Part 2
No seu grande juizo, A. Herculano devia achal-a ridicula. Uma ingleza ridicula equivale a dous inglezes ridiculos. Ora, A. Herculano tinha escripto: _Dous inglezes ridiculos são incontestavelmente as duas cousas mais ridiculas d'este mundo_. Eu creio no contundente publicista Silva Pinto--um grande lapidario de phrases causticas, tartarisadas. Diz elle que Alexandre Herculano não a visitou. Elle era mais austero e sensato que o padre Lamennais e o astronomo Babinet, do _Instituto_, que no poente da vida e na aurora da tolice lhe escreviam versos e prosas de pieguice senil. O velho astronomo explicava-se assim, paternalmente, ha dezoito annos:
_Sans cesse vous brillez de charmes imprévus; Près de vous on ne peut jamais manquer de verve; Car vous avez les attraits de Vénus Avec les talents de Minerve [1]_!
Os attractivos de Venus. Bom proveito. E, depois, esta senhora zomba dos portuguezes velhos que _se babam d'amor!_ Pudera não! Quando nos apparecem bellezas mythologicas, a Venus com a sobrecarga de Minerva, a gente baba-se irreprehensivelmente.
Contra Castilho, faz-se echo das inepcias do snr. Theophilo Braga:--que elle conhecia imperfeitamente as linguas de que _traduisait, traduisait, traduisait_. Castilho aos vinte annos fazia versos latinos como Virgilio e francezes como Lamartine. Accusa-o de inimigo acerbo do romantismo. Castilho escreveu a Noite do castello e Ciumes do Bardo na afinação ultra-romantica da Dama do Lago de W. Scott e do caudilho das balladas romanticas em França.
Tagarellando contra os classicos, a boa da romantica diz que surgiram em Coimbra os dissidentes da velha escóla. Os dissidentes eram Rebello da Silva, Mendes Leal, Latino Coelho e Lopes de Mendonça. Sim, estes innovadores sahiram de Coimbra com o estandarte da rebellião arvorado. Ora, Rebello da Silva, como o reprovassem em latim, não voltou a Coimbra; Mendes Leal e Latino Coelho nunca frequentaram a universidade, e Lopes de Mendonça não sei se chegou a matricular-se em mathematica. D'este infeliz luctador, submerso em trevas quando as espancava com vertiginosa ancia de luz, diz a ignorante que _elle consumira a maior parte da mocidade em dissipações_. Meu pobre amigo, tu que aos quinze annos trocavas por pão escasso os teus primeiros labores, não merecias ser apontado como victima de tuas dissipações.
Contra Mendes Leal, a casquilha poetisa em annos de prosa ejacula injuriosas calumnias de plagiatos, e accusa entre os livros d'este escriptor verdadeiramente polygrapho o Calabar, um romance em que Mendes Leal declara que parte do seu livro é imitação. O author da Herança do Chanceller, a meu vêr, nas suas occupações diplomaticas em Paris, não tem tido vagar para attender ás princezas vadias.
De Rebello da Silva conhece _Odio_, _Velho vraô cauca_, e a «Ultima corrida de touros _reas em Salvatorra_». É um bom titulo para uma simulcadencia muito forte, peninsular, talvez vestigio arabe. A snr.^a Rattazzi, que assim escreve a lingua portugueza, propõe-se traduzir a Historia da Inquisição de Herculano. Em inquisição de torturas vai ella pôr a pobre lingua, que ainda assim possue uma palavra energica para interpretes d'este quilate. Byron, encantado com a sonoridade do termo, transmittiu-o como mimo philologico ao seu amigo Hodgson. Ella que o fareje. Está na carta 37.^a da collecção de Thomaz Moore--bom documento ethnologico que esqueceu ao snr. Alberto Telles no seu interessantissimo livro Lord Byron em Portugal.
As insolencias que desembésta á cabelleira de Bulhão Pato como se explicam? Ella, prefaciando um drama que peorou com o seu francez, disse que Alexandre Herculano escrevêra um opusculo contra o imperador do Brazil, e que o imperador, sem embargo da offensa, vindo a Portugal, visitára Herculano. A snr.^a Rattazzi, muito admirada, perguntou, em Paris, ao imperador que lhe contára o caso da offensa e da visita: «Visitou Herculano, Sire?» E D. Pedro II respondeu com um sorriso fino: «Sim, de certo, visitei-o. Deveria eu castigar-me a mim por comprazer com o meu despeito?»
Leu isto Bulhão Pato, e sahiu honrada e severamente contra a calumnia; e vai ella agora, no livro Portugal _a vôo de pássara_, explica o prefacio da comedia dizendo que se enganou--porque lia muita cousa--attribuindo as Farpas a Herculano; e acrescenta que o imperador não lhe emendára o _blunder_, o equivoco desgraçado, ouvindo-a sem lhe corrigir o erro. Mas a snr.^a Rattazzi, no tal prefacio sarapantão, diz que o proprio D. Pedro II lhe contára que elle, offendido, visitára o offensor: _Don Pedro me l'apprit lui même à l'hôtel d'Aquila_. Uma trapalhona!
Bulhão Pato emendou a parvolêza da snr.^a Rattazzi; e ella, em vez de se agachar contrita na humildade das tolas conscienciosas, ergue-se nos tacões _benoiton_, e faz chalaças de _estaminet_ entre dous _petits-verres de anisette_.
Dos meus futeis romances tambem chalacêa e não anda mal;--que todos os meus livros se adivinham do terceiro em diante: um brazileiro, um namorado sentimental, e uma menina em convento. Cita quatro novellas, e por casualidade nenhuma d'ellas tem _brazileiro_; porém, quanto a namorados, são tantos que nem a senhora princeza é capaz de ter tido mais.
No merito de _Julio Diniz_ faz os descontos que o snr. Ramalho lhe incutiu. Conhece os _Fidalgos de casa nourisca_, e a _Morgadinka dos Canariaes_. Tenciona fallar de Soares de _Posses_, poeta portuense, cuja elegia do _sepulchro_, diz ella, se canta nas ruas. Exalta o snr. T. Braga que escreveu a _Visáo das tempes_, e _As tempos tades sanoras_, a «Historia do _direitor_ portuguez», e os «_Tracos_ geraes da philosophia _positivia_». Não se sabe se quer dizer _Traços_ ou _Trancos_; talvez seja _Tratos_, ou mais provavelmente _Trapos_, se não fôr cousa peor. Seja o que fôr, pertence á philosophia _positivia_.
Conta que elle foi typographo em Coimbra _para pagar os estudos_. Não havia de gastar muito se pagou o que sabe. Diz que o snr. Braga é «philosopho, mathematico, astronomo, physico, chimico, biologista e anthropologista»--o que se demonstra nos _Tracos_ acima.
Consta-me que o snr. Chardron consente que este opusculo seja trasladado a francez e hespanhol. Suspeita-se que a Allemanha e o Reino-Unido pensam em o traduzir com uma grande sêde de idéas. Pois, se isto assim é, como não póde deixar de ser, bom será que lá fóra se leia em linguagem conhecida uma opinião ingenua a respeito do _escriptor moderno mais consciencioso de Portugal_, como a princeza, baseada em anthropologia e assás biologica, qualificou o snr. Theophilo. De si proprio dizia elle com paspalhona philaucia no Ath[ae]neum de Londres, _Revista do anno de 1878_:
«Actualmente a philosophia positiva conta muitos admiradores em Portugal, e os novos espiritos disciplinados por ella vão conhecendo com grande clareza de que trabalhos este povo precisa para progredir.
N'este espirito acabam de sahir á luz os dous primeiros fasciculos d'uma Historia Universal, que a imprensa portugueza tem considerado como _uma renovação dos estudos historicos em Portugal_; a noção positiva da historia e o esboço da historia dos egypcios estão a par dos (muito _pardos_) modernos trabalhos da archeologia prehistorica e egitilogica».
É o que pensa de si o egitilogico snr. Theophilo. Já lhe não basta o elogio mutuo. O oraculo, quando os catechumenos de cá o não incensam, trata elle de salvar na Inglaterra a reputação da critica portugueza, escrevendo que a imprensa lhe considera as farfalharias uma _renovação dos estudos historicos em Portugal_. Ridiculo até á compaixão!
Os livros do snr. Theophilo são uma balburdia, retraços de sciencia apanhados a dente, mal mascados, um cerebro atrapalhado como armazem de adeleiro, golfos do bôlo não esmoido, cousas apocalypticas, muito desatadas, em prosa deslavada, derreada, enxarciada de gallicismos, cahotica, apontoado enxacôco de retalhinhos apanhados á tôa n'uma canastra de apontamentos baralhados e atirados para o prélo. Toda a farragem do snr. Braga é isto, creiam-me os Pisões e a snr.^a Rattazzi. A cabeça tôa-lhe a vazio, em competencia com a da sua admiradora. Todo elle é uma bexiga de gazes maus; quando a apertam, faz-se mister, como para o _portugaison_, apertar o citado appendice.
Diz que o snr. Luciano Cordeiro é um dramaturgo original: parece que a originalidade do snr. Luciano Cordeiro está em não ter escripto drama algum.
Reflexionando conspicuamente sobre a nossa deploravel instrucção publica, sahe-lhe de molde contar que nós, os portuguezes, a um brazileiro que passa chamamos _macaca_. Que o brazileiro vai passando, e nós dizemos: _É una macaca_.
Não é tanto assim; não se lhe desfigura o sexo. Se a princeza, ao passar, ouviu dizer: _é una macaca_, isso não era com o brazileiro.
E a proposito de _macaco_:
Tendo esta dama escripto lisonjeiras cousas da gentileza e bonito feitio dos homens portuguezes, exceptuou caprichosamente um criado do Hotel Mondego, o _José Macaque_. Diz que elle tem uma _fealdade socratica_. Eu não affirmo que José Macaco seja um galan com o perfil de Bathylo de Samos nem os tres quartos do Cupido de Corregio. Anacreonte de certo lhe não toucaria as louras madeixas de pampanos e rosas de Teos, nem me persuado que Sodoma ardesse por causa d'elle ou de mim. Assim mesmo, sem algum motivo estranho á plastica, a princeza Maria Letizia, indisposta com José Macaco, não lhe perpetuaria no seu livro como em um bronze de Esopo, a fealdade. Devia de haver uma causal esthetica para injuria tão desproporcionada com as culpas arguidas a José Macaco. Sua alteza não o baldeava á zombaria dos seculos porvindouros pelo delicto de lhe não servir _mayonnaise de lagosta à la gele_, nem _mexilhões á provençal_. Indaguei, por intermedio d'um meu amigo em Coimbra, quaes as causas ingentes dos odios assanhados pela Discordia ignivoma, como diria Homero, entre Macaco e Princeza. Tentaria elle como o hediondo Thersites da Iliada arrancar com suspiros absorventes os olhos meigos da nova Pantasilea? Trato de averiguar. Se a resposta não vier a tempo, dar-se-ha em appendice supplementar.
Trata com amoravel equidade o snr. G. _Junqiero_. Acha-lhe bellas cousas no seu _don Jooâ_, e que realça no estylo menineiro, _enfantin_. O snr. Junqueiro, se bacorejasse este obsequio, não mettia na sua Viagem á roda da Parvonia uma _Princeza Ratazana_, «em toilette myrabolante, cheia de pedrarias e plumas». A princeza Ratazana da farça dá um jantar a lyricos e satanicos, e canta:
_É um paiz singular A patria dos malmequeres! Póde-se dar um jantar Ficando os mesmos talheres_.
Mas os convivas, a quatro libras por cabeça,--o snr. Guerra, _gratis_--põem-se nas flautas, e ella abysma-se no buraco do ponto. A troça está impressa. Guerra Junqueiro vingou A. A. Teixeira de Vasconcellos.
Este escriptor, prodigo de gabos e cortezias aos seus collegas, houve-se cavalheirescamente com a princeza. Fez folhetim heraldico da sua raça corsa, do espirito e dos livros que eu apenas conhecia de lh'os vêr citados no Dictionnaire de l'argot parisien, por Lorédan Larchey, Paris, 1872. Ella é authoridade em giria. Antonio Augusto achava-lhe talento, e ia jantar com ella. O escriptor morreu; e a snr.^a Rattazzi celebra d'est'arte a memoria do seu panegyrista e hospede:
«_Antonio-Augusto Texeiro de Vasconcellos_. O Casa nova portuguez[2]. Seria de mais chamar-lhe celebre, mas notavel por muitas distincções, sim. A primeira pelos grossos escandalos que datam já de Coimbra, onde estudava; depois por grandes farçolices de que uns riam, e outros choravam. Por algumas foi asperamente castigado. O que elle podia melhor escrever eram as suas memorias; com certeza, tinha com que alvoroçar a curiosidade publica. Pensaria n'isso? É provavel que sim, mas faltou-lhe o tempo. Como quer que fosse, essas memorias só poderiam publicar-se depois d'elle morto; se as publicasse em vida, correria o perigo de o espatifarem». É uma princeza a escrever d'um homem fallecido que a inculcára litterata distincta no _Jornal da Noite_, mentindo á gente por um excesso de cavalheirismo fidalgo que o desculpa, e mais relevante faz resaltar a ingratidão da leitora do _Casa nova_.
Crueza e indignidade que não desafinam das tradições corsas da sua familia; mas que será difficil encontrarem-se em uma senhora de _la haute vie_, uma irlandeza de mais a mais, uma Wyse, fina flôr fanada da _Gentry_.
A snr.^a Maria Letizia esteve no Porto, onde «viu o _lindo riacho, Rio de Viela_ que atravessa diversas ruas»; conversou com a snr.^a _Alveolos_, ingleza gorda que, por signal, a não percebeu. Conta-nos--digno Plutarcho--a biographia da estalajadeira do _Francfort_, e viu a confraria dos _Pénitents rouges a descer da collina para o rio, e parar com tochas accesas á porta d'uma casa mourisca com vidraças coloridas, e paredes esmaltadas de adobes azues_. Que diabo de visão! O Hoffmann não veria isto no Porto sem beber muito de 1815. Os _penitentes vermelhos_!
Tambem esteve em _Cedeifata_ e no palacio de crystal, acompanhada _par le savant docteur Ricardo Costa_. É admiravel como ella, n'um lance d'olhos, apanhou as linhas intellectuaes e scientificas do senhor doutor Ricardo Costa! Quantas pessoas andam duzias de annos á volta d'um sabio sem o penetrar!
Na carta XXIII, esta mirifica epistolographa mette a riso a nossa pronuncia nacional, os sons nasaes, as desinencias em _oês_ e em _aô_, que nos ficaram da lingua _galoga_, e se pronunciam _ouenche_, _anhon_ «com um accento «violento de nariz que só bem póde imitar-se pegando n'este appendice com a mão toda para bem proferir o _portugaison_». Sim, elle é preciso pegar no appendice para bem pronunciar o _portugaison_.
Vence-me o tedio; mas não me punge o remorso de ter lido 415 paginas. Tenho, porém, vergonha de que um ou outro portuguez, desnacionalisado por despeitos pessoaes e politicos, se compraza de vêr os seus conterraneos enxovalhados pela snr.^a Rattazzi, cuja maledicencia é notoriamente europêa. O seu renome de desbragada sem-ceremonia ganhou-o em Italia e Paris a ponto de lhe imputarem as brochuras crapulosas do infame bandido Vésinier, um corcunda petroleiro que espingardearam em 71. Elle publicára na Belgica o Mariage d'une espagnole com as iniciaes _M. de S._, em que muitos decifraram _Marie de Solms_ (Les membres de la commune, par _Paul Dehon_, pag. 241). Outros davam quinhão na torpeza a _Sch[oe]lcher_ (Histoire de la revolution de 1870-71, por _Claretie_). Era uma calumnia que a não pungiu grandemente; um dia, porém, o despejado amanuense de E. Sue fez confissão publica e vaidosa de ter vendido esses farrapos de baixo alcouce aos editores belgas.
A senhora princeza, se em vez de _puffs_ usasse calças e voltasse a Portugal, de certo acharia quem lhe désse umas. Tem por si o arnez da fragilidade, posto que as senhoras um pouco durazias, e por isso menos quebradiças, devem ater-se menos á irresponsabilidade das qualidades vidrentas. Em todo o caso, a gente admira-se, porque esta especie de extravagancia não é vulgar, e só póde perdoar-se ao talento que a snr.^a Rattazi não professa. Tenha paciencia. É uma patarata, _a ragged woman_, com uns quindins de _mauvais aloi_, trescalando a _boudoir-Lenclos_, com umas guinadas de _verve_, barrufadas de _champagne frappé_. De resto, é uma princeza que nos faz lembrar, quanto aos seus diplomas principescos, a rainha Jacintha de negra memoria, e quanto aos seus morgadios realengos não nos parece mais donataria que a illustre senhora da ilha das Gallinhas. Em conclusão: o seu livro não é cano de escorrencias muito nauseabundas, nem é canal de noticias uteis, tirante a dos hoteis infamados de persevejos; não é pois cano, nem canal; mas é canudo, porque custa sete tostões; e--vá de calão--como troça e bexiga, é caro.
Notas:
[1] La verité sur M. Rattazzi, par _l'Inconnu_.
[2] Quem houver lido as Memorias de Casa nova, um patife no genero Lovelace peorado, tem comprehendido a crueza da comparação.
End of Project Gutenberg's A senhora Rattazzi, by Camilo Castelo Branco