Agulha em Palheiro Quinta edição
Chapter 10
--Eu morrerei feliz, se vir minha filha Paulina casada com um parente dos Rohan; e, se não puder ser tanto, que seja, e muito ainda será, um nobre da França ou das Hespanhas, a quem meu genro aperte a mão, sem receio de a retirar suja.
--De sangue...--disse Almeida com um sorriso que tinha fogo do inferno.
Esta palavra «sangue» turvou um pouco o vinho que Bartholo bebia. Ao ex-ministro da Alçada quiz parecer que havia n'aquelle dizer succinto uma allusão. Nem que o secretario da legação fallasse em corda!
XVIII
Fernando Gomes, informado, não por Paulina, mas por Almeida, dos successos que se iam encaminhando a um natural e triste desfecho de tantos trabalhos, póde dizer-se que morreu antes que o matassem. Senhoreou-o amargura serena, sem contorsões; mas profunda, luctuosa, e inalteravel por nenhuma diversão.
Alguma carta que escrevia a Paulina ia breve, desalentada, sem a palavra esperança, sem a palavra saudade, sem a palavra amor.
Divagava por uns nevoentos dizeres, como devem ser os do enfermo de mortal doença, que antevê o fim, e se está, meio vida, meio eternidade, conversando com amigos, que deixa sem saudade e sem esperança de tornar a ve-los n'outro mundo.
Paulina entendia mal esta nova phase do espirito de Fernando, e respondia-lhe queixando-se da seccura de suas cartas; porém, a tibieza dos queixumes podia apostar lethargia d'alma com o apparente regelo das cartas de Fernando.
--Como cahiste n'esse estado? perguntava Almeida ao seu amigo.
--Era o meu estado natural. Assim me conheceste no cerco e na universidade. Paulina emprestou-me uma segunda natureza que eu lhe devolvi em lagrimas, e fiquei como era, peor do que era, porque havia uma virtude em que eu tinha fé--o coração da mulher--e esta crença tambem se foi diluida em lagrimas.
--Injustiça!--interrompeu Almeida.--Não te diz ella que está prompta a requerer o seu deposito?
--Disse, não diz.
--Propõe-lh'o.
--Não. Quero forrar o meu pundonor ao ultraje da negativa.
--Farei eu a proposta, mediante o conde de Rohan.
--Recuso o favor. Quem te diz a ti que o conde de Rohan deseja o casamento de sua cunhada comigo?
--Elle.
--Não creias. O conde de Rohan tem irmãos. Paulina é rica e formosa como Eugenia.
--Imponho-me o dever de não julgar ninguem pelos teus olhos. Tu és uma raridade, um excentrico, uma cousa com geitos de pessoa. Erras quantos juizos fazes. Eu hei de sondar o conde. Póde ser que tudo se consiga sem processo judicial.
O secretario procurou o conde. Fallou amplamente de Fernando Gomes, e das suas injustiças ao caracter de Paulina. O conde mostrou sympathisar com o caracter do portuguez, e disse:
--Eu fallarei a meu sogro.
E falou de modo que as suas ultimas palavras summariam o elogio que se lhe deve:
--O homem, cuja mão eu aperto com sincera satisfação de quem sabe prezar a virtude, é Fernando Gomes. Peço encarecidamente a mão de minha cunhada para este tão modesto como honrado mancebo. Condescenda, meu sogro, para eu poder dar-lhe o nome de provado amigo.
Bartholo de Briteiros respondeu umas palavras oscillantes, que nenhuma resolução significavam. O conde saiu maguado d'esta conferencia, e disse á cunhada:
--Se Paulina quizer casar com Fernando, tem de adoptar meios extraordinarios. Requeira o deposito, que a familia do ministro francez presta-lhe sua casa.
Paulina respondeu:
--Era preciso que Fernando ao menos me enganasse, para eu acceitar o seu conselho. Fernando, quando me escreve, nem ao menos diz que me ama.
--Ama com a mais segura das paixões: a paixão que mata com infernal lentidão.
--Se elle m'o fizesse assim acreditar!...--replicou ella.
O conde inferiu que Paulina estava cançada das virtuosas, incomprehensiveis e fastidíosas singularidades de Fernando. E assim, muito á puridade, o communicou ao secretario.
Bartholo chamou Paulina, e mostrou-lhe cartas de Lisboa. A importancia d'estas cartas ha de ressumbrar na seguinte, que ella escreveu a Fernando:
«Meu querido amigo.
«Nem a cegueira do amor me engana. As tuas cartas dizem-me tudo que está em tua alma. Eu não sei por que desmereci aos teus olhos. Não sei, Fernando! Aquella impensada fuga que eu havia de fazer, com teu consentimento, creio que me tirou todo o prestigio. Esta pobre formosura, que tanto encarecias, já te não inspira mesmo as palavras animadoras que releio nas antigas cartas, com o coração traspassado de dôr! O ser rica sabia eu que era cousa nenhuma em teu conceito; mas o ser-te leal ha dois annos, á custa de tormentos tamanhos, cuidava eu que seria um titulo á tua eterna dedicação. Louca mulher, que tão vaidosa julguei merecer o que o mundo não póde dar! Com que me recompensas tu o fel que eu tenho tragado desde que voltei dos teus frios braços para debaixo dos olhos severos e queixosos de meu pae? O teu esfriamento é incrivel! Se me dissessem que amas outra mulher, comprehenderia o homem e a ingratidão. Mas sei que vives só, que vives triste, que tudo te é indifferente, e eu mesma quasi esquecida! Cada carta que me envias é como obrigada pela delicadeza. Palavras inintelligiveis, apprehensões vagas, e nenhuma em que me digas positivamente o que pensas, e esperas de mim! E eu amante como sempre! Capaz de tudo, mas incapaz de me abalançar a novos sacrificios, sem que me tu digas corajosamente: «Luctemos de novo!» Porque m'o não dizes, ó Fernando!?
«Ainda agora saí do quarto de meu pae, onde fui chamada, e entrei a tremer. Mostrou-me cartas de Portugal, cartas forjadas talvez aqui, e mandadas lançar lá no correio. Todas falam de ti miserias que eu me pejo de dizer. Mas adivinho que desejas ouvi-las. Creio que, em dizer-t'as, te allivio de conjunturas dolorosas. Noticiam que teu pae é um sapateiro de Lisboa, que tua mãe era colchoeira, e que andas por aqui a estragar as economias de teu pae, em quanto elle lá está quebrado de trabalho, cerceando ao pão de cada dia para te sustentar uma vida aventureira. São assim miserias d'este jaez. Irritou-me a alegria de meu pae, quando elle com ar de victoria me estava lendo estas calumnias. Não tive mão em mim, e disse-lhe: «Isso é tudo falso. Se o pae de Fernando fosse um sapateiro, não iria visita-lo a Londres, nem lhe daria a decencia com que tem vivido ha dois annos em Florença, aqui, e em toda a parte. Meu pae encontrou-o em casa d'um principe, e o principe de Monfort não aperta a mão a filhos de sapateiros, nem ministros de Portugal em Hespanha o tratariam com tanta consideração, se elle fosse o que essas cartas dizem. Meu pae enfureceu-se dizendo que o Almeida era filho d'um latoeiro, e por isso occultava o teu nascimento...»
Fernando, n'este ponto, machucou a carta na mão direita, e atirou-a aos pés.
RESPOSTA
«Minha senhora.
«Não mentiram ao pae de vossa excellencia. Sou filho d'um sapateiro, e d'uma colchoeira. Meu pae está ganhando o pão que me sustenta, e vendendo as suas economias para suprir ás despezas que o seu trabalho não alcança. O sapateiro foi a Londres, é certo; mas não foi visitar-me, como vossa excellencia presume: foi pedir-me que voltasse á pobre casa, onde minha boa mãe me chamava para me abraçar antes de morrer. Ensurdeci ao chamamento de minha mãe, e não vi as lagrimas de meu pae. Vossa excellencia tinha-me levado ouvidos e olhos, deixando-me no coração apenas a fibra do remorso de ser mau filho.
«Humilho-me diante de vossa excellencia, não como filho do sapateiro, mas avergado pelo arrependimento de lhe ter occultado a minha humilde origem. Foi o coração que me trahiu, dizendo-me que para vossa excellencia era cousa de nenhuma significação o meu nascimento. Penso que devo ser desculpado d'esta falta: seria grande extranheza andar eu divulgando o meu nascimento. Eu tinha estado em França, e vira ministros sahirem das officinas: e o mundo respeitava-os pela honra dos paes, e por sua elevação com esforços proprios. Tudo me induziu, não a esquecer-me de que meu pae era sapateiro, mas a presumir que me era licito com minhas acções continuar a ser honrado como meu pae, sendo certo, minha senhora, que eu nunca ousei suppôr que meu pae carecia de minhas virtudes para se dar nobreza de si.
«Faz-me pena o desgosto de vossa excellencia quando esta carta estiver lendo!
«O que a senhora D. Paulina de Briteiros tem soffrido por minha causa! Que mal empregados sacrificios!
«Não foi a mão de Deus que a susteve á borda do abysmo, minha senhora? Que immensa vergonha e agonia devia ser a sua, se vossa excellencia a esta hora fosse minha mulher?! Que torturas irremediaveis! Como havia dizer-lhe eu em Portugal o nome de meu pae?
«Nunca pensára n'isto!... Agora me parece incrivel que não pensasse!
«Escrevo-lhe com quanta quietação de espirito se póde, minha senhora. O coração está esmagado. Matou-o a vergonha de ter pulsado em tão baixo peito, vergonha que eu confesso sentir diante da sombra de vossa excellencia, agora, e sempre.
«Veja que horrivel organisação social esta, senhora D. Paulina! Diga vossa excellencia em sua intima e clara razão, se eu merecia ser vilipendiado por meu nascimento, emquanto não praticasse alguma acção infamante! que mal fiz eu á sociedade em ter nascido de operarios?... Desculpe-me vossa excellencia estas perguntas vans, desordenadas e indignas da sua attenção.
«N'este momento vou queimar as cartas de vossa excellencia, menos d'esta ultima a pagina em que, por suas mãos, a Providencia me ministra uma lição, que me póde ainda levantar diante de mim mesmo.
«De novo lhe rogo me perdôe, no silencio de sua consciencia, porque as suas palavras já não poderei vê-las escriptas. Subscrevo-me, com quanto respeito me inspiram suas virtudes, creado de vossa excellencia
«_Fernando Gomes._»
Almeida tinha saído com o ministro para o Aranjuez, para voltar quatro dias depois. Fernando queimou as cartas de Paulina, lendo as primeiras de Florença, quanto as lagrimas lh'o consentiam. Enfardou o seu fato. Comprou passagem na primeira diligencia em direcção á fronteira de Portugal, e mandou entregar a sua ultima carta a Paulina, ao embarcar-se na locomotiva.
Almeida, recolhendo do Aranjuez, encontrou este conciso escripto:
«Vou vêr o pobre artista, e a pobre companheira do artista, que não tem culpa dos meus infortunios.
«Com as mãos erguidas te rogo que não digas a alguem o meu destino.
«Terás as minhas cartas regularmente, em quanto viver.
«Graças, meu amigo, pelo coração de irmão que me déste. A recompensa é este chorar que me tolhe poder escrever-te mais. São as ultimas lagrimas do teu Fernando.»
XIX
DE FERNANDO GOMES A HYPOLITO DE ALMEIDA
Lisboa, 4 de agosto de 1842.
«Meu presado amigo.
«Aqui estou na casa onde nasci, no pequeno quarto em que os livros me iniciaram para tormentos superiores aos que conheceste em minha vida.
«Entrei em casa inesperadamente, e encontrei minha mãe chorando, e nos braços d'ella, uma de minhas irmãs viuva, e alli, ao lado, deitada n'um berço, uma criancinha de dois mezes.
«Minha irmã casára com um capitão de mar e guerra, que morreu em viagem para Moçambique. Fôra ella dotada com dez mil cruzados, cuja maior parte o marido empregou em mercadorias, que levava comsigo, na esperança de grandes lucros.
«O navio deu á costa, e presume-se que meu cunhado se suicidou. A minha pobre irmã ainda ignora que está em pobreza extrema.
«Sabe-o meu pae, que é um santo, e acceita das mãos da Providencia tudo que vier.
«Outra minha irmã, casada com um official de secretaria, vive muito infeliz, e tem querido refugiar-se no abrigo dos paes; o marido, em poucos mezes, leva quasi dissipado o dote, sem mesmo assim poder resgatar-se de descreditos que mais tarde ou mais cedo o reduzirão a vir pedir esmola á porta do seu sogro. Acaba meu pae de me contar estas alegrias, que eu te refiro para que vejas os ditosos auspicios com que entrei nos lares domesticos.
«Meu pae está quasi cego, e minha mãe n'um estado de decrepidez extraordinaria. As minhas despezas dos ultimos oito mezes custaram ao santo velho o sacrificio da venda dos bens do Cartaxo. O que elle não vendeu foi a livraria, nem os manuscriptos de Bocage, seu amigo da mocidade. Disse-me que me salvara os livros para me legar amigos. Perdôa ao bom velho o seu descrer em amigos: elle não sabia que tu eras mais verdadeiro e valedor que os livros.
«O meu futuro é facil de conjecturar. Tenho uma numerosa familia dependente de mim. A outra minha irmã, e uma filha, não tardarão aqui. Meu pae ainda vae á loja examinar, ou finge que examina, o trabalho dos officiaes. Estes são já pouquissimos, em relação com o diminuto consumo que tem a obra.
«Penso em arranjar emprego; mas sinceramente te digo que não sei o para que sirvo, nem como estas cousas se alcançam. Lembra-me abrir loja de conselhos e requerimentos; estou esquecido do pouco que aprendi; careço de muita pratica, e de muita paciencia. Falta-me gosto, alma e vontade. Nenhuns estimulos d'actividade me impellem. Este espectaculo inesperado escureceu-me o espirito de modo que nenhum raio d'esperança já póde reanimar-me. Espero em Deus que esta crise não se demore; e, depois, veremos.
«N'outra carta me abrirei mais comtigo. A oppressão produz no animo dolorosa preguiça. Em contentamento sereno ou nas afflicções agitadas, n'estes dois extremos, é que o espirito se compraz ou desafoga em diffusas cartas. Esta minha dôr é termo medio que prostra e embrutece. Adeus. Teu amigo muito grato
_Fernando._»
DE HYPOLITO DE ALMEIDA A FERNANDO GOMES
Madrid, 14 de agosto de 1842.
«Meu Fernando. Quando recebi no Aranjuez, onde tive de demorar-me, a tua carta de despedida, corri logo a Madrid, não esperançado em encontrar-te, mas em ancias de saber o que se havia passado em minha ausencia. Esporeava-me o odio que recresceu n'estes ultimos mezes contra o algoz togado, o villão que me enganou quando eu tinha na mão o fio com que esperava cortar-lhe a vida na garganta.
«Deram-me a tua carta, e contou-me o creado que te vira queimar as de Paulina. Percebi logo que um completo rompimento vos separara para sempre. Odiei-a! Dei-te logo razão, porque eu sabia que tu eras um anjo merecedor de melhor alma.
«Na incerteza de me estarem trancadas as portas de Bartholo, procurei na rua o conde de Rohan, e soube que Paulina estava doente. Perguntei, sem rebuço, que razões se haviam dado para a tua saida repentina de Madrid, e elle sem me dar explicações, instou por saber o teu destino. Não lh'o podia dizer, não lh'o diria, ainda mesmo que antevisse n'esta infracção a tua felicidade. _A tua felicidade_, digo eu!
«Ha homens que ninguem deve conduzir a uma supposta felicidade: a má sina póde tudo com elles, e reverte-lhes em mal os mais logicos planos do bem. Os proprios amigos se tornam fautores da sua desgraça.
«N'este mesmo dia recebi um bilhete de Paulina, a perguntar-me onde estarias. Respondi que o não podia declarar. Redobraram instancias: permaneci inabalavel. O ultimo bilhete d'ella é este que te envio[1]. Não calculo o que succedeu para resolução tão improvisa! Dar-se-ha caso, Fernando, que a tua doentia imaginação te enganasse? Poderias tu ser injusto, sem consciencia de o ser? Irias arrebatadamente, onde com alguma hora de reflexão, deixarias de ir?
«Não ouso decidir por mim a hypothese: tamanha confiança me merece o teu bom juizo e reflexiva dignidade. Antes me quiz persuadir que procedeste como devias. Esperei.
«Agora, porém, recebo a tua carta de 4 de agosto. Nem uma palavra a tal respeito! Dir-se-hia que eu sonhei que tinhas amado Paulina, ou tu d'uma para outra semana perdeste a memoria do teu coração! Isto mais me capacita de que a razão do teu proceder foi tão grande que presumes deva eu já sabe-la, e por amor de ti proprio a omittes. Juro-te que apenas sei o que devo inferir dos bilhetes d'ella.
«O conde ignora tudo. Bartholo está com ares de satisfação; nada, porém, diz ao genro nem a Eugenia. Este mysterio mortifica-me. Esclarece-m'o, que o deves ao teu Almeida.
«Falemos agora da tua situação. Compunge-me a sorte de tuas irmãs, e de teus bons paes. Triste espectaculo, na verdade; mas providencial e necessario para a glorificação da tua honra. Precisas de força, e de paciencia para poder emprega-la.
«Queres um cargo publico? Os teus estudos, talento e serviços hão-de obte-lo; mas não cuides que será já, meu amigo. Tu perdeste a occasião de entrar nas secretarias com o arcabuz do cêrco do Porto debaixo do braço. As gravatas dos heroes de gabinete na emigração já se não temem das dragonas. Estamos em tempos pacificos. O que ha seis annos se conseguia e recebia com a mão a cheirar a polvora, é preciso have-lo agora das mãos enluvadas das mulheres, que fazem os despachos nas othomanas, com os ministros reclinados sobre o seio. Advirto-te, para que a decepção te não surprehenda.
«Entretanto, meu caro Fernando, o que tu precisas é de encaminhar desde já a tua pretenção, dando ares de que não pretendes. Resgata os teus bens do Cartaxo, se o comprador t'os ceder: ostenta uma independencia que fira o orgulho villão dos grandes que não supportam animos generosos e isemptos; entra na politica, e escreve, que necessariamente has de escrever coisas excellentes, visto que é esse o ramo de conhecimentos humanos que dá fructo a quem lh'o pede, e para o qual todo o homem está habilitado. A honra ha de ser-te um empeço á boa saída; mas póde ser que a mesma excepção te aproveite. Ora como para estas coisas, e principalmente para a independencia, é necessario o dinheiro, vae ter á rua Augusta, procura meu velho pae, que has de encontrar a bater alguma caldeira, e diz-lhe quem és. Deves saber que eu sou já senhor da legitima materna, e este capital, que excede a vinte contos de réis, lá o tem meu pae á espera que eu lhe dê destino. A tal qual decencia, com que vivo aqui, é meu pae que m'a dá, prohibindo-me que eu gaste da herança de minha mãe. Vê tu que animo este de artista, que ainda não despegou uma semana de trabalhar! Vae lá, meu amigo; elle está prevenido, e sabe que és meu irmão. Pede o que quizeres, para m'o pagares quando puderes.
«Fecho, que está a partir o correio. Escreve muito ao teu
_Almeida_.»
DE FERNANDO GOMES A HYPOLITO DE ALMEIDA
Lisboa, 31 de agosto de 1842.
«Meu irmão.
«Guardo em minha alma a tua carta.
«Falarei primeiro dos teus fraternaes offerecimentos.
«Fui vêr teu pae, porque desejava conhece-lo e abraça-lo. Que cabellos brancos, e que mãos calejadas aquellas! Que bem e orgulhoso me senti nos braços d'elle! Falla de ti com lagrimas; mas todo aquelle rosto se abre em contentamentos d'um justo!
«Quiz que lhe contasse pormenores da tua vida em Madrid.
«Satisfiz aquella ancia do teu velho. Foi dia de férias na officina a minha visita. Mandou os operarios passear, recommendando-lhes que não fossem á taverna. Depois jantei com elle, e lá fiquei até á noite. Teu pae deita se ao escurecer e ergue-se com a aurora. Disse-me elle quando eu estava para sahir: «Veja lá o dinheiro que quer, doutor.» Respondi-lhe que não queria nenhum. Montou os seus grandes oculos de cobre, arregaçou os punhos da camisa, releu a tua carta, e exclamou: «Então como se entende o que reza esta carta do meu Hypolito?!» Satisfiz ás suas duvidas, dizendo-lhe que o teu offerecimento não fôra solicitado, nem por em quanto me era preciso aceita-lo.
«Assim passaram quatro boas horas da minha vida. Face a face com o principe de Monfort não me senti tão feliz e entranhado de respeito como ao lado do artista, do teu digno pae, meu querido Almeida.
«Beijo-te as mãos pelo amigo que me déste. Em quanto ao dinheiro, deixemo-lo estar, _como nosso_, na mão do honrado depositario. Quando precisarmos, lá iremos.
«Agora direi pouco de Paulina para te satisfazer, e menos terei que dizer-te, enviando-te uma copia da pagina da sua ultima carta. Ahi tens decifrado o enygma. O filho do sapateiro teve pejo e arrependimento de se haver abalançado ao coração da filha de um Briteiros: pejo de se haver abatido, e arrependido de a ter humilhado. Cahi em mim. Podia ser mais tarde, e mais funestamente para ambos. Deus poupou-me ao aperto de entrar em Portugal, e por esta porta dentro, onde todos choram, com a faustuosa e brilhante Paulina, que está fadada para alegrias e esplendores. Que sentiria aquella alma vendo-se aqui n'este ambiente de pobreza, pobreza que se adivinha em tudo! Alli dois velhos; além duas irmãs uma viuva, outra divorciada; acolá duas criancinhas, cada uma em seu berço, vagindo; lá em baixo o martellar do trabalho; em tudo o cunho de uma maneira de ser incompativel com a indole e educação de Paulina!...
«Que queres tu, á vista d'isto, que eu faça ao coração?
«Suffoco-o; obrigo-o a repartir-se por estas quatro creaturas, que não teem mais ninguem.
«O bilhete de Paulina como não me auctorisas a queima-lo, devolvo-t'o; póde ser que ella venha a envergonhar-se de te-lo escripto, e t'o reclame.
«Persiste em não dizer nada de mim; e, se tenho algum outro favor a pedir-te, é que me não fales d'ella; antes me ajuda a esquece-la.
«Meu generoso pae ainda a tal respeito me não disse palavra. Adivinhou tudo. Tudo me tinha prophetisado em Londres, com estas palavras: _Que direitos tens tu a uma felicidade que te custa humilhações? Para que a procuras afincadamente, se vaes de rastros apoz ella? Porque has de tu querer hombrear com os grandes, se eu apenas te fiz entrar n'uma carreira por onde levarias teus filhos á grandeza?_
«Na ultima pergunta é que o propheta ouviu demasiadamente os seus arremessados desejos. Esta minha carreira é a da inhabilidade e da pobreza; mas cá estou a refazer-me de alentos para a trilhar. Adeus, meu extremoso amigo. Não acceito o teu alvitre de me fazer politico. Já vi o que isto é. Não estou ainda bastante pôdre para adubar o torrão em que braceja a arvore da immoralidade. Estou envergonhado de ter dado o meu sangue para isto! Ás vezes chego a scismar se Bartholo de Briteiros teria razão!
«Perdôa esta impia ironia. Antes isto que os patibulos. Cada qual enforca a sua honra á sua vontade, e não causa lastima nem espanto. Não ha tempo para mais. Adeus. Teu
_Fernando_.»
XX
DE HYPOLITO DE ALMEIDA A FERNANDO GOMES
Madrid, 3 de setembro de 1842.
«Meu Fernando, não espero a tua resposta para te escrever. Tenho só tempo de participar-te que Paulina entrou hoje n'um convento, contra a vontade do pae. O conde de Rohan suppõe que és tu a causa d'este successo. Bartholo suppõe que a filha se enclausurou para de lá requerer casamento comtigo. Elles e eu andamos litteralmente ás aranhas. Ella e tu sois os ferrolhos do mysterio. Sae a mala. Adeus.
_Almeida_.»
DO MESMO AO MESMO
Madrid, 12 de setembro de 1842.
«Viva Deus! que quebraste os sete cadeados do cofre! Vi o altissimo quilate do oiro da tua honra. Já o conhecia.
«Estas linhas deviam magoar-te; mas não justificam a fuga, e menos ainda o desprezo. Não é desprezo o que sentes por ella; mas, seja o que fôr os effeitos são analogos.
«Paulina, como já deves saber, vive no convento das Therezinhas. Consta-me, de informações exactas, que Paulina está n'um consternador abatimento de espirito. Raro se deixa vêr e apenas sáe da cella para receber, na grade, a visita do conde ou do pae. Eugenia entra no convento, e passa muitas horas com ella; mas nem assim lhe arranca o essencial motivo do rompimento e reclusão.
«Bartholo tem providenciado para o caso de haver deposito judicial. Realisa-se o que eu te havia dito. Sei que de antemão, e por hypothese, já estão alugados os juizes.
«Eugenia pediu-me hontem um encontro no Prado. Insistiu comigo para eu lhe descobrir a tua residencia. Inutil. Jura que Paulina te ama até se deixar morrer, para assim pelo remorso se vingar da tua ingratidão. Estive, sem receio de quebrantar minha palavra, quasi a mostrar-lhe a copia da pagina da ultima carta da irmã. Desisti, por me não parecer, ainda assim, justificavel o teu procedimento, e tambem para respeitar o sigillo de Paulina. Ella, que o reserva, lá tem suas razões, e nós as nossas.