Part 19
Em tempos d’el-rei João III nosso senhor, o mosteiro fôra entregue aos jesuitas então no maximo esplendor do seu poderio e fortuna. Era alli que mais de preferencia se recolhiam os santos padres de Jesus.
A contemplação do oceano cantando a sua eterna legenda, a linha caustica entre céo e mar, a solidão e a poesia do sitio, convidavam aquelles homens negros, que a meditação preenchia, como um liquido preenche um vaso. A cerca perdeu n’esse tempo uma parte da sua nudez--viram-se os limoeiros e as madre-silvas vestir os muros, jorrar agua das carrancas dos tanques, e os pomares arredondarem as suas pinhas de verde envernizado. Permittiu-se ao povo que visitasse a horta, os claustros e as grutas de devoção particular. Á hora da missa a turba enchia o mosteiro avida e devota; as confissões feitas com fervor, mas sem as ameaças do inferno que os antigos monges vociferavam, attrahiam sympathicamente os penitentes. E Deus appareceu á terra sob uma face de perdão, que quasi se desconhecia.
Cem annos depois, apesar de se guardarem com a maior fidelidade, as santas reliquias e milagres do mosteiro, as vetustas tradições estavam esquecidas entre o povo, e poucos se lembravam de ter ouvido aos avós a narrativa das duas cabeças do enforcado, do pai e do filho, e da morte do physico-mór.
Mas eis que o marquez expulsa os jesuitas, cujo poder e argucia arcavam com os seus.
Do portico escancarado vê-se sahir uma procissão de padres negros e fronte pallida, de cruz á frente. As santas mulheres ajoelham na passagem para lhes beijar os vestidos e receber a ultima benção. De novo o mosteiro fica deserto, sem o caracter hospitaleiro de uma casa de conselho e oração consoladora. Os negros phantasmas dos monges ascetas, lividos e frios, prégando abstinencia e flagicios volvem a percorrer os claustros lugubres e a rezar nas capellas, em que os olhos dos idolos ameaçam o mundo e proclamam a aniquilação dos povos. Uma treva enlucta os espiritos e fluctua de emtorno ás muralhas. Em baixo, o escarneo da vaga que alue pelas cavernas o alicerce de rochas do templo, é como um rir de diabo aos pés de um Deus inanimado! De noite, a lua que lança flechas pallidas pelas setteiras profundas para dentro do mosteiro, alumia estranhos conclaves de espectros. O vento segreda nos nichos e á roda dos mausoléos, e baixinho parece orar aos pés do santuario. A chuva infiltra-se nas abobadas e humedece os cimentos. D’entre as junturas das pedras irrompem gramineas e zambujaes. Ninguem vai vêr o mosteiro e o portico está fechado. E aquella mole de pedra, emburelada em musgos e erguida á beira do mar, lembra um suicida ajoelhado fazendo a ultima oração.
* * * * *
No verão de 1880, o conde F. meu amigo, lembrou-me que poderiamos fazer na sua propriedade uma estação agradavel. Tinham acabado n’ella um chalet elegantissimo em tijolo vermelho, com tectos de cortiça apainelada, á beira-mar. O parque de eucalyptus, enorme e cruzado de aleas, que uma arêa negra polvilhava, offerecia já troncos de grande espessura e belleza, soberbos e direitos, sacudindo aos ventos salgados da costa os seus molhos de folhas em cutelo. Para o interior a vinha era tão exuberante que subia pelos troncos das arvores, os pomares alastravam-se turgidos de fructos n’uma distancia de milhas, e nas collinas que demarcavam o dominio, immobilisava-se o verde funebre dos pinhaes, cujos filamentos pareciam cabellos verdes de antigos deuses aricos. Na matta, a caça abundava, coelhos, rapozas, perdizes e gallinholas. Para obtermos a melhor pesca, bastava que debruçados na amura de rochedos, lançassemos as redes á agua. O calor em Lisboa apertava; imagine-se o que seria no Alemtejo, na casa de meus paes! Decididamente valia a pena ir com F., valia decididamente a pena. E partimos. Antes de penetrar na quinta dei com o mosteiro, em que nunca ouvira fallar. Veio-me naturalmente a curiosidade de o vêr por detalhe, e passar uma noite até, com as sombras legendarias e romanescas que tamanho medo faziam ás aldêas circumvisinhas.
Por baixo do edificio, o mar tinha escavado profundissimas cavernas que as algas mais finas tapisavam traiçoeiramente. Estalactites conicas desciam da abobada a encontrar estalagmites, em que os molluscos arrastavam mosaicos de incrustações excentricas. Por entre as columnatas o fragor da ressaca, nas noites de temporal, era de instrumentação titanica, e reboava no templo como a evocação biblica do Valle de Josaphat.
As grutas prolongavam-se nas trevas em todas as direcções, e iamos de gatas, escorregando nas babugens que a maré deixava na dentadura das penedias. D’uma vez o archote apagou-se-nos, e o phantastico palacio do mar não tinha termo--galerias sobre galerias, columnas truncadas e janellas abertas sobre a treva fetida e sepulchral!
Visitadas as cryptas, penetrámos no mosteiro. Tão pesada e ampla construcção fez-me vêr que a base perdia pouco a pouco a solidez, á medida que por baixo a onda ia limando o granito. Aqui e além até, as abobadas fendiam surrateiramente; em cada inverno chuvoso, se succediam os desabamentos parciaes, e o lagedo dos claustros abaúlava-se abrindo boccas nas junturas, de que uma respiração putrida parecia exhalar-se. Tinhamos chegado á quinta nos fins de maio, e em julho ainda lá estavamos. Mas fatigados já, o conde especialmente, que o retinham alli negocios de dinheiro, por que dizia sentir o mais authentico desprezo. Visitado o mosteiro, caçadas todas as perdizes, gallinholas e betardas do sitio, ferido nos viveiros naturaes da costa um bom golpe de pesca, as nossas duas imaginações impuzeram-se o trabalho de descobrir diversão, que nos garantisse a estada na quinta até meados de agosto--tempo de Cascaes e do jogo forte.
Uma manhã ergui-me antes do dia e fui acordar o conde.
--Achei, venho participar-t’o.
--O que achaste tu a esta hora?
--Uma distracção, c’os diabos!
--Da natureza das outras, aposto. Modificaste o feitio dos papagaios, hein?
--Ora adeus! disse eu rindo.
--Então dize lá.
--Sabes que me dou um pouco á telegraphia?
--Não tens lucrado muito com isso, não.
--Vaes vêr que se lucra sempre em saber as coisas. Vou mandar vir o meu transmissor aperfeiçoado e fios conductores.
--E estabeleces um telegrapho entre o chalet e a casa da Palmira. Estás tolo, com toda a certeza.
--Mau! Ouve.
--Bem! Dize.
--Ligo o transmissor por meio de fios, aos dez fios telegraphicos que se apoiam na rosacea do mosteiro. E recebemos os telegrammas fresquinhos e sem pagar nada. Hein?
--Mas, disse o conde encantado. É preciso que vamos habitar o mosteiro.
--E porque não?
Elle deu um salto na cama.
--Mas é esplendido!
--De certo.
--E póde-se alarmar o paiz.
--Não vejo como.
--Nem eu, c’os diabos, mas póde-se alarmar.
--Bem.
--E é como se os telegrammas nos fossem enviados directamente, como se nos obedecessem a agencia _Havas_, os gabinetes da Europa, as grandes capitaes, o Oriente, e o diabo que te leve, que nos leve e leve todo o mundo!
--Eia!
--E podemos incendiar o orbe.
--Pelo telegrapho? que idéa fazes do telegrapho?
--Eu, nenhuma. Não morde?
--Conhecendo as pessoas, não.
--Tanto melhor! E quando teremos os apparelhos?
--Ámanhã.
--Telegramma que passe, hein?...
--Não escapa!
--E gratis, gratuites, sem pagar nada, hein?
--Clarissimo!
--Dá cá um chôcho pela idéa.
--Prefiro um calix de Madeira.
No outro dia, o transmissor chegou com o rolo de fios, e mettemo’-nos á obra. Ás cinco da tarde recebemos o primeiro telegramma.
«_S. Petersburgo, 8, ás 11 horas da manhã.--Uma bomba explosiva rebentou junto do czar, quando este se preparava para montar a cavallo. A policia procede em investigações.--Havas_».
--Este diabo escapa sempre. É extraordinario.
--Ahi vem outro.
--Vou jurar que é bomba, que ainda d’esta vez não alcançou o invulneravel.
--Nada. «_Paris 8, á 1 hora. Chegou a embaixada Birman e partiu o snr. Grevy_».
--Todos para casa do diabo.
Estavamos no côro de marmore branco, com baixos-relevos representando martyrios de santos. Das paineluras negras, monges e virgens perdiam-se na penumbra da abobada, deslocada pelo templo com uma vastidão de crepes. As estatuas dos monges e cavalleiros pareciam colossaes, de immoveis nos mausoléos, essa austeridade das figuras de Miguel Angelo, no tumulo dos Medicis.
--É triste isto! disse eu commovido.
A perspectiva do mar, roxo da banda do nascente, tinha irritações animaes até á linha rubra do occaso--dorso de cetaceo ensanguentado pelo arpéo do sol moribundo. A vista, que percorrendo a immensidade liquida sem repousar n’um ponto, voltava com um desalento de ave ferida, trazia a idéa da morte e a saudade de uma existencia menos crua, n’esses dithyrambicos impérios em que as cabeças se corôam de flôres.
De repente, na absorpção em que tinhamos cahido, pareceu-me que um fremito percorrera o balaustre onde me encostava. E cada vez mais distantes, foram-se succedendo estalidos seccos.
--Não ouviste? disse eu ao conde.
Elle não tinha ouvido. O que?
--Parece que isto tremeu.
--É que te escutavas. E como estás com medo...
Pozemo’-nos a rir.
--Sabes que mais? Vamos passar a noite ao _chalet_.
--Cobarde!
--Tanto melhor! E se esta dança nos cahisse em cima?
--Oh diabo! Podia ser que não ficassemos vivos, não te parece?
--Quasi.
--Então vamos. Primeiro a tua saude.
--Obrigado. Queres que eu tenha medo por nós dois.
--Mas os telegrammas?
--Ámanhã continuaremos na exploração.
--Olha bem para mim. Isto é exploração ou roubo, hein?
--Seja roubo. Anda.
--Então dá ás coisas os verdadeiros nomes, irra!
Descemos. Aquelles estalidos tinham-me dado calefrios, palavra de honra.
--Como tu vens enfiado! dizia F. troçando.
--Como tu vens amarello!
--Qual de nós teve maior susto?
--Foste tu; é boa!
--Foste tu; pois quem?
--E se ficasses na derrocada, ó conde?
--Não tinha pena, palavra.
--Bem, não fallemos mais em tal.
--Mas ámanhã continuamos com os telegrammas?
--De certo.
--E elles que chegam como garraios!
No dia seguinte, era meio dia quando acabamos d’almoçar. O conde bebia como um saxonio, para honrar a memoria do irmão de seu tio, dizia, honrado commerciante londrino do Caes do Sodré.
Em plena luz e sob a pressão de quatro garraforias ninguem tem medo. Vamos aos telegrammas?
Deitámos caminho do mosteiro, e entoando o _God save the queen_ apparecemos ante o portal gothico do templo. F. gritou-me zombeteiramente:
--Adiante! Era elle quem tinha medo.
Subi ao côro. Na fita de papel, sempre em movimento e desenrolando-se com imperturbavel presteza, no cylindro de aço annexo ao apparelho, o punção do receptor tinha escripto, horas antes, este telegramma:
«_Paris 9, ás 10 horas da manhã.--Terminou o prazo de 24 horas concedido aos jesuitas de Paris, para sahirem das casas que occupavam e fecharem os cursos publicos que regiam. Hoje ás 11 horas, a policia fará despejar todos os estabelecimentos da Companhia de Jesus. Receiam-se disturbios. O prazo de 15 dias foi cedido aos estabelecimentos da mesma Ordem, em actividade em toda a França._»
--A padralhada vai ficar fula! gritou F. O que dirá padre Kurpi, respeitavel e escanhoado director espiritual de minha tia baroneza? Eh! que vai tudo razo!
--Uma hora. Isto enfastia. Vamos ás ostras.
--Não vejo inconveniente, disse o conde com um jogo de hombros. Vamos lá.
--Se passar algum telegramma, o punção deixa na fita escripto o que houver.
Descemos aos rochedos e das rochas á arêa. A maré enchia, e uma agua crystallina e tepida, do sol no zenith, acariciava lubricamente as barbaças das caryatides d’alga que á bocca da gruta faziam carantonhas.
--Já fizeste a digestão? inquiriu F.
--Já e tu? E o banho está tão patife!...
--N’esse caso atiremo’-nos á agua.
--Vá feito.
Em cinco minutos, as nossas cabeças sahiam á flôr do oceano como as d’esses tritões alegres, que nas estampas rodeiam os carros em concha dos deuses marinhos. Nadavamos a distancia em frente da caverna, que vista d’aquelle ponto tinha as mais singulares parecenças com uma bocca de reptil descommunal.
--Repara, dizia eu apontando. Aquella fita de arêa clara que forra a entrada, é como um beiço estendido. Depois, logo as primeiras pedras aguçadas compõem a porção incisiva e canina da dentadura. Olha para o fundo. Vês as estalactites conicas que descem do tecto? São os dentes do crocodillo com fome. Olha mais para o fundo, aquella arcada incompleta--é a guela. Lá tens a uvula, o céo da bocca retalhado de sulcos negros. Agora para cima da bocca, aquella buracaria em triangulo. Primeiro temos as narinas, ferozes e dilatadas. Nas horas de borrasca a agua esguicha por alli, como dos respiros de uma balêa. E os olhos, tão profundos e sem orbita! Depois a cabeça, toucada do barrete gothico do mosteiro.
--É original! dizia F. reparando.
--É terrivel, juntei eu.
Continuámos a nadar. Um zumbido de vida exuberante sahia da agua. De cabeça estendida, eu olhava a caverna. Parecia-me ter notado um movimento lateral de maxillas, na estranha bocca do inferno. O monstro triturava. Diabo!
Ri-me d’alli a pouco do poder da minha imaginação, irritada ante aquelle scenario de titans.
A faiscação do astro vestia o cetaceo do mar n’uma couraça de relampagos, e uma rêde de oiro amoldava-se á ondulação do monstro respirando. Mas então notei que as estalactites oscillavam, e as fauces do antro se uniam n’uma estrangulação de raiva. D’essa garganta formidavel de agonisante, um oceano arremessou contra nós montanhas de agua negra, fervilhando em espuma sulphydrica.
A violencia do jacto foi tamanha que ambos nós, eu e o conde, fomos morder a arêa do fundo, distantes da caverna como estavamos. Das entranhas da terra sahiram rugidos como se o mundo fizesse derrocada--vimos mexer o convento, abaterem-se as flechas das torres, desabar a abobada com fracasso indescriptivel--a vaga atirou-se raivando de encontro aos destroços, como um mollosso aos peitos de um vencido. E meia hora depois, no sitio do mosteiro assentava a pyramide torva dos destroços, sobre que as gaivotas aos gritos descreviam as suas espiras fatidicas.
Chegado á praia e envergado o fato, o meu primeiro cuidado foi vêr as horas.
--Tres e meia! A derrocada tinha portanto sido _ás tres, no dia 9 de junho de 1880_.
O conde chegou a casa sem poder fallar. Nunca assistira a espectaculo mais grandioso. _Nem o incendio do Banco._
Dias depois, um criado da quinta veio trazer-nos intacto o receptor que pudera salvar nas ruinas, e um bocado de papel onde estava escripto a punção, o seguinte telegramma:
«_Paris 9, ás 3 da tarde. Completou-se em Paris a expulsão dos jesuitas. O povo assistiu sem protesto ao cumprimento dos decretos da Republica. Reina socego_».
Pois que o povo era indifferente, a pedra quizera protestar derruindo, contra essa lei que afugentava implacavel, as tristes ovelhas do Senhor!
[Illustração]
O NINHO D’AGUIA
Na tarde anterior dirigira-me ao montado, cahia a noite. Uma contemplação profunda fazia-se em torno e o campo adormecia. Sobre as arvores, o céo concavo tinha laivos rosa, como sorrisos tristes de boccas que exhalam o ultimo adeus. Longe, por entre os caules seculares dos azinhaes e carvalheiras, uns acharoados de incendio ardiam em apotheoses fulgidas, sobre que os braços do arvoredo desenhavam em negro fórmas de estranhos esqueletos. Cahiam a prumo, d’uma banda e outra, fórmas de granitos aridos mostrando nos reconcavos e na profundeza lobrega dos barrancos, os primeiros phantasmas da noite com os seus capuzes de sombra derrubados na fronte, e um escorregamento de passadas mysteriosas--como de ronda sinistra que desemboca na quietidão d’uma viella, no silencio da noite velha. Ao centro do abysmo, a vereda serpenteava, corcovando a sua fita saibrenta por entre agglomerações bruscas de basalto e grés vermelho, d’onde os matagaes irrompiam como hirsutos cabellos d’uma cabeça decepada. Por sob a vegetação aggressiva dos espinheiros e zambujaes, uma linha d’agua corria, fazendo murmurios timidos de segredos trazidos de fraga em fraga--e essa queixa contínua e chorosa das gotas cahindo manso, acrescentava uma nota saliente á symphonia em surdina dos vegetaes adormecidos e dos ultimos ninhos em rumor. O montado começava d’alli a subir pelo irregular das collinas. Não podia enganar-me na marcha. Tinham-me dito--vaes pela vereda, chegas ao cotovêlo da rocha, á esquerda, sobes a encosta.
--É a ultima azinheira, tronco direito e vermelho, com a cortiça descascada. Leva corda para subires. Olhas para cima, aproximas-te sem fazer ruido, ouve bem--sem fazer ruido! Dás com o ninho logo. Quando a noite se fecha, a aguia chega, azas abertas, vôo circular e gritinhos alegres de boa _ménagère_ que volta, com o dia ganho e um reptil no bico curvo, para os pequeninos esfaimados.
Eu decorára todo este itinerario, promettendo não esquecer a menor cautela, iria devagarinho, muito devagarinho, sem chapéo, descalço mesmo, olhando para cima e em direitura á azinheira de tronco vermelho e nú de cortiça. Tinha então doze annos, era rubro e selvagem, de grenha fulva, os dentes pequeninos e ralos, muito brancos, que erriçavam de gumes o meu riso escarlate e feroz--de korrigan vingativo. Achavam-me o orgulho de um rei e a pouca educação de um herdeiro presumptivo. Era de poucas palavras, vinham-me ao sol alegrias colossaes que transbordavam de mim como o rufo de um tambor extravasa da caixa de ar; todos os meus musculos amplos e duros na contracção, contornados nas linhas altivas de um athleta imberbe, amavam a lucta e se tonificavam na carreira. Passára até alli n’uma herdade, entre boiadas de que uma mansidão poderosa se abala glorificando a força, á rabeira dos arados, plena liberdade monteza, onde o homem regula as pancadas do seu coração pelo palpitar tranquillo da grande natureza que desabrocha em evohés hilariantes. Manhã nada já eu estava a pé, sentado á banca da cozinha com os ganhões da herdade, diante da açorda patriarchal que o alho impregna de odores vermifugos. Vestia como elles a camisola de lã, o largo chapéo de borla e os grossos sapatos cardados do agricultor, pião na algibeira, uma cicatriz transversal na testa, de pedradas antigas. Era imperioso e adorado; de resto abusava, dizia sempre--quero porque quero! Quando eu dormia, minha mãi ia beijar-me, e d’uma vez acordando sob um d’esses beijos, que são como nymphêas albas cahidas no marmore das epidermes frias, voltei-me e disse-lhe enraivecido:
--Os homens não se beijam, apre!
Queimava em podendo, as bonecas de minha irmã, gostando de a vêr chorar e de a fazer soffrer para me rir depois.
--Bem feito! Bem feito!
D’uma vez bateram-me. Em quanto eu berrava, o gallo cantando, fazia apotheose da postura recente de uma gallinha amarella, que desposára. Fui-me a elle e torci-lhe o pescoço.
--Para não mangares commigo. Toma!
A eira, diante do monte da herdade, era em plano inclinado, dura e polida, sem hervas. Deitava-me no cimo e vinha rolando até baixo. Nunca conseguiam trazer-me limpo--que tinha um odio insoffrido pelos fatos novos e pelos peitos engommados, considerando a gravata um traste inutil, de que me servia para amarrar chocalhos ao pescoço das ovelhas. Só annos depois acreditei que o mundo que eu não conhecia, o _outro_, fazia d’essa tira de sêda uma fronteira e perigosa--por muito infestada pelo contrabando.
N’esse dia, mal deram cinco horas e me apanhei fóra da escóla, deitei caminho do montado. Tinha á cintura uma corda de linho com azelha, para subir á arvore, e no bolso uma navalha de podar com gume de fouce. Todas as precauções foram por mim empregadas. Ao dobrar da rocha, descalcei os sapatos e tirei o chapéo. Metti a navalha no peito e desenrolei da cintura a corda. Depois, resolutamente dirigi-me á azinheira. Lá estava o ninho, era enorme e construido sobre tres pernadas robustas--como sobre os tres dentes de uma forquilha. Eu nunca vira coisa igual, a fallar sinceramente. Tinha o feitio oval de um berço e ficava tão alto, tão alto que fazia vertigens. Era preciso subir até lá. Atirei a laçada á primeira bifurcação do tronco, icei-me.
Depois, escarranchado na pernada mais solida joguei com o laço ás ramarias superiores e fui subindo. Á medida que me elevava, a ascensão entrava a difficultar-se: as folhas em tufos compactos prendiam-me os cabellos, os ramos oscillavam sob o peso do meu corpo, e de quando em quando soavam estalidos ameaçadores. Mas via já bem o ninho d’aguia. Primeiro havia um alicerce de quatro ou cinco ramos de sobro, cruzados; depois um leito de folhas seccas e pequenas hastes; sobre o leito, folhas macias de trevos, de tamuges e fenos--e forrando delicadamente o estojo, uma colcha de pennugens brancas que a aguia arrancava do peito, nos seus transportes de mãi. Com insano trabalho cheguei-lhe ao pé. Pulava-me o coração no peito, como um pinto no ovo de que nasceu, e qual não foi a minha alegria ao vêr aconchegadas no ninho, uma de encontro á outra, adormecidas e tremendo de frio, duas aguiasinhas implumes, disformes ainda mas de vigorosas proporções! Cerrára-se de todo a noite. Um claro luar com reflexos metallicos atravessava as vaporisações do arvoredo penetrando-as de uma poeira lucida de atomos scintillantes. Nas faias da ribeira, os rouxinoes faziam jogos floraes, arremessando-se os sonetos mais rhythmicos; o veio crystallino dos regatos ia contando ás folhagens humidas dos balseiros e canaviaes, uma lenda antiga de fadas azues e thesouros maurescos, narrativa muito em segredo, entre murmurios de beijos que ao longe mansamente se perdiam.
Dava trindades o sino da aldêa--e as aspirações pairavam n’aquelle calado ar, em que as borboletas reaes saltitavam traçando sinas de mulheres predestinadas. A lua na tela do céo esmaiado, lembrava com as suas ranhuras, a mascara da Comedia no panno de uma opera-comica, que a luz da ribalta illumina. Ergui os olhos--acabava de ouvir um grito. Vi a aguia pairar um momento por sobre a minha cabeça, de azas abertas, cujas remiges em cutelo sifflavam como as vélas de um moinho em actividade. Depois aquelle vulto negro desceu perpendicularmente, raivoso da minha audacia e estendendo o bico de gumes curvos, para me ferir. Agarrado á corda dei um salto abandonando o ninho, e fiquei suspenso da arvore um instante, a dez metros do chão pedregoso e batendo os dentes de terror. Que fazer? A corda por curta, não chegava ao chão. Deixar-me cahir era morrer. De repente porém, a enorme pernada deu um estalido secco, houve um attrito de folhas e lentamente vim baixando. Quando pousei no chão, com os dois filhos da aguia no peito da camisola e a navalha nos dentes, senti um prazer sem limites. Tinha destruido uma felicidade e praticado a façanha de subir á azinheira, sem outro auxilio mais que o de uma pequena corda nodosa e fina. Levaria os implumes para a herdade e creal-os-hia com carne e sangue fresco, de cordeiro. E elles cresceriam, alcançando as poderosas fórmas dos paes--bico adunco e corneo, a terrivel garra contractil, symetria elegante nas azas, que um jogo muscular movimenta com inexplicavel destreza. E pertencer-me-hiam, estariam na gaiola por minha vontade, comeriam se eu quizesse. Esta idéa de ter alguem sob a minha obediencia encheu-me de orgulho. Podia fazer mal sem ter medo das queixas que arrancasse. E vinham-me tendencias para opprimir, para espicaçar, para expôr á tortura. Tambem meu pai me batia! Que soffressem! Na azinheira, a aguia ia de ramo em ramo, soltando a cada investigação inutil, o seu grito melancolico. Corria as arvores proximas, voejava quasi á flôr do terreno, batendo com as azas nos tojaes da selva, e indo em todos os sentidos como allucinada. Depois abriu as azas horisontalmente com um pulo, susteve-se nas pennas como n’um pára-quedas, e com firmeza cortou o ar obliquamente, subindo á região das nuvens. De quando em quando, na calada do campo morto, o seu grito de mãi roubada ouvia-se na escuridade--como o silvo de um barco em perigo que pede soccorro.
* * * * *