Part 13
Curar da may infermada Bem pode o homem segral; Ha sempre casta donzella, Que se dôa do seo mal: O frade só, despojado Vive do fôro humanal.
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Viverão aquelles mouros Depois desta occasião, Muitos annos bem logrados, Em amor e devação; Louvor ao sancto baptismo! Louvor ao nome christão!
Mas quando foy que nos veio Aquella peste primeira, Seta que o alvo attingia De bem talhada e certeira, Chegou ao christão novato Hora vital derradeira.
E a moira por este evento, Cheia de muita afflicção, Recolheo-se irmã noviça No convento d’Azeitão, Onde viveo muitos annos Em aturada oração.
Madres d’aquelle convento Dizem que a virão rezar, Em extasis jubilosas, Suspensa, erguida no ar; Favor do esposo divino, Milagres do muito amar!
Ouvindo aquelles extremos, Commigo logo assentei Que eu fôra hum pastor perdido, Que nas sombras divaguei, Té qu’huma ovelha esgarrada, Mercê de Deos, encontrei!
E a moira que eu tanto amára, Desly se me figurou Candida lã d’ovelhinha, Que a sarça agreste cardou; Ficou na sarça prendida, Ao vento se meneou.
E alguem que ally divagava, Felpas da lã recolheo, Bateo-as na fonte pura, E em branca tela as teceo; Depois no altar consagrado Ao Senhor Deos off’receo.
A mão de Deos poderoso Bem claro se vê então, Quando o torpe ismaelita Faz-se devoto christão: Só elle hum bom diamante Póde fazer do carvão.
Mudar o vicio em virtude, E a fraqueza em valor, E o calor em frescura, E a frescura em calor, E tudo assi por davante, Só elle, que é Deos Senhor.
Louvor a Deos nas alturas! E aos homens de bom talante Na terra paz e ventura; Paz e ventura constante, Senão na vida que passa, Na vida que sempre dura.
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SOLÁO DO SENHOR REY DOM JOÃO.
Ora pois direi hum feito Do senhor rey Dom João, Segundo que foy do nome, Primeiro na devação, Primeiro mais que o primeiro, Mais que nenhum rey christão.
Nem sempre rezar no côro, Nem sempre velar convem; He mister algum descanço, Alguma folga tambem, Entre o labor já passado E o novo, que perto vem.
Ao duro mal que passamos Algum remedio he mister: E se a nenhum conhecemos, Que mais nos ha de valer Que recordar o passado E contos delle fazer?
He assi que no mar alto O cançado mareante Luta em vão contra a tormenta E contra o vento inconstante; Negras vagas se encapellão, Negra morte tem diante.
Quando n’aquelle deserto Languidos olhos estende, Vê mar que ferve revolto E chuva que do céo pende: Como deixou seu alvergue, O triste não comprehende!
Sembrão-lhe então formidaveis Os p’rigos que elle affrontou; Figura risonhos quadros Dos gozos que já gozou, Do que na terra o convida, Dos que na terra deixou.
Do que outrora foy passado E mais do que vai passando, Medonho e máo parallelo Vai o mesquinho traçando; Dôr de espinhos penetrantes O peito lhe está varando.
Dias lembrar já passados E já passada ventura, Quando o viver he tormento, Tormento que sempre dura, He certo desdita grande E muito grande amargura.
Mas vede o que val a vida! He aquella aventurada, Se dizemos verdadeiros: Houve hum dia, huma hora, hum nada, Não do pezar combatida, Mas do prazer bafejada.
Simelha quem pola calma O dia inteiro vagou, Depois no marco da estrada Cançado e triste quedou; Ally thesouro sem dono, Ventura sua, encontrou.
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Era na sancta semana, Semana de devação! Com jejuns e penitencias Apresta-se o bom christão Pera os mysterios mais altos Da mais alta religião.
Quantas coizas que nos fallão N’aquelle passo sagrado D’aquelle homem divino, D’aquelle Deos humanado, Que por amor de seos filhos, Ingratos, foy maltratado!
Não foy por odio ou vingança, Mas por dinheiro trahido! Por hum homem refalsado, Por hum discip’lo querido; Trahido por meio infame!... Hum falso beijo vendido!
Foy mister por mór tormento, Que morresse polos seos! Entregue por hum eleito Nas garras dos Fariseos, Homem morreo polos homens, Morreo judeo por judeos.
C’roou a fronte sagrada C’roa d’espinhos tecida, Correrão dados infames Em taboa vil, denegrida; Em hastea foy rematada Tunica em sangue tingida.
Tormentos, baldões e mófa Quem mais do qu’elle soffreo? Quem mais comprido marteyro, Quem mais affronta e labéo? Tal foy que o homem divino O rosto ao calix torceo.
Tal foy que o Deos humanado Disse ao Deos, que era seu pay: «Senhor Deos, s’inda he possivel, Do vosso intento tornai; Este calix de amargura Dos labios meos affastai!»
Carpindo males alheios, Quantos não vemos per hy, Que nem siquer se recordão De quanto soffreo por si, Hum Deos na cruz affixado, Mil dores soffrendo ally!
Ante esta victima augusta Da mais feroz crueldade, Cala quanto o homem soffre, Quanto soffre a humanidade: Tormento não foy como elle, Não foy como ella impiedade.
E comtudo alguns increos E refalsados atheos, Guardão n’as extasis todas E mais os transportes seos, Pera Socrates que morre, Que não pola dôr de hum Deos!
E não vê a cega gente, Imiga de toda luz, Que longe que vai do Grego Ao Nazareno Jezus, E da masmorra ao calvario, E da cicuta a huma cruz!
E aos effeitos da morte Não attenderão tambem: Se emparelhamos idéas Ás coizas que corpo tem; Entre elles vai mór distancia, Que vai da Grecia á Belem.
Morre o Grego, e não dá fruitos; Morre Jezus por nos dar A ley do céo pera a terra; Ley que só pôde lavrar O sangue do bom cordeiro Dos falsos Deoses no altar.
Vivem algozes d’aquelle, E huns homens apenas são; Em quanto os algozes deste, Em que povo de eleição, Sumirão-se, como argueiro Nas azas d’hum furacão.
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Era na sancta semana, Semana de devação: Comsigo mesmo propunha O senhor rey Dom João: «Confessarei minhas culpas, Que alem de rey, sou christão.
«Ao Senhor, pay de nós todos, Meos erros confessarei; Que me dê força indomavel Pera guardar minha ley, Pera punir os culpados; Que alem de christão, sou rey.»
Azinha chamando hum pagem Lhe diz, e lhe ordena assi: «Hide aos Padres Dominicos (Melhor lhes quero que a mi) Dir-lhes-heis que sou lá prestes, Que vou commungar ally.»
Veio logo o mensageiro Com a mensagem real; Recado qu’el-rey lhe dera, Dá elle ao Provincial. «He certo mercê mui grande, Responde,--tenho-a por tal.»
Ao padre Thomaz da Costa Chama n’huma Ave-Maria; Sabia o bom do Prelado O muito qu’el-rey lhe qu’ria: De tam lisongeiro acerto Comsigo mesmo sorria.
Demais que o bom do Prelado Dizia com bem justeza: «Prazer aos Reis cá da terra Não he nenhuma vileza; Praz a Deos que lhes prazamos, Pois vem delle a realeza.»
Apresta-se com trigança Tudo quanto era mister: Sabia o Padre Thomaz Encargos do seo dever; «Vergar colossos, dizia, Quem tem posses de o poder?
«Sob as mãos do jardineiro Torto arbusto lá se ageita; Mas onde existe essa força Que hum rudo tronco sugeita, Se a força he balda no tronco, Se o tronco a força regeita?
«Em bem do pastor sagrado, Que por mercê divinal Vive no ermo escondido, Como hum singelo zagal; Cúra pastor de pastores, Não de pessoa real.
«He facil o seo encargo, Pejo, nem dôr lhe não traz; Não he assi nos palacios, Onde só vejo disfraz: Vêm logo as razões de estado, Inventos de Satanaz.
«Vêm logo as leys cá da terra Contrapor-se ás leys dos céos: Sêde christãos, reys senhores, Ou então de todo incréos! Leys dos homens não se cazão, Não seguem ás leys de Deos.
«Não ligueis n’hum só consorcio Terra feia e céo luzente: Leys da terra a terra buscão, Como a raiz da semente; Leys do céo os céos procurão, Como flor que o sol presente.»
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Era aly na pedra raza O senhor rey Dom João; Ante o velho sacerdote Fazia a sua oração, As mãos em cruz sobre o peito, Giolhos postos no chão.
Armas que sempre cingia, Todalas tinha despido; Não tinha sedas, nem joias, Mas peito d’aço batido: Era qual homem vivente Em ferrea prizão mettido.
Curva-se hum rey poderoso Perante hum homem de pé; Perante hum Padre coitado, Que nada tem, nada he: Licção profunda e subida, Preceitos da nossa fé!
Portas á dentro do templo, Onde Deos eterno habita, Onde aquelle amor sem zelos Somente os peitos agita, Nas differenças do mundo Fiel christão não cogita.
Foy assi na antiga Roma Polas festas saturnais, Folgavão, senhor e servo, Como se forão iguais; Mas o que lá foy licença, Aqui são leys divinais:
Aqui são todos curvados, Todos--o servo, o senhor; Aquelles que a vida fruem, E aquelles que só tem dôr; Pobres, que almejão a morte, Ricos, que á morte hão pavor.
Nem he por vil comezaina, Que ally reunidos estão; Mas sim, por que a Deos importa Que não haja distincção Entre irmãos, no patrio abrigo, Rezando a mesma oração.
Sóbe assi aquella prece Da multidão apinhada, Qual lisongeiro perfume Das flores d’huma grinalda; Tem huma odor, outra espinhos, Outras tem côr, outras nada.
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Era aly na pedra raza O senhor rey Dom João; Já disse as culpas que tinha, Já fez a sua oração: O Padre vai ministrar-lhe A hostia da communhão.
Tem no rosto grave e serio Expressão nobre e subida; Maneiras cheias de brio Em postura comedida, Parece que vão mostrando Quanto val o pão da vida.
Parece que mostra, quanto Por vil e baixo se tem, Merecendo honra tamanha, Que a não merece ninguem; Dahy lhe vem ser humilde, Nobreza dahy lhe vem.
Perfez-se o rito sagrado, Vai ser dado o sacramento; Principia el-rey--confiteor,-- Quando n’aquelle momento Surge ao pé delle um guerreiro De marcial hardimento.
Tinha feroz catadura, Só aço e ferro vestia, Polas grades da vizeira Raios de luz despedia: Medonho e fero apparato Nas sombras da sacristia.
Era o rey brioso e forte, Homem de muito valor, Mas olhos lançou á espada A furto!... seja o que for, Não creio que homens d’aquelles Possão jamais ter pavor.
Em voz carregada e forte Assi começa o guerreiro: «Em nome do Senhor Deos, Meo Padre, aqui vos requeiro; O senhor rey não commungue, Pois que não he justiceiro.»
A hostia das mãos do Padre Cahio do calix no fundo; El rey carrega os sobr’olhos... Certo não era jocundo Affrontar de rosto a rosto As sanhas de João segundo.
Era então fresca a memoria De hum caso máo, miserando: De noite se ergueo a forca; Mas quando o sol foy raiando, Não vio ninguem mais a forca, Nem mais ao duque Fernando!
Comtudo o bravo guerreiro Sanhas do rey não quiz ver; Não ha que lhe ponha embargos, Nem que lhe possa empecer: «Senhor, sou Padre Tavares!» Fita-o el-rey sem querer.
Depois lhe diz (que tal nome Quebrára a furia real): «Em bem, meo bravo guerreiro! Mas esse trem, de que val? Somos em terras d’Hespanha, Ou somos em Portugal?»
--«Senhor, não uzo brocados Vedes-me assi, e he razão, Que havedes os meos haveres Sem me deixardes, senão Armas comidas no peito, Armas gastadas na mão.
--«Fui ter ao vosso palacio, Ninguem me não conheceo; Quantos ally são comvosco, Eu vos direi, senhor meo: Nunca os eu vi nos combates, Nunca na guerra os vi eu!
--«Voltei d’ally, protestando Jamais não voltar ally; Conheceis as minhas armas, Se não conheceis a mi; Vesti-me á modo de guerra, Vim ter comvosco,--eis-me aqui!
--«As minhas alcaydarias De Portal’gre e Assumar, Senhor rey, vós m’as tirastes, O que se chama tirar; Ficavão perto da raya, Máo azo de guerrear.
--«Das minhas alcaydarias Eu tinha as rendas reais; As guerras já são passadas, Porque ora m’as não tornais? Mal cabe em reys a cubiça, Senhor, se m’as cubiçais.
--«Nem porque o velho guerreiro Já nada vos presta e val, Vos deveis portar com elle, Qual dono pouco leal, Que o seo corsel de batalla Despreza no almargeal.
--«Assi que, Senhor, vos digo Que vos não peço mercê; Aquillo que me he devido, Só peço que se me dê!--» Prouve ao rey aquelles ditos E mais o geito que vê.
Depois a mão estendendo Ao seo leal lidador: «Nós vos faremos justiça, Assi como justo for; Tendes a nossa palavra, Seja-vos ella penhor!»
Alegre o Padre Thomaz O seo mister rematou; Hostia tomada do calix Aos labios do rey chegou, El-rey d’hum copo doirado Hum gole d’agoa tomou.
Mimoso tempo d’outrora Qual nunca mais o verei, Nem tam inteiros sugeitos, Hum ao outro dando a ley: No Paço o rey ao vassallo, Na Igreja o vassallo ao rey!
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SOLÁO DE GONÇALO HERMIGUEZ.
Não ha mais d’aquelle tempo, Em que era tudo lhaneza! Acções e vida e costumes Desta gente portugueza, Por tal geito se trocárão, Que he hoje tudo impureza.
Não trato d’este ou d’aquelle, Pois ha em tudo exeições; Mas trato da grande lépra Que vejo hy nos corações: Desprêso do amor da gloria E apêgo ás ruins tenções.
Outrora, sabeis vós como Garboso Donzel se havia Por captar nobres extremos Da moça que requeria, Sempre grave, honesto e brando, Sempre uzando cortezia?
Não trescalava pivetes, Fitas, nem laços comprava, Nem toda a manhã divina Seos enfeites concertava, Nem nos chapins se revia, Nem nos cabellos primava.
Não corria seca e meca Traz de mimosa donzella, Que nas ruas lobrigava; E por ver mais perto a bella Não hia ao templo sagrado, Somente por amor della.
Nem as noites janeirinhas Mais compridas e mais frias, Levava mono amante, Por baixo das gelozias, Desenfiando hum rosairo De trovas e ninharias.
Jamais não foy esse o estilo Do moço em armas novel, Em que experto dedilhasse Na lyra do menestrel, No tempo em que, não domada, Lutava a gente infiel.
Por mais que amores amasse, Por mais que fosse gentil, Ninguem n’o vira a deshoras, Como homem de tenção vil, Como hum ladrão que de medo Vai passo e manso e subtil.
Não pedia manto ás sombras, Nem ao silencio mercê, Nem do sol se arreceiava, Como homem que pouco vê, Nem da lua appellidada A casta, não sei porquê.
Mas antes no amphitheatro, Coberto de espectadores, Onde mais povo corria, Mais bellas e justadores, Na arena se apresentava Com letra e tenções d’amores.
No meio d’aquella chusma D’arautos e passavantes, Mantenedores do campo Reys d’armas e circunstantes, Feixes d’armas resplendentes, Ondas de plumas brilhantes:
Entrava o novel guerreiro No cerco dos justadores! De alguma dona sizuda Na charpa trazia as cores, Tinhão amores ás claras, Por que erão nobres amores.
Silencio! que sôa a trompa, A justa vai começar! Entre si ferem mil lutas Guerreiros a par e par: Da lança feita pedaços Voão estilhas ao ar.
Levão logo mão da espada; Que feios golpes se dão! Abolão-se capacetes, Talhão-se arnezes; e a mão Certeira ao travez da malha, Vai direita ao coração.
La sôa de novo a trompa, Proclama-se o vencedor, Que aos pés da bella entre as bellas O seo trophéo vem depor: Ao mais valente a mais bella, Ao mais gentil mais amor.
Era a ley,--e até parece De acordo co’a natureza, Que se compraz no consorcio Da força co’a gentileza; Mais alma com mais coragem, Mais brio com mais nobreza.
A abelha construe seos favos Em troncos alevantados; E eis a hera graciosa, Que em abraços apertados Não cinge mesquinho junco, Mas carvalhos alentados.
Boa era a ley!--mas eu creio Que lhe descubro hum senão; Quem nos diz que o mais valente Deva de ter mais razão, Porque seja a sua dona Como hum vaso d’eleição?
Seria coiza de ver-se, E coiza de mui folgar, Ver um dragão de mulher, Chamada a bella sem par, Á pura força de espada, Sem mais pôr, nem mais tirar!
He bella: e al não digais, Sob pena d’hum fendente, Que vem do céo, como hum raio, Provar ao villão que mente, Co’os dentes que tem na bocca, Como hum perro maldizente!
Fosse o caso como fosse, He certo que d’ahy vem Ás nossas donas de agora, Aquelle sestro que têm De amarem a militança Melhor do que a nenhum bem.
Qual não gosta de ser bella, Ao menos de o parecer? Em quanto muitas ... Deos meo, Eu me sei compadecer, Soffro o mal que os outros passão, Mais talvez que o meo soffrer.
Muitas ha hy, que eu conheço, Que aqui na terra não são, Senão porque as vós mandastes, Meo Deos, por occasião De tedio e nojo ao peccado, E morte da tentação.
Té os moços, que as namorão, Dirão no confessional, Jurando por Deos eterno E pola vida eternal, Que se fallão delle e della, He puro aleive e não al.
Vede pois qual não seria O pasmo dessa donzella, Proclamada ao meio dia Fermosa como huma estrella, Sem que houvesse ahy no mundo Coiza melhor, nem mais bella!
Logo no fraco bestunto Julgára, sem mais razão, Que n’este mundo mesquinho He tudo engano e buzão, E té que a propria belleza He coiza de convenção!
Era assi que n’outras eras Garboso donzel se havia Por captar nobres extremos Da moça que requeria, A ponta de fina espada E arrojos de valentia.
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No tempo de Alphonso Henriques, Que foy nosso rey primeiro, Havia na sua côrte, Côrte de rey mui fragueiro, Hum tal Gonçalo Hermiguez, Destemido cavalleiro.
Era moço e mui donoso, De mui boa nomeada: Fiava el-rey muito delle, E a raynha Mafalda Folgava de ouvir-lhe os cantos Aos sons da lyra afinada.
Portas a dentro do Paço Não tinha nenhum rival Em compor trovas mimosas; E no campo e no arrayal Não n’o havia mais valente, Mais forte, nem mais leal.
Quanta sanha que elle tinha, Votára a gente infiel, Porque o pay lhe havião morto, Era elle ainda novel; Vel-os porêm não podia, Nem pintados no papel.
Era o mesmo ver a hum destes E entrar logo em sanha tal, Que era força ter mão d’elle, Ou saltava-lhe ao gorjal Pera torcer-lhe o gasnate, Como se fôra hum pardal.
Mas se tinhão tento n’elle, Era outro conto ruim! Cabia logo em desmaios, Que era hum desmaio sem fim! Dó era ver tal sugeito Prostrado e defuncto assi.
Andava sempre occupado Em perpetua correria Polas terras do mourisco, E muito mal lhes fazia; Dava porêm mór realce Ao nome que já trazia.
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Como fosse e os companheiros Em hum saráo folgazão, Lembrou-se que perto vinha A noite de Sam João, Azado ensejo de aos Mouros Fazer-se affronta e lezão.
Cheia de bello hardimento, Aquella nobre nobreza Por amor de seos amores Commette tam grande empreza, Qual a de hir terras de Mouros Com feros, ronco e braveza.
Qual apresta o seo ginete, Qual a fita dependura No collo nunca domado; Qual a pesada armadura Inverga, e ahy se recolhe, Como em arce mui segura!
Qual a Deos por testemunha Toma da sua tenção, Qual aos pés da sua dona Requer-lhe extremo condão, Extremo volver dos olhos, Extremo apertar da mão!
Qual desly toma algum nome Por grito de accommetter, Que nas lidas e pelejas Saberá fazer valer! Qual sente o nojo futuro, Em mal, que lá vai morrer!
Mas nunca será que o rosto Mostre o que n’alma lhe mora: Quem vio a morte passar-lhe De perto, já não descora Por hum presagio funesto, Sendo ella coiza d’huma hora.
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Aquelles bons cavalleiros Azinha promptos estão; Lá se partem de Coimbra, Montes alem já lá vão! Ninguem vio mais escolhido, Nem mais luzido esquadrão.
Entre elles por mais robusto Gonçalo Hermiguez campeia; Diz seo porte sublimado, Que de nada se arreceia, Mas antes que a todos repta, De tanto que o collo alteia!
Caminho vão de Lisboa Com todo apercebimento! Não convem que se aprecatem D’aquelle accommettimento Mouros que vivem na regra Do seo alkorão nojento!
Sabeis a regra qual seja? He viver dentro do harem, Dizendo mal do toicinho E mais do vinho tambem, Sem que lhe pêze este mundo, Sem que lhe pêze ninguem!
He vegetar entre flores, He viver vida folgada, Aspirando incenso e odores Em molleza effeminada, Nem que fosse huma odalisca, Ou mulher alambicada.
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Pozerão todos a mira Em Alcacere do Sal, Covil de feras humanas, Não de cordeiros curral; Nó gordio do vil mourisco, O ferro o corta, não al!
Os que por terra a demandão Vão em procura d’Almada, Alcáçova dura e forte, Em rija pedra assentada, Como pedra preciosa Em ferrea c’roa engastada.
Outros lá vão Tejo arriba! Ó Tejo, quanto me he grata Essa placida corrente, Quando a lua se retrata, Chovendo chuva de raios, No teo chão de lisa prata!
Que doce que he teo remanso, Quando manso o vento gyra, Que nas folhas rumoreja, E como que ally suspira Melindres d’amor suave, Que nem tangidos na lyra!
Que arroubos que infiltras n’alma, Quando vai ao som das agoas Navegando o passageiro; Já, se as tem, não sente as fragoas, Que no peito a dôr derrama, Como huma enchente de magoas!
Mas talvez dos cavos olhos Polas faces a correr Sinta o pranto represado Polo seo muito soffrer: Corra embora, qu’esse pranto Dôr não he, senão prazer!
Que neste val’ de amarguras, Onde viemos penar, Por cada dia hum marteyro Por cada instante hum pezar, He bem feliz quem só passa Dores que fazem chorar!
Não sei ledice o que seja, Nem o que seja prazer; Nunca os senti n’esta vida, Nem n’os posso conhecer; Que não sou dos bemfadados, E nunca o não hei de ser!
Mas o pranto extravasado Não he quem nos dá morrer, Nem quem o viço dos annos Faz seccar e emmurchecer; He antes aquelle pranto Que não sabemos verter.
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