Contos e Phantasias

Part 12

Chapter 123,826 wordsPublic domain

«N'essa época, Balsac, em todo o vigor da sua virilidade, apresentava indicios de uma saude violenta, pouco em harmonia com a pallidez esverdeada que o romantismo tinha posto á moda.

«O puro sangue da Touraine fustigava-lhe as faces tintas de purpura vivaz, e dava-lhe um colorido quente aos grossos labios bondosos e espessos, tão accessiveis ao riso; um pequeno bigode e uma pêra impercetivel accentuavam-lhe os contornos sem os esconder; o nariz quadrado na extremidade, repartido em dois lobulos, de narinas amplas e dilatadas, tinha um caracter inteiramente original e unico; a ponto de Balsac dizer a David de Angers em quanto este lhe modelava o busto: «Dê attenção ao meu nariz;--o meu nariz é um mundo!»

«A testa era bella, vasta, nobilissima, muito mais branca do que o rosto, sem rugas, a não ser um sulco perpendicular; as protuberancias da memoria dos logares formavam uma saliencia pronunciadissima, por cima das arcadas superciliarias; os cabellos longos, abundantes, asperos e negros, arripiavam-se para traz como uma juba leonina.

«Quanto aos olhos nunca houve outros que se parecessem com os d'elle.

«Tinham uma vida, uma luz, um magnetismo inconcebiveis.

«Apesar das longas vigilias nocturnas, a esclerotica conservava-se-lhe pura, limpida, azulada, como a de uma creança, ou a de uma virgem, e engastava dois diamantes negros, a espaços allumiados por oppulentos reflexos de ouro. Eram olhos para fazerem baixar as palpebras ás aguias; olhos capazes de lerem atravez das paredes e dos corações, de fulminarem uma féra furiosa: olhos de soberano, de vidente e de domador!»

Madame de Girardin, no seu romance intitulado: _A bengala do snr. de Balsac_, falla d'estes olhos esplendidos:

«_Tancredo avistou então no cabo d'esta especie de masso, turquezas e ouro, cinzeladuras maravilhosas; e por detraz de tudo isto dois grandes olhos negros mais brilhantes que todas as pedrarias._

«Logo que a gente encontrava o olhar d'estes olhos extraordinarios, não podia notar sequer o que as outras feições tinham de trivial ou de irregular.

«As mãos de Balsac eram de rara formosura, verdadeiras mãos de prelado, brancas, de dedos pequenos e redondinhos, unhas roseas e brilhantes; era muito presumido d'ellas, e sorria-se de prazer quando via que as notavam».

Diante d'este retrato é mais facil comprehender o escriptor com a sua admiravel potencia intellectual, e as suas pequenas manias pueris; sympathico, bom, com vaidades inoffensivas, e austeros orgulhos, sedento de um affecto _unico_, e de uma _celebridade_ que fosse só d'elle.

Nas suas cartas de uma eloquencia irresistivel, volteiam constantemente as duas grandes preoccupações da sua vida--_a gloria_ e _a mulher_!

«Tenho a alma profundamente triste, escreve elle. Só o trabalho me ampara na vida. Não haverá para mim no mundo a mulher a que eu aspiro? As minhas melancolias e tedios physicos cada dia se aggravam mais, se tornam mais longos e mais frequentes. Cahir d'este trabalho esmagador ao _nada_ mais completo! não ter nunca ao pé de mim aquelle doce e carinhoso espirito da mulher, por quem tenho feito tanto!»

E fez! digam o que disserem os seus detractores, ninguem como elle comprehendeu a mulher,--principalmente a mulher do seu tempo,--nas suas fraquezas, nos seus crimes, nas suas delicadezas occultas, nas suas aspirações morbidas e doentias, nas exigencias despoticas da sua alma e dos seus nervos, nas abnegações sublimes de todo o seu sêr, nas suas vaidades ferozes, no esquecimento absoluto, na abdicação completa de qualquer egoismo, em tudo emfim que ella tem de bello e de feio, de grandioso e de ridiculo, de puro e de maculado.

Que o digam Eugenia Grandet, a mais doce e mais melancolica das suas creações; _La Fossette_, idylica visão tão sympathica como a Mignon, e mais real do que ella; a condessa de Morsauf, a martyr do dever; a viscondessa de Bauseant, a duqueza de Langeais, madame de Restaud, lady Dudley, a monumental Valeria Marneffe, e tantas outras, tragicas peccadoras, fascinantes, demonios que teem filtros na voz e no olhar; productos de uma civilisação gasta e apodrecida; figuras typicas que hão de ficar umas, caracteristicas da sua época e do seu meio, outras, eternas e sempre verdadeiras como a humanidade!

Em Balsac ha muitas vezes expansões de candido orgulho que seriam ridiculas n'outro homem, e que a elle o tornam mais sympathico.

Tem mais do que a consciencia clara do seu valor, tem uma confiança enorme em si, no seu talento, na sua obra, na sua missão.

Imagina-se apto para todos os misteres, julga-se não só um grande romancista, mas alguma cousa menos--um grande politico!

Escrevendo _Seraphita_ e _Luiz Lambert_, duas obras que lhe foram inspiradas pelas suas leituras de philosophia espiritualista, e pelas tendencias _Swedenborgistas_ que houve n'elle n'um dado momento da sua existencia, tão _intellectualmente_ accidentada, julga preencher uma grande lacuna, produzir alguma cousa de grande que os seculos vindouros possam pôr ao lado do Fausto!

Curiosa illusão do genio!

Como se houvesse nada menos nebuloso, menos metaphysico do que esse vigoroso _realista_, observador potente para quem a vida com todas as paixões que a convulsionam e agitam não conservou um unico segredo.

III

São de 1835 as primeiras cartas que na _Correspondencia_ de Balsac apparecem dirigidas a madame Hanska, se bem que já de mais tempo dactassem as suas relações de pura e platonica amisade com a elegante e fidalga mulher, que muito mais tarde foi sua esposa.

Duram cerca de dezesete a dezoito annos estas relações que o tempo modificou, e estreitou tão profundamente, mas desde a época em que esta mulher superior apparece no seu destino, a vida de Balsac tem um profundo e apaixonado interesse.

Vinte horas por dia trabalhava elle então, para conseguir encher aquelle horrivel tonnel das Danaides, que era a sua divida!

Apesar d'isso, lograva ainda roubar alguns instantes a este agro labutar, para escrever umas cartas que todos os criticos hão de consultar no futuro, para conhecerem a fundo a vida e o caracter do prodigioso escriptor.

São caricias ideaes, interrompidas por calculos monetarios, são queixas dilacerantes a que se segue uma longa risada de inoffensiva ironia; porque elle, que soube pintar tão bem os cynicos, os depravados, os terriveis escarnecedores, cujo riso corroia como um caustico, era no intimo bom, quasi infantil; depois confidencias, esperanças, sonhos politicos, sonhos financeiros, sonhos industriaes, planos gigantescos de trabalho, phantasias de artista, desejos de mulher garrida e bonita, observações profundas, divagações poeticas, melancolias de alma solitaria que ninguem na terra sabia entender.

Entendia o ella, a adoravel slava, que vêmos atravez d'estas cartas, altiva para todos, consoladora e maternal para elle; grave, magestosa, fidalga como a sua velha raça, e no entanto cheia de graciosas delicadezas, que endoideciam de jubilo e de amor o plebeu namorado de todos os requintes aristocraticos, o trabalhador eternamente exilado de todas as alegrias do amor, o artista que tão bem sabia avaliar o lado elevado e bello de todos os sentimentos.

É um estudo interessante e curiosissimo vêr como o tom ao principio respeitosamente affectuoso das cartas de Balsac vae seguindo gradações successivas e harmonicas, tornando-se terno, apaixonado, confiante, expansivamente amoroso.

É que madame Hanska, quando elle a conheceu, é uma senhora casada e sinceramente virtuosa.

O adoravel _monstro_ parisiense de juba de leão e olhos de brilho fulvo e diamantino, poude attrahir-lhe a curiosidade, excitar-lhe a imaginação, seduzir-lhe o espirito, mas parou aqui o seu terrivel poder!

E só depois de viuva, quando, sem crime, a altiva dama póde entregar-se á tendencia tão violenta do seu coração, é que ella o acolhe com o abandono de mulher amada e amante, que lhe deixa conceber esperanças que o fascinam, e que por fim as corôas, dando a sua fina mão branca, esguia, principesca, ao pobre artista, ao louco aventureiro do genio, que tão fiel e estremecidamente lhe quiz, em longos annos de casta abstenção.

Mas elle trabalhara, luctara, padecera tanto; por tanto tempo desejara aquelle enlace, que era ao mesmo tempo a realização das suas chymeras de ambicioso, e dos seus sonhos de homem e de poeta; empregára tão violentos esforços para pagar até ao ultimo ceitil a sua enorme divida, para entrar desassombrado e digno na vida conjugal, em que, aos olhos d'esta sociedade ignorante, elle dava tão pouco e recebia tanto; realisára taes prodigios para mobilar, como um artista millionario, o ninho em que havia de receber a adorada mulher que deixava por elle as pompas seculares da sua vida opulenta, que succumbiu ao excesso das fadigas e que ao tocar com os labios sofregos o pômo tantas vezes sonhado, o sentiu esvaír-se em cinzas, como em cinzas se esvaía a sua vitalidade opulenta!

É esta lucta d'um tragico sublime, mais interessante do que todos os romances que Balsac escreveu, que se desenrolla com uma belleza maravilhosa na sua _Correspondencia_, cuja leitura aconselhamos sem hesitação a todas as nossas leitoras, cousa que não fariamos a respeito da obra do escriptor, apesar da sua incontestavel e radiante formosura.

É preciso ler estes dois volumes para saber como o grande romancista soffreu e como se compram caras as glorias do genio, tão invejadas pela turba.

«Não tenho nem uma hora para chorar, nem uma noite para descançar!», diz elle n'uma das suas cartas.

Madame Hanska é comtudo para o titan, infatigavel e sempre vencedor, a suprema doçura, o balsamo ineffavel de todos os instantes.

«_Ó_ minha querida alma fraternal, tu és a santa, a nobre, a dedicada creatura a quem eu entrego toda a minha vida e toda a minha felicidade com a mais ampla confiança! Tu és o pharol, a estrella luminosa e _la sicura richezza senza brama_! Em ti comprehendo tudo, até as tuas tristezas e por isso as amo tanto! Comtigo a _sociedade moral_ não existe! eis o grande segredo, o segredo supremo de felicidade.»

Mas para que havemos de fazer citações sempre incompletas e sempre inuteis?

Quem quizer conhecer a que foi esposa e hoje é viuva d'um dos maiores genios da França, que leia o livro de que temos extrahido rapidos trechos.

Vel-a-ha serena, intelligente, instruida, não bella d'aquella belleza juvenil, que agrada aos mais profanos, mas da grave formosura, que envolve o outomno da mulher n'uma nuvem de indefinivel saudade, sabendo curvar a sua gentil e orgulhosa cabeça de _madonna_ ao jugo d'uma elevada ternura, e comtudo conservar intacta a sua dignidade de senhora, duplamente illustre pela virtude e pelo nascimento; tendo para o genio a admiração e a indulgencia; comprehendendo com uma finura toda feminil, feita de talento e de experiencia, o que ha de infantil n'um grande homem, o que ha de fraqueza n'uma potencia intellectual, abdicando todas as falsas vaidades, cultivando em si todos os verdadeiros orgulhos, n'uma palavra a mulher completa, tal como a sonhamos e como quereriamos vel-a mais vezes realisada.

LINCOLN E GRANT

De vez em quando a tela monotona d'esta nossa vida de Lisboa, unicamente bordada de pequeninos _cancans_ politicos, litterarios e sociaes, rompe-se com a chegada, ou para melhor dizer, com a passagem de um viajante illustre.

Em geral os viajantes que por cá apparecem não _chegam_, _passam_.

É mais verdadeiro o verbo, embora lisongeie muito menos a vaidade nacional.

Este nosso modesto _Jardim da Europa á beira-mar plantado_, como a caridosa phantasia do poeta do _D. Jayme_ lhe chamou, tem poucos attractivos que chamem os viajantes.

D'entre os que nos teem visitado, só um, e esse na sua qualidade de mulher tinha amplo direito para se entreter com devaneios illusorios, só um--M.ᵐᵉ Ratazzi--descobriu em nós qualidades extraordinarias que nos vaticinam brilhante futuro, além de nos dotar de genios pouco vulgares, de obscuros Shakespeares, para quem soará brevemente a hora gloriosa da fama universal.

A propria M.ᵐᵉ Ratazzi se offereceu bizarramente para apressar essa hora, que já ia tardando, não só pondo em prosa franceza a prosa dos nossos escriptores, como tambem encarregando-se ella propria de personalisar, n'um dos eternos _theatrinhos_ que anda armando por toda a parte, as creações mais ou menos formosas dos ditos Shakespeares, desconhecidos.

Será bom que a gente peça a Deus d'aqui por diante nas suas orações mais fervorosas não excitar a dedicada admiração d'aquella illustre, mas indiscreta dama!

Quem lhe manda a ella andar apreguando lá por fóra nossas glorias!

Nós bastamos ao menos para nos applaudirmos mutuamente.

A que vem, porém, todas estas divagações? pergunta de certo a leitora.

E pergunta com muita justiça, porque a minha imaginação, está _folle du logis_ indisciplinada, não tem direito para cansar assim a benevola attenção dos que me lêem.

Vinha tudo isto a proposito de ter estado ha pouco entre nós, vindo embarcar no nosso porto, o general Ulysses Grant, um dos vultos mais importantes da moderna historia.

O apparecimento d'este homem modesto, que foi um heróe, além de ser um grande cidadão, pouca ou nenhuma impressão produziu no espirito dos lisboetas.

Porque, emfim, sejamos justos, o general Grant que direito podia ter á fervida admiração dos seus contemporaneos?

O general Grant não inventou, como o seu patricio Boyton, um apparelho de borracha para andar por cima d'agua; o general Grant não é um palhaço afamado dos que attrahem o _High life_ ao circo Price; o general Grant não tem nem a voz de _Manrico_ ou de _Arthur_, nem a capa e o chapeu de pluma d'estes cavalheiros; o general Grant não passa de um homem muito vulgar, que salvou o seu paiz na guerra, e que o reconstruiu, desenvolveu, fortificou e engrandeceu durante a paz!

Que significarão estas cousas para quem só gosta de aventureiros e de _poseurs_?

Nós, porém, é que, lendo que chegara á cidade em que vivemos o ex-presidente dos Estados-Unidos da America, tivemos curiosidade de lançar um relance de olhos, comquanto rapido, sobre a vida d'esse homem singular, d'esse moderno luctador, vida que se nos afigura um estudo proprio para levantar e robustecer o espirito dos que acreditam nos futuros destinos da democracia.

Não é possivel separar na historia os dous nomes de Lincoln e de Grant.

Ambos combateram pela mesma nobre causa, ambos concorreram igualmente para o seu grande e difinitivo triumpho.

O nome de Lincoln tem a suprema aureola que dá o martyrio, o nome de Grant tem o prestigio fascinador que dá a heroicidade.

Nenhum conhece o apparato, a ostentação, esta humilde vaidade que torna os povos latinos tão doudamente namorados de tudo que fulgura.

Ambos elles pertencem profundamente, mais ainda pelo caracter do que pelo nascimento, ao paiz de que são filhos.

Paiz estranho, gigantesco, sempre agitado, onde o homem tem campo vasto para desenvolver a sua multipla actividade, para exercitar e pelo exercicio permanente robustecer as suas varias e complexas faculdades, e onde, tendo de dever sómente ás suas forças individuaes a elevação a que forçosamente aspira, elle tem de empregar n'essa lucta de ambições fecundas todos os recursos, todas as energias da sua intelligencia, todas as riquezas da sua organisação.

O que ha de extraordinario n'estes dous homens é que ambos alcançaram o mesmo fim, ambos partiram da mesma origem, e comtudo não ha nada mais divergente do que o caracter d'elles e os meios que empregaram para subir ao mesmo posto supremo da sua nação.

É fóra de toda a duvida que hoje a ideia democratica tende a triumphar por toda a parte.

É uma ideia que germinou ha dezenove seculos, e que, antes de bracejar e florir á luz crua do dia, lançou até ás entranhas da terra as suas raizes vigorosas, cresceu, medrou, sugou a mais exhuberante e a mais substanciosa seiva, minou lentamente tudo que lhe ficava em torno, e, quando emfim appareceu a todos os olhos, já vinha forte e robusta demais para que ousassem derrubal-a.

A democracia não é um modo de ser transitorio das sociedades modernas; quando as leis e os costumes, quando os acontecimentos e os homens, se modificaram e transformaram á sua grande voz, já ella tinha direito de asylo em todas as consciencias.

Os que a repulsam não desconhecem o feio crime que perpetram.

Os que a atacam são movidos pelo seu proprio interesse, que ella muitas vezes tem de magoar ou de destruir, mas nunca pela sinceridade das suas convicções.

A democracia bem entendida não póde separar-se da ideia da justiça.

Desde que uma despontou sobre a terra, outra começou a apparecer imponente e irresistivel ao espirito dos que sabem ler em vagos prenuncios as transformações fataes de que teem de ser theatro as sociedades.

A democracia não está, pois, destinada a morrer como as outras fórmas sociaes que a precederam, e que não foram senão a lenta preparação do seu triumpho, comquanto pareçam as suas inimigas irreconciliaveis.

Entre os elementos que constituiram o passado, e os que vão constituir o futuro, não ha inimizade, ha incompatibilidade.

Uns teem de succumbir para que os outros triumphem, eis tudo.

N'esta grande evolução que nunca pára, o que ás vezes se nos afigura mais contrario a uma causa é justamente aquillo que lhe está preparando a victoria absoluta.

É bom que tenhamos isto sempre bem presente, para que não sejamos accintosamente inimigos do que foi, nem loucamente vaidosos do que vai ser.

Os acontecimentos não são nunca o resultado de uma causa isolada; são a consequencia fatal de uma lei relacionada com todas as outras, parte que está em perfeita harmonia com o seu conjuncto.

A geração de hoje, e a que foi sua predecessora, fizeram muito, é verdade, em favor da causa democratica, porém não foram ellas que no curto espaço de um seculo semearam o germen, regaram a planta, a viram transformada em arvore gigantesca, e lhe colheram os fructos abençoados.

Seria demais para tão pouco tempo.

É bom que o repitamos: ha dezenove seculos que a humanidade caminha, sem parar um só instante.

Tem tido dias que podem chamar-se seculos, e em compensação tem tido seculos que pódem chamar-se dias; em todo o caso, é porque ella ainda não estacionou que hoje avista emfim o ponto a que se dirigia.

Tenhamos o santo orgulho do que temos feito, mas não desprezemos o que os outros fizeram antes de nós.

* * * * *

A America é o paiz em que o pensamento democratico tem tido mais pratica e mais positiva realização.

Sem entrarmos em considerações que seriam inopportunas, sem analysarmos todas as condicções excepcionaes que favoreciam este povo, para que elle pudesse, mais do que nenhum outro, dar uma forma real ao que tem sido o sonho de tantos utopistas e de tantos martyres, basta-nos percorrer rapidamente a vida dos dous homens notaveis de que fallamos para conhecermos a fundo quanto os costumes, as ideias, as leis, os sentimentos do povo americano estão profundamente penetrados do principio da _igualdade de condições_, que é no fim de contas a base de toda a verdadeira democracia.

Tanto Lincoln como Grant sahiram das mais humildes posições sociaes.

Lincoln foi até aos vinte annos carpinteiro e barqueiro; Grant foi até aos trinta e tantos annos operario como seu pae, operario humilde e obscuro.

Se me perguntarem qual dos dous me inspira mais sympathia, responderei que prefiro Lincoln.

Ambos teem a suprema distincção da honestidade, esta virtude moderna, que é indispensavel aos grandes homens, os quaes tinham d'antes ampla licença para serem aventureiros felizes, sem por isso deixarem de ser admiraveis e admirados.

Mas, emquanto Grant é simplesmente um homem de energia inquebrantavel, e de espirito positivo e clarissimo, Lincoln, que é tambem isso, é mais ainda do que isso, porque é uma alma de poeta.

De poeta, sim; não se riam, minhas queridas leitoras.

A poesia que se escreve é muito inferior áquella que se sente e que se pratica.

Não admira que a alma do martyr americano se colorisse na mocidade de todas as tintas opulentas da genuina poesia.

Elle conhecêra de perto a natureza grandiosa do seu paiz; ouvira, humilde, pobre, talvez inconsciente, o que diz no silencio das noites ou no acordar festivo das madrugadas a voz sonora, grave, religiosa das florestas insondaveis.

Depois, o seu primeiro livro, aquelle em que aprendeu a lêr na obscura escola da terra em que vivia, o que mais o inspirou, o que lhe deu adoraveis côres para as suas tão finas parabolas, eloquencia e uncção para advogar a causa de tantos milhões de parias, arrojo, audacia e valor para proclamar a redempção dos seus irmãos escravos--e escravos na terra onde uns poucos de homens intemeratos tinham vindo erguer o estandarte da liberdade, desconhecido na Europa--o livro, emfim, da sua mocidade foi a Biblia, o grande, o immutavel poema, o maior de todos, porque não é o poema de um homem, é o poema de um povo.

Lincoln teve, como todos os poetas do coração, o culto mais profundo pela mãe.

--Tudo que sou a ella lh'o devo,--dizia.

E, no entanto, ella morrêra-lhe quando o filho contava apenas dez annos, e fôra em vida uma creatura simples, uma alma ingenua e ignorante.

Quem póde, porém, affirmar que não existisse uma communhão mysteriosa entre a alma da mãe e o espirito do filho!

Quem sabe se a ella lhe faltou apenas cultivo esmerado para ser uma creatura superior, e se a creança rude e obscura, que foi mais tarde o grande homem e o grande martyr, não deveu as qualidades que o tornaram tão distincto á influencia occulta da que o gerou no seio?

Como quer que seja, a verdade é que o pobre operario conseguiu á força de estudo--estudo ainda assim que nada teve de methodico--improvisar-se advogado.

Lincoln n'esta nova posição, conquistada pela sua energica vontade, tinha uma singularidade que deve espantar altamente: só acceitava a defeza de causas justas.

A feição mais caracteristica do espirito de Lincoln é uma jovialidade conceituosa, uma malicia benevola, uma graça de moralista, que faz das fabulas e das parabolas armas infalliveis de argumentação.

Nunca se deu ao trabalho de improvisar arrojos de eloquencia, tinha sempre ao serviço das suas convicções umas anecdotas a um tempo cheias de graça e de bom senso, umas pequenas historias que deitavam por terra toda a laboriosa rethorica dos adversarios.

Aos trinta annos o advogado modesto viu-se de repente orador popular e candidato á legislatura da sua terra.

Não que elle fizesse nenhum d'esses discursos tribunicios que arrastam e enthusiasmam as massas, mas sempre pela força irresistivel do seu bom senso, que era tão raro e tão completo, que o punha a par dos homens de genio.

Todos conhecem a vida de Lincoln, que, depois de ser um dos oradores mais populares e mais queridos das reuniões publicas do seu paiz, foi duas vezes eleito presidente dos Estados-Unidos, e durante os ultimos annos da sua vida gloriosa sustentou e venceu uma das guerras mais assoladoras dos modernos tempos, e arrancou da terra que lhe deu o sêr essa lepra--hoje felizmente desconhecida no mundo civilisado--que se chama escravidão!

Foi pouco tempo depois de ter assignado o decreto que remia dos horrores do captiveiro quatro milhões de desgraçados, que Lincoln, um dos heróes da humanidade, um dos santos, um dos conquistadores, um dos martyres de que falla com mais louvor a historia, cahiu morto, ás mãos covardes de um assassino!

Nada mais pathetico e de uma tristeza mais commovente e mais profunda do que a descripção do funeral do libertador da patria, do grande emancipador da raça escrava.

O seu cadaver, consagrado pela admiração d'esse povo gigante, foi levado de capital em capital, desde Washington até á pequenina cidade de Springffel, patria de sua mocidade laboriosa e humilde.

Foi um caminho de triumpho, que lembrava, mas de bem diverso modo, o caminho que elle andara em vida, desde a sua terra pequena e pobre, até á grande capital, onde o tinham levantado á primeira magistratura do paiz.