Contos escolhidos de D. Antonio de Trueba

Chapter 3

Chapter 34,071 wordsPublic domain

Se um dia fazia gala, em uma reunião de pessoas distinctas, de não ter gasto até a edade de quatorze annos, outro calçado que não fosse o do seu _proprio coiro_, despedia, no dia seguinte, uma creada por a pobre rapariga pedir, na sua innocencia, ao carteiro, que lhe lêsse uma carta do seu noivo, por isso que sua ama não sabia lêr; agora despedia um mendigo com a seguinte blasphemia: «Vá pedir a S. Bernardino», que na bôca dos que podem e não querem dar, substitue a _supplica_--«queira perdoar, irmãosinho, não póde ser agora»--que costumam usar os que querem e não podem; e logo, sabendo que qualquer vizinho estava doente e precisado de meios, era muito capaz de lhe mandar uma boa esmola. Pela manhã dava uma _tarêa_ ao cão por este ter mordido o gato, e de tarde dava outra ao gato por ter arranhado o cão; na quarta feira ia passear ao Prado, de vestido de velludo, e na quinta apresentava-se no mesmo sitio de vestido de chita.

Se sou tão minucioso e até prolixo, é porque não quero que alguem critique e censure no pintor as inconsequencias do original.

D. Joanna dominava por tal arte o marido, que a vontade d'elle estava sempre subordinada á sua. D. João tremia diante d'um gesto ameaçador da mulher, e por mais d'uma vez teve ella um accesso medonho de cólera só porque o honrado banqueiro entrou em casa ás dez horas em vez de se recolher ás nove.

--Ora, com effeito, disse D. Joanna, quando D. João entrou na sala do jantar, já julgava que seria preciso metter-lhe empenhos, e dirigir-lhe algum requerimento para que o senhor se resolvesse a vir jantar. Se se persuade que eu estou para aturar as suas grosserias, está muito enganado.

--Sempre tens muito mau genio, Joanninha! disse o banqueiro, esfregando as mãos e com um sorriso affavel nos labios.

Sentou-se D. João á mesa, encheu um prato de sopa e passou-o a sua mulher; esta porém empurrou-o com tal violencia, que todo o seu conteúdo se entornou na toalha.

--Tambem tenho mãos para me servir.

--Como gostares mais, Joanninha, disse D. João humildemente.

Principiaram a jantar, e por mais que o banqueiro dirigisse a palavra a sua mulher, em tom agradavel e risonho, não foi possivel quebrar-lhe o silencio.

Por fim resolveu-se D. Joanna a fallar, perguntando ao marido:

--Então que negocios tão importantes foram esses que o obrigaram a deixar-me esperar por si meia hora?

--Meia hora! Não sei como não disseste uma, filha!

--Faça o favor de me não contradizer! exclamou D. Joanna, com um gesto terrivel. Eu fallo mais verdade do que você e toda a sua geração.

--Então! Não vale a pena alterares-te por tão pouco! A dizer a verdade, nem por isso eram lá muito grandes os negocios que me prendiam;--estava conversando com o pequeno.

--Com que pequeno?

--Com Angelo.

--Pois elle já chegou?

--Chegou, sim. Ainda o não sabias?

--Não, senhor, ninguem me disse nada. N'esta casa sou eu sempre a _ultima palavra do credo_... Pois não devia ser assim, e d'hoje para o futuro, eu lhe protesto que não tornará a acontecer uma coisa d'estas, porque, no fim de contas, eu é que sou a dona d'esta casa; entende o senhor?

E dizendo isto, D. Joanna atirou o trinchador com tal furia, que fez um prato em pedaços.

--Oh! menina!... por quem és, Joanninha.

--Deixe-me... não me diga uma palavra, quando não...

O banqueiro fez um movimento para traz, porque a mulher tinha pegado n'uma faca e agitava-a convulsivamente.

A final o silencio e a humildade do marido desarmaram aquella megera.

--Então, quando veiu o pequeno? perguntou ella.

--Haviam de ser duas horas, filhinha; eu suppunha que o creado t'o teria dito.

--Não me disse nada. Aquelle Toribio é um bruto, que ha de ir hoje mesmo para o meio da rua. E que me diz tambem ao mono do rapaz, que não soube subir para me vir cumprimentar?!

--Bem vês que elle, coitado, não sabe...

--Pois tem obrigação de saber que sou eu a dona d'esta casa.

--Em primeiro logar o pobre pequeno chegou meio morto de frio, e depois aquelle excommungado de Lucas começou a embirrar com elle, de modo que a creança ficou logo sem saber de que freguezia era.

--Eu me encarrego de o pôr fino com umas correias que alí tenho.

--Não digas isso, Joanninha; para o pôr fino, como tu dizes, requerem-se carinhos e não correias. Já disse a Lucas, que comigo tem de se haver, se lhe puzer a mão. A ti não é preciso repetir a mesma coisa, porque tens melhor coração do que o meu sobrinho, e estou até convencido de que has de ser para Angelo uma segunda mãe. Afianço-te que está morto por te vêr; a primeira coisa que fez, quando chegou, foi perguntar por ti.

Esta mentira do banqueiro foi o bastante para reconciliar Angelo com D. Joanna, que disse:

--Mas o que faz essa creatura no escriptorio? Porque o não mandaste subir, logo que chegou, para tomar alguma coisa? Provavelmente está ainda em jejum, molhado, cheio de frio...

--Nada, não, elle disse-me que não tinha vontade de comer; e quanto a aquecer-se, está no meu gabinete, sentado ao fogão.

--E porque foi, então, que Lucas o tratou mal?

--Que queres? coisas d'elle! Por ter dito que gostava mais da sua terra do que de Madrid.

--Santo Deus! Pois isso era motivo para ralhar com a creança? Aqui estou eu a quem, graças a Deus, não falta nada, e no entanto, morro pela minha aldeia...--Toribio! accrescentou D. Joanna, chamando pelo creado dos trocadilhos, dize ao rapazinho, que está no gabinete do senhor, que suba.

--Quem, o _rocim-chegado_? perguntou o asturiano com um sorriso malicioso.

--Atrevido! exclamaram, a um tempo, D. Joanna e o banqueiro; se tornares a divertir-te á custa d'Angelo, vaes immediatamente para o andar da rua.

O asturiano baixou a cabeça, pouco satisfeito com o exito do seu gracejo, e um instante depois subia com o pequeno.

Angelo saudou D. Joanna com bastante desembaraço, e depois que ella lhe chegou um prato de bolos, acabou de perder todo o seu acanhamento, e respondeu com vivacidade ás mil perguntas que por largo espaço de tempo lhe dirigiram os dois esposos.

--Tens muitas saudades de tua mãe? lhe perguntou D. Joanna.

--Muitissimas, respondeu o pequeno.

--Pois, se fôres bom rapaz, hei-de estimar-te e cuidar tanto de ti, como se fôra ella propria.

--Muito obrigado, minha senhora!... disse o menino; e arrazaram-se-lhe os olhos de lagrimas... lagrimas d'alegria e de agradecimento.

O banqueiro e sua mulher levantaram-se da mesa.

--Deixa-te estar aqui, filho, disse D. Joanna a Angelo; espera que vaes tu agora tambem comer e os teus companheiros.

IV

Pouco depois entraram na sala do jantar D. Lucas e os caixeiros e sentaram-se á mesa. Angelo porém conservou-se n'um canto, de cabeça baixa, receioso, e sem se atrever a levantar os olhos para D. Lucas.

--Chega-te para a mesa, selvagem, disse-lhe o sobrinho de Quijano. Parece-me que seria melhor ires outra vez guardar cabras lá para a tua terra.

Alegrou-se o menino e sentiu-se ao mesmo tempo ferido no coração, ao ouvir estas palavras; regosijou-o a lembrança de voltar para a sua aldeia e enluctou-se-lhe a alma com o novo insulto que acabava de lhe ser dirigido.

Approximou-se timidamente da mesa, mas não se chegou tanto, como devia, segundo a opinião de D. Lucas; este dando-lhe um murro nas costas exclamou:

--Chega-te mais, bruto! A culpa tem quem não deixa ficar estes animaes a pastar no campo, ou os não faz comer, quando muito, n'uma manjadoura em logar de mesa!

Todos os caixeiros do banqueiro desataram a rir em honra do chiste de D. Lucas.

O pobre Angelo derramava entretanto uma torrente de lagrimas, e comparava as caricias da sua familia com aquellas offensas barbaras e grosseiras.

--Então, comes ou não comes? perguntou D. Lucas.

--Não tenho vontade, respondeu Angelo.

--Tanto melhor; d'esse modo não corres perigo de agarrar alguma indigestão, e hão de abater essas bochechas de _frade Bernardo_.

Por unica resposta continuou Angelo a chorar e a suspirar pelos paes, pelos irmãos, pelos seus companheiros d'infancia e pelas queridas montanhas de Biscaya, onde até ali tinha vivido tão livre, tão estimado de todos e tão feliz!

E os caixeiros de Quijano a escarnecerem-n'o, a rirem-se d'elle, sem a mais leve sombra de compaixão, como se a pobre creança fosse um corpo sem alma, como se a considerassem sem coração para sentir!

É na verdade uma coisa que indigna e irrita as pessoas sensiveis, e que até revolta o animo, a falta d'humanidade com que são, de ordinario, tratados nos grandes centros, e particularmente em Madrid, os rapazes que para ali são mandados das aldeias!

Chega uma pobre creança, que nunca saíu do seio da sua familia, onde, se a não cercavam riquezas e commodidades, lhe sobravam carinhos e ternos cuidados; chega ordinariamente cheia de frio, extenuada de fadiga, muitas vezes até com fome, e sempre saudosa e triste, e em logar de a confortarem e de lhe proporcionarem carinhos, de que necessita então mais do que nunca, todos a escarnecem, todos zombam da sua innocencia e da sua humildade, das suas lagrimas e da sua linguagem.

Ai! não accuseis o auctor d'este livro de se entregar a falsas declamações; a justificação d'essas palavras conserva-a elle impressa na sua memoria propensa a recordar, e no intimo do seu coração sempre disposto a perdoar, para nunca mais saír d'ali.

Durante a primeira tarde, que passou em casa de D. João Quijano, foi Angelo victima da selvageria, que estou condemnando. Abusaram indignamente da sua natural simplicidade e prudencia, obrigando-o a praticar um certo numero de coisas, que repugna enumerar; por ultimo fizeram-n'o persuadir de que todas as pessoas que entravam pela primeira vez em Madrid, careciam de ser pesadas a fim de pagarem uns certos direitos proporcionaes ao peso que tivessem.

Puzeram-n'o em cima d'uma balança, e ali o conservaram por tanto tempo, que a pobre creança já tinha o corpo quasi desconjuntado; quando terminou aquella experiencia de martyrio, que faz lembrar os tormentos inventados por Diocleciano e Torquemada, teve elle de soffrer outro talvez mais doloroso ainda, qual o das mofas e zombarias dos seus verdugos, que desapiedadamente lhe retalhavam o coração!

E os caixeiros do banqueiro, homens barbados, que, como taes, estavam constituidos na obrigação de proteger o fraco e de consolar o triste; que eram chamados a desempenhar graves e sagrados deveres na sociedade, mostravam-se contentes com a sua obra, e imaginavam-se, talvez, cheios de talento e de graça por haverem illudido e martyrisado uma creança, que, pela primeira vez na sua vida, vertia lagrimas de desespero, longe de seus paes que a idolatravam, e das queridas montanhas da sua patria!

Tudo soffreu a pobre creatura em silencio; nem sequer lhe restou o linitivo de se queixar a D. João dos barbaros tratos de que foi victima; prohibiram-lh'o os seus verdugos com ameaças que lhe infundiram novo terror e novo desalento.

V

Dormia toda a familia de Quijano no andar nobre da casa, á excepção do caixeiro mais moderno e dos cães, que se acommodavam no pavimento terreo, destinado quasi exclusivamente ao escriptorio e suas dependencias.

Os dois cães, Moiro e Pomba, dormiam no gabinete do banqueiro, que estava ricamente mobilado, ao passo que o caixeiro se alojava n'um quarto pequeno e humido, alumiado apenas por uma especie de fresta ou gateira aberta na parede, situado n'um patamar constantemente varrido pelo vento que entrava da rua e pelo que vinha d'um pateo que havia nas trazeiras da casa; a mobilia d'esse mesquinho aposento consistia toda em um leito de pinho com colchão, dois lençoes, um cobertor, um travesseiro e um lanceiro ou cabide tôsco para pendurar o fato e... grandes cortinados de teias d'aranha pendentes do tecto.

Em tempo dormia o caixeiro mais moderno (rapaz de tempo) n'um quarto excellente do andar nobre; D. Lucas porém havia disposto as coisas por outra fórma, muito antes da época a que me refiro; tinha lá umas ideias _suas_ d'hygiene, em virtude das quaes dizia que muitas vezes os caixeiros adoeciam por passarem repentinamente d'uma vida incommoda para uma vida commoda, d'um colchão duro para um colchão molle, d'um quarto mau para um quarto bom.

Quiz o tio oppôr-se áquella estupida innovação, ponderando que o que fazia adoecer os rapazes que entravam para sua casa não era senão o pessimo tratamento que recebiam de D. Lucas; este porém, taes argumentos empregou em defesa da sua theoria, que, para se livrar de polemicas, teve o pacifico banqueiro de concordar com elle. Os rapazes continuaram a adoecer, mas D. Lucas afirmava ao tio que tudo aquillo era fingimento e impostura para que os deixassem dormir no andar de cima, e o bom do banqueiro, que já não tinha pequena cruz nas teimas e ralhações de sua mulher, não quiz continuar em divergencia com o sobrinho, e acabou por admittir o seu barbaro systema penitenciario.

Patrões e caixeiros ceavam quasi simultaneamente, sendo as sóbras da mesa dos primeiros servidas aos segundos. D. Lucas comia de ordinario com estes, excepto porém nos dias sanctificados e á noite, que fazia companhia aos tios. Não podia o sobrinho do banqueiro tolerar que os caixeiros fumassem, e não obstante tinha uma paixão desmedida pelo tabaco; mas diante do tio não era capaz de fumar, e isto explica-se facilmente. D. Lucas começou a fumar quando, pela sua pouca edade, carecia para o fazer de occultar-se do banqueiro; e mais tarde, quando já eram escusadas essas precauções, continuou a matar o vicio ás occultas, talvez por habito, e talvez tambem por não dar o seu braço a torcer, por isso que em tempo tinha jurado e tornado a jurar ao tio que bastava o cheiro do tabaco para o transtornar completamente.

Erguia-se da mesa, ainda com o bocado na bocca, e entrando na cosinha, onde comiam os caixeiros, apertando o seu cigarro, que se não atrevia a accender, com medo de que na sala se presentisse o cheiro, pegava n'um castiçal e dava a voz de _deitar_ ao _rapaz de tempo_. Achava-se este ainda em meio da ceia, por isso que os outros lhe levavam sempre um prato de vantagem, mas D. Lucas estava desesperado por fumar, de maneira que o pobre rapaz não tinha outro remedio senão levantar-se da mesa, dar as boas noites a toda a familia, começando pelos caixeiros, e seguir a D. Lucas, que já pelas escadas abaixo tirava cada fumaça que valia bem um dobrão.

Em quanto o pequeno se deitava, alumiado pela vela collocada no corredor, em frente da porta do quarto, acabava D. Lucas de fumar o seu cigarro, pegava no castiçal, fazia quatro festas aos cães, deitados n'um colchãosinho muito fôfo, e em seguida subia as escadas a fim de passar um bocado da noite na companhia dos donos da casa.

Se D. João tivesse um hospede e este lhe perguntasse a razão porque o sobrinho descia ao escriptorio, ainda bem não tinha acabado de cear, seria esta a resposta do banqueiro:

--Vae deitar os cães e o pequeno, dar uma vista d'olhos lá por baixo, vêr se está tudo bem fechado, e demora-se até poder trazer para cima a luz, porque aqui em Madrid é preciso muito cuidado com os fógos. Como estes rapazes são em geral muito _dorminhocos_ e Lucas entende que por nós gostarmos de palestrar o nosso bocado, não se segue que o pequeno esteja para ahi a turrar com somno, dá-se pressa em o levar para a cama.

Succedeu a Angelo nem mais nem menos do que aos seus antecessores, com a differença, porém, de que á pobre creança lhe foi dobradamente mais custoso deitar-se a meia ração, por isso que todo o dia estivera fazendo cruzes na bocca, e quando o chamaram para a ceia tinha fome canina.

Uma pessoa adulta, oppressa pelo peso de tão profundo desgosto como era o d'elle, teria olhado para a comida com repugnancia, ainda que estivesse a caír de fraqueza; mas é que uma pobre creança, se acontece perder o appetite por espaço d'algumas horas, prompto o recupera, por mais acerbos e cruciantes que sejam os seus desgostos.

Angelo deitou-se e Dom Lucas despediu-se d'elle do seguinte modo:

--Ora queira Deus que pela manhã não haja preguiça! Aqui não se trata só de comer e dormir. Ás seis horas _varrer_ bem o escriptorio.

Dom Lucas, como temos visto, usava muito d'essa especie de linguagem impessoal inventada pelos lacaios com o fim de se esquivarem a dar tratamento.

VI

Angelo, com a solidão do seu aposento, deu-se por compensado da parte da ceia de que a maldade de D. Lucas o privára. Alí podia sequer chorar desafogadamente, podia rogar a Deus que o restituisse ás suas montanhas, invocar o nome de seus paes, e execrar até os seus algozes, sem que uma gargalhada de despreso, um dito humilhante ou uma pancada fossem perturbal-o nas suas cogitações.

Ai! muito chorou a pobre creança, n'aquella noite!

--Como é triste viver em Madrid! pensava elle. E dizerem na minha terra que--_de Madrid só para o céo!_--As pessoas que dizem isso de certo nunca estiveram aqui! As ruas e as praças estão convertidas em lodaçaes immundos; a gente anda toda aos encontrões; as carruagens e os cavallos atropellam e cobrem de lama os transeuntes; as goteiras alagam os individuos que seguem pelos passeios; e o vento que sopra das portas faz rebentar o sangue nas mãos e na cara!

É bem differente d'isto o meu querido paiz, os campos amenos da Biscaya!

Lá alveja a neve lisa e pura por sobre a relva e as penhas, nas arvores e nos telhados, e quando o sol ou a chuva a derretem não é em lodo que se converte, mas sim em cristallinos arroios; lá não se apinhôa, confunde e atropella a gente, o gado e os carros, que a todos Deus concedeu campo e largueza por onde se espalhem á vontade; e se tambem ali sopra o ar frio do inverno, é ar que dá saude em vez de tiral-a.

Ai! quão differente teria corrido para mim o dia, se o passasse na minha aldeia! Se lá estivesse, andaria no campo a patinhar no gelo; teria feito grandes bólas de neve no alto da montanha, para as vêr despenhar-se no valle; em seguida voltaria a casa, e depois de ter almoçado junto do lume, subiria á trapeira para apanhar os passaros, que ali vão abrigar-se do mau tempo e procurar o sustento que não encontram nos campos cobertos de neve; e á noite, em quanto minha mãe estivesse preparando a ceia, contar-me-hia meu avô as suas façanhas da guerra da independencia. No fim da ceia iria para a cama acompanhado por minha mãe, que depois de me cobrir e agasalhar cuidadosamente, se despediria de mim, como de costume, com um dôce beijo. Ai! que differença! assim não estaria, como agora estou, acordado e a chorar, mas dormiria tranquillo e socegado até que, com outro beijo, fosse despertar-me pela manhã!

Entregue a tão saudosos pensamentos passou Angelo em claro quasi toda a noite. Já se ouviam na rua os pregões dos vendilhões e fornecedores da cidade, o barulho dos carros e os passos dos transeuntes, quando, vencido pela vigilia, e tomado do cansaço do corpo e do espirito, caíu n'um benefico somno.

Adormeceu profundamente; rosaram-se-lhe as faces, e a posição em que ficára e a sua respiração serena e plácida, revelavam uma dulcissima tranquillidade d'espirito; entreabria-lhe os labios aprasivel sorriso, e, de vez em quando, soltava d'elles os nomes de _pae_, _mãe_, e outros como estes saudosos e gratos ao coração da desventurada creança.

Agora sonhava que se achava na aldeia, cercado da sua familia ou brincando com os seus companheiros de infancia; depois, que trepava ao cimo das arvores em busca d'um ninho de rôla, ou de pombo torcaz; derribava ás pedradas as maçãs e as nozes; corria ao bosque a fazer assobios da casca do castanheiro, ou ao ribeiro para construir moinhos de junco; logo subia ao alto da montanha, coroada por uma ermida, em roda da qual andava o tambor chamando para a romaria. Por ultimo sonhava que era noute de S. João, que todo o valle estava illuminado pelas fogueiras accesas nos oiteiros, e o inundavam d'alegria o repique dos sinos, os morteiros, as cantigas e os gritos de jubilo, que acompanham sempre aquella festa classica e essencialmente infantil!

Embalado n'estes sonhos deliciosos, que lhe representavam todos os encantos do seu paiz natal, sonhos que melhor do que ninguem póde adivinhar o auctor d'este livro, porque tambem chorou e sonhou como Angelo, não ouviu o pobre menino as sete horas que bateram compassadas no relogio do escriptorio.

VII

Manoel e Marianno (eram estes os nomes dos dois caixeiros do banqueiro) desceram as escadas, e vendo que Angelo se não tinha ainda levantado, dirigiram-se para o seu aposento.

--É melhor acordal-o, dizia Manoel, porque se chega D. Lucas e o encontra a dormir não deixa de lhe fazer a operação do costume.

--E que tem lá isso? replicou Marianno, para nós é até um divertimento. A pena que me resta é não haver aqui á mão um bom molho de ortigas.

--Não tenhas mau coração. Já não soffreu pouco hontem o pobre pequeno, principalmente com a historia da balança.

--E que tem que soffresse?! Tambem nós soffriamos quando eramos como elle.

--Pois por isso mesmo que a nós nos trataram mal é que eu entendo, que devemos tratar agora bem os que se acham em identicas circumstancias.

E dizendo isto, approximou-se da cama de Angelo, e principiou a abanal-o e a chamar por elle; mas o menino estava tão ferrado no somno, que continuava a dormir profundamente.

--Que é lá isso, perguntou D. Lucas, apparecendo á porta do quarto. Então esse estupido ainda está na cama?!

--Está, sim, senhor, respondeu Marianno.

D. Lucas proferiu uma praga e accrescentou, dirigindo-se a Marianno:

--Vaes vêr como esperta n'um instante. Traz-me lá de cima, da talha, uma bilha d'agua para se lhe applicar o remedio.

Marianno, que parecia feito á similhança de D. Lucas, obedeceu de prompto, e largou pelas escadas acima, esfregando as mãos de contente. No primeiro andar, e debruçado n'uma varanda de ferro que dava para o pateo interior da casa, coberto por um tolde, estava Toribio, escutando o que se passava em baixo, pois d'alli se ouvia tudo perfeitamente.

--Que temos, snr. D. Marianno, perguntou elle ao caixeiro.

--Vou buscar uma bilha d'agua para fazermos a _operação_.

--Ao _rocim-chegado_?

--Nem mais nem menos; vem d'ahi, se te queres rir.

--Isso já a mim me palpitava, que se lhe havia de fazer o _remedio_. Mas a agua não deve ser da talha; essa está pouco fria por causa da proximidade do fogão. Temos aqui um bom jarro d'ella, que, de proposito, deixei ficar de noite sobre o alpendre.

--És um rapaz de talento, Toribio! exclamou, rindo, Marianno, em quanto o bruto do creado pegava no jarro da agua.

--Deve estar excellente! accrescentou, vendo-a coberta d'uma espessa crusta de gelo, que foi quebrando com os nós dos dedos, á maneira que descia os degraus da escada.

Toribio não quiz privar-se do barbaro goso de assistir ao martyrio que ia soffrer a pobre creança, e correu, todo alvoroçado, atraz de Marianno.

Dom Lucas pegou no jarro, e afastando para o lado a roupa que cobria o menino até ao pescoço, despejou-lhe de golpe toda a agua por sobre o peito, com grande satisfação de Marianno e Toribio. Manoel, esse, coitado, estava compungido da sorte do rapazinho. Angelo soltou um grito e ergueu-se de subito, ao sentir no corpo a agua gelada.

--Isto é para vêr se acordas! disse D. Lucas, e completou a phrase com uma nova praga.

O menino não replicou, nem tratou sequer de desculpar-se. Atirou immediatamente comsigo da cama abaixo, e vestiu-se sem proferir uma palavra. Os seus olhos não derramavam lagrimas, mas derramava sangue o seu coração! Tinha á cabeceira da cama uma estampa, já enegrecida pelo tempo, representando Jesus crucificado. Ergueu os olhos para a divina imagem e exclamou no intimo de sua alma afflicta:

--Senhor, levae-me já para o céo ou para as minhas montanhas!

VIII

Do seio d'aquella nuvem de tristeza que o cercava, luziu para o pobre Angelo um raio de esperança. Pelas conversas que ouviu, de D. Lucas e dos seus companheiros, veiu no conhecimento de que os caixeiros do banqueiro tinham licença de saír nos dias santificados e para logo concebeu a esperança de gosar tambem d'esse prazer, libertando-se da tristeza e da oppressão de toda a semana, n'aquelle dia de folga e de liberdade.