Chapter 4
Sabia-se já que rebentara na capital o movimento da cabanada. Canôas, tripuladas por valentes remadores, haviam trazido, com innumeros fugitivos, a nova da revolução tremenda. E os pormenores, exaggeradamente relatados pelos brancos, tinham demovido o vigario Constancio e as auctoridades a um redobramento de pompa nas festas da Semana Santa,--a ver se Deus fazia passar a villa immune do ataque dos cabanos.
A tarde caía em doce esvaimento, por traz da floresta. Deslisava tranquillo o rio, espelhando nuvens preguiçosas. Havia por toda a parte o tom suave das côres vespertinas, diluidas na fluidez das sombras incipientes. Apenas do outro lado, na margem opposta, um derradeiro raio do sol enrubescia o areial da praia, sobre o qual um bando de gaivotas revoava, crocitando.
A villa em peso acudira á solennidade, attrahida pelo repique jovial dos sinos. Por entre as portas escancaradas vinham de junto do altar-mór adocicadas emanações de thuribulos; o fumo azulado do incenso evolava-se muito subtil para o alto, como a imagem das aspirações geraes. E as mulheres, lá dentro, oravam contrictas, duplicando as preces ao ceu,--que não viessem os cabanos trazer até acolá as infamias cuja narrativa era bastante para levantar-lhes os cabellos apavoradamente.
* * * * *
A subitas, um murmurio na matriz annunciou que ia começar o sermão. Houve no adro um movimento de refluxo; afinal, mais ou menos toda gente penetrou na egreja. Raros homens ficaram saboreando as ultimas cachimbadas nos rechinantes taquarys de Cametá. Um minuto depois, erecto no pulpito, pallido na alvura engommada da sobrepeliz de rendas, padre Constancio dominava o auditorio com a singeleza da sua palavra despretenciosa.
Appareceu então na praça que antecede o adro um grupo de homens desconhecidos: quatro caboclos de féra catadura olhavam para tudo e para todos, como se visitassem a localidade pela vez primeira. Buscavam, tanto quanto possivel, que ninguem os visse; e auxiliava-os a gosto uma grande moita da carrapateiros, ahi deixados pela foice descuidosa dos capinadores municipaes ou pelo capricho do sacristão, que era o superintendente do asseio do sitio.
Ia vindo a noitinha. O ceu fizera-se antes da côr da perola, mas a pouco e pouco ensombrava este matiz com as tintas da sua palheta nocticolor. Tauxiações indecisas de estrellinhas palpitantes picavam-se aqui e ali, na sombria abobada. Volitavam auras fagueiras e, por toda a parte, invisiveis insectos zumbiam. Só o areial da praia fronteira extendia pela orla da floresta um listrão claro, como se houvesse absorvido e conservasse o quente rubor do raio de sol que estivera a mordel-o pouco antes.
De repente, estrondou um tiro no adro; a chamma scintillou com viva fulgencia no crepusculo expirante. Um dos caboclos avançava, já affoito, do meio dos carrapateiros. Na matriz foi um só o presentimento geral: os cabanos! Padre Constancio quasi desmaia no pulpito, muito pallido, sem voz. E nem desvanecido estava o sobresalto da primeira surpresa e já toda gente pensava em correr a casa e encerrar-se. Mulheres levavam as mãos á cabeça, chamando os filhos, gemendo de mansinho umas, lamentando-se outras em altos gritos. Uma consternação! Pensar na resistencia ninguem poderia fazel-o. A villa, bonacheirona, confiara ao ceu a tarefa de a livrar dos rebeldes: entre todos os habitantes não seria facil encontrar e reunir mais de meia duzia de espingardas. Que calamidade! Deu-se então, por todos os lados, uma desordem,--os atropellos, a algazarra dos grandes panicos. Buscava-se a porta principal, com fernesi. No entanto, a affluencia do povo formara uma columna espessa, demasiado larga, e não tardaram as compressões. Creanças e mulheres estertoravam sob o sapateio dos fugitivos. Do adro vinha a grita dos cabanos, já senhores da localidade.
Tremendo então pelas suas amadas ovelhas, sopesando a responsabilidade em que incorrera, padre Constancio deixou-se cair genuflexo e levantou as mãos, do lado do altar, com desvairado fervor.
* * * * *
Os cabanos tinham vindo por terra surprehender a villa em plena festa de Ramos. Guiara-os pelo matto o Mané Xico, o inimigo do juiz de direito, ficando no furo da Jararaca, a duas milhas de distancia, as numerosas canoas da expedição rebelde.
Quando os primeiros fugitivos sairam para o adro, já a praça contigua estava occupada pelos cabanos, em numero superior a duzentos, muito bem armados. Capitaneava-os o Borba, feroz caudilho que Angelim distinguira como chefe das operações n'aquellas bandas. Este individuo votava profunda ogerisa ao vigario: jamais lhe perdoaria a reprimenda com que, um anno antes, o fulminara, em Curralinho, por ter esbofeteado a propria mulher. Que bello ensejo então para pregar-lhe uma peça! Chamou o seu logar-tenente e mandou buscar o padre.
Veiu logo o sacerdote, com a sobrepeliz amarrotada, a estola do avêsso, todo elle tremendo como a sururina moribunda.
--Ora passe p'ra 'qui, seu fradalhão! gritou-lhe o Borba, mal o avistou entre dois cabanos, ameaçadoramente armados de clavinotes. E logo ordenou que fôssem buscar tambem a Mariasinha, filha do pescador Sabá.
Quatro grandes fogueiras, accêsas por ordem do chefe, illuminavam o recinto. Ninguem mais ousara fugir; o povo agrupava-se pelo adro e pela praça, em recolhida attitude, quasi sem movimentos, temeroso da morte. Eram tão maus os cabanos! Havia pelos grupos feminis silenciosos soluços. Lancinante quadro, em verdade e por elle é que o ancião chorava também perdidamente.
--Faça-me soffrer, exclamou, porém não persiga esta boa gente!
--Cale a bôcca, idiota! respondeu-lhe o Borba, n'um meio sorriso que a todos apavorou mais do que a maior das ameaças.
Entretanto, acercava-se um troço de rebeldes, trazendo comsigo Maria, discipula de Constancio. Que vinha por seus pés quasi não se poderia affirmar, pois era ao collo que o mais espadaúdo caboclo a conduzia, semi-morta de mêdo.
Borba tomou petulante attitude, cofiando as raras répas do bigode falho, sempre a sorrir. Ordenou:
--Padre Constancio, passe á frente!
Arriscou o sacerdote algumas pernadas trôpegas.
--Aqui, ao lado da Mariasinha, tornou a dizer o chefe.
Constancio approximou-se.
--E agora, intimou o caudilho; se quizer, dê um beijo na cunhantan. Eu sei que você gosta d'ella. Pois despeça-se!
E, voltando-se para os companheiros, explicou em voz fortissima:
--Deliberei repudiar a vibora de minha mulher, amigos, e casar-me com outra rapariga. Convido-os para assistirem á ceremonia que padre Constancio, bem contra vontade, celebrará agora mesmo. A egreja está preparada e a noiva é esta!
E designava a mimosa discipula do padre, cuja primeira communhão fôra marcada para o proximo domingo.
Não pôde o povo dominar uma exclamação de surpresa e repugnancia. Ao que logo retorquiu o cabano:
--Que ninguem arrede d'ahi. O socego é a condição da vida dos habitantes da localidade.
E tomando a caboclinha nos braços, levou-a para o templo. Constancio, barafustando, protestava aos gritos, arrastado por dois sicarios.
* * * * *
O desenlace do caso é evidente: recusando-se a satisfazer ao sicario, o padre foi assassinado sobre os degraus do altar. Mas nem por isso a cheirosa e innocente Mariasinha deixou de ser, d'então em deante, a concubina do caudilho, que a violou ali mesmo, na sacristia.
Só por tal preço os cabanos abandonaram a localidade, na manhã seguinte.
UM COMO TANTOS
UM COMO TANTOS
PARA O LICINIO SILVA, ESTA OBSERVAÇÃO.
Haviam já passado para Nazareth, de volta do Vero-peso, os derradeiros bonds do espectaculo. A pouco e pouco, os peões tinham rareado no cimento dos largos passeios das avenidas,--o transito fizera-se nullo, um ou outro noctivago impenitente andava errante á sombra propicia das folhudas mangueiras, investigando a distancia com olhares incendidos de uma ponta de lubricidade contida a contra-gosto. Nos renques da illuminação electrica manifestavam-se eclipses intermittentes, contra os quaes praguejava, sem bem saber porquê, o cocheiro d'uma carruagem estacionada em frente ao Club Universal. Poucas mesas restavam no terraço do Café Riche. Entretanto, um creado somnolento, não obstante a ausencia de frequentadores, persistia, pelo habito, em dispôl-as em symetria, rodeando-as de cadeiras. O chão estava zebrado de humidades adocicadas, escorrido de Apollinaris transbordante, coalhado de rolhas, aqui e acolá brilhante de pedaços de capsulas das garrafas de cerveja. Perto, gania um cão. Mas outro cachorro irrompêra do centro da enorme praça, viera em linha recta, cabeça baixa e cauda erguida, para junto d'aquelle e, após as rapidas saudações peculiares, fôram-se ambos, General Gurjão a baixo. Liberrimos animaes!
Silverio, meio voltado para a esquerda, acompanhara-os com a vista, distrahidamente; até desapparecerem na silente escuridão da rua. Estava sentado n'um banco, havia muitas horas, defronte da curva dos bonds. O olhar avistara um cartaz collado á parede da Casa Adolpho: uma parisiense, com a saia batida pelo rijo vento de Montmartre, puxava um carro-annuncio, formoso preconicio do estabelecimento. Pareceu-lhe que a sua situação moral estava em analogia com o quadro, afora os matizes garridos. Elle tambem andava atrelado ao carro da vida, fustigado e zurzido pelo tufão dos dissabores domesticos. As tintas, porém, com que se devêra pintar a sua existencia tinham de ser amassadas na palheta das desditas,--toda a gamma sombria das cores carregadas, desde o roxo dos goivos ao negro da infelicidade.
Desviou a vista do obsidiante cartaz, pois não fôra para atiçar tristes lembranças que saíra de casa. Bem ao contrario, necessitava de distrahir o espirito, refrescar o cerebro na suave tranquillidade da noite, em plena praça. Tirou o chapéu, conservando-o na mão direita e extendeu os braços pelo espaldar do banco. A cabeça, de largas entradas, pendeu para traz: dir-se-ia um crucificado; e o olhar foi ao alto, cravou-se na insondavel amplidão do espaço, ao fundo da qual phosphoresciam estrellas, aos milhares. Afundou-se então na tremenda reviviscencia dos seus infortunios.
--Lá vae ella outra vez, bradou alguém, á direita.
Silverio, com um estremeção, voltou á vida exterior, buscando descobrir quem falava. Era o cocheiro,--o Cadete ou o Bruzegas,--á porta do Club, encarapitado na bolêa, a denunciar em soliloquio cada intermissão na luz do foco electrico mais próximo.
--Feliz mortal, murmurou Silverio, invejoso da despreoccupação d'aquelle homem.
O Riche, a cuja porta cabeceava o proprietario, estava sempre illuminado; e o servente, fatigado alfim de ordenar mesas e cadeiras que ninguém desarrumava, ia toscanejando, mesmo de pé, escorado á cêrca de uma das mangueiras. Cessara de todo o movimento de transeuntes. Os demais cafés da avenida haviam fechado. Pelas janellas abertas do Universal, desciam ondas da illuminacão dos salões desertos. Nos dois passeios, varredores urbanos passavam sobre o cimento, em largos gestos, longas vassoiras de sacahys. E bem adeante de si, viu Silverio, ao meio do enorme quadrilongo, com o pedestal rodeado de fulgurantes globos electricos, erecta no alto da desproporcionada columna, a estatua da Liberdade, emergindo por sobre a folhagem da arborisação.
--Liberdade! Não ser eu também livre! murmurou suspirando. E, mau grado o seu empenho em distrahir as idéas, voltou a concentrar-se nas maguadas recordações da propria desgraça.
Casado ha quatro annos, com uma compatriota, uma italiana, a quem aliás déra logar em seu leito por um impulso de generosidade, ante a extrema pobreza dos paes d'ella, a breve praso começou a verificar que disparidades capitaes de genios e educação os incompatibilisavam para a vida commum. Ao principio, insignificantes arrufos chegaram a offerecer-lhe um sabor novo na existencia: das pazes que se lhes seguiam vinha um renascimento de ternura, uma ineffavel delicia para a intimidade dos longos e mudos amplexos. Illusorios aperitivos, taes amuos. A pouco e pouco avultaram, tomaram corpo, assumiram as proporções de graves pendencias barulhentas. A mulher tinha a bóssa da loquacidade desenvolvida; e, quando se enfurecia, eram interminaveis gritarias, que o desesperavam na razão directa do natural socegado e taciturno do infeliz.
Aggravou-se depois esta situação, já bem penosa, com a intromissão dos paes de Luiza. A sogra levou-lhe para o lar a contribuição de torturas ineditas. A cada gesto, a cada passo de Silverio, uma recriminação. Embalde buscava o pobre comprar a paz do lar á custa de pequenos presentes para seus tres algozes: nada prestava, tudo de infima especie. «Já viram homem tão falto de gosto?» O Silverio experimentara ao principio chamar á ordem a mulher, com o auxilio de raciocinios discretos, arriscados a medo, mansamente, meigamente. Emtanto, por amor dos dois filhinhos que tinham surgido entre accessos de raiva e curtas calmarias, sacrificou todo o resquicio de sua virilidade moral: recolheu-se ao impassivel silencio de quem acceita resignado a brutalidade do destino. Quando rebentavam-lhe no lar os grandes temporaes, recolhia-se a um quarto, embrulhava-se na rêde, tapava ambos os ouvidos. E mulher e sogra, espicaçadas pela inesperada evasiva, iam levar-lhe a saraivada das invectivas superagudas, esganiçadas em falsete,--emquanto o sogro, impando da farta bonaxira de malandrim obeso, fazia em voz cava os soturnos trovões das ameaças: «Hei de quebrar-te as pernas, cão!»
Todo o seu affecto reverteu para as duas creanças, um pequeno e uma rapariguita adoraveis, que chegavam a ter graça, tal a sua candidez, mesmo repetindo em timidos balbucios as calumniosas exclamações da velha: «Papae é mau! papae é feio!»
Feio, sim, e não era por sua vontade que nascera com uma caraça espalmada, que o sol da America do Sul tostara duramente. Mau, porém, não; e em silencio protestava contra o qualificativo. Dizia-lhe a consciencia não ser merecida a apostrophe; comtudo, sem escorraçar os meninos com a mais leve sombra de censura, tomava-os ternamente pela cinta, sentava-os ao collo, um em cada joelho, acariciava-os de manso, amimava-os, cobrindo-os de beijos e de silenciosas lágrymas.
De tudo isto lembrava-se o desditoso Silverio, inerte no banco da avenida, as pernas entorpecidas pela demorada immobilidade. Ainda ha pouco, ao anoitecer, houvera em casa uma terrivel scena. Persuadira-se Luiza estar o marido auferindo grandes lucros n'uma industria inaugurada mezes antes, lucros que desviava ás occultas para a Europa. E deu para exigir-lhe «a sua parte no negocio». Sogro e sogra tinham acudido com argumentos e gritos: «De certo, é preciso pintar já para aqui os cobres!» E, desenvolvendo preceitos juridicos, explicava o velhote que «a não cohabitação material dos conjuges recolhidos sob o mesmo tecto não impedia a co-participação na pecunia». Dispensou-se de se desculpar, o Silverio; e, para não irem mais longe os brados, que estavam já a incommodar a vizinhança, tomou dissimuladamente o chapéu, fugiu precipite rua adeante, até á avenida. Ali, ao menos, estava fóra da socerina alçada. Safa!
A vista da estatua suscitara-lhe a nostalgia da liberdade. Relanceou um olhar pelo passado, desde a sua chegada a Belém e pasmou de ainda sentir dentro de si o que se chama um coração e uma alma, após soffrimentos tão longos e tamanhos. Onde teria elle o bomsenso, já revelado desde a adolescencia, quando commetteu a leviandade de casar com Luiza? Nada o libertaria agora, porque a sua inteireza de animo, a sua correcção nativa lhe vedavam o supremo recurso da fuga. Prendiam-n'o ao cepo abençoadas cadeias: os filhos, que eram os doces élos ligando o seu alvedrio á desdita.
As creanças! Elle também fôra pequenito, descuidoso e travesso infante, nas amplas veigas lombardas, rescendentes a rosmaninho. Creara-o a inexgottavel ternura da velha mãe, e tinha sido ao som dos rudes osculos bonachões do pae que elle, apaparicado á porfia, encetara a solettração do singelo alphabeto das caricias familiares. Em casa, no antigo e pobre lar, tão arejado no verão e tão cheio de tepidos brazeiros pelo inverno, quando o norte inclemente bramia rispido nos olivaes e carvalheiras, só recebera edificantes exemplos de tolerancia mutua entre esposos amantes, de respeito calmo, de intensissima affeição. E na dupla contemplação do carinho de seus progenitores e da forte paixão com que o gado amava na pradaria, manhã cedo, ao abalar da arribana, iniciara Silverio, desde joven, o seu grande sonho de um lar todo meiguices, em férvida ventura conjugal. O sonho fôra deveras fugaz. Em pesadelo tornara-se depressa, n'estes ardentes paizes americanos, onde tudo parece crescer, desenvolver-se e passar vertiginosamente. Aquelles saudosos tempos estavam longe, formavam um grupo separado, distincto, na vasta collecção de suas recordações de outróra. Presentemente, nada restava da tranquillidade em que se formara a sua adolescencia, na Europa, nem dos esperançosos, dulcissimos sobresaltos que chegavam a tirar-lhe o somno, retendo-o até alta noite no sombrio tombadilho do vapor, quando fizera a travessia do Atlantico. Tudo fugira, na definitiva liquidação da sua felicidade.
Esta dolorosa introversão foi interrompida por um relinchar de cavallo. Olhou Silverio á direita, como voltando de um sonho. Tinham-se afastado os varredores, andava ainda no ar, peneirada na luz dos focos electricos, a poeira levantada pelas compridas vassoiras. Sempre aberto, o Universal manchava de claro a ramaria das mangueiras com a projecção das salas illuminadas. Em frente á porta, o cocheiro falava manso aos animaes impacientados. E o creado do Riche, desperto pelo relincho, obtivera do patrão a ventura de um gesto, ordem muda para fechar.
Entrou Silverio a acompanhar-lhe com a vista os movimentos, as idas e vindas, mesas levadas aos pares, cadeiras conduzidas a duas e duas em cada mão. Feliz homem, esse creado, pensava, se não tinha a inenarravel desdita de possuir um inferno em vez de lar. Ia dormir socegado, tendo trabalhado materialmente,--reparadoramente. A subitas, atravessou-se-lhe uma idéa no cerebro. Erguendo-se n'um esforço, bateu forte com os pés no lagedo, para os desentorpecer, e chamou o servente:
--Deixe essa mesa, disse, traga um cognac.
E sentou-se, com esta sentença espipada de sua ironia dolorida:
--O alcool é a mortalha da dôr.
INDICE
PAG.
Dedicatoria
Uma homenagem I
Represalias 13
Um exgottado 35
Conto do natal 49
A neta da cabocla de Ourém 57
O banho da tapuia 83
Complicações psychologicas 95
Um caso da cabanada 111
Um como tantos 127
OPINIÕES DA IMPRENSA
ENTRE AS NYMPHÉAS
Contos e sensações
POR
J. MARQUES DE CARVALHO
Edição-miniatura de Arnoldo Moen, de Buenos-Aires
_OPINIÕES DA IMPRENSA_
Este novo livro do auctor de _Hortencia_ foi muito lisonjeiramente acolhido pela imprensa nacional e extrangeira. Vamos reproduzir algumas opiniões de jornaes e escriptores notaveis, externadas por occasião do apparecimento do formoso livrinho.
D'_O Paiz_, do Rio de Janeiro:
De Buenos-Aires recebemos um volume do livro _Entre as Nymphéas_, ultimo trabalho litterario do nosso compatriota Marques de Carvalho, Secretario da Legação brazileira. Compõe-se de onze novellas escriptas na Amazonia e foi primorosamente impresso pela casa «La Vasconia» da capital argentina.
É o primeiro livro em portuguez publicado em Buenos-Aires, mas não foi posto á venda ali. Apenas será encontrado na livraria Fauchon, d'esta capital.
Em breve daremos a nossa opinião sobre o seu merito.
Da _Gazeta de Noticias_, do Rio:
_Entre as Nymphéas_ é o titulo de um volume, escripto e publicado em Buenos-Aires pelo nosso compatriota J. Marques de Carvalho, já tão vantajosamente conhecido pelos seus trabalhos litterarios. A edição é formosissima e do merito do livro com mais vagar falaremos.
Do _Jornal do Brazil_, da Capital Federal:
_Entre as Nymphéas_, nitido e elegante volume, impresso em Buenos-Aires e de que é auctor o sr. J. Marques de Carvalho, Secretario da Legação brazileira na Republica Argentina. Contém uma excellente collecção de contos e narrativas, escriptas em estylo correcto e elevado bastante para revelar as aptidões litterarias do auctor, que não é um desconhecido nas lettras patrias.
Do _Jornal do Commercio_, do Rio:
O sr. João Marques de Carvalho, Secretario da nossa Legação na Republica Argentina, publicou um volume com o titulo _Entre as Nymphéas_, contendo diversos trabalhos litterarios seus: compostos em diversas épocas e que offerecem agradavel leitura.
A impressão feita em Buenos-Aires é nitida.
Ainda d'_O Paiz_, secção «Livros Novos»:
Desobrigamo'-nos hoje do compromisso ha dias assumido, publicando a impressão que nos deixou a leitura do novo livro de Marques de Carvalho, Secretario da Legação brazileira era Buenos-Aires.
O volume _Entre as Nymphéas_ contém onze trabalhos, seis dos quaes incluidos na 1.ª parte, sob a denominação geral--_Subjectivismo_, ficando os outros cinco subordinados ao titulo _Objectivismo_. Os primeiros contêm ou descrevem impressões intimas, subjectivas, conforme o proprio titulo indica, falando n'elles a alma «na livre expansão da sua illimitada sinceridade e de todas as forças affectivas que possue». São dedicados pelo auctor a sua esposa, «o amparo dos seus desanimos, o jubilo dos seus dias prazenteiros».
A nota dominante do livro é toda de tristeza e de melancolia. Através de suas paginas percebe-se a saudade, a dôr, o desespero, o horror a tudo quanto não é puro, a tudo aquillo que resulta da falsidade, da mentira, do convencional. Collocado em meio das florestas virgens do Amazonas, vivendo a vida simples dos habitantes d'aquellas paragens encantadoras, que outra impressão poderia beber o auctor em tão suggestiva situação, senão a impressão do bom, do justo, do sentimental?
D'ahi a naturalidade com que o livro foi escripto, sem grandes arreganhos de fórma, embora n'um ou n'outro periodo a gente fique a suppôr que Marques de Carvalho pende para o falso _nephelibatismo_. Indubitavelmente a naturalidade é uma das primeiras qualidades do escriptor, sendo que os livros que mais successo causam, são justamente aquelles em que o estylo, sempre correcto, sempre bello, não ultrapassa as raias do espontaneo, do natural, para caír no ridiculo das adjectivações estrambolicas, retumbantes e malsonantes.
Lê-se com prazer os onze contos concebidos «entre as nymphéas, na região dos nenuphares e da Victoria Régia». Destacamos, porém, da primeira parte, por nos ter melhor impressionado, a fantasia intitulada _O cemiterio da floresta_, em que o auctor faz bonitas considerações sobre a hypocrisia das grandes cidades dos mortos e sobre a poesia de uma sepultura entregue á guarda das mattas virgens e ao eterno choro das aguas que deslisam mansamente junto á orla da floresta.
Da segunda parte, onde apparece, com as _Yaras paraenses_, uma ponta de bom humor, pedimos permissão para salientar ainda dois trabalhos: _Mater dolorosa_ e _A filha do Pagê_, conto indigena com que o auctor fecha o seu livro.
_Entre as Nymphéas_, embora impresso em Buenos-Aires--o trabalho typographico é admiravel--não está á venda n'aquella capital.
Os jornaes platinos têm tecido muito merecidos elogios ao nosso compatriota, com a apreciação do seu livro. _La Patria Italiana_, principalmente, diz ter-lhe causado a mais agradavel das impressões a leitura dos contos de Marques de Carvalho, affirmando que _Entre as Nymphéas_ vem augmentar os louros colhidos pela actual geração litteraria do Brazil.
Felicitamos cordialmente o nosso compatriota e collega, cujo talento de escriptor já se tem manifestado nas suas diversas faces com a publicação de tres opusculos e de tres outros volumes: _Hortencia_, _O livro de Judith_ e _Contos Paraenses_--todos bem recebidos no paiz e no estrangeiro.
De Valentim Magalhães, em folhetim d'_A Noticia_.