Cartas de Inglaterra

Chapter 2

Chapter 23,765 wordsPublic domain

Mas, continuando com as _estações_, temos ainda a _Yachting-Season_, a estação nautica, das regatas, das viagens em _yacht_. Hoje em Inglaterra ter um _yacht_ é, como entre nós montar carruagens, o primeiro dever social do rico ou do enriquecido, uma das fórmas mais triviaes do conforto luxuoso. Um _yacht_ não é só um frágil e airoso barco de cincoenta toneladas e vela branca; póde ser tambem um negro e poderoso vapor de duas mil toneladas e sessenta homens de tripulação. N'este ultimo caso, em logar de bordejar gentilmente em redor das flôres e das relvas da ilha de Wight, ou de ir mergulhar n'essas prodigiosas paisagens marinhas do alto Norte da Escossia, vae dar a volta ao mundo, carregado de biblias para os pequenos patagonios e de champagne e d'amor para as lindas missionarias, vestidas de marinheiras. A vida de _yacht_ tem os seus costumes especiaes, a sua etiqueta, a sua phraseologia, a sua moral propria, e sobretudo a sua litteratura. A litteratura de _yacht_ é vasta--William Black, o autor das _Azas Brancas_, do _Nascer do Sol_, da _Princeza de Thude_, o seu romancista official: um paisagista maravilhoso, de resto, tendo na sua penna todo o vigor do pincel d'um Jules Breton.

Temos igualmente n'este mez a _Shooting-Season_, a estação da caça ao tiro, que abre no 1.º de setembro com uma solemnidade tal, e no meio de um interesse publico tão intenso, tão fremente--que me dá sempre ideia do que devia ter sido nas vesperas da Grande Revolução a abertura dos Estados Gerais. Peço perdão d'esta abominavel comparação--mas a carne é fraca, e eu considero esta estação sublime. É n'ella que se caça o _grouse_, e é durante ella que se come o _grouse_. Não sabem o que é o _grouse_? É um passaro do tamanho da perdiz, que vive (Deus o abençôe!) nos _moors_, ou descampados da Escossia... Agora deixem-me repousar um momento, e ficar aqui, n'um extasi manso, pensando no _grouse_, com as mãos cruzadas sobre o estomago, o olho enternecido, lambendo o labio... Não imaginem que eu sou um guloso. Mas nunca se deve fallar nas coisas boas sem veneração. Lord Beaconsfield, esse mestre do bom gosto, deu-nos o exemplo quando, tendo mencionado n'um dos seus livros o _ortolan_, esse outro delicioso passaro, acrescentou--que o peitinho gordo do _ortolan_ é mais delicioso que o seio da mulher, o seu aroma mais perturbador que os lilazes, e o sabor da sua febra melhor que o sabor da verdade. Póde-se dizer o mesmo do _grouse_.

Continuando, temos a _Burglary-Season_, a estação dos assaltos e roubos ás casas. Esta começa tambem em setembro, quando a gente rica sai de Londres e deixa os seus palacetes, ou fechados, ou ao cuidado de um velho e somnolento guarda-portão. Os salteadores de Londres, corpo social tão bem organisado como a propria policia, procede então systematicamente, por quadrilhas disciplinadas, usando os mais perfeitos meios scientificos no arrombamento e no saque d'essas propriedades abarrotadas de cousas ricas...

Temos a _Lecture-Season_, ou estação das conferencias. O seu nome explica-a e seria longo detalhar-lhe a organisação. Basta dizer que n'esta estação não ha talvez um bairro em Londres (quasi podia dizer uma rua), nem uma aldeia no resto do paiz, em que se não veja, cada noite, um sujeito, com um copo d'agua, dissertando sobre um assumpto, deante d'uma audiencia compacta, attenta, interessada e que toma notas. Os assumptos são _tudo_--desde a ideia de Deus até á melhor maneira de fabricar graxa. E os conferentes são _todo o mundo_--desde o professor Huxley até um qualquer cavalheiro, o senhor Fulano de Tal, que sóbe á plataforma a contar as suas impressões de viagem ás ilhas Fidji, ou as aptidões curiosas que observou no seu cão...

Ha ainda outras estações que basta enunciar: a _Hunting-Season_, a estação da caça á raposa (isto é todo um mundo); a _Cricket-Season_, a estação em que se joga o cricket,--e em que se vêm d'estes edificantes espectaculos: doze cavalheiros, vindos do fundo da Australia, outros doze partindo dos altos da Escossia, e encontrando-se em Londres a jogar ao desafio uma tremenda partida que dura tres dias, na presença arrebatada de um povo em delirio!

Temos tambem a _Angling-Season_, a estação da pesca á linha, instituição nobilissima a que a humanidade deve o salmão e a truta. É o _sport_ favorito da alta burguezia culta, da magistratura, dos homens de sapiencia, d'aquela parte da velha aristocracia sobre que mais pesam as responsabilidades do Estado. Todo este mundo, de solemne respeitabilidade e de alto ceremonial--pesca á linha. Talvez por isso, de todos os _sports_ inglezes, a pesca á linha é um dos que têm produzido uma litteratura mais consideravel--tão consideravel que a sua bibliografia, a simples enumeração dos seus tratados, occupa um livro de duzentas paginas! Ahi observo com respeito a noticia de um ponderoso estudo sobre a _Pesca á linha entre os Assyrios_...

Só esta semana a litteratura da pesca á linha nos deu já dois livros, segundo as listas: _A carteira de um pescador á linha_, _Pela beira dos rios_.

Temos ainda a _Traveling-Season_, a estação das viagens, quando o famoso _touriste_ inglez faz a sua apparição no continente. N'esta epoca (setembro e outubro) todo o inglez que se respeita (ou que, não podendo em sua consciencia respeitar-se, pretende ao menos que o seu visinho o respeite) prepara umas dez ou doze malas e parte para os paizes do sol, do vinho e da alegria. Os anjos (se o não sonharam, como diz João de Deus) devem assistir então, do seu terraço azul, a um espectaculo bem divertido: toda a Inglaterra fervilhando no porto de Dover--e d'ahi successivamente partirem longos formigueiros de _touriste_, riscando de linhas escuras o continente, indo alastrar os valles do Rheno, negrejando pela neve dos Alpes acima, serpenteando pelos vergeis da Andaluzia, atulhando as cidades da Italia, inundando a França! Tudo isto são inglezes. Tudo isto traz um _Guia do Viajante_ debaixo do braço. Tudo isto toma notas. Isto ás vezes viaja com a esposa, a cunhada, uma amiga da cunhada, uma conhecida d'esta amiga, sete filhos, seis creados, dez cães, e outros cães conhecidos d'estes cães; e isto paga por tudo isto sem resmungar! Não: não digo bem, resmungando sempre. Esta viagem de prazer passa-a quasi sempre o inglez a praguejar (mentalmente--porque nem a Biblia nem a respeitabilidade lhe permitem praguejar alto).

A verdade é que o inglez não se diverte no continente; não comprehende as linguas; estranha as comidas; tudo o que é estrangeiro, maneiras, _toilettes_, modos de pensar, o choca; desconfia que o querem roubar; tem a vaga crença de que os lençóes nas camas d'hotel nunca são limpos; o vêr os theatros abertos ao domingo e a multidão divertindo-se amargura a sua alma christã e puritana; não ousa abrir um livro estrangeiro porque suspeita que ha dentro cousas obscenas; se o seu _Guia_ lhe affirma que na cathedral de tal ha seis columnas e se elle encontra só cinco, fica infeliz toda uma semana e furioso com o paiz que percorre, como um homem a quem roubaram uma columna; e se perde uma bengala, se não chega a horas ao comboio, fecha-se no hotel um dia inteiro a compôr uma carta para o _Times_, em que accusa os paises continentaes de se acharem inteiramente n'um estado selvagem e atolados n'uma putrida desmoralisação. Emfim o inglez em viagem, é um ser desgraçado. É evidente que eu não alludo aqui á numerosa gente de luxo, de gosto, de litteratura, de arte: fallo da vasta massa burgueza e commercial. Mas mesmo esta encontra uma compensação a todos os seus trabalhos de touriste quando, ao recolher a Inglaterra, conta aos seus amigos como esteve aqui e além, e trepou ao Monte Branco, e jantou n'uma _table-d'-hote_ em Roma e, por Jupiter! fez uma sensação dos diabos, elle e as meninas!...

Que mais estações temos ainda? A _Speech-season_, a estação dos discursos, quando, nas ferias do parlamento, todos os homens publicos se espalham pelo paiz discursando, perante enormes _meetings_, sobre os negocios publicos. É uma das feições mais curiosas da vida politica em Inglaterra...

Ha outras muitas _estações_ em setembro e outubro, mas não me lembram agora. E emfim, para não ser injusto, devo mencionar tambem o Outomno.

De todas estas, para mim, naturalmente, a mais interessante é a _Book-Season_, a estação dos livros.

Isto não quer dizer que fóra d'esta estação (outubro a março) se não publiquem livros em Inglaterra--longe d'isso, Santo Deus! Como não quer dizer que fóra da _London-Season_ se não dance, ou fóra da _Travelling-Season_ se não viaje. Significa simplesmente que as grandes casas editoras de Londres e d'Edimburgo reservam, para as lançar n'esta epocha as suas _grandes novidades_. Um livro de Darwin, um estudo de Matthew Arnold, um poema de Tennyson, um romance de Georges Meredith serão evidentemente guardados para a _estação_. De resto, durante todo o anno não s'interrompe, não cessa essa publicidade phenomenal, essa vasta, ruidosa, inundante torrente de livros, alastrando-se, fazendo pouco a pouco sobre a crosta da terra vegetal do globo, uma outra crosta de papel impresso em inglez.

Não sei se é possivel calcular o numero de volumes publicados annualmente em Inglaterra. Não me espantaria que se pudessem contar por dezenas de milhares. Aqui tenho eu deante de mim, no numero de ontem do _Spectator_, a lista dos livros lançados esta semana: NOVENTA E TRES OBRAS! E isto é apenas a lista do _Spectator_. Apenas o que se chama aqui _Litteratura Geral_. Não se contam as reimpressões; nem as edições dos classicos, em todos os formatos, desde o in-folio, que só um Hercules póde erguer, até ao volume miniatura, cujo typo reclama microscopio, e em todos os preços desde a edição que custa 50 libras, até á que custa 50 réis: não se contam as traducções de livros estrangeiros, sobretudo as litteraturas da antiguidade: não se conta, emfim, essa incessante producção das Universidades, essa outra levada de gregos e latinos, de commentarios, de glossarios, de in-folios, que lançam de si, aos caixões, as imprensas de Clarendon.

Ha n'esta litteratura geral uma especie de que o inglez não se farta--a litteratura de viagens. Já não fallo nos romances: isso não constitue hoje uma producção litteraria, é uma fabricação industrial.

Na vida domestica ingleza, a novela tornou-se um objecto de primeira necessidade como a flanella ou as fazendas de algodão; e, portanto, toda uma população de romancistas se emprega em manufacturar este artigo, por grosso, e tão depressa quanto a penna póde escrever, arremessando para o mercado as paginas mal seccas no ancioso conflicto da concorrencia.

Mas a gula, a gulodice de livros de viagem é tambem consideravel, e de resto bem explicavel n'uma raça expansiva e peregrinante, com esquadras em todos os mares, colonias em todos os continentes, feitorias em todas as praias, missionarios entre todos os barbaros, e no fundo d'alma o sonho eterno, o sonho amado de refazer o Imperio Romano. Isto produziu um outro typo de industrial das lettras--o prosador viajante.

Antigamente contava-se a viagem quando casualmente se tinha viajado: o homem que visitava paizes longinquos, se achava em aventuras pittorescas, á volta, repousando ao canto do seu lume, tomava a penna e ia revivendo esses dias n'uma agradavel rememoração de impressões e paisagens. Hoje não. Hoje emprehende-se a viagem unicamente para se escrever o livro. Abre-se o mappa, escolhe-se um ponto do Universo bem selvagem, bem exotico, e parte-se para lá com uma resma de papel e um diccionario. E toda a questão está (como a concorrencia é grande) em saber qual é o recanto da terra sobre que ainda se não publicou livro! Ou, quando o paiz é já toleravelmente conhecido, se não terá ainda alguma aldeola, algum afastado riacho sobre que se possam produzir trezentas paginas de prosa...

Quem hoje encontrar em algum intrincado ponto do Globo um sujeito de capacete de cortiça, lapis na mão, binoculo a tiracollo, não pense que é um explorador, um missionario, um sabio colligindo floras raras--é um prosador inglez preparando o seu volume.

Nada elucida como um exemplo. Aqui está a lista dos livros de viagens publicados em Londres n'estas _duas ultimas semanas_.

É claro que eu não os li, nem sequer os enxerguei. Copio os titulos, sómente, da lista de dous jornaes de critica: o _Atheneum_ e a _Academy_. Note-se que estes livros são quasi sempre bem estudados: dão o traço e a linha que pinta, a paysagem com a sua côr e luz, a cidade com o seu movimento e feições; são graphicos e são criticos; têm a geographia e têm a observação; e mais ou menos fazem reviver com o detalhe caracteristico, o povo visitado, na sua vida domestica, a sua religião, a sua agricultura, o seu _sport_, os seus vicios, a sua arte se a tem. Calcule-se, pois, a importancia d'esta litteratura, que se torna assim um inquerito sagaz, paciente, correcto, feito ao Universo inteiro.

Aqui está, com os titulos traduzidos, o que se publicou n'estes quinze dias: _A minha jornada a Medina_--_Entre os filhos de Han_--_Nas aguas salgadas_--_Longe, nos Pampas_--_Sanctuarios de Piemonte_--_O novo Japão_--_Uma visita á Abyssinia_--_Vida no oeste da India_--_Pelo Mahakam acima, e pelo Barita abaixo_--_A cavallo pela Asia Menor_--_Scenas de Ceylão_--_Atravez de cidades e prados_--_No meu Bungaló_--_As terras dos Matabeles_--_Fugindo para o sul_--_Terras do sol da meia-noite_--_Peregrinações na Patagonia_--_O Soudan egypcio_--_Terra dos Maggiyres_--_Atravez da Siberia_--_Notas do mundo do Oeste_--_Caminhos da Palestina_--_Norsk, Lapp e Finn_ (onde será isto Santo Deus?!)--_Guerras, peregrinações e ondas_ (que titulo, Deus piedoso!)--_A linda Athenas_--_A peninsula do Mar Branco_--_Homens e casos da India_--_A bordo do «Rapoza»_--_Sport na Crimêa e Caucaso_--_Nove annos de caçadas na Africa_--_Diario de uma preguiçosa na Sicilia_--_A leste do Jordão_...

Ainda ha outros, ainda ha muitos--e em quinze dias!

Seria curioso dar parallelamente a lista de poemas, livros de poesias, odes, balladas, tragedias, annunciados ou já publicados na primeira quinzena da estação; mas não tenho paciencia em revolver todo esse lyrismo. Ha uma «grande sensação»: o livro de Dante Rosseti, um dos mestres modernos: o resto é apenas um bando amoroso e triste de rouxinóes.

Não menos espessas, nem menos compactas são as listas dos livros de Theologia, Controversia, Exegese, etc.,--exhalando de si uma melancholia de cemiterio. Em metaphysica ha o costumado sortimento--macisso e vago, como diria Herbert Spencer. Em historia, biographia, critica, as listas bibliographicas vêm riquissimas... Emfim, ao que parece, é uma formidavel e grandiosa _estação de livros_. Aos romances, nem alludo: montões, montanhas--e monturos!

Uma pastora meio-selvagem das Ardennes, que nunca vira outro espectaculo mais grato ao seu coração do que as cabras que guardava, foi um dia trazida das suas serranias a Pariz, quando no boulevard passava, com a tricolor ao vento, um regimento em marcha. A pobre donzella fez-se branca como a cêra, e só poude murmurar n'uma beatitude suprema:

--Jesus! tanto homem!

Eu sei que estou aqui fazendo o papel ridiculo d'esta pastora, e balbuciando, com a bocca aberta, como se chegasse tambem das Ardennes:

--Jesus! tanto livro!

Mas não é este grito, como o da pastora, natural?

O beduino do deserto d'Oeste, que, passando a Serrania Lybica, avista pela primeira vez, immenso, lento, enchendo um valle, o rio Nilo, exclama espantado:

--Allah! tanta agua!

A agua é a sua preoccupação: todas as tristezas das areias que habita vêm da falta da agua: mais que ninguem sente as maravilhas que a agua produz; e no seu grito ha uma timida reprehensão a Allah! «Tanta agua aqui, e tão pouca lá d'onde eu venho!...»

Assim eu venho... Mas o resto da comparação complete-a, antes, o leitor astuto.

III

O INVERNO EM LONDRES

Eis ahi o inverno. Já todos os dias o encontro, e, agora mesmo, lhe ouço fóra, na rua, sob a nevoa tristonha d'esse fim d'outubro, a voz dolente e vaga: não é o velho semi-deus de attributos mythologicos, com a barba em flocos de neve sobre o manto branco de neve, soprando nos dedos, e o classico feixe de lenha a tiracollo: é um rapagão enfarruscado, de casquete e chicote em punho, que vae conduzindo uma carroça negra com um forte _percheron_ aos varaes, pelo macadam já endurecido da geada, e soltando de porta em porta, o seu pregão melancholico: _Coals! coals!_ (carvão! carvão!)

Estão, pois, findos os dias purpureados do lindo outomno inglez! Nada iguala o encanto suavizador e meigo dos meados d'outubro nestes condados do Sul. Um passeio, ao meio da tarde, nas pittorescas margens do Severn, ou ainda ao longo do Avon, riba que a memoria de Shakspeare torna quasi sagrada, ou pelas collinas amaveis de Surrey, é o mais belo, o mais util repouso que póde ter o espirito sobresaltado, cançado dos livros, ou do duro movimento da vida.

Tem-se aqui alguma coisa d'aquella paz etherea, que os poetas pagãos sonhavam nas perspectivas ineffaveis dos Elysios: sómente a natureza particular do Norte, as linhas da architectura saxonia, o arranjo das culturas, dão a feição romantica e elegiaca que falta á paysagem latina.

Caminha-se n'uma luz ligeira, de um dourado triste, de um enternecimento quasi magoado: o verde das relvas sem fim que se pisam, verde repousado e adormecido sob as grandes ramagens das arvores seculares e aristocraticas, solemnes, isoladas, immoveis n'um recolhimento religioso, leva a alma insensivelmente para alguma cousa de muito alto e de muito puro: ha um silencio de uma extraordinaria limpidez, como o que deve haver por sobre as nuvens, um silencio que não existe na paysagem dos climas quentes, onde o labor incessante das seivas muito forte parece fazer um vago rumorido, um silencio que pousa no espirito com a influencia de uma caricia. E a cada momento são fundos encantadores de paysagem, de um vaporisado azul, com alguma torre d'Abbadia coberta de heras, que surge d'entre robles, ou uma rica avenida de parques, onde se entreveem vestidos claros correndo sobre as relvas, ou a historica architectura de um castello, de bandeira feudal na torre, que de repente apparece n'uma elevação, com os seus terraços de marmore escuro, os grandes prados onde pastam ou repousam os animaes de luxo, os faiscantes meandros do rio entre a verdura e sons tristes de trompa, vindos da profundidade dos arvoredos...

D'aqui a dias, porém, por collina e valle, só haverá a triste nevoa humida que dura mezes, ou a neve redemoinhando ao vento...

Esta monotonia, que começa escurecendo os campos desde novembro, vae causar este anno uma innovação excellente nos costumes sociaes da Inglaterra. Vae haver, de dezembro a maio, uma _estação d'inverno_ em Londres.

Como sabem, Londres só é habitado desde os começos de maio até aos primeiros dias quentes de agosto. O resto do anno, Londres é a cahida Palmyra ou a tenebrosa planicie do deserto da Petrêa. Ficam lá, é verdade, entre tres a quatro milhões de humanidade: mas é uma humanidade subalterna, feita de barro villão, sem valor social em Inglaterra: é a humanidade que não tem castellos, nem parques de tres legoas, nem o seu nome no _Livro d'Ouro_, nem _yachts_ de luxo para bordejar nas costas da Escossia; é a humanidade que não tem nas arterias o famoso _sangue normando_, esse sangue invejado, mais precioso que o de Christo, cantado por todos os poetas da côrte, e que foi importado pelos brutamontes cobertos de ferro, e pelludos como féras, que acompanhavam a estas ilhas Guilherme da Normandia; é emfim a humanidade que Carlos Stuart, o Bem-amado, chamava a _canalha_, e que o grande sacerdote da _Bella Helena_, o pobre Offenbac, designava, com tanto criterio, pelo nome de _vil multidão_:--é o trabalhador, o artifice, o artista, o professor, o philosopho, o operario, o romancista, tudo o que pensa, cria e produz.

É esta fresca ralé que fica em Londres: de modo que apenas a humanidade superior, os _dez mil de cima_, como aqui tão pittorescamente se diz, partem para os seus castellos, as suas _villas_ á beira mar, ou os seus _yachts_.--Londres, apenas habitado pela turba abjecta, torna-se sobre a face da terra, como a lamentavel Cacilhas. Nenhum _gentleman_ que se respeite e queira manter o seu bom nome social ousaria confessar que esteve em Londres em janeiro: correria o risco de ser tomado por um tendeiro, ou, peior, por um philosopho, um poeta, um d'esses seres rastejantes, vis como o lixo, sem castello e sem matilha de cães, que nenhuma _Lady_ quereria ter no seu «rol de visitas».

Se um _gentleman_, tendo negócios instantes em Londres, é forçado a vir a este deserto de plebeus, guarda um _incognito_ severo; não chegará talvez a pôr barbas postiças; mas só se arrisca pelas ruas no fundo escuro de um cupé com os _stores_ descidos, e o paletot rebuçando-lhe a face. Todavia uma aventura tão poderosa poucos a ousam!

Pois bem, tudo isto se vae reformar! E este anno será moda passeiar em Piccadilly, ou florear de rosa ao peito em Pall-Mall, em pleno janeiro, na espessura dos nevoeiros. Esta revolução consideravel foi, como todas as fecundas revoluções, tramada, prégada, popularisada pelas mulheres.

Havia longos annos que estes anjos soffriam com impaciencia a melancholia da vida do campo, durante o longo inverno saxonio. Ainda, nos primeiros tempos, depois de deixar as glorias de Londres e os esplendores da _season_, a existencia era toleravel. Havia as regatas elegantes de Cowes; ia-se estar uma semana na ilha de Wight; depois vinham as festas da abertura da caça; seguia-se a epocha dos _yachts_, as viagens ás costas da Noruega, ás Hebbidas, ás praias elegantes da Normandia; depois, quando a côrte está na Escossia, vinha a caça do veado, os bailes de _gellies_ das montanhas... Emfim, vivia-se.

Mas, com a chegada de dezembro, da neve, uma formidavel lei social, a _fashion_, obrigava os _dez mil de cima_ a recolherem-se aos seus castellos, á solidão do campo. E ahi começava para as damas o tedio memoravel!

Quando se não tem um _chateau_ e parque como os de Inglaterra, póde parecer um sonho de paraizo o viver n'essas faustosas residencias, entre maravilhas d'arte, accumuladas por gerações, com mobilias de duzentos contos, um serviço de sessenta criados, vinte cavallos na cocheira e um parque de trez legoas, um parque de romance, para passeiar sobre a neve dura quando o ceu brilha claro. Mas a desgraçada dama, desde o seu primeiro dente acostumada a tantos explendores, já lhes não encontra encanto; uma simples corrida, n'um velho fiacre de Londres, de loja em loja, é-lhe cem vezes mais doce.

Depois, a vida do castello é de um vasio pardo e tristonho. Os homens, esses, de manhã, teem a caça, os galopes furiosos, devorando prados, saltando sebes atraz de uma raposa espavorida, ao grito barbaro de _hally-hó!_ Depois á noite, tomado o banho e vestida a casaca, tem o grog forte no _fumoir_. Mas as desgraçadas damas? Todas bebem grog--mas raras são as que caçam. O dia é-lhes lugubre. Uma burgueza, em Inglaterra, tem sempre uma occupação, mesmo nas existencias ricas: borda, pinta em porcellana, faz camisas para os pequenos Patagonios, ensina a ler os filhos dos caseiros, escreve as suas memorias ou corresponde-se com um Theologo sobre pontos difficeis de doutrina. Mas um dama das _dez mil_ não faz nada; os seus grandes talentos, a _toilette_, a graça de receber, a intriga politica, o brilho da conversação, o _chic_ esthetico, cousas em que prima, não lhe servem no isolamento relativo do castello, sob as torrentes da chuva. O seu palco natural é o salão de Londres. Alli no campo, nas longas galerias onde pendem as bandeiras que os seus antepassados tomaram em Azincourt ou Poitiers, ou, se os avósinhos nunca invadiram a França, as bandeiras compradas no antiquario da esquina, _Mylady_ boceja; ou estendida n'um sofá, na sua _robe-de-chambre_ de brocado branco de Genova, com uma novella cahida no regaço, olha os flocos de neve empoando os grandes carvalhos do parque...