Part 20
A minha paixão d’aquella noite foram os filhos da aguia.
Persistia na idéa de creal-os--de os fazer gente, dizia eu. Tinham os olhos quasi fechados, com uma orla amarella e a nictitante espessa, meio descida. O pescoço nú offerecia um desenho esguio, andavam de rojo, dando pequenos gritos em busca da pennugem quente da mãi. Metti-lhes á força miolos de pão pelo bico, que elles bolsaram escancarando a guéla com carantonhas de uma graça infinita. Em seguida servi-lhes agua, mas recusavam tudo, os biltres, e se os deixava um momento punham-se a girar de cabeça alta, á procura do aconchego que não sentiam. Minha irmã que apesar do mysterio em que eu envolvia as minhas operações, conseguira espreitar o que eu fazia, trouxe-me então a idéa de metter as aguiasinhas debaixo da gallinha que na capoeira chocava os ovos que fôra pondo.
--Ella pensa que são já pintainhos, e as aguias vão crescendo, crescendo... E dás-me a mais pequenina, sim?
--Dá!... uma figa.
Quando nos mandaram deitar ás oito horas, tudo estava feito--a gallinha consentira em adoptar os dois orphãos e a coisa ia bem! Não pude dormir em toda a noite com a idéa nos pequenos. Se a gallinha os picasse, se os deixasse cahir do cesto!... Os gatos lançar-se-hiam furiosos contra esses dois desamparados e devoral-os-hiam, rosnando.--Applicava o ouvido: se ouvisse chiar saltava logo da cama. Quanto tempo levariam a crescer? Um mez ou dois--estavamos a quatorze. E contava pelos dedos--era tanto tempo ainda! Mandaria fazer um carro, que os filhos da aguia puxariam. E com que inveja ficariam os rapazes da escóla, vendo-me arrebatado pelos volateis, como esses deuses que representava o _Manual Encyclopedico_! No dia seguinte, ergui-me cedissimo, havia estrellas ainda. E mesmo descalço fui, pé ante pé, até á capoeira, para investigar do que havia. Os moços na eira, faziam já girar os bois na retraçagem dos calcadouros, e ouvia-se na altura o _angelus_ vibrado pela cotovia. Acocorei-me devagarinho ao pé do cesto, estendendo as duas mãos ao longo da palha.
A gallinha dera signal, e cheia de colera, as pennas alvoroçadas, precipitou-se contra mim á bicada, implacavelmente, até me fazer sangue. Ás apalpadellas percorria a cama de palha em que os ovos se aninhavam; achára apenas uma das aguiasinhas. Diabo!...
Então, sem medo já que dessem por mim, corri a abrir a lucarna, e o dia entrou, humedecido pela neblina cheirosa da manhã. Estava apenas uma aguia, era certo!... Dei um berro de novilho marcado a ferro candente, que resoou por toda a casa. Queria a outra aguia por força, por força, por força! Queria-a, então? Queria a porque queria! Era minha, tinha-a eu achado, então? E como ninguem dava resposta entrei ao pontapé a tudo, ebrio de uma raiva sanguinea. E n’um formidavel choro rolava-me pelo ladrilho todo nú. Todo o meu grande desejo era que me attendessem e viessem todos surprehendidos, saber o que havia. A voz de minha mãi chamava pelas criadas; entrei a sentir nos quartos ruidos bruscos de sapatos que se arrastam e saias que se enfiam, á pressa. Já gritava menos, conseguira o meu fim, tinha incommodado e mettido susto a todos de casa. Era bastante! Agora, iriam todos procurar a minha aguia, haviam de m’a encontrar por força, ou arranjar-me outra novasinha em folha, como aquella. Apre!
Quando de repente me chegou o grito da mãi roubada, grito brusco e quasi surdo, como se o coasse uma larynge extincta. Toda a noite o ouvira, ora perto ora distante, e sempre com uma nota de ira impotente e supplicação desprezada, na tenebrosa calada do matagal. Fui para a lucarna instinctivamente attrahido, á escuta. Era um grito intermittente, primeiro muito fraco e repetido, como de alguem a gemer--_gri! gri! gri!_--; após, subitamente, essa voz dilatava-se, enrouquecia, fazendo quasi um bramido. Uma mulher não expressaria melhor a angustia, o desespero e a morte. Córava o oriente como uma epiderme sadia traduzindo a commoção d’um beijo; nas moradas dos ninhos, entre decorações de folhagens e caricias de poetica doçura, as familias de passaros, de melros, de pintasilgos, rolas e poupas, chilreavam felizes e singelas, deslumbradas na irradiação do céo.
Só ella, a aguia, ia chamando embalde pelos seus, através a vastidão egoista do ether, em que a vibração luminosa ondulava, e apunhalada no seu unico amor como essas crueis imperatrizes, que Deus castiga no unico ponto vulneravel da sua alma.
Com os olhos alongados, via-a rastejar á flôr do sólo, pelas chapadas e penhascos, extenuada e rouca, despregando as azas obliquas, de enormes remiges em cutelo, como tectos de lares despovoados pela assolação da morte.
--Coitadinha! dizia eu commovido. Coitadinha!...
Então fiquei entorpecido n’um constrangimento profundo e singular, que nunca tinha experimentado. Sentia na guéla o embaraço inexprimivel, que é nas crianças o prologo do choro, do grande choro soluçado e inconsolavel, sob que a alma germina em bons impulsos e leaes dedicações, como na terra se abrem as flôres primaveraes, sob o influxo das primeiras chuvas.
Antes que viessem surprehender-me corri a vestir-me, e resoluto, os olhos cheios de lagrimas e a corda á cintura, voltei a buscar depois a aguiasinha. Minha irmã chamou-me, soluçava.
--Olha, morreu!... disse-me toda afflicta, mostrando-me o cadaver da outra aguia, que durante a noite, com mil precauções tinha ido roubar ao cesto.
--Por isso achei falta, gritei colerico, batendo o pé. E aos urros, crescendo contra ella de punhos cerrados, dizia-lhe golfando improperios:
--Maldita! Má! Peste! Nosso Senhor ha-de castigar-te, deixa estar.
Ai de mim! Na capoeira, a gallinha raivosa, reconhecendo o outro engeitado á luz da manhã, acabava de o matar á bicada, lançando-o fóra do cesto.
Então desatei a chorar. Nunca fôra tão desgraçado, nunca!... Nem quando me davam açoites com o chinelo, o que estava debaixo da cama de meu pai, a rir-se de mim pelo buraco ignobil da tomba. E agora, que fazer?
Metti no seio da camisola os dois engeitadinhos mortos, e a correr atravessei a eira, sem dar bons dias a ninguem. O dia começava. Rasgando as escuridões em que se envolvera, o panorama sahia das nebrinas dissipadas a golpes de sol aqui e além, nas cristas dos outeiros. Desci a correr a ladeira do monte, pendores suaves d’onde o olhar abrangia para todos os lados, perspectivas do mais bello matiz, montados, restolhos de searas, regatos orlados de choupos e faias, mais para além, hortejos alegres onde chiavam noras e se espiralava o fumo dos casaes, vinhedos sem fim bordando sinuosidades bucolicas, brancas ermidas pousadas nas montanhas, e perdendo-se na serenidade esfumosa do horisonte, povoações que na luz iam fazendo mais e mais nitidos os seus delineamentos. A paizagem tinha agora uma nitidez de gravura. As aldêas sorriam para o noivado da natureza em festa, em quanto d’uma banda e outra, grandes massas de arvoredo abriam destaques surprehendentes.
Iam tranquillamente pelos terrenos ceifados, os carneiros dos rebanhos, alongando o pescoço, a fofa corpulencia tufada da lã patente em camas de espiraesinhas miudas.
Alguns velhos guias experientes e graves, de focinho erguido, a grossa cornadura em anneis de diametros crescentes, toda enrolada como o arripio da cabelleira de um _dandy_, chocalho pendente por corrêas de couro crú, a orelha inquieta, olhavam vivamente o largo, bebendo os sons e procurando-lhes a origem solicitos, como quem tem sobre si a responsabilidade da tribu e o futuro dos pequeninos. Acima da redondeza das ancas de alguns, cabritinhos fulvos, de grandes orelhas horisontaes, uma meiguice candida na vista, erguiam-se a prumo furando caminho, as maxillas entreabertas, por onde se escapava um queixume tenuissimo--_mé! mé!_--alguma coisa como os rudimentos da cartilha do rebanho. Varios preguiçosos, estacados a meio da corrente mergulhavam o focinho na agua, bebendo. Poucos tinham já passado, e cortavam a dente as gramineas alastradas nas barranceiras. O velho cão descança, n’uma postura séria de patriarcha, em quanto nas meias tintas dos planos secundarios, o pastor de manta ao hombro e polainas encarquilhando na grossa tromba dos sapatos cardados, tinha o seu ar pasmado de montanhez, olhando a catarata de ouro fundido que o sol jorrava do nascente, n’uma apotheose de causticas vivas--olhar em que se estagnava a silenciosa doçura triste dos olivaes cinzentos e se reflectia a concepção pantheista de um Deus amantissimo, que fecunda os trigos das searas, preside ás crias e vem de noite, mansamente, com o seu capuz de estrellas derrubado para diante, lançar a benção ao gado que dorme, inoculando no sonho do pastor o esmalte de um sorriso de ceifeira, vermelho como as cerejas humidas de junho.
Correndo através do montado cheguei á ribeira, que pude salvar n’um pulo de lobo, e sem me deter entrei a trepar a pedregosa encosta, na direitura do ninho. Faziam-se alli accumulações selvaticas de tojeiros e silvados, cabeças de rochedos pardacentos, espinhaes de luxuriante amplitude, que tolhiam o passo a quem ia. E aquelle recanto plutonico e brusco desenhava-se n’uma como penumbra de floresta, que de cima cahia filtrada pelos amontoados da folhagem. Deixára de ouvir a aguia, e era pungente o socego d’aquella região, equiparado ao orpheon gigantesco de volateis, que na planicie entoava o poema symphonico da manhã. Por duas ou tres vezes ergui a voz para insufflar a vida nos echos do desfiladeiro. De rocha em rocha quando muito, o echo repetia a ultima syllaba, n’um murmurio timido como rezado á roda de um feretro, e morria.
Pela montanha, troncos penitentes e negros, orando de braços abertos. Nos pegos da ribeira, as reticulações verdenegras dos limos deixando evolar a putrilagem das febres más. Silencio abrazado, pesando.
Quando cheguei ao ninho arquejava. E antes de erguer a vista sobre elle, detive-me um instante, olhando á roda com um terror sombrio que o remorso envenenava. Se a aguia désse commigo podia matar-me á bicada. E teria razão--ai de mim!
Estava sósinho. Não se via d’alli o monte já. De repente, casualmente, sem mesmo querer, dei com a aguia que de cima do ninho abria as azas, e sobre mim estendia o seu pescoço avido. Fiquei tremendo ante a raiva silenciosa que paralysava a terrivel rainha. Ella ia de certo formar vôo e cahir sobre mim, para dilacerar-me com as suas garras de tres gumes implacaveis de uma vingança cruel.
Olhamo’-nos por tempo. As azas da aguia abriam os seus leques enormes de varetas curvas. A immobilisação porém continuava e o pescoço permanecia cahido á borda do ninho. Veio-me a idéa de que podia estar morta. Atirei-lhe com uma pedra--a mesma indifferença.
Sem querer saber de mais, desenrolei a corda e atirei-a á primeira pernada da arvore. Quando attingi a altura do ninho, pude olhar bem de perto a aguia agonisante, que um fremito vago percorria. Era poderosa e magnifica, de enormes azas pardacentas, cujas fortes remiges se aguçavam como punhaes, na ponta. Estava de bruços sobre o ninho, como se quizera aquecer o peito de encontro aos froixeis alvinitentes em que os filhinhos tinham visto a primeira luz. A cabeça um pouco chata descahia adiante n’um bico de bordos dentados, e sobre a iris de oiro, a nictitante ia descahindo na sombra da agonia, como um apagador sobre a luz do cirio paschal.
A aguia morreu n’esse dia, á mesma hora em que as outras aves voltavam cantando aos ninhos, para dormir com a prole. Por muito tempo, cruzando o montado atraz dos rebanhos de meu pai, pude vêr nos cimos da azinheira gigante, suspenso o berço-tumulo, a que o esqueleto da aguia fazia guarda, dia e noite, de azas estendidas, branquejando na sombria folhagem da arvore. E vinham-me então remorsos, que fôra eu o assassino d’aquella dynastia real!
* * * * *
Vai completar-se um anno que a tua filha desceu á cova, ó minha mãi! E vendo-te curvada no teu luto, pobre mulher envelhecida de lagrimas, sublime por toda uma vida de abnegação sem exemplo, para mim fico pensando, que deve ser cruel o Deus que tu adoras, se nunca teve remorsos de haver roubado tambem--_o Ninho d’aguia_.
1881--Villa de Frades.
[Illustração]
A DOR
Quando o ultimo _orango_ deu origem ao primeiro homem, e esse homem, chegando á virilidade pôde desfrutar a grandeza da indomavel força de seu pai, domada pela bondade hilariante da sua luminosa intelligencia, fez um dia a si proprio esta pergunta:
--Em que diffiro eu d’aquelle carrancudo sêr, que não falla senão por guinchos e só por contracções grotescas se exprime, que para a alegria tem um grito e um urro para a cólera, que vê morrer os filhos e fugir-lhe a esposa, sem que o invada este desconsolado entorpecimento que eu sinto se não remedeio o mal, e se para o que me cerca não encontro explicação?
Elle caminha aos saltos, coberto de pellos e ululante de vinganças, trepando pela nodosidade dos caules e enchendo do seu terror feroz as grutas e os maciços das florestas palpitantes de ninhos, pisando sem remorsos as corollas mais purpureas e os calices mais olorantes, e não vendo na vastidão opulenta e na chromatica irradiante d’esse mundo alado ou d’esse mundo vegetal, mais que a rêde em que descuidosamente os seus inimigos vem cahir e onde elle faz as suas victimas!
É das differenças superficiaes de estructura--de eu estar nú e elle vestido de pellos, de elle ter cauda e eu não, dos seus pés terem o feitio das suas mãos prehensis, em quanto as minhas plantas se espalmam pela asperidão das marchas a que as submetto--é das differenças apparentes de organismo, que nascem estas discordancias de natureza--n’elle a seccura, a ferocidade, o egoismo e a inconsequencia--em mim o sagrado terror da responsabilidade, o alcance de vistas que me perturba, a previsão sagaz que me aconselha, e esta commoção sem origem que se entorna no meu corpo, e me tortura ou me enthusiasma, conforme provém de uma necessidade satisfeita, ou conforme provém de um contratempo inesperado?
E como se interrogava em voz alta, no meio dos castanheiros que as trepadeiras vestiam em amplexos concupiscentes nas suas couraças de folhas, viu surgir dos rochedos negros em que pousava, o velho deus das selvas, alta figura cingida, de cachos e coroada de flôres, com barbas de musgos e vasta cabelleira de relvas verdejantes.
--Abre a cabeça de teu filho, disse o deus.
O homem tomou o machado de silex, chamou seu filho, e fazendo-o ajoelhar fendeu-lhe o craneo de um só golpe.
--Essa caixa de osso que partiste, é como a casca lenhosa de certos fructos tropicaes de que te alimentas. Partida a casca, esses fructos revelam a polpa delicada, de extraordinario tecido e exquisito sabor.
--Guarda esse fructo, disse o deus.--E após, com imperio:
--Abre a cabeça de teu pai! ordenou-lhe. O homem encontrou na toca do grande baobab o velho _orango_ que lhe dera o sêr, acocorado e tropego, roendo talos. Deu-lhe as boas noites, pediu-lhe a benção como de costume, e quando o _orango_ lhe estendia a mão lanugenta, sentiu na fronte o gume do machado que lhe separava o craneo em duas metades.
--Extrahe-lhe o fructo, tornou o deus, e o homem obedeceu.
--Bem, disse o outro.
E apontando cada um dos cerebros desnudados:
--Este é o cerebro de teu filho, este o de teu pai. Vês que é maior o do pequeno que o do velho, não vês? Agora segue com a tua unha estes arabescos mysteriosos que sulcam a polpa arrancada ao pequeno. Elles desenham o quer que seja de legenda em hieroglyphicos: é a buena-dicha da especie humana. São as _circumvoluções_, que mal se esboçam no cerebro do _orango_ e que os teus levarão mais e mais profunda e profusamente impressas. Até teu pai o cerebro era alguma coisa tosca como o granito; de ti por diante elle lapida-se, depura-se e modifica-se--é a pedra preciosa, caustica na sombra e tenebrosa na luz, dotada de fulgor proprio e propensa a illuminar ao longe os tenebrosos recessos dos instinctos que herdaste e tens de transmittir suavisados e aptos á utilidade, pela cultura a que tu mesmo os forçarás. Corta-os ambos em pedaços e examina-os bem. São da mesma materia, teem identica fórma e parecem do mesmo valor. Mas um é o ferro bruto que o mineiro distilla do filão recondito, o outro é o ferro dotado de propriedades magneticas. Pódes chamar áquelle, carvão negro e torvo, se tiveres olhado n’este o diamante lapidado, que scintilla pelos engastes das tuas orbitas como se ardesse vívido na corôa de um rei.
--Comprehendo! disse o homem pensativo.
--Olha melhor esse miolo dos dois fructos descascados. Cada polpa se me afigura formada de lobulos ou espheroides. É como um continente dividido em nações pelos grandes rios, ou um paiz repartido em districtos, pelas grandes estradas reaes. Cada districto é a potencia que rege alguma determinada funcção do corpo--são as bossas. Ha a bossa da memoria, a bossa da intelligencia, a bossa da luxuria, a da gula...
E apontando cada proeminencia, o deus chamava-as pelos seus nomes. Algumas que eram salientes na criança, ou mal se esboçavam no _orango_ ou positivamente não existiam[5]. Em compensação o cerebro do bruto tinha n’outras, um desenvolvimento colossal a respeito do pequeno. O deus fazia-as comparar miudamente, uma a uma.
[5] Faz notar Gratiolet, que as circumvoluções dos mais rudes _primates_ são como o schema das circumvoluções do cerebro humano.
--Todas as que presidem á direcção de necessidades animaes, instinctos ou appetites, são consideraveis em teu pai, dizia elle ao homem. Todas as que se referem ao intellecto são de surprehendente grandeza em teu filho. Eis por que buscas alguma coisa mais na vida que a replexão do teu estomago se tens fome, que a ingestão de agua corrente se tens sêde, que o repouso se tens somno, e o coito brutal se a virilidade do teu sexo faz explosão ante a femea que passa, serva obediente da tua crueldade ou docil instrumento da tua lascivia! D’esse instincto, que a natureza instituiu para povoar os seus continentes e os seus mares, encher de rumor as florestas e de cardumes as aguas, instincto todo grosseiro nos que te são inferiores, tiraste tu os effeitos mais dôces, as symphonias mais limpidas, os mais castos threnos e as mais scintillantes volatas. Chamaste-lhe o amor, e crystallisando o amor transfizeste-o na adoração. Á femea escrava quebraste as algemas, não consentindo que os seus pés sangrassem, como os teus rudes pés de luctador, nos abrolhos da selva e nos espinhos da maledicencia. Da tua rude cabana fizeste um templo, da tua fé um lampadario, uma cupula da tua religião e da mulher o teu deus. No santuario do teu amor, puzeste o deus, e da cupula do templo o lampadario encheu de esplendores mysticos a tua familia e a tua alma. Pela adoração domaste a tua força, aprendendo a ser delicado para os fracos, altivo para os soberbos, cruel para os maus, justiceiro, generoso e valente! Estas qualidades deve-las á tua intelligencia, fluido singular que emana d’este lobulo--e apontava--e te destacou dos teus antepassados. Por essa faculdade, dominarás os elementos e os animaes, serás rei e senhor, porque o teu braço obedecerá sempre á tua cabeça. Cada geração receberá da anterior um patrimonio de idéas adquirido, entregando religiosamente á que lhe succeder, acrescentado pelos seus esforços, esse patrimonio sagrado e inviolavel. A tua ambição será satisfeita, descança.
--E serei eterno? disse o homem, tremendo áquella idéa.
--Na historia.
--Na vida! Que me importará a historia? Se poderei viver assim sempre, dominando mares e povos, e experimentando cá dentro esta plenitude de seiva que extravasa do meu corpo, e se desentranha em colossaes alegrias?
--Não! disse o deus com voz profunda. Morrerás!
--De que me serve então tudo isto? exclamou elle contrahindo a face serena, que uma graça infinita deificava. E erguendo os braços desesperado cahiu a chorar a mesquinhez da sua condição. O velho deus sorria.
--E qual a bossa, que no cerebro de meu filho corresponde a este horrivel veneno que a tua palavra me faz beber?
O deus apontou-lh’a, dizendo:
--Esse veneno chama-se a _Dôr_ e nunca envenenou teu pai.
--Faze-me então voltar á nativa bruteza dos meus, disse o homem. Prefiro a inconsciencia rude do _orango_, a essa intelligencia que illuminando-me a vida me faz d’ella um ergastulo, e onde não poderei fazer um passo, bom ou mau que seja, sem que este tribunal interior, incorruptivel e soberano, me detenha se vou com pressa, ou bruscamente me acorde se adormeci, para me julgar do que eu fizer e para me castigar a toda a hora.
A voz do deus bradou:
--Jámais!
E desde então esse animal vaidoso, julgado o mais perfeito e o mais livre dos sêres vivos, tornou-se no miseravel escravo que eternamente geme sob o chicote do seu verdugo--esse verdugo que se chama: o Pensamento.
FIALHO D’ALMEIDA
CONTOS
PARTE II
A cidade do vicio
NO PRELO