Continuacao Do Portugal Enfermo Por Vicios E Abusos De Ambos Os

Chapter 3

Chapter 33,085 wordsPublic domain

N'huma reserva de estrume Gallinha sôfrega andava, Espalhando com os pés O deposito, que achava. Bando de espertos Pardaes Muito de perto a seguião, Quanto ella esgaravatava Elles, famintos, comião: Neste, naquelle lugar Andava a triste cançada; Os Pardaes comião tudo, A pobre Gallinha nada: Té que sacudindo as azas, Virou de repente, e vio A manada charleadora, Que áquelle estrume acudio. Então disse: Está mui bom Esse modo de viver! Eu descobrindo, e espalhando, Para os mais virem comer! Por certo que estou lograda! N'outra não torno a cahir: Donde vir estes golosos Eu cuidarei de fugir. Hum Pardal de escuro bico Dos outros sahio á frente, Que por ser Pardal ja velho, Se julgava intelligente: E querendo despicar Aquella descompostura, Deo á Gallinha em resposta Esta sentença madura: Este lugar, em que andamos, Não he vedado a ninguem; Temos a elle o direito, Que qualquer Gallinha tem: De mais ha outro motivo; Quem por espalhar trabalha, He certo que já não quer As mesmas cousas, que espalha: Nós aproveitamos tudo Fiados nesta razão; Ninguem he tolo, que deixe De acceitar o que lhe dão. A Gallinha envergonhada Das satisfações, que ouvio, Deo huma volta em redondo, E nem mais o bico abrio. Os que achão dinheiro junto, Como herdeiros de seus pais, Fazendas, cópa de prata, E outros muitos cabedaes; Que espalhão tudo por vicios, Appetites, e funcções, Dando cabo do que tem Com loucas combinações, Talvez que mais se acautelem, Se disto se recordarem: A Gallinha espalha, espalha, Para os mais se aproveitarem.

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CONTO EPIGRAMMATICO.

Ha pelas casas das Sortes Tres Tabellas penduradas Com attractivas fortunas, Mas são fortunas pintadas. Tem por cima Premios grandes, Que se chamão de cabeça; Por baixo os mais diminutos, Em que a gente nada int'ressa. Entrou na loja um Laponio, Querendo Sortes comprar, Metteo prompto a mão na caixa A rir muito, e a perguntar: Diga-me senhor caixeiro, Porque saber me convem, Se esses Premios de cabeça Todos esta caixa tem? Respondeo hum dos que estavão Arrumados ao balcão: Descance; que os de cabeça Todos nessa caixa estão: Cabeça he que nós não temos Em vir sentar-nos n'hum banco A trocarmos o dinheiro Por iscas de papel branco.

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CONTO

_Do Sabio por imaginação._

Certo Rapaz de Provincia A Lisboa veio dar, O qual não sabia ler, Nem escrever, nem contar. Para ganhar o sustento Pôz-se a servir hum Letrado, Esperto, prompto, e fiel, Mostrando-se hum bom criado. De tres a tres mezes o Amo Por costume lhe dizia: Esfrega-me essas estantes, Limpa-me essa Livraria. Ajuntou alguns vintens, E a sua patria buscou, Onde se estabeleceo Com fazendas que comprou. Lá na Botica da terra Elle hia as noites passar Com o Cura, e mais pessoas, Que alli vinhão palestrar. N'huma noite huma questão Se moveo co'hum Estudante, Em que elle se foi metter Por atrevido e ignorante. Instava sem reflexão Dizendo: He que me faltava; Se por ter aberto livros Vossa Mercê me encovava. Eu tambem Livros abri, Lidei com discreta gente; Não jugue o senhor novato Que acha em mim algum demente. O estudante, que sabia Que o tal servíra hum Letrado, Querendo-o desmascarar, Lhe respondeo enjoado: Eu sei que livros abrio, Mas diz gente verdadeira, Que abria livros alheios, Para tirar-lhe a poeira Eis como alguns impostores De sabios querem ter fama, Lendo só rostos de Livros, Nada fruto, e tudo rama. Não estudão, nem se canção; Querem que a sabedoria Se pegue, bem como a febre Em tempo de epidemia.

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CONTO EPIGRAMMATICO.

Havia hum homem sagaz, E bastante indagador; Sempre das vidas alhêas Queria ser sabedor. Por conseguir o seu fim Valia-se de mil modos, Louvando, ou dizendo mal Sabia tudo de todos: Com perguntas, e rodeios Botava a rede em cautela: Quem conversava com elle Por força cahia nella. Adoeceo gravemente; E hum Medico foi chamado, Que da lingoa deste enfermo Vivia escandalizado: Receitou-lhe hum vomitorio, Mas com elle não lançou; Repetio segunda dose, Igualmente se frustrou; Até que o Medico disse: Pasmo do caso presente! Não vomitar quem tem feito Vomitar a tanta gente! E pois que o meu vomitorio Nada, ou pouco lhe aproveita, Se quer vomitar, amigo, Use da sua receita.

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CONTO

_Do Homem, e o Macaco._

Hum Capitão de Navios Trouxe do Brazil hum Mono De condição vingativo, Mas fagueiro com seu dono. O dono estimava-o muito, E o Macaco o conhecia; Disto dava o bruto provas Nas festas, que lhe fazia. Trepava por elle a cima, Catava-o de quando em quando, Punha-lhe a mão pela cara, De roda delle pulando. Ao animal finalmente So lhe faltava fallar; Tendo o dono ao pé de si, O seu forte era brincar. Vio o Macaco huma vez Seu dono matar hum gallo; Pilhou-o fóra de caza, Tentou tambem imitallo: Entrou pela capoeira Com huma faca na mão, Foi matando tudo a eito, E atirando para o chão. Vindo o dono para casa, E achando tal mortandade, Esconjurou o Macaco, Mais a sua habilidade; Mas passando-lhe a paixão, Co' hum páo o ameaçou, Deo-lhe huma leve pancada, E com dó delle ficou. O bruto, que não perdeo A pancada da lembrança, Mesmo á bruta não deixou De tomar delle vingança; E pilhando no outro dia O dono ao pé descuidado, Botou-lhe com dentes, e unhas A cara abaixo de hum lado. Quem dissera que por tempos Se mostrasse tão cruel Hum bruto, que parecia Tão submisso, e tão fiel! Ha duas moralidades, Que d'aqui se hão de tirar: A primeira he que nos brutos Ninguem se deve fiar: A segunda de que ha homens De huma apparente bondade; São huns, e parecem outros Por manha, e sagacidade.

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APÓLOGO.

_A Pulga, e o Mosquito._

N'huma noite de Verão, E de bastante calor, Encontrou-se co' hum Mosquito A Pulga n'hum cobertor: Cumprimentárão-se muito Co' a politica devida; E disse a Pulga ao Mosquito: Ando aqui desfalecida; De vossa mercê me queixo, Que do sustento me priva; Estou tisica, e esfalfada, Não sei como já sou viva: Ando por cima de leitos, Ando nas camas de chão; Vem vossa mercê tocando, Começa a minha afflicção; Se dou alguma picada, He sempre em sustos, e medos; Porque temo de cahir Na ratoeira dos dedos. N'hum individuo, que dorme, He onde janto, onde ceio; Mas não me presta o que como, Pelo meu justo receio: Se lhe chupo n'huma perna Sempre com cinco sentidos, Vem logo a sua trombeta Metter-se-lhe nos ouvidos. Acorda o que está dormindo, Dando a cantiga ao diabo; Se me sente, põe-me o dedo, E entre as unhas me dá cabo. Por tanto quero pedir-lhe Tenha de mim compaixão; Que toque á gente acordada, Porém á que dorme não. Ó filha, disse o Mosquito, Eu tambem soffro, e padeço; Pois levo ás vezes boléos, Que da vida me despeço. Dão bofetadas em si Os que andão comigo em guerra; E se me apanhão no lance, Atirão comigo a terra. Os desastres que me conta, Por certo me mettem dó; Mas he preciso tambem Que não queira comer só. Nestes termos, minha rica, A vontade lhe farei; Que engorde, e que viva farta, He que eu muito estimarei. Despedirão-se hum do outro: E o Mosquito atraiçoado Não fez nada do que disse, Que he traidor dissimulado. Perseguia a toda a gente; A quem dormia acordava, Por emulação á Pulga Fazia o que costumava. A Pulguinha muito afouta, Vendo hum homem a dormir, Ferrou-se-lhe no cachaço, Sem lhe lembrar o fugir. O Mosquito pelos olhos A zunir muito, e a morder, Acordou o homem da sesta, Para a Pulga surprender: Que, coitadinha! espirou, Acabando o seu flagello, Entalada entre o sobrado, E entre a sola de hum chinelo. Daqui colligir se deve Que quando a vingança cega, Quasi sempre hum malfeitor O seu semelhante entrega.

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APÓLOGO.

_O Burro, e a Ratazana._

Estava hum Burro comendo Á noite a sua ração, E huma velha Ratazana Quiz ter com elle quinhão. Disse-lhe o Burro: Malvada, Vai a outro sitio comer: Não basta a ração ser pouca? Mais pequena a vens fazer? Respondeo-lhe a Ratazana: Por hoje licença dá; Que por estes oito dias Prometto de não vir cá: Eu sei mui bem que teu dono Hum grande queijo comprou; Espreitei onde o metteo, E á manhã com elle dou: Hei de fartar-me á vontade, Roendo-lho muito bem: Sei que a vizinha debaixo Bolos n'huma cópa tem: O criado, que te trata, Tem lá n'huma parteleira Hum grande monte de cebo Junto dentro de huma ceira: Lá pelas aguas furtadas Já atinei co' huns buracos Para saltar n'hum pombal, E chupar pombos dos cacos. Á vista das descubertas, Que já hoje tenho feito, Espero passar sem fome, Com subtileza, e com geito, Foi tasquinhando a ração Naquella doce esperança, Co'a imaginada fartura Sempre posta na lembrança. Do Burro se despedio Com affago, e cortezia; E foi de rabo estendido Para a cova, em que vivia. Porém lá pela alta noite Tornou depois a sahir, E foi-se por certo atalho Nas casas introduzir. Andou em busca do queijo, Porém já o não achou No sitio, que imaginava, Onde d'antes se guardou. Voltou-se ao primeiro andar Para os bolos da vizinha, Basculhou a copa toda, E nem hum só bolo tinha. Cançada, raivosa, e triste Ao quarto do moço veio; E porque estava acordado, Entrou com algum receio. Saltou para a parteleira Com o cebo no sentido; Mas no dia antecedente O tinha o moço vendido. A sahida deste quarto Empreza foi arriscada; Por se safar tão ligeira, Não mammou huma arrochada. Lá por outros escaninhos Ao telhado caminhou, Só para entrar no pombal, Onde outras vezes entrou. Mal que se pilhou de dentro, Vio huns ninheiros mais baxos, Ficou-lhe o olho luzindo Co' o sentido nos borrachos. O dono, que de outros ratos Se via mais perseguido, Pôz-lhe armada ratoeira Com petisco appetecido. Foi então que a Ratazana, Não se podendo conter, Cheirou-lhe a isca por fóra, Quiz entrar dentro, e comer. Deo voltas, metteo focinho; Mas á dentada primeira Ficou a pobre engasgada Nos ferros da ratoeira. Quanto esperava falhou, E por mais infausta sorte, Toda a alegria passada Acabou nas mãos da morte.

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CONTO EPIGRAMMATICO.

Hum Author compunha hum livro, Livros velhos folheando: Perguntou-lhe hum seu collega: Que estás ahi procurando? Respondeo: Como não ha Livro algum que tão máo seja Que não tenha alguma cousa Boa, que se note, e veja: De cada hum tiro hum pouco. Disto hum novo livro ageito Ficando de cousas boas Formado hum livro perfeito. Desta lição eu quisera Que os homens se aproveitassem, De cada hum imitando As virtudes, que lhe achassem. O homem, que isto fizesse, Hum grande brazão teria; Ficava sendo hum compôsto, Que ao Mundo exemplo daria.

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APOLOGO.

_O Saloio, e huma Sorte de papel._

Vendo nas casas das Sortes Premio de oitenta mil reis, Foi hum Saloio comprar Oito tostões de papeis: E tudo desembrulhando Hum Premio só não achou, Repetio dobrando a dóze, Da mesma sorte ficou: Foi comprando mais e mais, Quanto comprava perdia, Gastou dezoito mil reis, E delles nem bóia via. Raivoso se foi á caixa, Dizendo: Forte castigo! Tirou mais seis tostões dellas, Que era o que tinha comsigo: Tambem lhe sahírão brancas, E o homem desesperou; Mas a ultima entre os dedos Deste modo lhe fallou: Saloio, quem quer que sejas, Toma do mundo lição, Todas as cousas pintadas Como parecem não são; Não te illudas com os Premios, Que he natural o falharem, E nesse engodo emmagreces, Para os outros engordarem: Se o acaso der hum Premio, Põe logo no pensamento, Que para hum só ser feliz, São desgraçados hum cento: O que tira tres moedas, Já veio vinte deixar, E se inda não as largou, He isca para as largar. O que tira tres tostões, Fica de nós muito amigo, Sem ver que deixou o porco, E leva a corda comsigo. Os prudentes conceituão Ser tudo isto huma Tragedia, Que os felizes nestas casas São como os Reis de comedia. E porque em lojas de Sortes Não gastes nem hum vintem, Huns conselhos vou a dar-te, Com os quaes te acharás bem. Nao olhes para as Tabellas, Nem os mais vejas jogar, Que se algum tem sorte em preto, A ambição te vai tentar; Olha sim, para a dinheiro, Que está perdido no chão Em sortes desembrulhadas Da porta até ao balcão. O Saloio respondeo: Teu desengano me embaça, Se se promettem fortunas Onde se encontra a desgraça. Á vista disto he razão Que este vicio em mim se quebre, Fugirei de toda a casa, Que vende gato por lebre.

Vindo ás mãos do Author huma Quadra bastantemente conceituosa, tentou glosala pelo seguinte modo:

QUADRA.

_Dois Entes regem o mundo_ _Doce Amor, e Morte impía,_ _A Morte co' a fouce corta_ _Quanto Amor semêa, e cria._

GLOSA.

1.

Logo que foi construida Esta Maquina brilhante, Não falhou hum só instante Na conta, pezo, e medida: Nem podia ser falida Obra de hum Saber profundo; He seu creador segundo O Tempo, que não faz pausa, Por mando da Eterna Causa _Dois Entes regem o mundo_

2.

Hum he Amor, outro a Morte, Cada qual com fortaleza, Entre alegria, e tristeza, Mudão dos Mortaes a sorte: No que hum faz outro dá córte, Que a desordem desafia, Disputão de noite, e dia, A qual mais poder encerra, Andão sempre em viva guerra _Doce Amor, e Morte impía,_

3.

Nesta horrorosa campanha Não faz figura a Razão, Nem ha capitulação (O que já se não estranha) Tudo de terror se banha, He immensa a gente morta; E por mais que Amor a exhorta, Sem respeito ás creaturas, Searas verdes, maduras _A Morte co' a fouce corta_

4.

Quando a paixão se declara De Amor entre dois amantes, Porque não fiquem triunfantes, A Morte vê se os separa: Como he das vidas avara, Em suffocallas porfia; De balde Amor a vigia, Que a Morte, que tudo extingue, Trabalha porque não vingue _Quanto Amor semêa, e cria._

Quadra, que mandou huma Senhora ao Author (talvez sem reflectir) com muito empenho, para que lha glosasse; sendo assás bem difficultosa, pelo veneno do tempo que tem comsigo, etc.

QUADRA.

_Não sigas, Bella, os caprichos,_ _Que os Mortaes tem fabricado;_ _Segue as Leis da Natureza,_ _Felicita hum desgraçado._

GLOSA.

1.

Bella Nize, o Creador, Que o Mundo fez, e governa, Que com Providencia eterna He, e foi de tudo Author, He em quem devemos pôr Os nossos desejos fixos; De genios que estão perfixos, Com a maior impiedade, Em negar esta verdade _Não sigas, Bella, os caprichos._

2.

Dar a todos a entender Por Fabula Ceo, e Inferno; Que não ha castigo eterno; Que nem premio póde haver; Que ha só nascer, e morrer Sem lembrança de peccado, Bem como bruto esfaimado, Eis a perversa doutrina, Só para nossa ruina, _Que os Mortaes tem fabricado._

3.

Quem na Pia do Baptismo As luzes da Fé recebe, O bom caracter concebe No Gremio do Christianismo: Não temer penas do Abismo He ser de Lucifer preza Na Religião firmeza He quanto todos convem Inculto Gentio he quem _Segue as Leis da Natureza,_

4.

Ó Deos Eterno! he possivel Que o Christão, que tu creaste, Dos teus preceitos se afaste, Á tua voz insensivel! Sua pena era infallivel Por ter a Lei quebrantado; Mas o teu Poder sagrado Fallando-lhe ao coração, O salve da escravidão; _Felicita hum desgraçado._

CHARADE.

Guarda a primeira e segunda Dos rigores da estação, E guarda a terceira as duas Por amor, e gratidão: As tres conchegão seu dono, Seja de inverno, ou verão.

CHARADE.

Não quer demora a primeira, A segunda he contra a fome, Separadas não tem bocca, Ambas juntas muita toca, Muita gente tem, que come.

CHARADE.

He criminosa a primeira, E aos crimes, que commetteo Logo a segunda, e terceira Justa sentença lhes deo; Porém juntando-se as trez Entrão em tanta harmonia, Que o mal, que a primeira fez, Torna-se em grande alegria.

CHARADE.

A primeira diz aonde, Esta, e segunda cultiva, Evita a terceira o pó, E de precipicios priva: Primeira, e ultima afflige, Nutre segunda, e primeira: Ha nas quintas, e fazendas A segunda co' a terceira: O bom commodo dos homens Nas tres syllabas se encerra Em couza, que serve muito Na paz, e tambem na guerra.

CHARADE.

Da primeira, e segunda se gosta, Que he onde se chora, se folga, e se ri: Na segunda, e terceira apparece O aspecto da gente por bom, ou ruim; A segunda, e terceira dá nome A huma alta serra do nosso paiz; Mas se as três ajuntarmos, veremos Hum peixe saltante na praia a cahir.

ADIVINHAÇÃO.

Eu visito toda a casa, E co' a gente desespero, Como com ElRei á meza Daquelles pratos, que quero; Seja a Dama a mais formosa, Mais pobre, ou mais abastada, Mesmo diante de todos Por mim ha de ser beijada; Ando sempre em viva guerra, Vivo entre muito inimigo; Mas sendo debil de forças, Só póde o tempo comigo.

ADIVINHAÇÃO.

Não tenho sete cabeças, Co' a que tenho me governo, Meu rosto não tem feitio, Até sou da côr do Inferno: Pareço no meu sustento Nascer no Signo de Aquario; E a minha condição he Semelhante á do usurario; Morro de huma ingratidão, Que me faz ser infeliz; Pois dão-me a morte por paga Do beneficio, que fiz.

Significação das Charades, e Adivinhações deste Folheto.

_= ecraeb = amõacar = ãzoccaa = sgausgenua = alacvo = oapaj = osacm =_

A Significação destas _Xarades_, e _Adivinhações_ aqui vão não por sua ordem, e até cada huma de per si com as letras trocadas, para maior confusão, e gosto de quem as adivinhar: cujos nomes escolherá para os appropriar, e collocar onde pertencerem, visto não haver outro Folheto, em que se explique, por ser este o ultimo desta Obra, que torno a advertir se deve encadernar com a _primeira Parte_, e com o _Poema do Balão aos Habitantes da Lua; que fica hum Livro divertido._

_Tudo se vende nas lojas: de Francisco Xavier de Carvalho defronte da rua de S. Francisco da Cidade; de Antonio Manoel Polycarpo da Silva junto ao Senado; de Antonio Xavier Moreira da Impressão Regia debaixo da Arcada; de João Henriques no principio da rua Augusta, de Antonio Pedro na rua do Ouro; de Luiz José de Carvalho aos Paulistas; e em Belém na loja da Viuva de José Tiburcio. Custa este Folheto 240; a primeira Parte outro tanto; e o Balão 160._

Notas de transcrição:

O texto aqui transcrito, é uma cópia integral e inalterada do livro impresso em 1820.

Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto, e que por isso não considerámos necessário assinalá-los. Mantivemos inclusivamente as eventuais incoerências de grafia de algumas palavras, em particular quanto à acentuação.