Contos e Lendas

Chapter 4

Chapter 43,939 wordsPublic domain

A filha de D. Magdalena, D. Maria de Mascarenhas, mais velha desoito mezes do que D. Pedro, seu irmão, contava n'esta epocha dezesete annos, e sem vaidade merecia ser admirada como uma formosura completa. Talvez que o unico senão de tanta belleza fosse a sua mesma perfeição irreprehensivel. No rosto, graciosamente emoldurado pelas luxuosas tranças, confundiam-se os lirios e as rozas na mais mimosa frescura. A bocca, fina e espirituosa, córada como um botão nacarado, breve como um suspiro, quando o sorriso a animava, tinha uma expressão adoravel. Nos olhos pretos, que as assedadas pestanas cobriam ás vezes de uma sombra de enlevada melancolia, a luz serena raramente se inflammava, mas sua tranquillidade languida deixava adivinhar, que se a paixão dormia ainda, facil lhe seria, despertando, illuminar de subito e vivo fulgor aquellas pupilas descuidadas. A mão parecia formada pelo modelo de uma estatua primorosa. O pé estreito e arqueado pousava-se tão leve e elegante, que a vista como que involuntariamente se alçava a buscar nos hombros as azas da Silphide. A voz tinha condão seductor. A estatura, um pouco acima de ordinaria, e flexivel como a hastea de uma flor, tambem se dobrava como ella, parecendo que o esbelto corpo de melindroso não podia com o doce peso da fronte, em que as mil graças da primeira enamorada primavera competiam umas com as outras sem se vencerem.

As posições e os gestos em sua desafectada singeleza respiravam a attracção, que o calculo debalde se esforça por imitar. Tudo desmentia o arteficio. O requebro das maneiras, o imperio irresistivel da vista e do sorriso, e a magia arrebatadora das fallas e do semblante, nasciam espontaneos, prendendo os sentidos e a admiração. A formosura da alma ainda era maior, se é possivel. O coração retratava-se na fronte limpida, e os infinitos thesouros de ternura e de abnegação, que por ora concentrava nos extremos de filha e de irmã, quando se abrissem a affectos mais vehementes, promettiam todas as venturas ao amor ditoso. A pureza mais casta, a da ignorancia sublime da infancia, vestia-lhe de candura todos os pensamentos. O pejo era n'ella tão sensivel, que affrontado não só faria corar o rosto, mas o corpo. Compassiva e caridosa sabia conciliar a altivez do sexo com a brandura da indole a firmesa da vontade. Os dotes do espirito esmaltavam as qualidades moraes.

Talvez não houvesse na corte dama ou donzella tão instruida na lição das boas letras. Os melhores livros de prosa e as obras mais acceitas e castigadas dos poetas portuguezes, hespanhoes e italianos, escolhidos por Fr. João, eram a sua companhia certa nas horas de repouso.

D. Maria presava em D. Affonso de Noronha todas as distincções, que o exaltavam. Valia menos, porem, a seus olhos a illustração do berço, do que a elevação do caracter e a fidalguia das acções, que em edade tão verde quasi o haviam tornado um paladino. Não seria mulher, comtudo, senão a confirmassem n'este juizo a presença insinuante do mancebo, a gentileza do seu porte e a nobre expressão da sua phisionomia. Os olhos da donzella, sempre pensativos, encontrando os olhos vivos e rasgados do primo, aonde riam as illusões da vida e da juventude, nunca fugiam d'elles, senão a furto, e as rosas mais accezas das faces confessavam o que tentaria encobrir em vão se acaso soubesse dissimular. Nunca os labios dos dois tinham soltado uma palavra, que revelasse o que sentiam. Amavam-se. A alma de um trazia sempre gravada a alma do outro, mas só a eloquencia da vista, indiscreta ás vezes, traira o segredo. D. Affonso, não podendo por mais tempo calar a chamma, que o abrazava, tinha declarado ao pae, momentos antes de metter o pé no estribo e de partir para a campanha, que este amor encerrava todo o futuro de suas esperanças, entregando-lhe a sorte d'elle. Sabemos que D. Nuno não perdera a occasião, e que D. Magdalena applaudia o enlace proposto.

A chegada repentina dos filhos de D. Magdalena, da aya e do escudeiro, com alguns criados velhos, colheu de sobresalto o feitor Paulo Rodrigues. Tomado de subito o manhoso camponez, soubera disfarçar o embaraço e as apprehensões, mas custara-lhe a conformar-se com a presença dos amos na casa, que havia tantos annos estava costumado a olhar mais como sua do que d'elles. Mandou varrer e aceiar á pressa duas salas e algumas alcovas do andar nobre, para os hospedar, recolheu a mulher e os filhos nos vãos do palacio, e ainda se lhe carregou mais a viseira quando soube que a senhora e Fr. João Coutinho poucos dias se demorariam atraz da familia.

No primeiro dia reinou profundo socego, mas na segunda noute, mal a ultima pancada do sino batera as doze horas, romperam as diabruras nos quartos da aya e de Romão Pires. Apagaram-se todas as luzes de repente por si mesmas. Estalaram nos corredores risadas infernaes. Soaram ruidos de ferros e cadeias arrastadas. Só ao alvorecer é que tudo desappareceu.

O escudeiro, lembrado dos antigos feitos, apesar do tremor, que lhe sacudia os membros, quiz fazer e fez cara feia ao demonio. Na terceira noute levantou-se da cama, engrolando Padres Nossos e Ave Marias, petiscou lume, accendeu uma vela, abriu a porta de manso e saiu ao corredor, quasi em vestido de banho, mas com a comprida espada nua debaixo do braço. Depressa se arrependeu. Aos primeiros passos um sopro forte apagou-lhe a luz, bramidos roucos e proximos gelaram-lhe o sangue, e um clarão momentaneo e sulphurio mostrou-lhe, envolto no sudario, um spectro descummunal e ameaçador.

Esta horrenda visão deu-lhe com os brios em terra; e, virando costas ao inimigo, logrou refugiar-se no seu catre com a cabeça debaixo das roupas, acto de valor, em que a sr.ª Brizida de Sousa o acompanhava conscienciosamente havia muitas horas. Pela manhã os dous velhos pareciam desenterrados.

O aposento aonde D. Maria de Mascarenhas dormia e uma criada, não foi mais respeitado, e a donzella, transida de susto, contou em vigilia continuada as longas horas, que medeiaram até ao amanhecer. D. Pedro ainda padeceu mais. Acordando sobresaltado ao impulso de mãos brutaes e no meio de escuridão profunda, sentiu-se arrancar do leito e balouçar dentro das cobertas entre uivos e rizadas.

Paulo Rodrigues, pelas oito horas veio saber da saude dos amos, e, ouvindo da sua bocca a lastimosa historia dos tormentos e perplexidades nocturnas, contentou-se com encolher os hombros, e observou serenamente, que em vida de seu pae, já tinham muito má fama as casas do andar nobre.

As noutes seguintes não foram mais tranquillas. Os espectros e duendes tinham de certo reservado aquellas espaçosas salas, e os corredores, para theatro de suas diabruras. Dir-se-hia até que o tempo conspirado com elles os ajudava a augmentar o pavor dos hospedes. Rebentaram as trovoadas de maio tão carrancudas e violentas, que os ceus se abriam em relampagos, e a terra tremia com o rebombo dos trovões. As chuvas caiam tão impetuosas que as estradas ficaram convertidas em leitos de torrentes e as terras baixas em lagoas. O Tejo, cheio e empolado, alagava as margens, e suas aguas batiam enfurecidas contra os penedos sobre que se ergue o castello de Almourol, salvando por cima do caes em cachões de espuma. Ao oitavo dia acalmaram-se as tempestades, mas redobraram de força os maleficios nocturnos, com terror, e espanto summo dos recem-chegados.

Avexados, tremulos e fóra de si, reuniram-se todos e determinaram mudar a residencia para os aposentos do castello, que não tinham desabado ainda minados pelos seculos e pela indifferença; mas o feitor, que estabelecera n'elles uma filha casada, dissuadiu-os do proposito, ponderando que as salas e os quartos do velho edificio dos Templarios, alem de frios e de mais nus, que os do palacio, não eram menos perseguidos de visões. Por horas mortas, exclamou elle, as almas dos cavalleiros tornavam aos sitios, aonde tantos annos os corpos tinham vivido. Nas guaritas de pedra, pelo adarve das muralhas, e nas salas de abobada, espectros cobertos com o manto branco, ornado da cruz vermelha da famosa milicia religiosa, appareciam repentinamente, e no silencio da noute sentia-se o tinir das grevas e sapatos de ferro sobre as lageas e ouvia-se a voz das sentinellas. Até raiar a aurora não se calavam na sala de armas as vozes, as rizadas, e as blasfemias. Escutando esta descripção horrifica, Brizida de Sousa e Romão Pires olharam consternados um para o outro, e depois de se persignarem devotamente, não querendo precipitar-se de Scylla em Carybdes, preferiram supportar as travessuras menos estrondosas dos duendes da quinta. Escreveram entretanto a D. Magdalena, pedindo-lhe que os tirasse d'aquelle purgatorio o mais cedo possivel, ou que viesse sem demora em companhia do Sr. Fr. João desalojar os espiritos diabolicos, cuja audacia zombava da agua benta e exorcismos do Vigario de Tancos. Os dous honrados servos confiavam que a grande sciencia do frade doutor e as virtudes do habito de S. Domingos sairiam victoriosas com certeza da rebeldia de Satanaz e da maldade dos seus accessores.

II

Em 1663 campearam ainda intactas as muralhas, as torres, e a cêrca exterior da fortaleza reconstruida no anno de 1170 por D. Gualdim Paes, defronte de Tancos.[2] Cinco seculos, passando por cima d'ellas, não haviam desconjuntado as quadrellas gigantes, nem alluido o cimento indestructivel, que mesmo ainda agora parecem desafiar a acção do tempo e o braço infatigavel dos demolidores. A ordem do Templo, transferida de Castro Marim para Thomar, a séde da sua victoriosa milicia, estendera rapidamente pela Estremadura os membros robustos. Affonso I, liberalisando-lhe doações e privilegios, e enriquecendo com largos senhorios os monges soldados, confiára quasi exclusivamente ao seu valor a guarda e defeza dos territorios conquistados n'ella. Ega e Soure, Pombal e a Redinha hasteavam as cores do Templo. A Cardiga, Ceras, e outras povoações, cobriam-se tambem com as dobras do famoso estandarte bipartido[3]. As chaves das duas entradas da provincia estavam nas mãos dos cavalleiros. Defronte da moderna Constança, na confluencia dos dois rios, o castello do Zezere cortava o passo aos agarenos da Beira Baixa, em quanto, surgindo do meio das aguas, o castello de Almourol fechava o caminho aos walis do Alemtejo e da Andaluzia.

As ruinas, que vemos hoje debruçadas sobre o rio, contam aos que sabem interrogal-as mais de uma pagina da epopeia portugueza. Assentada sobre um ilheo quasi oval de rochedos sobrepostos, amontoados talvez ali caprichosamente pelo impeto de violenta irrupção vulcanica, as elevadas torres do velho castello, que as voltas do Tejo ora encobrem, ora deixam descortinar de longe, erguem-se mutiladas e enegrecidas pelo halito mirrador dos seculos. Grinaldas de heras penduram-se em festões das ameias desmoronadas, ou se arraigam em tufos virentes nos intersticios dos pannos rotos das muralhas. O arrojo d'aquelles penedos, tão arremessados que o dedo de uma creança parece sufficiente para os fazer escorregar com o muro que os corôa, para o leito do rio, espanta os olhos sobresaltados d'aquelle equilibrio ousado e quasi milagroso. Areias accumuladas, e alguma terra de alluvião formam o solo, aonde cravam as raizes os choupos, os salgueiros e os chorões, cujos troncos torcidos se penduram de cima das fragas até roçarem as aguas com as ramas descabelladas. Piteiras enormes orlam em algumas partes os penhascos aprumados, ou rebentam das fendas das rochas meio precipitadas. Uma vegetação activa e luxuosa veste de verdura aquelle cahos de moles immensas sustidas ha seculos no meio da ameaça constante de uma quéda instantanea.

No anno em que passaram os successos, que refere esta veridica historia, o aspecto do sitio era sim bronco e alpestre, como a natureza o formou, mas a assolação não o havia visitado ainda, agravando-lhe a melancolia. Do lado do occidente quatro torres circulares, levantadas como sentinellas de granito a egual distancia umas das outras, alçavam as frontes torvas e já tostadas do tempo. Entre a segunda e a terceira rasgava-se a porta actualmente intransitavel do castello, com a sua volta de ogiva e grossos batentes de castanho chapeado. No meio do guerreiro edificio avultava a torre de menagem, e logo adiante, em curto intervallo, outra quadrada tambem, com os eirados cingidos de ameias. Uma janella ornada de lavores em ramos, aberta a dois terços da altura, esclarecia os aposentos do segundo piso, em quanto da parte oriental duas frestas do mesmo estyllo davam claridade á sala de armas. Cinco torres guarneciam o lado do nascente. Ahi a muralha subia a grande altura, acompanhando as sinuosidades do terreno. O caes ficava ao sul, e o fosso natural, que rodeava os muros, agora cego de entulho, corria profundo e despenhado. No interior da fortaleza, aonde tudo hoje são ruinas e pedras soltas, enroscadas de ervas e de silvas, e aonde os cactus silvestres brotam gigantescos, era o pateo espaçoso por onde se entrava para os andares. Raras e esguias frestas allumiavam aquelles aposentos, pouco espaçosos, mas enfeitados de altas e ricas laçarias. Em 1663 a obra da destruição principiava a annunciar-se apenas. Apesar de nuas, as salas ainda conservavam sua bellesa severa, e nos eirados e adarves, se não alvejava havia mais de tresentos annos o manto branco dos templarios, se algumas heras, trepando, se balouçavam á mercê do vento, e se as torres e muralhas mostravam já a côr adusta, que é para os monumentos o que são as cãs nos velhos, um testemunho irrecusavel de que viram e viveram muito, não se tinham esmorecido, comtudo, nem apagado ainda nenhuns dos vestigios dos grandes dias de lucta. Almourol no meio do Tejo, similhante a um titão com metade do corpo fóra das aguas, ainda podia ameaçar forte e intacto, os que ousassem arriscar-se ao alcance de seus tiros. Firme e inexpugnavel cuidava no vigor de sua robusta velhice zombar dos seculos, como as creanças zombam dos annos, bem alheio de suppor, que na transição da edade grave para a decrepidez sua decadencia seria rapida, e que, espectro de granito, suas ruinas diriam ás gerações indifferentes da nossa época, que eterno e grande só é Deus!

Em uma das salas baixas da velha torre de menagem, toda de abobada, e ornada de mobilia rustica, estavam assentados, um defronte do outro, os dois ricassos da terra, ligados pelos vinculos do parentesco, e mais ainda pelas raizes de interesses reciprocos. O feitor Antonio Rodrigues ajudava piedosamente seu genro e consocio Pedro Lavareda a ingorgitar copiosas libações de um vinho, que escaldaria outras goelas menos estanhadas. Sobre a grande mesa de pau santo e pés torneados, que servia de altar aos dois zelosos sacerdotes do Bacho d'aquelles contornos, avultava um alentado cangirão de barro, bojudo, e cheio até á boca. Principiára a anoutecer, e uma candeia enorme de tres bicos, similhante a monstruoso aranhiço, allumiava a casa escassamente. Duas espingardas, carregadas e engatilhadas, jaziam ao canto, promptas para servir á primeira voz.

Antonio Rodrigues era corpulento, espadaúdo, e reforçado. Faces largas e cheias, bastante roliças, pescoço curto e taurino, cabeça enterrada entre os hombros, peito amplo e bombeado, e pernas grossas e firmes denunciavam n'elle o vigor de um atheleta unido a uma saude inexpugnavel. Inculcava apenas sessenta annos, mas os visinhos do seu tempo punham-lhe mais dez sem receio de erro, e acertavam. Mas era uma velhice verde e jovial, que não se inclinava ao peso dos annos, que o trabalho não desfallecia, antes reanimava, e que promettia, assim viçosa e robusta, chegar a um seculo completo, rindo-se dos catharros, dos rheumatismos, e ainda mais da apoplexia fulminante prognosticada pelo douto Esculapio, o licenceado de Tancos, seriamente amuado por nunca ter de receitar nem um xarope áquelle cliente invulneravel ás chuvas, aos frios, e a todas as temeridades, a que um mancebo se não atreveria impunemente!

Antonio Rodrigues trajava á camponesa, com aceio, mas sem basofia. Gibão e calças de baeta escura, carapuça de lã, e o inseparavel varapau ferrado na ponta constituiam o uniforme do activo Triptolemo. Uma grenha de cabellos grisalhos, crespos e bastos, descia a affrontar-lhe a testa, pouco sulcada de rugas. O sorriso enroscava-se perenne nos beiços grossos e córados. Conservava intactos ainda, e brancos de jaspe, como os de um tubarão, todos os dentes. A barba baixava em andares sobre o peito, e os olhos castanhos, pequenos, e maliciosos, afogados em gordura, dir-se-hiam que espreitavam tudo, meio encobertos. A voz aflautada causava espanto saindo d'aquelle corpo. Finalmente, o nariz grosso e cravejado de botões vinosos, rubros como rubins, assumia dimensões quasi phenomenaes. A expressão da phisionomia era dubia. O observador no primeiro relancear apenas notaria a beatitude do comilão repleto e do bebedor insaciavel. Attentando melhor, e, comparando o olhar, o gesto, e o riso mudaria porem logo de conceito, divisando debaixo d'aquella mascara de Sileno herculeo as feições moraes significativas da astucia, do egoismo brutal e desentranhado, e de uma cubiça incapaz pela avidez de transigir com a honra, com a consciencia e com o dever.

Pedro Lavareda representava o antipoda de seu digno sogro e tio quanto aos dotes physicos. Um hellenista contemplando-os, tomaria um pelo alpha, e o outro pelo omega. O genro, magrissimo, quasi esqueleto, assustava os que o viam com o receio de que um dia lhe saltassem os ossos das tibias e dos femurs soltos das ligaduras. Braços de polipo, terminados por mãos e dedos eternos, hombros agudos sobre os quaes o fato dansava como posto em cima de um cabide, rosto comprido, escaveirado, e macilento, acompanhado das melenas esguias de um cabello ruivo e aguado, testa núa que chega quasi á nuca, peito e ventre espalmados, olhos vesgos, tortos, encovados, mas vivos ou surrateiros, boca rasgada quasi até ás orelhas, e beiços finos e desbotados, compunham a lugubre, carrancuda, e exotica pessoa do lavrador mais atilado, avarento e sem escrupulos d'aquellas immediações. Parecia fraco e a desfazer-se; mas as pernas delgadas, como fusos, podiam andar legoas, os braços escamados encobriam uma força alem do commum, e os olhos vesgos só viam torto para os negocios alheios.

Retrato vivo do aspecto mortificado de um franciscano penitente, o velhaco ria-se tanto para dentro como o feitor Antonio Rodrigues se ria para fóra. Uzurario de nascença, hypocrita por indole e verdadeira voragem de liquidos e solidos, digeria como um abestruz e bebia como um areal. Quando conversava, sempre em fallas manças, sabia chamar a tempo uns frouxos de tosse e umas lagrimas de defluxo, que o ajudavam muito a engulir metade, e ás vezes duas terças-partes das palavras, e é inutil accrescentar, que as palavras engulidas eram sempre as que o podiam comprometter ou aproveitar aos outros. Quando o caso o requeria, Pedro Lavareda, o valetudinario sadio, convertia-se n'uma cascata de prantos. Tinha as glandulas lacrimaes devassas e chorava como um crocodilo. Ai dos innocentes que se deixavam orvalhar e amolecer por elle!... Ficavam quasi sempre sem camisa. No meio d'aquelle rosto afiado erguia-se um promontorio immenso. Era o nariz adunco e aguçado na ponta, que descia quasi a beijar o labio superior. Este nariz, delgado e membranoso, rematava a semelhança que tinha aquella cara com o focinho da fuinha. Esquecia notarmos que Antonio Rodrigues exercia com applauso geral as funcções de procurador de dous conventos de freiras, de quatro irmandades, e que seu genro accumulava com outros arrendamentos lucrativos a arrematação dos dizimos e premicias da comarca.

--Os de Payo Pelle pagaram por fim? perguntou o feitor ao genro pousando o caneco despejado em cima da mesa.

--Com lingua de palmo. Elles conhecem-me, sr. tio! respondeu Pedro Lavareda com um sorriso avinagrado.

--Bem bom!... Sabes o que me dá cuidado agora, homem? É esta gente aqui mettida. Tomara vel-os pelas costas.

--Pois acabe de os empurrar para a rua, que não deixam cá saudades! redarguia o outro com meio sorriso acido.

--Isso é facil de dizer, mas... Ao cabo de tudo, Pedro, bem vês, os donos da casa são elles!...

--Que vão comendo as rendas e que nos deixem. Tão más são ellas!...

--Hum! Podiam ser melhores... Esse é o meu receio. Trazemos isto muito de rastos, Pedro, e alguma lingua ruim lh'o disse já ou lh'o ha de dizer.

--Invejas! fallatorios!... acudiu o genro entre dous frouxos de tosse.

--Pois sim!... Olha, não seria melhor offerecermos um nadinha mais pelas terras e ficarmos com ellas de pedra e cal, do que arrebentar-nos a castanha na boca uma d'estas manhãs?!

--Nanja eu, tio! Sangue ninguem m'o tira á boa feição, e o dinheiro é sangue...

--Mas homem!?...

--Deixe lá, sr. sogro, não se metta a abelhudo aonde o não chamam, e deixe ir a agua ao moinho. Já alguem fallou em lhe levantar a renda da alcaidasia?...

--Não.

--Pois não faça andar o carro adiante dos bois, e coração á larga. O que for soará.

Houve um minuto de pausa. Antonio Rodrigues coçava a nuca com o indicador e o dedo médio da mão direita por baixo da carapuça, e rufava sobre a taboa da meza com todos os dedos da mão esquerda. As roscas da barba sumiam-se-lhe na golla alta do gibão, e os olhinhos, homisiados entre as palpebras meio cerradas, luziam vivos e scintilantes como os do gato matreiro que espreita a presa. Pedro Lavareda, menos apprehensivo na apparencia, limpava os olhos chorosos com um quadrado de panno de linho, em quanto a unha tigrina de um dos dedos da outra mão raspava uma nodoa conhecida e teimosa do calção sobre o joelho. Ambos meditavam e se entendiam sem fallar. O feitor de repente levantou meio corpo de cima do mocho de pinho em que se assentava, colheu o cangirão pelas azas, sopesou-o por um instante, e emborcando-o, encheu os dous canecos de louça. Levou depois o seu á boca, encurvando lentamente o braço, e despejou-o em poucos sorvos, emquanto o sobrinho, coleando primeiro a lingua pelos beiços, libou com mais vagar e com gestos de amador consumado o nectar, que espumava na grosseira taça.

--Rapaz, isto não vai bom!... tornou Antonio Rodrigues com um suspiro. Anda mouro na costa, que eu bem o sinto e cá sei os botões com que me abotou-o. Esta gente de Lisboa aqui não gosto nada d'ella.

--Ora, tio deixe-se de scismas!... De que tem medo? A aya é uma tonta, uma pêga douda. O escudeiro não passa de um espantalho de pardaes, e os meninos.... leram tanto que tresleram. Mostre-lhes um campo de cevada nascida de oito dias e verá se não lhe dizem que é trigo.

--Mas atraz da pêga e do espantalho tenho muito medo que venha o milhafre!...

--Qual milhafre?!...

--O frade!... murmurou o feitor em voz abafada e com signaes de verdadeiro susto.

--E então se vier?!... Lê no seu breviario! O Sr. Fr. João Coutinho sabe muito de leis e de casos, mas de lavouras não creio...

--Nisso te enganas. É capaz de dar sota e az ao mais pintado!. Creou-se no campo e administrou muito tempo os bens do convento.

--Ah! Ah!...

--E tenho meus longes de que, mais dia menos dia, ahi o temos pela prôa com a Sr. D. Magdalena.

--Mau será!... rosnou entre dentes o sobrinho declarando com a unha do polegar crua guerra a uma verruga, que lhe ornava a ponta do nariz. Máu será, tio!.... Mas não havemos de perder o somno por isso. Dizia no mosteiro, aonde me ensinaram, o padre mestre Fr. Hilario, que para todo o genero de peccado deixou Deus remedio na sua egreja...

Houve nova pausa. Os dous olhavam um para o outro calados mas pouco satisfeitos.

--Então que dizes, homem?!..

--Se o frade vier.... é pôl-o ao fresco, em vinte e quatro horas.

--Estás mangando, sobrinho?!.. Pôl-o ao fresco? O irmão da senhora, o tio dos meninos?!...

--Tal e qual. Nem mais, nem menos!! Sacudil-o e depressa.

--Ora! Bugalhos, sr. meu genro!... Sacudil-o?!. Como?...

--Mettendo-lhe medo.

--Ao sr. Fr. João, que é rijo como ferro e valente como as armas?!.. Vai dormir, Pedro, isso é somno.

--Sim sr., metter-lhe medo, porque não?...