Part 11
Pintou, e com que potencia da verdade! os reis, e os operarios, as duquezas sentimentaes, e os artistas convulsionados pela _nevrose_ do seu tempo, os politicos, os sabios, os pensadores, os litteratos; as peccadoras do alto mundo, e as peccadoras do mundo equivoco; os financeiros, e os luctadores ambiciosos; os que vinham perder a alma e gastar o corpo n'essa Pariz electrica e absorvente, que attrahe os genios e os monstros, e os que vinham alli conquistar a fortuna, o poder, a soberania omnipotente.
Na sua obra complexa, enorme, que ás vezes tem na distancia um não sei que de monstruoso, encontra-se viva, palpitante, com os seus vicios, com as suas paixões, com o seu talento ardente, com a sua magnetica e irresistivel seducção, uma das épocas mais caracteristicas da civilisação da França, o que significa a civilisação da Europa.
Se em Balzac encontramos as florescencias rubras do mal, nem por isso nos seduzem menos as suavidades castas da virtude.
Ao pé de Madame de Marneffe, a pequenina e graciosa féra parisiense, felina e nervosa, com caricias que mordem e furores que acariciam, ha a doce figura de Eugenia Grandet, a mais dolorosa virgem, que a imaginação moderna ainda concebeu e idealisou.
Ao pé de Luciano de Rubempré o ambicioso effeminado e morbido; de Vautrin o brutal luctador que seria um _condottiere_ do seculo XVI e que só póde ser um forçado no seculo XIX; ao pé de Marsay o politico sagaz, que faz dos homens, das mulheres e das cousas, meros instrumentos da sua fortuna, que não tem lei nem fé, e que é capaz de assassinar com um sorriso de _dandy_, temos d'Arthés o pensador austero, e pobre escriptor para quem a litteratura é um magisterio e não um officio, temos Cesar Birotteau, a sublimidade burgueza, o honesto commerciante que tem palavra de duque, que é perfumista com a mesma nobreza de abnegação e de honradez, com que se é sacerdote, e que glorifica toda uma classe de que se riem os frivolos, sem saber quanta heroicidade é precisa para saber guardar immaculada em um peito de burguez, a honra de um paladino.
Dizem que o vicio pollula na obra de Balzac com uma exhuberancia de vegetação inacreditavel.
Elle não foi mais do que o analysta apaixonado da sua época.
Adorou-a pelo que ella tinha de grande, comprehendeu que lhe podia desnudar as chagas, visto que ao lado d'ellas podia mostrar tão admiraveis bellezas.
Foi implacavel na sua justiça.
O seu tempo seduziu-o pelo que havia de brilhante nos seus vicios, de fecundo e poderoso nas suas paixões, de arrebatado e creador no seu genio, de raro e dedicado nas suas virtudes.
Hoje no artista que segue as pisadas de Balsac, que não tem a sua potencia creadora, mas que tem como elle, e talvez mais methodicamente do que elle, o estudo paciente e investigador, que vemos nós que possa dar-nos aquella sensação de prazer agudo que a leitura conscienciosa de Balzac dá a um verdadeiro artista?
Emilio Zola tambem descreve a sua época.
É artista, porque sente e sabe fazer sentir.
Diz-se imparcial!
Faz viver nos seus livros a sociedade de que faz parte; entra nos palacetes de pedraria rendilhada dos modernos financeiros, os reis do mundo actual, percorre os salões doirados e os _boudoirs_ phantasistas, as salas de jantar, onde se reunem as reliquias mais preciosas de umas poucas de civilisações, janta nos _restaurantes_ de mais fama, visita nos seus camarotes da _opera_ ou dos _italianos_ as mundanas mais elegantes, as _hautes gommeuses_ mais admiradas e invejadas, está no segredo de todas as operações da Bolsa, escutou a uma porta todas as combinações e convenios diplomaticos, penetrou com a sua perspicacia tenaz no interior da alma que anima o seu tempo, fallou com os artistas, com os sabios, com os poetas, com as mulheres; subiu aos oitavos andares onde dormem amalgamados n'uma dolorosa e medonha promiscuidade os miseraveis d'essa Pariz, cuja superficie é tão seductora e tão brilhante; viu os farrapos que cobriam o corpo d'esses indigentes, e os vermes que corroiam a alma d'esses parias; escutou as perfumadas confidencias que murmuram devagarinho uns labios frescos e vermelhos, por detraz d'um leque onde dançam a _gavotte_ umas pastorinhas de Watteau.
Observou de perto o que ha de mais brilhante e o que ha de mais abjecto, o que ha de mais puro e o que ha de mais ignobil.
D'essa observação tão variada e tão completa que resultado colheu?
Não o posso dizer ao certo, sei só que não ha nada mais desolador e mais triste do que a leitura d'um livro de Zola.
E Zola é, depois de Tlambert, o grande _mestre_ que morreu, o escriptor de mais pulso da moderna geração realista.
Os outros não téem o talento d'elle, não téem o alcance funesto ou bom, mas em todo o caso poderosissimo da sua obra, não téem a sua paciencia de benedictino, exercida com os processos da nova escola.
Isto não é dizer mal dos que trabalham agora, é notar e assignalar um dos symptomas da confusão que hoje nos desnorteia.
* * * * *
Acudiam-me todos estes pensamentos, imagina como, leitora?
Ao lêr um novo livro de Feuillet, ultimamente publicado em Pariz _Le journal d'une femme_.
Feuillet é por excellencia o escriptor elegante e delicado.
No fundo, póde ser que a obra d'elle tomada no seu conjuncto não seja de uma moralidade tão cauterisadora como a que resulta dos livros de Zola.
Ninguem diga que Zola é um escriptor immoral, não; elle é simplesmente um escriptor mysantropo: vê as cousas pelo lado mais negro, e as suas bachanaes, nuas como são, não téem effeitos enervantes, doem como um caustico applicado sobre uma ulcera aberta.
Ao lel-o, a gente não tem de certo tentações de imitar os seus deploraveis heroes; pelo contrario. Sente-se ferida, humilhada, quasi que angustiada, e exclama tristemente: Meu Deus! pois a humanidade é isto!
Octavio Feuillet é, por assim dizer, o contraste do seu illustre contemporaneo.
Escreve das mulheres e para as mulheres com penna d'ouro e nacar.
Feuillet é o ultimo romantico, depois do romantismo ter morrido, como Balzac é o primeiro realista antes do _realismo_ nascer.
Para Feuillet, o delicado observador, as paixões são doenças da alma; para Zola, o anatomista implacavel, as paixões são doenças do corpo.
O convulso e repugnante hysterismo das mulheres de Zola não tem nada que vêr com a sentimentalidade melancolica das mulheres de Feuillet.
Nenhuma d'ellas--deixe-se isto bem claramente registrado para honra e felicidade do sexo feminino--nenhuma d'ellas é a verdadeira mulher, a que tinha a obrigação de ser a mulher do futuro, já me não atrevo a dizer da que o será.
Octavio Feuillet, que está talvez perto demais das cruas pinturas do realismo, intentou n'este seu ultimo livro, chamado _Le journal d'une femme_, rehabilitar as ideias romanticas, que visto perderem tantas mulheres, podem tambem salvar algumas.
Elle que sabe tão bem dar vida ás suas pallidas e nervosas heroinas, que téem na bocca o sorriso da esphinge, que téem na voz uns feitiços mysteriosos, que téem no gesto uma graça irrequieta e caprichosa, que sabem arrastar o homem até á beira do crime com um aceno das suas mãos esguias e aristocratas, elle, o creador do Conde de Camors, esse ultimo producto da litteratura byroniana, que endoudeceu de _amor litterario_ tanta mulher, eil-o que se propõe d'esta vez o difficil thema de explicar a que nobres e altos sacrificios o _romantismo_ bem entendido póde levantar uma mulher.
Foi arrojada a empreza; arrojada, mas feliz.
_Le journal d'une femme_, livro que eu já d'aqui recommendo a todas as minhas leitoras, é uma joia admiravel, cinzelada pela mão de um artista de coração.
E depois são taes os exageros e desmandos da chamada _escola realista_, é tal o amesquinhamento a que ella reduz a humanidade, que é bom que um escriptor de tão prestigiosa eloquencia como é _Octavio Feuillet_ mostre que, no fim de contas, nem tudo era mau na geração que os moços de hoje tentam desthronar com tão arrogante desdem.
Roubar ao homem e sobretudo á mulher aquelle ideal em que até agora todos punham a mira embora o julgassem inacessivel, é despir a vida das poucas flôres que ella póde ter.
Não; o homem não é só um ser organisado que pensa, é tambem uma alma que ama, espera e crê!
N'esta era de transformação e de incerta claridade, é bom que uma voz se erga e diga bem alto que a paixão só é criminosa quando mal dirigida, que o excesso do sentimento só é ridiculo quando mal applicado, que a abnegação inteira e absoluta tem gozos superiores a todos os gozos da materia, e que as almas boas e as almas grandes descobriram uma linguagem mysteriosa, na qual fallam com Deus.
Não basta descrever minuciosamente com uma perversão de gosto, devéras deploravel, tudo que ha mau, grotesco, ou vicioso na creação; não basta ter em si tão accentuada preoccupação horrivel, que se deseje vêr com o microscopio do naturalista, para bem lhe distinguir os defeitos, as anfractuosidades, as maculas, os vermes, de tudo que á simples vista seria harmonioso e bello.
Áquelle a quem se roubam todas as illusões salutares cumpre apontar para algum bem que ainda lhe ficará na terra, bem verdadeiro que o compense de todas as suas perdidas alegrias mentirosas!
Não basta negar, é necessario affirmar com convicção robusta; não basta demolir, é preciso ao lado dos edificios que se derrubam e desmoronam construir novos edificios mais ricos e mais seguros.
Octavio Feuillet fez este livro, como um protesto de escola, sem comtudo perder com esta qualidade um tanto dogmatica, o seu interesse dramatico, a vida intensa, tão indispensavel ás verdadeiras obras d'arte.
Dado o caso de se chamar romantismo ao excesso de certos e determinados sentimentos, á concepção mais ou menos chimerica que temos das cousas da vida, resta provar se o romantismo póde ou não póde ser nocivo conforme o terreno em que medrar e o meio em que se desenvolver.
A principal heroina do romance, aquella que escreve o seu Diario, ao qual dá o titulo de livro, é uma rapariga apaixonadamente romantica, tudo quanto ha mais romantico, quer dizer tudo quanto ha de menos pratico e real.
Por isso sendo moça, formosissima, sentindo cantar dentro da sua alma a festiva e triumphante symphonia dos vinte annos, tendo uma d'estas bellezas caracteristicas que dão a certas mulheres um aspecto de deusas, amando com aquella primeira e casta ternura das virgens um homem em tudo digno d'ella, sacrifica todas estas superioridades da natureza, todas estas radiosas promessas de felicidade a quem? a que?
A um pobre mutilado que morria de amor por ella, a um soldado que voltára da guerra sem uma perna e sem um braço, informe, grotesco, irremediavelmente desgraçado, e que, assim mesmo do fundo do abysmo em que o destino o lançára, ousou amar aquella mulher olympica, e teve a audacia de tentar morrer por causa d'ella.
Emquanto elle viveu, foi-lhe fiel como as mulheres dignas o sabem ser, consolou-o de tudo que perdera, levou a luz da sua caridade bemdita aos antros em que aquella pobre alma se debatera inutilmente por tanto tempo.
Mais tarde quando o marido morre, abençoando-a como se abençôa um anjo, ella, livre de novo, torna a encontrar o homem que amou uma vez, e que não soube esquecer.
Esse é então marido da amiga, da infancia, da juvenil viuva.
Não são felizes, os dous, mas ella, a intrepida, a caridosa creatura, lá está tentando da abnegação de cada um d'elles fazer a felicidade de ambos.
Não o consegue, e quando a amiga, culpada e arrependida se mata para fugir ao horror de mentir eternamente a seu marido, só ella no mundo recebe a confidencia do seu crime, confidencia que n'uma carta repassada de dôr a douda creança lhe pede que transmitta ao esposo ultrajado.
Ficaram ambos livres em face um do outro, ambos viuvos, ambos tendo cumprido a missão que o destino lhe confiára.
Nada os desune agora, nada, a não ser uma duvida que punge o animo d'aquelle, que hoje ella ama perdidamente com a paixão concentrada de tantos annos de sacrificio.
--Porque foi que a minha mulher se matou? pergunta elle então. Ás vezes lembro-me que foi talvez o desamor que eu não soube occultar bastante. Se assim fôr, fugirei. Não quero gozar uma ventura de que não sou digno. Se eu matei uma innocente e casta creança, quem me dá direito a ser ainda feliz na terra?
Só ella o sabe, só d'ella depende aquella ventura divina, de que o dever e a caridade a fizeram fugir n'outro tempo.
Pois a ninguem revelou o segredo da sua amiga morta, da doce creatura que a paixão fustigara e que a paixão matou!
Calou-se, deixou que o noivo da sua alma se affastasse para sempre, pungido por um remorso que o separava da ventura, e olhando para o berço da filha escreveu estas palavras que vertem lagrimas, as santas lagrimas, que os _realistas_ não conhecem:
«Restas-me tu, minha filha... Escrevo estas linhas ao pé do teu bercinho... Espero que um dia estas paginas façam parte do teu enxoval de noiva; talvez ellas te digam que queiras muito á tua pobre mãe, tão romantica!... D'ella saberás talvez que a paixão e o romance podem ser bons, com a ajuda de Deus, porque elevam os corações e ensinam-lhes os deveres superiores, os grandes sacrificios, as elevadas alegrias da vida. É verdade que eu chóro ao dizer-te isto, mas olha que ha lagrimas que causam inveja aos anjos.
MADAME DE BALSAC
I
Ha tempo annunciaram os jornaes que a viuva do grande romancista vinha fazer uma viagem á Peninsula e que partira já de Paris em direcção á capital de Hespanha.
Senti então um impeto de curiosidade verdadeiramente irresistivel.
Pensei em vêr a deliciosa russa e em conhecer n'ella humanado e visivel, um de aquelles immoredouros typos femininos, de que Balsac foi o analysta assombroso, se é que não foi o phantastico creador.
Em Madame de Balsac havia de haver por força muito d'aquelle homem que é o producto mais genuino da sua época e do seu meio; homem prodigio, que era ao mesmo tempo o espirito mais sceptico e o mais supersticioso, o mais corrupto e o mais infantil, o mais cultivado e o mais ignorante, o mais positivo e o mais phantasista, o mais atrozmente eivado de todos os venenos corrosivos da civilisação moderna, e o mais primitivo e adoravelmente poetico que existe no mundo da Arte.
Ella conhecera-o por muitos annos, mesmo antes de ser sua mulher, amparara-o muitas vezes nas suas luctas cyclopicas contra os modernos monstros--a Divida, a Calumnia, a Inveja--e tantos outros que lhe retalhavam o coração com as garras sanguinarias; acolhera-o muitas outras, cançado, vencido, aniquillado, depois de uma d'aquellas vertiginosas viagens pelos mundos chymericos do Impossivel; vira-o partir montado no fogoso Pegaso do sonho. Imaginario terrivel, moderno e mais complicado D. Quichote, em busca de tesouros que nunca existiram, de fabulosas hypotheses em que ninguem acreditava, de ideaes entrevistos que lhe davam o deslumbramento extatico e paradisiaco; ouvira-lhe depois no seu regresso ao mundo da realidade o rir estrondoso e _rabelaisiano_, rir de um gigante em horas de gaudio, rir só digno d'aquella natureza robusta e fecunda em contrastes, que tinha todos os requintes aristocraticos e todas as grossas expansões plebeias; conheçera-o a fundo, debaixo de todos os aspectos, e aos meus olhos havia n'ella uma attração extranha e magnetica como quem visitou o antro de um leão e o domou meigo e dôce aos seus pés pequeninos.
Levei então horas e horas ideiando o meio porque me havia de approximar, eu obscura e desconhecida da illustre mulher, duplamente celebre pelo merito pessoal, e pelo genio de que era como que o reflexo vivo.
Quando estava no meio d'estas locubrações inoffensivas aconteceu o que era de esperar: a condessa Hanskan de Balsac, entendeu que Portugal, o Portugal tão querido dos poetas patriotas, não era digno de uma visita sua.
Resignei-me, portanto, a conhecêl-a sómente atravez de um livro que é a obra-prima de Balsac, o auctor de tantas obras primas que não morrem.
Este livro é a _Correspondencia_ do grande escriptor, publicada ha pouco pela casa Calmann Levy.
Não conhecemos, podemos affoitamente confessal-o, livro mais dramatico, mais cheio de vida e de interesse, mais _empoignant_, permitta-se-nos o expressivo francezismo.
N'estes dous volumes de cartas apparece-nos Balsac em toda a potencia da sua extraordinaria individualidade, e conhecer Balsac é como que conhecer a sua época, a sociedade que o produziu e formou, os vicios, virtudes, preoccupações, sentimentos, ideias e paixões do seculo extraordinario, de que elle é a synthese mais completa, seculo agitado por esse poder fecundo e malefico chamado _Oiro_ que tamanha influencia exerceu na vida intima de Balsac.
Nos livros devidos á penna do fecundo escriptor, o oiro com o seu brilho fulvo, com as suas tentações diabolicas, com o seu cortejo de visões sinistras ou luminosas, com as suas miragens attrahentes e enganadoras, com as paixões phreneticas que elle cria, que elle excita, que elle exacerba, com os milagres de que é a fonte tantas vezes turva, com os explendores de que é o mais perfeito creador, o oiro, esse inimigo, esse auxiliar, esse idolo humano, scintilla, tremeluz, precipita-se em cascatas fulgidas, doira com o seu reflexo infernal todas as cousas, communica um não sei que de vertiginoso e satanico a todas as creaturas e a todos os objectos, produz allucinações doentias que desorientam e desvairam.
Esta preoccupação, que tanto nos espanta nos romances eminentemente modernos de pintor mais perfeito e mais _realista_ que a sociedade franceza do seculo XIX encontrou, transparece, na existencia inteira do homem, e explica-se por todos os factos do seu agitado viver.
Ganhar dinheiro, muito dinheiro, o que bastasse para saciar as ambições mais desregradas, os desejos mais insensatos, o ideal de luxo mais artistico e requintado, os sonhos mais orientaes de um _nababo_ ebrio de _haschish_, eis o ficto que preencheu a vida de Balsac.
Á primeira vista a gente imagina que o escriptor lhe sacrificou e subordinou tudo o mais.
Engano!
Emquanto aquella phantasia desenfreada e febril revolvia milhões, aspirava á opulencia das _Mil e uma noites_, se lançava nas mais doidas especulações, escavava minas que não havia, procurava thesouros occultos, se exhauria emfim n'uma lucta impossivel e tenaz contra a mediocridade da sua fortuna, o escriptor severo e consciencioso não sacrificava ao ganho nem uma diminuta parcella da sua legitima gloria.
Os editores ajustavam pagar-lhe um livro por certa e determinada quantia, muitas vezes vantajosa para o orçamento do poeta, mas conhecendo-lhe a singularidade do caracter especificavam no contracto que o auctor só teria direito a receber um certo numero de provas, e que, excedido elle, as correcções seriam por sua conta.
Muitas vezes todo o preço do romance era esgotado nas correcções que Balsac fazia á sua custa, tão elevada era a ideia que elle tinha da perfeição da Arte.
Esmagado debaixo do peso das dividas, que todos os dias pagava e todos os dias cresciam, trabalhou como um titan, trabalhou sem descanço, sem treguas, com phrenezi, com paixão, com tenacidade de que só era capaz aquelle organismo d'uma robustez antiga, e ao mesmo tempo vibratil, nervoso, delicado como o de uma mulher.
Chegou a escrever consecutivamente e sem descanço pelo espaço de quarenta e oito horas, conservando-se n'uma exaltação artificial, produzida pelo fortissimo café, que bebia em grandes doses.
Quem deixaria de succumbir a esta vida de martyrio?
Apesar do seu estranho vigor, aos cincoenta e um annos Balsac succumbia a um aneurisma, tendo produzido dezenas e dezenas de obras admiraveis, que bastariam, repartidas, para constituir a fama de vinte escriptores.
Morreu com a penna na mão, tendo attingido as duas ambições supremas da sua vida; morreu sendo _amado_ e sendo _celebre_, mas morreu antes de haver podido saborear no repouso e na dilatação tranquilla da alma o _amor_ conquistado em annos e annos de servidão cavalleiresca, de castidade monastica, de paixão secreta e delicada; a _celebridade_ adquirida em trinta annos do mais infatigavel e violento labutar que ainda um espirito de homem concebeu e realisou.
Quanto mais se estuda aquella vida singular, maior pasmo nos avassalla o entendimento.
Todo elle era contrastes incomprehensiveis, dos quaes, no entanto, tinha a consciencia definida e clara.
Pondo na bocca d'um dos seus protagonistas pensamentos que eram seus, diz elle analysando a sua propria vida:
«Amante effeminado da preguiça oriental, namorado dos meus sonhos, sensual por temperamento, trabalhei sempre sem repouso, recusando-me a todos os gozos da vida parisiense; guloso, fui sobrio; gostando dos grandes passeios, das longas viagens maritimas, desejando conhecer todos os paizes da terra, vivi constantemente immovel, sedentario, com a penna na mão, amarrado á banca do trabalho; fallador, loquaz, communicativo, ia escutar em silencio os professores nos cursos publicos da bibliotheca e do museu; vivi solitario como um monge benedictino, e a mulher no entanto era a minha chimera unica, chimera sempre acariciada, e sempre esquiva.»
O que elle aqui não diz, mas o que mais d'uma vez lhe foge dos labios e dos biccos da penna, n'um grito doloroso e dilacerante de agonia prophetica, é que a morte implacavel ha de vir colhel-o no instante em que elle já extenuado de tantas luctas ia tocar a méta do seu desejar infrene.
O que torna mais digno de um curioso estudo a indole litteraria de Balsac é a revelação feita pelos seus amigos e confirmada por elle proprio, da excessiva difficuldade, que o romancista encontrava para achar um molde adequado ao seu pensamento tão profundo e complexo.
A palavra trahia-o a cada instante, a lingua, como a Galatheia da fabula, recusava-se a ceder ás febris solicitações do seu pensamento, fugia-lhe ondeante e caprichosa, e elle impotente, desesperado, ardendo em febre, luctava noites e noites com a fórma tyrannica que se não queria deixar domar!
«N'essas batalhas nocturnas,--diz Théophile Gauthier, no admiravel estudo que consagrou a Balsac,--e das quaes o escriptor acabava de manhã despedaçado, mas vencedor, quando o lume do fogão se apagava e a atmosphera arrefecia, a cabeça d'elle exhalava fumo, e do seu corpo sahia uma especie de nevoeiro vizivel como do corpo dos cavallos em tempo de inverno.
«Ás vezes uma só phrase occupava uma vigilia inteira; era empolgada, tornada a empolgar, torcida, amassada, martellada, allongada, encurtada, escripta de mil modos differentes, e coisa notavel! a fórma necessaria, absoluta, não apparecia senão depois de se haverem exgotado as fórmas approximativas. O metal, sem duvida, corria muitas vezes de um jacto mais cheio e mais solido, mas poucas paginas existem de Balsac que ficassem exactamente iguaes ao primeiro rascunho.»
II
É ainda Théophile Gauthier quem nos deixou de Balsac o retrato mais expressivo, aquelle que se nos affigura mais fiel.
«Usava elle sempre, diz o escriptor já citado, em vez de _robe de chambre_, o habito de cachemira ou de flanella branca, preso á cintura por um cordão grosso, com o qual, mais tarde, se fez retratar por Luiz Boulanger.
«Que phantasia o levára a escolher de preferencia aquelle vestuario que nunca mais deixou? Não o saberemos dizer.
«Talvez que elle aos seus olhos symbolisasse a vida claustral a que o seu trabalho o condemnava, e, benedictino do romance, adoptara o trajo da sua vocação.
«Como quer que seja, a verdade é que lhe ficava muito bem.
«Gabava-se sempre mostrando-nos as suas mangas intactas, de não lhes haver jámais manchado a alvura com a menor nodoa de tinta, porque, dizia elle, «o verdadeiro homem de lettras deve ser aceiado no trabalho.»
«O habito, um pouco aberto, deixava-lhe vêr o pescoço de athleta ou de touro, redondo como um troço de columna, sem musculos salientes, e de uma alvura assetinada, que fazia perfeito contraste com o tom mais colorido das faces.