Chapter 2
O amor tornava Nuno generoso. Só lamentava que sua mãe tanto tivesse sofrido sem se queixar, transida, conformada com o infortúnio, agarrando-se ainda nervosamente ao seu verdugo como as heras se agarram a uma árvore carcomida, negando-se com obstinação a separar-se dêle e a voltar para o lar paterno, onde seria recebida em festa e onde a sua existência atribulada encontraria suavidade e consôlo--porque, a-pesar-de tudo, continuava a amá-lo com ansiedade, com loucura, com uma constância que nunca afrouxou. Pensando neste caso singular de devoção e de sacrifício, Nuno julgava que havia herdado da mãe as virtudes afectivas, a rectidão, a lealdade, a sensibilidade aguda--e considerava-se feliz por isso...
Meteu-se resolutamente por um fechado milheiral, onde amadurecia ao sol de Deus o pão sagrado que daria alento e fartura às bôcas famintas e pálidas. Largas fôlhas compridas como espadas roçavam-lhe o rosto, açoutavam-lhe as mãos; as suas botas atolavam-se no terreno remexido de fresco e humedecido das regas que levavam o alimento às raízes; um cheiro acre de seivas e de ervas esmagadas impregnava a aragem. Nuno aspirava-o a fundos haustos, murmurando, regalado:
--Ah! isto vigoriza, tonifica!
Da banda do nascente, uma poeira de luz flutuava sôbre os píncaros das montanhas escalvadas que, por vezes, na sua imobilidade, tinham atitudes quáse humanas, sugerindo formas gigantescas e animadas, curvando-se sôbre a sombra, o vazio dos abismos. Enquanto caminhava e admirava êste maravilhoso trecho de paisagem, Nuno ia recebendo uma lição de coisas ignoradas. Com efeito, era aquela a primeira vez que visitava tam minuciosamente a quinta, que fôra a morada pacífica e venturosa dos seus avós, da sua gente. Só ali tinha vindo uma vez, de fugida, para conhecer uma parte dos domínios territoriais de que era senhor, mas não passara do jardim, onde por sinal havia colhido um cravo branco com que floriu a lapela do seu casaco de casimira inglesa. Ao cabo duma curta hora, logo abalou para o Pôrto, onde nascera e onde vivia, alarmado com tanta solitude, penetrado de melancolia e de desalento, sem compreender como certas criaturas podiam permanecer longe das cidades, do seu movimento, das suas seduções, dos seus aliciantes espectáculos. Nesse tempo, estava ainda solteiro, completava na Academia Politécnica o curso de engenharia, era revolucionário como todos os seus camaradas, freqùentava com assiduidade as reùniões políticas em que se conspirava contra a Monarquia, tinha rixas com a polícia e namorava as costureiras. Agora, porêm, via com olhos diferentes dos dessa época, possuía uma compreensão mais lúcida, tudo nêle se havia modificado, existia na sua alma um sentimento mais equilibrado e mais justo. A inquietação antiga apenas servira para transmitir um grato sabor á paz actual: a reflexão e o estudo tinham-lhe revelado o mundo e as sociedades por um outro aspecto. Para êle, as _urbs_ onde se agitam os densos formigueiros de seres conscientes, gritando os seus desesperos e as suas cóleras, representavam a tentação corruptora, a deliqùescência, eram as sinistras geradoras da dor e dos pessimismos modernos: e o campo, a aldeia, constituíam os reservatórios da vida salubre, os últimos santuários da crença religiosa e da felicidade onde os réprobos deviam retemperar-se anualmente. Como a sua mocidade fôra inconsiderada! Em compensação, como os seus trinta e cinco anos eram sábios e estavam na verdade!... Ao romper do milheiral em que se perdera, encontrou uma clareira bucólica de terra que andava a horta, onde cresciam e enconchavam as couves tronchudas, verdejavam as tiras das alfaces e os talhões de feijoal ondulavam ao vento brando. Um homem, em mangas de camisa, magro, esguio, de rosto queimado pelos ardentes bafos das soalheiras, cavava, com uma grande tristeza na face, em que se emmaranhava a barba crespa e negra, e nos olhos que fulguravam. Nuno foi direito a êle, saùdando-o amigávelmente. O cavador, tirando o chapeú esburacado e sujo, murmurou com humildade:
--Salve-o Deus, meu senhor.
Durante um momento Nuno entregou-se à contemplação do pobre trabalhador, de cara macilenta e mãos calejadas e nodosas, em que os dedos deformados lembravam negras raízes. A camisa aberta no peito deixava a descoberto uma pele macerada, repuxando sôbre os ossos salientes: e uma grande piedade comoveu Nuno por tanta miséria.
--Vocemecê--perguntou êle--é que é o caseiro?
--Saiba vossa senhoria que sim. Já lá vai um ror de anos depois que para aqui entrei, e tenho pago honradamente as rendas.
--Bem sei, bem sei! Eu sou o dono da quinta...
--Pois vossa senhoria é que é o netinho do snr. Vicente, que Deus haja?
--Sou eu mesmo...
--Oh! meu senhor! Desculpe, que eu não o conhecia.
--Mas, desculpar o que, bom homem?...
--É que eu nem sequer fui vê-lo lá acima, ao palácio... Não podia adivinhar... Tinha-me dito o snr. José, procurador, que vinham viver na casa grande por algum tempo uns senhores, mas eu não contava... Sempre uma assim! A gente anda cá nas nossas apoquentações, não tem vagar para nada...
E imediatamente, vergado ao hábito da obediência, submetido ao jugo da escravidão que sempre, no decurso duma vida trabalhosa e amarga, o coagia a rojar-se, a fazer-se mais pequeno diante dos poderosos, atirando a enxada para a leiva revolvida, aproximou-se de Nuno, baixando a cabeça descoberta como para receber o justo castigo duma grande falta.
--O senhor perdôe... Eu não sabia...
--Homem, já lhe disse!... Não tenho que perdoar. Está claro que a sua visita era-me agradável:--mas como amigo e não como dependente. É boa... Ponha o chapéu.
--Como amigo, como amigo!...--mastigou o caseiro, com a língua embrulhada na bôca e os olhos rasos de água, conservando o chapéu nas mãos.
--Como amigo, certamente... E ponha o chapéu. Agora, mando eu. Ponha o chapéu, avie-se.
--Isso é que não... O respeito não fica mal a ninguêm. É um dever...
-Se não pôe o chapéu, zango-me e vou-me embora...
--Ora essa!... Pois!...
--Afirmo-lho! Ou faz o que lhe peço ou retiro-me...
--Então, com sua licença, fidalgo...
--E vamos conversar à bôa paz... Está contente com os terrenos que traz arrendados?
--Eu não me queixo... Vão dando para viver, com a ninhada dos filhos e a mulher entrevada, melhor ou pior, como Deus é servido.
--Pois, não tira lucros?
--Umas vezes pelas outras tiro, sim, senhor, que a terra anda bem tratada. Não lhe roubo ao sustento preciso... Mas lá vem um ano mau em que parte das colheitas se perde, lá morre um boi, e vão-se as economias escassas, para uma pessoa não ficar envergonhada... Adeus, minhas encomendas! Percam-se os aneis, mas conservam-se os dedos, como o outro que diz...
--Ah! eu julgava que a lavoura era remuneradora.
--A terra é quáse sempre ingrata para os que dela vivem, senhor... Alêm disso, para recolher é necessário semear e o dinheiro não me sobra... Mas isto não é chorar-me. Não quero aborrecê-lo. Vive-se com o muito e vive-se tambêm com o pouquinho...
--E a mulher entrevada, disse?
--É verdade, coitada! Fiquei dum dia para o outro sem o braço que me ajudava, e ando consumido, cá por dentro, de vê-la sofrer. Depois que teve o último filho, nunca mais se ergueu...
--Infeliz!... E os médicos?!...
--Os médicos... São muito caros. Veio aí um algumas vezes, para me dizer que o mal não era de morte mas que não tinha cura!... E o que mais me custa, meu senhor, é que a pobre de Cristo está sempre a pensar na labuta, na canseira do trabalho, e quando vou para comer a migalha, costuma dizer:--«Oh! meu homem, que te matas... Oh! criatura que não tens um momento de descanso e eu para aqui a curtir a minha doença, sem poder auxiliar-te... Que Deus me leve!»... Enfim, corta o coração, coitadinha... E foi sempre tam minha amiga, Senhor do céu! Estamos casados há anos e damo-nos como Deus com os anjos...
Enquanto falava, o cavador limpava as lágrimas, que lhe corriam em fio dos olhos, às costas da mão negra e cheia de terra. Nuno, condoído, desviara a vista.
--Quantos filhos tem?
- Em casa tenho seis. Quatro, três raparigas e um rapaz, já casaram.
--São grandes, os que vivem consigo?
--Dois lá me vão ajudando a levar a cruz ao Calvário. Os outros são pequeninos... Teem a fatia do pão, mas falta-lhes a mãe para olhar por êles...
--Pois, está bem! Creio que a renda anda um pouco elevada... Hei de falar com o meu procurador... E ouça...
--Oh! meu fidalgo, eu não pedi que me baixasse a renda...--acudiu o caseiro, de fronte erguida por uns restos dêsse orgulho que existe tambêm no coração dos desgraçados.
--E ouça--continuou Nuno--disse há pouco que, se tivesse dinheiro, faria com que a terra produzisse mais. Terá êsse dinheiro. Sou eu que lho empresto... Nada de agradecimentos. Pagar-mo há quando o tiver... Quanto à entrevada, é preciso tratar dela. Minha mulher há de ir vê-la--porque as mulheres entendem-se umas às outras. E adeus!--concluiu, estendendo-lhe a mão.
O caseiro olhou com espanto a mão aberta, franca e leal de Nuno, cravou depois no rosto do seu senhorio os olhos atónitos e fulgurantes como carvões acesos, muito enleado, sem nada compreender, sem fazer um movimento, sem murmurar uma palavra.
--Adeus, bom homem!--insistiu Nuno. Não se acanhe. Tenho apertado a mão a criaturas muito menos dignas do que vocemecê é!
Então, o caseiro, entalado de soluços, rendido de admiração diante de tanta grandeza de alma, apoderou-se daquela mão purificada que se baixava bondosamente para levantar os que sofriam e que eram humildes, gaguejando, com a voz entaramelada:
--Ah! meu amo, que isto é o fim do mundo! Um fidalgo como vossa senhoria a tratar assim um ninguêm como eu!... Bemdito seja o Senhor, que ainda há tanta gente bôa!
E, na sua exaltada gratidão, queria beijar a mão que Nuno lhe dava.
--Não, isso não! Há maneiras de reconhecimento que se não aceitam, porque melindram quem as pratica e quem as recebe...
--Deixe-me, meu senhor!... Ainda há pouco disse: «meu amigo!» Um lagalhé, como eu, amigo de vossa senhoria!...
Nuno, por fim, desembaraçando-se do cavador, despediu-se e afastou-se dêle, enternecido e murmurando entre dentes:
--Creio que realizei hoje a melhor acção de tôda a minha vida... E devo a sua inspiração a Júlia... Que horror! Tanta miséria, mulher entrevada, criancinhas com fome e eu a alimentar a minha opulência com o esfôrço desta penúria!...
Dirigindo-se novamente para o jardim, meditava que, para as almas sensíveis, as transfiguradoras alegrias de bem pouco dependem. Bastava para conquistá-las, um gesto mais espontâneo de bondade... Como o seu dia fôra proveitoso, efectivamente! Vivera momentos inolvidáveis junto do berço do filho, que dormia como uma doce flor por desabrochar com tôda a alma inocente reflectindo-se-lhe na face, que era inconsciente, que mal reparava ainda nas coisas que o cercavam e que, no entanto, enchia tôda a casa, tôda a sua vida, todo o seu amor de encanto, de esperança e de perfume! Depois, a adoração da espôsa dera-lhe uma lição de magnanimidade e fizera-lhe sentir a branda promessa duma ternura eterna, duma inalterável dedicação que o iluminaria pelos anos fóra. Em seguida, recordara a memória venerável da mãe, no seu passeio pelo parque--essa mãe que tanto o tinha amado e que, mesmo morta, era uma radiante luz de que lhe vinha claridade e beleza moral, e corrigira nobremente desigualdades sociais, decidido a conceder um pouco mais de bem estar a sêres desditosos que activamente lidavam, acrescentando a sua riqueza. Para que nada faltasse à formosura dêste dia magnífico, até o seu único amigo e seu companheiro de estudos e de boémias românticas, acabava de anunciar-lhe que viria passar junto dêle uma semana, um mês! Levantara-se com sorte, certamente. Há horas predestinadas para a ventura, como há outras predestinadas para a desgraça...
Entrou em casa, trazendo debaixo do braço jornais que não abrira e cartas a que não ligara atenção, exceptuando a de Frederico, que era sumamente grata à sua amizade. Subindo ao primeiro andar, foi encontrar Júlia com o filho, gordo, robusto, de cabelo muito louro e uns olhos muito azúis, nos braços amorosos. Nuno beijou a criança com mais devoção do que beijaria uma imagem religiosa, beijou tambêm a espôsa longamente na testa e na bôca, para agradecer-lhe a felicidade de que transbordava.
--Que é isso, que é isso?--perguntou ela, sorrindo com aquele sorriso que lhe fazia evocar a mãe.
--É que te amo, que te amo, e que não sei dizer-te por outra forma o meu amor!
II
Frederico chegou, com efeito, na manhã seguinte e foi efusivo o abraço que trocou com Nuno, ao saltar do automóvel, diante do portão do jardim que um grande ramo de jasmineiro em flor cobria de sombra, de frescura e de aroma. Enquanto os criados conduziam as malas de viagem, do carro para casa, êle, compondo a roupa desmanchada e alisando, com a mão, os cabelos despenteados, dizia para o amigo:
--Menino, o que eu agora mais desejo, antes do almôço, que ficarei devendo à tua generosidade, é um banho frio que me restitua a elasticidade aos membros entorpecidos e me purifique da poeira da jornada--uma poeira corrosiva que me morde a pele.
--Pois terás êsse banho purificador, homem!--prometeu Nuno, alegremente.
Foram andando pelos arruamentos que corriam junto dos canteiros rescendentes, no inspirador silêncio matinal.
--Tu tens isto lindíssimo, na verdade. Sente-se a ventura, o encanto de viver à volta desta habitação que eu creio bem que seja a morada da Fortuna!... E como vai a saúde da família? Próspera, não é assim?... Desculpa. Tinha-me esquecido de cumprir êste elementar dever de cortesia.
Do lado que dava para o parque havia uma escada de pedra com grade de ferro pintada de verde, subindo, entre redouças de trepadeiras que a bucolizavam, até ao primeiro andar, sob a folhagem fechada duma acácia. Tinham êles galgado o primeiro lanço, quando Júlia apareceu no alto, vestida com simplicidade e gôsto. Frederico, tirando o chapéu, exclamou logo, ao avistá-la:
--Oh! minha senhora!...
E avançou, mais apressado, de mão estendida, acrescentando:
--Venho pedir um pouco de repouso, de tranqùilidade espiritual, às divindades protectoras dêste lar, que é o Palácio da Ventura...
--Seja então bemvindo--acudiu ela, tôda risonha.
--Não o acredites, Júlia! É um réprobo e tem o sentimento derrancado--gritou Nuno. Ainda agora me dizia da aldeia coisas pavorosas. Não te admires se êle, logo à tarde, bocejando o seu aborrecimento e renunciando a uma conversão de alma, nos fugir para a cidade...
Frederico, voltando-se para o amigo, murmurou com ar cómico e forçadamente constrangido:
--É, então, assim que o afecto fraternal compreende e pratica as obrigações sagradas da hospitalidade, mentindo para me comprometer? Com franqueza! Isso não é leal...
Júlia, còrada e encantadora no seu pudor e no seu recato de espôsa e de mãe, ria enlevada.
--Deixe-o falar!
--Pois se eu, só de atravessar a pacificação campestre, embebendo-me, impregnando-me da sua doçura, até já me sinto outro e me parece que dentro de mim um outro coração renasce!...--disse Frederico.
--É que o Espírito Santo estava à tua espera para baixar-te sôbre a cabeça em língua de lume e iluminar-te--zombou Nuno.
Entraram na sala que as flores das jarras incensavam. Por tôda a parte se notava logo o cuidado e a subtileza duma diligente _ménagère_, tal era a ordem, a elegância, o claro aceio daquele atraente lugar de repouso. Sentaram-se um momento, conversando.
--Quis, então, dar-nos por algum tempo o prazer da sua companhia, abandonando as alegrias da vida citadina?--perguntou Júlia.
--Nuno assim mo impôs. E creia V. Ex.^a que nunca imposição alguma foi mais brandamente acatada por um rebelde como eu sou--afirmou Frederico.
Um relógio de bronze dourado, montado em colunas de alabastro côr de rosa, marcava as horas sôbre o mármore do fogão, quebrando com o ritmo do seu _tic-tac_ a paz do compartimento: e evolava-se de tudo o que os cercava essa serenidade, êsse divino mistério inspirador, essa graça imaterial que só existem nos ambientes calmos em que as almas de _élite_ fazem a troca mútua das suas afeições puras, das suas emoções delicadas, das suas aspirações nobres.
--De-certo que não encontrará aqui as distracções que um grande centro de população pode oferecer--exclamou Júlia. No entanto, haverá para o snr. uma sincera amizade.
--Eis tudo de quanto eu preciso, minha senhora, porque a amizade é o que ainda vale no egoísmo e na tristeza da nossa época.
--Mas, não terias perdido a virtude, o dom e motivo de senti-la?--interrogou Nuno, com ironia afável. Êste homem é um perdido, Júlia. Vamos a ver se conseguimos levá-lo de novo para a luminosa vereda da verdade... E vai-te arranjar, criatura, que aqui, na aldeia, almoça-se cedo, janta-se cedo e deita-se a gente ao anoitecer...
--Bem! Começa a minha regeneração--murmurou Frederico, erguendo-se. Se me concede licença, minha senhora, vou tratar da _toilette_. Vejo que Nuno, antes de me servir o alimento, pretende servir-me um método. É justo. Quem dá o pão, dá o pau...
--Se precisas dêle!...
--Do pau?
--Não, desgraçado, do método!...
Nuno acompanhou-o ao quarto, enquanto Júlia descia à cozinha. A tranqùilidade envolvente era tam profunda que os menores ruídos adquiriam uma prolongada vibração. Ouvia-se a voz dos carreteiros ao longe, excitando os bois nas subidas e as cantigas dos ranchos de mulheres que trabalhavam nas terras de cultivo, sob o banho fluido e louro da luz. Nuno, deixando Frederico, veio um instante para a varanda envidraçada exposta ao sol, sentando-se numa cadeira de encôsto, perto dos vasos com avenca e com begónias de estufa, de largas fôlhas espalmadas e ferruginosas, onde costumava passar as tardes com Júlia, contemplando a ondulação dos milheirais que se estendiam por todo o vale, a ramaria dos pinheiros vasta como um mar de verdura, a mancha azulada das montanhas de perfil irregular e que formavam, das bandas do nascente, uma rica, prodigiosa scenografia natural. Estava contente, a vida tinha para êle um grato sabor, nesse momento. Por mais absorvido que andasse na sua feliz, plácida existência conjugal, não podia subtrair-se a determinadas influências que certos factos produziam. A vinda de Frederico tinha acordado, para seu regalo, um mundo de sensações longínquas, de recordações adormecidas. Com a presença do amigo, ressuscitavam tambêm a sua mocidade distante, os anos consagrados ao estudo, à conquista duma posição social que lhe imprimisse maior relêvo à personalidade, as ilusões que fôra tecendo, as esperanças sonhadas em prometedoras horas de confiança. Relembravam-lhe episódios há muito olvidados, uma tumultuosa onda de saùdade e de indecifrável ternura invadia-o. Ah! êsse bom Frederico! Havia perto de dois anos--desde o seu casamento, a que êle assistira--que não tornara a vê-lo. Nos primeiros meses de casado, como o seu forte amor por Júlia reclamasse um absoluto recolhimento, isolou-se inteiramente das suas relações, duma sociabilidade que o não interessava. Fizera, com ela, uma longa viagem de núpcias por países que nunca visitara e que muito desejava conhecer, encantado pelo anonimato da sua individualidade no meio das ruidosas multidões. Estiveram em Itália, em França, na Suíça, observando uma civilização que se denunciava radiosamente em tôdas as manifestações da actividade humana, na sumptuosidade de capitais que são resumos lúcidos do mundo consciente, passando as manhãs nos Museus, indo à noite aos teatros, aparecendo nos sítios preferidos pelo mundanismo para a exibição maravilhosa da esplêndida flor do luxo e da beleza, ofertando à adoração que os estreitava a surprêsa de espectáculos constantemente novos e cativando pela sua variedade infindável. Depois, quando regressaram ao Pôrto, amando-se mais porque entre os dois se tinha feito uma perfeita unidade moral e afectiva, Frederico havia partido igualmente «para uma confortável vadiagem por êsse bemdito Portugal» como dizia numa carta a Nuno, porque, mesmo separados, nunca deixaram de estar juntos em espírito, correspondendo-se com regularidade, comunicando-se as impressões recebidas, as opiniões, os pensamentos, os pontos de vista, por uma necessidade imperiosa, que provinha de identidades de inteligência e simpatias de temperamento.
Frederico nada ocultava ao amigo e ao camarada, confessava-se-lhe sinceramente. Uma casualidade singular os aproximava ainda mais:--eram ambos ricos, sem família, fizeram o mesmo curso, manifestavam as mesmas predilecções. Nuno conhecia-o minuciosamente no seu carácter, na sua psicologia, nas suas tendências, nos seus hábitos. Um pouco leviano e volúvel, por certo. Não havia em Frederico estabilidade de sentimentos, fixidez, reflexão. Os seus actos quáse nunca estavam em concordância com as suas ideias. Abandonava inconsideradamente, como futilidades sem raízes na realidade universal, projectos no dia anterior aceitos com entusiasmo e fervor, como se representassem a verdade irredutível. Era um dêsses homens estranhos que, possuindo um grande orgulho de si próprios, ou pela superioridade mental ou por dons puramente exteriores, são incapazes de contrariarem a sua espontânea vontade, de se sacrificarem na satisfação do seu sonho, muito embora sigam por caminhos errados, de renunciarem ao que, para êles, encerra um efémero minuto de prazer. Foi por isso mesmo que não quis jàmais reduzir ou comprometer a sua liberdade, conservando-se solteiro com mêdo às responsabilidades duma família, ao jugo dos deveres contraídos. Nuno lembrava-se, enquanto reavivava um passado ainda recente, do desgôsto que em Frederico provocara a sua decisão de casar-se com Júlia. Êle ouvira-o friamente, com uma expressão de sarcasmo na bôca--um sarcasmo em que havia compaixão e desdêm.
--E tu devias fazer o mesmo. Arranjavas, assim, uma ocupação séria!--dissera-lhe Nuno.
--Ah! obrigado pela intenção--respondera Frederico, sêcamente e encolhendo os ombros.
--Homem, parece que estou a aconselhar-te uma acção má!...
--Não! Apenas me aconselhas a loucura, o absurdo...
Êle, casar-se, efectivamente! Nunca sentira vocação para a vida conjugal, sempre que se consultava sôbre êsse complicado e perigoso problema. Julgava que o casamento destruiria tôda a sua paz, tôda a sua felicidade--se é que essa felicidade significa mais alguma coisa do que uma rima frívola em poesia ou do que uma imagem literária.
--Tu bem sabes, Nuno, que não sou um inexperiente em amor--asseverou Frederico.
Não era um inexperiente, na realidade. Nuno conheceu-lhe, durante muitos meses, uma ligação sentimental íntima com uma linda rapariga que êle seduzira e de quem mais tarde, saciado, fatigado, desiludido, se afastou, oferecendo-lhe um forte punhado de oiro. E, nessa ligação, que foi mais do que um capricho, a princípio, porque a sua alma nela teve interferência, encontrou Frederico a certeza de que, para o seu organismo, para a sua individualidade psíquica, as venerações eternas e conservando perpétuamente a mesma intensidade, as afinidades da carne e da emoção que estabelecem para sempre uma estreita comunidade física e ideológica entre dois seres de sexos diferentes, pelo laço do desejo insaciável, que incessantemente se renova, e das semelhanças espirituais, representam uma engenhosa mentira.
--A não ser--concluiu êle--que para além da minha experiência haja um mundo por mim ignorado.
--Porque não hás de tentar a sua descoberta?--insinuava Nuno.
--Porque não quero enliçar-me em aventuras arriscadas... Se falhasse, o mal seria irremediável.