Continuacao Do Portugal Enfermo Por Vicios E Abusos De Ambos Os
Chapter 2
Portugal, Portugal! não te conheço! Que me fazes tristeza te confesso! Homens ha mais nocivos do que a peste, E senhoras tambem de genio agreste: Enfadão-se com todos, e com tudo, E parece que o fazem por estudo! Não cessão de ralhar, e de moer As familias, por dar-lhes que soffrer: Trazem a casa toda em labyrintho, Pela condição aspera, que pinto. Tambem homens encontro de tal modo, Que assentão que he já seu o mundo todo; Humas caras, que estão sempre estanhadas, Que ou riem muito, ou são embuziadas. Com condições assim não ha quem possa, A reprehensão não vexa, nem faz mossa. Isto nasce dos mimos, que lhes dão Nas faltas da primeira educação.
Vejo huns homens tambem affeminados, No gesto, e no fallar muito affectados, Todos sentimentaes, cheios de nicas, Que algum dia chamavão-se Maricas; Mas assentárão hoje bons engenhos, Que devião chamar-se homens gamenhos. A origem deste nome bem se aponta N'hum caso jovial, que ahi se conta. E são recommendaveis taes figuras Nos tregeitos, e vãs caricaturas; Té mastigão fazendo muito mômo O cheiroso Indiano cardamômo, O qual trazem na boca largas horas, Para terem bom bafo entre as senhoras; Nem perdoão ao seu mestre barbeiro A dedada de banha de bom cheiro. E já houve hum, que tendo a irmã de parto, E entrando casualmente no seu quarto, O cheiro da tal banha muito activo Da pobre endoudecer foi o motivo. Antes do Terremoto se munião De pastilhas de cheiro, que trazião, Em pivete, e em almiscar enfrascados, Parecião de alcorce ser formados. Destas verdades não se escandalizem, Que ainda ha velhos vivos, que isto dizem. Então erão faceiras, e casquilhos No principio da moda dos polvilhos; Pelos tempos vierão a peraltas, Mas hoje são tafues, e alguns com faltas: Os quaes agora tem por maravilha A barriga apertarem co' huma cilha, Enfivelada com tal arte, e geito, Que a barriga se encolha, e altêe o peito; Porque querem mostrar que podem ter Perfeitos _patriotismos_ de mulher. Que errei esta palavra não se pense; Pois vem na biblioteca Tafulense Com _pitéo_, com _pinóia_, com _chalaça_, _Cucanha_, _mujangué_, _Caurím_, que embaça E para o peito ter maior altura, E mostrar o que querem na figura, Dão aos seus alfaiates a matraca De almofadar as bandas da casaca. Ora em trazerem cilha acho razão, Visto haver ferradura por tacão! São estas invenções todas de fóra, Nós somos de outros reinos firme escora. Os mais aprestes elles virão vindo, Pois que as outras nações ficão-se rindo, Mandando engodos taes a Portugal Por sommas de dinheiro em bom metal. Tomára persuadir aos que usão disto Que usassem o que a muitos tenho visto: Nas modas meio termo, e na despeza, E nada de emendar a natureza. Deixemos que hum tal sestro as Damas tomem; Que a perfeição do homem he ser homem, E não trazer pescoço almofadado, Tingir cabello já esbranquiçado, Ou pôr grande chinó da côr da amora Co' as bellezas mui brancas, e de fóra, Como vejo aos que são de meia idade Filhos só do amor proprio, e da vaidade: Com outros desacordos deste lote, Que de certo não falta quem os note.
E que direi de velhos enfeitados, Que são a hum cêpo bem assemelhados? Assim como eu, que o digo, a quem os annos Feito hum espelho tem de desenganos, Mas se viuvo estou, e já maduro, Viuvo ficarei pelo seguro. Não obstante elles verem-se encolhidos, De pernas a vergarem carcomidos, Assim mesmo meninas vão buscar, Querendo-lhes fazer seu pé d'altar: Sem se lembrarem que huma franga nova Atira com hum velho para a cova. Se buscassem dos annos a igualdade, Inda lhes perdoaria a leviandade; Mas quererem que as pobres raparigas, Que por pouco escapárão das bexigas, Atrás de algum vintem vão á lambugem, E que morrão de nojo, e de rabugem! Não posso levar tal á paciencia! Amor isto não he: conveniencia. Que em casamentos taes bem se conhece Serem ellas escravas do interesse. Que prazer póde ter muito a seu salvo A que se liga a hum velho chôcho e calvo? He muito natural mais lhe aborreça, Se calvo for de quanto ha na cabeça; Pois velho, que namora, e que se enlaça, Tem a cabeça igual a huma cabaça; E porque a natureza lhe he avessa, Se tem dor de vazio he na cabeça. Coitado! na figura, em que se vê, Já podião chamar-lhe a morte em pé. Mas no dia do alegre casamento Resuscita com tal contentamento, Que he pena ter o velho, que faz rizo! Resurreição sem dia de juizo.
Tambem noto que hum velho de algum dia Para a terra curvado he que pendia, Grossa bengala a corpo hia sustendo, E sobre as costas a marrã crescendo Mas parece que a mesma natureza Nos quer mostrar que nada tem firmeza; Pois que os velhos, a quem tudo desanda, Andão hoje tombados a huma banda. Na velhice o estupor se reconcentra, E não torna a sahir huma vez que entra. Por acaso algum dia se fallava Que em alguma pessoa estupor dava. Eu sim me enganarei, mas ajuizo Que nos vem este grande prejuizo Do pão, do vinho, do vinagre, e azeite, Quando generos taes levão enfeite. E se isto assim não he, porque razão Só em Lisboa ha tal repitição? E lá fóra nas Villas, e Cidades São estas cousas humas raridades? Porque ha lá menos gente? Não convence; Bem que he mui natural que assim se pense. E hoje até na florida mocidade Se está vendo huma tal calamidade; Mas os moços, álem da razão dada, Tem outra circunstancia mais pezada, Que he o irem por gosto aos sacrificios, Para as forças perderem pelos vicios.
São a saude, e o tempo dois objectos Estimados dos homens circunspectos; E diz a mocidade que tambem Estas cousas em grande valor tem: Porém com appetites, e loucuras Enxadadas vão dar nas sepulturas. Hum perdeo a substancia, o outro a côr Aquelle anda tolhido de huma dor. E já tantas molestias lhes acodem. Que nem armas, nem letras seguir podem: Sobrevindo-lhes tal debilidade, Que não podem gozar de longa idade. Perdem filhos os pais, o Rei vassallos, Porque a chusma dos vicios vem cortallos. Nelles a mocidade he que se illude Para estrago do tempo, e da saude: Preciosidades estas, que perdidas, Não vemos com que possa o ser suppridas.
Portugal, Portugal! não te conheço! Do que és, e do que foste não me esqueço! Dos teus usos antigos te tiraste, E he problema entre nós se melhoraste! Do que tinhas melhor já te esqueceste, E o que perder devias não perdeste! Puzeste cousas mil em confusões Das modas, que te vêm de outras naçõês: Té desprezas o solido alimento, E por isso te vejo tão gosmento; Não tens senão defluxos catarrosos, Indigestões, topôres perigosos, Com que continuamente te prantêas, Fruto de altos jantares, grandes cêas: Ha cinco, e seis cubertas, e ha pessoa, Que a hum só prato que seja não perdoa. Hum individuo assim Pai Pai segundo, He capaz de comer quanto ha no mundo. Fica esmola a pedir quem o supporta: Tal gente longe vá da minha porta! Portugal, sê na meza acautelado; A gula te vai pondo em triste estado: Já nas cazas de pasto frequentadas, Já nas mezas dos ricos enfeitadas, Mostras fastio á sôpa, vaca, arroz, Só queres fricassés, e fricandoz; O rosbife, que em sangue inda escorrendo, Os estômagos vai assim perdendo; Rabiolos, fatia á Prussiana, Pitéos de toda a casta de chanfana; Que ha cozinheiro tal, tão delicado, Que de folhas de parras faz guizado, Mujangués, varios môlhos, e frituras, Leite creme, pudins, e outras misturas, Compotas com as caldas refervidas; Tudo isto pouco a pouco acaba as vidas. Depois tens nos cafés vastos licôres, Que alguns até se bebem pelas côres: Hum porque he côr de roza muito vivo, Outro o ser côr de goivo faz motivo; O de cravo, que agita, bem que esquenta, Hum, que se estima de hortelã pimenta; O licor de canela, o marrasquino, Licor de ouro tambem que he caro, e fino. Eu inda espero ver licor de cardos, De alfazema, tomilho, e lirios pardos. Sahe hum Taful d'alli, que he todo braza; Se tomasse cantharides em casa, Não julgava ficar assim tão forte; Quer conservar a vida, e busca a morte. Se não se emenda disto, anda enganado, Cuida que morre cru, morrendo assado.
Portugal, em mil couzas tens mudado! Só te vejo aos abusos afferrado! Por exemplo: jogar-se tanto o entrudo, Em que se insulta o homem mais sisudo, Com agua, pós, laranjas, pulhas, peças, Em que aberto se tem tantas cabeças! Louvo que jantes bem nesses tres dias, Mas reprovo da cêa as demazias. Pois comes sem discurso, ou reflexão, Para teres p'rigoza indigestão! Tens outro abuso, que he serrar a velha, Tolice, que não póde ter parelha; Para andarem por frios, e por lamas Os homens a fugir das suas camas, Fazendo levantar, vir á janella, Para se constipar esta, e aquella, Que sem juizo algum ama, e criada Perdem a noite nessa mascarada, Até que no outro dia a cozinheira Dá ao demo tão grande babozeira; Pois não podendo o somno disfarçar, Deixou entrar o caturro no jantar. E que direi tambem das boas Festas? Não devo criticar couzas como estas; Porque trazem motivo mui sagrado, Com que todo o Christão, bem educado, Deve ter alegria, e grande gloria Em trazer taes motivos á memoria. Mas quizera, encontrando-se as pessoas, Que abraçando-se, dessem Festas boas; E que os que mais pudessem nestes dias, Embora uzassem grandes bizarrias, Mandando, não Bilhetes de prezente, Mas sim couzas, que alegrem o olho á gente: Bons perús, porcos, patos, ou perdizes, Seis gallinhas com doze codornizes, Tortas, pudins, pasteis, ou pastelões, Finas broas, gostozos massapões. Eis-aqui humas Festas de prazer, Que são de consolar, e agradecer. Isto prova a amizade ser fiel, E val mais que tirinhas de papel, Ou Bilhetes de nomes em cartão, Que os criados ás vezes nem os dão: A sege mui fechada á porta chega A procurar aquelle, que se nega; E muito digno he de se notar O que de ambos devemos ajuizar; No da sege bem he que se supponha Que de dar Boas Festas se envergonha; Porque vai tão fechado, e tão occulto, Que parece que teme algum insulto. E esse, que em caza está, do amigo á espreita, Em não fallar-lhe faz-lhe huma desfeita. Por isso implicão taes formalidades Com as bem reguladas amizades.
Dizem que quanto mais se vai vivendo, Mais couzas, nunca vistas, se vão vendo; Mas eu outro conceito he bem que forme, Que quanto mais se vive, mais se dorme; E dou esta razão, porque supponho Que viver, e dormir he tudo hum sonho. Sonho parece quanto vejo, e digo, Além do quanto fica só comigo. Porém vamos a couzas divertidas, E fallemos de velhas presumidas, Que algumas ha de tanta affectação, Que por invencioneiras dão penção. Huma velha vi eu tão melindroza, Que fugia do cheiro de huma roza, Dizendo lhe exaltava logo o flato; Tão estragado estava aquelle olfato! Succedeo de vizita ir esta lesma A caza de outra igual Dona Seresma A tempo que entrou logo outra vizita De huma grave Senhora, mui bonita, A qual tinha nas tranças espetada Huma perfeita roza avermelhada; E porque ao pé da velha se assentou, Logo a velha aos arrotos começou, Dando desta molestia por motivo Daquella roza o cheiro muito activo: Foi crescendo a afflicção a mais e mais, E com afrontamentos grandes ais; Cahio do canapé torcida toda Com huma convulsão destas da moda. Acodio-lhe a Senhora a toda a pressa, Que trazia a tal roza na cabeça, Dizendo que era sêca, e que a comprára, Por ser roza de musgo, linda, e rara; Obra feita por mão de huma Franceza, Que nas flores imita a Natureza. Quando a velha ouvio tal, envergonhada, Fingio tornar a si com lã queimada; E foi então geral a zombaria, Que fez da dita velha a companhia. Eis-aqui as molestias, que dão rizo, E a que se expõem com faltas de juizo As velhas infundidas em vaidade, Que querem sempre estar na flor da idade; Que ha velha, que no modo de trajar, Presume as raparigas desbancar.
Eu vejo raparigas enfeitadas, Rethoricas, porém pouco applicadas, De orelha palavrinhas apanhando, Com as quaes aos tafues vão affectando. Huma carta vi eu de huma senhora, Muito desvanecida de Doutora, Cuja carta era em verso, e era de amores: Queixas de auzencias, zelos raladores; Quando só tinha lido a mocetona As guerras de Alecrim, e Mangerona. A carta não me lembra até ao fim, Porém o seu principio vinha assim;
_De pungentes receios combatida, Lembrando-me talvez o ser trahida, O meu ciume trepido, fervente Adeja sobre mim avidamente: Eu desafio a magoa, e a impaciencia No campo dilatado de huma auzencia, Ululando, e exprimindo o sentimento, Que me despenha em grande abatimento: Anhelando appellar nesta fraqueza Para o tribunal dubio da fineza._
Que tal foi este parto sem parteira? Ella chamou-lhe carta, eu chamo asneira. Não critico as Senhoras instruidas Em bons Autores, e Obras escolhidas, Que com principios bons de educação Mostrão que tem juizo, e tem lição: Senhoras ha discretas, que nas fallas Tomárão muitos homens imitallas. Tambem não noto aquellas coitadinhas, Que lidão com dedal, agulha e linhas, Vivem do bastidor, ou da almofada, Que essas tempo não tem para mais nada. Só murmuro daquella não sizuda, Que em trez dias a fórma ás modas muda, Que só cuida do luxo mui garrida, Da belleza, que tem, desvanecida; Não lhe importa nem ler, nem trabalhar, E o que sabe he somente namorar, De janella esperando os valdevinos, Feitas huns papagaios femeninos; Formosuras pasmadas quanto a mim, Bem proprias para estátuas de jardim.
Portugal, Portugal! não te conheço! Cada vez te vou vendo mais avêço. Eu vejo tambem homens presumidos, Com desvanecimento de instruidos; Porém he hum saber tão fôfo, e escasso, Que andão a tropeçar a cada passo. Criticão tudo, nada se respeita, Sem saber onde tem a mão direita. Soffrer já mais se póde que a ignorancia O merito confunda co' a jactancia. A ponto se me está reprezentando Hum caso, que nos vem aqui frizando: Nosso insigne Pintor Alexandrino Fallou ao Preto velho Pai Justino, Para que lhe caiasse a propriedade De humas casas, que tinha na Cidade. Caiou-lhe o Preto a frente muito bem, E no fim não lhe quiz levar vintem, Dizendo que hum a outro companheiro Era desattenção levar dinheiro. Ora, assim como o preto, muita gente Sonha em ser grande cousa de repente!
Assentemos que o mundo cada dia He de doudos extensa enfermaria; Porque hum ser Mathematico projecta, Outro insigne Pintor, outro Poeta; Hum a Musico vai, outro a Letrado, Outro na Medicina he enfronhado; Hum he Filósofo, outro he Arquitecto, Outro quer ser da Lua, e do Sol neto; E muitos sem principios, nem razão, Não sabem mostrar mais que presumpção; Pertendendo roubar a fama, e gloria A quem cançou com livros a memoria. He tudo enthusiasmo, e parvoice, Desconcertos nascidos da doudice: E nas varias manias, que contém, Assenta cada qual que assim vai bem. Mas se viver por gosto assim pertendem, Que nem já huns aos outros bem se entendem, Vão vivendo, que as cousas deste mundo Humas ficão em cima, outras no fundo; Porque a razão nos mostra, e nos ensina Que tudo toca a meta, e então declina.
Portugal, Portugal! nao te conheço! Quanto mais penso em ti, mais esmoreço.
* * * * *
_Explicação dos Enigmas, Adivinhações, e Charades do 1.º Folheto, ou primeira Parte desta Obra._
O 1.º Enigma he = a letra _O_ = o 2.º = _Dedos_ == o 3.º = _Pares de luvas_ = a Adivinhação = _Figos_ = a 1.ª Charade = _hum Soldado_ = a 2.ª Charade = _hum Caçador_ =.
_Escolher té acertar._
_Improvizo do Autor._
Tafueszinhos deste tempo, Se estado quereis tomar, Deveis com muito sentido _Escolher té acertar._
Daquella, que rir sem tempo, E esperta de mais fallar, Fugir de se lhe dar corda, _Escolher té acertar._
A que de lograr os homens Com jactancia se gabar, Nem mais pôr-lhe a vista em cima, _Escolher té acertar._
Rapariga janelleira, He bom della não fiar, Namora a muitos, pois quer _Escolher té acertar._
A que ás modas afferrada A moda não perdoar, Deixalla, mas logo ir outra _Escolher té acertar._
A que der costura fóra, E meias a accrescentar, Deixalla ir pela malha, _Escolher té acertar._
Daquella, que crê em bruxas, Que se anda sempre a assustar, Fazer-lhe huma cruz á porta, _Escolher té acertar._
Não vos enleve a menina, Porque canta, e vai walçar; Sem tempo, não ha escolha, _Escolher té acertar._
Fingi ter paixão por todas, Depois huma exceptuar, Fazei o que ellas vos fazem, _Escolher té acertar._
Mal que a escolha se fizer, Sem demoras ir cazar, Mas tomar bem as medidas, _Escolher té acertar._
Qualidades da senhora Podeis por fóra indagar, Indagar não dá, nem tira, _Escolher té acertar._
O laço do Matrimonio, Dado sem se ponderar, Traz depois sempre a desordem, _Escolher té acertar._
Todos sabem que he melhor Prevenir do que emendar, Com brio, honra, e decencia _Escolher té acertar._
Ser amante, e não velhaco, Prometter, e não faltar, E para mais segurança _Escolher té acertar._
Os que nada tem de seu, Nem tem genio de casar, Desenganem, porque escusão _Escolher té acertar._
Hoje as mulheres não querem Os maridos sustentar, Antes tomão por systema _Escolher té acertar._
Donzella, ou viuva rica Pobretões não vão buscar, Vão entre os homens chineiros. _Escolher té acertar._
Casamentos com juizo Poucos vejo effectuar, Se Amor vai com o interesse _Escolher té acertar._
Formosura, e qualidades Já ninguem vai disputar, Se o dinheiro he quem traz tudo, _Escolher té acertar._
Porém siga embora o mundo Esse modo de pensar, Ide só honra, e juizo _Escolher té acertar._
Vós deveis sem ambição, Se tendes com que passar, Nas honestas, recolhidas _Escolher té acertar._
As ricas devem tambem Homens de bem amparar, E nos mais bem comportados _Escolher té acertar._
Se todos isto seguissem, Melhor se havião de achar; Mas dinheiro quer dinheiro, _Escolher té acertar._
A final será virtude Pensões do estado notar, E depois outro destino _Escolher té acertar._
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_Minhas filhas não caseis._
_Improvizo do Autor._
Namoradinhas da moda, Vede bem o que fazeis, Com tafues atordoados, _Minhas Filhas não caseis._
Se tomais paixões de amor, De velhas não morrereis; Tira amor annos de vida, _Minhas Filhas não caseis._
Todos huns santos se inculcão, Namorando cinco, e seis, Em lhes conhecendo a balda, _Minhas Filhas não caseis._
São huns em quanto pertendem, Depois são hydras crueis, Como a cobra, a pelle mudão, _Minhas Filhas não caseis._
Destes frangainhos novos, Ó Filhas, não vos fieis; Andão sempre dando ás azas, _Minhas Filhas não caseis._
Trazem-vos anneis das feiras De vintem, e de dez reis, Porque a mais chegar não podem, _Minhas Filhas não caseis._
De educação, e de genio He justo vos informeis; Com homens desconfiados, _Minhas Filhas não caseis._
Entre a guerra dos ciumes N'hum tormento vivereis; Meninas, coração livre, _Minhas Filhas não caseis._
Depois da primeira offensa Segunda não espereis, Fugi sempre a lograções, _Minhas Filhas não caseis._
Como he raro em Lotarias Achar a dos dezeseis, He raro achar bom marido, _Minhas Filhas não caseis._
Não duvido que finezas, E mil excessos acheis; Mas são iscas para a rêde, _Minhas Filhas não caseis._
As cartinhas amorozas, São finezas em papeis, O papel tudo consente, _Minhas Filhas não caseis._
Por huma verdade só Mentiras mil soffrereis, Olho vivo, prevenção, _Minhas Filhas não caseis._
Como Amor cego se pinta, A mesma queixa tereis, Se haveis cahir por cegueira, _Minhas Filhas não caseis._
Aturar os pequerruxos, Do marido os aranzeis, São cousas, que custão muito! _Minhas Filhas não caseis._
Vós em casa com mil sustos, Elles por outros quarteis; Vós em jejum, elles fartos, _Minhas Filhas não caseis._
Casar, e ficar depois, Como muitas achareis, Viuvas, pobres, doentes, _Minhas Filhas não caseis._
Os velhos são rabugentos, Os moços são infieis; Como ha pouco, onde se escolha, _Minhas Filhas não caseis._
Por sustos, penas, cuidados O descanco não troqueis, Solteiras não sois escravas; _Minhas Filhas não caseis._
Rir, brincar, zombar de todos He bem bom, se isto fazeis, Não vos enterreis em vida, _Minhas Filhas não caseis._
Vivei libertas, Meninas, Que contentes vivereis; Boi solto lambe-se todo, _Minhas Filhas não caseis._
Bem conheço, minhas Filhas, Que em velhas pouco valeis; Mas que serve acertar mal? _Minhas Filhas não caseis._
Amor, juizo, e fortuna He com que acertar deveis; Isto he bom, mas onde ha disto? _Minhas Filhas não caseis._
Nisto, que digo, vos mostro O fruto, que tirareis; Só por trez dias de festa, _Minhas Filhas não caseis._
Abraçai os meus conselhos, Porque vos não enganeis, Mandai Amor á tabúa, _Minhas Filhas não caseis._
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APÓLOGO.
_A Gallinha, e os Pardaes._