Chapter 3
Tres vezes estalou o trovão, e tres vezes um lençol de fogo jorrou dos ceus abertos. Soa distinctamente o galope de um cavallo. As ferraduras, raspando as fragas, fazem saltar as faiscas umas atraz das outras. Armas brancas, capello sem viseira, no peito o açor do Douro. Será D. Moço Ansures? Á claridade dos relampagos, á luz do facho sacudido pelo cavalleiro negro, viram todos o corsel do mancebo ennovelado sobre a aresta do precipicio, quasi a escorregar pelas rochas aprumadas. Cavallo e cavalleiro arquejam suspensos de um fio sobre o abysmo. O que Inigo lhe disse, o que elle respondeu, ninguem o ouvio. O vento bramia forte. Pouco depois descortinava-se D. Moço enristando a lança meio corpo debruçado para o precipicio, e o renegado arremeçando o facho ás aguas para se rodear de trevas. O braço do Maldito alçou de subito a espada e o golpe descia já... quando uma seta passa assoviando. O mancebo vio então o seu inimigo rolar aos pés do ginete e logo apoz um corpo dobado nos ares, resvalar, batendo nas pontas das rochas até se atufar dilacerado e disforme nos cachões da nascente, que espirram a grande altura espuma e sangue.
Do castello, no eirado fronteiro, uma voz cheia e vibrante levanta brados de triumpho, e por momentos avulta a estatura gigante do conde Ordonho, cosida nas chammas, immovel e magestosa, com os cabellos soltos ao temporal. Depois abateu-se a torre com grande estrepito, as quadrellas alluiram-se, as traves accesas remoinharam e cairam, e entre os destroços, como em leito tranquillo, o velho guerreiro adormeceu do somno eterno. Honra ao que morre amortalhado em suas armas e envolto no seu pendão! Ao cabo de sessenta annos de pelejas o fronteiro sepultou comsigo a orgulhosa raça de riba d'Ave, e do seu castello só ficaram de pé aquella torre negra, que alem vemos, e a hermida aonde jazem os ossos de Pedro Ansures.
--E D. Moço? perguntou Martim Paes.
--E Auzenda? acudiu D. Nuno.
D. Moço, cumprindo já de noute o seu voto, teve um presentimento, e, cravando esporas no cavallo, despediu a carreira veloz por cabêços, fragas, e alcantis. Já perto do castello, deu-lhe no rosto o clarão do incendio e viu-o arder. Apertando o corsel, correu como louco, e só parou quando o facho do cavalleiro negro lhe cegou os olhos. O que succedeu então já vos contei. Apenas Inigo expirou, desfez-se o encantamento. D. Moço buscou Auzenda. Encontrou-a, mas sem vida! Levaram-a os monges á capella, puzeram-lhe na cabeça uma corôa de cecens, e a terra comeu de quinze annos a formosura mais invejada das Hespanhas.
D. Moço, desde esse dia, não viveu. A saudade matou-lhe a alegria, a esperança, e a juventude. Nunca mais vestiu armas. O que iria pedir ás batalhas? A gloria? Não tinha com quem a repartir. A morte? Para quê? Não a sentia já no peito? A liberdade da terra do seu berço? Ai! Nem essa ideia mesmo podia fundir já os gelos d'aquelle coração!... Sombra do que fôra, o que fazia o desgraçado n'este desterro cruel, sem affectos, sem amigos, sem consolações? Como o carvalho, que o raio feriu na força do crescimento debruça os ramos mirrados e se torce e definha até cair, a dôr e a memoria, verdugos implacaveis das existencias desgraçadas, minavam-lhe a vida, seccando-lh'a na raiz.
Sobre a madrugada o somno pousava-lhe a medo nas palpebras molhadas de lagrimas. Então a febre do delirio representava-lhe junto do leito a doce imagem, que trazia no coração. Era ella! Via-a, como nos dias ditosos. A mesma grinalda de flores do campo sustinha os cabellos louros que fugiam em ondas; as mesmas roupas alvas desenhavam as formas virginaes; nos olhos sempre a luz suave do amor, que o fizera tão feliz; nos labios aquelle sorriso em botão, que se abria casto como a rosa. O mancebo queria estreitar a visão querida ao peito, e acordava, chorando, porque só abraçára o ar. N'este tormento agonisou por mezes até que Deus, compadecido, lhe enviou a morte a um mosteiro humilde, aonde se recolhera.
Quando o amortalharam, os monges acharam-lhe unido ao peito, sobre o coração, um laço de cabellos; e no quarto de alva o frade, que ficára orando a velar a tumba, contou depois que vira apparecer uma dama, formosa como os anjos, e inclinar-se triste sobre o corpo. De dentro do ataude saiu um braço, e ella, com a sua mão na mão do morto, passar-lhe um annel no dedo e cingir-lhe a corôa de boninas que trazia, na fronte descorada. Um guerreiro de armas negras, e de estatura descommunal, por tres vezes lutou para romper o circulo luminoso, que a rodeava, e outras tantas, vencido por braço invisivel, se prostrou com a face no pó do templo. Eram as nupcias dos mortos, o noivado de Auzenda e de Ansures? Era ainda a sombra de Inigo Lopes perseguindo na donzella o sangue inimigo e a vingança contra o conde Ordonho? Altos mysterios de Deus. Quem ousaria prescutar os segredos da sua justiça, e os prodigios da sua clemencia infinita?!
O CASTELLO DE ALMOUROL[1]
CONTO DO SECULO XVII
I
--Ai, Virgem Santissima! Não ganha a gente para sustos! Não bastava esta praga dos castelhanos, que vem ahi, dizem, um poder do mundo d'elles pelo Alemtejo abaixo?! Ó sr. Romão Pires, d'onde elles estão aqui á nossa quinta é muito longe?
--Não é nada perto, não, sr.ª Brizida de Sousa! Mas lá diz o adagio: aos que muito correm quebram-se-lhes as pernas... Socegue. O sr. conde de Villa Flôr anda com elles a contas e não é para graças.
--O sr. conde é muito bom senhor, bem sei, e de grande fama sempre ouvi dizer... Mas se elle ficasse mal agora?
--Ficavamos nós peior, isso é verdade... Melhor o hade fazer Deus. Oh, se meu senhor e amo fosse vivo!... Não estava eu aqui posto ao canto como um estafermo!...
--Ora não diga isso por quem é. O sr. Romão já andou demais por essas guerras e tragou bem maus bocados. Descanse, descanse, que o merece... O que seria de mim sósinha n'estes palacios confusos, sem pregar olho ha umas poucas de noites com medo... E que medo! Fantasmas e almas do outro mundo! Ó sr. Romão Pires, diga-me: o demonio--salva tal logar--terá poder de subverter comsigo no inferno corpo e alma uma creatura baptisada e remida nas santas aguas?...
--Conforme! Se não estiver em estado de graça!...
--Credo! S. Braz e S. João! Meus ricos santos da minha alma, valei-me! Subvertida em corpo e alma?! Deus de misericordia!... Sabe que mais? Quero que me escreva já e já á sr.ª D. Magdalena, contando-lhe tudo isto. Ella não póde consentir que a sua criada velha uma noite d'estas desappareça nas garras do inimigo tentador do genero humano. Jesus!... Diga-lhe que nos venha livrar d'este inferno, senão... eu cá por mim fujo! Primeiro a salvação da minha alma...
--Tambem eu não gosto nada d'isto, sr.ª Brizida. Mas animo forte e coração á larga. O demonio parece que entrou de semana comnosco, e, pelo que vejo, não leva geito de nos querer largar. Desde que viemos para esta quinta...
--Desde que viemos... diz muito bem! Olhe, Brizida de Sousa me não chamasse eu, se depois da primeira noite não mettesse um bom par de legoas entre o demonio e quem se présa de christã baptisada na freguezia de Santa Catharina de Lisboa, nascida de paes catholicos, tementes a Deus, e sem eiva, nem leiva de mau sangue!... Mas o amor, que tenho á minha menina, coitadinha, tudo me faz supportar com paciencia... Espere! Não ouviu bulha? Assim a modo de ferros arrastados pelo sobrado?
--Nada. Foi cadeira, ou banco deitado no chão lá em cima. De dia não é que elles fazem das suas...
--É verdade. Guardam-se para a noite. Que noites, que eternidade de noites, Senhor Deus de misericordia! Parece que nunca a gente lhes vê o fim. E que me diz então a estas despedidas de maio e entradas de junho?!...
--Não são de convidar, sr.ª Brizida! Velho sou, mas não me lembro de anno mais carrancudo. Chuvas, relampagos, trovões e ventanias que levam tudo pelos ares! Safa!
--E nós, coitados, n'este ermo, n'este desterro! Ai minha Senhora Santa Barbara! se a tua serva e devota não deixa aqui os ossos, grande milagre será. Escute!... Agora não foi engano!... Não ouviu risadas lá em cima no vão das casas?
--Não é nada. São os rapazes do feitor jogando as escondidas.
--Pois, sr. Romão Pires, affirmo-lhe por minha alma, que em Lisboa, quando minha senhora D. Magdalena me chamou e me disse: «Brizida, a sua menina anda fraquinha e enfezada, e o irmão tambem, os phisicos não acertam com o remedio, e fr. João entende que estas tosses do peito, assim teimosas, não se despegam senão com mudança de ares. Bem sabe, não posso sair da cidade por estes dias mais chegados--e é assim, coitada, por causa da sua demanda--acompanhe-me os meninos, e conte que fico tão socegada como se eu mesma fosse...» Quando me disse isto, e eu lhe beijei as mãos pela mercê, se podesse adivinhar o que nos esperava aqui, asseguro-lhe que me encolhia como a tartaruga na concha; e viesse quem quizesse... Isto não é palacio, nem quinta, é um verdadeiro inferno! Deus salve a minha alma!
--A sr.ª Brizida não diz o que sente. Vindo a sr.ª D. Maria e o sr. D. Pedro, ninguem a arrancava de ao pé d'elles.
--Tem razão. Ninguem! A ella creei-a, mamou o meu leite, e sua mãe não lhe quer mais, não, deixe-me ter esta presumpção... A elle vi-o nascer, e os primeiros braços, que o embalaram, foram estes que hade comer a terra. Tão pequeninos os conheci, e tão formosos e crescidos os vejo agora, que não me posso costumar a crer, que um dia hei de ter o gosto de os abraçar homens!... Quando me ponho a olhar para elles, parece-me ás vezes que não póde ser, e que tudo isto é sonho...
--Então!? Elles fazem-se homens, e nós fazemo-nos velhos. Não ha remedio. O mundo vae assim.
--Bem sei. Mas, não os acha muito delgados, muito afinadinhos? Dizem que é da edade e do muito crescer, e que hão de encorpar depois. Deus queira! São os negregados estudos, que me ralam o corpo e a alegria dos meus meninos. A sr.ª D. Maria manhãs e tardes inteiras á almofada, bordando de branco, de matiz, e a ouro. E com que perfeição!... Que dedinhos de fada aquelles! E o sr. D. Pedro? É mesmo uma dôr de alma vel-o dia e noite amarrado á banca dos livros, e que livros! Latins, gregos, e não sei que outras trapalhadas de _retroricas_... Quem tem a culpa de tudo, o culpado de tudo o que póde acontecer, é o teimoso do sr. fr. João, que á fina força quer o sobrinho sabio. Depois que falleceu o pae, (Deus o tenha em gloria!) não se nos tira de casa, e tanto ha de quebrar-me a cabeça ao meu menino, que um dia treslê. Pois olhe, sr. Romão Pires, vá com o que lhe diz uma ruim cabeça: mais vale asno vivo, que doutor morto.
--O sr. fr. João, atalhou Romão Pires, aproveitando uma pausa da sr.ª Brizida, é muito bom tio, e desde que morreu meu senhor e amo tem sido um segundo pae para os meninos. Quer os sobrinhos prendados e de grandes merecimentos. Não lh'o levemos a mal. Sangue illustre e bens da fortuna possuem elles...
--Por isso mesmo! Não precisava atanazarmos tanto! Não m'os deixa respirar. Mestres d'isto, mestres d'aquillo, musica para aqui, dansa para acolá... latins, _pholosophias_, ai, que barafunda! Nem eu sei como as pobres creanças não teem endoudecido. Cá por mim já o miolo ha muito tempo me tinha dado volta, tão certo como chamar-me eu Brizida de Sousa.
--Ninguem aprende sem trabalho. O sr. fr. João não é nenhum nescio...
--Nem eu lh'o chamo. Deus me livre. Nescio?... No convento e na côrte dizem que não ha outro doutor como elle.
--Pois então deixe-o, que bem sabe o que faz. Estes sobrinhos são a luz dos seus olhos, e depois tão meigos, tão applicados...
--De mais, de mais, para a edade, sr. Romão Pires. Assustam-me. Não parecem d'este mundo, nem d'este seculo. O sr. fr. João é muito extremoso, e o que faz é por desejar o seu bem d'elles, mas, graças a Deus, a casa é rica e não era preciso amofinar-me tanto os meus meninos...
O dialogo de que acabamos de ser fieis e escrupulosos expositores, era travado em uma antiga sala, vasta e pouco allumiada por estreitas janellas, cujas vidraças de postigo mal deixavam coar o dia. Das paredes em reboco pendiam farrapos soltos dos pannos, que as tinham forrado. Em outras partes as colgaduras adheriam ainda aos filetes, e representavam em suas pinturas desvanecidas figuras descommunaes, debaixo de arvores anãs, e no meio de arbustos e flores monstruosas. Os tectos, cujas vigas lavradas inculcavam a paciencia de um artifice do XV seculo, subiam a grande altura, enegrecidos pelo fumo da immensa chaminé de pedra, ornada de leões de marmore nas bases, e rematada com um brazão de relevo alto, orlado de ramos de silvas e amoras.
O sr. Romão Pires, escudeiro de quasi setenta annos de edade, enxuto de carnes, e amarello como uma cidra, erguia-se direito e aprumado como uma das faias mais direitas da quinta. Nascêra e fôra creado desde a infancia n'aquella casa, e não conhecera nunca outros amos senão D. Vasco, e D. Magdalena. Acompanhára seu senhor, assim lhe chamou sempre, em todas as campanhas da guerra da restauração, pelejando esforçadamente ao lado d'elle, e assistindo aos cercos e batalhas mais notaveis desde 1642. A historia dos perigos, em que se tinha achado, e a narração das proezas de seu amo, enfeitada de episodios e commentarios, serviam de saboroso pasto aos serões da familia, obrigada a engulir como artigos de fé todas as aventuras da nova «Tavola Redonda,» que a imaginação do escudeiro entretecia na tela interminavel de sua cansativa Illiada.
A sr.ª Brizida de Sousa, que tão avexada ouvimos queixar-se das apparições, era matrona de mais de cincoenta annos. Baixa, roliça e risonha, suas faces lisas, cheias e coradas ainda tinham a frescura de duas maçans rainetas. As feições, pouco accentuadas, e quasi infantis, sumiam-se entre as roscas das nedias bochechas, e os seus ares beatos brigavam na candura affectada com uma larga experiencia da vida. Toda aquella pequena e buliçosa matrona respirava aceio, cuidado, devoção, e azafama. Collaça de D. Magdalena, e casada com um dos caseiros mais abastados do morgado, depois ama de leite da filha primogenita da casa, enviuvára sem filhos, nem saudades do estado, resumindo todos os affectos nos seus extremos pela fidalga, e na idolatria das duas creanças, que trazia sempre na boca e no coração.
Trajava por costume roupas escuras. As toucas alvissimas, caidas talvez de mais para a testa, e o córte dos vestidos á beguina, affirmavam o programma da sua virtude inaccessivel. Supersticiosa, e com a memoria recheada de orações, de visões, e de devotas crendices, o seu defeito capital era occupar-se muito com as vidas alheias, enfiando um rosario de conselhos a proposito de tudo, e mexericando, por indiscreta, amos, criados, e hospedes, mas sem intenção ruim. Todos se encobriam d'ella, quanto podiam, porém ninguem a aborrecia. Temiam-se da intemperança de suas confidencias, mas confessavam a bondade do seu caracter, que era na verdade excellente.
Romão Pires, tirando a estafada repetição de suas campanhas, representava em tudo o opposto d'ella. Sério, como um santão, embizourado, e quasi sempre com a aguda barba escondida na gargantilha, se levantasse a vista e a curiosidade para os negocios dos outros, cuidaria faltar a Deus, a si, e ao mundo. Sua boca era sagrada, e segredo que lhe caisse no peito ficava sepultado n'elle profundamente.
Apesar d'estas qualidades contrarias e talvez mesmo pelas possuir, era o conselheiro nato da sr.ª Brizida em todos os casos intrincados, e o defensor convicto dos seus mêdos e indiscrições.--«Boa alma! Boa alma! respondia aos que a censuravam. Tem o defeito de fallar de mais, mas é uma santa pessoa.»--Brizida pagava-lh'o. Para escutar a milessima edição das guerreiras epopeias do escudeiro, até fazia o sacrificio de suspender a loquacidade propria!...
O sr. Romão Pires, amortalhado na eterna roupeta e n'umas calças côr de pulga, esguio, comprido, e hirto, com um par de oculos de azelha montado no cavallete do interminavel nariz, não desabotoava a seriedade do rosto, nem dava ferias ao enfado chronico senão para sorrir á sua comadre Brizida. Aquelles olhos verdes desbotados não se animavam senão para festejar algum bom dito da matrona, cujas fallas assucaradas contrastavam com a voz rouca e soturna do antigo campeão da independencia portugueza. A predilecção honesta, mas decidida dos dois um pelo outro, não escapára aos criados, e todos acreditavam que, cedo ou tarde, o vinculo matrimonial ainda viria apertar mais estreitamente a união de duas almas já tão intimas.
A quinta, em que residiam havia duas semanas, situada na margem direita do Tejo, estendia as matas e charnecas até á ribeira, que separa Paio Pelle da villa de Tancos, da qual a casa, construida sobre uma colina, distaria pouco mais de dois ou tres tiros de espingarda. Era palacio antigo, talvez fundado por meiados do seculo XIV, accrescentado, e reparado pelos fins do XVI. As ameias, já derrubadas em muitos lanços de muro, proclamavam a sua velha e legitima nobreza. Duas alas terminadas por torres fortificadas em tempos mais remotos, saindo fóra do corpo principal do edificio, formavam os lados do espaçoso terreiro, rasgado diante da fachada, cujas doze janellas de architectura irregular olhavam para elle. No terreiro se tinham jogado cannas e corrido touros nos anniversarios festivos dos senhores.
A casa era antiga, como dissemos, e estava muito velha. Nas juntas e articulações das pedras carcomidas cresciam tufos de viçosas parietarias. Uma arcada sombria, sustida por grossas pilastras, resguardava as entradas das duas escadas, que subiam em volta de caracol até ao primeiro andar. Outra porta, por baixo do centro da arcada, dava serventia por uma rampa para os subterraneos allumiados ao rez do chão por agulheiros. No piso nobre corria uma fileira de salas nuas, frias e tristes, lageadas de ladrilho. Sobre os corredores por onde o ar e uma luz escassa a custo circulavam, abriam as alcovas suas portas envidraçadas. Seguiam-se muitos aposentos, mais ou menos escuros, crusados de passagens, de escadas furtadas, e de portas falsas, compondo desde o andar terreo até aos vãos debaixo dos telhados, uma rêde inextricavel, um verdadeiro labyrintho. A casa de jantar, forrada de carvalho em molduras, prolongava-se á maneira de refeitorio entre dois extensos corredores. Na extremidade de um d'elles baixava uma escada para o jardim, na outra empinavam-se os degraus da escada, que ia para os vãos, os quaes por cima corriam em largura e comprimento da casa. As torres communicavam-se com o corpo do edificio por duas portas esguias e abobadadas, aferrolhadas havia longos annos. Os eirados, meio abatidos, vertiam-lhes dentro em torrentes as chuvas caudaes do inverno.
O jardim, ornado de canteiros e de poiaes azulejados, com um tanque de pedra no meio, e um satyro hediondo entornando a urna desforme, creava algumas roseiras e craveiros degenerados entre urtigas, papoulas, e malmequeres bravos. As hortas mais cuidadas pegavam com as terras de pão, cingidas de vallados altos, defendidos com pitteiras. O aspecto do palacio era carregado de melancholia. Rodeado de solidão justificava em sua tristeza as queixas, que ouvimos á sr.ª Brizida. Porque escolhera, porém, D. Magdalena aquelle êrmo para abrigo dos filhos e dos criados, quando tinha tantas propriedades mais alegres e reparadas aonde podessem respirar, longe do bulicio da côrte o ar do campo?
D. Magdalena descendia da familia illustre dos Coutinhos Noronhas, de que fôra tronco e progenitor o marechal Gonçalo Vaz Coutinho, senhor do couto de Leonil, e meirinho-mór por el-rei D. Fernando na comarca da Beira. Formosa, discreta e recatada, perdera seu marido, D. Vasco Mascarenhas, mestre de campo dos exercitos de D. João IV e D. Affonso VI, havia tres annos, e ainda não enxugára as lagrimas da viuvez. Em edade de merecer e de acceitar requebros, tinha-se recolhido na sua casa de Lisboa, aonde não recebia senão as visitas de alguns amigos antigos da familia, guiando-se em tudo pelos conselhos de fr. João Coutinho, seu irmão, grande sabio, e doutor em canones e theologia, o qual se encarregára de dirigir a educação litteraria dos sobrinhos.
D. Vasco Mascarenhas, tão distincto pelo nascimento, como pelas qualidades do caracter e do espirito, unira ás propriedades de sua casa, já mui rica, o senhorio da villa de Paio Pelle e do castello de Almourol, que sua mulher lhe trouxera em dote, mas quasi sempre occupado na côrte com os negocios politicos e no serviço activo das armas, só duas vezes visitára de fugida aquelle solar desamparado, que principiava a cair em ruinas, entregando o grangeio das terras e a cobrança dos direitos do donatario, com excessiva confiança, diziam os murmuradores, á probidade equivoca do feitor Paulo Rodrigues, camponez avido e ladino, que mais as disfructava como usurario, do que as geria como administrador. Avisada de que o palacio e as fazendas se arruinavam n'aquellas mãos viscosas, D. Magdalena resolvera ver por seus olhos o verdadeiro estado das cousas, na companhia de seu irmão, fr. João Coutinho, ficando para depois decidirem ambos o que julgassem mais conveniente.
Outra razão serviu de estimulo para a partida dos filhos da casa, dissimulada com o pretexto da necessidade da mudança de ares. Antigas relações de parentesco ligavam a familia dos Mascarenhas com o segundo ramo dos Noronhas, cujo opulento morgado possuia grandes bens na mesma comarca, aonde existia o solar dos Coutinhos. O logar do Arripiado, que tão viçoso beija as aguas do Tejo, defronte de Tancos, com dilatados campos e charnecas, pertencia ao velho D. Nuno, cujo filho unico, D. Affonso de Noronha, saira da côrte para o exercito do Alemtejo. D. Affonso, illustre pelo berço, e já illustre pelo valor, vira crescer em belleza, primeiro com assombro, depois com paixão ardente, sua prima D. Maria de Mascarenhas, e não encobrira de seu pae o amor, que ella lhe inspirava. D. Nuno confiou este segredo á ditosa mãe, e ella, não podendo desejar casamento mais vantajoso, nem mais da sua escolha, antes de dar o sim, quizera, comtudo, sondar disfarçadamente as inclinações da donzella. Conheceu com alegria, que D. Affonso começára a apoderar-se d'aquelle coração, que em sua innocencia principiava a balbuciar apenas as primeiras e vagas aspirações de um sentimento, que não sabia definir ainda.
Corria o anno de 1663. D. João de Austria, á frente das armas castelhanas, tentára o derradeiro esforço, invadindo Portugal com dezeseis mil soldados, e os nossos generaes, juntando as forças, mal conseguiram oppor-lhe cinco ou seis mil. A cidade de Evora, que devia ser um dos baluartes da resistencia, accommettida no dia 14 de maio, capitulára, depois de pouco honrada defeza. Este revez aggravou os receios, e as partidas de cavallaria inimiga chegaram a insultar Alcacer. D. Sancho Manuel convocára immediatamente os officiaes a conselho, e só um voto, o d'elle, approvára a conveniencia de ferir a batalha, que as ordens do governo prescreviam como remedio extremo. A pericia de Schomberg, temendo como inevitavel o desastre, viu n'elle o ultimo precipicio da independencia; mas a feliz temeridade do conde de Villa Flor, fechando os olhos á prudencia, applaudia o encontro decisivo dos dois exercitos, como o unico meio, embora desesperado, de salvar a provincia e o reino da sujeição estrangeira.
O povo de Lisboa, assustado, furioso, e alvorotado nas praças, assaltára as casas de Sebastião Cesar, do marquez de Marialva, e de Luiz Mendes de Elvas. A todas as horas se aguardavam noticias da marcha das tropas, e todos tremiam. Um lance repentino podia sepultar para sempre as esperanças de Portugal!