Part 1
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A SENHORA RATTAZZI
NOVA EDIÇÃO
Porto: 1880--Typ. de A. J. da Silva Teixeira, Cancella Velha, 62
A SENHORA RATTAZZI
POR
CAMILLO CASTELLO BRANCO
NOVA EDIÇÃO
MAIS INCORRECTA E AUGMENTADA
LIVRARIA INTERNACIONAL DE ERNESTO CHARDRON, EDITOR PORTO E BRAGA
1880
PREAMBULO
Á NOVA EDIÇÃO
O assumpto aqui tratado--a brochura da snr.^a Rattazzi--tem duas physionomias: uma para risos, outra para critica sisuda. Se uma das faces nos avinca a fronte, a outra tem virtudes therapeuticas de _désopiler la rate_. Eu tentei, pela galhofa pachorrenta, esquivar-me ás phrases amargas que a segunda physionomia--a seriedade--me impunha.
Se uma dama de má lingua nos belisca, devemos imaginar que ella nos faz cocegas; e, em vez de lhe trincarmos os dedos que nos estorcegaram a pelle, corre-nos o dever de imitar quem soffre as cocegas--rir e pernear; mas a mim, ás vezes, succedia-me, quando fazia cocegas a alguem, levar o meu sopapo involuntario. É o que póde acontecer a quem faz cocegas disfarçadas em beliscões.
Un ami de madame, no _Jornal de Noticias_, cheio d'uma paciencia portugueza e muito namorada com as lerdas chalaças da snr.^a Rattazzi, acha que o zangarem-se os portuguezes beliscados por madame é _falta de espirito_.
Assim como, no dizer da princeza de pacotilha, _il y a ventre et ventre_, tambem ha beliscões e beliscões, ó invejavel amigo de madame! Uns são attritos de arminho, cariciosos, como o roçar de dous botões de rosa-chá, em dous dedos opalinos com unhas nacarinas, pelos bigodes encalamistrados de s. exc.^a, o amigo d'ella e de Peniche; outros, são mordentes como tenazes de caranguejo, farpadas de vibora; e, se não deixam contusões rôxas e largas como pontapés de gallegos, penetram os filamentos nervosos e os tecidos cellulares como uma injecção subepidermica de vitriolo. Que a injecção me seja ministrada pela regateira que me vende os seus carapaus, ou pela princeza que me vende os seus livros, queima-me do mesmo feitio. A cravache de Lola Montes doía como se a vibrasse o pulso rijo de Roger de Bauvoir.
Mulher escriptora, por via de regra pouco exceptuada, é um homem por dentro. O coração, que devia ser urna de suavissimas lagrimas, faz-se-lhe botija de tinta; e as dôces penas da alma metallisam-se-lhe aguçadas em pennas de aço. O fuso de Lucrecia e da rainha Bertha desfez-se em canetas. Em vez de tecerem o seu bragal, urdem intrigas. Suspiram publicamente em 8.^o portuguez, 250 paginas; e, quando não suspiram, bufam coleras represadas, dizem que tem idéas, que se querem emancipar, muito aziumadas, naturalistas, com um grande ar de pimponas que entraram no segredo dos processos; e, se não batem nos homens, não é porque elles o não mereçam. O amigo de madame, esse, tem de apanhar do sexo, mais hoje, mais ámanhã.
O Dom Francisco Manoel de Mello tinha razão: _Mulheres doutoras, authoras e compositoras_ dava-as ao diabo. _É triste cousa_, prosegue o critico do Hospital das Letras--_que estejaes com vossa mulher na cama, na mesa, ou na casa, e andem lá pelas tendas mil barbados perguntando por ella_.
Não ha feminilidades que se respeitem desde que a mulher se masculinisa, e, como escriptora virago, salta as fronteiras do decoro, sofraldando as espumas das rendas até á altura da liga azul-ferrête.
Mau! começo a ser muito serio e metaphorico. Por aqui me fecho.
N'esta edição augmentam as incorrecções á proporção das paginas. Algumas vão muito alagartadas de francezias para que sua alteza perceba pouco que seja do pamphleto.
Se um periodo serio não destoasse d'esta brincadeira, eu lembraria aos meus conterraneos que o repellirem patrioticamente as zombarias dos insultadores estrangeiros lhes é mais airoso do que esse palavriado de rimas bombasticas e fofas com que suppuram em golfadas annuaes o seu patriotismo no _Primeiro de dezembro_.
Não obstante o silencio dos vates encartados na hymnologia patriotica, a maioria da imprensa antecipou-se-me no vigoroso desforço da justiça, e nomeadamente o snr. Urbano de Castro, um escriptor moderno, com os dons do estylo e da graça que seduzem velhos impertinentes e glaciaes como eu e outros infelizes da minha idade. A favor da snr.^a Rattazzi tem sahido uns poucos periodicos faiantes, sargêtas por onde tresandam os seus fedores as fezes litterarias de Lisboa. São os orgãos da ralé sarrafaçal, uns madraços desencadernados que vivem na gandaia politica, engenhando republicas carnavalescas. É n'esses periodicos de mixordias plebêas até ao asco que o snr. Theophilo Braga se esconde a escrever, como em parede de latrina, uns desabafos pelintras de quem não acha na imprensa séria fonticulos por onde suppurar o pus. A princeza póde contar com este panegyrista.
A SENHORA RATTAZZI
Depois de estudar os portuguezes e as portuguezas com frequentes visitas celebradas por _menus_ economicos e risos de ironia larga, a snr.^a Rattazzi concebeu das suas impressões viris e masculas um livro que deu á luz em janeiro, e denominou Portugal à vol d'oiseau. Portugais et portugaises.
Eu, creado no velho noticiario, tendo de annunciar o producto d'uma dama dado á luz, antes quizera, em vez d'um livro bom, annunciar um menino robusto. Acho muito mais sympathica a feminilidade das mães pallidas, com olheiras, emaciadas, que aconchegam dos seios exuberantes a criancinha rosada, recem-nascida. Não me commove nem alvoroça o espectaculo d'uma authora que se remira e envaidece na brochura que deu á luz, obra entre cinco e sete tostões--740 reis com estampilha. Por isso, antes quero noticiar um menino robusto que um _oitavo_ compacto.
Principia a snr.^a Rattazzi por declarar com raro entono _que conta e pinta o que viu sem deferencias pessoaes nem preoccupações do que a seu respeito se possa dizer ou pensar_. Bom é isso. O menospreço que a escriptora liberalisa á opinião publica portugueza permitte á critica o dispensar-se de grandes melindres. Á vontade.
Se alguém me arguir de bastante descosido no exame do livro, queira lêl-o com paciente pachorra, e verá que eu bispontei sobre os alinhavos atrapalhados da senhora princeza. Se me acharem um pouco em mangas de camisa, façam-me o favor de vêr que a _shocking_ irlandeza nos visita de penteador de rendas transparentes e chinelinha de chinchilla.
Calumnía, apenas começa, affirmando, contra o caracter d'esta boa gente portugueza, que D. Pedro V, e os infantes D. Luiz, D. João e D. Augusto foram atacados do _typho-arsenical_--envenenados. Uns morreram. D. Augusto ficou atarantado, mas com graça--uma timidez _non dépourvue de charme_; e D. Luiz, esse, teve _de la chance_:--que duas vezes fôra preservado da sorte de Britannicus. Exceptuados os gremios palurdios d'algumas boticas de provincia, ninguem hoje repete semelhantes atoardas. Quando quizeram por odio politico enlamear a reputação immaculada d'um duque, desembéstaram-lhe o venabulo ao rosto sereno. O aleive cahiu então, e levantou-se agora na indiscreta obra mexeriqueira da snr.^a Rattazzi.
Quando a morte fulminou, a curtos intervallos, na Italia, duas rainhas da Sardenha e o duque de Genova, madame Marie de Solms, em versos por signal muito ordinarios, insinuou que o fanatismo tôrvo dos padres tinha brandido nas trevas a cruz á feição de gladio. Na Italia era o clero, aqui foi o veneno dos Medicis. Acha que os principes não podem morrer de morte natural; e bem póde ser que sua alteza venha a acabar de doença reles, com pedra na bexiga, hydropica, com lombrigas, com grandes perturbações flatulentas no seu apparelho digestivo--uma desgraça para as letras.
Avaliando o clero portuguez, manda lêr o Crime do padre Amaro. Um romancista habil engenhou um padre mau que afoga um filho, uma perversidade estupida e quasi inverosimil em Portugal, onde os padres criam os afilhados paternalmente. Eis, segundo ella, o typo da clerezia portugueza, o _padre Amaro_. A snr.^a Rattazzi geme escandalisada sobre a corrupção do sacerdocio, e cita o romance.
Do clero naturalmente deriva para o culto. A respeito do S. Jorge da procissão de Corpus-Christi, a princeza espirra fagulhas de espirito forte, d'um voltairismo sediço, com um desplante extraordinario em mulher. Não se cohibe de gracejar com o symbolismo sempre respeitavel quando inculca, seja como fôr, uma religião e uma moral--cousas consubstanciaes. Não a retém a senhoril e prudente moderação de Staël e Sand, e sobretudo o feminil decoro de viuva duplicada, de mãi e de velha, embora os atavios façam pirraça á chronologia. Moteja das pompas religiosas no tom das _turlupinades_ da petrolista André Léo, e arma á risada com facecias d'um alumno da escóla-militar que leu o Testamento de Jean Meslier e o Citador de Lebrun.
Moteja dos _Cyrios_. Segundo ella, os portuguezes, tomando a parte pelo todo, chamam ás «procissões» _Cyrios_, porque levam _velas accesas_. Muita chalaça a este respeito. Mulher irreligiosa é uma razão perdida no vacuo da consciencia; mas a que faz praça da sua incredulidade é cousa repugnante, tanto monta ouvil-a na sala como na taberna.
Se a snr.^a Rattazzi fosse uma escriptora seriamente critica, ridiculisando o maior santo de Inglaterra, devia contar aos portuguezes que Jorge foi um fornecedor de toucinho (_bacon_) do exercito romano, e que em vez de fornecer, cosia-se com os lardos suinos como qualquer fornecedor do exercito brazileiro do Paraguay. A justiça perseguiu-o como concussionario; Jorge safou-se, fez-se ariano, e levou d'assalto a cadeira archiepiscopal de Athanasio. Depois, na capital do Egypto, a execração publica encarcerou-o afim de o processar; mas o povo, impacientado com as delongas do processo, atirou-o ao mar. «Como é que este malandrim (pergunta Campbell na biographia de Shakspeare) chegou a ser transformado em S. Jorge, patrono dos exercitos, da arma de cavallaria e da ordem da Jarreteira?» Campbell diria á senhora princeza: «Patricia, antes de escarnecer as crenças portuguezas, zombe das inglezas. O santo é nosso, e Deus sabe que bestialidade grande praticaram os lusos admittindo um santo da Gran-Bretanha na vanguarda d'uma jolda de velhacos que lhes fizeram á industria da metropole e ás colonias d'Africa o que o tal Jorge fez ao toucinho dos soldados romanos».
Ora, se é facto que o sujeito sizava a carne de porco das legiões romanas, esse devia ser coherentemente o santo tutelar d'Inglaterra. Eu, porém, segundo a minha historia ecclesiastica, muito mais orthodoxa e correcta que a de Campbell, pendo a crêr que S. Jorge era um principe da Cappadocia que soffreu martyrio, imperando Diocleciano, depois de ter matado um certo crocodilo que queria comer a filha do rei Aja. Jorge levou talvez em vista, n'este crocodilicidio, plagiar Perseu que matou outra fera que queria comer Andromeda, filha do rei Cepheu. O que é certo é que os saxonios, estes selvagens, incapazes de produzir um santo, adoptaram o da Cappadocia. Nós é que não tinhamos necessidade do santo, dando-se o caso de mais a mais de sermos ridiculisados por causa d'elle no livro da snr.^a Rattazzi, princeza que de certo não vai ao florilegio como o seu collega principe Jorge.
Sobre materia intrincada de cultos, presume que o enigma poderia ser resolvido pelo bispo de _Visens_, Alves _Martius_. Este nome está bastante corrompido para se pensar que o prelado de _Visens Martius_ é um bispo mosarabe, coevo do duque de _Laf[oe]s_, com diphthongo.
Deturpar nomes de bispos e duques pouco importa; é muito peor divulgar, ácerca das realengas aspirações d'uma duqueza benemerita de respeito, umas chocalhices cochichadas nas salas, mas nunca escoadas pelo esgôto da imprensa séria. Allude em termos esbandalhados de actriz patusca ao duque, marido d'essa duqueza, e attribue ás barrigas das senhoras portuguezas um exquisito predominio abdominal sobre os esposos. Esta senhora, que tem apenas a carne indispensavel para se não confundir com um fluido, abomina metaphoricamente os ventres grandes, as barrigas das damas portuguezas fidalgas que nobilitam nas suas membranas os maridos e os filhos. Pilherias de _farceuse de goguette_. Umas _buffoneries de petit souper_,--_can-can_ de sobre-loja entre costureiras que bebem do fino e teem namoros nas cavalhariças do paço.
A snr.^a Rattazzi ri muito das superfetações cosmeticas e oleosas do conde de M. Valha-nos Deus! A snr.^a princeza, como objecto colorido, é ha muitos annos uma chromo-lithographia das obras do bibliophilo Jacob. Que Alphonse Karr me não deixe mentir.
Do duque de Saldanha repete anecdotas chinfrins que põem gargalhadas sobre a campa do bravo caudilho a quem D. Pedro IV agradeceu a corôa de sua filha. Conta um dialogo forte que elle teve em 1851, ás quatro horas da manhã, com a rainha D. Maria Pia, e que ella mostrára desejos de o mandar espingardear. Ora, em 1851, a senhora D. Maria Pia, o Anjo, tinha quatro annos, e desde que veio para o throno de Santa Isabel e de Santa Carlota Joaquina apenas tem espingardeado alguns borrachos, 4 em 5. E o duque de Saldanha--conta a princeza--apresentou-lhe a esposa no seu palacio d'ella em Antin. Assim zomba a snr.^a Rattazzi dos seus amigos mortos e matraquêa Saldanha que a visitava, quando o _Figaro_ a escarnecia e Pelletan lhe desenhava o perfil na Nouvelle Babylone.
Está a caracter quando, annotando um artigo espirituoso do _Pimpão_, explica á Europa o que é o «Perna de pau» e a «Horta das tripas» (_Jardin des tripes_). Falla muito de _faguêtes_ que a incommodam, e diz que _Vm.^{cê}_ é o diminutivo de _V. Exc.^a_. Investigando a linguistica, observa que não dizemos _o_ rei, mas _el_-rei; e que o _el_ é recordação mourisca e vestigio da occupação dos arabes. Confunde o artigo hespanhol _el_ (do latim _ille_) com o artigo arabico _al_, prefixo a muitas palavras portuguezas. As _Therezas philosophas_ são muito mais vulgares que as Therezas philologas. Diz que o nosso _ai Jesus!_ tambem é musulmano, e o _se Deus quizer_ tambem é vestigio arabico. É uma mulher das arabias, ella!
Faz rir á custa dos archeiros que tocam o tambor á chamada. A snr.^a Rattazzi nasceu em Inglaterra onde hoje em dia se conservam usanças ridiculas, ratices que se avantajam muito á do archeiro que rufa a caixa. Exemplo: os dous manequins monstruosos chamados Gog e Magog que assistem á recepção do lord-maior no salão Guil-Hall. Depois, mais irrisorias que os archeiros, as sentinellas da Torre de Londres, chapéos de velludo emplumados, adaga á ilharga, farda escarlate acolchetando nas costas, e as armas de Inglaterra com a tenção de Henrique VIII matizadas no peito. E que nos diz a snr.^a Rattazzi ás cabelleiras Luiz XV, de cachos empoados, com que se toucam os juizes antes de se amezendrarem com offenbachiana parlapatice magestosa nas cadeiras da magistratura em Westminster-Hall? E aquelle sumptuoso coche tirado por cavallos baios em que se estadêa o carniceiro opulento, com os braços nús e a camisa arremangada até ás claviculas? Se a Gran-Bretanha nos não exhibisse estas gargalhadas, teriamos de nos remediarmos com o producto da ex-princeza Studolmire Wyse que só de per si tem a _vis insita_, a força ridicula latente das dynamisações altas.
Penetra na vida intima dos portuguezes, no segredo dos seus amores castos, amor que só os olhos exprimem. Não gosta. Acha isto semsaboria, e chama-lhe _paixão è olhadas_, para exprimir bem portuguezmente a cousa. Á _Casa Havaneza_, onde se refastelam muitos dos taes «apaixonados das olhadas», chama _clubo des bavards_. Diz que em Portugal as meninas de doze annos tem _olhadas_ e carteiam-se. Acrescenta que é rara uma mulher galante portugueza; mas que os homens são, na generalidade, bonitos e bem feitos--_beaux et bien faits_. Isto captiva a gente. Contou alguem á princeza a historia fresca de um velho par do reino «que se lambia» dizendo a paixão que inspirára a uma joven que só á beira d'elle sentia o lyrismo e as delicias do amor. A snr.^a Rattazzi espantou-se, e do velho idiota inferiu que em Portugal todos os velhos se lambiam d'amor.
Foi aos touros; viu os _capêlhas_ portuguezes, e os _torreros_ e os _forçados_ (forcados) que ella diz assim chamarem-se, _forçados_, porque _forçam_ os applausos. Está em primeira mão esta sandice. (Se o leitor quizer corrigir a minha indelicadeza, onde está _sandice_ leia _sandwiche_). Como successor do _conde_ de Castello Melhor no garbo e destreza cavalleirosa de toureiro, menciona _Rebello da Silva el Castro_. Provavelmente do historiador da Ultima corrida de touros em Salvaterra fez um toureiro equestre no campo de Sant'Anna. Diz que, a pedido da commissão, offerecera uma «mona»--_reminiscencia poetica da idade média_. Achou na idade média as _monas_. Sua alteza acha um tanto canibal o prazer das touradas, mas nem por isso é _moins immense_ (este _immenso menor_ que o immenso maior, é bom). Nos theatros da _Trinidade_ e do _Principo_, desagradou-lhe o pessimo costume de _pateader_. Diz que as obras do theatro de S. Carlos foram dirigidas por _Santo Antonio da Cruz Sobral_. Lá fóra ha de cuidar-se que temos um _Santo Antonio de Lisboa_ para os milagres e outro _Santo Antonio da Cruz_ para os theatros.
Sobre politica decifra alguns artigos bons do _Pimpão_ e guiza varias beldroegas de sua lavra. Entra bem na questão financeira, na fiduciaria, dos Bancos, no escandalo das loterias e do jogo. Faz um moral opusculo em assumpto de rolêta.
Tratando de jornaes, traslada e traduz annuncios aphrodisiacos do _Diario de Noticias_, e diz que o snr. Thomaz Antunes é _moco fidalgo_. O snr. Antunes não é _fidalgo moco_; tem a cedilha: saiba-o a França. Do _Jornal da Noite_, escreve que A. A. _Texero_ de Vasconcellos noticiava principalmente anniversarios e nascimentos, dava a lista dos numeros mais premiados na loteria, e d'isso ia vivendo. Assim atassalha a snr.^a Rattazzi a reputação jornalistica do mais rijo pulso athleta que teve a arêna dos gladiadores politicos--o rival de A. Rodrigues Sampaio. Nem A. Augusto era outra cousa. Logo veremos como ella conceitua socialmente o seu conviva e panegyrista.
Menciona como collaborador da _Correspondencia de Portugal_ o snr. Rodrigues de _Treitas_. Se lhe chama _Tretas_ ao illustrado e honesto republicano, merecia uma descompostura.
Tambem versa a questão cornigera dos gados, _des bestiaux_. Louva, ao intento, um Relatorio do snr. conselheiro _Morres_ Soares. Morres? Longe vá o agouro. Desejo que o snr. Moraes Soares viva muitos annos, para nos dar muitos relatorios sobre _bestiaux_, e mais occasiões a que esta princeza se occupe das nossas vaccas--objecto em que é ella a unica senhora concorrente com as leiteiras saloias.
Em uma pagina util e talvez a unica proveitosa aos viajantes, informa ácerca dos hoteis. Diz que no «Hotel de Lisbonne» ha muitos ratos; no «Alliança» persevejos; e no «Gibraltar» _baratos_ (não confundir preços _baratos_ com «baratas», ou «carochas»). Depois d'esta asseveração impugnavel, esteia a sua affirmativa em uma passagem do _Cousin Bazilio_ onde se lê que em Lisboa ha persevejos. Luxo escusado de erudição. Os persevejos em Lisboa são d'uma tamanha evidencia fetida e mathematica que se dispensava o testemunho do snr. _Eca de Queroz_, de _Querioz_, ou de _Querioze_, que vem citado como Plinio para os lacráos, e Livingstone para a _Tsetse-fly_, mosca mortifera da Africa.
Espanta-se dos muitos Burnay que em Lisboa exercitam varios ramos de industria. Acha que a Lusitania, n'este medrar de Burnay, virá a chamar-se _Burnaisie_. Depois escreve: _Il faut mentionner, ne fût ce que pour faire contraste, les Gallegos à cotê des Burnay. Les uns exploitent, les autres sont exploités_. Esta princeza, com quem o snr. Ramalho trocou o seu francez parisiense, de certo ouviu dizer ao festejado escriptor que a familia Burnay é um grupo de homens honrados e laboriosos que não se pejam de ser defrontados com outros homens honestos e trabalhadores embora procedam da Galliza; mas não exploram: trabalham e colhem, quando lh'o não desfalcam, o estipendio honesto das suas fadigas.
Tem bons chascos quando zomba dos nossos _viscondes das Ervilhas_ e _do Esperregado_. D'estes viscondes saberá sua alteza que se fazem as _princezas do Esperregado_ e _das Ervilhas_. Se a snr.^a Rattazzi se lembra d'arranjar um _visconde dos Tabacos_, sahido d'um estanco, esse visconde ferido na sua honrada industria, poderia lembrar á neta de Luciano Buonaparte que a princeza Rattazzi é bisneta d'um vendedor de tabacos, pai de sua avó, a snr.^a Blescamb, viuva d'um empregado bancario. Mas os _tabacos_ trahiram-na, quando, enxovalhando os enormes serviços do fallecido conde de Farrobo á causa da liberdade, diz desdenhosamente que o pai do conde tinha o monopolio dos tabacos e que _a sua nobreza era de fabrica_.
Esteve a snr.^a Rattazzi em _Pedroncos_ e _Massa_. O leitor que já lhe conhece o processo da orthographia geographica, entende que ella esteve em Pedrouços e Mafra. Exhibe as vulgaridades obrigatorias, e dá-nos a noticia inedita e lisonjeira de que Byron chamou a Cintra _glorious Eden_.
Espeta-se na historia da litteratura portugueza, lamentando que não haja uma grammatica official. Ha dez ou doze officialmente approvadas; mas não é isso que a snr.^a Rattazzi pretende: quer uma grammatica official, uma cousa em que os poderes legislativo e moderador decretem positivamente o que ha sobre o gerundio e o participio indeclinavel. Para que diabo quereria ella uma grammatica official? Depois, estabelece a fileira dos escriptores classicos, e manda lêr as Cartas de Marianna de _Alcofarrada_. Infausta freira! um francez atormentou-lhe o coração: e uma irlandeza martyrisou-lhe o appellido. _Alcofarrada_! Credo!
Disseram-lhe que Affonso Henriques teve um aio, Egas Moniz, o da lenda heroica, que era poeta. Teve ignorantissimos informadores que confundiram o aio Egas Moniz com o trovador Egas Moniz Coelho, fabuloso author das conhecidas trovas.
Trata dos Autos, mysterios christãos posteriores ás _judarias_--uma perfeita judiaria d'esta litterata;--e conclue que as melhores peças do theatro moderno portuguez são a _Nova Castros_ de João B. Gomes, e a _Osmia_ da condessa de Vimieiro. Convém saber que o Gomes e a condessa estão enterrados ha bons 70 annos. Tem este modernismo.
Em seguida, põe á frente do progresso dramatico José Freire de Serpa, Alexandre Herculano, e mais o snr. Ennes. Estão bem postos todos tres.
Entre os oradores especifica o conde de _Thomaz_; e, como Manoel Passos dava eloquencia a dous, fez d'elle dous oradores--um orador _Silva_, e outro orador _Passos_. Diz que Rodrigues Sampaio é o primacial do jornalismo litterario; não chega a attribuir-lhe algum soláo. Quanto a Almeida Garrett, escreve que era um catholico cheio de fé e sem philosophia, e por isso não fez escóla nem discipulos. Idéas parvoinhas do snr. Theophilo Braga.
Conta que Alexandre Herculano viera em 1836 da emigração que lhe inspirára a Harpa do Crente. Que Alexandre Herculano, antes de emigrar, estivera ao serviço de D. Miguel--_qu'il avait servi d'abord_. E, no restante, as idéas do snr. Ramalho expendidas nas Farpas, mas um pouco deturpadas. Aquelle grande homem, Herculano, segundo conta a snr.^a Rattazzi, visitou-a e levou-lhe os seus livros. Diz ella que foi a ultima visita que fez o eminente escriptor. Se isto é verdade, foi a ultima e talvez a primeira asneira da sua vida.