Part 19
Oh! quanta graça e formosura adorna Teu rosto eloquente e vivo! Se a sombra de um sorrir te afrouxa os labios, Prestes outro sorrir dos meus rebenta; Se vejo os olhos teus, que chorar tentão, Debalde o pranto meu represso engulo; Se do teu rosto as rosas se esvaecem, Eu sinto de temor bater meu peito; E quando os olhos teus nos meus se fitão, Nem pezares, nem dores me dominão; Mas sinto que o meu peito se enternece, Sinto o meu coração bater mais livre, Sinto o sorriso, que me ri nos labios, Sinto o prazer, que me transluz no rosto, Sinto delicias n’alma!
Quanta belleza tens!--quer dessas graças, Que o amor inveja--n’um saráu brilhante No meio de bellezas, que supplantas, Prazer e galas de as mostrar ressumbres; Quer estejas sósinha e pensativa, Quer viva e folgazã prazer incites:
Ou n’um corsel em páramos extensos, Correndo affoita e louca, e o pé mimoso Da carreira no afan por sob as vestes Transparecer deixando;
Ou balançada n’um ligeiro barco, Que de um lago tranquillo as aguas frisa, Soltando a voz as brisas namoradas, Que de te ouvir suspirão;
Ou n’uma bronca penha descalvada O mar e os céos contemples pensativa, E a redeas soltas do pensar divagues Nos campos do infinito;
Es sempre bella: já teus olhos brilhem Luz que fascina, ou morbidos reflexos, Teus labios entre-abertos sempre exhalão Calor, que incendio ateia.
Oh! que bella tu es, quando assentada No teu balcão, ao refulgir da lua, Manso te apoias em coxins de seda, E o bello azul dos céos triste encarando Pensas em Deos,--talvez no teu futuro, Talvez nos teus pezares,--que na fonte De limpha pura, crystallina e fresca Aquatica serpente usa occultar-se. Mas como es bella assim! co’a mão sem força Tirando sons perdidos, sons que encantão, Sons qu’infundem prazer, sons d’harpa tristes! Mas como es bella assim!--quando o teu peito Entre a gaza subtil de leve ondeia! Como a onda do mar pausada e fraca Se abaixa, e empola, e mais e mais se achega Á doce praia, onde os seus ais se quebrão; Assim teu peito bate, e nos teus labios Do extremo palpitar morre um suspiro. Como d’harpa afinada a corda sôa, Mal desfere seus sons outro instrumento; Assim tambem minha alma se entristece, Assim tambem meu peito arqueja e pula!
Eis porque amor me liga aos teus destinos, Porque sou teu escravo,--bem que saiba Que se a tua alma a belleza Tem de um anjo a formosura, Não tens de um anjo a candura, Nem tens delle a singeleza!
Eis porque ardo por ti, porque padeço Do inferno crus tormentos! Porque dos zelos o fel mancha minha alma De negros pensamentos!
Mas que importa este amor que me consome? Eu quero sentir dôr; Quero labios que entornem nos meus labios Alento escaldador!
Quero fogo sentir contra o meu peito, Quero um corpo cingir que eu sinta arder, Quero beijos só teus, caricias tuas, Que dão morrer!
Que importa ao edificio que scintilla, De roaz fogo tomado, Ser por um raio abrasado Ou por ignobil favilla?
É sempre ardor, sempre fogo, Sempre d’incendio o clarão, Sempre o amor que estúa e ferve Como um gigante vulcão.
* * * * *
A NUVEM DOIRADA.
(N’UM ALBUM.)
A nuvem doirada se expraia no occaso, Roçando co’as franjas o throno de Deos; A aguia arrojada seus vôos levanta, Traçando caminhos nos campos dos céos!
Exhala perfumes a flôr do deserto, Embora dos ventos o sopro fatal Embace-lhe as côres,--e o mar orgulhoso Suspira queixoso--no extenso areal.
E os bardos mimosos nos cantos singelos Imitão as nuvens no incerto vagar: Vão sós como as aguias,--exhalão perfumes, Suspirão queixumes--das vagas do mar.
Por isso quem ama, quem sente no peito Cantar-lhe das lyras a lyra melhor; Os carmes lhes ouve, que os bardos só cantão Saudades, perfumes, enlevos e amor!
* * * * *
SONHO DE VIRGEM.
A. D. A. C. G. A.
I.
Que sonha a donzella, Tão vaga, tão linda, Bemquista e bemvinda Na terra e no céo? Que scisma? que pensa? Que faz? que medita, Que o seio lhe agita Tão bravo escarcéo?
Que faz a donzella, Se lagrimas quentes Das faces ardentes Lhe queimão a tez? Que sonha a donzella, Se um riso fagueiro, Donoso e ligeiro Nos labios lhe vês?
Que faz a donzella, Que scisma, ou medita? Talvez lá cogita Fruir algum bem; Então porque chora? Se curte agras dores D’ingratos amores, O riso a que vem?
Semelha a donzella, Que ri-se e que chora, Á limpida aurora, Que orvalha dos céos; Não luz mais brilhante, Não chora mais prantos, Não tem mais encantos, Que um riso dos seus.
II.
Quem me dera saber quaes são teus sonhos, Aventar teus angelicos desejos, Saber de quantas ledas fantasias, De quantos melindrosos pensamentos Um suspiro se nutre, um ai se gera. Virgem, virgem de amor, que vais boiando Á flôr da vida, como rosea folha, Que aragem branda sacudio nas aguas; Que genio bom a magica vergasta Em troco de um sorriso te concede? Que poderosa fada te embalsama A vida e os sonhos?--que celeste archanjo Embala, agita as creações que idéas, Como em raio do sol dourados átomos Com que invisivel ser brincar parece! Virgem, virgem de amor, quaes são teus sonhos?
III.
Talvez quando o sol nasce, lá divisas Na liquida extensão do mar salgado Correr com mansas brisas Um ligeiro batel aparelhado.
As velas de setim brancas de neve Rutilão d’entre as flamulas e cores, E o barco airoso e leve Nos remos voga de gentis amores.
Não formão rijos sons celeuma dura, Nem a companha entre bulcões desmaia; Aragem fresca e pura Doces carmes de amor conduz á praia.
Sonhas talvez nas orlas do occidente, De um regato sentada á branda margem, Ver surgir de repente De uma cidade a caprichosa imagem!
Soberbas construcções fantasiando, Vês agulhas subtis cortando os céos, E a luz do sol doirando Rutilos tectos, altos corucheos.
Sonhas talvez palacios encantados, Espaçosos jardins, fontes de prata, Vergeis de sombra grata, Onde a alma folga, isenta de cuidados.
Sonhas talvez, mas innocente Armida, Passar a facil quadra dos amores, Tendo em laço de flores Preso de quem mais amas peito e vida!
IV.
Quem me dera saber quaes são teus sonhos? Aventar teus mais intimos desejos, E ser o genio bom que t’os cumprisse!
V.
Nem só prazeres medita, Nem só pensa em bellas flores; Muitas ha que almejão dores, Como outras buscão amor: É que as punge atra amargura, Que o peito anceia e fatiga; É sêde que só mitiga Talvez afflicção maior.
Quasi gozão, quando vertem Um pranto cançado e lento; Quando um comprido tormento Lhes derrete o coração: Não é martyrio de sangue, Como nas eras passadas; Mas ha lagrimas choradas, Que tambem martyrio são.
Ha dores que melhor ralão Que provas d’agua ou de fogo, Que ver apinhado o povo N’um banquete canibal; Que sentir no amphitheatro As vivas carnes rasgadas Pelas presas navalhadas De um fero lobo cerval.
VI.
Quem me dera saber quaes são teus sonhos, Aventar teus mais fundos pensamentos, E ser o genio bom que t’os cumprisse, Quando fossem de amor teus meigos sonhos!
VII.
Mas donde mana essa fonte De inexplicavel ternura, Que os golpes da desventura Não podem nunca estancar; Essa vida toda extremos, Esse ardor de todo o instante, Esse amor sempre constante, Que nunca se vê mingoar?
Quizera, virgem donosa, Saber a origem divina Dessa fonte peregrina De tanta luz e calor; Então pudera em meus cantos, Tratar dos teus meigos sonhos, Formar uns quadros risonhos De quanto sentes de amor.
Roubando as cores do Iris, Das estrellas os fulgores, O aroma que tem as flores, O vago que tem o mar; Talvez pudera os mysterios, As douradas phantasias, As singelas alegrias D’um peito virgem cantar.
* * * * *
MEU ANJO, ESCUTA.
Le mal dont j’ai souffert s’est enfui comme un rêve, Je n’en puis comparer le lointain souvenir Qu’à ces brouillards légers que l’aurore soulève Et qu’avec la rosée on voit s’évanouir. MUSSET.
Meu anjo, escuta: quando junto á noite Perpassa a brisa pelo rosto teu, Como suspiro que um menino exhala; Na voz da brisa quem murmura e falla Brando queixume, que tão triste cala No peito teu? Sou eu, sou eu, sou eu!
Quando tu sentes luctuosa imagem D’afflicto pranto com sombrio véo, Rasgado o peito por acerbas dores; Quem murcha as flores Do brando sonho?--Quem te pinta amores D’um puro céo? Sou eu, sou eu, sou eu!
Se alguem te acorda do celeste arroubo, Na amenidade do silencio teu, Quando tua alma n’outros mundos erra, Se alguem descerra Ao lado teu Fraco suspiro que no peito encerra; Sou eu, sou eu, sou eu!
Se alguem se afflige de te ver chorosa, Se alguem se alegra co’um sorriso teu, Se alguem suspira de te ver formosa O mar e a terra a ennamorar e o céo; Se alguem definha Por amor teu, Sou eu, sou eu, sou eu!
* * * * *
OS BEIJOS.
Amo uns suspiros quebrados Sobre uns labios nacarados A gemer, a soluçar; Como a onda bonançosa, Que n’uma praia arenosa Vem tristemente expirar!
Amo ouvir uma voz pura, Uns accentos de ternura, Que trazem vida e calor; Que se derramão a medo, Como temendo o segredo Revelar do occulto amor!
Amo a lagrima que chora Tema virgem que descora, Presa d’interna afflicção; Amo um riso, um gesto vivo, Um olhar honesto, esquivo, Que alvoroça o coração.
Porêm mais que o olhar honesto, Mais que o riso e brando gesto, Mais do que o pranto a correr, Mais que a voz, quando amor jura, Que um suspiro de ternura, Que vem aos labios morrer;
Amo o leve som de um beijo, Quando rompe o véo do pejo, Mal sentido a murmurar: É viva flôr de esperança, Que nos promette bonança, Como a flôr do nenuphar.
Mente o olhar, mesmo em donzella, Mente a voz que amor assella, Mente o riso, mente a dôr; Mente o cançado desejo; Só não mente o som de um beijo, Primicias de um longo amor!
Beijos que são? Duas vidas, São duas almas unidas, Que o mesmo fogo consume: São laço estreito de amores; Porque são os labios flores De que os beijos são perfume!
Beijos que são?--Ai do peito, Sello breve, laço estreito D’um cançado bem querer; Saibo dos gozos divinos, Que nos labios femininos Quiz Deos bondoso verter.
Já por feliz me tivera, Triste de mim! se eu pudera Dizer o que os beijos são: Sei que inspirão luz e calma, Sei que dão remanso á alma, Que trazem fogo a paixão.
Sei que são flôr de esperança; Que nos promettem bonança, Como a flôr do nenuphar: Quem fruio um ledo beijo, Ter não póde outro desejo, Nada já póde gozar.
Sei que delles não se esquece Triste velho, que esmorece Á mingoa de coração: Viva estrella em noite escura, Viva braza em cinza pura, Em neve algente um vulcão.
Sei que fruil-os uma hora De ventura seductora, É subir em vida aos céos, É fugir da vida escassa, Roubar ao tempo que passa Um dos momentos de Deos.
Sei que são flôr de esperança, Que nos promettem bonança, Como a flôr do nenuphar! Quem os fruio, o que espera? Já gozou, já não tem era, Já não tem mais que esperar.
* * * * *
DESESPERANÇA.
Antes d’espirar el dia, Vi morir á mi esperanza. ZARATE.
Que m’importa do mundo a inclemencia E esta vida cruel, amargada? Des’que os olhos abri á existencia Um vislumbre de amor não achei! Nem uma hora tranquilla e fadada, Nem um gozo me foi lenitivo; Mas no mundo maldicto, em que vivo, Quantas ancias, meu Deos, não provei!
Já bastante lutei com meu fado! Quando outr’ora corri descuidoso Traz de um bem, não real, mas sonhado, Transbordava de sonhos gentis: Eu julgava que a um peito brioso Ou que a uma alma, que facil s’inflamma Por virtudes, por gloria, ou por fama, Era facil aqui ser feliz.
Via o mundo ao travez dos meos prantos A sorrir-se p’ra mim caroavel, Reflectindo celestes encantos, Que era visto d’um prysma ao travez: Hoje trevas em manto palpavel Me circundão,--nem já por acerto Vejo triste nos prantos, que verto, Luz do céo reflectida outra vez!
Que me resta na terra?--Estas flores, Afagadas do sopro da brisa, Disputando do sol os fulgores, Balançadas no debil hastil! Estas fontes de prata, que frisa Brando vento,--estas nuvens brilhantes, Estas selvas sem fim, susurrantes, Estes céos do gigante Brasil;
Nada já me renova a esperança, Que jaz morta, qual flôr resequida; Só me resta a querida lembrança Que o martyrio se acaba nos céos: Foge pois, ô minha alma, da vida; Foge, foge da vida mesquinha, Leva timida esp’rança, caminha, Té parar na presença de Deos!
Qu’estes gozos de ethereos prazeres, Que esta fonte de luz que illumina, Que estes vagos phantasmas de seres, Que scismando só posso enxergar; Que os amores de essencia divina, Que eu concebo e procuro e não vejo, Que este fundo e cançado desejo, Deos somente t’os póde fartar.
Vai assim a medrosa donzella, Pura e casta na ingenua belleza, Buscar luz á remota capella, Branca cera na pallida mão: Tudo é sombra, silencio e tristeza! Mas ao toque do fogo sagrado, Arde em chammas o cirio apagado, Já rutila brilhante clarão.
* * * * *
SE QUERES QUE EU SONHE.
Sur mon front, où peut-être s’achève Un songe noir qui trop longtemps dure, Que ton regard comme un astre se lève, Soudain mon rêve Rayonnera. V. HUGO.
Tu queres que eu sonhe!--que ao menos dormido Conheça alegrias, desfructe prazeres; Que nunca provei; Que ao menos nas azas de um sonho mentido Perdido--arroubado, tambem diga: amei!
Tu queres que eu sonhe!--não sabes que a vida Me corre penosa,--que amarga por vezes A propria illusão! No pallido riso d’uma alma affligida, Qu’invída--ser leda, que dores não vão!
Se o pranto, que os olhos cançados inflamma, Nos olhos de estranhos sympathico brilha; Mais agro penar Do triste o sorriso nos peitos derrama, Se a chamma--revela, que almeja occultar.
Sonhando, percebo na mente agitada Um mar sem limites, areas fundidas Aos raios do sol; E um marco não vejo perdido na estrada Cançada,--não vejo longinquo farol!
E queres qu’eu sonhe!--Nas aguas revoltas O nauta, ludibrio d’horrenda procella, Se póde dormir, As vagas cruzadas, em sustos involtas, As soltas--escuta raivosas bramir.
Talvez porêm sonha que as ondas mendaces O levão domadas á terra querida, Qu’entrou em seus lares!... E triste desperta, que os ventos fugaces Nas faces--a espuma lhe atirão dos mares.
Se queres que eu sonhe,--que alguma alegria Dormido conheça,--que frua prazeres D’um placido amor; Vem tu como estrella da noite sombria, Que enfia--seus raios das selvas no horror,
Brilhar nos meus sonhos.--Então socegado, Scismando prazeres, que n’alma s’entranhâo; D’um riso dos teos Coberto o meo rosto,--fugira o meu fado Quebrado--aos encantos de um anjo dos céos.
Vem junto ao meu leito, quando eu for dormido, Que eu sinta os perfumes que exhalas passando; Não soffro--direi: E ao menos nas azas de um sonho mentido, Perdido--arroubado, talvez diga:--amei!--
* * * * *
O BAILE.
Sonemos gozando Fortuna tan vana, Y el sol de mañana Que ven al salir Que al son de la orquesta Danzando en la fiesta, No es carga funesta La vida feliz. ZORRILLA.
As salas vão-se enchendo, as luzes brilhão Nos prysmas de crystal repercutidas, Em quanto as flores Dos bufetes nas jarras coloridas Acres odores Soltão; ao mar de luzes misturando D’innocente perfume outro mar brando. Com requebros e amor gentis donzellas, Em riso e festa, Medindo os passos Aos sons da orchestra, Pendem dos braços Do namorado, lepido galan! Esta risonha, aquella pensativa, Outra menos esquiva, Attenta ás vozes, que o prazer lhe entranhão, E á fraze cortezã, Que lhe entorna a lisonja nos ouvidos; Vão descuidosas, Nos labios risos, Nas faces rosas, Dando fé a protestos fementidos.
Triunfo ás bellas! o prazer começa: Correm nas taças vinhos espumosos, Gratos licores; Tangida pela mão dos Trovadores Desfaz-se a lyra em sons melodiosos, Em cantico de amores Soltão mais viva luz as brancas velas, Melhor perfume as flores. Activa-se o prazer; triunfo ás bellas! Aqui, alli, alem, mil rostos meigos,
Da walsa ao gyro rapido se mostrão, De gemmas ennastrados os cabellos; E o peito que anhelante Palpita entumecido Nas ondas do prazer ebrifestante, D’um leve colorido Banha o semblante, Que mais e mais co’a noite se enrubece: Triunfo ás bellas,--o prazer recresce!
Perdido emtanto neste mar de luzes, Mar de amor, de perfumes, que me inunda, Contemplo indifferente Quanto em redor diviso; E entre tanto ruido e tanta gente, Nem um sorriso Verdadeiro, innocente! Nem um sincero raio de alegria, Nem um peito contente Neste mar de perfumes e harmonia!
Então digo entre mim:--Talvez aquella, Que tem melhores cores, Que mais leda se mostra, Que mais feliz no gesto se revela, Sente mais finas dores; O intimo desgosto, A febre que a devora Lhe dá calor ao rosto, E no silencio chora; Presa de uma afflicção devoradora.
Uma tristeza funda, inexprimivel O coração me anceia; E triste e solitario n’um recanto, Nunca mais solitario, nem mais triste Do que entre a multidão que me rodeia, Não encontro maior, mais doce encanto Que deixar-me arrastar por uma ideia, Que me avassalla a mente. Que m’importa esta gente, Estes rostos que vejo e não conheço, E o riso a que mil outros dão apreço? Esta fingida alegria, Esta ventura que mente, Que serão dellas ao romper do dia? Destas virgens louçãs as mais mimosas Mortas serão talvez antes que murchem Do branco rosto as encarnadas rosas! Grinaldas festivaes, que a morte espalha No lugubre terreiro; O pó as enxovalha, Murchas aos pés do esquallido coveiro!
* * * * *
DESALENTO.
Without a hope in life! CRABBE.
Nascer, lutar, soffrer!--eis toda a vida: D’esperança e de amor um raio breve Se mistura e confunde Ás cruas dores d’um viver cançado, Como raio fugaz que luz nas trevas Para as tornar mais feias!
Da verde infancia os sonhos melindrosos, Nobres aspirações da juventude, Amor de gloria stulto, Com que mais alto a mente se extasia; São vãos phantasmas, que produz a febre, São illusões que mentem!
São as folhas virentes arrancadas D’um arbusto viçoso, antes que brotem Da primavera as flores; A pennugem que nasce antes das azas, Um esteril botão, que não dá flores, Ou flôr que não dá fructos!
Foge, mancebo, lá te espreita o mundo! Como areas d’um paramo deserto, Resequido, abrasado; Provoca o teo soffrer, teo pranto espreita, Sedento almeja as lagrimas, qu’entornas Nos areaes da vida.
S’inda tens coração, hão de esmagar-te; As setas da calumnia irão cravar-t’o Na parte mais sensivel: Se tens alma, se electrico palpitas De patria e de virtude aos nomes sanctos, Foge outra vez ao mundo.
Não queiras, n’um accesso doloroso, Ás mãos ambas ferindo o peito credulo Exclamar delirante: «Minha patria onde está?--Onde estes homens, «Que a par de meos irmãos amar devera, «Da mesma patria filhos?
«E a virtude tambem, onde hei de achal-a? «Se é mais que nome vão, onde é que existe? «Onde é que se pratica? «Se os modernos Catões a graça esmolão «Do rei--ou, cortesãos da populaça, «Rojão por terra ignobeis!
«Se a mão do poderoso, a mão dourada «Do crime impune--esbofeteia as faces «Do homem vil, que a beija! «Oh! meos irmãos não são, não são os filhos «Desta patria, que eu amo;--torce o rosto «De os vêr a humanidade.»
Despe-se a vida então dos seos encantos, E o homem na lembrança revivendo O percorrido estadio, Tem por marcos de estrada o monumento, Com que os mais fortes laços se desatão, --A pyramide e a campa!
Do sonho juvenil murchas as cores, Sem illusões, sem fé--nublado, escuro O presente e o porvir, No crepe d’abortadas esperanças S’involve--e os olhos tesos no sepulchro, A tarda morte aguarda!
Mas eu, qual viajor, vago perdido Pela face da terra!--amigo lume Não me convida ao longe; E ao sentar-me na mesa dos estranhos, Digo:--longe serei antes do occaso;-- E a divagar prosigo.
Mal aceito conviva me despeço!... As calumnias que soffro, a dôr que passo, Não me ferem profundas; Bem como a rola, que das matas desce, E nas azas recebe o pó da estrada, Que voando sacode.
Minha hora derradeira sôe em breve, A só esperança que aos mortaes não falha! Morrerei tranquillo; Bem como a ave, ao por do sol, deitando Debaixo d’aza a timida cabeça, Da noite o somno aguarda.
* * * * *
A QUEDA DE SATANAZ.
(TRADUCÇÃO.)
Eis que tomba da abobada celeste O archanjo audaz, o seraphim manchado, Desenrolando o corpo volumoso, Despenhado precipite,--qual mundo Dos eixos arrancado,--como um vivo Dos céos fragmento enorme, eil-o cahindo! Cahia lá d’aquelles céos brilhantes, Donde inda os seos iguaes lançavão raios; Cahia!--e a cerviz no espaço ardendo As espheras dos sóes de côr de sangue, Passando, avermelhava.