Cartas de Inglaterra

Chapter 3

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Depois vem a noite. É o peior. Os homens que fizeram talvez cinco legoas de galope atraz das rapozas, ou que se estiveram adestrando em jogos athleticos, têm somno. De gardenia na casaca e perola negra na camisa, estendidos para o fundo do sofá, derreados, meio adormentados pelo _Nocturno_ de Chopin que um anjo louro preludia ao fundo da sala, são tão inuteis para a _flirtation_, o espirito, a intriga, o amor, como se fossem empalhados.

Debalde as pobres damas fizeram uma _toilette_ de duzentas libras: debalde resplandecem, ás mil luzes de cêra, os seus hombros de deusas. De nada valle. O _gentleman_ anceia por deixar a sala, ir reconfortar-se com o seu _brandy and soda_, estirar aquelles membros que a raposa cançou, em lençóes bem perfumados e bem _bassinés_, e ressonar forte.

Esta situação era intoleravel.

E os homens mesmo soffriam. Galopar n'um cavallo de preço sobre a terra dura da neve, ao ladrar da matilha, por uma manhã de brisa fria--tem encanto. Mas póde-se isso comparar á delicia de ir tagarelar para o _club_, ter todas as noites trez ou quatro bailes, fazer phrases sobre a questão do Oriente, e ceiar com Miss Fanny, n'um quente _boudoir_ de veludo, emquanto fóra a plebe patinha na lama de Londres?! Não, não se póde comparar.

E por isso veio o momento psychologico, como diz esse illustre homem de prosa, o snr. De Bismarck, em que _ladies_ e _lords_ concordaram que o inverno no campo era bom para os lobos; e que para pares de Inglaterra, Londres era preferivel. E ahi está como se vae ter esta cousa inesperada na vida ingleza--_o inverno em Londres_.

E, todavia, Deus sabe que elle não é agradavel, esse inverno de Londres! De manhã, ao acordar, tem-se deante da janella uma sombra opaca, espessa, parda, arripiadora e sinistra: é necessario fazer a barba, com o gaz flammejando; almoça-se com todas as velas do candelabro accesas, e a carruagem que nos conduz é precedida de um archote. Ao meio dia esta decoração de inverno muda; a sombra perde o tom pardo e, por gradações odiosas, ganha um amarello de óca e começa a exalar um vapor fetido. Respira-se mal, a roupa toma um pegajoso humido sobre a pelle, os edificios que nos cercam apparecem com as linhas vagas e chimericas das cidades malditas do Apocalypse, e o estrondo de Londres, este rude, tremendo estrepito, que deve lá em cima incommodar a corte do ceu, adquire uma tonalidade surda e roncante como um fragor n'um subterraneo.

Depois, á noite, outra mudança: toda esta sombra, este nevoeiro grosso, molle gorduroso, desfaz-se em chuva... Em chuva, digo eu? Em lama, em lama mal liquida, que escorre, pinga, vem babada de um ceu negro.

O gaz parece côr de sangue; como todo o mundo, para combater esta nevoa gelante e mortal, bebe forte e bebe seguido, ha nas ruas um vago vapor de alcool, que passa nos halitos: isto excita, irrita, impelle a turba ao vicio. O ruido intoleravel das ruas, a pressa da multidão violenta, o rude flammejar das vitrinas dão uma acceleração brutal ao sangue, uma vibração quasi dolorosa aos nervos; pensa-se com intensidade, caminha-se com impeto, deseja-se com furor; a besta humana inflamma-se: quer-se alguma coisa de forte e de animal, a lucta, o excesso, a gula, o abrasado do _cognac_, a paixão. Londres n'uma noite de inverno, exhala violencia e crime. E póde-se affirmar que em cada uma das tipoias, que, aos milhares e aos milhares, passam como flechas, n'um relampejar rubro de lanternas, vae um cidadão ou uma cidadã commettendo ou preparando-se para commetter, com excepção da preguiça, um dos sete peccados mortaes.

De uma coisa se póde ter a certeza: é que não ha de faltar, aos que vão fazer o seu inverno a Londres, _assumpto de cavaco_. Além dos livros que se annunciam, dos escandalos que não hão-de faltar, das modas que sempre se inventam, a politica, só por si, é todo um ramalhete; revolta certa na Irlanda; processo por alta traição dos chefes da _Liga da Terra_, deputados da Irlanda; nova guerra no Afghanistan, onde Cabul se insurreccionou; toda a Africa do Sul em rebellião; complicações sinistras do lado do Oriente; desintelligencias estridentes entre os radicaes no poder... Emfim, um encanto.

Era em circumstancias identicas que o famoso Granville, o homem das _Memorias_, olhando n'um começo de primavera para todos os lados do horizonte politico e social, e não vendo (em 1830) senão presagios negros de revolta, guerra, crises e perigos para a patria, dizia, banhado em jubilo, quasi em extasi:

--Meu Deus, que deliciosas noites se vão passar no Club!

IV

O NATAL

O Natal, a grande festa domestica da Inglaterra, foi este anno triste--d'essa tristeza particular que offerece, por um dia de calma ardente, a praça deserta de uma villa pobre, ou d'essa melancholia que infundem umas poucas de cadeiras vazias em torno de um fogão apagado, n'uma sala a que se não voltará mais...

O que nos estragou o Natal, não fôram decerto as preoccupações politicas, apesar da sua negrura de borrasca. Nem a rebellião do Transvaal em que os Boeres debutaram por exterminar o 94 de linha, um dos mais experimentados e gloriosos regimentos da Inglaterra e que ameaça ensanguentar toda a Africa do Sul n'uma guerra de raças; nem a situação da Irlanda, que já não é governada pela Inglaterra, mas pelo comité revolucionario da _Liga Agraria_--seriam inquietações sufficientes para tirar o sabor tradicional ao _plum-pudding_ do Natal. As desgraças publicas nunca impedem que os cidadãos jantem com appetite: e miserias da patria, emquanto não são tangiveis e se não apresentam sob a fórma flammejante de obuzes rebentando n'uma cidade sitiada, não tirarão jámais o somno ao patriota.

Não; o que estragou o Natal foi simplesmente a falta de neve. Um Natal como este que passamos, com um sol de uma pallidez de convalescente, deslizando timidamente sobre uma immensa peça de seda azul desbotada, um Natal sem neve, um Natal sem casacos de pelles, parece tão insipido e tão desconsolado como seria em Portugal a noite de S. João, noite de fogueiras e descantes, se houvesse no chão tres palmos de neve e cahisse por cima o granizo até de madrugada! Um desapontamento nacional!

Para comprehender bem o encanto da neve d'este famoso Natal inglez, basta examinar alguma das pinturas, gravuras ou oleografias que o têm popularizado.

O assumpto não varia na paysagem repetida: é sempre a mesma entrada d'um parque, de apparencia feudal, por vesperas do Natal, antes da meia-noite; o ceu pesado de neve suspensa parece uma gaze suja: e a perder de vista tudo está coberto da neve cahida, uma neve branca, fôfa, alta, que faz nos campos um grande silencio. Junto á grade do parque, uma mulher e duas creanças, atabafadas nos seus farrapos, com lampeões na mão, vão cantando as lôas; e ao fundo, entre as ramagens despidas, ergue-se o massiço castello, com as janellas flammejando, abrasadas da grande luz de dentro e da alegria que as habita.

E toda a poesia do Natal está justamente n'essas janellas resplandecendo na noite nevada.

Felizes aquelles para quem essas portas difficeis se abrem. Logo ao entrar na ante-camara os tectos, as humbreiras, os espaldares das cadeiras, os tropheus de caça, apparecem adornados das verduras do Natal, das ramagens sagradas do carvalho celtico; e pelas paredes, em lettras douradas ondeiam os disticos tradicionaes--_Merry Christmas! Merry Christmas! alegre Natal! alegre Natal!_ E o mesmo grito se repete nos _shakehands_ que se dão ao hospede.

Sob a chaminé estala e dança a grande fogueira do Natal: a sua luz rica faz parecer de ouro os cabellos louros, e de prata as barbas brancas.

Tudo está enfeitado como n'uma paschoa sagrada: dos retratos dos avós pendem ramos de flôres de inverno, as flôres da neve, e todas as pratas da casa scintillam sobre os aparadores, n'uma solemnidade patriarchal. Dos grandes lustres balança-se o ramo symbolico do _mistletoe_, o ramo do amor domestico: e ai das senhoras que um momento pararem sob a sua ramagem! Quem assim as surprehender tem direito a beija-las n'um grande abraço! Tambem, que voltas sabias, que estrategia complicada, para evitar o ramo fatidico! Mas, pobres anjos! ou se enganam ou se assustam, e a cada momento é sob o _mistletoe_ um grito, um beijo, dois braços que prendem uma cinta fugitiva...

E o piano não se cala n'estas noites! É alguma velha canção ingleza, em que se falla de torneios e cavalleiros, ou uma dança da Escossia, que se baila com o gentil ceremonial do passado.

E por corredores e salas, as creanças, os bébés, com os cabellos ao vento, vestidos de branco e côr de rosa, correm, cantam, riem, vão a cada momento espreitar os ponteiros do relogio monumental, porque á meia-noite chega Santo Claus, o veneravel Santo Claus, que tem trez mil annos de edade e um coração de pomba, e que já a essa hora vem caminhando pela neve da estrada, rindo com os seus velhos botões, apoiado ao seu cajado, e com os alforges cheios de bonecos. Amavel Santo Claus! por um tempo tão frio, n'aquella edade, deixar a cabana de algodão que elle habita no paiz da Legenda, e vir por sobre ondas do mar e ramagens de florestas trazer a estes bébés o seu Natal!

Tambem, como elles o adoram, o bom Claus! E apenas elle chegar, como correrão todos, em triumpho, a puxal-o para o pé do lume, a esfregar-lhe as decrepitas mãos regeladas, a offerecer-lhe uma taça de prata cheia de hidromel quente--que elle bebe d'um trago, o glutão! Depois abrem-se-lhe os alforges. Quantas maravilhas!...

Mas d'estes personagens que apparecem pelas consoadas, o meu predilecto é _Father Christmas--o papá Natal_.

Esse, porém, só póde ser admirado em toda a sua gloria, quando se abre a sala da ceia: então lá está sobre o seu pedestal, ao centro da meza--que lhe põe em torno, com os crystaes e os pratos, um amavel brilho d'aureola caseira. Bem vindo, papá Natal! Boas noites, papá Natal!

O respeitavel ancião, com o seu capuz até aos olhos, todo salpicado de neve, as mãos escondidas nas largas mangas de frade, o olho maganão e jovial, esgarça a bocca n'um riso de felicidade sem fim, e as suas enormes barbas de algodão pendem-lhe até aos pés. Todas as creanças o querem abraçar, e elle não se recusa, porque é indulgente.

E quanto mais a ceia se anima, mais o seu patriarchal riso se escancara; as bochechas reluzem-lhe de escarlates, as barbas parecem crescer-lhe, e alli está, bonacheirão e veneravel, com a importancia de um deus tutelar e amado, como a encarnação sacramental da alegria domestica.

E no emtanto fóra, na neve, as pobres creanças cantam as lôas: e com que vigor as cantam! É que ellas sabem que não serão esquecidas: e que d'aqui a pouco a grade se abrirá, e virá um criado, vergando ao peso de toda a sorte de cousas bôas, peças de carne, empadas, vinho, queijos--e mesmo bonecas para os pequenos; porque Santo Claus é um democrata, e, se enche os seus alforges para os ricos, gosta sobretudo de os vêr esvaziados no regaço dos pobres.

Tudo isto é encantador. Mas tire-se-lhe a neve, e fica estragado. O Natal com uma lua côr de manteiga a bater n'uma terra tepida de Primavera torna-se apenas uma data no calendario. O lume não tem poesia intima; não ha lôas; Santo Claus não vem; o papá Natal parece um boneco insipido; não se colhe o _mistletoe_. Não ha mesmo a alegria de abrir a janella e pôr no rebordo, dentro d'uma malga, a ceia de migalhas do Natal para os pardaes e para os outros passarinhos que tanta fome soffrem pelas neves. Emfim, não ha Natal! Foi o que succedeu este anno...

Resta a consolação de que os pobres tiveram menos frio. E isto é o essencial; pensando bem, se nas cabanas houve mais algum conforto e se se não tiritou toda a noite entre quatro farrapos, é perfeitamente indifferente que nos castellos as damas bocejassem.

Nem eu sei realmente como a ceia faustosa possa saber bem, como o lume do salão chegue a aquecer--quando se considere que lá fóra ha quem regele, e quem rilhe, a um canto triste, uma codea de dois dias. É justamente n'estas horas de festa intima, quando pára por um momento o furioso galope do nosso egoismo--que a alma se abre a sentimentos melhores de fraternidade e de sympathia universal, e que a consciencia da miseria em que se debatem tantos milhares de creaturas, volta com uma amargura maior. Basta então vêr uma pobre creança, pasmada deante da _vitrine_ de uma loja, e com os olhos em lagrimas para uma boneca de pataco, que ella nunca poderá apertar nos seus miseraveis braços--para que se chegue á facil conclusão que isto é um mundo abominavel. D'este sentimento nascem algumas caridades de Natal; mas, findas as consoadas, o egoismo parte á desfilada, ninguem torna a pensar mais nos pobres, a não ser alguns revolucionarios endurecidos, dignos do carcere--e a miseria continúa a gemer ao seu canto!

Os philosophos affirmam que isto ha-de ser sempre assim: o mais nobre de entre elles, Jesus, cujo nascimento estamos exactamente celebrando, ameaçou-n'os, n'uma palavra immortal, _que teriamos sempre pobres entre nós_. Tem-se procurado com revoluções successivas fazer falhar esta sinistra profecia--mas as revoluções passam e os pobres ficam.

N'este momento, por exemplo, na Irlanda, os trabalhadores, ou antes os servos do ducado de Leicester estão morrendo de fome, e o duque de Leicester está retirando annualmente, do trabalho duro que elles fazem, _quatrocentos contos de reis de renda_! É verdade que a Irlanda está em revolta; é verdade que, se o duque de Leicester se arriscava a visitar o seu ducado da Irlanda, receberia, sem tardar, quatro lindas balas no craneo.

E o resultado? D'aqui a vinte annos os trabalhadores de Leicester estarão de novo a soffrer a fome e o frio--e o filho do duque de Leicester, duque elle mesmo então, voltará a arrecadar os seus quatrocentos contos por anno.

Não é possivel mudar. O esforço humano consegue, quando muito, converter um proletariado faminto n'uma burguezia farta; mas surge logo das entranhas da sociedade um proletariado peior. Jesus tinha razão: haverá sempre pobres entre nós. D'onde se prova que esta humanidade é o maior erro que jámais Deus cometeu.

Aqui estamos sobre este globo ha doze mil annos a girar fastidiosamente em torno do Sol e sem adiantar um metro na famosa _estrada do progresso e da perfectibilidade_: porque só algum ingenuo de provincia é que ainda considera _progresso_ a invenção ociosa d'esses bonecos pueris que se chamam machinas, engenhos, locomotivas, etc., e essas prosas laboriosas e difusas que se denominam _systemas sociaes_.

Nos dois ou trez primeiros mil annos de existencia trepámos a uma certa altura de civilização; mas depois temos vindo rolando para baixo n'uma cambalhota secular.

O typo secular e domestico de uma aldeia Arya do Himalaia, tal como uma vetusta tradição o tem trazido até nos, é infinitamente mais perfeito que o nosso organismo domestico e social. Já não fallo de gregos e romanos: ninguem hoje tem bastante genio para compôr um côro d'Éschylo ou uma pagina de Virgilio; como escultura e architectura, somos grotescos; nenhum millionario é capaz de jantar como Lucullus; agitavam-se em Athenas ou Roma mais ideias superiores n'um só dia do que nós inventamos n'um seculo; os nossos exercitos fazem rir, comparados ás legiões de Germanicus; não ha nada equiparavel á administração romana; o _boulevard_ é uma viella suja ao lado da Via Áppia; nem uma Aspasia temos; nunca ninguem tornou a fallar como Demosthenes--e o servo, o escravo, essa miseria da Antiguidade, não era mais desgraçado que o proletario moderno.

De facto, póde-se dizer que o homem nem sequer é superior ao seu veneravel pae--o macaco: excepto em duas coisas temerosas--o soffrimento moral e o soffrimento social.

Deus tem só uma medida a tomar com esta humanidade inutil: afogal-a n'um diluvio. Mas afogal-a toda, sem repetir a fatal indulgencia que o levou a poupar Noé; se não fôsse o egoismo senil d'esse patriarcha borracho, que queria continuar a viver, para continuar a beber, nós hoje gosariamos a felicidade ineffavel de _não sermos_...

V

Litteratura de Natal

Uma das cousas encantadoras que nos traz o Natal, são esses lindos livros para creanças, que constituem a _litteratura de Natal_.

Não falo desses extraordinarios volumes dourados publicados pelos editores francezes, em encadernações decorativas como fachadas de cathedraes, que custam uma fortuna; contém um texto que nunca ninguem lê e são offerecidos ás creanças, mas realmente servem para obsequiar os papás. Os pobres pequenos nada gosam com esses monumentos typographicos; apenas se lhes permite vêr de longe as gravuras a aço, sob a fiscalização da mamã, que tem medo que se deteriore a encadernação; e o resplandecente volume orna d'ahi por deante a jardineira da sala, ao lado do candieiro vistoso.

Em Inglaterra existe uma verdadeira litteratura para creanças, que tem os seus classicos e os seus inovadores, um movimento e um mercado, editores e genios--em nada inferior á nossa litteratura de homens sisudos. Aqui, apenas o bébé começa a soletrar, possue logo os seus livros especiaes: são obras adoraveis, que não contém mais de dez ou doze paginas, intercaladas de estampas, impressas em typo enorme, e de um raro gosto de edição. Ordinariamente o assumpto é uma historia, em seis ou sete phrases, e decerto menos complicada e dramatica que _O Conde de Monte-Christo_ ou _Nana_; mas emfim tem os seus personagens, o seu enredo, a sua moral e a sua catastrophe.

Tal é, para dar um exemplo, a lamentavel tragedia dos _Tres velhos sabios de Chester_: eram muitos velhos e muito sabios; e para discutirem cousas da sua sabedoria, metteram-se dentro de uma barrica, mas um pastor que vinha a correr atráz de uma ovelha, deu um encontrão ao tonel, e ficaram de pernas ao ar os tres velhos sabios de Chester!

Como estas ha milhares: a _Cavallgada de João Gilpin_ é uma obra de genio.

Depois, quando o bébé chega aos seus oito ou nove annos, proporciona-se-lhe outra litteratura. Os sabios, a barrica, os trambulhões, já o não interessariam; vêm então as historias de viagens, de caçadas, de naufragios, de destinos fortes, a salutar chronica do triumpho, do esforço humano sobre a resistencia da natureza.

Tudo isto é contado n'uma linguagem simples, pura, clara--e provando sempre que na vida o exito pertence áqueles que têm energia, disciplina, sangue-frio e bondade. Raras vezes se leva o espirito da creança para o paiz do maravilhoso:--não ha n'estas litteraturas nem fantasmas, nem milagres, nem cavernas com dragões de escamas de ouro: isso reserva-se para a gente grande. E quando se falla de anjos ou de fadas é de modo que a creança, naturalmente, venha a rir-se d'esse lindo sobrenatural, e a consideral-o do genero _boneco_, como os seus proprios carneirinhos de algodão.

O que se faz ás vezes é animar de uma vida ficticia os companheiros inanimados da infancia: as bonecas, os polichinellos, os soldados de chumbo. Conta-se-lhes, por exemplo, a tormentosa existencia d'uma boneca honesta e infeliz: ou os soffrimentos por que passou em campanha, n'uma guerra longinqua, uma caixa de soldados de chumbo. Esta litteratura é profunda. As privações de soldados vivos não impressionariam talvez a creança--mas todo o seu coração se confrange quando lê que padecimentos e miserias atravessaram aquelles seus amigos, os guerreiros de chumbo, cujas bayonetas torcidas ella todos os dias endireita com os dedos: e assim póde ficar depositado n'um espirito de creança um justo horror da guerra.

As lições moraes que se dão d'este modo são innumeraveis, e tanto mais fecundas quanto sahem da acção e da existencia dos sêres que ella melhor conhece--os seus bonecos.

Depois vêm ainda outros livros para os leitores de doze a quinze annos: popularisações de sciencias; descripções dramaticas do universo; estudos captivantes do mundo das plantas, do mar, das aves; viagens e descobertas; a historia; e, emfim, em livros de imaginação, a vida social apresentada de modo que nem uma realidade muito crúa ponha no espirito tenro securas de misanthropia, nem uma falsa idealisação produza uma sentimentalidade morbida.

É no Natal, principalmente, que esta litteratura floresce. As lojas dos livreiros são então um paraizo. Não ha nada mais pittoresco, mais original, mais decorativo, que as encadernações inglezas; e as estampas, as côres leves e aguadas, offerecem quasi sempre verdadeiras obras d'arte, de graça e d'_humour_.

Não sei se no Brazil existe isto. Em Portugal, nem em tal jámais se ouviu fallar. Apparece uma ou outra d'essas edições de luxo, de Pariz, de que fallei, e que constituem ornatos de sala. A França possue tambem uma litteratura infantil tão rica e util como a de Inglaterra: mas essa Portugal não a importa: livros para completar a mobilia, sim; para educar o espirito, não.

A Belgica, a Hollanda, a Allemanha, prodigalisam estes livros para creanças; na Dinamarca, na Suecia, elles são uma gloria da litteratura e uma das riquezas do mercado.

Em Portugal, nada.

Eu ás vezes pergunto a mim mesmo o que é que em Portugal lêem as pobres creanças. Creio que se lhes dá Filinto Elysio, Garção, ou outro qualquer desses mazorros sensaborões, quando os infelizes mostram inclinação pela leitura.

Isto é tanto mais atroz quanto a creança portuguesa é excessivamente viva, intelligente e imaginativa. Em geral, nós outros, os portuguezes, só começamos a ser idiotas--quando chegamos á edade da razão. Em pequenos, temos todos uma pontinha de genio: e estou certo que se existisse uma litteratura infantil como a da Suecia ou da Hollanda, para citar só paises tão pequenos como o nosso, erguer-se-hia consideravelmente entre nós o nivel intellectual.

Em logar d'isso, apenas a luz do entendimento se abre aos nossos filhos, sepultamol-a sob grossas camadas de latim! Depois do latim accumulamos a rhetorica! Depois da rhetorica atulhamol-a de logica (de logica, Deus piedoso!). E assim vamos erguendo até aos céus o monumento da camelice!

Pois bem; eu tenho a certeza que uma tal litteratura infantil penetraria facilmente nos nossos costumes domesticos e teria uma venda proveitosa. Muitas senhoras, intelligentes e pobres, se poderiam empregar em escrever essas faceis historias: não é necessario o genio de Zola ou de Thackeray para inventar o caso dos _tres velhos sabios de Chester_. Ha entre nós artistas, de lapis facil e engraçado, que commentariam bem essas aventuras n'um desenho de simples contorno, sem sombras e sem relevo, lavado a côres transparentes... E quantos milhares de creanças se fariam felizes, com esses bonitos livros--que, para serem populares e se poderem despedaçar sem prejuizo, devem custar menos de um tostão!

Eu bem sei que esta ideia de compôr livros para creanças faria rir Lisboa inteira. Tambem, não é a Lisboa que eu a offereço. Lisboa não se occupa d'estes detalhes.

Lisboa quer cousa superior; quer a bella estrophe lyrica, o rico drama em que se morre de paixão ao luar, o _fadinho_ ao piano, o saboroso namoro de escada, a endeixa plangente, a bôa facadinha á meia noite, o discurso em que se cita o Golgotha, a andaluza de cuia--emfim, tudo o que o romantismo portuguez inventou de mais nobre. Educar os seus filhos intelligentemente, está decerto abaixo da sua dignidade.

Mas, emfim, se estas linhas animassem ahi no Brazil, ou entre a colonia portugueza, um escriptor, um desenhista e um editor, a prepararem alguns bons livros, bem engraçados, bem alegres, para os bébés--eu teria feito ao imperio um serviço colossal, que não sei como me poderia ser recompensado.

Uma bôa fazenda, de rendimento certo, n'uma provincia rica, com casa já mobilada e alguns cavallos na cavallariça, não seria talvez de mais. Se a gratidão do governo imperial quizesse juntar a isto, para alfinetes, um ou dois milhões em ouro, eu não os recusaria. E se me não quizessem dar nada, bastar-me-hia então que um só bébé se risse e fôsse alguns minutos feliz. Pensando bem--é esta a recompensa que prefiro.

VI

Israelismo