Part 14
Lá vão hindo Tejo acima, Olhos longos polo mar, Lá onde enchergão Lisboa Com fogueiras de espantar; Fogo accendido na terra Sóbe em centelhas ao ar!
D’aquelles fogos accesos Em roda os velhos estão, E as donzellas feiticeiras Com sorriso folgazão, Cantando coytas de amores, Quites de coytas então.
He a noite milagrosa Do Bautista milagroso, Té dos mouros da mourama Havido por glorioso: Folgão nobres e senhores, Folga o villão descuidoso.
Horas de noite folgada Não tardão, não têm vagar: A noite assi do Bautista Vai serena a escorregar, Como areia da ampulheta, Hum grão e outro a tombar!
Vai assi como o perfume Respirado d’uma frol, Que não vemos, mas sentimos; Que sentimos no arrebol Da manhã, que pola terra Se espalha em antes do sol!
Vai assi como o rocio De serena madrugada, Rorejado gota a gota De branca nuvem prenhada Sobre o calice musgoso De huma flor avelludada.
Vai assi, qual sóe prender-se, Em quem de amores não cura, Doce peçonha de amores: Donzella de vida pura, Quando ha temores de havel-o, He qu’elle já não tem cura.
* * * * *
Do Alcacer as lindas filhas, Já era nascida a aurora, Pera ver uma corrida Sahirão portas a fóra, E mais pera colher flores, Persuadidas da hora.
Logo sahidas no prado Forão, qual sohem de ser Mansas agoas d’hum regato Em chão sem leito a correr, Cada qual por seo caminho, Cada qual a seo prazer!
Desly pulando e cantando Vão nas matas de alecrim, Colhem a rosa corada E a branca flor do jasmim; Brincão brinquedos contentes, Folgão folguedos sem fim!
Oh! que festas! que alegrias! Que arruido vai no prado! Que bem cantado rimance, Que soláo tãobem cantado! Não têm as aves atito, Nem gorgeio mais brincado!
Oh! que vozes melindrosas, Que accentos encantadores N’aquelle prazer d’huma hora! As moças vão colher flores, E os moços que vão com ellas Vão lá por colher amores.
Eis nisto ... estranho arruido! Rouca trompa abala o ar; Logo assomão cavalleiros Com figuras de espantar: Allah nos valha, mofinas! Dizem moiras a chorar.
Allah! repetem n’os Mouros, Vendo o pendão portuguez; E do alfange recurvado Levão mão sem pavidez! Feios golpes se preparão, Outra folgança outra vez!
Retine o ferro no ferro, Talhão-se cotas e arnezes; O fino alfange mourisco Abre o elmo aos portuguezes; E a espada que bem degola, Bem multiplica os revezes.
Lá chega o alarma á Cidade! Lá vem mouros descançados Em descançados ginetes: Cavalleiros esforçados, Que por Christo Deos pelejão, Não têm de que ter cuidados.
Gonçalo Hermiguez, o cabo, Avante! brada, e não al: Brilha o valente nas lides, Que ally não acha rival, Aquelle cabo entre todos Sanhudo e forte e fatal.
Maneja tam facilmente O seo pesado montante, Que Alcides com sua clava, E nem o Titan gigante, Serra a serra sobrepondo Não tinha aquelle semblante.
Eilo vai per entre os mouros, Abre entre elles larga estrada; Quem fica em prisão de guerra, Quem lá foge em debandada! Ficão moiras prisioneiras, Mulheres--gente coitada!
Gonçalo Hermiguez em tanto Vio que longe lhe fugia Linda moira desmaiada, Que hum moço mouro cingia, Dando d’esporas ao bruto, Que mais que o vento corria!
Vai sobre elles sem tardança: Com quanto de arremeção Matal-o tambem podera, Certo o fizera, senão Temesse que a moira bella Morresse de sua mão.
Mais logo que foy com elle, D’hum golpe que despedio, Cerce o cortou pelo meio: Golpe assi nunca se vio! E a moira tomando em braços, Azinha daly fugio.
Passou terrivel com ella Por meio da gente fera; Quem n’o vira tam sanhudo, Leão raivoso dissera, Passando a travez dos homens Com a preza que fizera.
Eis nasce novo combate, Nova peleja maior! Muitos homens contra hum homem, Contra hum forte lutador; Mas hum só que a todos vence Em força, esforço, e valor!
Mal podia a mão sinistra Vibrar a sangrenta espada, Co’o pejo d’aquella moira Disputada e desmaiada, Cujo corpo em dois pendia, Como huma frexa quebrada.
Mas inda assi despedia Hum golpe e outro cruel: E de encontro á este, á aquelle Mandava o seo bom corsel, Que a turba multa alastrava Aos pés do nobre donzel.
Quando a ventura he incerta, Acerta em aventurar Quem a empreza disputada Tem desejos de acabar: Só elle demora em terra, Que os seos já são sobre o mar!
Torce as redeas ao ginete, Larga carreira arrepia, Larga estrada co’o montante Por entre os mouros se abria, Despedia muitos golpes, Muitos estragos fazia.
Chega a praia, os seos avista Mas os mouros perto vêm! Como isto vio, torce o rosto, Medonho como ninguem; Temem-se mouros de o verem; Párão, como elle, tambem!
Vão assi feros monteiros Traz d’hum urso mal sangrado, Que de repente a carreira Revira, e vólta agastado: Parão monteiros ao vel-o Raivoso e mal assombrada.
E a fera d’aquelle pasmo, Sabendo, em seo bem, valer-se, Vai a passos descançados Em densa mata esconder-se, Sem temor da montaria, Sem dos monteiros temer-se.
Tal o forte Traga-mouros Salta dentro do baixel; Na praia ficão pasmados Mouros, do feito novel, Tamanho, que nem sonhado Foy jamais por menestrel.
E os companheiros aos ventos Desfraldão velas e panos, Deixando as praias tingidas Em sangue por muitos annos; Quantos bastem, porque chorem Seo dezar os musulmanos.
Aos alegres companheiros Disse o guerreiro feliz: «Das prezas, que nos fizemos, Quero tam só a que eu fiz, A moira que por seo nome Fatima em Turco se diz!»
Então aquelle seo canto Principiou a compor: Cant’eu, por vergonha minha, Em bem que o saiba de cór, Digo que sal lhe não acho, Nem sei de coiza pior.
Mas era o soláo por certo Aos tempos accommodado, Que de outro cantar não acho Que fosse mais decantado, Nem Figueiral Figueredo, Nem o Ficade coitado.
E a moira já bautisada Pertenceo ao lidador, Duas vezes conquistada Polo donzel, seo senhor, Primeiro á força de espada, Depois á força de amor.
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Era assi n’aquelle tempo Coiza sabida e seguida, Remanso depois da gloria, Descanço depois da lida, E a fé que espera e milita Nos actos todos da vida!
Vede vós quamanho he o lucro, Que lucra a moira pagã, Desposando o cavalleiro, Tomada e feita christã; He vida e sangue de hum homem, Não de infieis barregã!
He como tropheo ganhado Em guerras de religião Por algum peito devoto, Que por sua devação Prometteo dependural-o Dentro de templo christão.
O canto aqui finaliso! Não devo d’hir por diante, Narrando casos da vida Per natureza inconstante, Trabalhos que sempre durão, Prazer que dura hum instante!
Foy o cabo dos amores A moça moira acabar E sobre hum covão aberto Hum homem posto a chorar, Hum homem de dó coberto, A carpir-se, a prantear!
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ULTIMOS CANTOS.
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AO MEU CARO E SAUDOSO AMIGO O DR. ALEXANDRE THEOPHILO DE CARVALHO LEAL OFFERENDO-LHE ESTE VOLUME DE POESIAS, quando pela primeira vez forão impressas.[4]
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Eis os meus ultimos cantos, o meu ultimo volume de poesias soltas, os ultimos harpejos de uma lyra, cujas cordas forão estalando, muitas aos balanços asperos da desventura, e outras, talvez a maior parte, com as dores de um espirito infermo,--ficticias, mas nem por isso menos agudas,--produzidas pela imaginação, como se a realidade já não fosse por si bastante penosa, ou que o espirito, affeito a certa dose de soffrimento, se sobresaltasse de sentir menos pezada a costumada carga.
No meio de rudes trabalhos, de occupações estereis, de cuidados pungentes,--inquieto do presente, incerto do futuro, derramando um olhar cheio de lagrimas e saudades sobre o meu passado--percorri este primeiro estadio da minha vida litteraria. Desejar e soffrer--eis toda a minha vida neste periodo; e estes desejos immensos, indiziveis, e nunca satisfeitos,--caprichosos como a imaginação,--vagos como o oceano,--e terriveis como a tempestade; e estes soffrimentos de todos os dias, de todos os instantes, obscuros, implacaveis, renascentes,--ligados a minha existencia, reconcentrados em minha alma, devorados commigo, umas vezes me deixarão sem força e sem coragem, e se reproduzirão em pallidos reflexos do que eu sentia, ou me forçarão a procurar um alivio, uma distracção no estudo, e a esquecer-me da realidade com as ficções do ideal.
Se as minhas pobres composições não forão inteiramente inuteis ao meu paiz; se algumas vezes tive o maior prazer que me foi dado sentir--a mais lisongeira recompensa a que poderia aspirar,--de as saber estimadas pelos homens da arte, daquelles, que segundo o poeta, porque a entendem, a estimão, e repetidas por aquella classe do povo, que só de cór as poderia ter aprendido, isto é, dos outros que a comprehendem, porque a sentem, porque a adivinhão--paguei bem caro esta momentanea celebridade com decepções profundas, com desenganos amargos, e com a lenta agonia de um martyrio ignorado.
Melhor que ninguem o sabes: podes a teu grado sondar os arcanos da minha consciencia, e não te será difficil descobrir o segredo das minhas tristes inspirações. Os meus primeiros, os meus ultimos cantos são teus: o que sou, o que for, a ti o devo,--a ti, ao teu nobre coração, que durante os melhores annos da juventude bateu constantemente ao meu lado,--a aragem bemfazeja da tua amizade sollicita e desvelada,--a tua voz que me animava e consolava,--a tua intelligencia que me vivificava--ao prodigio de duas indoles tão assimiladas, de duas almas tão irmãs, tão gemeas, que uma dellas rematava o pensamento apenas enunciado da outra, e aos sentimentos unisonos de dous corações, que mutuamente se fallavão, se interpretavão, se respondião sem o auxilio de palavras. Duplicada a minha existencia, não era muito que eu me sentisse com forças para abalançar-me a esta empreza; e agora que em parte a tenho concluido, é um dever de gratidão, um dever para que sou attrahido por todas as potencias da minha alma, escrever aqui o teu nome, como talvez seja o derradeiro que escreverei em minhas obras, o ultimo que os meus labios pronunciem, se nos paroxismos da morte se poder destacar inteiramente do meu coração.
Ser-me-hia doloroso não cumprir os teus desejos,--não satisfazer as esperanças, que em mim tinhas depositado,--não realisar a expectação da tua desinteressada amizade. Entrei na luta, e procurei disputar ao tempo uma fraca parcella da sua duração, não por amor do orgulho, nem por amor da gloria; mas para que, depois da morte de ambos, uma só que fosse das minhas producções sobrenadasse no olvido, e por mais uma geração estendesse a memoria tua e minha. Assim passa a onda sobre um navio que soçobra, e atira á praias desconhecidas os destroços de um mastro embrulhado nas vestes dos navegantes.
Entrei na luta, e por mais algum tempo continuarei nella, variando apenas o sentido dos meus cantos. A fé e o enthusiasmo, o oleo e o pabulo da lampada que alumia as composições do artista, vão-se-me esfriando dentro do peito; eu o conheço e o sinto; se pois ainda persisto nesta carreira, é por teu respeito: continuarei--até que, satisfeito dos meus esforços, me digas: basta!--Então, já t’o hei dito, voltarei gostoso á obscuridade, donde não devera ter sabido, e--como um soldado desconhecido--contarei os meus triumphos pelas minhas feridas, voltando á habitação singela, onde me correrão, não felizes, mas os primeiros dias da minha infancia.
Minha alma não está commigo, não anda entre os nevoeiros dos Orgãos, involta em neblina, balouçada em castellos de nuvens, nem rouquejando na voz do trovão. Lá está ella!--lá está a espreguiçar-se nas vagas de S. Marcos, a rumorejar nas folhas dos mangues, a susurrar nos leques das palmeiras: lá está ella nos sitios que os meus olhos sempre virão, nas paisagens que eu amo, onde se avista a palmeira esbelta, o cajazeiro coberto de cipós, e o páu d’arco coberto de flores amarellas. Alli sim,--alli está--desfeita em lagrimas nas folhas das bananeiras--desfeita em orvalho sobre as nossas ores, desfeita em harmonia sobre os nossos bosques, sobre os nossos rios, sobre os nossos mares, sobre tudo que eu amo, e que em bem veja eu em breve! Ahi, outra vez remoçado e vivificado de todos os annos que esperdicei, poderei enchugar os meus vestidos, voltar aos gozos de uma vida ignorada, e do meu lar tranquillo ver outros mais corajosos e mais felizes que eu affrontar as borrascas desencadeadas no oceano, que eu houver para sempre deixado atraz de mim.
Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1850.
A. GONÇALVES DIAS.
POESIAS AMERICANAS.
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I.
O GIGANTE DE PEDRA.
O guerriers! ne laissez pas ma dépouille au corbeau! Ensevelissez-moi parmi des monts sublimes, Afin que l’étranger cherche, en voyant leurs cimes, Quelle montagne est mon tombeau! V. HUGO. _Le Géant._
I.
Gigante orgulhoso, de fero semblante, N’um leito de pedra lá jaz a dormir! Em duro granito repousa o gigante, Que os raios sómente podérão fundir.
Dormido atalaia no serro empinado Devera cuidoso, sanhudo velar; O raio passando o deixou fulminado, E á aurora, que surge, não ha de acordar!
Co’os braços no peito cruzados nervosos, Mais alto que as nuvens, os céos a encarar, Seu corpo se estende por montes fragosos, Seus pés sobranceiros se elevão do mar!
De lavas ardentes seus membros fundidos Avultão immensos: só Deos poderá Rebelde lançal-o dos montes erguidos, Curvados ao peso, que sobre lhe ’stá.
E o céo, e as estrellas e os astros fulgentes São velas, são tochas, são vivos brandões, E o branco sudario são nevoas algentes, E o crepe, que o cobre, são negros bulcões.
Da noite, que surge, no manto fagueiro Quiz Deos que se erguesse, de junto a seos pés, A cruz sempre viva do sul no cruzeiro, Deitada nos braços do eterno Moysés.
Perfumão-no odores que as flores exhalão, Bafejão-no carmes de um hymno de amor Dos homens, dos brutos, das nuvens que estalão, Dos ventos que rugem, do mar em furor.
E lá na montanha, deitado dormido Campeia o gigante,--nem póde acordar! Cruzados os braços de ferro fundido, A fronte nas nuvens, os pés sobre o mar!
II.
Banha o sol os horisontes, Trepa os castellos dos céos, Aclara serras e fontes, Vigia os dominios seus: Já descahe p’ra o occidente, E em globo de fogo ardente Vai-se no mar esconder; E lá campeia o gigante, Sem destorcer o semblante, Immovel, mudo, a jazer!
Vem a noite após o dia, Vem o silencio, o frescor, E a brisa leve e macia, Que lhe suspira ao redor; E da noite entre os negrores, Das estrellas os fulgores Brilhão na face do mar: Brilha a lua scintillante, E sempre mudo o gigante, Immovel, sem acordar!
Depois outro sol desponta, E outra noite tambem, Outra lua que aos céos monta, Outro sol que após lhe vem: Após um dia outro dia, Noite após noite sombria, Após a luz o bulcão, E sempre o duro gigante, Immovel, mudo, constante Na calma e na cerração!
Corre o tempo fugidio, Vem das aguas a estação, Após ella o quente estio; E na calma do verão Crescem folhas, vingão flores, Entre galas e verdores Sazonão-se fructos mil; Cobrem-se os prados de relva, Murmura o vento na selva, Azulão-se os céos de anil!
Tornão prados a despir-se, Tornão flores a murchar, Tornão de novo a vestir-se, Tornão depois a seccar; E como gota filtrada De uma abobada escavada Sempre, incessante a cahir, Tombão as horas e os dias, Como phantasmas sombrias, Nos abysmos do porvir!
E no feretro de montes Inconcusso, immovel, fito, Escurece os horisontes O gigante de granito: Com soberba indifferença Sente extincta a antiga crença Dos Tamoyos, dos Pagés; Nem vê que duras desgraças, Que lutas de novas raças Se lhe atropellão aos pés!
III.
E lá na montanha deitado dormido Campeia o gigante!--nem póde acordar! Cruzados os braços de ferro fundido, A fronte nas nuvens, e os pés sobre o mar!....
IV.
Vio primeiro os incolas Robustos, das florestas, Batendo os arcos rigidos, Traçando homereas festas, Á luz dos fogos rutilos, Aos sons do murmuré! E em Guanabara esplendida As danças dos guerreiros, E o guáu cadente e vário Dos moços prazenteiros, E os cantos da victoria Tangidos no boré.
E das ygaras concavas A frota aparelhada, Vistosa e formosissima Cortando a undosa estrada, Sabendo, mas que frageis, Os ventos contrastar: E a caça leda e rapida Por serras, por devesas, E os cantos da janubia Junto ás lenhas accesas, Quanto o tapuya misero Seos feitos vai narrar!
E o germen da discordia Crescendo em duras brigas, Ceifando os brios rusticos Das tribus sempre amigas, --Tamoy a raça antigua, Feroz Tupinambá. La vai a gente improvida, Nação vencida, imbelle, Buscando as matas invias, Donde outra tribu a expelle; Jaz o pagé sem gloria, Sem gloria a maracá.
Depois em náos flammivomas Um troço hardido e forte, Cobrindo os campos humidos De fumo, e sangue, e morte, Traz dos reparos horridos D’altissimo pavez: E do sangrento pelago Em miseras ruinas Surgir galhardas, limpidas As portuguezas quinas, Murchos os lises candidos Do improvido gaulez!
V.
Mudarão-se os tempos e a face da terra, Cidades alastrão o antigo paúl; Mas inda o gigante, que dorme na serra, Se abraça ao immenso cruzeiro do sul.
Nas duras montanhas os membros gelados Talhados a golpes de ignoto buril, Descança, ó gigante, que encerras os fados, Que os terminos guardas do vasto Brasil.
Porêm se algum dia fortuna inconstante Poder-nos a crença e a patria acabar, Arroja-te ás ondas, ó duro gigante, Inunda estes montes, desloca este mar!
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II.
LEITO DE FOLHAS VERDES.
Porque tardas, Jatyr, que tanto a custo Á voz do meu amor moves teus passos? Da noite a viração, movendo as folhas, Já nos cimos do bosque rumoreja.
Eu sob a copa da mangueira altiva Nosso leito gentil cobri zeloza Com mimoso tapiz de folhas brandas, Onde o frouxo luar brinca entre flores.
Do tamarindo a flôr abriu-se, ha pouco, Já solta o bogarî mais doce aroma! Como prece de amor, como estas preces, No silencio da noite o bosque exhala.
Brilha a lua no céo, brilhão estrellas, Correm perfumes no correr da brisa, A cujo influxo magico respira-se Um quebranto de amor, melhor que a vida!
A flôr que desabrocha ao romper d’alva Um só gyro do sol, não mais, vegeta: Eu sou aquella flôr que espero ainda Doce raio do sol que me dê vida.
Sejão valles ou montes, lago ou terra, Onde quer que tu vas, ou dia ou noite, Vai seguindo após ti meu pensamento; Outro amor nunca tive: es meu, sou tua!
Meus olhos outros olhos nunca virão, Não sentirão meus labios outros labios, Nem outras mãos, Jatyr, que não as tuas A arasoya na cinta me apertarão.
Do tamarindo a flôr jaz entre-aberta, Já solta o bogarî mais doce aroma; Tambem meu coração, como estas flores, Melhor perfume ao pé da noite exhala!
Não me escutas, Jatyr! nem tardo acodes Á voz do meu amor, que em vão te chama! Tupan! lá rompe o sol! do leito inutil A brisa da manhã sacuda as folhas!
* * * * *
III.
Y-JUCA-PYRAMA.
I.
No meio das tabas de amenos verdores, Cercadas de troncos--cobertos de flores, Alteião-se os tectos d’altiva nação; São muitos seus filhos, nos animos fortes, Temiveis na guerra, que em densas cohortes Assombrão das matas a immensa extensão.
São rudos, severos, sedentos de gloria, Já prelios incitão, já cantão victoria, Já meigos attendem á voz do cantor: São todos Tymbiras, guerreiros, valentes! Seu nome lá vôa na bocca das gentes, Condão de prodigios, de gloria e terror!
As tribus visinhas, sem forças, sem brio, As armas quebrando, lançando-as ao rio, O incenso aspirárão dos seus maracás: Medrosos das guerras que os fortes accendem, Custosos tributos ignavos lá rendem, Aos duros guerreiros sugeitos na paz. No centro da taba se extende um terreiro, Onde ora se aduna o concilio guerreiro Da tribu senhora, das tribus servis: Os velhos sentados praticão d’outr’ora, E os moços inquietos, que a festa enamora, Derramão-se em torno d’um indio infeliz.
Quem é?--ninguem sabe: seu nome é ignoto, Sua tribu não diz:--de um povo remoto Descende por certo--d’um povo gentil; Assim lá na Grecia ao escravo insulano Tornavão distincto do vil musulmano As linhas correctas do nobre perfil.
Por casos de guerra cahiu prisioneiro Nas mãos dos Tymbiras:--no extenso terreiro Assola-se o tecto, que o teve em prisão; Convidão-se as tribus dos seus arredores, Cuidosos se incumbem do vaso das cores, Dos varios aprestos da honrosa funcção.
Acerva-se a lenha da vasta fogueira, Entesa-se a corda da embira ligeira, Adorna-se a maça com pennas gentis: Á custo, entre as vagas do povo da aldeia Caminha o Tymbira, que a turba rodeia, Garboso nas plumas de vario matiz.
Em tanto as mulheres com leda trigança, Affeitas ao rito da barbara usança, O indio já querem captivo acabar: A coma lhe cortão, os membros lhe tingem, Brilhante enduápe no corpo lhe cingem, Sombreia-lhe a fronte gentil kanitar.
II.
Em fundos vasos d’alvacenta argilla Ferve o cauim; Enchem-se as copas, o prazer começa, Reina o festim.
O prisioneiro, cuja morte anceião, Sentado está, O prisioneiro, que outro sol no occaso Jámais verá!
A dura corda, que lhe enlaça o collo, Mostra-lhe o fim Da vida escura, que será mais breve Do que o festim!
Com tudo os olhos d’ignobil pranto Seccos estão; Mudos os labios não descerrão queixas Do coração.
Mas um martyrio, que encobrir não póde, Em rugas faz A mentirosa placidez do rosto Na fronte audaz!
Que tens, guerreiro? Que temor te assalta No passo horrendo? Honra das tabas que nascer te virão, Folga morrendo.
Folga morrendo; porque além dos Andes Revive o forte, Que soube ufano contrastar os medos Da fria morte.
Rasteira grama, exposta ao sol, á chuva, Lá murcha e pende: Sómente ao tronco, que devassa os ares, O raio offende!
Que foi? Tupan mandou que elle cahisse, Como viveu; E o caçador que o avistou prostrado Esmoreceu!
Que temes, ó guerreiro? Além dos Andes Revive o forte, Que soube ufano contrastar os medos Da fria morte.
III.