
«E aqui vou eu, amigo Paciencia, caminho do inferno! São coisas que só a mim acontecem!...»
--É bem feito, disse o tio Paciencia, entre compadecido e indignado da parvoice do seu amigo. Não te dizia eu que não podia obter perdão de Deus quem duas vezes se casasse?
O tio Paciencia já não ia muito satisfeito e tranquillo, ao aproximar-se das portas do ceu, porque as noticias que recebera do geniosinho do tal porteiro, eram, na verdade, para intimidar o mais pintado.
--Vamos, tio Paciencia, dizia elle, é preciso que não desmintas, n'esta occasião, o appellido que te puzeram, porque, se consegues catechisar o porteiro, cólas-te lá dentro, e depois é que já ninguem te dá volta. O velhote é exquisito de genio, caturra e curioso como todos os porteiros... Mas tambem, deve a gente lembrar-se de que o pobre do homem é tão velho, que já não póde com os calções, e devemos ser indulgentes para com os velhos como para com as creanças, porque os extremos tocam-se. Demais, a paciencia é uma virtude, que o proprio Jesus recommendava ao apostolo S. Pedro, como se vê da seguinte cantiga:
Era S. Pedro na calva perseguido do mosquito, e o Mestre lhe dizia: --Tem paciencia, _Periquito_!
Ao terminar estas reflexões, avistou o tio Paciencia as portas do ceu, e estremeceu d'alegria, lembrando-se de que estava já a meio kilometro de distancia do mundo onde todos os homens eram eguaes.
Chegou finalmente á portaria, e viu que não havia lá viva alma, o que devéras lhe agradou, porque assim não se expunha a morrer arrebentado, como quando ia trocar notas ao banco d'Hespanha.
Deu uma aldrabada pequena na porta, e um velho, que não tinha um pello na cabeça, abriu o postigo e perguntou-lhe:
--O que quer você d'aqui?
--Ora, o Senhor lhe dê muito boas noites, lhe tornou o tio Paciencia, com a maior humildade, tirando o chapeu. Como passou? Passou bem?
--Muito bem, muito obrigado. Mas o que queria o senhor?
--E a senhora e os meninos estão de saúde?
--Homem, despache d'aí, diga o que quer.
--O senhor não tem senão desculpar... mas... nada... eu... vinha vêr se o senhor me deixaria entrar.
--Sente-se ahi, n'esse banco, e espere que venha mais gente, que não se póde andar sempre a abrir e a fechar esse maldito portão, que é mais pesado que um marido jogador.
--Está bem, senhor, essa é boa; faça favor de perdoar.
--Não ha de quê.
O velhote fechou o postigo, e o tio Paciencia, a quem as ultimas palavras, que ouvíra, deram alma nova, sentou-se n'um banco, e começou o seguinte soliloquio, para passar o tempo:
--O tal senhor porteiro é realmente um grande caturra. Quem diabo podia suppôr que o homem se esquentaria por eu o cumprimentar como Deus manda! Mas apesar de ter o genio um tanto assomado, bem se conhece que é um santo. Pois, senhor, esperemos aqui, no banco da paciencia.
Estava o tio Paciencia entretido a apertar um cigarro, quando, ouvindo uma tremenda aldabrada na porta, que por pouco a fazia em hastilhas, ergueu a cabeça, e viu então que a pessoa, que com tanta arrogancia chamava, era nem mais, nem menos, que o seu visinho marquez.
--É melhor bater com a cabeça! gritou de dentro o porteiro, ao ouvir aquelle barulho. Quem é o bruto que chama assim?
--O excellentissimo senhor marquez de Pelusilla, grande d'Hespanha de primeira classe, cavalleiro de todas as ordens creadas e por crear, senador do reino, etc., etc.
Mal isto ouviu, o porteiro abriu de par em par a porta, quebrando pelo espinhaço com muitas reverencias, e exclamando:
--Perdoe v. exc.^a se o fiz esperar algum tempo, mas... é que eu não suppunha, que tivessemos por cá tamanha honra. Queira v. exc.^a entrar, que, pela _balburdia_ que lá vae por dentro, é de crêr que já tenha corrido a noticia de que temos por estes bairros o cavalheiro mais illustre e mais rico de toda a Hespanha.
Com effeito o ceu estava alvoroçado com a chegada do marquez, para o qual começava a improvisar-se uma recepção esplendida. Repicavam os sinos, e os foguetes cortavam o ar em todas as direcções; já não havia uma varanda, nem uma janella d'onde não pendesse um cobertor de damasco, ou quando menos uma colcha de chita, modesta, mas vistosa. As imprensas vomitavam versos (ih! que nojo!) em louvor do marquez; os garôtos _esganiçavam-se_ todos a dar vivas a sua excellencia; as virgens largavam a costura, e vestindo-se de branco, e pondo na cabeça a sua grinalda de flores, lançavam mão da lyra, e tocavam e cantavam como desesperadas; desde as charangas das ruas até a orchestra do theatro real, todas as musicas faziam ouvir as suas harmonias; em summa, era tudo festa, jubilo e regosijo. Até o proprio porteiro, quando voltou a fechar a porta, deu um pulo de contente, exclamando:
--Bravissimo! Hoje é dia de atirar uma cana ao ar!
--Sim, como não atires a cabeça!... rosnou por entre os dentes o tio Paciencia, indignado com o que estava presenciando.
Repetiam-se lá por dentro as manifestações d'alegria, e o estrondo dos festejos, e o tio Paciencia, que assistia áquelle enthusiasmo, continuava n'estes termos o seu soliloquio:
--E esta!... Ainda me custa a acreditar o que por aqui vae com a chegada do marquez! Com que, passo toda a minha vida a soffrer com santa paciencia os trabalhos e humilhações da terra, imaginando que no ceu todos os homens são eguaes, e que, por conseguinte, me verei aqui livre de todos os meus pesares e apoquentações, e no fim de contas, chego ás portas do ceu e recebo logo a prova mais irritante de desegualdade, que póde imaginar-se! Com que então, aqui, como na terra, a mim, porque sou um pobre sapateiro, fazem-me estar, como um espantalho, á espera na portaria, e ao marquez, só porque é marquez e rico, e por vir carregado de cruzes e _calvarios_, abrem-se-lhe, de par em par, as portas, e recebem-n'o com repiques de sinos, com foguetes, musicas, versos, e colchas de seda nas janellas!... Isto realmente é para fazer ferver o sangue nas veias a um santo!... Porém, paciencia, snr. Paciencia!... Se consigo a final entrar lá para dentro, o que já me vae parecendo bem difficil, posso reputar-me feliz, porque alli deve passar-se divinamente, a julgar pelo pouco que vi, quando o velho deu passagem ao marquez, e pela baforada, que sae, quando abrem ou fecham a porta ou o postigo.
O barulho que este fez ao abrir-se, tirou o tio Paciencia das suas meditações; fez-se vêr a calva do porteiro, o qual vinha examinar se já havia gente reunida, á espera, na portaria.
--O que faz você ahi? perguntou o porteiro, reparando no tio Paciencia.
--Senhor, respondeu humildemente o tio Paciencia, estava esperando...
--Se as lebres esperassem tanto!...
--Como o senhor não apparecia...
--Tem razão, tem... são tantas as coisas em que tenho que pensar, que de todo se me varreu da idêa... Eu vou já abrir, amigo. Ora!... mas porque não chamou por mim, homem de Deus?!...
--O senhor bem vê que... como sou um pobre sapateiro...
--Qual sapateiro, nem qual cabaça! aqui no ceu todos os homens são eguaes.
--Devéras?! exclamou o tio Paciencia, dando um salto d'alegria.
--Pois, então!... Não faltava mais nada senão andarmos aqui com cathegorias! Isso é bom lá para a terra! Vamos, entre cá para dentro.
O porteiro nem por isso abriu toda a porta, como quando entrou o marquez, mas o sufficiente para que podesse passar _um homem_. O tio Paciencia acercou-se da cancella, lançou um relancear d'olhos lá para dentro, e deteve-se ali, dolorosamente surprehendido. As virgens não largavam a costura, nem os rapazes saíam da escóla; não havia uma triste sineta que tocasse; os foguetes não rasgavam as nuvens; as musicas não deixavam ouvir as suas harmonias; nem sequer uma pobre colcha de chita adornava as janellas, nem tãopouco as imprensas vomitavam versos!...
O porteiro, que não tinha nada de tolo, adivinhou o doloroso espanto do tio Paciencia, e acudiu a desvanecel-o, dizendo-lhe:
--Que quer isso dizer, homem? Então fica para ahi pasmado, em vez de entrar cá para dentro?.
--Não me disse o senhor, ainda ha pouco, que no ceu todos os homens eram eguaes?
--Disse, sim senhor, e d'ahi?...
--Então... como é que ao marquez...
--Homem, você se não é tolo, parece-o! Pois não leu na sagrada escriptura, que é mais facil entrar um camello pelo buraco d'uma agulha do que um rico no ceu?...
--Não, senhor, não sabia isso.
--Pois póde acreditar que é a pura verdade. Sapateiros, ferreiros, lavradores, mendigos, gente, em summa, farta de trabalhar e de padecer, chega aqui a todo o instante, e não temos que estranhar a sua chegada. Já outro tanto não acontece com os ricos e os fidalgos; passam-se seculos sem vermos o _focinho_ a um figurão, como esse que veiu hoje, de modo que, quando algum nos apparece por cá, anda tudo n'uma poeira! Ora, venha, ande lá para dentro, que já é tempo de descançar.
O tio Paciencia transpoz o limiar da porta, e não podendo com a alegria, que o dominava, caíu de joelhos, e exclamou, erguendo as mãos para o Senhor, que saía ao seu encontro:
--Senhor! Bemdito sejaes vós, que daes a bemaventurança eterna aos que padecem na terra!
FIM DA PORTARIA DO CEU.
O PRESTE JOÃO DAS INDIAS
I
Não basta que os contos populares deleitem: é mister que, ao mesmo tempo que deleitam, ensinem.
Este que vou contar não sei se satisfará á primeira condição; a segunda porém, ha de por certo preenchel-a, por isso que o leitor, que o levar a cabo, ficará sabendo quem era o Preste João das Indias, do qual todos fallam, e pouquissimos são os que o conhecem, a não ser de nome.
Pois, senhores, havia nas Indias um rei mui poderoso, cujo unico successor directo era uma filha de tres ou quatro annos. Como o monarcha se sentisse muito mal, chamou todos os grandes do reino, e fallou-lhes do seguinte modo:
--Ando tão adoentado, ha tempos a esta parte, que milagre será não esticar a canella antes de oito dias, e confesso que essa partida tão repentina para o outro mundo, me penalisa em extremo, por quanto desejava deixar casada a minha augusta filha; e no emtanto S. A. não passa por ora d'um _comecilho_. Asseguro-vos que pouco me importa morrer, porque para morrer todos nós nascemos, e demais, tanto faz morrer hoje como amanhã; porém o que eu não queria era que a pequena se casasse para ahi qualquer dia, em virtude de altas razões d'estado, com um principe, que não fosse muito do seu agrado.
--Senhor, lhe tornou um dos homens politicos mais importantes do reino, faz V. M. muito mal em estar a affligir-se com essas coisas. Quando a princeza chegar á edade de tomar estado, ha de casar-se com o principe, que fôr mais do seu gosto; e se houver no reino quem se atreva a querer oppôr-se á liberrima escolha de S. A., esteja V. M. certo de que tem que se haver comnosco.
--Ora, ora! Então cuidas tu que eu engulo essas _patranhas_? replicou o rei, traduzindo a sua incredulidade n'uma estrepitosa gargalhada. Nem que eu não soubesse o que são os partidos politicos! Aquelle que então estiver no poder apresentará a minha filha o seu candidato, e a pobre pequena terá de se aguentar, não com o marido que mais fôr do seu gosto, mas sim com aquelle que mais convier aos seus ministros, os quaes, só por satisfazerem mesquinhos interesses de partido, serão capazes de a obrigar a casar ainda que seja com o moiro Musa.
--Mas, senhor, V. M. deve lembrar-se de que este paiz é um paiz essencialmente monarchico...
--Isso é bom de dizer! Não estamos nós vendo, todos os dias, homens politicos, que nos concedem, a nós os reis, até o direito divino, e que, se um bello dia lhe não agradamos, nos chegam, inclusivamente, a negar o direito de pessoas decentes!
--De accôrdo, mas é que esses são uns vilões que nunca deveram ter parte na luta dos partidos.
--Mas o grande caso é que a têm no goso dos direitos constitucionaes.
--Em summa, ordene V. M. o que lhe aprouver, e eu lhe assevero, que póde marchar tranquillo para o outro mundo, e sem o menor receio de que deixemos de cumprir rigorosamente as suas ordens.
--Pois bem, n'esse caso escutae-me: quando minha augusta filha estiver em edade do tomar estado (e isso é coisa, que facilmente se conhece), deveis dar-lh'o a saber, tendo em vista todo aquelle recato com que se deve fallar d'essas coisas a uma donzella; em seguida fareis apregoar por todas as nações do mundo, que a vossa rainha e senhora resolveu casar-se, e dará a sua mão ao principe, que mais fôr do seu agrado.
--Até ahi estamos bem; mas V. M. sabe que o mundo se divide principalmente em tres religiões, a saber: a religião christã, a mahometana e a judaica. Devo portanto suppôr que V. M. terá já formado o seu juizo, ácerca da religião a que deve de pertencer o seu augusto genro.
--Homem, francamente, ainda nem tal coisa me passou pela cabeça.
--Ah! pois isso é coisa muito séria!
--Vae-te d'ahi com esses teus escrupulos de freira! Vós todos sabeis que no meu reino não ha religião alguma. A fallar a verdade, já por vezes tenho pensado sobre se conviria ou não que a houvesse, porque ha muito quem diga, que não póde haver sociedade sem o freio da religião; porém, no fim de contas, tenho acabado sempre por dizer cá para os meus botões: «deixar correr; quem me manda a mim metter a redemptor? Que religião póde haver n'um paiz tão desmoralisado como este, onde todos os dias se manda gente á forca?! Vá uma pessoa introduzir aqui, por exemplo, a religião christã, segundo a qual todos os homens são eguaes: haviam de marchar bem as coisas, desde o momento em que os escravos, que tiram os coches, soubessem que valem tanto como os senhores, que vão dentro d'elles, mui _repimpados_!»
--Visto isso, entende V. M. que a melhor religião... é não ter religião nenhuma, não é verdade?
--Não digo isso, homem; nem tanto ao mar, nem tanto á terra. O que eu te digo é que não tenho querido quebrar demasiado a cabeça, pensando em coisas tão delicadas. Que escolha, minha augusta filha, marido do seu gosto, e ainda mesmo que seja pêrro judeu...
Assim terminou a conferencia do rei com os próceres da republica, e avisado andou S. M. em não a deixar para o dia seguinte, porque n'aquella mesma noite teve um ataque tão forte, que esticou a canella, sem ter tempo sequer para dizer «Jesus».
II
Como era natural, apenas o rei morreu, levantou-se a questão da escolha d'uma regencia, que devia tomar as rédeas do governo, durante a menoridade de sua excelsa filha, e então é que foram ellas!
Sobre se a regencia devia ser de tres, ou d'um unico estadista, e se este deveria ser Pedro ou Paulo, levantou-se tamanha tempestade, que ia tudo pelos ares. Por ultimo optaram pela regencia _una_, e por então terminou a contenda; porém os partidos politicos, para os quaes vêr os seus contrarios no poleiro e vêr o diabo é tudo uma e a mesma coisa, começaram novamente a tecer os pausinhos. Era o regente um soldado destemido e honrado d'uma vez; porém como homem d'estado não passava d'um _simplorio_, que entendia tanto de governo como eu entendo de lagares d'azeite; os seus inimigos, aproveitando-se da inepcia com que elle dirigia a politica, não descançaram em quanto lhe não deram um pontapé, e o expulsaram do palacio.
Nomeou-se novo regente. Este então era um passaro que cantava na mão, porém ao mesmo tempo, tão medroso, que apenas ouvia um tiro, era capaz de se metter cem braças pela terra abaixo; d'ahi resultava que cada dia havia um pronunciamento.
Por effeito de um d'esses pronunciamentos, caíu o regente, e organisou-se então uma regencia composta de tres magnates.
Até ali era um só a crear nichos para empregar os seus amigalhotes, um só a querer enriquecer á custa da nação, um só a monopolisar os favores da joven princeza, e um só a governar mal; multipliquem agora esse um por tres, e imaginem a poeira, que se levantou com a tal regencia trina!
Conheceu finalmente a princeza que estava em edade de casar-se, e correu voz, por todas as nações, de que ella punha a sua mão a _concurso_ e a daria ao principe, que mais lhe agradasse.
Os primeiros, que acudiram ao reclame, foram os judeus, os quaes trajavam rica e vistosamente, e tinham o cuidado de fazer tinir bem o dinheiro diante da princeza, suppondo talvez, que o vil _metal_ teria para ella tantos attractivos como para elles; e, emquanto os que iam á _mostra_ faziam sua côrte á princeza, andavam os rabinos pelos cêrros pedindo a Deus, que désse a algum dos da sua casta aquella boa pequena, que tão bello partido era.
Chegaram em seguida os mahometanos, e era muito para se vêr, tantos moiros montados em cavallos, mais ligeiros que o vento, escaramuçando e jogando canas, a vêr se, assim, engodavam a princeza.
Afinal appareceram os christãos, que, com suas justas e torneios, e o seu porte cheio de garbo e gentileza, sabiam encantar o coração das donzellas.
--Então, em qual das tres religiões escolhe V. M. marido? perguntou o presidente do conselho de ministros á rainha.
--Homem, nem sei o que te diga, respondeu a rainha. Bem se diz que quem tem que escolher tem que fazer. Se queres que te falle verdade, gosto de todos.
--Vamos, mas V. M. precisa decidir-se por um.
--Asseguro-te que sinto realmente devéras não poder decidir-me, sequer ao menos, por tres. Olha, que entre os christãos ha alguns rapazes bem guapos!... mas entre os judeus e os moiros... não te digo nada!...
--Em summa, disse o presidente do conselho, isto não é sangria desatada; deixe-os V. M. penar, uns e outros, por espaço d'alguns mezes, e depois, então, poderá V. M. escolher, com perfeito conhecimento de causa; isto de escolha de marido é, para as raparigas, operação muito delicada...
O presidente do conselho teve a honra de que S. M. seguisse o seu parecer, e christãos, mahometanos e judeus, continuarem a fazer as suas _zumbaias_ á real moça, cuja mão ambicionavam.
Chegou noticia a Roma do que se passava nas Indias, e o Padre Santo ordenou que se fizessem preces, para que Deus inspirasse a rainha afim de que casasse com um christão, coisa que redundaria em gloria e augmento da christandade.
Havia n'aquelle tempo em Roma um Preste ou sacerdote, ainda moço, conhecido pelo nome de Preste João, o qual era a admiração de toda a gente, em rasão do seu saber e virtudes, zelo religioso e galhardia.
O Preste João apresentou-se ao Padre Santo, e disse-lhe:
--Santissimo Padre, o que se está passando nas Indias é, quanto a mim, coisa mais seria, do que parece, á primeira vista. Aquillo é um paiz desgraçado, onde ninguem crê em Deus, nem em Santa Maria; onde todos são impios e atheus. Se a rainha se casa com algum pêrro judio, estamos bem aviados; vae tudo para o diabo. Se porém a rainha dér a mão de esposa a um christão, corto a cabeça, se todos os indios, dentro em poucos annos, não forem tão christãos como nós. Posto isto, vou pedir uma graça a Vossa Santidade.
--Se fôr coisa que eu possa conceder-te...
--Que V. S. me deixe ir ás Indias, para ver se faço entrar aquella gente no bom caminho.
--Estás servido, filho; pódes partir quando quizeres.
--Pois, n'esse caso, vou immediatamente tirar passaporte.
--Toma cuidado, filho; vê lá que esses infieis te não preguem alguma peça... particularmente os judeus...
--Isso não me mette medo, que por muito que saibam, sempre hei de saber mais do que elles.
--Pois vae na graça de Deus, e leva comtigo a minha benção paternal.
--Graças, Santissimo Padre!
Foi dito e feito; o Preste João, acompanhado d'um luzidissimo séquito de sacerdotes, em cujo numero se contavam os melhores cantores de Roma, e munido de riquissimos paramentos e decorações d'egreja, inclusive um orgão, que era o melhor que, até então, se tinha visto n'aquelle genero, tomou o caminho das Indias.
Felizmente os inglezes não eram, n'aquella época, tão philantropicos, como o são agora, do contrario não teriam deixado de lhe armar alguma ratoeira, na idêa em que estão, de que, para civilisar os cypaios, são mais eloquentes os seus canhões, carregados de metralha, do que os hyssopes dos missionarios catholicos, ensopados em agua benta.
III
Os judeus e os moiros souberam que o Preste João se dirigia para as Indias, e estavam atrapalhados da sua vida, porque havia muito tempo que a fama trombeteira lhes tinha levado noticia do saber, da virtude, do zelo religioso, e da extremada galhardia do Preste João.
Chegou este, a final, com o seu séquito, e a rainha ficou enamorada da graciosa dignidade, com que elle a saudou, a ponto de não poder ter mão em si, que não dissesse, baixinho, ao presidente do conselho:
--Olha que este christão não é _nenhuma asneira_!...
Vendo o Preste João a rainha mui bem disposta em seu favor, aproximou-se de S. M., e disse-lhe:
--Senhora, vejo que V. M. vacilla sobre se ha de casar-se com um christão, com um moiro, ou com um judeu. Creia V. M. que a religião de Christo é a unica verdadeira, grande e salvadora, e que as outras são umas _religiõesitas de tres ao vintem_, que nem com cem varas chegariam ao ceu, d'onde procede, e onde apoia sua augusta fronte o christianismo. E se V. M. se quer certificar de que isto que lhe digo é a pura verdade, não tem mais que ordenar, que nos reunamos, na sua presença, judeus, mahometanos, e christãos, a fim de discutirmos qual das tres religiões é a melhor, e, sobre tudo, qual é aquella, que mais favorece as mulheres, pois essa é a grande questão, nas circumstancias actuaes.