A Morte Vence

Chapter 3

Chapter 33,681 wordsPublic domain

Nuno casou, entregou-se às meigas preocupações do seu amor, não tornou a falar com Frederico, a não ser por cartas: mas êste facto nunca mais lhe esqueceu. Permaneceria ainda o amigo dentro dos apertados limites das mesmas ideias, prevaleceria no seu espírito o terror ao casamento? Era provável que assim fôsse: mas Frederico seria uma testemunha da sua felicidade, que era imperturbável e perene: e podia muito bem acontecer que modificasse raciocínios falsos. Felicitava-se por êle haver aceitado o seu convite, porque talvez a permanência naquela casa o convertesse--o que seria sumamente grato ao afecto que lhe consagrava.

--Porque não? Porque não?--monologava Nuno.

A aridez da existência de Frederico entristecia-o, porque o estimava profundamente. A-pesar da sua leviandade, duma ponta de cinismo que a vida lhe transmitira, do pessimismo que tornava estéreis os seus anos alacres e improdutiva a sua actividade, êle era um excelente moço duma lealdade firme, afável, encantador por mais dum traço da sua personalidade: e só por isto, lhe abrira alegremente a porta da sua vivenda onde com sobressalto, quáse com ciúme, guardava quanto possuía de mais querido e de mais puro...

Um berro súbito interrompeu o fio do scismar de Nuno. Frederico, já lavado do pó da viagem, já perfumado, já mudado de roupa, entrou inesperadamente na varanda, exclamando:

--Tenho andado a procurar-te por tôda a parte inutilmente.

--Estava aqui a reviver coisas extintas que a tua chegada me sugeriu. E sabes o que evoquei? Não sabes? Pois foi a última conversa que tivemos nas vésperas do meu casamento. Lembras-te?

--Perfeitamente...

--E ainda pensas da mesma forma?

--Pois que razão havia de desviar-me dêsse pensamento?

--Vejo que és um convicto no êrro.

--Como tu o és na verdade...

--Bem, bem. Não falemos mais nisso!... Ocupemo-nos de coisas proveitosas. Nem sequer viste o meu morgado... Vou mostrar-to. Anda comigo.

Enquanto se dirigiam ao quarto da ama, que comunicava com o de Nuno por uma ampla porta, êle ia-lhe fornecendo esclarecimentos sôbre o filho:

--Oh! é um respeitável senhor com as pernas e os braços às roscas de carne, uma cara rabugenta e uns olhos negros como contas de vidro que, a-pesar-de ser ainda pequenino, é já um déspota. Manda em mim, manda na mãe, que o adora, e, como os príncipes, tem servos atentos à volta da sua importante pessoa. Todos nós somos seus escravos.

Atravessavam um corredor quando Júlia apareceu com a criança ao colo, entre rendas, cambraias, laçarias de sêda.

--Aqui o tens. Vê que figurão!

Frederico curvou-se para uma carinha rosada, emergindo da brancura imaculada das roupagens, tocou-lhe levemente com a mão na face, esteve um momento a contemplá-lo.

--Hein? Que te parece?--perguntou Nuno, beijando, com ternura, o pequenino.

--Admirável!... Com certeza que a estas horas, já elegeste, para êle, um destino incomparável, já meditaste na situação que mais lhe convêm. É o primeiro dever dos pais.

--Coitadinho!--murmurou Júlia, enlevada.

--E V. Ex.^a tambêm, minha senhora. Ah! as mães! Se elas forem tôdas como a minha, que era uma santa, nunca se sentarão à beira dum berço sem sonharem quimeras para os seres que lá dormem.

--Não, não! Eu apenas quero que êle viva, para o meu amor, para o amor de Nuno.

--Cá por mim--atalhou Nuno--decidi.

--Sim? Então, conta lá...

--Resolvi fazê-lo rei, dar-lhe um trono...

--Oh! Nuno, que disparate!...--interrompeu Júlia.

--Disparate? Ora essa!... Que dizes tu, Frederico?

--Eu digo que, na verdade, um trono é uma grande comodidade para os mortais, mesmo por êstes ásperos dias de democracia, de revoluções, de indisciplinados movimentos políticos e religiosos. Sim, minha senhora. Nuno está na sapiência. Uma corôa, uma rialeza, milhões de vassalos vergados e sem vontade sob o poderio dum scetro é, entre tôdas as vaidades humanas, a mais invejável vaidade. Resta saber...

Júlia ouvia saborosamente as palavras de Frederico, afagando o filho, aconchegando-o mais nos braços, encostando-o ao seio com infinitas cautelas.

--Resta saber o quê?--interrogou Nuno.

--Resta saber se o pequerrucho terá uma decidida vocação para tirano...

Riram com alarido, dando alguns passos no corredor que a meia-tinta da luz refrescava.

--Se sair à mãe, será um tirano de primeira ordem!--concluiu Nuno, rindo ainda.

--Não creia, Frederico--replicou Júlia, jovialmente. Quem aqui sofre um domínio tirânico, sou eu!... Nem pode calcular...

--Imagino, imagino, minha senhora. E lamento-a. Em outras épocas, nos séculos mortos da cavalaria, eu ofereceria a V. Ex.^a uma espada libertadora. Mas, desde D. Quichote que os cavaleiros andantes não são bem vistos pela polícia. Tudo quanto posso fazer é recomendar-lhe resignação...

--Sou já uma resignada--disse ela, envolvendo Nuno num inexprimível olhar de afecto.

A ama veio pegar na criança, que agitava os bracinhos, que levava os punhos fechados à bôca e galrava, quando em baixo, no rés-do-chão, uma sineta de estridente timbre, tocou para o almôço, assustando as pombas no pombal.

--Ora, graças a Deus! Pensava que nos querias hoje matar à fome, Júlia--disse Nuno.

--Que horas são?

--Meio-dia. E Frederico deve estar com um apetite igual ao de Ugolino na sua prisão. Desde alta madrugada que rolou, através de estradas poeirentas, para nossa casa, animado na sua tortura pela única esperança duma farta mesa...

--Nem só de pão vive o homem--exclamou Frederico. Mas lá apetite há, bemdito seja o Senhor que nos fez assim glutões e terrestres.

Foram caminhando pelo corredor, ao lado de Júlia muito elegante no seu vestido de sedinha branca--um vestido que lhe modelava nítidamente as linhas corpóreas, ondulantes e flexíveis, e em que havia harmonia, graça e ritmo--entrando, por fim, na sala de jantar, que era espaçosa, clara, aprazível, com o seu mobiliário de nogueira americana, as suas três janelas abrindo para o jardim, os seus cortinados de renda inglesa, os seus _brise-bise_ de tule bordado. Nos aparadores, as pratas resplandeciam, iluminando-se de súbitas claridades; o esmalte das porcelanas pintadas faíscava de brilhos metálicos; os cristais dardejavam a um raio de sol que incidia nas vidraças e se prolongava como um delgado fio de ouro, ardendo, fulgurando, tremendo sôbre o verniz dos móveis. Uma perturbante fragrância vinha de fora, exalando-se das corolas, subindo na aragem.

--É agradável, esta sala!--louvou Frederico.

--Como situação...--alvitrou Nuno.

--Por tudo:--pela situação, pelo aspecto ornamental, pela simplicidade, que logo revela o solícito cuidado e o bom gôsto feminino... Os meus cumprimentos, minha senhora.

--Ora! Amabilidades de hóspede amável!--disse Júlia.

--Mas não, mas não! Digo a verdade, digo o que sinto.

A larga toalha da mesa, do linho mais puro e mais fino, alvejava entre os solitários com cravos e avencas e espalhava frescura; largas cadeiras de couro lavrado, de alto espaldar e pregarias de metal amarelo, ofereciam repouso; dos pratos cheios de fruta evolavam-se vivos aromas; os morangos, colhidos de manhã, no morangal, por Nuno, perfumavam o ambiente. Sentaram-se: e Frederico, desdobrando o guardanapo vagarosamente, afirmou:

--Pois, senhores, adorável retiro para uma doce convalescença de espíritos doentes, para um perfeito exame de consciência! Aqui é o El-Dorado que o dr. Pangloss em vão procurou na terra.

--Tu o dirás!--retorquiu Nuno. Mas mais tarde. Por enquanto, é cedo para julgamentos ousados. Não te precipites, não arrisques opiniões temerárias que podem ser erradas... Chegaste há três horas apenas.

--Há três horas já? Nunca, para mim, o tempo fugiu tam ligeiro...

Júlia sorria sempre, muito rosada, muito animada, diante de tôda aquela efusão do amigo da casa, que viera trazer com o seu afecto por Nuno mais movimento e mais vida à tranqùilidade inefável da vivenda rural. Os cabelos abundantes, enrolados no alto da cabeça e apenas presos por travessas guarnecidas a ouro em que fulguravam pequenos brilhantes talhados em rosa, caíam-lhe em madeixas até ao lóbulo das orelhas, onde duas pérolas dum belo íris reluziam em fogos surdos. Na sua testa ebúrnea havia toques de luz. Frederico olhou-a um momento, assim envolvida de claridade, satisfeita na sua ventura de mulher, numa atitude que dava a tôda a sua pessoa um extraordinário poder de sedução.

--Quem tem feito uma grande diferença, para melhor, é a snr.^a D. Júlia--disse.

--Sinto-me bem, com efeito!--respondeu ela.

--Eu, de resto, apenas a vi no dia do casamento, e já lá vão dois longos, fastidiosos anos. Mas parece-me que tem mais côr e mais saúde, que está um pouco mais nutrida.

--Pois, olha que veio para aqui adoentada, muito fraca--esclareceu Nuno. Meses depois do nascimento do filho, chegou a inspirar-me cuidados. Os médicos mandaram-na sair da cidade a tôda a pressa: e, com efeito, na aldeia, curou-se. Não há como o campo, para êstes milagres.

--Visto isso, minha senhora, por gratidão, deve ficar aqui, esquecer as grandes aglomerações, que são o veneno, a indigência orgânica, a morte...--comentou Frederico.

--Por mim, ficava. Mas Nuno não se acostumaria à solidão, à tristeza, ao isolamento...

E, como êle protestasse, acudiu logo:

--E nem eu, tambêm. Já outro dia falamos nisso... O inverno, neste destêrro, deve ser medonho...

O almôço decorreu alegre, no calor constante das palestras a que Frederico imprimia vivacidade e graça, com a sua _verve_ faíscante. À sobremesa, a conversação derivou para as questões sensacionais do dia, motivadas pela guerra que, dum extremo ao outro, pegava fogo à Europa, sepultando em ruínas uma civilização que levara tantos séculos a construir. Nuno achava-a necessária, pois só por ela seria possível restituir a liberdade aos povos e a independência às nacionalidades débeis. Júlia, pensando no filho, na desdita das outras mães, nas torrentes de sangue e de lágrimas que corriam nos campos de batalha e nos lares lutuosos, horrorizava-se com uma carnificina que imolava à morte as primaveras humanas. Não compreendia a ferocidade dos homens e das nações, despedaçando-se por ambições de domínio, de hegemonias políticas, de conquistas de territórios e de mercados comerciais, quando para todos havia um lugar ao sol e um direito à existencia. Falava com uma verbosidade que Nuno não lhe conhecia e que encantava Frederico.

--V. Ex.^a, minha senhora, é uma das poucas mulheres que assim pensam e eu creio que, como mulher, está na lógica e na verdade. Mas quer saber o que faz o gentil mundo feminino das potências envolvidas no conflito? Não pensa nas modas, no luxo, o que até agora parecia impossível. Trabalha nas fábricas de munições, faz granadas, engenhos de destruìção!...

--Por isso mesmo, essas mulheres são admiráveis!--atalhou Nuno, com entusiasmo.

--Admiráveis? Oh! Nuno, que heresia!--contrariou Júlia.

No seu critério simplista, ela compreendia que as mulheres, seres de abnegação e de sacrifício, destacando-se mais intensamente pela emoção do que pela inteligência, mais pelo espírito do que pelo cérebro, amassem as suas pátrias; mas era-lhe doloroso pensar que mãos de afago e de carícia, feitas para apaziguarem o sofrimento, para enxugarem com infinita doçura os olhos que choram, para sararem feridas, se ennegrecessem na pólvora, destinada a devastar homens que vão para os combates, passivamente, como as rêses para um matadouro. A sua colaboração nas pendências guerreiras nunca devia ir alêm dos hospitais de sangue, onde acalmariam dores e tranqùilizariam delírios.

--Pois, não é assim, Frederico? Diga! Seja imparcial.

--Na realidade, minha senhora, através de tôda a história, nunca vi as mulheres associadas às lúgubres matanças. Pelo contrário, tenho-as visto sempre dispostas a lutar para conseguirem tudo o que signifique elevação, nobreza, bondade, amor. Elas foram, positivamente, os melhores arautos de Jesus para a vitória do Cristianismo, que redimiu o mundo; elas impuzeram, com as religiões, a arte e a poesia.

--Então, aí está!--disse Júlia, com um sorriso triste.

--Vejo que tu não eras capaz de dar o teu filho, se ele fôsse grande e pudesse manejar uma arma, para a defesa do país--exclamou Nuno.

--Com certeza que não!--asseverou ela resolutamente e com uma grande convicção na voz. E digo-to:--para o defender da morte, eu era capaz de tudo, de tudo, mesmo dum crime.

--Pensa, portanto, no heroísmo das outras mães...

--Nenhuma delas os dará de bôa vontade... Arrancam-lhos à fôrça, cruelmente !

--Repara, Frederico! Aqui tens uma compatriota de Brites de Almeida, a padeira de Aljubarrota, de D. Filipa de Vilhena, doutras criaturas heróicas!--zombou Nuno.

--Ela está na razão, pensa como mulher--e as mulheres, verdadeiramente, só vencem pelo sentimento.

Acenderam os charutos e continuaram a discussão, enquanto Júlia, levantando-se, dava ordens á criada para que o café e os licores fôssem servidos no jardim. Nuno, que a guerra apaixonara, ia agitando ideias, condenava o pacifismo que estava fóra da sua acção eficaz:

--Positivamente, por melhor intencionado que seja, o pacifista é um produto nocivo do nosso estado de perturbações e de ameaças. Até hoje, imaginou erradamente que a maneira mais prática de realizar-se a paz seria odiar e condenar todos os movimentos armados dos povos, sem distinguir lúcidamente entre o justo e o injusto, entre a honra e a cobardia. Quando a tranqùilidade do mundo entrava numa fase precária, êsse pacifista aconselhava a transigência dos menos poderosos, o que era uma vileza.

--Mas que outra coisa poderia êle fazer?--inquiriu Frederico, interessado e soprando baforadas de fumo.

--Que outra coisa poderia fazer? Homem, desconheço-te, perdeste a sagacidade antiga! No domínio espiritual, a felicidade resulta da filosofia e da religião; e no domínio material, da sciência e do trabalho. Igualmente, e nesta ordem de raciocínios, a paz deriva do equilíbrio das potências e das precauções a tomar contra aqueles que pretenderem destruir êsse mesmo equilíbrio. A missão útil e nobre do pacifismo, se êle não andasse transviado, seria esta, portanto.

--É ainda impotente para isso--opinou Frederico.

--Porque lhe falta organização--respondeu Nuno.

Júlia reentrou na sala para dizer que o café já fumegava sob as árvores e entre as flores, à espera.

--Já lá vamos, minha senhora!--informou Frederico. Estávamos aqui a desenvolver coisas muito sérias de sociologia e de política. Nuno é terrível. Tem uma argumentação, uma dialéctica!...

--É porque estou na verdade.

Depois, debaixo dos arvoredos, o diálogo sôbre o mesmo assunto ainda continuou, caloroso, vivo, na tarde serena como a doçura e a melancolia duma rosa de luz e de sêda que se desfolhasse lentamente. A sombra, caíndo, despregando-se molemente das ramarias, espalhava na areia das ruas movediças manchas rôxas. Um ar esperto e vitalizador circulava. O sol, descendo para o poente, refulgia e dourava tudo aquilo em que tocava.

Nuno surpreendia uma beleza nova nas vastas massas de homens que avançavam para as batalhas altivamente, sem o temor no coração, sem a palidez nas frontes--nesses soldados que conheciam a embriaguez do sacrifício total a um pensamento grande e nobre e que, no _élan_ supremo das cargas, por entre o ciclone fulgurante da metralha, tinham a visão nítida e simples das coisas, sentindo a divina claridade das almas heróicas, a alegria prodigiosa da única verdade, que é a de lutar até à morte por uma liberdade mais ampla, por uma vida melhor, pelo esplendor das nacionalidades a que pertencem.

--Porque, não tenhas dúvidas! Desta convulsão saírá uma liberdade luminosa.

--Isto é--explicou Frederico--maior extensão do privilégio. Eu não sei, realmente, em que consiste essa liberdade que tam calorosos hinos te merece...

--Não sabes? Pois é fácil sabê-lo. A liberdade perfeita consiste na absoluta adaptação dos interêsses, das actividades e das energias humanas. No nosso tempo, a adaptação de que falo é essencial entre os indivíduos; entre a colectividade e as instituições; entre as instituições e os governos. Quando isto se conseguir, a existência será mais suave e mais bela...

Na espessura dum caramanchão de madre-silvas e clematites, um melro assobiava a sua canção em louvor do claro dia; no parque, a solidão tornava-se mais profunda; perto da varanda da casa, sob a acácia, um gordo gato rebolava-se ao sol.

--Não creio que esta guerra nos dê uma liberdade mais dilatada. Quando muito, fará apenas com que a tirania empregue uma subtileza maior--contestou Frederico.

--Não crês em nada. Perdeste a fé--replicou Nuno, bebendo o seu café a pequenos, espaçados goles.

--Penso, porêm--continuou Frederico sem o ouvir--que dela saírá alguma coisa de inédito. Com efeito, uma parte do culto ocidente sossobra e afunda-se com a hecatombe. Tombaram, sucessivamente, como as messes diante da fouce do segador, as mocidades da Europa, que era a renovadora do mundo consciente pelo génio artístico e scientífico. Essas mocidades haviam sido educadas pelos antigos, pelos vélhos, pelas personalidades formadas em ideias já conhecidas, semente de que germinariam as searas futuras. Deu-se, portanto, com êste salto brusco para o mistério, uma solução de continuìdade. Do saber guardado e arquivado nos livros, pouco subsistirá. A Europa nova tem de educar-se por si, de refazer uma consciência e uma sensibilidade, um espírito e uma razão, em bases tambêm novas...

--Há talvez alguma verdade nas tuas palavras--atalhou Nuno, surpreendido.

--Quem me diz que a Europa de àmanhã não terá de ir outra vez, como na Renascença, às civilizações extintas a procurar as suas inspirações?

--Não se anda para trás. A vida evolute numa progressão ascendente...--exclamou Nuno.

--Não falo em retrocesso: falo na busca duma fonte geradora de outros ideais. No entanto, se esta peregrinação dos povos doloridos ao passado se fizer, muitas coisas hoje decadentes reconquistarão o seu prestígio.

--Por exemplo...

--O Catolicismo que, depurado das suas imperfeições e das mentiras com que os homens o desfiguram, terá belos e gloriosos dias.

--Que fantasia!

--Homem, contempla a febre, a ansiedade, com que as nações que o tinham repelido, novamente se voltam para êle, procurando uma consolação, uma alegria interior que o racionalismo não lhes oferecia. Em França os templos transbordam de fiéis. Nas trincheiras, os padres combatentes pousam as espingardas para dizerem a missa aos seus camaradas que vivem debaixo da tempestade das granadas e da fuzilaria. Não será isto uma profecia? Nas terríveis calamidades, Deus é preciso para que o sofrimento seja menor...

Júlia voltou a aparecer com o filho ao colo. O seu perfil, de linhas tam delicadas, recortava-se límpidamente no disco, na auréola luminosa de que a claridade lhe envolvia a fronte.

--Santo nome de Maria! Pois ainda discutem a guerra?!...--interrogou ela.

--Sim! Temos feito, à volta de duas chávenas de café e de dois cálices de _cognac_, uma enorme quantidade de filosofia, minha senhora!--disse Frederico, levantando-se e indo ao seu encontro. Nuno tem sido duma eloqùência notável... Nem V. Ex.^a calcula.

-- Eu sei, eu sei! Quando êle se apaixona por uma questão, é um falador incorrigível.

Nuno, que tambêm se aproximara do grupo, todo afogueado do calor da controvérsia, acrescentou:

--Demos à língua, efectivamente. Desforrei-me da minha mudez consecutiva de meses. Frederico estava interessante...

Parou, um momento, absorvido na adoração do pequenino, que mostrava os olhos espantados e que incessantemente abria e fechava as mãosinhas rosadas. Todo êle cheirava a perfumes, como uma flor humana.

--Oh! lá, ó seu fidalgo!... Pst!...--acariciava Nuno, pousando-lhe um dedo na còvinha do queixo. Bem disposto, hein?

--Tomou agora o seu banho, sente-se feliz--disso Júlia, baixando os olhos pensativos sôbre a fronte do filho.

Ouvindo-a falar naturalmente, Frederico notava nas suas palavras uma vibração, um timbre, um enlêvo que não podia definir e que o perturbavam. Na história da sua alma fazia-se uma página de poesia e de ternura, que lhe comunicava gôzo, pacificação interior. Como Nuno era feliz! E bem merecia êle essa felicidade, pelos puros dons do seu carácter, pela sua bondade, pelas suas virtudes de homem. Encontrara a mulher ideal que o completou e que, à sua volta, fazia a graça, a serenidade, a confiança, o repouso.

--E aqui tens tu, Frederico--disse Nuno--a minha pátria grande.

--Não! A tua família... A família é apenas a unidade da pátria, como o individuo é a unidade da família.

--Bem! Que seja então a minha pequenina pátria. Não quero outra. E tu, homem, porque não procuras uma?

Frederico olhou o amigo demoradamente, fitou depois Júlia, agitado por sentimentos, por inenarráveis sensações que lhe pareciam incompreensíveis porque, na sua perturbação, não conseguia explicá-los, determinar-lhes a génese e o carácter. Por uma revelação fulminante, via nessa doce mulher uma imagem venerável e quási religiosa para que o seu respeito e o seu reconhecimento subiam. Reconhecimento de quê? Não o sabia.

--Tenho a certeza de que a não encontrava--respondeu êle. Não possuo o génio das descobertas.

--Não será isso egoísmo, Frederico?--interrogou Júlia.

--Egoísmo? V. Ex.^a é injusta com um homem que resolveu sacrificar-se só a êle para não sacrificar os outros...

--Temos S. Francisco de Assis em nossa casa, Júlia!-- afirmou Nuno, afagando distraídamente o rosto do filho... Mas, se déssemos uma volta pelo parque? A sombra, a amenidade do dia são convidativas. E temos palrado tanto, justos céus!

Entraram vagarosamente na solitude dos troncos e das folhagens onde corria uma fresquidão vitalizante, na tarde pesada e quente. Através dos ramos entrelaçados, num azul muito alto, flutuavam farrapos esparsos de nuvens. Por tôda a parte, sob a imensa abóbada de verdura, floriam cheirosos arbustos que punham na suavidade da penumbra uma atenuada e bela nota colorida. Por vezes, roseiras, bracejando junto das árvores, trepavam às ramagens, enroscavam-se nelas, rompendo depois para o espaço livre em festões, em grinaldas, desenhando originais movimentos decorativos. Os seus aromas harmonizavam-se, fundiam-se num só aroma, que era excitante. No grande silêncio vespertino, apenas se ouvia o canto medroso das aves que fugiam, assustadas, da torreira do sol. Frederico e Nuno caminhavam ao lado de Júlia, emmudecidos para melhor sentirem e compreenderem a beleza envolvente. A criança palrava entre as rendas e as cambraias vaporosas; e uma bica de água, correndo perto dum maciço de cedros e plátanos enlaçando, casando os seus ramos, cantava e brilhava na fina paz vesperal.

--Isto é a delícia das delícias--disse, por fim, Frederico. Há muito tempo já que não me reconciliava tanto com a vida.

Enquanto êles se detinham numa clareira, reencetando a conversa, Júlia adiantou-se alguns passos, indo sentar-se num banco rústico de cortiça que ficava por baixo dum docel formado por mosqueteiras ainda em flor. Ao vento brando que passava, arripiando as fôlhas, um colorido e perfumado orvalho de pétalas desprendia-se do alto, tremendo como asas de borboletas, caindo sôbre Júlia e o filho. Ela ria, com um riso mais contente, ditosa pela idílica oferta que as trepadeiras faziam à sua gracilidade, á sua pureza feminina, ao seu amor de espôsa, à sua divina maternidade, e Nuno e Frederico admiravam êste espectáculo imprevisto.

--As flores, para serem justas, deviam-lhe essa homenagem, minha senhora--declarou o hóspede.

O chuveiro das pétalas continuava sempre, cobria duma geada aromática os cabelos de Júlia, o rosto da criança.

--As bôas fadas saùdam a princesa, sua afilhada, e o principe dilecto!--observou Nuno, enternecido. É como nos contos de Perrault, nas lendas doutras idades.