Part 20
Eil-o, o maldicto, o archanjo da blasfemia, Rival do creador!--té o imo peito Pelas frechas da anáthema varado, Como n’um turbilhão, desce rodando; Ondas d’um mar de fogo o vem cercando, E elle occulta a cabeça, Como que procurasse Nas entranhas da noite Esconder seu desdoiro. Clamavão--longe--os mundos com voz forte: «Que insensato! onde vae? Nesse arrojado, Frenetico voar, que vento o impelle, Que de astro em astro vae, d’um céo em outro? Vede como é sombrio! Oh! quão outro que está d’aquelle archanjo De tão bello semblante, Lucifer radiante, Cujo sopro era como o romper d’alva, Que as portas da manhã nos céos abria, Trazendo comsigo a aurora, Que o seo alento accendia! Acaso o reconhecestes? Era hontem brilhante, novo e bello; E hoje é feio e nu e descalvado, Nas azas da tormenta balouçado, Nas azas dos bulcões; E os seos olhos fulminados Já sem pupillas fumegão, Quaes crateras de vulcões!»
O archanjo os escutava, ameaçando-os Co’o olhar fulminante; Que cheio d’impio orgulho já sentia Uma c’rôa de rei cingir-lhe a fronte. Todos os astros que no espaço gyrão Seos olhos d’irritados fascinavão; E os astros todos de terror tremião, Saudando a coruscante realeza. E já os céos sem fim, estrellas, mundos Traz delle se perderão; E nas profundas solidões do espaço O archanjo abandonado apenas via A noite, e sempre a noite! Tem medo, olha, procura....--Um astro! um astro! Transviado nos céos!--O archanjo o avista! Estende a mão convulsa arrepellando-o: Segura, arrasta-o, e d’um só pulo hardido Tral-o potente ao limiar do inferno, Alentando açodado.
O errante cometa duas vezes Ao tetro boqueirão levou comsigo, E duas vezes, como um negro abutre, Lutando corpo a corpo, de cançaço Sentio-se esmorecer. Duas vezes tambem o astro victima, Supplicando medroso, as igneas azas Bateu, sublime grito aos céos mandando. O nome do Senhor por duas vezes O rebelde venceo,--elle sosinho Cahio no fundo abysmo.
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CANÇÃO DE BUG-JARGAL.
(TRADUCÇÃO.)
Maria, porque me foges, Porque me foges, donzella? Minha voz! o que tem ella, Que te faz estremecer; Tão temivel sou acaso? Sei amar, cantar, soffrer.
E quando ao travez dos troncos Descubro d’altos coqueiros, Junto as margens dos ribeiros, A sombra tua a vagar; Julgo vêr passar um anjo, Que os meos olhos faz cegar.
E dos labios teos se escuto Deslisar-se a voz, Maria, Cheio de estranha harmonia Pulsa o peito meo queixoso, Que mistura aos teos accentos, Tenue suspiro afanoso.
Tua voz! eu quero ouvir-t’a Mais do que as aves cantando, Que vem da terra voando, Em que eu a vida provei; Da terra onde eu era livre, Da terra onde eu era rei!
Liberdade e realeza, Hei de perder da lembrança; Familia, dever, vingança... Té a vingança m’esquece, Fructo amargo e deleitoso, Que tão tarde amadurece!
Es, Maria, qual palmeira, Altiva, esbelta, engraçada, No tronco seo balançada Por leve brisa fagueira; No teo amante a rever-te, Como na fonte a palmeira.
Mas não sabes?--Do deserto A tempestade valente Corre as vezes de repente Por acabar apressada Com seo halito de fogo A palmeira, a fonte amada!
E a fonte já mais não corre! Sente a verdura sumir-se A palmeira, e contrahir-se A palma sua ao redor, Que de cabellos dava ares, De c’rôa tendo o esplendor.
D’Hespaniola, ó branca filha, Teme por teo coração; Teme a força do vulcão Que vai breve rebentar! Que, depois, amplo deserto Só poderás contemplar!
Talvez que então te arrependas De me haveres desdenhado, Porque houveras encontrado Salvação no meo amor; Como o kathá leva á fonte O sedento viajor.
Porque assim tu me desdenhas, Não, Maria, não o sei; Que d’entre as frontes humanas, Entre as frontes soberanas, Levanto a fronte; sou rei.
Sou preto, sim, tu es branca; Mas qu’importa? Junto ao dia A noite o poente cria E cria a aurora tambem, Que mais luzentes bellezas, Mais doces do que ambos tem.
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AGAR NO DESERTO.
Et abiit, seditque e regione procul quantum potest arcus jacere: dixit enim: non videbo morientem puerum: et sedens contra, levavit vocem suam et flevit. _Genesis, Cap._ 21, 16.
Pallido o rosto e queimado Pelo sol do Egypto ardente, Sahia a escrava innocente Co’ o filho innocente ao lado Da tenda patriarchal. A pobresinha chorava! Alguns pães e um frasco d’agoa E um peito cheio de magoa!... Vê, contempla, ó triste escrava, Teo sepulchro no areal.
Abrahão se compadece; Mas debalde o sollicita Piedade sancta,--de afflicta Sem queixar-se, lhe obedece A triste escrava do amor. Quizera talvez detel-a... Porêm que?--Sarai lh’implora, Deos lhe ordena:--vae-te embora, Vae-te escrava; e a tua estrella Te depare outro senhor.
O sol brilhante nascia Sobre as tendas alvejantes; E n’outros pontos distantes Combros d’areia feria, Outr’ora leito d’um mar; Esse caminho procura, Que nas ondas do deserto Talvez ache por acerto Patria, abrigo, amor, ventura A prole infausta d’Agar.
Vae, caminha; mas ao passo Que no deserto s’entranha, Arde o sol com furia estranha, Racha a areia o pé descalço, Cresta o vento os labios seos; E ao lado o filho innocente Soltava tristes gemidos, Co’os olhos humedecidos Fitando a mãe ternamente, Que os olhos tinha nos céos!
Procura terras do Egypto; Porêm debalde as procura: Vae a triste, sem ventura, Lento o passo, o rosto afflicto, Pela inculta Bersabé. Seo Ismael desfallece; No deserto immenso, adusto, Não encherga um só arbusto: Jehovah delles s’esquece! Cresce a dôr, e mingua a fé.
Pede sombra o triste infante: Não ha sombra,--agoa supplíca; Exhaurido o vaso fica, Pede mais d’instante a instante.... Pobre escrava, oh! quanto dó! Podesses rasgar as veias, Tomar agoas innocentes Tuas lagrimas ardentes; Mas só vês d’um lado areias, D’outro lado areias só.
Pois não ha quem o proteja, Diz a escrava lá comsigo, Vendo o fado seu imigo, Meu filho morrer não veja, Bem qu’eu tenha de morrer. A um tiro d’arco distante Se arrasta com lento passo, Tomba o corpo infermo e lasso, E amargo pranto abundante Deixa dos olhos correr.
Deos porêm ouvira a prece Da escrava, da mãe coitada, E da celeste morada Librado um archanjo desce Nas azas da compaixão. Expira em torno ar de vida, Um aroma deleitoso, E n’um sonho aventuroso Agar seus males olvida, Olvida a sua afflicção.
Dorme e sonha, ó triste escrava, Deos senhor sobre ti vela! Dorme e sonha:--a tua estrella Nasce como um romper d’alva Sobre os netos d’Ismael. Esquece a sorte mesquinha, Que te vexa,--esquece tudo; Deos senhor é teu escudo; Já não es serva, es rainha D’outro reino d’Israel.
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Como quando elevados nas alturas Descobrimos incognitas paisagens, Densas florestas, aridas planuras E de rios caudaes virentes margens;
Assim da vida o sonho te arrebata, Rasgando o veo do tempo e do infinito, E uma scena vistosa te retrata, Que vai da Arabia ao portentoso Egypto.
Vê como o filho teu, feroz guerreiro, Nos prainos do deserto eleva as tendas, E, posto a seus irmãos sempre fronteiro, Provoca e trama asperrimas contendas!
São doze os filhos--doze reis potentes-- Com elles Ismael tudo avassalla; Sua espada é a lei das outras gentes, Seus decretos os campos da batalha.
A sorte seus designios favoneia, Segue seus passos a benção divina, Povôa-se Faran, surge d’areia De Meca o templo, os paços de Medina.
Crescem, dominão: largo reino ingente Mesquinha habitação presta a seus netos, Convertida em nação a grei potente, Que opprime a cerviz mobil dos desertos.
Mas entre os filhos seus de nomeada, Sup’rior dos heróes á grande altura, Na sinistra o alkorão, na dextra a espada, A effigie torva de Mahomet fulgura.
Curva-se a Arabia emtanto, a Palestina Á sua lei, da Persia o reino antigo; Escutão Asia e Africa a doutrina Do embusteiro que em Meca achou jazigo:
Mensageiro divino se declara Aquelle que illudido o mundo adora; Agar é mãe,--pela vergontea cara, Entre orgulhosa e triste, a Deos implora.
Peccou; porêm da gloria que o circunda A roxa luz, que o meteóro imita, De vivo resplendor a fronte inunda, Commove o peito a misera proscripta.
Curvado ao jugo seu todo o oriente, Inda cubiça a Europa o Ismaelita; E em frente á cruz, o pallido crescente Apparece nas torres da mesquita.
Oh! quanto humano sangue derramado! Que de prantos e lagrimas vertidas! Entre irmãos o combate é porfiado, A raiva intensa, as lutas mal feridas.
De avistar esse quadro tão medonho, Embora no porvir todo escondido, A escrava tenta orar; porêm no sonho Resume a prece em languido gemido.
Geme de vêr em furia carniceira A esposa de Mahomet desrespeitada, E do seu genro a dynastia inteira Por duro asar de guerra contrastada.
Succedem-se os Omiades valentes; Do seu ultimo rei, oh dôr! se coalha O sangue na mesquita: entre essas gentes Vinga o punhal a sorte da batalha.
O vencedor então, não poucas vezes, Chegando á bocca a taça corrompida, Exp’rimenta os tristissimos revezes, De quem sobre os tropheos exhala a vida!
Tudo é silencio e luto:--um só evita O negro olvido,--ao templo da memoria Vôa Al-Reschid,--unindo á gloria avita O louro da sciencia e o da victoria.
Com seu vizir á noite, pelas ruas Escuta dos estranhos mercadores A gloria d’outros reis, menor que as suas, E espreita do seu povo occultas dores!
Se ouviu a narração d’uma desgraça, Se o pobre vê curvado a prepotencia, Se o convidão a entrar, quando elle passa, No abrigo do infortunio e da innocencia,
Entrou e viu! mas o fulgor crastino Ri-se mais brando aos peitos soffredores; Passa o rei, como orvalho matutino, E, por onde passou, rescendem flores!
Mudado o sonho, a fugitiva escrava Estranhos povos nota, estranhas terras, Que o Darro ensopa e o Guadalete lava, Nadando em sangue de cruentas guerras.
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Quem foi que as altas portas Abriu d’Hespanha aos mouros; Que poz os verdes louros, Dos reis godos conquista, Ás plantas do infiel? De tantos males causa Tu foste, ó rei Rodrigo, Tornando infesto, imigo, O nobre conde, outr’ora Vassallo teo fiel.
Debalde o affecto encobres Do refalsado peito, Se vais furtivo ao leito Da virgem, que se mostra Rebelde ao teo amor: Qu’es godo e rei t’esqueces! E o nobre resentido Da offensa que ha soffrido, No teu exemplo aprende A ser tão bem traidor.
Em quanto pois devassas, Com torpes pensamentos, Os regios aposentos Da nobre moça,--a c’rôa Te cae da fronte ao chão; E o pae, que a affronta punge, Turbado, ardendo em ira, Aos pés do mouro a atira. O rei, que planta crimes, Recolha vil traição.
Sus, ó rei, ás armas! Empunha a larga espada, E a fronte sombreada Co’o negro elmo--deixa Tingir-se em nobre pó: D’encontro as alas densas Do barbaro inimigo Debalde, ó rei Rodrigo, Te arrojas!--vence á força, Foges vencido e só!
Vai só; mas occultando No manto d’um soldado O rosto demudado, Emquanto passa o campo, Escasso leito aos seos: Ai! triste rei cahido! Na solitaria ermida, Que abriga a inutil vida, No pó collada a fronte, Lembra-te emfim de Deos.
Lembrem-te os muitos erros E o crime grave, emquanto As mães godas em pranto O nome teu maldizem, E ao céo clamando estão. Emquanto pela Iberia O arabe audaz e forte, Espalha o susto, a morte, Por onde quer que solta Ao vento o seu pendão.
Passão avante, calcão Dos Pyrenêos as serras, Levando cruas guerras Ao dilatado imperio Do intrepido gaulez. Debalde o grande Carlos Oppõe-se-lhes,--que a historia Nos traz inda á memoria Dos tristes Roncesvalles O misero revez.
Porêm do largo imperio De Cordova e Granada A c’rôa cahe pesada Na fronte amollecida Do moço Boabdil. O fraco teme os echos Ouvir da accesa guerra, E perde a nobre terra Ganhada em mil batalhas Com pranto feminil.
Depois, inda outros quadros Enxerga no futuro; Mas é um ponto escuro, São formas vagas, postas Em duvidosa luz. Já naves são, já hostes, Tropel de varia gente, Que parte do occidente, Em cujos peitos brilha De Christo a roxa cruz.
Agar emfim acorda! Sustendo o filho caro, Pelo deserto avaro S’entranha novamente, Mais solto o coração. Parece que já sente No rosto ao bello infante A gloria radiante, Que espera os descendentes Da forte geração.
E como Deos lhe ha dito, Seus filhos são guerreiros, Que a seus irmãos fronteiros Cruentos prelios movem: Temidos são; porêm As filhas desses bravos, Da vida sequestradas, Escravas são coitadas, Que da materna origem Recordão-se no Harem.
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Vai, caminha, oh triste escrava, Deos Senhor sobre ti vela; Vai, caminha: a tua estrella Nasce como um romper d’alva Sobre os netos d’Ismael. Esquece a sorte mesquinha Que te vexa, esquece tudo, Deos Senhor é teu escudo: --Já não es serva, es rainha D’outro reino d’Israel.
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HYMNO.
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O MEU SEPULCHRO.
Elève-toi, mon ame, au-dessus de toi-même, Voici l’épreuve de ta foi! Que l’impie, assistant à ton heure suprême, Ne dise pas: Voyez, il tremble comme moi! LAMARTINE--_Harmonies._
Quando, os olhos cerrando á luz da vida, O extremo adeus soltar ás esperanças, Que na terra nos guião, nos confortão E espação do porvir a senda estreita; Quando, isento de miseros cuidados, Disser adeus ás illusões douradas, Mas com ellas tambem ás dores cruas Da existencia--aos espinhos ponteagudos, Com que a verdade o coração nos roça; Quando tocada não sentir minha alma Da luz, dos sons, das cores, das magias, Que a natureza prodiga derrama No regaço da terra--mais ditoso Serei acaso então?--Quando o meu corpo Á terra, mãe commum, pedindo abrigo Dos sepulchros no valle em paz descance;
Hei de ser mais feliz porque m’o cobre Pomposo mausoleu, em vez da pedra Sem nome, em vez do tumulo de cespedes, Que s’ergue junto á estrada, e ao viandante Ao que alli passa, uma oração supplíca? Oh! não!--ao encalmado é grata a sombra; Grato descanço aos membros fatigados Presta igualmente a relva das campinas E os torrões pelo sol enrigicidos. Como o trabalhador que a sésta aguarda, O meu termo fatal sem medo espero! Eu então pedirei silencio á morte, E fresca sombra á sepultura humilde, Que me receba,--e á cuja superficie Morrão sem echo da existencia as vagas.
Humilde seja embora! Que m’importa Que a mão d’habil artista me não talhe Mentiroso epitaphio em preto marmor! O moimento faustoso, que se erige, Arranco da vaidade, sobre a campa De um corpo transitorio, acaso empece Aos que alli pascem, vermes esfaimados De roerem-lhe as visceras?!--Solemnes São da campa os mysterios; mas terrivel É da morte a rasoura, que nivela O rico ao pobre, e os berços differentes Torna um féretro, um leito de Procusto, Capaz de quanta dôr os homens soffrem: Tão depressa o cadaver se corrompe Nas amplas dobras do velludo involto, Como embrulhado na mortalha exigua, Que a religiosa caridade amiga, O pudor dos sepulchros venerando, Lança do pobre aos restos desprezados.
Os felizes do mundo, acobardados Ante a imagem da morte, que os assalta, Temem deixar a terra, onde tranquilla, Quasi livre de dôr, entre delicias, Como um rio caudal lhes corre a vida. Horrorisão-se timidos,--supplicão Á cruel, que os não leve, que os não roube Á senda matisada, onde os seus passos Deslisão-se macios--ás caricias D’um seio, que lhes presta brando encosto. O fio da esperança os liga forte A um corpo que declina, como os lios De enrediça tenaz prendida á copa D’uma arvore comida: amedrontados, Como das fauces negras d’um abysmo, Do pavoroso tumulo recuão.
Mas eu, que vago solto, como a folha, Como o fumo subtil; que não limito Nos terminos da terra os meus desejos, Folgo de vêr os renques dos sepulchros No chão da morte largamente esparsos! Quasi me alegra vel-os. Tal no exilio Contempla á beira-mar o degradado Devolverem-se as vagas,--e saudoso Da patria sua tão distante--as conta; Uma por uma as interroga, e pensa Qual d’aquellas será que o leve e atire, Naufrago embora e semimorto, ás praias, Porque chorão seus olhos.--No desterro Me contemplo tambem,--como elle, choro A patria, o íman dos meus sonhos gratos. Abra-se funda a cova ante os meus passos: Um só delles da morte me separe!... E esse passo andarei, como quem pisa, Depois de viajar remotos climas, O patrio solo, e as auras perfumadas Do bosque, amigo seu na leda infancia, Bebe de novo, e de as gozar se applaude.
Hora do passamento! es da existencia O momento mais sancto, o mais solemne: Assim o rubro sol, quando no occaso Em turbilhões de purpura se afunda, Nos morredouros, despontados raios Saudoso, extremo adeos á terra envia. Tal o esposo se aparta suspiroso E nas azas da brisa manda um beijo Á esposa, que de o ver partir se enluta, Rola que vaga na amplidão das selvas.
Cheio de melancholica incerteza, Dir-te-hei: bem vinda,--ó morte! quando os olhos Voltar atraz na percorrida estrada; E chorarei talvez, como quem deixa O carcere medonho, onde engastada Nas escamas da dôr gemeu sua alma Largos annos de antigo soffrimento; O carcer qu’inda as lagrimas lhe verte Das humidas paredes, cujos echos Inda parecem, na soidão da noite, Repetir seus tristissimos accentos.
Oh! quão formosa a vida se revela A quem já bate as portas do infinito, Encostado aos umbraes da eternidade, A vez extrema contemplando o mundo! A folha já myrrada, a pedra solta, A flôr agreste, a fonte que murmura E as cantoras do céo, as ledas aves De variado esmalte, e as suspirosas Brisas da noite e as do romper da aurora, A estrella, o sol, o mar, o céo, a terra, A planta, os animaes, tudo então vive, Tudo comnosco sympathisa,--tudo, Como orchestra afinada por nossa alma, Acorde aos nossos sentimentos vibra, Revelando ao que morre os fins da vida. Dalli melhor compr’hende-se a existencia, Mais vasta perspectiva se desdobra Ante os olhos, que a extrema vez lampejão: E as scenas que a illusão junca de flores, Que o desejo nos mostra, que nos pinta Cubiçoso, irisante,--que a esperança Fugaz de varios modos nos matisa; Gloria, ambição, prazer, fallaz ventura, Tudo se olvida e apaga--semelhante Á fugitiva estrella ou clarão breve D’um relampago estivo, que um momento Se mostra e fulge, logo immerso em trevas.
Que importa que eu não tenha uma só c’rôa, Um myrrado laurel, uma só folha, Que ás novas gerações diga o meu nome E sollicite as attenções futuras? Sou como o passarinho, quando passa Á flôr de um lago e a sombra vacillante No liquido crystal debalde estampa. Ou semelhante ao viajor que bate Da vida a estrada pulvurenta, e nota Como os seus rastos mal impressos cobre O pó que de seus passos se levanta. Ah! que dos louros me não dóe a ausencia Mas de lagrimas, sim, que me orvalhassem A sepultura humilde,--á cujas gotas Meus ossos de prazer estremecidos De as sentir se alegrassem...--mas em troco Dessa pia oblação, que tantas vezes Mente ao finado, que as espera eterno, As lagrimas terei da noite fria, O fresco humor da chuva, que me eduquem A agreste flôr, que a natureza obriga A despontar na solitaria campa. Ninguem virá com titubantes passos E os olhos lacrimosos, procurando O meu jazigo; e em falta de epitaphio, «Elle aqui jaz!» o coração lhe diga, E alli se curve então, fundos suspiros Dando aos echos do funebre recinto, Involtos na oração que alegra os mortos. Certo, ninguem virá; porêm tão pouco Ouvirei maldições, onde escondido, Já pasto aos vermes, jazerá meu corpo. Se deixo sobre a terra alguma offensa, Se alguma vida exacerbei, se acaso Alguma simples flôr trilhei passando; Essas, depois d’eu morto, convertidos Os odios em piedade--«Em paz descança» Dirão ante o meu tumulo, e voltando A um lado o rosto,--deixarão dos olhos Compassiva uma lagrima fugir-lhes!
Tu, Senhor, tu, meu Deos, tu me recebe Na tua sancta gloria: alarga as azas Do teu sancto perdão, que ao teu conspecto Humilhado me sinto, como a grama, Que o pé do viajor sem custo abate. A ti volvo, ó Senhor,--bem como o filho, Que ao sopro paixões soltando as velas Da juventude ardente, foge ao tecto E ao lar paterno, onde por fim se acolhe, Consumido o thesouro da innocencia, Com rubor dos andrajos da pobreza, Que o vexa,--para ver do pae o rosto, Para escutar-lhe a voz, embora tenha Sobre a cabeça a maldição pendente.
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SAUDADES.
A MINHA IRMÃ.
J. A. de M.
I.
Eras criança ainda; mas teu rosto De ver-me ao lado teu se espanejava Á luz fugaz de um infantil sorriso! Eras criança ainda; mas teus olhos De uma brandura angelica, indizivel, De sympathicas lagrimas turbavão-se Ao ver-me o aspecto merencorio e triste; E amigo refrigerio me sopravão, Um balsamo divino sobre as chagas Do coração, que a dôr me espedaçava! A luz de uma razão que desabrocha, As leves graças, que a innocencia adornão, Os infantis requebros, as meiguices De uma alma ingenua e pura--em ti brilhavão. Eu, gasto pela dôr antes de tempo, Conhecendo por ti o que era a infancia, Remoçava de ver teu rosto bello. Pouco era vel-o!--em ti me transformava; Bebendo a tua vida em longos tragos, Todo o teu ser em mim se transfundia: Meu era o teu viver, sem que o soubesses, Tua innocencia, tuas graças minhas: Não, não era ditoso em taes momentos, Mas de que era infeliz me deslembrava!
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