Agulha em Palheiro Quinta edição
Chapter 9
Bartholo e o alcaide estavam ouvindo o depoimento do dono e creado do hotel, que denominavam francezes os conductores dos volumes.
Almeida pediu licença para ter particular conferencia com as meninas. Bartholo cedeu de prompto, entregou-se cegamente ás deliberações do funccionario, que se dava o ar mysterioso de quem tem o fio da meada.
A conferencia foi sem testemunhas.
--Fernando está em minha casa--disse Almeida.--Aqui ha um desesperado recurso, um unico. A senhora D. Paulina entra na minha sege, e é conduzida a Fernando.
--Oh! meu Deus! já!--exclamou ella, erguendo-se para saír.
--E eu fico, Paulina?--bradou Eugenia.
--Pois vossa excellencia tambem quer fugir com Fernando?--disse Almeida.
--Eu havia de fugir esta noite com o conde de Rohan--respondeu Eugenia.
--Fujam ambas!--tornou o secretario, mas onde está esse conde?
--Era hospede cá no hotel... Amo-o ha cinco annos... Vamos, vamos, Paulina...
--Eu indagarei onde está o conde--disse Almeida--Não se demorem.
Alguns segundos depois, o estrepito da carruagem fazia tremer as vidraças do hotel. A visinhança viu o rapido saltar de duas meninas, veleiras como anjos alados, cobertas e encapuzadas de capas de merino branco com bordados e borlas verdes nos capuzes. Ninguem soube dizer mais nada.
O secretario saíu com o alcaide, e Bartholo de Briteiros tornou aos aposentos das filhas, no intento de as mandar vestir para entrarem n'um convento.
Quando assomou á porta do quarto, viu duas creadas debulhadas em lagrimas.
XVI
Paulina e Eugenia, menos apavoradas do que suppõe o leitor, apearam no pateo do secretario da legação, e foram guiadas a uma sala, em que Fernando Gomes, prostrado mais que o commum em lances taes, parecia meditar no suicidio. Paulina galvanisou-o moderadamente, apertando-lhe as mãos com mais tremor de ternura que d'afflicção.
--Que abatimento, Fernando!--disse ella, em quanto Eugenia, desalentada pelo quebrantamento do moço, soluçava a chorar, na incerteza do seu destino.
--Isto não é abatimento, Paulina...--disse elle--é porque em verdade eu recebo com dôr a alcunha de ladrão!... Falei-te eu em joias? Que infernal lembrança a de me dares os brilhantes de teu pae!... Quando te disse eu que precisava de ser infame para ser feliz?
--Foi uma indiscrição, meu amigo; mas perdoa-m'a...--disse Paulina--Como os brilhantes tinham sido da mamã, e o papá muitas vezes nos disse que eram nossos, cuidámos que podiamos reparti-los entre ambas, sem medo de que chamassem roubo a isto. Agora não tem remedio a nossa loucura... Não te estejas tu assim a matar, meu Fernando. O crime é meu e não teu...
--Cala-te, pobre criança!--redarguiu Fernando--tu não sabes que mal me fizeste...
Algumas phrases mais, talvez inopportunas, do filho do artista, obrigaram Paulina a chorar e arrepender-se.
Chegou, n'este escuro trance, o secretario, e todos o viram como prenuncio de bonança. Eugenia saíu logo a perguntar-lhe se sabia onde estava o conde.
--Ainda não, minha senhora. Será talvez, difficil encontra-lo, se elle já souber que o perseguem.
--Sou tambem perseguido?--atalhou Fernando.
--Ninguem sabe o teu nome, mas precisamente te procuram na estalagem onde estavas. Porém, como falaste sempre francez, e, por bom alvitre meu, te despediste como quem vae para França, muito diabolica será a alcaidaria madrilense se te farejar aqui. Observo que os meus amigos estão todos tres sem juizo para decidirem o que lhes convém.
--Eu decidi--disse Fernando.
--O teu plano deve ser o unico racional na tua situação: é a fuga. A sr.ª D. Eugenia dir-me-ha o que tenciona fazer se o seu conde não apparece.
--Não apparece!--exclamou ella atribulada.
--Póde não apparecer, minha senhora, e não ha motivo para que vossa excellencia o considere descuidado, covarde, ou traidor.
--Então que eu hei de fazer?!--tornou Eugenia, pondo as mãos com dilacerante angustia.
--Quer vossa excellencia seguir sua irmã, e esperar em Portugal que eu a avise do destino do conde?
--Não lembres á sr.ª D. Eugenia um destino impossivel--disse Fernando Gomes.--Eu não vou para Portugal.
--Como?! não vaes para Portugal?
--Não fujo--replicou Fernando--e, quando fugisse, não iria levar a meu pae a noticia do nome que deixo em Madrid.
--Pois se ninguem te sabe aqui o nome?
--Sabe-o a minha consciencia.
--Pois foge para França--recalcitrou Almeida--ou para a Italia, ou para onde quizeres.
--Não fujo; e perdoa-me, Paulina... Nós não podemos fugir. Teu pae vae receber de minha mão os brilhantes de sua mulher e de sua filha; tu entras espontaneamente n'um convento; de lá requeres dispensa do consentimento de teu pae: sairás de Madrid com honestidade, e eu com honra. É impossivel ser feliz, e dar-te felicidade, se faltarem estas condições á nossa união. Isto é irrevogavel, meu amigo. Por delicadeza e compaixão não discutas comigo. Temo que este anjo suspeite da minha dedicação, se tu me condemnares pela fraqueza das minhas apprehensões.
Paulina teve momentos de suspeita, e outros peores de arrependimento. Quizera ella esconder-se com a vergonha de seu acto a um coração bastante forte, ou bastante desempoeirado, que lhe fizesse sentir com vaidade a grandeza do seu heroismo. Nem elle mesmo a absolvia! elle, por quem a imprudente se perdera no conceito do mundo, e na estima do pae! São pungentissimos os espinhos das corôas que santificam os martyres da honra! Este é um dos casos em que a mulher amada, amigo, sociedade tudo conjura a azedar com mais fel o calix do homem probo! Acontece que o leitor de um romance, que taes casos narra, sympathisa com semelhantes excepções d'este mundo sublunar, mas assim mesmo, o panegyrico do romance é galardão tardio, que não vale a menor das dôres que excruciavam a alma do pobre filho de Francisco Lourenço.
Estavam como atrophiadas as duas meninas. Almeida, sem dizer o seu destino, tinha saído. Fernando encarou na lagrimosa Paulina, correu a ella, e ajoelhou-se-lhe aos pés, murmurando:
--Duvidarás tu que te adoro, ó anjo da minha alma!... Poderás crer que o receio de ser apregoado ladrão me faz baixar ao egoismo de maldizer a hora em que te vi!... Não, não, minha querida filha; não me julgues capaz de afastar uma infamia com outra...
--Degradei-me por amor de ti--soluçou ella--e agora hei de ir morrer n'um convento, sem a amizade de ninguem, perdida no conceito de toda a gente, e tratada com vilipendio por todos... Cuidei que não me tornava indigna aos teus olhos...
--Indigna aos meus olhos!--exclamou Fernando coberto de lagrimas--quando te disse eu palavra que te dê razão de tamanha calumnia! Ó Paulina, eu quero-te pobre, quero fugir comtigo já, mas salva tu da deshonra o meu nome, que ha de ser tambem o teu. Não leves o valor de um ceitil da casa de teu pae. Espera que o boato do grande roubo de cem mil cruzados, de que teu pae te argue, se desvaneça, para que a tua dignidade não fique tão feiamente manchada. Não vês tu que se trata de salvar o teu nome?
--Salva-lo, como?...--redarguiu Paulina.
--Restituindo os brilhantes--disse Fernando.
--De que serve restitui-los? Crês tu que o pae me dará licença de ser tua esposa por isso? Meu pae tem cem vezes o valor dos brilhantes... Ha de perseguir-me atrozmente para eu não casar comtigo, Fernando...
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No entanto, o secretario da legação entrou no hotel de Bartholo de Briteiros.
Encontrou o velho prostrado no leito, espertando d'uma demorada syncope. Ninguem ao lado do pobre pae! N'aquelle instante solemne calou-se o velho rancor de Almeida, e falou a compaixão.
--Mataram-me, as ingratas!--exclamou Bartholo--fugiram, fugiram as perdidas! Deixaram-me assim, sósinho, a amaldiçoa-las, agora, e sempre, e na hora da morte...
Almeida deixou-se abraçar pelo anciado velho, e disse-lhe:
--Cobre a possivel serenidade para me ouvir, senhor Bartholo.
--Diga o que quizer, meu amigo. Pouca vida terei para ouvi-lo.
--Suas filhas deviam fugir ao vexame dos interrogatorios judiciaes, e fugiram. Conduziu-as a minha carruagem; estão em minha casa.
--Estão?!...--exclamou Bartholo.
--Estão, como se estivessem na austeridade d'um mosteiro. Vossa excellencia deu-lhes o impulso desgraçado que dão os paes que o não sabem ser. Quiz vossa excellencia pautar o coração de suas filhas: tentou um absurdo, que deu origem á culpa. A natureza reage contra as violencias; e a reacção é quasi sempre indiscreta ou criminosa. Sua filha Eugenia amava o conde de Rohan, sua filha Paulina amava Fernando Gomes. O francez sei quem é de tradição; Fernando, que eu conheço desde as escolas, é um homem de tantas e tão insolitas virtudes, que o mundo actual ha de vêr-lh'as com extranheza. Vossa excellencia impugnou o enlace de suas filhas com estes dois mancebos escolhidos por ellas. Uma, ia ser immolada ao marquez de Tavira, que sae embriagado dos alcouces ás tres horas da manhã; a outra estava esperando a sua hora de sacrificio. O funesto resultado d'estas coacções foi uma e outra conspirarem surdamente contra a insensata tyrannia de vossa excellencia. Fernando Gomes chegava a Madrid um dia antes de vossa excellencia, em vez de estar na Irlanda procurando a senhora D. Paulina nos mosteiros; o conde de Rohan, chamado de França por a senhora D. Eugenia, veiu hospedar-se n'este mesmo hotel.
--E eu sempre vendido e enganado por ellas!...--exclamou Bartholo.
--Era a justa paga do despotismo com que vossa excellencia dispunha de suas filhas, que tinham em si o despotismo mais imperioso do coração! Pergunto eu ao sr. Bartholo de Briteiros: se suas filhas, para se libertarem d'um jugo violento, deram o extranho passo de prepararem a fuga, que crimes e vergonhas as reterão no mau caminho que tomaram, se vossa excellencia não tiver a prudencia de as chamar a si, e rehabilita-las no conceito do mundo?!... Por em quanto não ha nada que as avilte. O levarem ellas suas joias e as de sua mãe, isso, a meu vêr e de toda a gente, é cousa de si tão desculpavel, que não tem mesmo penas na lei que a puna. O valor moral do acto tambem nada significa. Imagine vossa excellencia que as suas filhas gostavam dos seus enfeites, e, quando fugiam, levaram comsigo esses adornos da vaidade, aos quaes ellas não ligaram valor algum real. Já disse a vossa excellencia que não conheço pessoalmente o conde, amado pela senhora D. Eugenia. Informei-me agora mesmo na embaixada franceza, e soube que o conde era um dos mais nobres legitimistas da França, e tem castellos, senão reconstruidos á moderna, cravejados de muitos brazões, que, se me não engano, podem competir antiguidade com os de vossa excellencia. Este cavalheiro era incapaz de ser o receptador de um furto. Em quanto a Fernando, o portuguez, posto que não tenha castellos nem mais appellido que o _Gomes_, que vossa excellencia provavelmente não encontra nos seus nobiliarios, os brilhantes que se presumem ter ido n'uma caixa, em tão pouco os reputa elle, que me encarrega a mim de os depositar nas mãos de vossa excellencia. Queira o senhor Bartholo estalar a fechadura da caixa para verificar a identidade dos objectos. Fernando Gomes não sabe o que está ahi.
Almeida entregou a caixa a Bartholo, que apenas o interrompia com variados gestos de raiva, surpreza e condescendencia.
Depois proseguiu:
--Fernando Gomes está fazendo companhia ás filhas de vossa excellencia em minha casa. O conde de Rohan está hospedado na embaixada franceza. O que o conde quer não sei; o que Fernando deseja é que a senhora D. Paulina entre pacificamente n'um convento, e de lá instaure um processo para vossa excellencia ser ouvido na questão de consentimento para matrimonio. Resolvi eu, sem permissão d'uns e d'outros, vir propôr a vossa excellencia o seguinte: suas filhas voltarão para casa, e vossa excellencia consentirá que ellas se desposem com homens de sua escolha, recahindo ella em sujeitos tão benemeritos como o conde e Fernando Gomes. Ouvirei a sua resposta.
Bartholo desceu do leito, amparando-se ao hombro de Almeida. Passou á ante-camara, sentou-se a chorar e enxugar lagrimas, reflectiu alguns segundos, e disse:
--Pois que venham as minhas filhas para casa, e eu cederei o que fôr de razão ceder. Mas, senhor Almeida!... Esta ignominia já deve ser notoria em todo o Madrid!
--Apenas a justiça, auctorisada por vossa excellencia, anda em averiguações inuteis. Mande o senhor Bartholo suspender a vulgarisação que os esbirros estão dando aos desgostos particularissimos de sua vida.
--Vou mandar...--disse Bartholo.
--Veem, por tanto, suas filhas. Eu não levo a certeza dos bons intentos de vossa excellencia. Por isso mesmo ouso lembrar-lhe que, se forem o inverso dos meus bons desejos, as consequencias redundarão todas em desgostos maiores para vossa excellencia, e póde ser que mui grande vilipendio para suas filhas. O senhor Briteiros, se as chama para as castigar com violencias, abre n'esta casa trinta portas por onde ellas podem fugir. Ha uma hora em que um pae reconhece que toda a sua força se quebra diante do aceno d'uma debil criança. A lucta é desigual com o coração, senhor Bartholo...
--Diz bem...--atalhou o velho.--Fui eu que as perdi com a educação, com o mundo, com a vida de Paris e Florença...
--Assim seria; mas o mal é insanavel com cauterios: requer muita prudencia o corrigi-lo. Vossa excellencia póde faltar a suas filhas ámanhã; e o mundo ha de chama-las a si com a educação que lhes deu, e engolfa-las no seu abysmo. Salve-as com tempo, senhor Briteiros. A sociedade dá ás mulheres este nefasto prestigio, que as enthrona, com a condição de se despenharem depois na voragem onde foram buscar a realeza.
--Diz bem...--repetiu Bartholo de Briteiros, que, segundo minha opinião, percebeu levemente o interlocutor.
XVII
Almeida foi apresentado ao conde de Rohan, que se envolvera na bandeira franceza, logo que houve noticia do descobrimento da projectada fuga.
Para honra da França, diremos que o descendente do famoso cardeal, quando recebeu o pacote de Eugenia, se bem que o achou pesado, não cuidou que levava metade das joias e brilhantes. A mim, porém, me quer parecer que o illustre conde não faria caramunhas de mau gosto, quando a menina lhe mostrasse os aderesses de ricas pedras. A França, n'isto e em tudo, vae na dianteira dos espiritos. A virtude, lá, é cousa tão contingente, que chega a não ser regra. Menina que foge, não perde aos olhos do seu raptor, nem o tribunal do mundo se entoga com gravidade de juiz para cousa tão futil. O conde de Rohan pensava muito em descobrir Eugenia, e pouquissimo nos brilhantes, quando o cavalheiro d'Almeida lhe foi apresentado pelo benevolo embaixador francez, amigo de ambos.
Contou o secretario os successos decorridos, e a convenção, pouco segura, mas preparatoria para bom resultado, que fizera com Bartholo de Briteiros. O francez, approvando tudo com palavras de muito reconhecimento, pediu a Almeida a grande mercê de ser o apresentante dos brilhantes e dos seus respeitos ao fidalgo de Portugal. Estes _respeitos_, associados aos brilhantes, fizeram que o secretario notasse a superioridade do espirito da França sobre o de Portugal. Em quanto Fernando se estava n'aquellas lamurias e quebrantos, o conde de Rohan, fumando um perfumado charuto de Havana, com a chavena de chocolate ao lado, sorria mui placidamente, ao passo que o informador contava os acontecimentos occorridos; e, com quanta graça mesureira tinha de seus placidos modos, enviou _ao fidalgo portuguez_ (hidalgo, disse elle) os seus brilhantes e os respeitos d'elle.
--Em quanto á minha boa Eugenia--accrescentou o conde--terá o cavalheiro a benevolencia de lhe asseverar que eu sou sempre o mesmo homem, submisso escravo das suas vontades.
Com tão boas novas, correu Almeida a sua casa.
As noticias foram gratas a todos, posto que Paulina por palavras não denotasse a satisfação intima, que sentira. Póde deduzir-se, sem desairar a menina, que as amarguras de Fernando, aquellas exuberancias de dignidade, o muito falar na honra de seu nome, agradaram mediocremente á filha de Bartholo. Perguntei a differentes senhoras, differentes em temperamento, se o despeito de Paulina seria justo. Com muita magua de meu coração ouvi resposta, unanime de todas--que Paulina tinha razão; que Fernando encerrava nas arterias agua chilra; que um homem, assim apontado em subtilezas de honra, poderá ser um bom guarda-livros, um bom mordomo d'uma casa, mas que ha de sempre ser um amante glacial.
Fiquei suspenso, e prometti refutar semelhantes despropositos, quando escrevesse este romance. Desisto da tenção formada.
Antes quero que o leitor discuta e abysme as senhoras que injuriaram o pobre moço, e acharam extrema graça e galhardia de animo no conde de Rohan.
Entretanto, Paulina, ao despedir-se de Fernando, abraçou-o com exterioridades de muito affecto, e pediu-lhe que não chorasse, accrescentando:
--Tu podes contar sempre comigo, Fernando. Esperanças de que meu pae consinta no casamento, não levo nenhuma; mas se tu entenderes que, por meios da justiça, podemos conseguir os nossos desejos, tão desgraçadamente contrariados quando eu me julgava e te julgava feliz, estou prompta a requerer.
Notem a frialdade d'esta linguagem! Fernando, Eugenia e Almeida todos a notaram. Elle, porém, beijou-lhe a mão, e disse:
--Vae, minha amiga, e esquece-me, se quizeres e poderes. O que nunca poderás esquecer é que o homem, que te não servia para o coração, tinha alguma boa qualidade que ha de eternamente viver em tua memoria. Antes esquecido por ti, que deshonrado por amor de ti, Paulina.
Sobreveiu o secretario com reflexões tendentes a conciliar os animos despeitados dos dois tão amantes, tão doidos de alegria, algumas horas antes; e agora, a separarem-se, com a desconfiança n'alma, a desconfiança que é quasi sempre a doença morta do coração!
Paulina desceu, chorando, encostada ao braço de Almeida.
O filho do artista lembrou-se, n'este acerbo momento, de sua mãe, porque teve precisão de orar, e quem lhe ensinara a oração fôra sua mãe.
Deixemo-lo orar e chorar. Preces e lagrimas assim, os anjos as levam ao Senhor. Áquellas almas disse Jesus: «pedi, e sereis attendidas.»
Os que dão cegamente sua alma a quem a não merece, e rogam a Deus o resgate d'ella, sentem-se livres.
Os que vão de rastros e quasi moribundos sob o pé da injustiça humana, oram, e recobram uma força, que é insulto á covardia dos fortes. Deixa-los chorar e orar.
Deus lhes mostrará os balsamos das urnas que ahi estão a desbordar desde que o Homem-divino perdoou aos que o matavam por ignorancia. Porque não hão de perdoar estes homens de barro á cafila de farizeus que os não entendem?
Da cafila de farizeus exceptuo Paulina de Briteiros. Se eu não podesse estrema-la, rasgava aqui estas paginas, e queimava os apontamentos, para que nenhum collega meu d'este maldito officio saísse alguma vez a lume com a historia d'uma linda mulher com alma tão feia!
Paulina e Eugenia entraram nos seus aposentos, sem verem o pae.
O secretario foi ao quarto de Bartholo entregar a outra porção de brilhantes, e continuar sua missão de conciliador e conselheiro.
O fidalgo denotava boas intenções, em quanto ao conde de Rohan. De Fernando Gomes disse, á terceira pergunta, que havia de pensar no melhor modo de se realisarem os desejos de sua filha.
As meninas passaram aquelle dia sem leve incommodo de sua saude, nem accessos de lagrimas que mereçam chronica. Doe-me ter de dizer que, ahi por fins da tarde, riram com as creadas da figura que ellas deviam fazer, quando saltaram á carroagem, desgrenhadas, com os capuzes das capas encarapuçados á laia de feiticeiras. Esta frivolidade de espirito feminil é cousa tão vulgar, que eu peço á leitora que não levante a pedra, e deixe ir as cousas em paz, como Christo mandou ir uma peccadora.
No dia seguinte Fernando Gomes, instado por seu amigo, saíu com elle em carroagem. Passearam até á ponte de Segovia, e apearam na praça do Sol, onde o secretario havia de cumprir ordens do ministro.
O acaso encaminhara para alli o marquez de Tavira, que trazia o espirito encavalgado por um dragão.
Viram-se e reconheceram-se.
O marquez, cego de sua raiva, parou em frente de Fernando, e disse a brados que muita gente ouviu:
--Ainda tem a pouca vergonha de se mostrar nas praças um biltre que seduz filhas-familias a roubarem seus paes!
Se o periodo fosse mais comprido, morria incompleto na garganta do marquez. O filho de Francisco Lourenço engriphou os dedos com sanha felina. O rancor, brutalisando o homem, parece que lhe dá parecenças com a fera, cuja sanha imita! As dez unhas de Fernando faziam espirrar o sangue gothico do marquez, que escabujava como o Lacoonte de Virgilio nas roscas das serpentes. Cairam ambos de modo que o de Tavira foi fender o occipital no eixo d'uma carroagem, cujo dono fizera alto para disfructar a lucta.
Almeida estava, poucos passos distante, observando o desenlace, que o enchia de jubilo. O marquez, ensanguentado, coberto de lama, e quasi desaccordado, nem de leve se boliu, quando Fernando desencravou as unhas. Approximou-se Almeida, e offereceu ao fidalgo a sua carroagem para conduzi-lo onde quizesse. O soberbo de sua miseria respondeu com uma insolencia, e retirou-se com respeitosa, mas curiosa cauda de gaiatos, testemunhas pertinazes e minudenciosas de todos os conflictos magnificos.
Constou ao secretario que o marquez saíra, no seguinte dia, de Madrid, com direcção a Portugal, onde a presença do convencionado não incommodava ninguem. Parece que Bartholo de Briteiros lhe emprestara dinheiro com que elle podesse na patria sustentar a antiga ociosidade e dissipação de seus avós. E, como não sei se virá de molde lembrar o nome d'este sujeito no decurso da novella, fique o leitor sabendo que o marquez de Tavira, depois de residir em Lisboa alguns mezes, fez-se um liberal rasgado, ou roto, como quizerem, e conseguiu ser nomeado ministro n'uma das côrtes da Europa, e mais tarde governador dos estados da India, d'onde veiu, já muito na flôr dos sessenta annos, casar em Portugal, onde está rico e honrado.
Paulina, sabedora da derrota que soffrera o primo marquez, sentiu uma satisfação que eu sinceramente lhe não louvo, e ao mesmo tempo um accrescimo de estima por Fernando, estima que eu não posso attribuir ao coração. Estas anomalias que a moral reprova e a animalogia desentende, são uns geitos de mulher que avisadamente não discuto. São assim. Deus as faça melhores ou peores, de modo, porém, que fiquem mais decifraveis e intelligiveis.
Bartholo, como é bem de ver, ficou raivoso contra Fernando Gomes, e esteve uma noite toda a scismar no modo menos estrondoso de se desfazer d'aquelle inimigo. Ponderou o malvado intento de lhe comprar a vida; mas occorria-lhe que em Madrid era difficil e arriscado andar em cata de um sicario destro e fiel. Desanimou: mas jurou que sua filha Paulina havia de morrer n'um convento, se teimasse em querer casar com o facinoroso.
Este successo apressou o casamento de Eugenia com o conde de Rohan. O fidalgo colheu informações, que condisseram exactamente com as do secretario, mas muito por miudo. O conde era oriundo dos primeiros soberanos da Bretanha, condes de Porrhoit, viscondes de Rennes, por Alain I, quarto filho de Eudon, que vivia no seculo X. D'esta nobilissima stirpe procediam os duques de Rohan, com esta legenda no escudo: ROI NE PUIS, PRINCE NE DAIGNE, ROHAN JE SUIS.
Á vista d'isto, e do mais que deixo á averiguação dos genealogicos, Bartholo de Briteiros deu Eugenia ao conde, liberalmente dotada, e resolveu ir viver em Paris no inverno, e n'um dos castellos da Bretanha, no verão, em companhia de seu genro.
O velho principiava assim a vingar-se de Fernando Gomes.
No jantar nupcial, ao qual assistiram titulares hespanhoes, e a diplomacia dos differentes estados, Bartholo de Briteiros, n'um brinde que propôz a seu genro, disse em remate do discurso: