Chapter 11
Cansado de se debater sem tréguas na mesma agitação árida, nas mesmas angústias e nas mesmas perplexidades, chegava a desejar que uma catástrofe se abatesse de repente sôbre êle e o aniquilasse ou esclarecesse uma situação que não podia sofrer por mais tempo. Tudo o que viesse imprevistamente, luminoso ou sombrio, irremediável ou ditoso, suave ou amargo, seria preferível àquela tortura lenta em que o seu ser de homem se dissolvia aflitivamente. A casa parecia-lhe deserta como nunca e duma solitude apenas comparável ao ermo do seu coração. O silêncio constrangia-o. Queria o ruído, as conversas, a animação, o riso à sua roda; desejava tudo o que o aturdisse, que desviasse o rumo das suas cogitações, que o insensibilizasse por instantes. Tirou o relógio do bôlso, viu as horas. Era ainda muito cedo para o almôço. Daria uma volta pela cidade, iluminada por um sol pálido de inverno que ardia num céu claro como se fôsse feito de cristal, almoçaria mesmo em qualquer restaurante onde houvesse gente, barulho, tinir de louças e de metais, onde entrassem homens apressados e respirando fortemente, ocupados por uma actividade que os movimentasse, por um interêsse que os impelisse para a frente, sem repouso. Nesse logar, estaria melhor do que à sua mesa, diante dum fresco ramo de flores orvalhadas, de porcelanas, de esmaltes brilhantes, de pratas scintilando à luz, de toalhas de linho muito branco, tendo por companhia única o respeitoso Bernardo que o servia com a solenidade de quem celebrasse um rito e que respondia por monossílabos às suas perguntas... Pôs de novo o chapéu, pegou nas luvas e na bengala, dobrou a carta de Nuno, que guardou na gaveta, e chamou o criado para dizer-lhe que não almoçava.
--Mas, o almôço está quáse pronto!--informou Bernardo.
--Pois, come-o tu e que te saiba bem!...--atalhou, risonho.
Bernardo considerava-o com espanto, envolvia-o num olhar de surprêsa; e quando Frederico saíu, descendo as escadas com rapidez, murmurou:
--Umas vezes não almoça, outras não janta, deu agora em ficar fóra de casa, como um vadio, êle que era tam regular na sua vida... Está estragado... Enfim, eu nada tenho com isso. Sou servo, êle é patrão, tem dinheiro, tem saúde... Adeus, minhas encomendas...
Frederico, a quem a carícia do frio ar circulante refrigerava e desoprimia, encaminhou-se para a Praça da Liberdade, cortando ao acaso através de ruas ruidosas de multidão, coloridas, cheias de pitoresco, exibindo uma fisionomia característica. Nos bairros pobres, secava roupa atada em cordas por varandas e trapeiras. Ranchos de crianças sujas e rôtas erravam nas calçadas, brincando. Criadas de servir regressavam dos mercados e dos talhos com grandes cabazes de vêrga enfiados no braço. As lojas estavam apinhadas de compradores que, aos balcões, regateavam com os caixeiros. Desfilavam soldados, aos pares e de mãos dadas, com o _bonet_ de vivos vermelhos sôbre a orelha e um ar obtuso nas frontes assimétricas e inexpressivas.
Perto de mercado do Anjo, duas peixeiras, de roupas descompostas e de gigas à cabeça, jogavam o braço furiosamente e insultavam-se nos termos mais duros e obscenos, entre um enorme ajuntamento de populares que riam, de bôca escancarada e de face contraída e vincada de rugas. A tôrre dos Clerigos subia na diafaneidade do espaço, projectando uma esguia mancha de sombra no ambiente luminoso e sereno.
Era a um sábado, véspera de festa. Para os lados do Bomfim, sôbre os telhados em que o sol caía a prumo, estralejavam foguetes que subiam, rechinando, no ar e que ao explodirem deixavam pequenas nuvens dum fumo branco e denso pairando na limpidez da atmosfera, como novelos de algodão que se esfiassem ao vento, sob o céu azul e fino.
Frederico marchava apressadamente, absorvido em emoções e cuidados íntimos, sem reparar na scenográfia exterior. A vida envolvente com as suas variadas formas, os seus coloridos, violentos ou ternos, a sua particular expressão, passava-lhe inteiramente despercebida, tam fundo era o recolhimento do seu espírito no drama sentimental de que não conseguia separar a personalidade psíquica. Sempre aquela obcessão a persegui-lo, sempre a venenosa flor dum venenoso desejo por Júlia--pela sua carne, pela sua beleza física, pela sua candura, pela sua graça fresca e luminosa--renascendo dentro de si, perturbando-o, embriagando-o como um perfume deletério! A luta--uma luta contínua de tôdas as horas, de todos os dias--extenuava-o. Já não podia, no desfalecimento de vontade que o esmagava, conduzir-se com firmeza pela própria razão ou pela parte incorruptivel e intacta do seu sentimento:--era conduzido pelo instinto sensual, sem dispôr de energia para uma reacção alacre e vitoriosa que o emancipasse da tortura intensa, que lhe restituisse à natureza espiritual o divino encanto perdido e a pacificação deleitosa. Nuno, ignorando a sua agonia secreta, chamava-o de longe, colaborando assim no monstruoso crime que pretendia evitar, concitando-o a uma traição que Frederico, no seu delírio, julgava já consumada porque lhe ardia na alma o lume dum amor impuro pela espôsa do amigo de tôda a vida, do camarada de estudos, do irmão com quem fizera, em plena concórdia, metade da jornada da existência. Era terrível! A fatalidade abatia-se inexoravelmente sôbre êle, encarniçava-se contra o seu infortúnio, exacerbava-lhe a dor. Frederico notava, com subtileza, a pequenez, a impotência do homem--mesmo quando ele fôr culto e dipuser duma sensibilidade--para dominar-se, para conter-se em face do mal, sempre que nesse mal houver a satisfação áspera dum gôzo, dum interêsse moral ou material. Nestes momentos, que incessantemente se repetem, o que no organismo humano, tam imperfeito, se impõe é a revolta da animalidade grosseira, apagando-se no ser consciente tudo quanto nêle há de superior!...
Mas, Frederico tentava ainda lutar contra essa animalidade, vencer a sua impetuosa paixão, conservar-se num estado de alma que o tornasse digno da afeição fraterna de Nuno, sem que tivesse de còrar de remorsos ou de vergonha, quando diante de Júlia êle lhe chamasse amigo e o apontasse como um exemplo de lealdade. Como não tinha confiança em si mesmo, como suspeitasse de que junto da mulher adorada em silêncio não pudesse esconder um amor que não devia revelar-se para poupar sofrimentos e afrontas, como temia que um instante de fraqueza e de desvairamento o levassem a cometer desatinos que não teriam remédio, caminhando aceleradamente nas ruas, cada vez se aferrava mais à ideia de não voltar a casa de Nuno e de esquivar-se a um encontro com Júlia. Longe dela, o perigo seria menor.
Pensando assim, enquanto à sua roda a multidão indiferente ria e palestrava, circulando activamente, Frederico chegou à Praça da Liberdade e entrou numa tabacaria a comprar charutos. À saída, encontrou-se face a face com alguêm que avançava para êle, de mão estendida, que o saùdava com uma exclamação jovial.
--Oh! Frederico, oh! ladrão!... Que feliz casualidade!... Há quanto tempo eu andava por estas acidentadas e sujas ruas portuenses à procura duma figura conhecida e sem a encontrar!...
--Oh! Duarte!... Duarte de Alarcão e Ataíde, dos Ataídes do Alentejo! Como diabo vieste tu parar mais uma vez a esta nobre cidade de tráfico e de negócios?
--Coisas estupendas, quimeras... Cheguei de Lisboa hoje, no correio da manhã e aqui me encontro.
Apertaram efusivamente as mãos, contemplaram-se por alguns momentos com simpatia.
--Estás mais forte e mais moreno, digno Alarcão e Ataíde!
--E tu mais corcovado e triste, D. Frederico!
--Que queres, amigo?--atalhou Frederico, desalentado. _Ça ne marche pas!_...
Duarte havia sido seu condiscípulo, no segundo ano da Academia Politécnica, onde não concluira o curso de engenharia por ter armazenado já, segundo confessava, a quantidade do sciência suficiente para viver saborosamente a vida, com a abundante pecúnia herdada. Era, então, ruidosamente alegre, brilhante de vivacidade, tocava na guitarra, que gemia entre os seus dedos, o fado do Conde de Vimioso, com que acordava os corações namorados das trapeiras em noites de luar e de serenata e que, no seu entender, constituia a página de música mais nacional e poderosamente expressiva que Portugal havia criado, desde que entrara nos horizontes maravilhosos da civilização.
--Verdadeiramente--asseverava êle, fazendo a _blague_--a nossa Pátria possue duas coisas grandes e de génio:--a descoberta do caminho marítimo para as Índias, que definiu os nossos compatriotas como marinheiros e perseguidores de aventuras, e o fado do Conde de Vimioso, que os definiu em tudo quanto nêles existe de elegíaco, de lírico, de subjectivo. Estamos diante de duas epopeias, meninos!...
Aquele admirável Duarte! Caía do céu, providencialmente, no meio das tristezas de Frederico, das suas derrotas, dos seus desconsôlos, para os dourar com uma réstea de alegria transitória como o sol doura uma paìsagem, depois da chuva.
--Tens estado sempre em Lisboa, desde que abandonaste o Pôrto?
-Não, criatura! De vez em quando, sempre que o país me satura de enfado, e, com as suas eternas farças, o seu entremez permanente, me comunica um fastio de Tibério exausto, faço as malas, viajo, desbestializo-me, tomando um banho de elegância, de lucidez mental, por essas bemditas nacionalidades cultas da Europa. E tu? Que fazes? Que tens feito?
--Nunca saí de Portugal, Duarte! Vou murchando, por patriotismo, no nosso torrão natal, como uma couve tronchuda. Sou assim patriota...
--E selvagem!... Tambèm razoávelmente selvagem.... E agora, para onde te dirigias, a passos largos, encurtando o caminho da sepultura, como afirma o _Eclesisastes_?...
--Deambulava por aí fóra, à procura dum sítio onde almoçasse sem escândalo. Porque não vens comigo, Alarcão e Ataíde? Faríamos um pequenino ágape, celebrando êste acontecimento festivo!
--Pois, aceito!... Que diabo, estou com debilidade, com fome. E nem sequer me lembrava!...
Atravessaram, lentamente, a Praça da Liberdade, em direcção à rua de Sá da Bandeira, parando a cada instante para relembrarem episódios passados, incidentes humorísticos da mocidade há muito olvidados. Os carros eléctricos corriam velozmente sôbre os _rails_, num incessante retinir de campaínhas de alarme, os automóveis fugiam no fio do vento, entre nuvens de fumarada, atroando os caminhantes com as suas _sirènes_; das tílias altas que, nos dias ardentes de verão, espalham sôbre a calçada nódoas rôxas de sombras afagadoras, desciam as derradeiras fôlhas. Duarte, enfiando o braço no de Frederico, evocava scenas hilariantes dos anos extintos.
--Tu ainda te lembras do Martinho, homem terrível da Beira e da batota, que numa noite de azar, vendeu a alma ao Diabo por dez tostões?
--Perfeitamente!... Foi para a África. Nunca mais se soube dêle.
--Por sinal que o Diabo, cansado de comprar almas inúteis para os seus fins de regenerar o mundo pelo espectáculo da tortura, não aceitou a oferta em condições excepcionais de preço, e Martinho, despeitado, pregou-lhe a maior descompostura que êle tem apanhado, desde Santo Agostinho!
Riram com satisfação, na beleza gloriosa da manhã que os remoçava.
--Pobre camarada!--continuou Duarte. Ao dr. Fausto, o Diabo deu ainda, com a juventude, a virgindade e a beleza de Margarida. Ao nosso companheiro, não deu nem dinheiro para cigarros. Era por isso que êle dizia, com rancor, que Satanás, depois que Goëthe o descobriu oculto na consciência, tinha perdido todo o prestígio... E que é feito de Nuno, êsse encantador conviva das ceias de S. Mamede de Infesta, com bacalhau e guitarras?
--Está casado... E já tem um filho.
--Oh! O sórdido burguês!... E talvez feliz, hein?
--Enormemente feliz.
--O animal!... Tu, solteiro.
--Sim, homem! Solteiro...
--Como eu!... Como os heróis de Tyrso de Molina, sempre à caça de rôlas assustadas. Fazes bem. É assim, justamente, que procedem os homens decentes.
Tinham chegado à esquina do Café Portuense. Duarte estacou, exclamando:
--No meu tempo, havia aqui uma fonte e um tanque. Uma noite, o Andrade, o de medicina, quis afogar-se nesse tanque, porque acabava de saber que a costureira que amava o traíra com um oficial de barbeiro. Suicidava-se não por orgulho ofendido, mas por estética. Tive um trabalhão para evitar que êle se molhasse... O que foi feito de tôda essa água?
--Secou, desapareceu.
--Como a fé nas almas!... Oh! os tempos modernos são iconoclastas.
Frederico, afagado por todo êste riso que se irisava de jovialidade como uma espuma ténue e branca se irisa à luz, sentia-se desoprimido das suas inquietações anteriores, e abençoava aquele encontro inesperado, que o distraía, que lhe tornava mais leve e desanuviada a vida. Por momentos, tudo lhe esquecia, tudo adormecia na sua memoria e no seu sentimento:--a carta de Nuno, o amor de Júlia, a luxúria em que se afundava com Branca. Do fundo do seu coração subia o reconhecimento para aquele bom Duarte em quem a jovialidade era perene e espontânea...
Em frente do teatro Sá da Bandeira, ainda se detiveram. Frederico, riscando gestos no ar com a ponta do dedo enluvado, dizia:
--Na parede dêste edificio já havia aquele mesmo buraco, quando eu era estudante. Caíram tronos depois disso, morreram dois Papas, houve três guerras fulgurantes, o Império Celeste mudou as suas instituìções políticas, nasceram-me na cabeça os primeiros cabelos brancos e o buraco lá está. Só êle não evolucionou porque é um documento histórico e representa o amor, o carinho, com que o Pôrto defende a sua fisionomia secular.
--Não zombes, Duarte--atalhou Frederico. Essa tendência conservadora do Pôrto é uma das suas primaciais virtudes.
--Mas, não zombo! Primeiro que tudo, o amor à tradição. Só êle engrandece os povos, no sábio e verídico dizer de Fustel de Coulanges...
Foram andando vagarosamente, meteram pelas ruas próximas, dando uma volta, porque Duarte tinha curiosidade em ver certos logares que lhe evocavam os dias distantes da mocidade, que lhe relembravam certos factos, determinados acontecimentos. A cada instante, chamando a atenção de Frederico, lhe fazia revelações, dizendo:
--Tive antigamente por aqui um namôro. Ela chamava-se Faustina e eu considerava-me o seu Marco Aurélio... Bons tempos!
Mas Duarte, nas suas vagas observações, ia verificando que a cidade envelhecia, que a idade a deformava, lhe comia a côr e o viço, como se fôsse um rosto feminino em que a beleza da juventude fôsse morrendo.
--Tudo envelhece, afinal--murmurava tristemente--o corpo humano e as próprias pedras inertes que fendem, ennegrecem, se cobrem de musgos parasitários. Que formidável poder de destruição, o da morte! Nada é eterno!...
Voltaram, novamente, à Praça, entrando por fim num restaurante. Duarte, enquanto Frederico, depois de tirar as luvas e o sobretudo, escolhia na lista os pratos, coçando a ponta do queixo numa grande, embaraçosa irresolução, lamentava-se por não ter encontrado mais nenhum dos seus condiscípulos ou dos seus conhecidos doutrora. A vida era uma infatigável dispersadora de almas. Mesmo num país tam pequeno como Portugal, os que uma vez se separam, geralmente não tornam, a falar, a não ser por acaso.
--Homem, aí tens a lista. Vê se preferes algum cozinhado--exclamou Frederico.
--Não quero ver a lista! Escolhe tu, Brillat-Savarin. Mas, mete no festim alguma iguaria bem portuguesa, bem portuense, por causa da côr local, sempre necessária a românticos como eu sou, como tu eras...
Ao passo que esperavam, esfregando os garfos e as facas nos guardanapos, diante dos copos vazios e das porcelanas que reluziam sôbre a toalha da mesa, continuaram a conversa.
--Ora, tu pelo Pôrto, Duarte!... Que bela surprêsa!
--É verdade. Por aqui me trazem, durante algumas horas, os meus pecados...
--Aventuras amorosas, aposto...
--Efectivamente, trata-se duma mulher que amo e que me quere. O marido teve a triste lembrança de vir ao Norte, nesta ocasião em que Lisboa está tam bonita, o trouxe-a com ele, para amenizar a jornada.
--Oh! devasso!...
--Que remédio! O coração humano é assim... E nada de lições de moral, porque não me convertes.
Lições de moral! E com que autoridade?--meditava Frederico. Tambêm êle amava profundamente a espôsa do seu maior amigo, pensando nela constantemente como se Júlia fôsse o centro de tôdas as suas recordações, da sua própria existência. Quem tinha ensinado a essa mulher o caminho do seu coração? Por êsse amor sofria, por êle se via condenado a viver num permanente sonho doloroso, na agitação contínua das lutas indomáveis e estéreis, oscilando entre o desejo, a noção do dever a cumprir, a agonia e o desespêro.
--Não tens dêstes saborosos casos na tua história lírica, Frederico?--atalhou Duarte.
--Eu?... Que ideia!--respondeu êle, perturbado.
O criado surgiu, de repente, com uma travessa de peixe frito na palma da mão. Serviram-se, encetaram o almoço vagarosamente. Tentando desviar o fio duma conversa que lhe desagradava, avivando-lhe sentimentos amargos, Frederico, suspendendo o garfo e voltando-se para Duarte, inquiriu:
--Tens viajado muito, não é assim?
--Bastante. Sou mesmo uma espécie de Judeu Errante muito razoável para uma nação do tamanho da nossa. De resto, as viagens são os melhores mestres. Só elas nos ensinam essa fina sciência de sociabilidade tam útil na nossa época.
--Sabes que estou resolvido a viajar tambêm? Vieste despertar-me o apetite.
--Ainda bem que te forneci uma ideia excelente.
A cada momento entravam na sala homens com as golas dos _pardessus_ erguidas até às orelhas roxas de frio, que respiravam com fôrça, tossiam, se punham à vontade, abancando pelas mesas e comendo com sofreguidão, por entre o ruído monótono das conversas e o barulho dos talheres e da louça, entrechocando-se. Êste tumulto irritava Frederico, já desgostoso com a promiscuidade. Curvado sôbre o mármore côr de rosa do mostrador, um empregado pachorrento, gordo, vermelho, com uma calvície enorme e a cara tôda rapada à navalha de barba, que lhe deixara na face uma sombra azulada, olhava maquinalmente a rua, através dos vidros das portas.
--Só viajando, a gente se instrue--afirmava Duarte, devorando o seu _beef_ com ovos... Diabo, êste vinho é uma peste...
Ouvindo o amigo, Frederico ia pensando, a sério, num longo passeio pela Europa, numa viagem de esquecimento e de purificação em que sarasse o seu coração enfêrmo e acalmasse a sua imaginação exaltada. As grandes capitais, com os seus vibrantes espectáculos desconhecidos, as suas multidões, as suas sumptuosidades, as suas ardentes, imperiosas solicitações a pouco e pouco lhe comunicariam a tranqùilidade espiritual que tanto desejava. Porque não? Veria outros povos, outros costumes, outras civilizações, misturar-se-ia, contente, à onda duma vida complicada que faria por analisar e compreender na sua essência e na sua expressão; encontraria, por alguns meses, uma ocupação que lhe enchesse a alma, o distraísse, lhe serenasse a febre que o queimava. No isolamento em que se confinara, o seu amor por Júlia, longe de dissipar-se, havia de precisar-se mais, de difinir-se, de fortificar-se, por influxo da paixão que o devastava e que o esgotava de tôdas as fôrças vitais, sem deixar-lhe sequer o cuidado pelas banalidades práticas... Talvez que noutros países, noutras cidades, longe de Nuno, longe da sua adoração, esta violência sentimental que o pungia diminuisse, pela multiplicidade de diversões e de interêsse em que se absorvesse...
Tinham chegado à sobremesa, e Duarte, estranhando o silêncio de Frederico, perguntou:
--Em que profundos problemas cogitas tu, criatura?
--No problema de atulhar o estômago. A minha animalidade assim o reclama.
--Estás na verdade cartesiana. Comes, logo existes...
Sempre que no seu sentimento despertava o amor por Júlia--amor que não podia adormecer perpétuamente--Frederico verificava que êle lhe transmitia uma extraordinária abundância de impressões novas e intensas que terminavam por fatigá-lo, por deprimi-lo até à tristeza e ao desalento. Precisava subtraír-se a êste trabalho interior em que o seu ser se abismava. Viajaria, pois, e levaria Branca.
--Está decidido, Alarcão e Ataíde... Dentro em breve, terás um servo humilde para a Europa.
E voltando-se para o criado, pediu a conta que pagou.
Levantaram-se, acenderam os charutos, calçaram as luvas e saíram para a rua, aspirando consoladamente o ar vivo.
--Demoras-te por esta óptima cidade, D. Duarte?
--Não, menino. Parto ainda hoje à noite. As doces exigências do coração cumpriram-se. De novo me afasto.
--Que pena!
--E até peço desculpa, por te abandonar tam cedo, depois do almôço e do afecto. Enfim, outro poder mais alto se levanta, como disse o nosso épico.
Pararam um instante na rua, apertando as mãos.
--Quando vires êsse Nuno, dá-lhe um grande abraço, por mim. _Au revoir!_...
Até à noite, Frederico vagabundeou pela cidade, detendo-se diante das _vitrines_, seguindo com a vista alguma linda mulher que passava, num forte e aristocrático rumor de sêdas. A tristeza que de manhã, com a carta de Nuno, o invadira, acentuou-se, adensando-se cada vez mais. Que suplício!... Por muito que quisesse alhear o pensamento de Júlia, surpreendia-se constantemente a reconstruí-la na fantasia, a recordar os seus suaves olhos langorosos e profundos--uns olhos que diziam tudo o que dentro dela se passava...
A lembrança dessa mulher renovava-lhe incessantemente o sofrimento, mas era-lhe muito grata.
Cansado da sua interminável vadiagem, meteu-se num carro eléctrico com destino à Foz, maldizendo a esterilidade do seu dia sem uma emoção de beleza moral superior, sem um acto nobre.
--Como isto acabrunha! -- monologava, sentado em frente duma inglesa esgrouviada, alta e sêca, com uns cabelos dum louro sêco e uns óculos de ouro na ponta do nariz, que lia um jornal de Londres.
Foi nessa noute, jantando com Branca, que Frederico lhe disse:
--Sabes? Ando com vontade de ir até Madrid, até ao inferno.
--E então eu? Deixas-me?--perguntou ela com voz de mimo.
--Não! Levo-te comigo, para nos aborrecermos ambos. O tédio, dividido por dois, deve ser menos pesado...
VIII
O inverno tinha chegado, com efeito, à quinta onde Nuno e Júlia ainda permaneciam, sem pressa de regressarem à confusão e ao alarido da cidade, de que se esqueciam na paz, na beatitude da sua vida de recolhimento e de simplicidade, no enlêvo cada vez maior da sua ventura. Como viviam únicamente um para o outro, sentiam-se bem naquele isolamento de que nenhum sobressalto exterior quebrava o ritmo. Parecia-lhes que os seus pensamentos e as suas emoções ganhavam, na solitude, maior nitidez e mais intensidade e que um amor, de instante para instante mais forte, os aproximava tanto pela beleza moral como pela beleza física, enriquecendo os matizes afectivos da sua intimidade espiritual.