Cantos

Part 17

Chapter 173,427 wordsPublic domain

No odor dos teus perfumes te procuro, Tuas pegadas sigo; Velo teus dias, te acompanho sempre, E não me vês comtigo!

Occulto e ignorado me desvelo Por ti, que me não vês; Aliso o teu caminho, esparjo flôres, Onde pisão teus pés.

Mesmo lendo estes versos, que m’inspiras, --Não pensa em mim, dirás: Imagina-o, si o podes, que os meus labios Não t’o dirão jámais!

* * * * *

Sim, eu te amo; porêm nunca Saberás do meu amor; A minha canção singela Traiçoeira não revela O premio sancto que anhela O soffrer do trovador!

Sim, eu te amo; porêm nunca Dos labios meus saberás, Que é fundo como a desgraça, Que o pranto não adelgaça, Leve, qual sombra que passa, Ou como um sonho fugaz!

Aos meus labios, aos meus olhos Do silencio imponho a lei; Mas lá onde a dôr se esquece, Onde a luz nunca fallece, Onde o prazer sempre cresce, Lá saberás se te amei!

E então dirás: «Objecto Fui de sancto e puro amor: A sua canção singela, Tudo agora me revela; Já sei o premio que anhela O soffrer do trovador.

«Amou-me como se ama a luz querida, Como se ama o silencio, os sons, os céos, Qual se amão cores e perfume e vida, Os paes e a patria, e a virtude e a Deos!»

* * * * *

AS DUAS CORÔAS.

Hermosa, en tu linda frente El laurel sienta mejor, Que con su regio esplendor Corona de rei potente. G. y S.

Ha duas c’rôas na terra, Uma d’ouro scintillante Com esmalte de diamante, Na fronte do que é senhor; Outra modesta e singela, C’rôa de meiga poesia, Que a fronte ao vate alumia Com a luz d’um resplendor.

Ante a primeira se curvão Os potentados da terra: No bojo, que a morte encerra, Sobre a liquida extensão, Levão náos os seus dictames Da peleja entre os horrores; Vis escravos, crús senhores, Preito e menagem lhe dão.

E quando o vate suspira Sobre esta terra maldicta, Ninguem a voz lhe acredita, Mas riem dos cantos seus: Os anjos, não; porque sabem Que essa voz é verdadeira, Que é dos homens a primeira, Em quanto a outra é de Deos!

Se eu fora rei, não te dera Quinhão na regia amargura; Nem te qu’ria, virgem pura, Sentada sob o docel, Onde a dôr tão viva anceia, Tão cruel, tão funda late, Como no peito que bate Sob as dobras do burel.

Não te quizera no throno, Onde a mascara do rosto, Cobrindo o interno desgosto, Ser alegre tem por lei; Manda Deos, sim, que o rei chore; Mas que chore occultamente, Porque, se o soubera a gente, Ninguem quizera ser rei!

Mas o vate, quando soffre, Modula em meigos accentos, Seus doridos pensamentos, A sua interna afflicção; E das lagrimas choradas Extrahe um balsamo sancto, Que vale estancar o pranto Nos olhos do seu irmão.

Se eu fôra rei, não quizera Roubar-te á senda florida, Onde corre doce a vida No matutino arrebol; Gozas o sopro das brisas E o leve aroma das flores, E as nuvens, que mudão cores No nascer, no pôr do sol.

Gozão disto as que repousão Em taboas de vis grabatos; Não quem vive entre os ornatos D’um throno d’ouro e marfim! No solio triste, sentada, Não viras um rosto amigo, Nem mais viveras comtigo, Fôras escrava--por fim!

Vive tu teu viver simples, Mimosa e gentil donzella, D’entre todas a mais bella, Flôr de candura e de amor! C’rôa melhor eu t’offreço, D’ouro não, mas de poesia, C’rôa que a fronte alumia Com a luz d’um resplendor!

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HARPEJOS.

Sweetest music!... SHAKSPEARE.

Da noite no remanso Minha alma se extasia, E praz-me a sós commigo Pensar na solidão; Deixar arrebatar-me De vaga phantasia, Deixar correr o pranto Do fundo coração.

Tudo é silencio harmonico E doce amenidade, E uma expansão suave Do mais fino sentir; Existo! e no passado Só tenho uma saudade, Desejos no presente, Receios no porvir!

Como licor que mana De cava, humida rocha, Que o sol nunca evapora, Nem limpa amiga mão; A dôr que dentro sinto Minha alma desabrocha; Que livre o pranto corre Da noite na solidão!

Attendo! ao longe escuto D’uma harpa os sons queixosos, Attendo! e logo sinto Minha alma se alegrar! Attendo! são suspiros De seres vaporosos, Que mil imagens vagas Me fazem recordar!

Tu que eras minha vida, Que foste os meus amores, Imagem grata e bella D’um tempo mais feliz, Que tens, que assim chorosa Suspiras entre as flores? Teu sou,--do juramento Me lembro, que te fiz.

Te vejo, te procuro, Teus mudos passos sigo, Em quanto, leve sombra, Fugindo vais de mi’! Unido ás notas da harpa Percebo um som amigo, Que me recorda o timbre Da voz que já te ouvi!

Na brisa que soluça, Na fonte que murmura, Nas folhas que se movem Da noite á viração, Ainda escuto os echos D’uma fugaz ventura, Que assim me deixou triste Em mesta solidão.

Prosegue, harpa ditosa, Nas doces harmonias, Que da minha alma sabes A magoa adormecer; Prosegue! e a doce imagem Dos meus primeiros dias Veja eu ante os meus olhos De novo apparecer!

Ai, forão como a virgem Que em sitio solitario Acaso um dia vimos Sósinha a divagar! Memoria bemfazeja, Que o gelido sudario, Que a morte em nós estende Só vale desbotar.

* * * * *

TRISTE DO TROVADOR.

E ella era esbelta e bem proporcionada; sua alma era como a sensitiva, e suas palavras erão doces e tinhão um perfume, que se não pode comparar. (_Duas noites de luar._)

E ella era como a rosa matutina Formosa e bella, Como a estrella que á noite ao mar se inclina, Saudosa era ella.

Seus olhos negros, vivos e rasgados, Eram delicias vel-os; E co’ a alvura do rosto contrastava A côr dos seus cabellos.

Quando alguem lhe fallava, então fallava Com voz macia, Que triste dentro d’alma nos filtrava Doce alegria.

E o seu timbre de voz movia as fibras Do coração, Como sons que a mudez da noite quebrão Na solidão.

Seu mais leve sentir patenteava No rosto ameno; Nuvemzinha da tarde, que se encherga Em céo sereno.

Topou-a acaso pensativa, errante, O trovador: «Feliz, disse elle, quem gozára os mimos Do seu amor!»

E ella deu-lhe do seio uma saudade Murcha, e no em tanto bella; E elle um culto votou, scismando extremos, Á pallida donzella.

Como fosse, porêm, breve a sua vida Como uma flôr, Em breves dias era mudo e triste O trovador.

* * * * *

Se alguma vez cantava,--então dizia Ao seu anjo do céo, que lá morava, Que de ter junto delle só pedia A vida sua, que tão erma estava.

* * * * *

VELHICE E MOCIDADE.

Eu levo á sepultura, uns após outros, A donzella gentil, o velho enfermo E o mancebo que folga descansado Á sombra da ventura. ...

«Minha filha, mais depressa, Mais depressa um pouco andemos, E da aurora que desponta Saudavel frescor gozemos!

«Senta-me em baixo do chorão, que dobra A verde rama sobre a campa núa De um ser de peito bom, de rosto bello, Que foi minha mulher, que foi mãi tua!

«O sol, nascendo apenas, vem primeiro Seus raios nessa campa dardejar, E á cançada velhice é bem fagueiro Esses restos da vida desfructar.»

* * * * *

Um cego e triste velho que tremia Á força dos invernos que passarão, Á filha nova e bella, assim dizia, Á filha que os amores cubiçarão.

E tinha o velho pae nos hombros della A mão crestada e morta e já rugosa, E ella ao pae, sollicita, extremosa, Guiava como um anjo e alva e bella.

* * * * *

«Nem sempre o que ora vês teu pae tem sido, Oh filha da minha alma, oh meu thesouro, Tambem um tempo foi que entretecido Tive o fio vital de seda e d’oiro!

«Tambem meus olhos se expraiarão longe, Pela vasta extensão destas campinas; Tambem segui a tortuosa veia Desta linda corrente que se perde Além, por entre penhas; E a esmeraldina côr, de que se arreia A relva destes prados, destas brenhas, Meus olhos juvenis encheu de gozo, Que agora os olhos teus tambem recreia!

«E que prazer tão grande! o sol nascia N’um mar de luz brilhante! Levantava-se mais, brilhava, ardia, No prado verdejante, Na fonte e na devesa; E o mundo e a natureza De puro amor enchia! Destoucavão-se os montes de neblina, Que meiga e adelgaçada Pendia, como um véo de gaza fina Da celeste morada, Quando n’um mar formoso o sol nascia!

«O mundo era então luz--hoje é só trevas! O céo de puro azul via tingido, Via a terra de cores adornada, E na immensa extensão d’agua salgada Via a esteira de luz do sol luzido!

«Breve as horas passei de ser ditoso Aqui, neste lugar, ledo escutando Tão amavel tua mãi, tão carinhosa, Qu’instantes curtos me teceu fallando!

«Hoje existo somente porque existes, Desfructo outro viver que não vivia, Quando escutão-te a voz os meus ouvidos, Como sons de celeste melodia.

«Oh falla, falla sempre.--É doce ao velho Som d’argentina voz, que as fibras todas Do semivivo coração abalão, Como d’uma harpa antiga As deslembradas cordas, Que á mão experta e amiga Do trovador, n’um canto alegre estalão.

«É doce ao solitario a voz de um anjo Na sua solidão; E ao velho pai a voz da casta filha, Que falla ao coração.

«É doce, qual perfume matutino, Que a flôr exhala, Que pelo peito da mulher amante S’interna e cala;

«É doce, como a luz que se derrama Pela face do mar, Quando brando luar, da noite amigo, Vem nelle se espelhar.

«Falla, bem sei que amarga é tua vida, Que amargo é teu penar; No silencio da noite tenho ouvido Teu peito a soluçar!

«Oh falla, tu bem vês que se a tormenta Tetrica voa, Ao ninho de seus paes o passarinho Rapido voa.»

* * * * *

--Oh meu pai, como eu quizera Meus pezares te esconder; Mas tua filha, coitada, Em breve tem de morrer!

--Sinto que alento me falta, Que longe foge de mim; Sinto minha alma rasgar-se Por te deixar só assim; Meu bom pai, como está breve Da tua filha o triste fim!

--Alta noite, ouvi em sonhos, A chamar-me um serafim; Tinha alegria no rosto, Mas chorava sobre mim; Meu bom pai, como está breve Da tua filha o triste fim!

--E tu cá ficas sosinho, E tu cá ficas sem mim! Oh que n’alma só me peza Por te deixar só assim; Meu bom pai, que é já chegado Da tua filha o triste fim!--

E o velho, baixo fallando, Tristemente assim dizia: «Já fui feliz, já fui novo, Já fui cheio de alegria!

«Eu tive paes extremosos, Irmãos que m’idolatrarão, Eu tive castos amores, Que antes de mim se acabarão!

«Eu tive tantos no mundo Quantos se póde chorar; Perdi todos, tudo; ai, triste, Só eu não pude acabar!

«Ao sopro da desventura Só eu me não abalei, Que a todos--novos e velhos-- Á campa todos levei!

«Minha filha me restava! Eu já fantasma impotente, Sobre os torrões tropeçava Da cova aberta recente!

«Anjo de amor e bondade, Porque me deixaste assim! Tu morta, e na sepultura Que eu tinha aberto pr’a mim!

«Deos, Senhor, quanto foi longo O vaso em que fel traguei, Findo o julguei; restão fezes, As fezes esgotarei.»

* * * * *

E sobre a rosea face, ora amarella, A aurora sempre bella radiava, E o pai, ancião, que a dôr rasgava, Cingia ao corpo seu o corpo della.

Nem pranto nos seus olhos borbulhava, E nem nos labios seus a dôr gemia, E sua alma, qual vaso em calmaria, Entre vida e morrer n’um ponto estava.

O beijo paternal, por fim, lhe estampa Na filha, que prazeres só lhe dera; E filha e pensamento--alguem dissera Ter juntos sepultado a mesma campa!

Nos céos não tens, Senhor, bastantes anjos, Por que os venhas assim buscar á terra? Brilhe a virtude, quando reina o crime, O crime impune e vil, que ás tontas erra.

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AS FLORES.

Ao Snr. JOSÉ PRAXEDES PEREIRA PACHECO, incançavel Botanico-florista, a quem devemos a introducção no paiz das mais bellas e curiosas especies de flores, que jámais aqui se virão.

Simples tributs du coeur, vos dons sont chaque jour Offerts par l’amitié, hasardés par l’amour. _Les Jardins._--DELILLE.

Tu que com tanto afan, com tanto custo, Estudando, inquirindo, e meditando, De estranhos climas transplantaste aos nossos As flores varias no matiz, nas formas, Modesto horticultor, dos teos desvelos Este só galardão recebe ao menos! Recebe-o: tambem eu gosto das flores, Folgo tambem de as ver n’um campo estreito De estranhas terras revelando os mimos E as galas d’outros céos:--aqui perfumão Nossos jardins de peregrina essencia! Melhorão-se talvez, que as não contristão Raios tibios do sol, nem turvos ares, Nem do inverno o furor lhes cresta o brilho.

Meigas flores gentis, quem vos não ama? Em vós inspirações o bardo encontra, Devaneios de amor a ingenua virgem, A abelha o mel, a humanidade encantos, Odores, nutrição, balsamo e cores. Meigas flores gentis, quem vos não ama?

Linda virgem no albor da vida incerta, No meio das vivaces companheiras, Em forma de capella as vai tecendo Para cingir com ella a fronte e a coma, Que os annos no passar não enrugarão, Nem as cans da velhice embranquecerão. Resplendor d’innocencia, onde casados A açucena, e os jasmins aos brancos lirios Um só perfume grato aos céos envia; Meiga c’rôa d’angelica pureza, Ornamento da vida--que se rompe Ou quando os membros delicados vestem O grosseiro burel da penitencia, Ou do noivado as galas!--lá se acaba, Por fim aos pés do thalamo ou n’um tumulo! Meigas flores gentis, quem vos não ama?

Quantas vezes, nas horas da ventura, A fallaz sensação d’um peito ingrato Não julgamos eterna, immensa, infinda!.... Alli nossos anhelos se concentrão, Nossa vida alli jaz:--cifra-se inteira N’um brando volver d’olhos, n’um accento, Que a ternura repassa, inspira, exhala! Um gemido, um suspiro, um ai, um gesto, Valem thronos, e mais,--o mundo e a vida! Mas esvae-se a paixão!... que fica? Apenas Um saudoso lembrar d’éras passadas, De scismadas venturas, não fruidas, Ás vezes uma flor!...--Flor dos amores, Quando extincta a paixão, porque inda existes? Espinhos de uma rosa emmurchecida, Porque sobreviveis ás folhas d’ella? Mais firme, mais leal, mais vivedoura Que a voluvel paixão, a flôr mimosa Talvez irrita a dôr, talvez a acalma. Emblemas do prazer, do soffrimento, Mensageiras do amor ou da saudade, Meigas flores gentis, quem vos não ama?

Geme a fresca odalisca entre ferrolhos, Importuna presença a voz lhe tolhe Do não piedoso eunucho;--e estatua negra Respeitosa e cruel lhe espreita os gestos: Chora a guzla mourisca ao som dos ferros, Lastima-se a cadeia ao som dos passos, E a humana flôr definha entre as mais flores; Mil ouvidos a voz lhe escutão sempre, E cingidos de ferro, crús soldados D’entorno ao mésto harem velão sanhudos! Ruge, fero soldão! treplíca os bronzes Da masmorra cruel:--a planta humilde, E a escrava que recatas tão cioso, Zombão dos feros teus! Muda e singela, Ao través das prisões, dos teus soldados, Passa a modesta flôr! Vai n’outro peito, Mysterios não sabidos relatando, Contar do infausto amor as provas duras, Os martyrios da ausencia, as tristes lagrimas Que chora--ao reiterar protestos novos! Bem-fadadas do sol, do amor bemquistas, O orvalho as cria, as lagrimas as murchão: Meigas flores gentis, quem vos não ama?

Quem tem o coração a amor propenso, Quem sente a interna voz que dentro falla, Delicado sentir d’um brando peito, Alma virgem que os homens não mancharão; Quem soffre ou tem prazer, ou ama, ou espera E vive e sente a vida, esse vos ama: Encantos da existencia em quanto vivos, Do revés, do triumpho companheiras, No berço, no docel, no mudo esquife, Sempre amigas eis vos encontramos. Meigas flores gentis, quem vos não ama?

Modesto horticultor, dos teus desvelos Este só galardão recebe ao menos; Paga-te sequer de ver mais bella, Mais vaidosa, melhor, do sol na terra, A flôr modesta, producção sublime De estranhos climas transplantada ao nosso.

Rio, 29 de janeiro de 1849.

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O QUE MAIS DÓE NA VIDA.

I cannot but remember such things were, And were most dear to me. SHAKESPEARE.

O que mais dóe na vida não é ver-se Mal pago um beneficio, Nem ouvir dura voz dos que nos devem Agradecidos votos, Nem ter as mãos mordidas pelo ingrato, Que as devera beijar!

Não! o que mais dóe não é do mundo A sangrenta calumnia, Nem ver como s’infama a acção mais nobre, Os motivos mais justos, Nem como se deslustra o melhor feito, A mais alta façanha!

Não! o que mais dóe não é sentir-se As mãos dum ente amado Nos espasmos da morte resfriadas, E os olhos que se turvão, E os membros que entorpecem pouco e pouco, E o rosto que descora!

Não! não é o ouvir d’aquelles labios, Doces, tristes, compassivas, Sobre o funereo leito soluçadas As palavras amigas, Que tanto custa ouvir, que lembrão tanto, Que não s’esquecem nunca!

Não! não são as queixas amargadas No triumphar da morte; Que, se se apaga a luz da vida escassa, Mais viva a luz rutila; Luz da fé que não morre, luz que espanca As trevas do sepulchro.

O que dóe, mas de dôr que não tem cura, O que afflige, o que mata, Mas de afflicção cruel, de morte amara, É morrermos em vida No peito da mulher que idolatramos, No coração do amigo!

Amizade e amor!--laço de flores, Que prende um breve instante O ligeiro batel á curva margem De terra hospitaleira; Com tanto amor se ennastra, e tão depressa, E tão facil se rompe!

Á mais ligeira ondulação dos mares, Ao mais ligeiro sopro Da viração--destranção-se as grinaldas; O baixel se afasta, Veleja, foge, até que em plaga estranha Naufragado soçobre!

Talvez permitte Deos que tão depressa Estes laços se rompão, Por que nos peze o mundo, e os seus enganos Mais sem custo deixemos: Sem custo assim a brisa arrasta a planta, Que jaz solta na terra!

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FLÔR DE BELLEZA.

Não vejas!... se a vires...--Eu sei porque o digo: Tu morres de amor. MACEDO.

Se fosse rainha aquella Em cuja fronte singela, Como em tela delicada Luz da belleza o condão, Fôras rainha adorada; Mas rainha seductora, Que exige preitos n’uma hora E n’outra hora adoração.

Fôras rainha! e ditosos Teus vassallos extremosos, Que a renderem-te seus preitos Beijárão-te a nivea mão. Pedes amor e respeitos! Quem não ama a formosura, Quem não respeita a candura D’um sincero coração?

Mas antes que nos curvemos Ante a belleza que vemos, Tua angelica bondade Conquista a nossa affeição: Não es mulher, mas deidade, Uma fada seductora, Que nos pede amor agora, Logo mais--adoração.

Quando pois, cheia de graças, Entre a turba alegre passas, Entre a turba sequiosa De beijar-te a nivea mão; Dizem uns: quanto é formosa! Eu porêm, sei que es mais bella Nos dotes da alma singela, Nas prendas do coração.

Passa rapida a belleza, Como flôr que a natureza Cria em jardim melindroso, Ou n’um agreste torrão: Passa como um som queixoso, Como felizes instantes, Como as juras dos amantes, Como extremos da paixão.

Mas d’alma a vida é mais fina, Exhala essencia divina, Que avigora e fortifica O dorido coração; Morto o corpo, ainda fica, Como em rosal arrancado, Leve aroma derramado, Dos espaços na extensão.

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O ANJO DA HARMONIA.

Respira tanta doçura O teu canto, que por certo Abranda a penha mais dura. BOCAGE.

Revela tanto amor, tão branda sôa A tua doce voz canora e pura, Que o homem de a escutar sente no peito Infiltrar-se-lhe um raio de ventura.

Solta-se a alma das prisões terrenas, O mundo, a vida, o soffrimento esquece, E embalada n’um ether deleitoso, Como Alcyon nas aguas, adormece!

Da noite a placidez é menos grata A quem sósinho e taciturno vela, Quando, perdido n’outros mundos, nota A meiga luz de fugitiva estrella.

Sensações menos doces, menos vagas, Desperta o barco leve, que se avista Ao pôr do sol, na extrema do horisonte, Quando n’um mar de luz nos foge á vista.

Das aves o cantar é menos fresco, É menos triste a fonte que serpeia, Menos queixoso o mar, que enternecido, Beija na praia a scintillante areia.

Vagas na terra, suspiroso archanjo, Derramando torrentes de harmonia Sobre as chagas mortaes,--balsamo sancto Que as mais profundas magoas alivia.

Vagas na terra, merencoria e bella; Mas quando deste mundo ao céo tornares, Juntarás teus ternissimos accentos Aos puros sons dos mysticos altares.

E os anjos na mansão das harmonias, Encostados ás harpas diamantinas, Folgarão de te ouvir celestes carmes Deduzidos em notas peregrinas.

E dirão:--Nunca ás plagas do infinito Subio mais terna voz, mais fresca e pura! Se o corpo é de mulher, sua alma é vaso, Onde o incenso de Deos se afina e apura.

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A HISTORIA.

The flow and ebb of each recurring age. BYRON.