Contos do Norte

Chapter 5

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_Entre as Nymphéas_ é o lindo titulo de um livro lindo--por fóra e por dentro.

É seu auctor o sr. dr. J. Marques de Carvalho, nosso ministro em Buenos-Aires. É um livrinho do feitio e do gosto d'esses da _Collection Papyrus_, impresso n'aquella cidade e editado por Arnoldo Moen.

Contém onze narrativas divididas e grupadas em duas partes, que o auctor intitulou _Subjectivismo_ e _Objectivismo_. São contos curtos, muito intimos e suavissimos os primeiros; pittorescos, rapidos, _flagrantes_ os segundos,--todos escriptos com elegancia e colorido.

Da primeira parte citarei, como melhores, _O isolamento_, _O naufragio do Purús_ e _O cemiterio da floresta_, e da segunda _Mater dolorosa_ e _A filha do pagé_. O dr. Marques de Carvalho, que já tem atraz de si varios livros, é um fantasista delicado e sentimental, e apaixonado pela sua terra, o que lhe dobra o encanto e o valor.

_Entre as Nymphéas_ é um mimo: recommendo-o a quem se sinta embaraçado na escolha de um presente para uma menina ou senhora.

De Bellarmino Carneiro, n'_O Paiz_:

A imprensa argentina não tem regateado elogios ao precioso e elegante volume com que Marques de Carvalho acaba de fazer a sua reapparicão nas lettras patrias.

E Marques de Carvalho bem o merece, pois os seus trabalhos são obra de artista apaixonado e de homem de coração, como elle mesmo o confessa.

Espirito educado nas pugnas litterarias, adestrado luctador da imprensa, temperamento rijo e masculo, como em regra o dos filhos da região septentrional, Marques de Carvalho, ao deixar o posto de redactor d'_A Provincia do Pará_, a brilhante folha do norte, onde muito cedo ainda começara a trabalhar ao lado do dr. Assis, de Antonio Lemos, de Jovino Ayres e de muitos outros jornalistas distinctos, trazia um nome laureado. _Hortencia_, _Livro de Judith_, _Contos Paraenses_ e alguns opusculos em que firmou a sua ardente fé republicana, davam-lhe foros de escriptor consagrado pelos applausos publicos.

Secretario do governo republicano do Pará e mais tarde diplomata, o auctor de _Entre as Nymphéas_, apezar das responsabilidades e dos labores da carreira politica, não esqueceu o culto ás lettras, nem abandonou os seus antigos idéaes.

Prova-o o seu novo livro.

Começamos estas linhas dizendo que a imprensa argentina colmara de elogios esse livro, cuja edição é um primor de factura typographica, e referimo'-nos a isto para mencionar de preferencia, entre tantas noticias laudatorias dos jornaes portenhos, como _Patria Italiana_, _El Diario_ e muitos mais que vimos, o bellissimo artigo de Rubén Dario, o elegante e fino estylista, no periodico illustrado _Buenos-Aires_.

Rubén Dario é um escriptor venezuelano e critico erudito, que illustra com seus trabalhos litterarios varias folhas da capital argentina, especialmente _La Nación_, onde temos lido ultimamente o seu bellissimo estudo sobre o admiravel livro de Menéndez Pelayo, _Antologia de poetas americanos_.

Tratando do livro do nosso compatriota Marques de Carvalho, diz Ruben Dário[1]:

«Pouco conhecida é entre nós outros a litteratura brazileira contemporanea, aliás tão opulenta e brilhante, que quasi poderia considerar-se a primeira da America latina. Desde os velhos, os veteranos das lettras, que escrevem na _Revista Brazileira_, até essa ardente e amestrada geração que se manifesta em publicações tão habilmente sustentadas como _A Semana_, a producção mental do Brazil é a muitas respeitos digna de attenção, e d'ella, mais que de nenhuma outra dos paizes latino-americanos, se tem occupado por vezes a critica européa.

Quem conhece entre nós--para citar só um nome--esse critico de tão solida e profusa erudição, tão moderna variedade e bella galhardia, que se chama Araripe Junior?»

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E accrescenta depois:

«Ao percorrer as paginas d'este livro, vê-se que quem o tratou é escriptor que não desdenha o amor da arte da palavra. Se não ha ali o labor de um artista, se não chega até aos virtuosismos de fórma de alguns dos seus jovens patricios--a verdade é que elle se proclama singelamente «naturalista na expressão»--tem uma espontaneidade e um dizer amavel que impressionam mui favoravelmente.

Narra sem _ambages_; dá uma bella impressão da natureza tropical nas suas descripções selvagens e fluviaes.

No principio conta os suaves deleites do isolamento; Zimmermann ficaria muito satisfeito com elle. Depois, um bando de gaivotas leva-o a exhalar suspiros de vaga melancolia. Recordando o pavoroso naufragio do _Purús_, no grande rio, catastrophe em que pereceu a mãe de sua mãe, a manifestação do sentimento expande-se em commoventes e intimos periodos.

As expansões familiares continuam em amorosos trechos dedicados á sua filhinha. No _Cemiterio da floresta_, a phrase se avigora e o cuidado do estylo substitue os anteriores desafôgos pessoaes, que se renovam n'uma pagina profundamente sentida, na qual rememora a morte de sua mãe. Ahi conclue a primeira parte, que elle denominou _Subjectivismo_.

Na segunda, _Objectivismo_, encontram-se elegantes, delicadas, graciosas coisas. _A pesca de Deodato_ é um conto repleto do bom-humor, que alegra o fantastico da narração; etc.

_Mater dolorosa_ é um triste episodio de dôr materna; _Yaras paraenses_, uma encantadora _humorada_; _Uma historia de amor_, uma série de cartas de um Marcel Prévost, agradabilissimas, e _A filha do Pagé_, uma narrativa muito humana e muito bonita.

O livro lê-se rapidamente, gostosamente. Eu felicito o seu auctor, que me proporcionou uma feliz meia-noite até o amanhecer».

Taes são os conceitos expressos pelo illustre critico em artigo especial do _Buenos-Aires_, illustrado com um excellente retrato de Marques de Carvalho.

O nosso joven compatriota deve sentir-se bem compensado dos seus esforços, vendo-os prestigiados por auctoridade tão eminente nas lettras americanas, e nós não dissimularemos o jubilo que nos enche a alma cada vez que o nome de um brazileiro levanta longe da Patria applausos e acclamações tão raramente e tão avaramente prodigalizados em geral.

[1] Rubén Dario é um dos mais competentes criticos litterarios da actualidade e o mais vigoroso estylista em idioma espanhol na America do Sul.

De Arthur Azevedo, na secção «Palestra», d'_O Paiz_:

Li de uma assentada _Entre as Nymphéas_, o interessante livro que o nosso distincto compatriota J. Marques de Carvalho publicou em Buenos-Aires, onde exerce o logar de 1.º Secretario da Legação brazileira.

O volume divide-se em duas partes--_Subjectivismo_ e _Objectivismo_. A primeira consta de paginas intimas, escriptas em estylo agradavel, mas um tanto rebuscado; na segunda, mais curiosa, mais simples e mais variada, encontram-se quatro bellos contos que transportam o leitor ás magestosas margens do Amazonas e _Uma historia de amor_, fantasia psychologica, condimentada _à la mode de Paris_.

Essa espirituosa composição contém sete cartas, escriptas por uma mulher durante mez e meio, que são o prologo, a acção e o desenlace de uma aventura de amor. O livro de Marques de Carvalho, que sabe manejar a penna perfeitamente; contém paginas verdadeiramente encantadoras. _A filha do Pagé_ o conto com que termina o livro, é uma chave de ouro.

Accrescentarei que o volume, um primor de impressão, imitando as mimosas edições Guillaume, de Paris, faz honra ao editor Arnoldo Moen e á typographia _La Vasconia_, de Buenos-Aires.

O general dom Bartholomeu Mitre, que foi commandante das forças alliadas contra o Paraguay e presidente da Republica Argentina,--sendo além de tudo um dos mais eruditos e festejados litteratos contemporaneos, dirigiu a Marques de Carvalho as seguintes linhas, ao receber um exemplar de _Entre as Nymphéas_.

Bartholomeu Mitre saúda attenciosamente ao ex.mo sr. J. Marques de Carvalho Encarregado de Negocios do Brazil na Argentina e agradece o precioso livro que se serviu offerecer-lhe, o qual conservará como uma lembrança na sua Bibliotheca Americana, com a honrosa dedicatoria autographa do auctor, a quem deseja todas as felicidades n'este paiz.

O sr. dom Mariano Pelliza, diplomata e historiador argentino, tambem enviou estas palavras ao auctor:

Mariano A. Pelliza, sub-secretario de Relações Exteriores, saúda ao seu amigo Marques de Carvalho e compraz-se em enviar-lhe os seus agradecimentos pela joia litteraria (por esta vez,--joia--não é metaphora) com que teve a gentileza de o obsequiar.

Herculano Marques Inglez de Souza, o illustre jurisconsulto e eminente litterato brazileiro, endereçou a Marques de Carvalho a seguinte carta:

Cumpro um grato dever, agradecendo cordialmente a V. a dupla distincção que se dignou fazer-me, offerecendo-me um exemplar do sou bello livrinho--_Entre as Nymphéas_ e dedicando-me as sentidas e delicadas paginas que escreveu a proposito da tragedia do vapor _Purús_.

Já conhecia de V. alguns trabalhos e, entre elles, a _Hortencia_, romance em que revela grandes qualidades de observação e muito amor á verdade na Arte. O seu novo livro mostra que áquelles predicados sabe V. alliar muito sentimento _verdadeiro_ e um estylo colorido e sóbrio.

A conceituada _Revista Brazileira_, do Rio, estampou o seguinte juizo critico:

Como a canôa que deslisa por entre a vegetação aquatica que deu o titulo a este elegante livro de contos, vae a alma de quem o lê levada de narrativa em narrativa, sem se emmaranhar nas enrediças do estylo caprichosamente entrelaçadas.

Com effeito, reproduzem-se n'este livro delicado as infinitas gradações de côres que o sol dos tropicos, enfiando o pincel de raios pelo prisma das cataractas, fixou nas pennas das aves e nas folhas dos nenuphares. E com a vehemencia com que pelas regiões do Amazonas brotam as açucenas do seio das aguas, o sentimento do bello enraizado profundamente na alma do escriptor desabrochou em commovidas phrases á flôr do pranto que lhe fez verter a saudade da filhinha ausente ou da mãe que elle viu finar-se.

_Brinde a minha filha_ e _Um anniversario_ são paginas escriptas com o proprio sangue e incluidas na 1.ª parte--_Subjectivismo_, que o auctor offerece a sua esposa. O subjectivismo terá sempre esta superioridade incontestavel: que na ignorancia em que depois de tantos seculos de philosophias ainda se encontra o homem com respeito á lei do universo, somente a que em si sente póde ter uma tal ou qual consciencia; d'onde resulta que, ainda quando copía o mundo exterior, é o seu proprio sentimento que empresta ás coisas. Por isso o homem persiste em affirmar que os montes são tristes, que choram os mares, que riem as searas, que folgam as aves, e não quer ver que nem os montes são tristes, nem choram os mares, nem riem as searas, nem folgam as aves e que só elle é triste, chora, ri ou folga, porque só elle possue em toda a natureza a capacidade das alegrias supremas comparada com o dom das supremas angustias.

Da 2.ª parte--_Objectivismo_, commoveram-nos principalmente as duas narrativas _Mater dolorosa_ e _A filha do Pagé_, a historia entristecedora de uma mãe que vê o filho engulido pelo gigante rio do Norte e a de um velho indio que chora a filha deshonrada. Estes dois contos confirmam-nos na crença de que é, quando menos, inutil para a arte a distincção entre _subjectivismo_ e _objectivismo_. Se o auctor logra transmittir a quem o lê a emoção espontanea ou reflexa de que se acha possuido (e é o caso do sr. Marques de Carvalho), a obra é verdadeira; se não logra, a obra é falsa, porque, em todo caso, é sempre o objectivismo do leitor que julga em ultima instancia.--S. R.

End of Project Gutenberg's Contos do Norte, by João Marques de Carvalho