Cartas de Inglaterra

Chapter 6

Chapter 63,694 wordsPublic domain

Benjamin Disraeli nasceu por isso entre os livros--litteralmente entre os livros, porque a casa em que viviam os Disraeli offerecia o espaço de uma boceta, e no quarto da creança, entre a accumulação vetusta dos calhamaços, havia apenas espaço para uma cadeira e para um berço. O velho Disraeli era judeu: mas felizmente para os destinos futuros de seu filho rompeu com a synagoga, e todos os Disraeli se fizeram christãos. Benjamin tinha então dezessete annos, e o seu padrinho na pia baptismal foi um certo Samuel Rogers, notavel por ser ao mesmo tempo um dos mais ricos banqueiros da _City_ e um dos poetas mais elegiacos do seu tempo--e notavel ainda por não ficar na historia, nem como banqueiro, nem como poeta, mas como um requintado _gourmet_, o grande Lucullus de Londres, que deu os mais celebres, os mais finos jantares da Europa.

Assim marcado com o rotulo christão, Benjamin Disraeli largou a caminhar pela vida fóra, mas foi encalhar bem depressa n'um cartorio de tabellião--onde se diz que, durante dous annos, este moço orgulhoso, que já então se considerava um semi-deus, redigiu procurações e testamentos. Com a mesma penna, porém, ia escrevendo _Vivian Grey_: e da tempestuosa sensação que este romance produziu data a sua grande carreira. A obra, á parte algumas fugitivas scintillações de um genio ainda desequilibrado, é no seu conjunto, ao mesmo tempo pesada e vaga; mas satisfazia os gostos escandalosos e intrigantes da sociedade d'então, pondo em scena todas as individualidades marcantes de Londres, politicos, _dandies_, rainhas da moda, poetas, especuladores.

O melhor resultado de _Vivian Grey_, foi tornar Disraeli Junior (como elle então se assignava) o favorito de Lady Blenington e do conde d'Orsay, as duas dominantes figuras de Londres d'essa época, e que tinham _de sociedade_ o mais selecto, mais intelligente, mais apetecido salão de Inglaterra.

Estes dous formavam um typo destinado a reinar. Lady Blenington era uma mulher de graciosa e olympica belleza, de uma extrema audacia de caracter e de alta energia intellectual. O conde d'Orsay, esse era o homem que durante vinte annos governou a moda, o gosto, as maneiras, com a mesma indisputada auctoridade com que hoje o principe de Bismarck arbitra na Europa.

Usar um modelo de gravata ou admirar um poeta que não tivessem sido aprovados pelo conde d'Orsay, seria correr o mesmo risco de uma nação que hoje, sem auctorização secreta do principe de Bismarck, organisasse uma expedição militar. Lady Blenington, entre outras coisas embaraçadoras, tinha uma filha: e o bello d'Orsay, não sei porque, nem elle o soube jámais, casou com essa menina. Os noivos vieram viver com Lady Blenington; e, bem depressa, entre seu brilhante marido e sua resplandecente mãe, a pobre condessa d'Orsay foi como uma pallida lampada bruxoleando entre dous astros. Fez então uma cousa sensata e espirituosa: apagou-se de todo, desappareceu. E o conde d'Orsay e Lady Blenington, livres d'aquella senhora que entristecia, regelava as salas com o seu ar honesto e frio, começaram então a scintillar tranquillamente, como constellações conjunctas no firmamento social de Londres. E Londres curvou-se deante d'esta nova e original situação domestica, como se curvava deante de uma nova sobrecasaca do conde d'Orsay, ou deante de uma decisão litteraria de Lady Blenington.

Benjamin Disraeli tornou-se bem depressa um dos heroes d'este salão--onde desde logo se mostrára com esse ar de tranquilla superioridade, de correcto desdem, que foi um dos segredos da sua força. Ordinariamente conservava-se calado, apoiado ao marmore da chaminé, n'uma pose d'Apollo melancholico, abandonando-se á caricia ambiente dos olhares das damas que viam n'elle a encarnação radiante do poetico Vivian Grey. As pessoas mais intimas, começando por Lady Blenington, já lhe chamavam sempre _Vivian, querido Vivian_. O conde d'Orsay fizera-lhe o retrato a sepia--honra que elle dava raramente, e a mais appetecida n'esse curioso mundo.

Todos estes triumphos de Disraeli Junior não deixavam de surprehender Disraeli Senior. Um dia, dizendo-lhe alguem que seu filho estava compondo um romance, em que entravam duques, e toda a sorte de grandes, o velho e laborioso litterato exclamou:--Duques, senhores! Mas meu filho nunca viu um sequer!

Viu muitos depois, viu-os todos--e governou-os com uma vara de ferro. Mas n'esse tempo o bello Disraeli Junior era ainda radical, ou tomára ao menos essa attitude. Meditava mesmo a sua _Epopêa da Revolução_, a sua unica obra em verso, uma vaga rhapsodia que eu nunca li, mas de que os criticos mais benevolos fallam como d'um volume de duzentas paginas, sem uma só linha toleravel. E, cousa curiosa, este homem tão fino, tão sceptico, tão experiente, nunca perdeu a candura quasi comica de se considerar um grande poeta como Virgilio ou como Dante, e a esperança phantastica de que as gerações futuras poriam a _Epopêa da Revolução_ ao par da _Eneida_, ou da _Divina Comedia_.

Apesar de poeta abominavel e de perfeito dandy--ou talvez por isso mesmo--Benjamin Disraeli era reconhecido n'esse tempo como um dos chefes do movimento da _Joven Inglaterra_.

A _Joven Inglaterra_ consistia n'um grupo de rapazes, ardentes e aristocratas, que se tinham embebido da Revolução atravéz da litteratura; fallavam muito da Humanidade e queriam sobretudo um _burgo pôdre_ que os nomeasse deputados; cultivavam pelos salões o amor platonico, quereriam vêr o povo feliz comtanto que estivessem elles no poder para promover essas felicidades, e (traço decisivo das suas maneiras e da sua _pose_) quando se escreviam uns aos outros tratavam-se por _my darling--meu amor_!

Tinham ainda outros distintivos: usavam o cabello á _nazarena_, mostravam a coragem (enorme n'esse tempo) de admirar o odiado Byron, e procuravam elevar e aperfeiçoar a arte da cozinha em Inglaterra!

No emtanto, Benjamin Disraeli já estava bem decidido a sacudir o seu radicalismo--quando fosse necessario aos interesses da sua careira. E essa carreira via-a elle então, apesar de desconhecido e pobre, tão claramente triumphante no futuro como se a tivesse deante dos seus olhos escripta, parte por parte, n'um programma.

Em pleno reinado dos _tories_, é caracteristica já a sua resposta a Lord Melbourne, primeiro-ministro então, que lhe perguntava o que elle tencionava fazer.

--Ser eu o primeiro-ministro d'aqui a pouco--respondeu o dandy com as suas grandes maneiras á Vivian Grey.

Lord Melbourne viu n'esta resposta uma odiosa e insolente jactancia. E assim parecia, quando, tempo depois, Disraeli, já deputado por Wycombe, fez o seu primeiro discurso--e o viu suffocado pelas gargalhadas e pelos apupos. Como não podia dominar o tumulto, calou-se, dizendo apenas estas palavras mais:

--Hoje não me quisestes ouvir. Um dia virá em que eu me farei escutar!

E um dia veio em que não só a camara dos communs, mas a Inglaterra, todo o continente, a terra civilizada escutavam com anciedade as palavras que iam cahir dos seus labios, e que traziam comsigo a paz ou a guerra na Europa.

II

A reputação de salão que gozava Lord Beaconsfield, levou algum tempo a transformar-se em popularidade; mas a sua popularidade, apenas obtida, penetrou rapidamente a enorme massa trabalhadora, e tornou-se em poucos annos essa vasta e ressoante nomeada, que fez o seu nome familiar, quasi domestico, em toda a parte onde se falla inglez, na mais rude aldeia de pescadores de Cornwall, no _bush_ d'Australia, entre os mesmos montanhezes barbaros das _Highlands_, e que, quando elle se dirigia ao congresso de Berlim, attrahia ás estações do caminho de ferro as populações da Allemanha a contemplarem o _grande inglez_. E este reconhecimento de gloria constitue um dos phenomenos mais curiosos da carreira de Lord Beaconsfield; porque, em geral, não se avalia bem a difficuldade portentosa de obter uma fama, mesmo mediocre.

Não ha nada tão illusorio como a extensão de uma celebridade; parece ás vezes que uma reputação chega até aos confins de um reino--quando na realidade ella escassamente passa das ultimas casas de um bairro.

No momento de sua prodigiosa voga, o velho Alexandre Dumas ficou assombrado de que o magistrado de uma villa visinha de Paris, homem illustrado, de resto, não soubesse com que letras se escrevia esse glorioso nome de Dumas!

E se nós pudessemos reduzir a numeros as proporções das glorias contemporaneas, ficariamos aterrados perante a grotesca mesquinhez dos resultados. Nós outros jornalistas, criticos, artistas, homens de estudo e de curiosidade litteraria, julgamos quasi impossivel que haja alguem na Europa que não tenha lido Victor Hugo, ou que, pelo menos, não conheça esse nome de syllabas faceis, que ha meio seculo fere, a grande estrondo, o ouvido humano; pois bem, póde-se dizer que fóra de França apenas cinco mil pessoas talvez terão lido Victor Hugo--e que não passará decerto de dez mil o numero de creaturas que lhe saibam o nome, incluindo mesmo a vasta massa democratica de que elle é o epico official. E já isto constitue um famoso progresso--desde o tempo em que Voltaire ambicionava ter _cem leitores_!

A conhecida alegoria da fama, cantando o nome d'um varão com as suas cem bocas, applicadas ás suas cem tubas, e voando de um a outro confim do universo--é uma das imagens mais descaradamente falsas que nos legou a Antiguidade. Esse estrondear das cem tubas morre como um suspiro dentro da área humilde d'um corrilho ou d'uma _coterie_: e nada viaja com uma lentidão egual á da Fama. Um fardo de fazendas gasta quatro dias a vir de Londres a Lisboa--e os nomes de Tennyson, Browning, Swinburne, os tres grandes poetas da Inglaterra, e que ha quarenta annos são a sua mais pura gloria, ainda cá não chegaram. É verdade que todo o mundo necessita flanellas--e nem todo o mundo supporta poesia.

Mas uma celebridade não encontra só difficuldades em transpôr a fronteira--acha-as sobretudo e quasi insuperaveis em fixar a atenção da grande turba dos seus concidadãos. Principalmente n'um paiz como a Inglaterra, em que a aspera lucta pela existencia, a soffrega preoccupação do pão diario, o feroz conflicto da concorrencia, não permitem esses pachorrentos vagares, os vagares portuguezes ou hespanhóes, em que se está de barriga ao sol, prompto a olhar, a admirar o menor foguete que estala nos ares.

Em Inglaterra, o duque de Wellington era de certo popular--porque ganhou a batalha de Waterloo, e portanto, segundo a crença contemporanea, salvára a Inglaterra da invasão. Gladstone é conhecido em cem cidades e mil aldeias, porque alliviou a nação dos seus grandes impostos. Mas estes fórmam as excepções; as outras celebridades inglesas, ou sejam politicos como Lord Salisbury, ou philosophos como Spencer, ou poetas como Browning, ou artistas como Herkomer--permanecem profundamente ignorados da grande massa do publico. São reputações de salão, de academia, de club, de redacção de jornal.

Ora, Lord Beaconsfield realmente nunca fez coisa alguma para se tornar popular e sempre lembrado; nunca ligou o seu nome a uma grande instituição, a um grande beneficio publico, a uma campanha victoriosa. Tudo, ao contrario, n'esta original personalidade parecia destinal-o á impopularidade: a sua origem, os seus gestos e habitos anti-inglezes, a sua poderosa veia sarcastica, a sua oratoria requintada e subtil, o gongorismo metaphysico das suas concepções litterarias, e certos lados muito accentuados do seu fundo semitico. E a isto accrescia que, para a grande maioria da nação, elle representava um _parvenu_ de auctoridade oligarchica, surdamente hostil á ideia de democracia e de soberania popular.

A sua assombrosa popularidade parece-me provir de duas causas: a primeira é a sua idéa (que inspirou toda a sua politica), de que a Inglaterra deveria ser a potencia dominante do mundo, uma especie de Imperio Romano, alargando constantemente as suas colonias, apossando-se dos continentes barbaros e _britannizando-os_, reinando em todos os mercados, decidindo com o peso da sua espada a paz ou a guerra do mundo, impondo as suas instituições, a sua lingua, as suas maneiras, a sua arte, tendo por sonho um orbe terraqueo que fôsse todo elle um imperio Britannico, rolando em rythmo atravez dos espaços.

Este ideal, que tomou o nome de _imperialismo_ nos dias de gloria de Lord Beaconsfield, é uma idéa querida a todo o inglez; os mesmos jornaes liberais que com tanto furor denunciavam os perigos d'esta politica romana, no fundo gozavam uma immensa satisfação de orgulho em proclamarem a sua inconveniencia. Havia tanta prosapia britannica em conceber um tal Imperio, como em o condemnar, e em dizer, com um ar de nobre renunciamento: «Não nos convém a responsabilidade de governar o mundo!»

Lord Beaconsfield, sendo a encarnação official d'esta idéa imperial, tornou-se naturalmente tão popular como ella. Foi considerado então como o instrumento da grandeza exterior da Inglaterra, como o homem que a fazia dominante e temida, que mantinha alta e reluzindo terrivelmente aos olhos do mundo a espada de John Bull. Gladstone, Bright, a grande escola liberal, conhecida pela _escola de Manchester_, era agora accusada de ter, com a sua politica de abstenção só occupada de melhoramentos materiaes, de finanças, de civilização interna--deixado definhar, morrer o prestigio inglez na Europa.

E ai vinha agora aquele extraordinario judeu, apoiado na riqueza, na prosperidade interior que lhe tinham legado os liberaes, collocar de novo a Inglaterra á frente das nações, fazendo ressoar ao longe e ao largo a sua voz de leão...

Todo o paiz andou durante annos inchado com esta grandiosa filaucia, que Lord Beaconsfield ia sempre entretendo com os seus discursos bellicosos, as ameaças theatraes, as concentrações de frotas, um constante movimento de regimentos, invasões aqui e além, a occupação de Chypre, a quasi absorpção da propriedade do isthmo de Suez, sempre algum lance brilhante em que a Inglaterra apparecia entre os fogos de Bengala da sua eloquencia, como a senhora do mundo. E John Bull adorava isto, apesar de vêr que a espada da Inglaterra, depois de flammejar um momento nos ares, era invariavelmente recolhida á bainha; apesar de comprehender que o dinheiro se gastava como a agua das fontes; apesar de sentir que os impostos cresciam; apesar de perceber que a Inglaterra estava tomando sobre os hombros responsabilidades desproporcionadas com a sua força.

Depois, um dia, o grande senso pratico da Inglaterra viu claramente a necessidade de brilhar menos aos olhos do mundo--e de se occupar da machina interior, que começava a desarranjar-se: pôz fóra o grandioso Beaconsfield, e chamou o pratico Gladstone--o homem que reconstitue as finanças, que allivia os impostos, que faz as grandes reformas interiores... Mas, apesar de tudo, Beaconsfield ficou como o typo do estadista que mais que nenhum outro amou e desejou a grandeza imperial da patria.

A esta causa de popularidade deve juntar-se outra--a _reclame_. Nunca um estadista teve uma _reclame_ igual, tão continua, em tão vastas proporções, tão habil. Os maiores jornaes de Inglaterra, da Allemanha, da Austria, mesmo da França, estão (ninguem o ignora) nas mãos dos israelitas. Ora o mundo judaico nunca cessou de considerar Lord Beaconsfield como um judeu--apesar das gotas d'agua christã que lhe tinham molhado a cabeça. Este incidente insignificante nunca impediu Lord Beaconsfield de celebrar nas suas obras, de impôr pela sua personalidade a superioridade da raça judaica,--e por outro lado nunca obstou a que o judaismo europeu lhe prestasse absolutamente o tremendo apoio do seu ouro, da sua intriga e da sua publicidade. Em novo, é o dinheiro judeu que lhe paga as suas dividas; depois é a influencia judaica que lhe dá a sua primeira cadeira no parlamento; é a ascendencia judaica que consagra o exito do seu primeiro ministerio; é emfim a imprensa nas mãos dos judeus, é o telegrafo nas mãos dos judeus, que constantemente o celebraram, o glorificaram como estadista, como orador, como escriptor, como heroe, como genio!

Como romancista, Lord Beaconsfield nunca escreveu propriamente um romance tal como nós modernamente o comprehendemos. Alguns dos seus romances são pamphletos em que os personagens constituem argumentos vivos, triumphando ou succumbindo, não segundo a logica dos temperamentos e as influencias do meio, mas segundo as necessidades da controversia ou da these. Outros fórmam verdadeiras allegorias como as tem a pintura decorativa nas muralhas dos monumentos publicos. N'um dos mais celebres, _Lothair_, ha um mancebo ideal, encarnação do espirito inglez, que ama successivamente tres mulheres: uma italiana casada com um americano, bella creatura de perfil classico e fórmas de Deusa, que representa a Democracia; uma ardente rapariga de cabellos negros e revoltos, sempre em extasi, que é a personificação da Egreja Catholica; e emfim uma doce e loura donzella, séria, grave e terna, que symboliza o Protestantismo. Depois d'hesitar entre estas tres paixões--decide-se, como um bom inglez, por casar com o Protestantismo, quero dizer, com a loura, conservando um culto vago e secreto pela Democracia, quero dizer, pela soberba americana de perfil marmoreo. Moral: a felicidade d'um povo está na posse d'uma forte moral christã, alliada a um uso moderado da liberdade. Isto dava um excelente e apparatoso _fresco_ na sala d'um parlamento. E Lord Beaconsfield accentua os detalhes allegoricos com uma tal ingenuidade, que faz por vezes sorrir; assim, por exemplo, a americana, isto é, a Democracia, apparece sempre em _soirées_ e festas vestida á grega, com uma estrella de brilhantes na fronte, como a cabeça da _republica_ nas moedas francezas de cinco francos!

O meio, em que os seus romances se passam, tem quasi sempre um ar feerico: tudo são, como disse ha pouco, palacios d'um fabuloso e sombrio luxo, festas como as não tiveram os Medicis, fortunas de banqueiros, de duques, perante as quaes os Cresus, os Monte-Christos, os Rothchilds, todos os ricaços da lenda ou da realidade apparecem como despreziveis pelintras.

A linguagem d'estes personagens corresponde ao esplendor das suas moradas e ao nebuloso dos seus destinos. _Misses_ de dezoito annos, habitando prosaicamente Belgrave Square, fallam aos seus namorados com a pompa allegorica do _Cantico dos Canticos_; e quando (o que é frequente) dois brilhantes espiritos como Sidonia ou Mrs. Coningsby conversam, veem-se, cruzando rapidamente d'um a outro labio, as imagens rutilantes, os luminosos conceitos, como se as duas creaturas se estivessem recitando um ao outro numeros do _Intermezzo_ ou sonetos de Petrarcha.

Esta linguagem, de resto, convem ás idéas, aos sentimentos, ás aventuras que elle atribue aos seus typos principaes; tudo o que é humano e real fica absolutamente de fóra d'essas transcendentes creações: fallando como poetas, comportam-se naturalmente como chimeras.

O seu mais famoso heroe, Tancredo, vae a Jerusalém e á Syria com este fim: _penetrar o mysterio asiatico_. Não percebem? É facil. Sendo Jerusalém e as planicies da Syria o unico ponto do Universo em que Deus, em tempos, conversou com o homem, em que appareceram os prophetas e os Messias, em que das sarças, do murmurio dos rios e do echo dos desertos surgiram as Leis Novas, dando á humanidade destinos novos--o moço Tancredo parte, para que lá, n'esses logares, Deus lhe falle, um raio de luz o divinize, uma religião lhe seja revelada, e tendo partido de Londres como simples lord, possa regressar a Regent Street, como Messias e regenerador de sociedades!

E (perguntar-me-hão) o que succede a Tancredo na Syria? O que succede a todos os personagens de Lord Beaconsfield, que nas primeiras paginas partem para sobrehumanos destinos, como os antigos cavalleiros da Tavola Redonda: succede-lhe que casa com uma linda e honesta menina, e que tem muitos filhos no meio de muita felicidade...

E o _mysterio asiatico_? Parece que o não achou. Mas descobriu coisas curiosas e de rara fabula: por exemplo, um povo pagão, onde reina uma bella sacerdotisa de Apollo, que celebra ainda hoje nobres cultos hellenicos, e que se namora de Tancredo. Mas Tancredo, cavalleiro christão, depois de a defender da invasão d'um outro povo, que adora idolos infames, foge, foge á desfilada, deixando a classica rainha a gemer de amor aos pés da estatua d'Astarte. Depois elle mesmo está para ser rei do Libano. Emfim, uma grandiosa e rutilante salsada. E tudo isto se passa ahi por 1855, no tempo da Exposição de Paris.

Mas que prodigioso talento, que arte, que amplidão d'imaginação para pôr de pé, em todo o seu brilho, este desordenado monumento d'Idealismo!

Com effeito, que artista fino e por vezes poderoso!

Apesar d'este abuso do gongorismo na ficção, do vago e ao mesmo tempo do amaneirado das suas concepções, d'estes enredos e d'estes personagens que por vezes parecem uma mystificação--os seus romances nunca deixam d'interessar, direi mesmo, nunca deixam de captivar. Atravessa-os sempre um enthusiasmo sincero--em que se sente o amor poetico com que elle segue os seus generosos heroes, as suas bellas mulheres, n'esses destinos fóra da realidade. Depois a sua fina sensibilidade, o seu idealismo um pouco convencional, mas de grande _elan_, os requintes d'um gosto supremo--levam-no a dotar os seus personagens, e a acção em que elles se movem, de uma tal belleza espiritual, de uma tão alta nobreza de costumes, que os olhos enlevam-se, a imaginação namora-se d'esse mundo ficticio, d'essa humanidade de poema, onde nada existe de vulgar ou de baixo, e onde brilham fórmas maravilhosas e transcendentes do pensar, do sentir e do viver.

Isto dá-lhe uma qualidade encantadora: é _luminoso_. Personagens, paizagens, interiores, o proprio movimento da aventura--tudo está banhado n'uma luz serena e graciosa. Pintando as cousas fóra da verdade social, não tendo de lhe apresentar as sombras tristes, exclue dos seus vastos quadros tudo o que na vida é duro, brutal, feio, máu, estupido--as fórmas varias da baixeza humana.

Escrevia para uma sociedade rica, nobre, litteraria, requintada--e mostra-lhe um mundo d'ouro e crystal, girando n'uma bella harmonia, batido de uma luz côr de rosa...

Tenho insistido n'este lado _não real_ dos livros de Lord Beaconsfield. Todavia, um homem d'estes, antigo _dandy_, critico, estadista, habituado a governar, observador por necessidade, não podia deixar de ter accumulado uma grande experiencia dos caracteres e da sociedade; e essa experiencia deveria necessariamente transparecer nas suas pinturas da vida. E lá está com effeito. Por entre as suas grandes creações symbolicas, de indisciplinada imaginação (_Tancredo_, _Lothair_, _Sibyl_) move-se todo um mundo real, de uma vida exacta e forte, figuras de carne, postas de pé com um singular vigor de desenho e côr. São os seus personagens secundarios, os seus politicos, os seus intrigantes, os seus homens de lettras, as suas mulheres da moda, os seus lords elegantes. Todos estes typos fôram copiados do natural. Londres conhecia-os, dava-lhes logo os nomes; e o escandalo d'estes retratos foi mesmo uma das grandes causas do successo de Lord Beaconsfield. Mas, mesmo para quem não frequenta a sociedade de Londres, e não conhece os originaes, estes typos interessam--porque _vivem_.

Ordinariamente são apenas esboços, mas magistraes; e apparecendo assim em destaque, ao lado de creações de pura imaginação, descomedidamente poeticas e de contornos fluctuantes, esses typos reaes adquirem um relevo maior, como perfis da verdadeira humanidade, mostrando-se por entre o nebuloso de uma mythologia.

São elles os que interessam, e da vasta galeria de Lord Beaconsfield só elles ficarão lembrados.

Seria impossivel, n'este estudo ao correr da penna, feito só de impressões, marcar todos os traços de uma individualidade tão complexa como a de Lord Beaconsfield.