Cantos

Part 16

Chapter 163,639 wordsPublic domain

«Vem meu amigo, dizia A bella fada engraçada, Pulsando a harpa dourada: --Sou boa, não faço mal, Vem ver meus bellos palacios, Meus dominios dilatados, Meus thesouros encantados No meu reino de crystal.

«Vem, te chamo: vê a limpha Como é bella e crystallina; Vê esta areia tão fina, Que mais que a neve seduz! Vem, verás como aqui dentro Brincão mil leves amores, Como em listas multicores Do sol se desfaz a luz.

«Se não achas borboletas Nem as vagas mariposas, Que brincão por entre as rosas Do teu ameno jardim; Tens mil peixinhos brilhantes, Mais luzentes e mais bellos Que o oiro dos meus cabellos, Que a nitidez do setim.»

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Em tanto o menino se curva e se inclina Por ver de mais perto a donosa visão; E a mãe longe delle, dizia: meu filho, Não oiças, não vejas, que é má tentação.

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«Vem, meu amigo, tornava A bella fada engraçada, Vem ver a minha morada, O meu reino de crystal: Não se sente a tempestade Na minha espaçosa gruta, Nem voz do trovão se escuta, Nem roncos do vendaval.

«Aqui, ao findar do dia, Tudo rapido se accende, E o meu palacio resplende De vivo, ethereo clarão. Mil figuras apparecem, Mil donzellas encantadas Com angelicas toadas De ameigar o coração.

«Quando passo, as brandas aguas Por me ver passar se afastão, E mil estrellas se engastão Nas paredes do crystal. Surgem luzes multicores, Como desses perilampos, Que tu vês andar nos campos, Sem comtudo fazer mal.

«Quando passo, mil sereias, Deixando as grutas limosas, Formão ledas, pressurosas O meu sequito real: Vem! dar-te-hei meus palacios, Meus dominios dilatados, Meus thesouros encantados E o meu reino de crystal.»

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Em tanto o menino se curva e se inclina Para a visão; E a mãe lhe dizia: Não vejas, meu filho, Que é tentação.

E o bello menino, dizendo comsigo:-- Que bem fiz eu! Por ver o thesouro gentil, engraçado, Que já é seu:

Atira-se ás aguas: n’um grito medonho A mãe lastimavel--Meu filho!--bradou: Respondem-lhe os echos; porêm voz humana Aos gritos da triste não torna:--aqui estou!

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POESIAS DIVERSAS.

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NENIA

Á MORTE SENTIDISSIMA DO SERENISSIMO PRINCIPE IMPERIAL O SENHOR D. PEDRO.

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Á SUA MAGESTADE O IMPERADOR.

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I.

Morreste, como a folha verde e linda, Que não vio murcho o esmeraldino encanto; Bem como um ai que melindroso finda, Em quanto as faces não roreja o pranto!

Bem como a flôr inda em botão cortada, Em quanto aromas recendia pura; Bem como a onda quando mal formada, Nos brancos frisos do areal murmura!

Bem como a aurora timida que morre, Em quanto os céos de rosicler matisa; Bem como o sopro de ligeira brisa, Que entre os olores da manhã discorre!

Mimosa espr’ança do Brasil, batendo Ás ferreas portas da existencia, viste O mundo afflicto e a humanidade triste Seu negro fado e sua dôr soffrendo!

Cheio de compaixão atraz voltaste Do horrifico espectaculo, tapando Com as azas do anjo o rosto brando, E no seio do Eterno te asylaste.

Morreste! como aurora sem poente, Como flôr, que perfume inda exhalava, Como o sopro da brisa recendente, Como a onda, que apenas se formava!

Morreste! como a folha verde e bella N’um tronco forte a despontar louçã, Não arrancada á sanha da procella, Mas leve solta aos beijos da manhã.

Morreste! como lampada brilhante, Inda virgem, sem dar mystica luz; Ou turib’lo d’incenso crepitante, Esquecido nos braços de uma cruz.

Morreste! e os anjos da eternal morada Levárão entre palmas e capellas Tua alma, como uma harpa não tocada, Áquelle, cujo throno é sobre estrellas.

Morreste! como aurora sem poente, Como flôr que perfume inda exhalava, Como o sopro da brisa recendente, Como a onda que apenas se formava.

Nenhum bulcão toldou a aurora maga, Em quanto no horisonte apavonou-se, A brisa em vendaval não transtornou-se, A folha em cinza, nem a onda em vaga.

II.

Não ouviste, ó bello anginho, Na hora do passamento Para abrandar teu tormento Do berço teu ao redor, Dos teus irmãos a phalange Com opas de luz brilhante, Nas harpas de diamante Cantar hosanna ao Senhor?

Teu espirito innocente, Tocado da luz divina, Que a fraca mente illumina Dos resplendores de Deos, Não antevio outros gozos, Não correu nos frouxos ares, Não foi roçar nos palmares, Nas rosas puras dos céos?

Viste-os, sim; porêm voltando Outra vez á vida escassa, Tua alma triste esvoaça Sobre os teus restos mortaes; E entre os rostos que divisas, Que a tua vida pranteião, Entre quantos te rodeião, Tu não enchergas teus paes!

Corres então a trazer-lhes Nas meigas azas brilhantes Dos teus ultimos instantes O teu alento final; E em redor delles choraste De não ter deixado a vida, Por extrema despedida, N’um amplexo paternal!

Vai, ó anjo, sobe, vôa, Deixa a terra ingrata e rude; Vai onde móra a virtude, E premio a innocencia tem; Mas nos divinos prazeres, Mas no celeste cortejo, Terás o materno beijo, Não serás orphão tambem?

III.

Desprega tuas azas de cores suaves, Adeja no espaço, procura o teu Deos: O aroma das flores, o canto das aves, O que ha de mais puro se entranha nos céos.

Oh! foge da terra: bem como a neblina Que em rolos de neve, que espuma figura, Mais frouxa, mais leve, na luz matutina, Qual nuvem d’incenso, do céo se pendura.

Mas quando a balança dos nossos destinos, Na grávida concha dos nossos peccados Sumir-se no abysmo--dos raios divinos Os golpes apára nos contos dourados.

Não caia do Eterno a justa inclemencia No povo, que soube teu berço guardar; Ampara-o nas azas da tua innocencia, Que os prantos de um anjo nos podem salvar.

Desdobra tuas azas de cores suaves, Adeja no espaço, procura o teu Deos: O aroma das flores, e o canto das aves E o que ha de mais puro se perde nos céos.

IV.

SENHOR, se na afflicção que te consome, Na dôr immensa, que teu peito acanha, Póde erguer-se do bardo a voz sentida E aos teus soluços misturar seu pranto; Se a dôr do pae não absorve inteiro O peito augusto do Monarcha excelso, Enxuga as tristes lagrimas que vertes! Melhor, talvez, que o throno é ver chorando Um povo inteiro em torno de um sepulchro, Um vacuo berço de seu pranto enchendo! Á sorte pois te curva, e á lei d’aquelle (Involta em seus reconditos designios) A quem aprouve nivelar, cortando Co’o mesmo golpe as esperanças de ambos, --A dôr de um pae e as afflicções de um povo!--

JANEIRO 10 de 1850.

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OLHOS VERDES.

Elles verdes são: E tem por usança, Na côr esperança, E nas obras não. CAM., _Rim._

São uns olhos verdes, verdes, Uns olhos de verde-mar, Quando o tempo vai bonança; Uns olhos côr de esperança, Uns olhos por que morri; Que ai de mi! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi!

Como duas esmeraldas, Iguaes na forma e na côr, Tem luz mais branda e mais forte, Diz uma--vida, outra--morte; Uma--loucura, outra--amor. Mas ai de mi! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi!

São verdes da côr do prado, Exprimem qualquer paixão, Tão facilmente se inflammão, Tão meigamente derramão Fogo e luz do coração; Mas ai de mi! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi!

São uns olhos verdes, verdes, Que podem tambem brilhar; Não são de um verde embaçado, Mas verdes da côr do prado, Mas verdes da côr do mar. Mas ai de mi! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi!

Como se lê n’um espelho Pude lêr nos olhos seus! Os olhos mostrão a alma, Que as ondas postas em calma Tambem reflectem os céos; Mas ai de mi! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi!

Dizei vós, ó meos amigos, Se vos perguntão por mi, Que eu vivo só da lembrança De uns olhos côr de esperança, De uns olhos verdes que vi! Que ai de mi! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi!

Dizei vós: Triste do bardo! Deixou-se de amor finar! Vio uns olhos verdes, verdes, Uns olhos da côr do mar: Erão verdes sem espr’ança, Davão amor sem amar! Dizei-o vós, meus amigos, Que ai de mi! Não pertenço mais a vida Depois que os vi!

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CUMPRIMENTO DE UM VOTO

Feito ás Sras. de Itapacorá, que abrilhantarão a festa do Illm. Sr. ANTONIO JOSÉ RODRIGUES TORRES.

PORTO DAS CAIXAS--25 de agosto 1850.

Se ao misero cantor vos praz mandar-lhe Cantar voltas de amor, á graça tanta Será mudo o cantor, nem ha de aos echos A cythara incivil fallar de amores? Mandaes, que sois, senhoras, minhas musas; Quando a senhora manda, o escravo cumpre E ás supplicas da musa o vate cede! Afinada por vós a lyra humilde, Já desafeita aos sons que o peito abrandão, Á nova esphera se remonta agora. O frescor juvenil dos vossos annos, E as, que vos ornão, deleitosas graças, Hão de ameigar-lhe as cordas, perfumal-as, Dictar-lhe os faceis, inspirados carmes.

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A estrella, que fulge no céo anilado, Com placido brilho de noite s’inflamma; Na fonte e no prado Reflexos luzentes esparge e derrama.

Nos ramos cobertos de ameno rocio As aves descantão á luz da alvorada, E a meiga toada Repetem aos echos do bosque sombrio.

Na gleba virente, do sol bafejada, Recende perfumes a flôr matutina, Que á luz da alvorada Ao sopro da brisa de leve s’inclina.

A flôr que trescala perfumes suaves, A estrella que brilha no céo anilado, E o canto das aves, Que sôa no bosque virente e copado;

Se cantão, perfumão, despedem fulgores, É tal o seu fado:--vós sois qual são ellas, Sois como as estrellas, Na graça e no canto, sois aves, sois flôres.

Como ellas, pagai-vos de ver quão fugaces Encurtão-se as horas de nosso viver, De ver como as faces, Que tendes em torno, resumbrão prazer.

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Estes versos na mente susurravão Do vate, cuja lyra merencoria Foi por vós de festões engrinaldada; Por vós, cujo sorriso mavioso Melhor perfume exhala, do que as notas Concertadas com arte; dai um riso Dos vossos, um volver dos brandos olhos, Aos alegres convivas; e um reflexo Do vosso meigo olhar e brando riso Venha morrer na lyra do poeta, Como do astro-rei, quando no occaso Doura no campo as folhas mais humildes.

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LYRA QUEBRADA.

Ah! ya agostada Siento mi juventud, mi faz marchita, Y la profunda pena que me agita Ruga mi frente de dolor nublada. HEREDIA.

Pede cantos aos ledos passarinhos, Pede clarão ao sol, perfume ás flores, Ás brisas suspirar, murmurio aos ventos, Doces querelas ao correr das fontes;

E o sol, a ave, a flôr, a brisa, os ventos E as fontes que murmurão docemente, Na festa da tua alma hão de seguir-te, Como um som pelos echos repetido.

Mas não peças á lyra abandonada Um alegre cantar,--já murchas pendem As grinaldas gentis, de que a toucárão Donzeis louçãos, enamoradas virgens.

Hoje mal partem roucos sons dos nervos, Que amargo pranto destendeu sem custo; Quem ha que se não dóe de ouvir cantados Uns versos de prazer entre soluços?

Não peças pois um hymno ao triste bardo! Verde ramo d’uma arvore gigante O raio no passar queimou-lhe o viço, Deixando-o por escarneo entre verdores.

Uma febre, um ardor nunca apagado, Um querer sem motivo, um tedio á vida Sem motivo tambem,--caprichos loucos, Anhelo d’outro mundo e d’outras coisas;

Desejar coisas vãs, viver de sonhos, Correr após um bem logo esquecido, Sentir amor e só topar frieza, Scismar venturas e encontrar só dores;

Fizerão-me o que vês: não canto, soffro! Lyra quebrada, coração sem forças De poetico manto os vou cobrindo, Por disfarçar desta arte o mal que passo.

Mas se inda tens prazer á luz da aurora, Se te ameiga fitar longos instantes, Sentada á beira mar, na paz de um ermo, Uma flôr, uma estrella, os céos e as nuvens;

Pede cantos aos ledos passarinhos, Á brisa, ao vento, á fonte que murmura; Mas não peças canções ao triste bardo, A quem té para um ai já falta o alento.

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A PASTORA.

Forão as trevas fugindo, E luzindo Nasce o sol sobre o horisonte; Quando a pastora formosa E mimosa Já caminho vai do monte!

A relva tenra e molhada, Orvalhada, Que de noite despontou, Se levanta melindrosa, Mais viçosa Depois que o sol a afagou!

Nos ramos cantão, trinando E saltando, As aves seu casto amor; Aqui, alli, scintillante E brilhante Desabrocha a linda flôr.

E a pastorinha engraçada, Bem fadada, Na fresca manhã de abril, Vai cantando maviosa, E saudosa Pensando no seu redil.

Para as serras do Gerez Toca a rez, Toca a rez, gentil pastora; Lá te aguarda o bom pastor, Teu amor, Que te chama encantadora.

Vai, pastora, vai depressa, Já começa O sol no valle a brilhar; Vai, que as tuas companheiras, Galhofeiras, Lá ’stão com elle a folgar!

Pela aldeia entre os pastores Vão rumores De que tens uma rival, Nessa Alteia, a tua antiga, Doce amiga, Que te quer hoje tão mal!

Tu não sabes que os amores São traidores, Que o homem não sabe amar; E que diz: Esta é mais bella; Mas aquella É que me sabe agradar!

Tenho d’Alteia receios, Que tem meios De prender um coração; É viva, bella, engraçada, Festejada Nos cantares do serão.

Como a neve em seus lavores, Nos amores Que caprichosa não é! Zomba delle quando o topa, E o provoca De mil maneiras, á fé!

Té dizem--será mentira-- Que lhe atira Seus motetes muita vez; Dizem mais, que ha prendas dadas E trocadas:... Não sei; mas será talvez!

Triste de ti, se assim fôra, Ó pastora, Triste de ti sem amor! Foras alvo dos festejos, Dos motejos, E do canto mofador!

Cheia de pudico medo, Ao folguedo Do domingo festival, Não irias, ó formosa, Vergonhosa Dos olhos d’uma rival!

Para as serras do Gerez Toca a rez, Toca a rez, gentil pastora; Lá te aguarda o bom pastor, Teu amor, Que te chama encantadora!

GEREZ....

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A INFANCIA.

A M^{lle} J. PICOT.

I.

Bello raio do sol da existencia, Meninice fagueira e gentil, Doce riso de pura innocencia Sempre adorne teu rosto infantil.

Sempre tenhas, anginho innocente, Quem se apresse a teus passos guiar, E uma voz que o teu somno acalente, E um sorriso no teu acordar.

Enlevada nos sonhos jucundos, Voz etherea te venha fallar, E visão d’outros céos, d’outros mundos, Venha amiga tua alma encantar.

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Leda infancia gentil! e quem não te ama? Quem tão de pedra o coração não sente Aos teus encantos meigos mais tranquillo? Quem não sente memorias d’outras eras Travarem-lhe da mente, ao recordar-se Aquelle gozo puro e suavissimo De vida, que jámais não tem logrado? Recordações de um mundo adormecido Lá lhe estão dentro d’alma esvoaçando, Como harpejos de musica longinqua! E a mente nos seus quadros embebida, Por magica illusão enfeitiçada, Como outr’ora, talvez sómente veja Na terra--um chão de flôres estrellado, E nos céos--outro chão de flôres vivas!

II.

Afagada e bem vinda e querida, Travessuras scismando infantis, Nos caminhos floridos da vida Vai mimosa, imprudente e feliz!

É-lhe a vida continuo festejo, Sonhos d’oiro só sabe sonhar, Toda ella um afan, um desejo D’outros jogos contente brincar.

Puro riso o semblante lhe adorna, Logo pranto começa a verter, E depois outro riso lhe torna, E depois outro pranto a correr.

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Tão perto jaz a fonte da amargura Da fonte do prazer!--porêm tão doces Essas lagrimas são!--tão abundantes, Tão sem causa e sympathicas gotejão N’uma tez de carmim, n’um rosto bello! Quem a vê, que sorrindo as não enchuga? Mas não todo consumas o thesouro Unico e triste, que ao infeliz sobeja Nas horas do soffrer; no tempo amargo, No qual o rosto pallido se enruga, E os olhos seccos, aridos chammejão, Será talvez bem grato refrigerio Uma lagrima só, em que arrancada A força da afflicção dos seios d’alma. Mas tu, feliz, sorri, em quanto a vida, Como um rio entre flores, se deslisa Macio, puro e recendendo aromas.

III.

Bello raio do sol da existencia, Flôr da vida, mimosa e gentil, Fonte pura de meiga innocencia, Leve gozo da quadra infantil!

Quem fruir-te outra vez não deseja, Quando vê sobre a veiga formosa A menina travessa e ruidosa, Borboleta, que alegre doudeja?

A menina é uma flôr de poesia, Um composto de rosa e jasmim, Um sorriso que Deos alumia, Um amor de gentil serafim!

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Folga e ri no começo da existencia, Borboleta gentil! a flôr dos valles, Da noite á viração abrindo o calix, O puro orvalho da manhã te guarda; Inda perfumes dá, que te embriagão, Inda o sol quando aquece os vivos raios, Nas azas multicores scintillando, Com terno amor de pae, em torno esparge Pó subtil de rubins e de safiras. Folga e ri no começo da existencia, Humano serafim, que esse perfume São das azas do anjo, que s’impregnão Dos aromas do céo, quando atear-se, Roaz fogo de vida começando, Quanto havemos de Deos consome e apaga.

IV.

Porêm tu, afagada e querida, Com requebros donosos, gentis, Vai contente caminho da vida, Bello anginho, mimoso e feliz!

E do bardo a canção magoada, Quando a possas um dia escutar, Ha de ser como rota grinalda, Que perfumes deixou de exhalar!

E esta mão talvez seja sem vida, E este peito talvez sem calor, E memoria apagada e sumida, Talvez seja a do triste cantor!

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URGE O TEMPO.

Move incessante as azas incansaveis O tempo fugitivo; Atraz não volta! A. DE GUSMÃO.

Urge o tempo, os annos vão correndo, Mudança eterna os seres afadiga! O tronco, o arbusto, a folha, a flôr, o espinho, Quem vive, o que vegeta, vai tomando Aspectos novos, nova forma, em quanto Gyra no espaço e se equilibra a terra.

Tudo se muda, tudo se transforma; O espirito, porêm, como centelha, Que vai lavrando solapada e occulta, Até que emfim se torna incendio e chammas, Quando rompe os andrajos morredouros, Mais claro brilha, e aos céos comsigo arrasta Quanto sentio, quanto soffreu na terra.

Tudo se muda aqui! sómente o affecto, Que se gera e se nutre em almas grandes, Não acaba, nem muda; vai crescendo, Co’ o tempo avulta, mais augmenta em forças, E a propria morte o purifica e alinda. Simelha estatua erguida entre ruinas, Firme na base, intacta, inda mais bella Depois que o tempo a rodeou de estragos.

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SOBRE O TUMULO DE UM MENINO.

25 de Outubro de 1848.

O involucro de um anjo aqui descança, Alma do céo nascida entre amargores, Como flôr entre espinhos!--tu, que passas, Não perguntes quem foi.--Nuvem risonha, Que um instante correu no mar da vida; Romper da aurora que não teve occaso, Realidade no céo, na terra um sonho! Fresca rosa nas ondas da existencia, Levada á plaga eterna do infinito, Como off’renda de amor ao Deos que o rege; Não perguntes quem foi, não chores: passa.

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MENINA E MOÇA.

Ma bienvenue au jour me rit dans tous les yeux! CHENIER.

É leda a flôr que desponta Sobre o talo melindroso, E o arrebento viçoso Crescendo em floreo tapiz; É doce o romper da aurora, Doce a luz da madrugada, Doce o luzir da alvorada, Doce, mimoso e feliz!

É bella a virgem risonha Com seus musicos accentos, Com seus virgens pensamentos, Com seus mimos infantis; Como quanto enceta a vida, Que á luz sorri da existencia, Que tem na sua innocencia Da mocidade o verniz.

Vinga a flôr a pouco e pouco, Cada vez mais bem querida, Tem mais encantos, mais vida, Tem mais brilho, mais fulgor: De cada gota de orvalho Extrahe celeste perfume, E do sol no raio assume Cada vez mais viva côr.

Assim á virgem mimosa, Pouco e pouco, noite e dia, Mais viva flôr de poesia Do rosto lhe tinge a côr; E um anjo nos meigos sonhos, Do seu peito na dormencia Derrama o odor da innocencia, Um doce raio de amor!

Porque tudo, quando nasce, Seja a luz da madrugada, Seja o romper da alvorada, Seja a virgem, seja a flôr; Tem mais amor, tem mais vida, Como celeste feitura, Que sahe melindrosa e pura D’entre as mãos do creador.

28 de Julho.

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COMO EU TE AMO.

Como se ama o silencio, a luz, o aroma, O orvalho n’uma flôr, nos céos a estrella, No largo mar a sombra de uma vela, Que lá na extrema do horisonte assoma;

Como se ama o clarão da branca lua, Da noite na mudez os sons da flauta, As canções saudosissimas do nauta, Quando em molle vai-vem a náo fluctua;

Como se ama das aves o gemido, Da noite as sombras e do dia as cores, Um céo com luzes, um jardim com flores, Um canto quasi em lagrimas sumido;

Como se ama o crepusculo da aurora, A mansa viração que o bosque ondeia, O susurro da fonte que serpeia, Uma imagem risonha e seductora;

Como se ama o calor e a luz querida, A harmonia, o frescor, os sons, os céos, Silencio, e cores, e perfume, e vida, Os paes e a patria e a virtude e a Deos.

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Assim eu te amo, assim; mais do que podem Dizer-t’o os labios meus,--mais do que vale Cantar a voz do trovador cançada: O que é bello, o que é justo, sancto e grande Amo em ti.--Por tudo quanto soffro, Por quanto já soffri, por quanto ainda Me resta de soffrer, por tudo eu te amo. O que espero, cobiço, almejo, ou temo De ti, só de ti pende: oh! nunca saibas Com quanto amor eu te amo, e de que fonte Tão terna, quanto amarga o vou nutrindo! Esta occulta paixão, que mal suspeitas, Que não vês, não suppões, nem te eu revelo, Só pode no silencio achar consolo, Na dôr augmento, interprete nas lagrimas.

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De mim não saberás como te adoro; Não te direi jámais, Se te amo, e como, e a quanto extremo chega Esta paixão voraz!

Se andas, sou o echo dos teus passos; Da tua voz, se fallas; O murmurio saudoso que responde Ao suspiro que exhalas.