Cartas de Inglaterra

Chapter 7

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Poucos homens têm produzido um tão curioso conflicto de apreciações: diz-se d'elle que foi um grande homem de estado, e diz-se tambem que foi apenas um charlatão; a critica tem-n'o apresentado como um romancista de genio--e como um máu alinhavador de novellas! Homem de partido, soffreu em politica e em litteratura, ora a idolatria, ora o rancor da parcialidade partidaria. Uma coisa porém tinha a seu favor: é que todos os mediocres o detestavam.

É difficil, de resto, separar n'elle o politico do romancista: sempre fez politica nas obras d'arte, que se tornavam assim resoantes manifestos das suas idéas de estadista--e fez romance no governo, que parecia muitas vezes um _scenario de drama_, sobre o qual elle estava de penna na mão, combinando os lances d'effeito. Seja como fôr, a Inglaterra perdeu nele um dos seus genios mais pittorescos e mais originaes.

Individualmente foi um _feliz_. Tendo, em novo, lançado o plano da sua vida futura, como quem prepara um enredo de romance, realisou-o plenamente em todos os pontos, n'um continuo triumpho. Foi formoso, foi amado, foi rico, teve a melhor esposa de Inglaterra (como elle dizia), deixou uma vasta obra litteraria, foi o confidente escolhido da sua rainha, governou a sua patria, pesou nos destinos do mundo, e findou n'uma apotheose. Foi então absolutamente, ininterrompidamente, ditoso? Não. Este homem triumphante viveu acompanhado d'um secreto, d'um pequenino, d'um ridiculo desgosto: nunca pôde fallar bem francez!

IX

Os inglezes no Egypto

I

O que resta d'Alexandria.--A estreia d'Arabi Paxá.--Algemas ao café.

Até ha cinco ou seis semanas Alexandria podia ser descripta no estylo convidativo dos _Guias de viajantes_ como uma rica cidade de 250.000 habitantes, entre europeus e arabes, animada, especuladora, prospera, tornando-se rapidamente uma Marselha do Oriente. Nenhum _Guia_, porém, por mais servilmente lisonjeiro, poderia chamar-lhe interessante.

Apesar dos seus dois mil annos de edade, de ter sido, depois de Athenas e Roma, o maior centro de luxo, de lettras e de commercio que floresceu no Mediterraneo, a velha cidade dos Ptolomeus não possuia hoje nenhum monumento do seu passado, a não contarmos, ao lado d'um velho cemiterio mussulmano, uma coluna erigida outr'ora por um prefeito romano em honra de Diocleciano, conhecida pelo sobrenome singular de _Pilar de Pompeu_, e mais longe, estendido n'um areal, um obelisco pharaonico do templo de Luxor, que gosava a grotesca alcunha de _Agulha de Cleopatra_. E esta mesma reliquia está agora em Londres, no aterro do Tamisa, pousada n'uma peanha de bronze, allumiada pela luz electrica, aturdida pelo estrondo dos comboyos...

Os bairros europeus d'Alexandria quasi recentes (ha cincoenta annos, antes de Mehemet-Ali dar o impulso á sua reedificação, a grande metropole que espantava o califa Omar estava reduzida a uma aldeia vivendo da pesca e do commercio d'esponjas) compunham-se principalmente d'uma vasta praça, a famosa _praça dos Consules_, orgulho de todo o Levante, e de ruas largas, com nomes francezes, estuque francez nas fachadas, taboletas francezas nas lojas, cafés francezes, lupanares francezes--como um _faubourg_ de Bordéus ou de Marselha transportado para o Egypto e empenachado aqui e além de palmeiras.

A parte arabe da cidade não tinha nenhum pittoresco oriental: eram arruamentos quasi direitos, com casebres lavados a cal e terminando em terraço, pousados n'um solo, meio de terra e meio de areia, que a menor brisa do mar espalhava em nuvens pelo ar.

Cidade feia á vista, desagradavel ao olfacto, reles, insalubre, Alexandria visitava-se á pressa, ao trote de uma tipoia, e depressa se apagava da memoria, apenas o comboio do Cairo deixava a estação, e se ausentavam, entre as primeiras culturas do Delta, ao longo dos canaes, as filas de ibis brancos, os mais velhos habitantes do Egypto, outr'ora deuses, ainda hoje aves sagradas...

Todavia, tal qual era, Alexandria, com a sua bahia atulhada de paquetes, de navios mercantes e de navios de guerra; com os seus cáes cheios de fardos e de gritaria, os seus grandes hoteis, as suas bandeiras fluctuando sobre os consulados, os seus enormes armazens, os seus centenares de tipoias descobertas, os seus mil cafés-concertos e os seus mil lupanares; com as suas ruas, onde os soldados egypcios, de fardeta de linho branco, davam o braço á marujada de Marselha e de Liverpool, onde as filas de camelos, conduzidos por um beduino de lança ao hombro, embaraçavam a passagem dos _tramways_ americanos, onde os _sheiks_, de turbante verde, trotando no seu burro branco, se cruzavam com as caleches francezas dos negociantes, governadas por cocheiros de libré--Alexandria realizava o mais completo typo que o mundo possuia de uma cidade levantina, e não fazia má figura, sob o seu céo azul ferrete, como a capital commercial do Egypto e uma Liverpool do Mediterraneo.

Isto era assim, ha cinco ou seis semanas. Hoje, á hora em que escrevo, Alexandria é apenas um immenso montão de ruinas.

Do bairro europeu, da famosa _praça dos Consules_, dos hoteis, dos bancos, do escriptorios, das companhias, dos cafés-lupanares, resta apenas um confuso entulho sobre o solo, e aqui e além uma parede enegrecida que se vae alluindo.

Pela quarta vez na historia, Alexandria deixou de existir.

Tratando-se do Egypto, terra das antigas maldições, póde-se pensar, em presença de tal catastrophe, que passou por alli a colera de Jehovah--uma d'essas coleras de que ainda estremecem as paginas da Biblia, quando o Deus unico, vendo uma cidade cobrir-se da negra crosta do peccado, corria de entre as nuvens a cicatrizal-a pelo fogo, como uma chaga viva da Terra. Mas d'esta vez não foi Jehovah. Foi simplesmente o almirante inglez Sir Beauchamp Seymour, em nome da Inglaterra, e usando com vagar e methodo, por ordens do governo liberal do Sr. Gladstone, os seus canhões de oitenta toneladas.

Seria talvez deshonesto, de certo seria desproporcionado, o juntar aos nomes dos homens fortes que n'estes ultimos dous mil annos se têm arremessado sobre Alexandria e a têm deixado em ruinas,--aos nomes de Caracalla, o pagão, de Cyrillo, o santo, de Diocleciano, o perseguidor, e de Ben-Amon, o sanguinario--o nome de Sr. William Gladstone, o humanitario, o paladino das nacionalidades tyrannizadas, o apostolo da democracia christã. Mas se por um lado, evidentemente, a politica do snr. Gladstone não é um producto de pura ferocidade pessoal, como a de Caracalla, que fez arrasar Alexandria, porque um poeta d'essa cidade finmente dada ás letras o molestára n'um epigramma--por outro lado esta brusca aggressão de uma frota de doze couraçados, cidadellas de ferro fluctuando sobre as aguas, contra as decrepitas fortificações de Mehemet-Ali, este bombardeamento d'uma cidade egypcia, estando a Inglaterra em paz com o Egypto, parece-se singularmente com a politica primitiva do califa Omar ou dos imperadores persas, que consistia n'isto:--ser forte, cahir sobre o fraco, destruir vida e empolgar fazendas. D'onde se vê que isso a que se chama aqui a _politica imperial d'Inglaterra_, ou _os interesses da Inglaterra no Oriente_, póde levar um ministro christão a repetir os crimes d'um pirata mussulmano, e o snr. Gladstone, que é quasi um santo, a comportar-se pouco mais ou menos como Ben-Amon, que era inteiramente um monstro. Antes não ser ministro d'Inglaterra! E foi o que pensou o veneravel John Brigth, que, para não partilhar a cumplicidade d'esta brutal destruição d'uma cidade inoffensiva, deu a sua demissão do Gabinete, separou-se dos seus amigos de cincoenta annos, e foi modestamente occupar o seu velho banco de oposição...

Tudo o que se prende immediatamente com a aniquilação de Alexandria, é de facil historia, sobretudo, traçando-se só as linhas principaes, as unicas que pódem interessar quem está moral, e materialmente, a tres mil legoas do Egypto e das suas desgraças.

No principio de junho passado, o almirante inglez Sir Beauchamp Seymour achava-se nas aguas de Alexandria, commandando uma formidavel frota, e tendo ancorada ao seu lado uma esquadra franceza com o pavilhão do almirante Conrad. A França e a Inglaterra estavam alli com morrões accesos, vigiando Alexandria, de camaradagem, como tinham estado nos ultimos dous annos no Cairo, de penna atraz da orelha, fiscalisando, de camaradagem, as finanças egypcias: porque sabem, de certo, que, tendo o Egypto (endividado até ao alto das pyramides para com as burguezias financeiras de Pariz e Londres) omittido o pagamento de alguns _coupons_,--a França e a Inglaterra, protegendo maternalmente os interesses dos seus agiotas, installaram no Cairo dous cavalheiros, os srs. Coloin e Blegniéres, ambos com funcções de secretarios de fazenda no ministerio egypcio, ambos encarregados de colher a receita, geril-a e applicar-lhe a parte mais pingue á amortisação e juros da famosa divida egypcia!

De sorte que as duas bandeiras, de Inglaterra e da França, eram na realidade dous enormes papeis de credito, içados no tope dos couraçados. No almirante Seymour e no almirante Conrad reappareceram os dous burguezes, Coloin e Blegnières. E na bahia de Alexandria, perante o Egypto, um dos grandes fallidos do Oriente, as frotas unidas das duas altas civilisações do Occidente representavam simplesmente a usura armada.

Isto era assim na realidade. Officialmente, porém, os couraçados estavam alli fazendo uma demonstração naval, de facto realisando uma intervenção estrangeira--porque se tinham dado casos no Egypto e o Khediva declarara-se _coacto_. Todos os que conhecem a historia contemporanea de Portugal e de outros curiosos paizes constitucionaes sabem o que significa esta deliciosa phrase: _El-rei está coacto!_ Isto quer dizer que Sua Magestade se acha em palacio, cercado de uma populaça carrancuda que agarrou em chuços, arranjou uma bandeira no alto de um páu, e vem impor esta fórmula prodigiosamente desagradavel para El-rei: diminuição de auctoridade regia e augmento de liberdade publica...

Se El-rei conserva por traz do palacio alguns regimentos fieis, enverga n'esse momento a farda de generalissimo, e manda acutilar o seu povo: se desgraçadamente, porém, os soldados estão unidos aos cidadãos, então El-rei _declara-se coacto_, e pede a um rei visinho, mais forte e menos atarantado, que lhe mande uma divisão, a _restabelecer a ordem_--isto é a assegurar a Sua Magestade a sua somma intacta d'autoridade regia, dispersando a tiro a tentativa de liberdade publica. Isto hoje, realmente, já se não usa na Europa: mas no Oriente, ao que parece, é ainda um methodo muito decente de acalmar os descontentamentos nacionaes.

O Khediva, esse excellente e pacato moço, tinha sido victima de um _pronunciamento_ planeado, á maneira hespanhola, mas posto em scena á moda turca. Um coronel, Arabi-bey, que em breve ia ser o famoso Arabi-Pachá, apresentou-se com outros officiaes no palacio, e depois do _salamalek_, que na etiqueta turca consiste em beijar devotamente a aba da sobrecasaca do Khediva, como nós em Lisboa beijamos a tunica de Santo Antonio, lembrou a Sua Alteza a necessidade de fazer reformas, algumas puramente militares e em proveito dos coroneis, outras politicas, para bem da grande populaça fellah, e tão largas que constituiam uma mudança de regimen. Sua Alteza escutou, murmurou aquellas phrases sobre o _amor da nação, a felicidade dos subditos_, que o ceremonial indica nas occasiões d'atrapalhação regia e pareceu tão satisfeito com o interesse, que aquelles officiaes tomavam pela prosperidade do valle do Nilo, que os recompensou á maneira oriental--convidando-os a um banquete. Em torno da festiva mesa a cordealidade foi grande, o _champagne_ espumou contra as prescripções do Alcorão, e entre o sabor das truffas e o aroma dos ramos, o futuro do Egypto appareceu côr de rosa... O café foi servido nos jardins: e quando d'um lado entravam os escudeiros com os licores, do outro surgiram beleguins com algemas. Arabi e os seus camaradas, levando ainda na bocca o ultimo charuto que lhes offerecera Sua Alteza, foram conduzidos ás palhas do carcere.

Não ha nada mais delicioso--nem mais turco.

A Europa toda, a quem agrada a energia, applaudiu com estrepito a energia de Sua Alteza!

II

A desforra de Arabi.--Reformadores e coroneis.--O programma fellah.--A conferencia de Constantinopla.--A confusão do Grão-Turco.--As esquadras.

O Khediva teve em seguida, alguns tranquillos dias de triumpho.

Ao abrir o seu _Times_ ou o seu _Journal des Débats_ (porque este principe é illustrado) elle podia regosijar-se, vendo que esses dous ponderosos orgãos da opinião européa o consideravam um potentado energico e cheio de nervo, como cabe a um descendente do grande Mehemet-Ali, vivamente zeloso dos seus direitos, sabendo manter a ordem nos seus estados com duas mãos de ferro, digno emfim da sympathia das potencias.

Uma manhã porém, o palacio appareceu cercado de tropas--doze mil homens com dezoito peças d'artilharia--supplicando que Sua Alteza soltasse Arabi e lhe confiasse o ministerio da guerra. E davam esta razão, honrosa para a logica árabe: que, approvando o exercito as reformas de Arabi-Bey, entendia que elle as executaria muito mais confortavelmente sentado na poltrona de ministro da guerra do que estirado nas palhas do carcere.

O Khediva, que acabava talvez de saborear no _Times_ mais uma glorificação da sua energia, concordou e declarou até que sempre respeitara Arabi. Alli mesmo, sobre o joelho, o nomeou Pachá:--e Arabi-Pachá passou da enxovia para o poder, ao som das bandas marciaes...

Em taes circumstancias um caudilho europeu lança o seu programma tão ruidoso, tão brilhante, subindo tão alto no céo do progresso, como os foguetes que estalam n'esse dia--e de que ordinariamente, como dos foguetes, fica apenas um tição apagado. E estamos tão acostumados a isto, aqui n'estas regiões privilegiadas, onde a locomotiva silva, que as gazetas sisudas começaram a desconfiar de Arabi, desde que o não viram adeantar-se com o seu programma nas mãos. Não o tinha.

Em paiz mussulmano, sob a lei do Alcorão, não os ha: nem era de resto natural que um soldado egypcio (como disse, com uma gôche e desnecessaria ironia, o snr. Gambetta) tivesse encontrado por acaso _principios de oitenta e nove ineditos_ nos sarcophagos dos Pharaós. Não, de certo. Mas Arabi trazia tres ou quatro ideias que, se houvesse uma Europa decente, que lhe permittisse a realisação, podiam ser o começo de um novo Egypto, um Egypto possuindo-se a si mesmo, um Egypto governando-se a si mesmo, um _Egypto para os Egypcios_--não uma raça escrava enfeudada á familia de Mehemet-Ali, muito menos um refeitorio franco para os esfomeados europeus.

A meu vêr, o que impediu sempre que Arabi fosse um reformador--era o ser elle um coronel fellah, filho de fellah, nascido n'uma d'essas tristes aldéas, montões de choças feitas de lama secca, que negrejam ao comprido do Nilo. Tendo vivido na abjecta miseria dos fellahs--a peior que existe sobre a terra--elle, mais que ninguem, tinha direito a erguer-se em nome dos longos aggravos do fellah. Mas, ao mesmo tempo, Arabi era um soldado que ganhara os seus postos nas prolongadas guarnições do Alto Egypto e nas campanhas do Soudan, que voltára de lá com todo o orgulho da farda, e todo o pedantismo do sabre, não só repassado de militarismo, mas enfrascado em militança--e, portanto, prompto, desde que a sua voz resoava tão alto, a pôl-a ao serviço das pretenções do exercito... Elle representava, por origem e por profissão, as duas grandes classes do povo egypcio--o soldado e o fellah;--e desde o momento em que entre os egoistas, os voluptuosos, os escravos e os interesseiros, elle pareceu ser o unico homem no Egypto que se arriscava, de bom grado, pelas suas ideias, ao exilio e á enxovia,--tornou-se bem depressa, e naturalmente, chefe do _partido popular_ que queria as grandes reformas nacionaes, e pela mesma occasião caudilho do _partido militar_, que só appetecia vantagens de classe. Assim, em Arabi, o patriotismo confundia-se infelizmente com a insubordinação.

Nas suas reformas encontravam-se, n'uma triste mistura, ao lado de idéas largas, liberaes, contendo a revindicação dos direitos do trabalhador, as mais especiosas exigencias do quartel, revelando o official revoltado. Era com o mesmo enthusiasmo, e como se as duas cousas tivessem egual valor na obra da regeneração do Egypto--que elle pedia uma constituição parlamentar, e augmento de soldo e subida de posto para os coroneis seus camaradas. Que aconteceu? Que na Europa, aquelles que desejavam a continuação do regimen khedival (empreza financeira d'onde sahiam grossos dividendos) fizeram tanto ruido em torno das escandalosas pretenções da tropa, que não deixaram escutar os justos pedidos do povo, e desacreditaram facilmente Arabi, escondendo o seu bom lado de patriota, pondo em relevo o seu mau lado de coronel turbulento.

Toda a revolução dirigida por coroneis é justamente suspeita ao nosso moderno espirito europeu; mas Arabi é um egypcio; e no Egypto, onde o povo fellah, apesar de tão intelligente como qualquer das nossas plebes, é pouco mais que uma irresponsavel horda de escravos, e onde o exercito constitue a classe culta--a obra de progresso tem necessariamente de ser feita pelo soldado. Na Europa, porém, não se sabe isto--ou, antes, finge-se que não se sabe. As exigencias da tarimba puzeram na sombra as reclamações da cabana--e Arabi perdeu na Europa a auctoridade que podia ter como chefe dos fellahs por fallar de espada na mão, d'entre um quadrado de soldados...

De certo, Arabi não é um Mazzini, nem um Luiz Blanc. É um arabe do antigo typo, que apenas leu um livro--o Alcorão. Mas, como homem, possue qualidades de intelligencia, de coração, de caracter, que não ousam negar aquelles mesmos que o estão combatendo tão brutalmente. E como patriota, está á altura dos grandes patriotas: havia certamente muito egypcio no Egypto que abominava o sordido regimen khedival e soffria de vêr o rico valle do Nilo devorado pelo estrangeiro, como outr'ora pelos gafanhotos;--mas esses limitavam-se a curvar tristemente os hombros, invocando o nome de Allah.

Este é o primeiro que entendeu que Allah, apesar de grande e forte, não póde attender a tudo, e que, portanto, se resolveu a tirar a espada em nome do fellah, contra a oppressão colligada dos pachás turcos e dos agiotas christãos.

Quaes eram, por fim, as reformas de Arabi, esse monstro de sedição?

Arabi queria, em primeiro logar, o fim da auctoridade absoluta do Khediva, e o Egypto governado por uma Assembléa eleita; e, como consequencia d'esse novo regimen, uma reforma radical no uso dos dinheiros publicos, que até ahi iam parte para a côrte do Khediva, parte para o harem do Sultão, senhor suzerano do Egypto, parte para as cohortes cerradas de funccionarios estrangeiros, parte, uma grande parte, para pagar os _coupons_ de divida em Pariz e Londres, ficando tão pouco para as necessidades do paiz, que havia dois annos que quasi se não dava soldo ao exercito!

Arabi não negava a divida externa, contrahida por esse esplendido perdulario Ismail-Pachá, mas reconhecida pela nação e garantida pela sua honra:--sómente não admittia que a França e a Inglaterra estivessem installadas no Cairo, á bocca dos cofres, esperando a chegada do imposto, para empolgar uma parte leonina; de tal sorte, que, para satisfazer a voracidade do credor europeu, esmagava-se com tributos o fellah, que, por mais que se esfalfasse dia e noite, tinha por fim de recorrer ao usurario europeu. Cousa estupenda! A Europa apresentava-se officialmente como credora, e, para se fazer embolsar, fornecia secretamente o agiota!...

Mas o ponto delicado das reformas de Arabi era quando tocavam com a situação dos estrangeiros no Egypto. Havia ahi pretenções monstruosas. Arabi exigia que se abolisse o privilegio pelo qual os estrangeiros estabelecidos no Egypto e enriquecendo no Egypto não pagam imposto. O desalmado queria que não houvesse esses tribunaes de excepção para os estrangeiros, que, sob o nome de _tribunaes mixtos_, distribuem duas justiças--uma de mel para o europeu, outra de fel para o arabe. Emfim, esse homem fatal pretendia que os empregos publicos não fossem dados exclusivamente a estrangeiros--e que se não pagassem annualmente, como se pagavam, mais de _trez mil contos_ de bom dinheiro egypcio, a francezes, inglezes e italianos repoltreados em sinecuras em todas as repartições do valle do Nilo, e quasi todos tão uteis ao estado como aquelle inglez que, com uma carta de recommendação de Lord Palmerston, foi nomeado coronel do exercito egypcio e ao fim de nove annos, depois de ter recebido perto de oitenta contos de soldos, ainda não tinha visto o seu regimento e _ainda mesmo não tinha uniforme_!

Taes eram, em resumo, as abominaveis idéas de Arabi, e não se imagina facilmente a apopletica indignação que ellas causaram á França republicana e á livre Inglaterra. Arabi foi considerado uma féra. Na Bolsa de Pariz, no _Stock-exchange_ de Londres, onde os fundos egypcios tinham descido, pedia-se com energia a suppressão immediata d'esse iniquo aventureiro.

Os gritos estridentes dos estrangeiros no Egypto, ameaçados nas suas pessoas e nos seus privilegios, enterneciam a Europa.

As potencias occidentaes _trocaram as suas vistas_, segundo a hedionda phrase diplomatica, e concordou-se que o Egypto _estava em anarchia_. O Khediva, esse já se declarara _coacto_, e urgia _descoactar_ rapidamente esse amavel principe, tão doce ao estrangeiro. A Inglaterra e a França, pois, (paizes que dizem ter interesses superiores no Egypto) mandaram as suas esquadras ás aguas de Alexandria, para aterrar Arabi. Póde-se perguntar até que ponto seis couraçados, sem tropas de desembarque e ancorados n'uma bahia, conseguiriam atarantar um ministro da guerra, seguro no Cairo, a dez horas de caminho de ferro, cercado de vinte mil homens de tropas regulares, apoiado por quatro milhões de população fellah, alliado aos grandes chefes beduinos, e sanctificado pela approvação religiosa dos Ulemas...

Hoje, aquelles mesmos que aconselharam essa manifestação, como o _Times_, confessam com o rubor nas columnas, que foi uma insensatez. Em todo o caso fez-se--e acompanhada de um documento, um papelucho diplomatico que, pelo comico intenso do seu conteúdo, parecia arrancado a alguma farça descabellada de Labiche. Esse escripto, apresentado gravemente pelos consules de França e Inglaterra, intimava o Khediva a que demitisse Arabi, o exilasse para o Alto-Egypto, para além das cataractas, conservando-lhe, para o não descontentar de todo, as suas honras de pachá e os seus soldos de coronel! Não sentis aqui, amigos, toda a folia de um _vaudeville_? De um lado o Khediva abandonado, em palacio, envolvido por uma revolução victoriosa, refugiado na equivoca fidelidade de alguns ajudantes de campo e de alguns eunucos; do outro lado Arabi tendo por si o exercito, a nação, o deserto e as mesquitas. E a Europa suggere áquelle Khediva que desterre para a Nubia este Arabi! Conheceis cousa alguma que mais reclame a _verve_ do chorado Offenbach? Os jornaes inglezes hoje confessam tambem entre dentes que o papelucho era estupido. Se o era! E estão d'ahi a vêr o resultado: Arabi encolheu os hombros, adjudicou-se mais o ministerio da marinha, e substituiu alguns dos outros ministros, antigos familiares do Khediva, por homens seus, gente de nervo e de arranque.

Perante esta resposta dada ao seu _ultimatum_, a Europa ficou, se me é licito este dizer irreverente--_de orelha murcha_. E então tomou a decisão das grandes crises; delegou diplomatas que se sentaram em torno de uma mesa de panno verde, e enterraram pensativamente a cabeça entre os punhos. Chamou-se a isto a _Conferencia de Constantinopla_. O seu fim, todo louvavel, era _resolver a questão do Egypto_.