Contos escolhidos de D. Antonio de Trueba
Chapter 2
Infelizmente, muitos discipulos d'esta eschola, esquecendo ou despresando os intuitos philosophicos do mestre, trataram sómente de deleitar; e reconhecendo as tendencias do seculo para os gosos sensuaes, e para os grandes sobresaltos do espirito e do coração, puzeram em acção todas as paixões violentas, e todos os instinctos ferozes da humanidade. Compozeram d'est'arte, é bem certo, quadros grandiosos, cheios de vida e de animação, scintilantes de fogo e de energia, em que se succedem uns aos outros os episodios dramaticos, e as scenas tragicas. Mas, atravez das galas da poesia, com que os adornaram, e sob o brilho seductor dos ouropeis com que se esforçam por atenuar, senão santificar, a hidiondez de torpezas e devassidões repugnantes, transparece o virus da corrupção da alma, ministrado em taça de ouro á mocidade inexperiente e ávida de commoções fortes.
A outra turma de romancistas tem trilhado mais nobre senda, no desempenho de uma missão civilisadora e santa.
Os seus romances não deslumbrarão, talvez, o espirito com o esplendor das imagens; não o sobresaltarão com a rapida successão de casos extraordinarios; não subjugam a razão, nem expõem o coração a contínuo tremor com o longo encadeamento de commoções violentas.
Como o prado, que, sob o sol da primavera, se veste de verdores, que vae matisando pouco a pouco de flores singelas, mas rescendendo de suaves aromas, resplandecentes e encantadoras pela viveza e variedade das côres; e que no inverno troca as alegrias em tristezas, as galas em miseria, para outra vez folgar e enriquecer-se sob o novo sceptro de Flora; assim nas producções d'estes romancistas alternam-se as scenas meigas e suaves da familia com os tristes acasos da sorte, com as tribulações da desventura, emfim, com as tempestades da vida. N'estes quadros avultam tambem os contrastes, como na natureza; os toques de luz e de sombra, colhidos nas vicissitudes da fortuna e no tumultuar das paixões. Figuram ahi alguns dos vicios e crimes, que são no mundo moral a imagem das forças destruidoras no mundo physico. Mas apresentam-se, não com o semblante vellado, embora por véo transparente, que mal deixa distinguir-lhes a fealdade; não com as feições embellesadas e disfarçadas com arrebiques e louçainhas, que fascinem e lhes conciliem as sympathias das almas ingenuas e credulas, mas sim taes quaes são, na sua completa nudez, em toda a sua asquerosa deformidade.
Finalmente, d'esta lucta entre o bem e o mal, figurada n'estes romances, sáe a virtude ou o arrependimento coroado pela felicidade, e o crime ou o vicio punido pela justiça dos homens, ou pela de Deos, que dos proprios vicios e crimes fez gerar o castigo que os pune na terra.
A esta turma de romancistas, a que pertence a eschola allemã, veiu associar-se uma outra, ainda mais singela e modesta, talvez, mas tambem guiada pelo mesmo impulso generoso de deleitar, moralisando. Compõe-se esta de um certo numero de auctores de contos e tradições populares, entre os quaes occupa logar de honra D. Antonio de Trueba.
V
Nascido na Biscaya em 1821, uma das provincias da romantica e cavalleirosa Hespanha, tão original no curso e transformações do seu longo viver; nascido na Biscaya, repetimos, onde se tem conservado mais arraigado o respeito ás tradições do passado, o amor aos antigos fóros populares, e o apego aos velhos costumes, D. Antonio de Trueba não podia eximir-se a essa triplice e poderosa influencia. Bebendo com o leite aquelle respeito; bafejado desde o berço por aquelle amor; preso áquelles costumes pelas mais doces recordações da infancia, o seu espirito difficilmente poderia deixar de revoltar-se contra o progresso, que tudo nivela, abatendo o que era grande, e exaltando o que era humilde; contra as idêas do seculo, que mofam das crenças do passado; que despojam de poesia as tradições; que parecem tender a materialisar a vida á força de commodidades e gosos, creados para deleite dos sentidos.
Resuscitando, pois, as tradições das antigas eras, empenhou-se em fazer reviver, com todo o brilho d'outr'ora, as santas crenças de seus maiores.
Pondo em parallelo, em alguns dos seus contos populares, os costumes da velha sociedade com os que se vão modificando e surgindo no meio do desenvolvimento do espirito humano, insurge-se, é certo, contra o progresso, e, apontando para a corrupção que elle gera e alimenta, deixa expandir-se a sua indignação.
Mas, quando se pensa em que o auctor d'esses contos e tradições foi creado no remanso e singeleza da vida campestre; quando se considera em que os dias da infancia e da adolescencia se lhe deslisaram tranquillos e alegres no seio da familia, sem que viessem perturbar-lhe o repouso, desvairar-lhe as idêas e corromper-lhe o coração, o bulicio das cidades, o tumultuar das paixões e a seducção dos vicios; quando se reflecte em que os verdores, e as suaves harmonias, e os contrastes pittorescos do seu valle natal lhe infundiram n'alma a doce poesia da natureza; e que os carinhos e maximas moraes de uma extremosa mãe e virtuosa perceptora lhe fizeram o espirito meigo, franco, recto e eminentemente religioso; quando se attenta em tudo isto, comprehende-se, acha-se natural, e desculpa-se aquella insurreição contra os progressos do seculo.
Qual mimosa sensitiva, que se contráe e desfallece ao simples contacto da mão indiscreta ou bemfazeja, como se a ferisse duro e traiçoeiro golpe; assim Trueba se confrangiu logo que, transpondo as montanhas do seu pacifico valle, e achando-se de improviso face a face com a sociedade, que desconhecia, viu, como que offuscando o brilho das grandes idêas do progresso, os sentimentos nobres e patrioticos, e as aspirações elevadas e generosas do coração humano, luctando por toda a parte, e quasi sempre vencidas pela ambição do poder e das honras, pela cubiça do ouro, pela sêde dos gosos e dos prazeres, pela fortuna dos mais atrevidos, e pela inveja dos menos felizes. Irritou-se, vendo as conveniencias partidarias e individuaes supplantarem muitas vezes o interesse publico; vendo as leis severas e inexoraveis para com os fracos e desvalidos, e frouxas e flexiveis para com os poderosos ou protegidos; vendo elevaram-se homens, que a falta de merito condemnava á obscuridade, emquanto ficavam esquecidos e occultos, nas sombras da modestia e da humildade, muitos cidadãos dos mais prestantes; ouvindo apregoar maximas e alardear virtudes e serviços, que os exemplos e os factos desmentiam; indignou-se, reconhecendo no curso da civilisação as tendencias do seculo para converter nos gelos da descrença e do egoismo o ardor da fé, a luz benefica da esperança, o fogo santo da abnegação, do amor do proximo e da patria!
Na confrontação do presente com o passado o seu juizo não podia deixar de ser desfavoravel ao primeiro, porque tudo o que via e ouvia, annuviando-lhe os verdadeiros resplendores do progresso, contrariava as suas idêas e os seus habitos, e derrocava pela base os poeticos e formosos castellos, que phantaseara nos sonhos dourados da adolescencia.
E a sua rapida passagem da estreiteza de apertado valle, segregado por assim dizer, do resto da Hespanha, para a amplidão dos grandes centros industriaes, para o seio da turbulenta e voluptuosa Madrid, offuscando-lhe a vista, como se sahira de improviso das trevas para a claridade, forçosamente lhe havia de obstar a que visse n'essa anarchia das ideias, n'esse desenfreamento das paixões, n'essa relaxação dos costumes, emfim, n'essa corrupção moral, que tanto o escandalisavam, as consequencias naturaes da grande e inevitavel revolução social, que estamos presenceando.
Não lhe deixaria attentar em que este acontecimento é o resultado dos maravilhosos descobrimentos do seculo XIX, os quaes acabando com as distancias, pondo em intimas e faceis relações todos os povos do globo, e na presença uns dos outros todos os cultos religiosos, as locubrações dos sabios de todo o mundo, todos os productos da terra e da industria humana, haviam de produzir, por effeito de uma força irresistivel, o duro embate das velhas idêas e dos interesses á sombra d'ellas creados, com as idêas e interesses, que os progressos humanitarios iam gerando e desenvolvendo. Não lhe permittiria reconhecer que d'aquelle embate havia de nascer a lucta a todo o transe; da lucta o exacerbamento das paixões; d'estas o affrouxamento dos vinculos sociaes e dos proprios laços de familia; e de tudo isto a desordem nas idêas e a corrupção geral nos costumes.
É este o triste apanagio das revoluções, que tendem, não a derrubar um throno, ou a mudar uma ou outra instituição, mas sim a assentar em bases inteiramente novas o edificio social. A nossa época é, infelizmente, um d'esses periodos de desmoronamento, e por conseguinte de transição, que apparecem de seculos a seculos na historia geral das nações, como gigantescos e temerosos marcos, erguidos no caminho por onde a Providencia impelle a humanidade, para assignalarem e separarem as grandes phases da civilisação.
Portanto essa condemnação dos progressos do seculo, que apparece em alguns dos contos de Trueba, em rasão dos motivos que lhe dão origem, não deslustra, antes pelo contrario honra o seu coração bondoso e o seu caracter justo e leal. Mas se alguem, mais severo, ou menos attento ao que expendi em seu abono, quizer lançar-lhe em rosto as suas opiniões reaccionarias, leve-lhe em conta a belleza dos quadros que traça com suavissimo pincel; a singelesa e elegancia do estylo, com que dá relevo e vida ás meigas scenas de familia e aos risonhos paineis da natureza, e, finalmente, a moralidade que ressumbra de todas as paginas dos seus livros.
VI
D'este juizo das obras de Trueba, que se me affigura imparcial, deduz-se naturalmente um pensamento de louvor a quem promove entre nós a vulgarisação d'estas boas producções. Em uma quadra, como esta, em que a litteratura portugueza está sendo a todo o momento, não enriquecida, mas sim invadida por traducções de romances que, na maior parte dos casos, não a honram pela pureza da linguagem, e a desauthorisam pela licenciosidade dos costumes, que põem em seductora exposição; presta o traductor um bom serviço ás letras e á moral publica.
Auctores como Trueba illustram e ennobrecem a litteratura que os adopta e perfilha. Livros, como os seus, podem ser offerecidos á mocidade por leaes conselheiros e guias seguros nos escabrosos caminhos da vida.
Na versão prestou o traductor verdadeiro culto aos preceitos e exigencias da lingua materna, conservando aos pensamentos e ás imagens originaes toda a sua elevação e vigor, todo o seu brilho e poesia.
A litteratura hespanhola é tão rica e variada em todos os ramos do saber humano, quão mal conhecida, infelizmente, em o nosso paiz, n'estes tempos modernos. Desde o principio d'este seculo temo-nos quasi restringido a cultivar a litteratura franceza, dedicando-lhe a nossa exclusiva admiração, em prejuizo de outras não menos opulentas e brilhantes. Por conseguinte tambem por este lado o distincto traductor dos contos de Trueba bemmerece dos seus concidadãos. O seu talento, já provado nas lides de escriptor publico, apresenta agora n'este ensaio a amostra do que vale no difficil genero, que encetou; difficilimo, sem duvida, quando se quer verter em linguagem de lei os pensamentos de auctor estranho com toda a belleza e vigor da inspiração original.
I. DE VILHENA BARBOSA.
CONTOS DE TRUEBA
NOSTALGIA--O MADEIRO DA FORCA--A NECESSIDADE--A PORTARIA DO CEU--O PRESTE JOÃO DAS INDIAS
NOSTALGIA
I
Mães que tendes filhos e que fundaes a sua felicidade e a vossa em mandal-os para Madrid ou para a America; lêde este conto, que para vós o escrevo.
Não penseis que é invenção minha o que vou narrar-vos; começa esta historia no dia 10 de novembro de 1836, época em que Madrid era, _peor_ e _melhor_ do que hoje. Quem não entender o que deixo dito lembre-se do que succede com a baixella de prata, que, quanto mais a esfregam, mais brilha e menos peza.
Havia em Madrid um frio intensissimo: nevára na véspera, e antes que a neve tivesse tido tempo de derreter nas ruas, sobreviera uma geada fortissima, o que junto ao vento de Madrid, que mata um homem e não apaga um _candil_, dava á temperatura d'aquella heroica cidade o caracter e a temperatura da Siberia.
D. João Quijano, rico banqueiro que morava na rua de Toledo, estava no seu escriptorio, situado nos baixos da casa, com seu sobrinho D. Lucas, e n'uma sala contigua trabalhavam em silencio, sentados ás suas carteiras, dois caixeiros encarregados da contabilidade e da correspondencia. O gabinete do banqueiro tinha um postigo com vidraça que dava para o escriptorio geral, e pelo qual o tio e o sobrinho espreitavam amiudadas vezes, no intuito de se certificarem se os caixeiros cumpriam as suas obrigações; phrase de que D. Lucas se servia para os fazer trabalhar, quando os ouvia fallar em cousas alheias aos assumptos commerciaes da casa.
D. João era homem de cincoenta annos, pouco mais ou menos, córado, robusto, de nariz grande e cabelleira tão bem arranjada e composta, que os proprios caixeiros não teriam dado por ella, se não fôra o genio de sua mulher D. Joanna, que, nos seus accessos de cólera, lh'o lançava em rosto, chamando-lhe «tio _cabelleira_».
D. Lucas devia ter os seus vinte oito a trinta annos; era pouco mais alto que um cão sentado, e nem a sua phisionomia, nem as suas palavras revelavam talento ou bondade de coração. Não obstante isso tolerava-lhe o tio os defeitos, e até sentia estima por elle, não só por ser empregado antigo da casa, mas tambem porque podia dizer-se que era D. Lucas quem carregava com todo o peso do estabelecimento.
--Veja lá, tio, disse D. Lucas a D. João, levantando os olhos para um relogio, que estava collocado na parede, em frente da escrevaninha do banqueiro,--se tem de ir á Bolsa, não se descuide que são quasi duas horas.
--Parece-me que não vou lá hoje, respondeu D. João; quem ha de saír de casa por um tempo d'estes? A vida é curta, e se eu morrer... tocam os sinos a defuncto, e está tudo acabado... Demais deve estar por ahi a chegar o pequeno e tenho desejos de o vêr. Recebi pelo correio uma carta de meu irmão Martinho, na qual este me diz que o rapaz saíu de lá no primeiro do mez, na carroça de Chomin, e segundo o meu calculo, temol-o por ahi hoje. Talvez não fosse mau mandar o Toribio á estalagem.
--Não sei para que; quando elle chegar, cá virá ter.
--O pobre pequeno deve vir tolhido de frio.
--Não lhe dê isso cuidado; não inspira compaixão quem vem como elle para Madrid, comer bom pão e boa carne, em vez de comer brôa e batatas n'uma aldeia da Biscaya.
--Pois apesar d'isso estou bem certo de que preferiria encontrar hoje, ao apear-se da carroça, a cosinha de seus pães, com a sua priguiceira e um bom fogo de rama de pinheiro, a entrar n'esta habitação ricamente mobilada e com chaminé á franceza.
--Parece-lhe que o empreguemos em compras e recados?
--Não foi essa por certo a ideia de seus paes quando resolveram mandal-o para Madrid. É preciso collocal-o no escriptorio a fim de que, pouco a pouco, se vá instruindo e orientando no negocio.
--Pouco a pouco! Verá como antes de um mez o faço saber mais do que Merlin. _A letra com sangue entra_...
--Não concordo comtigo, Lucas. Toma conta, não lhe ponhas sequer a mão; não quero que aconteça com este o que aconteceu com outros, que á força de maus tratos, os entonteceste, e tive que os mandar para a terra...
Dispunha-se D. Lucas a tomar a defesa do seu barbaro systema d'educação, quando tocou a campainha;--calaram-se de subito, tio e sobrinho, applicando o ouvido na direcção do portal.
--Elle ahi está! exclamaram ambos a um tempo, ao ouvirem no patamar a voz do pequeno que saudava o creado que fôra abrir-lhe a porta.
--Senhor, disse este com sorriso d'escarneo, apparecendo á entrada do escriptorio, está aqui Chomin com o _rocim-chegado_.
D. João franziu as sobrancelhas como descontente de que o creado se atrevesse a proferir o estupido equivoco que vae escripto em italico, ao passo que o sobrinho soltou uma estrondosa gargalhada em honra da graça de Toribio, que era um asturiano tonto com pretenções a faceto:
--Que entrem, respondeu D. João.
Com effeito Chomin, que era um dos recoveiros das provincias Vascongadas, entrou no escriptorio, acompanhado d'um menino de doze a treze annos.
II
Não se tinha enganado D. João, suppondo que a pobre creança chegaria gelada.
Angelo (era assim que se chamava o novo caixeiro dos snrs. Quijano e Sobrinho) estava a tiritar com frio; tinha as mãos e a cara lividas e os seus olhos indicavam que, na noite antecedente, em vez de se terem fechado para o somno, se tinham aberto para o pranto. O pobre rapazinho parou á porta do escriptorio, com o chapéu na mão, de cabeça baixa, e mal pôde articular um cumprimento.
--Ora aqui o tem, disse Chomin, depois das saudações do estylo. Desde que saímos da aldeia, ainda não cessou de chorar com saudades das suas vaccas e das suas cabras.
--Pobre pequeno! exclamou D. João, afagando Angelo.
--Deixe lá, atalhou o almocreve, que o pão trigo de Madrid faz esquecer de prompto a brôa de Biscaya. Bem diz o provérbio que «_de Madrid só para o céo_».
D. João acercou-se de Angelo, e disse-lhe, correndo-lhe a mão pela cabeça:
--Vamos, homem, então, que tal achas Madrid? Parece-te melhor que a tua aldeia?
--Não, senhor, respondeu o pequeno com os olhos arrasados de lagrimas.
--Dizes bem, dizes! exclamou D. João, pondo-se a rir e fazendo uma nova caricia ao rapazinho. Devem ser assim os homens; a melhor terra é sempre aquella que nos viu nascer.
--Sim, sim, ria-se tio, disse D. Lucas, fazendo um gesto de enfado; ria-se da sandice d'esse bruto. Não ha duvida, o rapaz promette! Mas deixa estar que caíste em mãos de quem te sabe ensinar!
--Não se afflija, snr. D. Lucas; o _rapazelho_ põe-se fino com um bom par de açoites todos os dias.
--Isso fica por minha conta, respondeu D. Lucas.
--Valha-me Deus; não sejam assim, replicou o banqueiro; que admira que o pequeno tenha saudades de seus paes, se nunca se separou d'elles? E accrescentou, dirigindo-se a Angelo: deves trazer vontade de comer?
--Não, senhor, respondeu o menino, lavado em lagrimas.
--Não chores, disse D. João; chega-te para o lume e aquece-te, emquanto não chamam para o jantar, e logo tomarás conta do teu serviço e verás como antes de um anno te tornas um verdadeiro negociante.
O pequeno approximou-se da chaminé com o chapéu na mão; mas como o cegavam as lagrimas, tropeçou n'uma cadeira e lançou por terra uns papeis que estavam sobre ella.
--Desastrado! não vês por onde andas? exclamou D. Lucas, agarrando-lhe n'um braço e sacudindo-o com violencia.
De repente effectuou-se no animo do menino uma reacção inesperada. Elle que, um momento antes, mal se atrevia a levantar os olhos, ou a pronunciar uma palavra, ergueu a fronte com altivez, e virando-se para D. Lucas, disse-lhe:
--Expulse-se-me de sua casa, mas não me maltrate. Aqui maltratam-me, emquanto na minha aldeia me choram. Como quer então o senhor que eu goste mais d'esta terra do que da minha?! E accrescentou, dirigindo-se ao almocreve:
--Já não quero aqui ficar; volto comsigo para a Biscaya.
Estas palavras, bem longe de commoverem D. Lucas e o almocreve, fizeram rir este e encolerisar aquelle, que murmurou, levantando o punho fechado sobre a cabeça da creança:
--Se fosses meu filho abria-te a cabeça com um murro!
D. João, porém, saíu em defeza do pobre rapaz, arredando d'elle com violencia seu sobrinho, e exclamando:
--Lucas, já te disse que não consinto que lhe ponhas a mão. Se o achas rude e acanhado, se está commovido e saudoso, recorda-te de como eras tambem, e do modo como te apresentaste quanto vieste para Madrid. E Vm.^ce, snr. carroceiro, fique sabendo que não se tratam os racionaes como as mulas.
--Não faça caso, snr. D. João; isto em mim não passa de um gracejo, e senão elle que diga a maneira como eu o tratei pelo caminho.
--Carregando-me de lenços de contrabando! O que me valeu foi não me revistarem á entrada das portas; do contrario estaria a estas horas na cadeia!
--Não está mau modo de cuidar da innocente creança, que foi confiada á sua guarda! exclamou D. João, olhando com indignação para o almocreve. Retire-se já da minha presença, que me estão dando tentações de dar uma parte de si á policia.
--Ora, snr. D. João!... Então o senhor faz caso do que dizem creanças?
--Já lhe disse que se retire da minha presença.
--Está bem, snr. D. João; mas...
--Não ha aqui mas, nem meio mas. Tenho dito, ponha-se no andar da rua.
O carroceiro não se atreveu a replicar e retirou-se murmurando não sei que insolencia.
D. João arrastou uma cadeira para junto do fogão, e sentou-se ao lado de Angelo que tinha cessado de chorar. O pobre pequeno estava já um tanto mais satisfeito por ver que nem todos n'aquella casa o tratavam com aspereza, e que se havia ali quem o maltratasse, tambem tinha quem o defendesse e lhe proporcionasse consolações e affagos, que lhe faziam lembrar os que deixára no lar domestico.
D. Lucas despeitado por vêr que o tio tomava as dôres pelo recem-chegado, a ponto de o reprehender a elle pela sua falta de humanidade, tinha-se retirado para o escriptorio, e por conseguinte ficaram sós, Angelo e D. João.
Era este natural da aldeia do pequeno, e posto tivesse ido para a côrte de tenra edade, e absorvessem de ordinario todos os seus pensamentos e acções os assumptos commerciaes, nem por isso havia renegado o paiz natal, nem esquecido os seus parentes.
--Vamos, Angelo, disse elle ao rapazinho com modo carinhoso, dando-lhe uma palmada no hombro; conversemos um bocado ácerca da nossa aldeia; venham de lá algumas noticias frescas d'aquella boa gente. Então de quem te despediste tu antes de partir?
--Despedi-me de todos os meus parentes e vizinhos.
--Muito bem! N'esse caso havias de vêr meu irmão, não é verdade?
--Sim, senhor, recommendou-me que lhe désse muitas lembranças, e bem assim á senhora D. Joanna, e a D. Lucas... mas a este é que eu as não dou.
--Não sei porque não, filho.
--Porque me trata muito mal.
--Não faças caso, homem. Com que então deram-te lembranças para mim?
--Sim, senhor, e especialmente o snr. abbade.
--Deve estar muito velho, o bom do padre! coitado!
--Não, senhor; se o visse andar por aquelles montes ficava admirado. Ninguem dirá que tem mais de quarenta annos. Como não ha, lá na aldeia, quem não reze a Deus todos os dias para que lhe dê saude, não tem nem uma dôr de cabeça.
O colloquio de D. João e Angelo, interessantissimo para ambos elles, foi interrompido logo em começo pela entrada do asturiano, que tinha chamado ao menino _rocim-chegado_.
--Senhor, disse o creado, manda dizer a senhora que está a _mesa na sôpa_.
O banqueiro riu-se d'esta troca de palavras e encaminhou-se para o primeiro andar.
III
Não estava a mesa na sôpa, mas estava a sôpa na mesa, e D. Joanna, a esposa de Quijano, aguardava com impaciencia a chegada do marido, não porque tivesse o estomago vazio, mas sim porque o seu caracter irascivel e dominador não supportava que a fizessem esperar.
D. Joanna, que entrára como creada e acabára por ser ama em casa de D. João Quijano, tinha o relogio atrazado, pois assegurava ter trinta annos, ao passo que a sua physionomia, e o que ainda é mais, a certidão do baptismo, lhe davam quarenta.
Deter-me-hei pouco na descripção dos seus dotes physicos; direi apenas que as creadas, que despedia todas as semanas, a mimoseavam, ao descerem pela ultima vez as escadas, com os epithetos de: _dentes de cavallo_, _estafermo_, e _olhos de gato_.
Quanto ao moral era D. Joanna a personificação da antithese; alternavam-se n'ella a vaidade e a modestia, a avareza e a liberalidade, a crueldade e a compaixão, a elegancia e a falta de gosto no vestir.